terça-feira, 19 de dezembro de 2023

A CONTROVÉRSIA DE JESUS COM OS FARISEUS - Lc 16.14-18

Por Pr Silas Figueira

Texto base: Lucas 16.14-18

INTRODUÇÃO 

Estes fariseus avarentos foram rápidos para perceber que as palavras de Jesus, a respeito do uso prudente do dinheiro, se aplicavam a eles. Eles tinham ouvido, sem comentar, as três parábolas, que se referiam diretamente a eles (a Ovelha Perdida, a Dracma Perdida, o Filho Pródigo). Mas agora eles não ficam em silêncio, quando ouvem a quarta parábola, dita aos discípulos. Aparentemente, eles não proferiram palavras, mas seus rostos foram eloquentes, com desdém. [1] Leon Morris diz que os fariseus cobiçosos gostavam de disfarçar seu pecado e ver seu dinheiro como evidência da bênção de Deus sobre suas atividades. [2]

Aliás, esse pensamento tem sido muito comum em nossos dias. Muitos líderes cristãos avaliam as bênçãos de Deus na vida de uma pessoa pelos bens materiais que ela possui. Muitos líderes estão pregando o Evangelho da Prosperidade. Essa falsa teologia entrou no Brasil e se instalou em muitos ministérios. Quem prega essa falsa teologia desconhece a vida de Jesus, dos apóstolos e a própria história da Igreja. 

Mas vamos ao texto e ver e destacar algumas lições aqui: 

1 – JESUS REVELA A HIPOCRISIA DOS FARISEUS (Lc 16.14,15). 

É uma verdade paradoxal ver que aqueles que são os mais perigosos inimigos de Deus não são os que se opõem abertamente Ele, mas sim aqueles que por fora parecem ser os mais dedicados a Ele. Muitos supunham que os doutores da lei eram os mais piedosos, especialmente porque eles se identificavam com o Deus das Escrituras. Mas, na realidade, as suas adorações eram falsas. Eles não adoravam a Deus, mas a mamom. Como diz um antigo adágio: “Por fora bela viola, por dentro pão bolorento”.

Em primeiro lugar, os fariseus eram avarentos (Lc 16.14a). Os fariseus eram motivados pela ganância, avareza e cobiça. As mesmas coisas que motivaram Judas a trair Jesus (cf. Jo 12.5-6). O adjetivo philarguros deriva de duas palavras: phileo, “amar”, ou “ter afeição por”, e arguros, “prata”, ou seja, amor ao dinheiro, avareza. Como nos fala no livro de Eclesiastes 5.10: “Quem amar o dinheiro jamais dele se fartará; e quem amar a abundância nunca se fartará da renda; também isto é vaidade”.

Paulo escrevendo a Timóteo o alertou a respeito desse perigo.

Mas os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína. Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores” (1Tm 6.9,10). 

Em segundo lugar, eles zombavam da verdade (Lc 16.14b). Estes fariseus avarentos não podiam suportar que alguém tocasse neste ponto. Esta era a sua Dalila, a sua querida concupiscência; por isto eles zombavam de Jesus, exemykterizon auton - eles fungaram seus narizes para ele, ou tentaram assoar os seus narizes diante dele como um gesto ofensivo. [3]

O discurso de Jesus atingiu como flecha a hipocrisia deles. Jesus arranca-lhes a máscara e diz que Deus conhece o coração avarento deles. A religião deles era apenas uma fachada. A espiritualidade deles era uma propaganda enganosa. Pareciam muito piedosos diante dos outros, mas eram reprovados diante de Deus. Jesus, põe de ponta cabeça os valores mesquinhos dos fariseus, dizendo que aquilo que é elevado entre os homens (o que eles avidamente buscavam) é abominação diante de Deus. [4]

Charles L. Childers observa que o egoísta pervertido passará a ridicularizar quando não tiver argumentos para defender a sua conduta. Visto que os fariseus eram notoriamente ambiciosos, eles sofreram uma dupla “ferroada” através da denúncia de Jesus: ferroada de consciência e ferroada de uma reputação ferida. E natural que sentissem que nestes dois assuntos os ensinos de Jesus eram dirigidos diretamente a eles, como sem dúvida eram - ao menos em parte. [5] Sua reação agressiva e hostil, significava que eles eram falsos adoradores, sem capacidade para receber e responder à verdade. Eles estavam cegos espiritualmente (2Co 4.4), mortos em seus pecados (Ef 2.1), e incapaz de compreender e aceitar as coisas de Deus (1 Co 2.14). Mas escondidos atras do verniz da religião.

Em terceiro lugar, o coração deles era abominável diante de Deus (Lc 16.15). Esta acusação de Jesus aos fariseus é um resumo sucinto de toda a religião falsa. O judaísmo farisaico foi um sistema de obras justiça; de autojustificação; de tentar fazer-se aceitável a Deus, tentando ganhar a salvação através de boas obras. Através da manutenção de certos padrões éticos e legais, e realizando rituais e cerimônias religiosas. Não há dúvida de que eles tinham um zelo pela ideia de Deus (Rm 10.2). Mas zelo divorciada do conhecimento da verdade é inútil.

Davi quando quis trazer a arca para Jerusalém estava muito bem-intencionado, no entanto usou meios errados para fazer isso. Trouxe a arca em um carro e não pelos ombros dos levitas da família de Coate. O resultado foi a morte de Uzá (2Sm 6). Você pode ser muito zeloso pelas coisas de Deus, mas se seu zelo for fora da Palavra irá gerar morte.

Em quarto lugar, o julgamento de Jesus é certo, porque Deus conhece os corações. Como lemos em Jeremias 17.9,10: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá? Eu, o Senhor, esquadrinho o coração e provo os rins; e isto para dar a cada um segundo os seus caminhos e segundo o fruto das suas ações”. A fachada externa de piedade e santidade dos fariseus podia ter enganado os homens, mas não a Deus, pois, em Sua onisciência, sabia o que estava em seus corações. “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!” Jesus advertiu: “Porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia. Então, vocês, também, por fora parecem justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade” (Mt 23.27,28).

William Hendiksen é enfático quando diz que Jesus sabendo exatamente o que estava acontecendo, desmascarou esses hipócritas. O que ele lhes disse equivale a isto: Vocês são as pessoas que se apresentam diante dos homens como se estivessem vivendo em harmonia com a santa lei de Deus. Mas sua justiça não passa de fachada. Por dentro vocês são exatamente o contrário do que querem que as pessoas creiam que são. Não obstante, Deus os conhece bem. Ele sabe que sua religião é fingida. Porque, o que os homens veem e admiram em vocês é uma abominação aos olhos de Deus. [6]

2 – JESUS VEIO CUMPRIR A LEI (Lc 16.16-18).

Jesus conclui seu ensino mostrando aos fariseus que o evangelho não era um ataque à lei, mas uma consumação da lei. A lei e os profetas, ou seja, o Antigo Testamento, vigoraram até João. Este veio como a dobradiça entre a antiga e a nova dispensação. Ele preparou o caminho do Messias, para quem apontou como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Desde então, vem sendo anunciado o evangelho do reino de Deus, e todo homem se esforça para entrar nele. [7] Leon Morris enfatiza que A vinda de Jesus marcava uma linha divisória. Até então, a revelação de Deus tinha sido feita na lei (a rigor: os livros de Gênesis até Deuteronômio) e os profetas. A expressão combinada representa a totalidade do Antigo Testamento. Operava bem até aos tempos de João Batista. Agora, com a vinda de Jesus vem sendo anunciado o evangelho do reino de Deus. [8]

Fritz Rienecker enfatiza também que a menção de que a velha ordem do reino de Deus cessou com João Batista facilmente poderia levar à opinião equivocada de que assim a lei teria sido abolida. Jesus não veio para dissolver a lei, mas para consumá-la (Mt 5.18). Paulo enfatiza que a lei não foi anulada pela fé, mas confirmada (Rm 3.31). [9]

Com isso em mente, devemos tirar algumas dúvidas em relação a Lei.

Em primeiro lugar, existem a lei civil ou judicial, a lei cerimonial e a lei moral. Deus proferiu e revelou diversas determinações e deveres para o homem, em diferentes épocas na história.  Sua vontade para o homem, constitui a sua Lei e ela representa o que é de melhor para os seus. Quando estudamos a Lei de Deus, mais detalhadamente, devemos, entretanto, discernir os diversos aspectos, apresentados na Bíblia, desta lei.  Como devemos classificá-la e entendê-la? Muitos mal-entendidos e doutrinas erradas podem ser evitadas, se compreendermos que a Palavra de Deus apresenta os seguintes aspectos da lei:

1 – A Lei Civil ou Judicial – Representa a legislação dada à sociedade ou ao estado de Israel, por ex.: os crimes contra a propriedade e suas respectivas punições.

2 – A Lei Religiosa ou Cerimonial – Esta representa a legislação levítica do Velho Testamento, por ex.: os sacrifícios e todo aquele simbolismo cerimonial.

3 – A Lei Moral – Representa a vontade de Deus para com o homem, no que diz respeito ao seu comportamento e seus deveres principais. [10]

Em segundo lugar, Jesus veio cumprir toda a Lei. “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir” (Mt 5.17). O Antigo Testamento traz a revelação da lei e dos profetas, e o Novo Testamento apresenta Jesus e o evangelho. Não há conflito nem contradição entre a antiga e a nova dispensações. Jesus não veio para deitar por terra a lei e os profetas. Veio para cumprir tudo que a lei simbolizava e tudo o que os profetas disseram. A lei é a promessa; Jesus é o cumprimento da promessa. A lei era a sombra; Jesus é a realidade. Jesus não veio para desautorizar a lei, mas para cumpri-la. Não veio para refutar os profetas, mas para ser a essência de tudo o que eles disseram. Jesus cumpriu a lei em seu nascimento, em seus ensinamentos e em sua morte e ressurreição. [11]

Em terceiro lugar, Jesus não aboliu a lei moral. A lei judicial e a lei cerimonial eram, única e exclusivamente, para o povo judeu, mas a lei moral é para todo o povo de Deus. Era no Antigo Testamento, continua no Novo Testamento. A lei moral permanece como reguladora da ética do reino. Essa lei é eterna e jamais passará. O apóstolo Paulo diz: A lei é boa, se alguém dela se utiliza de modo legítimo (1Tm 1.8). E dá seu testemunho: No tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus (Rm 7.22). J. C. Ryle destaca que a parte cerimonial da Lei era uma figura de seu próprio evangelho e seria cumprida literalmente. Sua parte moral era uma revelação da eterna mente de Deus e seria perpetuamente ordenada aos crentes. [12]

Em quarto lugar, Jesus, então, dá um exemplo do caráter permanente da lei moral (Lc 16.18). Sabemos que o casamento e o divórcio eram questões contestadas na época de Jesus. Sabemos também que Jesus defendia um padrão de casamento que, ao nosso conhecimento, nenhum rabi judeu defendia. Não é de surpreender que Lucas inclua o ensino de Jesus sobre essa questão em particular no versículo 18 como exemplo da validade duradoura da lei [moral]. [13]

Por exemplo, o famoso rabino Hillel que viveu na última metade do primeiro século antes de Cristo, e por isso durante o reinado do rei Herodes I, ensinou que um esposo tinha o direito de divorciar-se de sua esposa se ela lhe servisse comida que estivesse ligeiramente queimada; e o rabino Akiba (que viveu cerca do ano 110 d.C.) ainda permitia que um esposo se divorciasse de sua esposa se encontrasse uma mulher mais bela. [14]

Jesus, então, dá um exemplo do caráter permanente da lei moral, em oposição às tentativas de evasão dos fariseus, citando a questão do divórcio e do novo casamento (16.18). [15]

Em quinto lugar, Jesus deixa claro que a entrada no Reino de Deus é com esforço (Lc 16.16b). Enquanto a salvação não é de nenhuma maneira um esforço puramente humano, o verdadeiro arrependimento, no entanto, envolve à vontade atuando na abnegação. “Se alguém quer vir após mim”, Jesus declarou solenemente, “negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Lc 9.23; 14.26,27), uma vez que “quem quiser salvar a sua vida a perderá, mas quem perder a sua vida por minha causa, ele é o único que vai salvá-lo” (Lc 9.24). Há uma luta monumental na alma humana pecaminosa para esmagar orgulho e auto vontade e chegar ao arrependimento.

CONCLUSÃO 

A questão que Jesus destaca aqui é a verdade. A religião falsa condena. Ele não salva, e deve ser exposta para o que seus seguidores, advertidos da condenação, possam ter a verdadeira compreensão da palavra de Deus. Dizer a verdade sobre os mentirosos e enganadores é um ato de misericórdia que se deve fazer. Jesus confrontou os fariseus para que eles pudessem se arrepender, e para que as pessoas que os seguiam pudessem vê-los como eles realmente eram. Essa ainda é a responsabilidade daqueles cujos olhos foram abertos para compreender a glória da verdade divina (cf. Lc 20.45-47).

Pense nisso!

Bibliografia:

1 –Robertson, A. T. Comentário de Lucas, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2013, p. 292.

2 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 235.

3 – Henry, Matthew. Comentário Bíblico Novo Testamento Mateus a João, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2008, p. 663.

4 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 479.

5 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 458.

6 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, Ed. Cultura Cristã, São Paulo, SP, 2003, p. 324.

7 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 479.

8 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 236.

9 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curi-tiba, PA, 2005, p. 342.

10 – Portela, Solano. Os Três Aspectos da Lei de Deus, https://solanoportela.net/palestras/tres_aspectos.htm#:~:text=A%20Lei%20Religiosa%20ou%20Cerimonial,comportamento%20e%20seus%20deveres%20principais., acessado em 31/10/2023.

11 – Lopes, Hernandes Dias. Mateus, o Rei dos reis, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2019, p. 192.

12 – Ryle, J. C. Meditações no Evangelho de Lucas, Ed. FIEL, São José dos Campos, SP, 2002, p. 271.

13 – Edwards, James R. O Comentário de Lucas, Ed. Shedd, Sto Amaro, SP, 2019, p. 590.

14 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, Ed. Cultura Cristã, São Paulo, SP, 2003, p. 325.

15 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 480.

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