domingo, 1 de agosto de 2021

QUEM É JESUS?

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 9.18-22

INTRODUÇÃO

Este texto é uma espécie de linha divisória no Evangelho de Lucas. E uma dobradiça que divide o livro. Até aqui Jesus provou ser o Messias. A partir de agora, ele mostra aos discípulos o propósito de sua vida. Fala-lhes a respeito da cruz e ruma para Jerusalém, onde será crucificado, como um rei caminha para sua coroação [1].

De acordo com Mateus e Marcos, Jesus estava na região de Cesareia de Filipe. Nesse lugar remoto o Senhor encontrou a solidão silenciosa que havia buscado em vão até então. Não se dirigiu à cidade, mas, como diz Mateus, “às adjacências – às partes”, mais precisamente, conforme Marcos, às “aldeias de Cesareia de Filipe”. Aqui Jesus poderia dialogar intimamente com os apóstolos. Lucas enfatiza, como em outras vezes, a oração (cf. Lc 6.12s). Assim como naquela ocasião Jesus passou a noite em oração diante de Deus antes de escolher os doze apóstolos, assim também agora ora nessa importante guinada de sua vida na terra, a fim de revelar-se aos discípulos como o Messias enviado por Deus. Os doze tinham de ser preparados para sua iminente paixão em Jerusalém [2].

Esta passagem representa o clímax do ministério de ensino de Jesus. Foi, com efeito, o exame final dos apóstolos, que consiste em apenas uma pergunta, a pergunta final que todo ser humano deve enfrentar: Quem é Jesus Cristo? A resposta para esta pergunta é de importância monumental, porque nesta resposta estão as dobradiças do seu destino eterno. É uma questão que ninguém pode fugir ou evitar. Não podemos fazer como a mulher de Pilatos que lhe disse para não se envolver na questão desse justo, porque num sonho muito sofri por causa dele (Mt 27.19). É impossível deixar de se envolver com Jesus, seja o aceitando ou o negando, todos nós estamos envolvidos com Ele. Seja na vida, seja na morte, todos terão que se envolver com Esse Justo e responder a essa pergunta.

Toda a alma, por assim dizer, vai ser preso contra a parede da eternidade e forçado a responder a essa pergunta; como disse o apóstolo Paulo em Filipenses 2.9-11: “Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai”.

Olhando para esse texto quais as lições que podemos tirar dele.

1 – CONFUNDINDO JESUS COM OS ÍDOLOS (Mt 16.13,14; Mc 8.27,28; Lc 9.18,19).

Em todos os lugares que Jesus levava os apóstolos havia um motivo especial. Jesus viajou em direção ao norte, até à costa de Cesareia de Filipe. Essa cidade havia sido construída por Filipe, filho de Herodes, o Grande, e recebeu o nome de Cesareia em honra ao imperador reinante, Tibério César. Posteriormente, ela recebeu a designação de Filipe para distingui-la da cidade de Cesareia na costa do Mediterrâneo, construída por Herodes e que, na época de Jesus, era a sede do governo romano na Judéia. Estava localizada em um planalto rochoso debaixo das sombras do elevado monte Hermom, cujos picos ficam cobertos de neve o ano todo [3].

Cesareia de Filipe se encontra a uns quarenta e seis quilômetros ao nordeste do mar da Galileia, fazendo fronteira com a Síria. Estava fora do território pertencente ao Herodes Antipas, governador da Galileia, e dentro da região pertencente o Felipe o tetrarca. A maior parte da população não era judia e ali Jesus estaria tranquilo e poderia ensinar aos Doze. Cesareia de Filipe ficava a poucos quilômetros da antiga cidade judaica de Dã, que durante séculos foi considerado o limite norte da Terra Prometida.

A cidade era famosa por seu santuário a Pan (de quem a cidade recebeu o nome de Cesareia Pânias). Pan, metade homem e metade bode, era reverenciado como o guardião dos rebanhos e da natureza e adorado em uma caverna aos pés do monte Hermom, ao lado da caverna da qual jorra um dos principais tributários do rio Jordão [4].

Foi nesta encruzilhada do paganismo e do judaísmo que Jesus deixou um momento de comunhão íntima com o Pai celestial e confrontou os discípulos com a pergunta que cada pessoa e cada religião deverá ter uma resposta um dia.

Com isso em mente, podemos destacar três coisas importantes:

1º - O que o mundo religioso pensa a respeito de Jesus? (Lc 9.18c). As pessoas de quem o Senhor se referiu eram os judeus, o povo escolhido de Deus, a quem o Messias foi enviado primeiro (Rm 1.16; cf. João 4.22).

Esta pergunta de Jesus não era porque Ele não tinha conhecimento do que as pessoas estavam dizendo sobre Ele, mas Ele queria que os Doze pensassem cuidadosamente sobre essas percepções populares. Ele não estava preocupado com as opiniões dos escribas e fariseus que eram incrédulos e hipócritas; alguns dos quais ainda tinham o acusou de estar ligado com Satanás (Mt 10.25; 12.24). Jesus estava querendo um parecer daqueles que andavam com Ele. Como eles o estavam vendo depois de ouvirem os Seus ensinamentos e testemunhar Seus milagres. Qual era o seu veredicto final sobre Jesus, o Filho do Homem?

O mundo religioso tem uma visão distorcida de Jesus. Eles têm até um Jesus, mas não o Jesus que se revela nas Escrituras. Dentro do mundo religioso Jesus é mais um dentre muitas outras divindades.

Muitas vezes o Senhor nos leva a reavaliar a nossa fé, pois somos passives de erros e de sermos influenciados pelo o que o mundo diz e pensa a respeito à Pessoa de Jesus. Por isso essa pergunta deve ser feita a você e a mim: Quem tem sido Jesus para mim e para você? Como temos visto Jesus no nosso dia a dia?

2º - Os judeus tinham uma ideia pagã a Seu respeito (Lc 9.19). O mundo religioso pagão da época de Jesus tinha uma forte influência sobre os judeus. Observe que alguns dos judeus acreditavam que Jesus era a reencarnado de João Batista, que havia voltado do túmulo para continuar o seu ministério de anunciar o Messias. Como Herodes, as pessoas reconheceram que o poder milagroso de Jesus era inexplicável em uma base humana. No ministério de Elias e Eliseu ocorreram ressurreições, assim como no ministério de Jesus e no envio dos apóstolos. Essa ideia de reencarnação vinha do mundo pagão e estava influenciando os judeus. Por isso citaram Elias e até mesmo Jeremias (Mt 16.14, conf. Jo 9.1,2).

Ao longo da história, houve vários debates acerca de quem é Jesus. Os ebionistas acreditavam que Jesus era apenas uma emanação de Deus (Os Ebionitas foram uma seita cristã que acreditavam que Jesus era um homem comum que se tornou divino na ocasião do batismo). Os gnósticos não acreditavam na sua divindade. Os arianos não acreditavam na sua eternidade. Hoje, há aqueles que creem que Jesus é um mediador, mas não o Mediador entre Deus e os homens. Há aqueles que dizem que Jesus é apenas um espírito iluminado, um mestre, mas não o Senhor e Mestre. Há aqueles que ainda escarnecem de Jesus e o colocam apenas como um homem mortal que se casou com Maria Madalena e teve filhos, como ensina o heterodoxo autor do livro Código da Vinci de Dan Brown (2003) [5].  

3º - Uma má teologia distorce a Pessoa de Cristo. Sem uma base sólida na teologia é muito fácil sucumbir aos modismos e ideias distorcidas a respeito de Cristo.

Creio que algumas das pessoas viam em Jesus algo do caráter e da mensagem de João Batista. Alguns viam nele o fogo e intensidade de Elias; e outros ainda viam nele o lamento e tristeza de Jeremias. Em todas as três dessas identidades, no entanto, Jesus foi pensado para ser apenas o precursor do Messias, mas não o próprio Messias. Eles não podiam negar Seu poder sobrenatural, mas eles não quiseram aceitá-lo como Messias e Salvador, eles estavam tão perto da verdade suprema de Deus, mas sem o reconhecer plenamente e aceitá-lo como Soberano Senhor de suas vidas.  

O mesmo tem ocorrido hoje em muitos ministérios evangélicos. Muitos líderes apresentam um Cristo diferente das Escrituras. Apresentam um Cristo criado dentro de conceitos pagãos e até mesmo inventado para agradar as pessoas.

O pastor Rodrigo Mocellin escreveu recentemente em seu Facebook um texto muito interessante. Ele começa assim: “Eu sou gay, e Jesus me aceita como eu sou”. Quem disse isso? Um gay do Quebrando o Tabu que, como ele mesmo disse, nem acredita em Jesus, mas distorce as palavras de Cristo para aprovar o seu comportamento. Aí vem o cristão moderninho e faz coro a um sujeito desses, evangelizando assim: “Deus o ama do jeito que você é e ...” e fim; isso é tudo o que eles pregam [6]. Ou seja, pregam um evangelho que procede da boca de pagãos como se fosse a verdade das Escrituras. São levados pelo engodo de Satanás e não se dão conta disso.

A igreja moderna tem adaptado as Escrituras ao gosto do freguês e tem negligenciado o verdadeiro Evangelho. Aliás, essa é a ideia dos teólogos liberais, fazer uma releitura das Escrituras para adaptá-la aos tempos modernos. Que Deus nos livre de tais pensamentos e atitudes.

J. C. Ryle disse que a verdade de Deus perturba a indolência espiritual dos homens. Ela os constrange a pensar. O Evangelho os faz discutir, argumentar, especular e inventar teorias, para justificar sua preocupação em alguns lugares e sua rejeição em outros. Milhares de pessoas, em todas as épocas da História da igreja, gastam suas vidas nestas coisas e jamais chegam a se aproximar de Deus [7].

Se você não souber com clareza quem é Jesus, estará perdido na questão mais importante da vida. A vida, a morte e a ressurreição de Cristo, bem como sua obra expiatória, não são assuntos laterais, mas a própria essência do cristianismo. Se você não discerne claramente quem é Jesus, não pode ser considerado um cristão. O cristianismo é muito mais do que um conjunto de doutrinas; é uma Pessoa. O cristianismo tem que ver com a pessoa de Cristo. Ele é o centro, o eixo, a base, o alvo e a fonte de toda a vida cristã. Fora dele não há redenção nem esperança. Ele é a fonte da qual procedem todas as bênçãos [8].    

2 – CONFESSANDO JESUS EM MEIO AOS ÍDOLOS (Lc 9.20).

Depois que os discípulos relataram que as multidões estavam dizendo sobre Ele, Jesus então perguntou: “Mas vós, quem dizeis que eu sou?”. Os Doze sabiam que a maioria dos pontos de vista que as pessoas faziam a respeito de Jesus eram inadequados, pra não dizer falsas. Agora, eles tiveram que responder por si.  

E aqui, nas regiões afastadas do paganismo e até mesmo de hostilidade ao judaísmo, que Jesus é proclamado Messias pela primeira vez! [9]. É em meio a um mundo pagão e idólatra que a luz do verdadeiro Evangelho tem que brilhar.  

Jesus encontra-se em uma região cheia de templos dos deuses sírios; em um lugar que contemplavam os deuses gregos; em um lugar onde a história do Israel enchia as mentes dos homens, onde o esplendor de mármore branco da casa em que se rendia culto a César dominava a paisagem e obrigava à vista a posar-se nele. E ali – entre todos os lugares possíveis – se ergue este surpreendente carpinteiro e pergunta aos homens quem acreditam que Ele é, e espera a resposta: “O Cristo de Deus”. É como se Jesus se levantasse a propósito contra o pano de fundo das religiões do mundo em toda sua história e seu esplendor e exigisse que o comparassem com elas e que se decidissem em favor dEle. Há poucas cenas em que a consciência de sua própria divindade brilha com uma luz mais maravilhosa em Jesus [10].

Com isso em mente, podemos tirar lições preciosas para as nossas vidas.

1º - A confissão de Pedro (Lc 9.20). Depois que Jesus ouviu o eco da opinião do povo, ele ouve da boca de Pedro, que fala em nome de todos os discípulos, o vigoroso testemunho de sua fé pessoal, viva e autônoma, de que eles o consideram “o Cristo de Deus”. Essa confissão de Pedro é transmitida de diversas maneiras pelos evangelhos sinóticos: Mateus escreve “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16.16); Marcos: “Tu és o Cristo” (Mc 8.29); segundo Lucas, Jesus é “o Cristo de Deus” (Lc 9.20). Em Jo 6.69 a confissão é: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivente”. Essas memoráveis palavras de Pedro são o centro e foco absolutos da confissão de fé [11].

Pedro era o porta-voz do grupo e deu uma resposta clara afirmando a divindade de Jesus Cristo. Essa foi a segunda vez que professou Cristo publicamente (Jo 6.68,69). Com exceção de Judas (Jo 6.70, 71), todos os apóstolos criam em Jesus Cristo [12].

A confissão dos apóstolos é a confissão do salvo. Confessar Jesus como salvador pessoal é muito mais do que palavras, essa confissão reflete nossa total confiança de que Ele é o nosso Salvador, nosso Redentor, Aquele que pagou um alto preço por nós na cruz do Calvário. É reconhecer nossa total dependência dele para alcançarmos a salvação. É reconhecer que éramos por natureza filhos da ira, mas que, mediante o Seu sacrifício na cruz, nós fomos salvos, justificados e por fim seremos glorificados; e que só alcançamos tudo isso unicamente por Sua graça (Ef 2.1-10).

Qualquer um que rejeita Jesus, o Messias de Deus, é amaldiçoado (1Co 16.22) e merecedor da punição mais severa (Hb 10.29). Essa é uma dura realidade, mas é a única realidade das Escrituras. 

2º - Ninguém confessa a Cristo se o Pai não o revelar (Mt 16.16). “Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus”. Jesus deixa claro que Pedro só sabe quem Ele é porque o Pai lhe revelara isso. Do contrário, como o povo, Pedro também estaria rendido à mais completa confusão. Só podemos conhecer Cristo por revelação divina, e não por investigação humana [13]. As pessoas não chegam à fé em Cristo por investigação e dedução, mas porque o Pai revela Seu Filho a elas (Jo 6.65) [14].

3º - Uma revelação do termo Messias (Lc 9.21,22). O termo Christos (Cristo) é a tradução grega da palavra hebraica Mashiach. Ambas as palavras se referem à ungido (Lc 4.18; At 10.38; Hb 1.9), a quem o próprio Deus escolheu para ser Profeta, Sacerdote e Rei como a Palavra de Deus nos revela (Lc 2.26; 23.35; At 3.18; 4.26; Ap 11.15; 12.10).

Depois que os discípulos tiveram os olhos da alma abertos e receberam pleno discernimento acerca da messianidade de Jesus, por revelação de Deus Pai, Jesus iniciou um novo capítulo no seu discipulado e começou a falar-lhes claramente acerca do seu padecimento, prisão, morte e ressurreição. Jesus revela que o seu propósito em vir ao mundo era dar sua vida em resgate do seu povo. Jesus não morre como um mártir que recusa renunciar suas convicções. Ele morre como parte do plano redentivo de Deus (Mc 10.45; Rm 3.21-26). Isso é indicado pelo “é necessário”, uma necessidade baseada na vontade soberana de Deus (Lc 9.22) em sua oferta de redenção. Jesus deixa claro que o sofrimento para ele não era nenhum acidente, mas, sim, uma necessidade imperativa. A cruz era a sua vocação. O evangelista Lucas usa a expressão “é necessário” em diferentes circunstâncias da vida de Jesus, especialmente acerca da necessidade de sua morte (2.49; 4.43; 9.22; 13.33; 17.25; 24.7) [15].

A vontade de Deus era a sua vontade. Não tinha outro objetivo senão cumprir na Terra que o que Deus o havia enviado a fazer. O cristão, como seu Senhor, é um homem que está sob ordens. Por isso que o Senhor nos ensinou que na oração devemos falar: “Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.10).

4º - Os que iriam rejeitar o Senhor Jesus (Lc 9.22b). Todos os três evangelhos sinóticos parafraseiam aqui o termo Sinédrio, enumerando essas três categorias oficiais. Que terrível impacto para as expectativas dos discípulos teve essa primeira pregação da paixão, que dizia: Cristo, rejeitado por aquelas pessoas que por força do cargo, da origem e do conhecimento detinham a autoridade máxima e das quais justamente se esperava o reconhecimento do Messias e sua proclamação pública!

O alto conselho era formado por 71 membros de três tipos de categorias. Eram os seguintes grupos que forneciam esses membros:

1) Os sumo sacerdotes, entre os quais estavam o sumo sacerdote atual e os que já haviam exercido a função. A eles agregavam-se os membros das poucas famílias que eram consideradas dignas do sumo sacerdócio.

2) Os anciãos, que eram as famílias israelitas cuja genealogia podia comprovar com segurança a pureza de sua origem israelita e cujas filhas tinham o direito de casar com sacerdotes.

3) Os escribas, mais precisamente aqueles que tinham a incumbência de copiar o texto da lei, mas que em breve receberam a fama de serem os únicos que possuíam o conhecimento necessário para explicar a lei; eram tidos como especialistas da lei ou eruditos do direito por profissão.

No entanto, era preciso que a pedra fosse rejeitada pelos construtores para que se tornasse a pedra angular escolhida (Sl 118.22). A confissão de Pedro a respeito de Jesus, o Cristo de Deus, chegou à plenitude somente depois do Pentecostes, quando ele proclamou publicamente: “Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo” (At 2.36). Paulo diz o mesmo por meio das conhecidas palavras: “Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado” (1Co 2.2) [16].

5º - Por que Jesus tinha que morrer? Por que era necessário Jesus sofrer, morrer e ressuscitar? Será por que havia poderes superiores que o subjugariam? Impossível! Será por que ele queria dar um exemplo de abnegação e auto sacrifício? Impossível! Então, por que era necessário Jesus morrer? Sua morte foi necessária para que fosse feita expiação pelo pecado humano. Sem o derramamento do seu sangue, não haveria redenção para o homem. Sem o seu sacrifício vicário, não poderíamos ser reconciliados com Deus. Sua morte nos trouxe vida. A morte de Cristo é a mensagem central da Bíblia. Sem a cruz de Cristo, o cristianismo não passa de mera religião, desprovida de esperança [17].

CONCLUSÃO

Quem é Jesus para você? Como você o vê?

O mundo tem uma ideia a respeito de Jesus, os religiosos também, mas a revelação plena a Seu respeito se encontra nas Escrituras e mediante o Pai tirar dos nossos olhos a venda da incredulidade (2Co 4.4).

E todo aquele que nele crê o confessa em meio aos deuses do mundo que Jesus Cristo é o Filho do Deus vivo!

Pense nisso!

Bibliografia

1 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 291.

2 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 138.

3 – Earle, Ralph. Comentário Bíblico Beacon, Mateus, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 117.

4 – Edwards, James R. O Comentário de Marcos, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2018, p. 312.

5 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 292.

6 – Mocellin, Ricardo. Eu sou gay, e Jesus me aceita como eu sou... https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=362078022157936&id=111215387244202, acessado em 29/07/21.

7 – Ryle, J. C. Meditação no Evangelho de Lucas, Ed. Fiel, São José dos Campos, SP, 2002, p. 146.

8 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 293.

9 – Edwards, James R. O Comentário de Marcos, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2018, p. 312.

10 – Barclay, William. Comentário do Novo Testamento, Mateus, tradução: Carlos Biagini, p. 564.

11 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 138.

12 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 267.

13 – Lopes, Hernandes Dias. Mateus, Jesus, o Rei dos reis, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2019, p. 513.

14 – Radmacher, Earl D. O Novo Comentário Bíblico, Editora Central Gospel, Rio de Janeiro, RJ, 2010, p. 49.

15 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 294, 295.

16 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 138, 139.

17 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 295.

domingo, 25 de julho de 2021

PROSPERANDO EM MEIO A CRISE - A PRIMEIRA MULTIPLICAÇÃO DOS PÃES

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 9.10-17

INTRODUÇÃO

Ao aproximar-se o final de seu ministério na Galileia, o Senhor realizou o que foi em uma escala visível seu mais extenso milagre. Este é o único milagre, à parte da ressurreição, narrado em todos os quatro Evangelhos (Cf. Mt 14.13-21; Mc 6.30-44; Jo 6.1-14) [1]. A alimentação de cinco mil homens, além de certamente um número igual de mulheres e crianças, foi a maior obra do poder criativo divino desde a semana da criação (Gn 1.1-31, 2.1-3), e da reestruturação da terra depois do dilúvio (Gn 6-8). Em todos os quatro evangelhos esse milagre é apresentado como o auge da atuação na Galileia. Imediatamente depois disso, os Evangelhos sinóticos começam a mostrar Jesus revelando o mistério de sua iminente paixão aos apóstolos (Lc 9.18-27; Mt 16.13-28; Mc 8.27-38) [2]. Esta também foi a última e grande oportunidade para os galileus.

John MacArthur enfatiza que curiosamente, ambos os milagres de criação de Jesus – transformação da água em vinho (Jo 2.1-10) e a multiplicação dos pães – falam dos elementos principais da Ceia do Senhor ou da Comunhão (Jo 6.53) [3].

Antes de abordarmos este último milagre de Jesus na Galileia, devemos destacar o regresso dos apóstolos e do relatório que deram a Jesus; e destacar também a mensagem e as curas que o Senhor realizou quando a multidão os encontrou em Batsaida.

1 – JESUS MOSTRA A NECESSIDADE DO DESCANSO E APRENDIZADO (Lc 9.10).

Depois que os apóstolos retornaram, Jesus se reúne com Ele, provavelmente, em Cafarnaum. Eles fizeram um relato a respeito de tudo o que eles haviam feito. Jesus reconhecendo que eles estavam exaustos depois de seu tempo de viagem e do ministério, Jesus tomou-os e se retirou para uma cidade chamada Betsaida. Lá eles poderiam descansar e se recuperar longe das multidões que os mantinham tão ocupados que nem sequer tinham tempo para comer (Mc 6.31).

Com isso em mente, podemos destacar algumas lições para nossas vidas.

1º - Assim como os apóstolo, nós também precisamos de um tempo para descansar (Mc 6.31). “E ele disse-lhes: Vinde vós, aqui à parte, a um lugar deserto, e repousai um pouco. Porque havia muitos que iam e vinham, e não tinham tempo para comer”. Jesus, o grande Sumo Sacerdote do seu povo, está consciente das nossas fraquezas (Hb 4.15) e é sensível a todas as nossas necessidades. Tendo Ele mesmo experimentado o cansaço que vem do ministério (cf. Mc 4.38), Jesus entendeu a necessidade dos apóstolos para descanso e que se estende a nós também.

De tempos em tempos devemos “recarregar as nossas baterias”. Devemos rever o nosso trabalho para não cairmos no ativismo e nos esquecermos que temos família, que nosso corpo precisa de repouso e lazer. Outro grande perigo que corremos é a rotina, esta tem sido um mal que muitas vezes tem sido negligenciado.  

2º - Jesus os levou para um lugar deserto para dialogar com eles. A motivação pela qual Jesus se retirou a um lugar solitário é a necessidade de quietude para dialogar com os apóstolos. Marcos informa que ele pretendia proporcionar-lhes um pouco de sossego depois dessa excursão de pregação, visto que a multidão dos que iam e vinham não os deixava em paz. De acordo com Mateus, o motivo foi a notícia do assassinato de João Batista.

Essas concepções bastante diversas podem ser facilmente harmonizadas se a chegada da notícia da execução de João coincidir com a época do retorno dos apóstolos, fazendo o Senhor Jesus lembrar especialmente da proximidade de sua própria morte. Diante dessas impressões, o Senhor Jesus quis proporcionar a seus discípulos um tempo de recolhimento, a fim de dialogar com eles sem interrupções, passando adiante ensinamentos, exortações e advertências acerca de sua atuação vocacional futura. Em breve ele teria de deixar os discípulos sozinhos na terra [4].

Assim como o Senhor fez com os discípulos, nós também precisamos de tempo para orar, para termos as nossas devocionais. Ler bons livros, estudar. Por mais que leiamos a Bíblia, ela precisa ser estudada sempre. O pastor foi chamado para ser pastor-mestre (Ef 4.11). Como diz um antigo adágio: “Enquanto descansa, carrega pedras!”. Assim, pelo menos, é a vida do pastor.

2 – ENTRE O DESCANSO E A OBRA, A OBRA VEM EM PRIMEIRO LUGAR (Lc 9.11).

O texto de Marcos nos fala que “a multidão viu-os partir, e muitos o conheceram; e correram para lá, a pé, de todas as cidades, e ali chegaram primeiro do que eles, e aproximavam-se dele. E Jesus, saindo, viu uma grande multidão, e teve compaixão deles, porque eram como ovelhas que não têm pastor; e começou a ensinar-lhes muitas coisas” (Mc 6.33,34).

Jesus demonstra compaixão pelos doze, levando-os consigo a Betsaida para um tempo de descanso e refrigério (9.10b), mas demonstra também compaixão pelas multidões que, exaustas e aflitas, seguiram Jesus para essa região de Betsaida. Sua compaixão é demonstrada pelo fato de Jesus olhar para essa multidão e vê-la como ovelhas sem pastor. Diante desse fato, Jesus dedica-se a falar a elas acerca do reino de Deus e a socorrer aqueles que tinham necessidade de cura. Jesus dedica-se à grande multidão como mestre e médico, ensinando e curando [5].

Leon Morris diz que a despeito de ter procurado a solidão, Jesus não revelou irritação alguma. Pelo contrário, acolheu-as. E continuou a obra que tão recentemente estava fazendo através dos discípulos. Falava-lhes a respeito do reino de Deus e socorria os que tinham necessidade de cura [6].

Diante desse episódio, podemos destacar duas coisas importantes:

1º - Aprendemos aqui o que é prioridade. A prioridade é Reino de Deus e a sua obra. Os apóstolos teriam outras oportunidades para estarem com Jesus, aquela multidão não teria. Diante disso, Jesus para o que estava por fazer e dá atenção aquelas pobres pessoas que, na visão de Jesus, eram como ovelhas sem pastor. Eram “ovelhas” sujeitas a “lobos” que não poupam o rebanho e o Senhor as ampara lhes ensinando, curando e alimentando.

2º - Devemos ver as pessoas como Jesus as vê e termos a mesma compaixão. Muitas vezes a nossa visão fica desfocada em relação ao que é prioridade e de como Jesus quer que vejamos as pessoas. Para isso é necessário termos a intervenção do Espírito Santo em nós para nos mostrar os passos certos em nosso ministério e como devemos agir como igreja. Há um texto que nos mostra como o Espírito Santo orienta a igreja no seu agir. Atos 6.1-3 diz: “Ora, naqueles dias, crescendo o número dos discípulos, houve uma murmuração dos gregos contra os hebreus, porque as suas viúvas eram desprezadas no ministério cotidiano. E os doze, convocando a multidão dos discípulos, disseram: Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas. Escolhei, pois, irmãos, dentre vós, sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais constituamos sobre este importante negócio.

Pregação da Palavra, ensino e socorro foram atividades da Igreja Primitiva. Esse exemplo devemos seguir, sabendo que essas tarefas devem ser divididas e não centralizadas. Só assim a igreja avança. Seja o ensino, seja o socorro, ambos devem ser feitos com paixão e compaixão. Assim aprendemos com Jesus.

3 – UMA MULTIDÃO SEDENTA E FAMINTA (Lc 9.12-17).

Jesus, apesar do fato de a multidão interromper o descanso muitíssimo necessário com os Doze, olha para essas pessoas com “compaixão”, apalavra grega para “compaixão”, splangningsthar, é usada no Novo Testamento só em relação a Jesus, e, aqui, sua compaixão é expressa no “ensinar-lhes muitas coisas”. Elas eram para Jesus, conforme relata Marcos, “como ovelhas sem pastor” [7].

Como o dia estava terminando (“começou a declinar”) e que a tarde avançava, os apóstolos ficaram preocupados. O lugar era deserto. Não havia lugar para comprar comida onde estavam. Era uma multidão que estava ali e a situação estava se tornando complicada aos olhos dos Doze.

Quero destacar quatro coisas:

1º - A preocupação dos apóstolos era uma preocupação legítima. Eles tinham razão em estarem preocupados, pois o lugar era ermo e não havia onde comprar alimento. Certamente havia ali muitas mulheres e não poucas crianças.

2º - O texto aqui está falando de fome mesmo, de gente com o estômago vazio, de gente carente. Não devemos espiritualizar esse texto no sentido de aplica-lo a Jesus como o Pão da Vida porque isso será feito mais tarde no discurso de Jesus em João 6.22-59.

3º - Esta pergunta é a pergunta, talvez, mais comum em nossos dias. Onde compraremos pão? Famílias que estão passando por crise financeira fazem esta pergunta. É a pergunta de quem assiste os telejornais e vê o mundo que jaz no maligno e não consegue ver expectativa de melhora para sair da crise.

4º - A pergunta feita saiu dos lábios de Jesus: “Então Jesus, levantando os olhos, e vendo que uma grande multidão vinha ter com ele, disse a Filipe: Onde compraremos pão, para estes comerem?” (Jo 6.5). Jesus está testando a fé dos apóstolos.

Eles estavam vindo de uma série de milagres operados por Jesus e por eles mesmos na campanha evangelística que fizeram (Mt 10.7,8; Lc 9.6). O milagres por eles vistos não despertaram neles fé suficiente para entender que para Deus nada é impossível. Eles continuavam cegos em seus entendimentos. Eles não conseguiam se lembrar que o Senhor sustentou a nação de Israel no deserto por quarenta anos quando saíram do Egito. Eles não se lembraram que Elias multiplicou a farinha e o azeite da viúva até a chuva cair sobre a terra (1Rs 17.14). Eles não se lembravam de que o Senhor através de Eliseu multiplicou o azeite de uma viúva que estava prestes a perder seus filhos como escravos (2Rs 4). Eles não se lembravam da primeira multiplicação dos pães através de Eliseu: “E um homem veio de Baal-Salisa, e trouxe ao homem de Deus pães das primícias, vinte pães de cevada, e espigas verdes na sua palha, e disse: Dá ao povo, para que coma. Porém seu servo disse: Como hei de pôr isto diante de cem homens? E disse ele: Dá ao povo, para que coma; porque assim diz o Senhor: Comerão, e sobejará. Então lhos pôs diante, e comeram e ainda sobrou, conforme a palavra do Senhor” (2R 4.42-44).

Eles não se lembraram que o Senhor havia transformado água em vinho (Jo 2.1-10).

Esse tem sido o problema de muitas pessoas hoje, não se lembrarem do quanto o Senhor, no decorrer dos anos, têm nos sustentado. Por isso que diante da crise se desesperam. Se esquecem que o Senhor nos prometeu: “O pão nosso de cada dia nos dá hoje” (Mt 6.11). É pão fresco da fornada do céu que o Senhor nos dá todos os dias. Lembrem-se disso!

Muitos se esquecem do que o Senhor Jesus nos falou: “Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? Porque todas estas coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas; mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal” (Mt 6.31-34).    

Com isso em mente, podemos destacar lições importante para nossas vidas:

1º - A solução dada a Jesus pelos Doze (Lc 9.12). Os Doze vieram a Jesus e de forma impetuosa, quase impertinente disseram-lhe: “Despede a multidão, para que, indo aos lugares e aldeias em redor, se agasalhem, e achem o que comer”. Eles queriam que o Senhor dispersasse a multidão antes que anoitecesse, porque, eles lhe informaram, “porque aqui estamos em lugar deserto”. Eremos em grego (desolado) não se refere aqui a um deserto, uma vez que não era abundante grama verde (Mc 6.39), mas sim para um lugar desabitado. A noite foi se aproximando, e não havia nenhum lugar para a multidão adquirir alimentos.

Os discípulos, governados por uma lógica simples, não veem alternativa senão despedir as multidões, uma vez que o lugar era deserto e eles não tinham provisão nem recursos suficientes para atender a tamanha demanda [8].

Quem age usando a lógica com Deus pensa que Ele está limitado as circunstâncias deste mundo. A Teologia Liberal prega um deus assim. No entanto, na outra ponta existe aqueles que pensam que o Senhor é o gênio da lâmpada. Acham que têm um Deus domesticado que faz o que eles querem. Um Deus sujeito as suas vontades. Aí nós vemos o “eu determino”, “eu tomo posse”, “eu decreto”. São esses extremos que devemos a todo custo evitar.  

2º - A solução dada por Jesus (Lc 9.13). A resposta de Jesus, “Dai-lhes vós de comer!”, aparentemente distante da realidade, deixou os discípulos espantados.

Incrédulos eles protestaram, “Nós não temos mais que cinco pães e dois peixes”. Pão e peixe eram os principais artigos na Galileia, sobretudo para o pobre. João 6.9,13 especifica pães de cevada — o pão mais barato e grosseiro [9].

Em seguida, um pouco sarcasticamente os apóstolos acrescentaram, “a menos que talvez nós formos comprar comida para todo este povo”. Jogando fora tal observação, Jesus disse a Filipe: “Onde compraremos pão, para que estes possam comer?” (Jo 6.5).

A resposta de Filipe dizendo que duzentos dinheiros de pão não lhes bastarão (Jo 6.7-9) revela o fato de que ele pode pensar somente na esfera de mercado, o mundo natural. A expressão dinheiro em grego é denarius, que era o pagamento de um dia para um trabalhador comum; duzentos denarii (também especificado em Mc 6.37), portanto, representa oito meses de salário (NVI). Já que uma proporção substancial do salário de um trabalhador ia para a alimentação diária, isso, presumivelmente, era bastante para abastecer uma família por oito meses ou um pouco mais. Mas a multidão era tão grande (v. 10) que mesmo uma soma tão grande de dinheiro não compraria pão suficiente para que cada um recebesse um pedaço! [10].

Diante desse dilema o que Jesus os mandou fazer:

Primeiro – Jesus mandou fazer um levantamento da quantidade de alimento que havia entre a multidão (Mt 14.17; Mc 6.38; Jo 6.8,9). Muitos dos problemas na área econômica ocorrem porque muitas pessoas não sabem como se encontra a situação de sua casa. As crises são reais e sempre iremos enfrenta-las, mas como eu resolvo essas crises começa sabendo a real situação que estamos enfrentando e quais recursos nós temos. Eliseu perguntou a viúva que foi até ele o que ela tinha em casa, a partir daí foi lhe dado as diretrizes para sair da crise (2Rs 4.1-7).

Segundo – Organização é necessária (Lc 9.14,15). Uma multidão não pode ser atendida convenientemente sem ordem. A organização é fundamental. Por isso, Jesus ordena aos discípulos para dividir a multidão em grupos de 50, no que é prontamente atendido [11].

Para saber exatamente quantas pessoas havia ali era necessário organiza-los. Foi isso que o Senhor mandou os discípulos fazerem. Foi isso que José fez nos Egito no período de grande fartura e depois no período de grande fome. Por ser organizado nada faltou.

Terceiro – Jesus rendeu graças pelo alimento (Lc 9.16). Prestem atenção, Jesus deu graças pelo pão e pelo peixe. Observe que o pão era pão de cevada, um pão muito pobre. Mas era pão que eles tinham. Aprenda a ser grato a Deus pelo o que Ele lhe dá e não reclame pelo o que você não tem.

Os quatro evangelistas devem ter ficado impressionados com o fato de Jesus proferir uma oração de gratidão antes de multiplicar o alimento, porque todos eles relatam o fato. Os apóstolos perceberam que nisso residia o mistério de seu poder milagroso, revelado naquela hora. Em Mateus e Marcos consta: “Elevou o olhar ao céu e abençoou” (eulogéo), o que também pode ser traduzido com “e agradeceu”. Em Lucas lemos: “Erguendo os olhos para o céu e os abençoou (eulogéo)”, a saber, os pães, ou melhor, pão e peixe. João relata: “Ele agradeceu” (eucharistéo)”. É costume judaico proferir uma oração de bênção ou de gratidão antes da refeição. A oração atraiu uma bênção maravilhosa para um alimento tão insignificante [12].

É pouco, é simples, parece insuficiente, mas Jesus deu graças. Você tem dado graças pelo que Deus tem lhe dado? Pelo trabalho, pelo pão de cada dia, pela roupa que você veste? Tem gente que só reclama, aos invés de ser grato.  

Quarto – Faça o que Jesus ordena (Lc 9.16). O discípulos não tinham poder para multiplicar o pão, mas podia distribuir o pão que Jesus estava multiplicando. Não somos provedores; somos mordomos. Aquele que tem pão com fartura e é o Pão da vida nos dá o privilégio e a responsabilidade de distribuir sua provisão para as multidões [13].

Um aspecto digno de nota é que os discípulos executaram a ordem de Cristo. Eles realmente alimentaram a multidão quando se associaram a Jesus nesse ato. O que cada cristão pode aprender é que, não importa o quanto sua tarefa lhe pareça impossível, com a ajuda divina tudo pode ser feito. “Porque para Deus nada é impossível” (Lc 1.37) [14].

Apresente a Jesus o pouco que você tem e deixe o Senhor fazer o que tem que ser feito. Nós não temos o poder da multiplicação, mas temos um Deus que tem. O milagre tem início com aquilo que temos em mãos (2R 4.1-7).  

Quinto – Jesus multiplica de tal forma que todos saem alimentados (Lc 9.17). As pessoas não se limitaram a receber um lanche mínimo, mas de acordo com a graça abundante de Deus, todos comeram e ficaram satisfeitos. Satisfeito traduz uma forma do verbo chortazo, que foi originalmente usado para descrever os animais de engorda, que se fartaram até que eles não poderiam comer mais. As pessoas comeram até que eles estavam saciados.

Ralph Earle diz que o verbo chortazo (ficaram satisfeitas) vem do substantivo chortos, “grama”. Era usado principalmente para animais pastando. O quadro geral é do gado comendo até ficar saciado e depois se deitando satisfeito sobre a grama [15]. Somos ovelhas do seu pasto (Sl 100.3). É Ele quem nos alimenta. Seja com o alimento físico, seja com o alimento espiritual.   

Sexto – O desperdício não é aceitável no reino de Deus (Lc 9.17). Jesus tem não apenas provisão suficiente, mas com sobra. E o que sobra deve ser guardado. Não se deve jogar fora.   

Em sua provisão de abundante de alimento, Jesus não esqueceu a sua própria. Após a refeição, os pedaços dos pães e dos peixes (Mc 6.43) que sobraram foram apanhados pelos apóstolos. Nada foi desperdiçado; a quantidade de sobra de alimento era exatamente o suficiente para atender as necessidades dos Doze.

4 – A INTERVENÇÃO DE JESUS EM NOSSAS CRISES.

Quando chegam os problemas e nos deparamos com problemas semelhantes, a pergunta que geralmente é feita é esta: “como e onde compraremos pão?”. Por que o Senhor permite que passemos por tamanhas crises?

1º - Eu entendo que Deus permite passarmos por estas crises para que possamos ter experiências com Ele. Crescimento espiritual. É diante das crises que nós descobrimos um Deus que pode suprir todas as nossas necessidades, não os nossos caprichos. Observe que o pão era de cevada, não era um pão especial. O problema que vejo na vida de muitas pessoas é que na hora da crise querem continuar sendo alimentados com o melhor, não se contentam com o mais simples.

Meu irmão, na hora da crise devemos fazer escolhas difíceis e temos que cortar gastos. Na hora da crise Deus opera milagres tremendos em nossas vidas, mas Ele não tem obrigação nenhuma de manter os nossos luxos e caprichos.

Eu conheço uma pessoa que ficou seis anos desempregado, vivia de empréstimos. Um dia conversando com ele, ele me disse que não abria mão do seu queijo, do seu presunto e do seu café a vácuo. Tem gente que não aprende nem na crise!

2º - Para descobrirmos que por melhor que sejam as nossas soluções a resposta final vem de Deus. Os discípulos achavam que deveria despedir a multidão, mas o Senhor queria lhes mostrar que Ele tinha a solução.

Muitas vezes iremos passar por experiências semelhantes. Muitas vezes nós temos tão pouco para sustentar a tantos que ficamos atordoados. Mas é nessa hora que temos que crer na intervenção divina.

3º - Devemos entender que antes do problema ser nosso, é dele. Jesus já havia visto a multidão. Ele bem sabia da carência que eles tinham, mas Ele já tinha a solução. Diante disso podemos entender que Ele irá intervir.

4º - Jesus permite que passemos por tais situações para revelar qual tipo de fé é a nossa. Em quem temos depositado a nossa fé? Nos bens materiais ou no Senhor provedor de todas as coisas? Fé quando tudo vai bem é fácil, mas ela tem que entrar em ação quando tudo vai mal. É confiar na intervenção divina, não na minha e nem na sua solução, mas na dele.

CONCLUSÃO

Eu quero concluir dizendo que para Deus não há impossível. Que Ele faz muito mais do que pensamos. Mas não quer dizer que a solução do Senhor seja a nossa solução. Ele sempre nos surpreende.

As crises vem e vão, mas nunca viveremos sem elas. Ela faz parte da nossa vida. A grande questão é como a enfrentamos. Se teimaremos em pôr em prática as nossas soluções ou buscaremos do Senhor a solução.

O Senhor ainda hoje multiplica pão e peixe, mas para isso acontecer temos que apresenta-lo o que temos e seguir a Sua orientação.

Pense nisso!

Bibliografia

1 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p.157.

2 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 135.

3 – MacArthur, John. Comentário Bíblico MacArthur, João, Editora Thomas Nelson, Rio de Janeiro, RJ, 2019, p. 1332.

4 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 135.

5 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 288.

6 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p.158.

7 – Edwards, James R. O Comentário de Marcos, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2018, p. 247.

8 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 289.

9 – Carson, D. A. O Comentário de Mateus, Editora Shedd, Santo Amaro, SP, 2010, p. 401.

10 – Carson, D. A. O Comentário de João, Editora Shedd, Santo Amaro, SP, 3ª reimpressão 2017, p. 271.

11 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 289.

12 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 137.  

13 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 289.

14 – Earle, Ralph. Comentário Bíblico Beacon, Mateus, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 109.

15 – Ibidem, p. 109.

domingo, 18 de julho de 2021

A MISSÃO DOS DOZE APÓSTOLOS

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 9-1-9

INTRODUÇÃO

Esta primeira convocação dos apóstolos no Evangelho de Lucas tem um paralelo com Mateus 10.1-42 e Marcos 6.7-12. Em Mateus, antes desta convocação, nós vemos a relação do nome dos doze apóstolos. Em Mateus este texto é mais longo e mais detalhado. No Evangelho de Mateus o Senhor os alerta a respeito de como eles seriam recebidos durante a sua missão e, posteriormente, quando saíssem para ministrar a Palavra pelo mundo. Em Lucas e Marcos esse texto a mais sucinto, mas não menos importante e com lições preciosas para nos ensinar.

Vamos meditar nessa passagem a partir do Evangelho de Lucas, mas iremos nos utilizar também dos outros textos paralelos, principalmente do Evangelho de Mateus para um melhor entendimento dessa passagem.

Vejamos quais as lições que esse texto tem a nos ensinar.

1 – NINGUÉM PODE PREGAR O EVANGELHO SEM UMA ÍNTIMA COMUNHÃO COM JESUS (Lc 9.1,2).  

O texto de Lucas diz que o Senhor “convocando os seus doze discípulos” (Lc 9.1a). O discípulos eram seus. Foram tirados do mundo (Jo 17.13-16). Andavam com Jesus. Ouviam a mensagem do Reino. Viram os sinais e prodígios que Ele operava. Esses homens não andavam dispersos seguindo a outros mestres, eram pessoas que tinham um relacionamento íntimo com Jesus. Por isso que o Senhor os comissionou para essa tarefa.

Devido a essa íntima comunhão com Jesus, podemos destacar quatro coisas importantes:

1º - A vocação é pessoal (Lc 9.1). Jesus chama os doze para junto de si. Antes de iniciarem seu serviço, seu serviço missionário, eles têm de chegar primeiro ao Senhor, a fim de receberem dele a vocação e a autorização. Somente depois disso poderão cumprir sua missão, sua tarefa, somente então poderão ir às pessoas. Isso é digno de nota. O envio somente é possível a partir da vocação pessoal [1].

Jesus envia os doze para uma grande jornada evangelística. A palavra grega apesteilen, traduzida por “enviou”, vem da mesma raiz da palavra grega traduzida por “apóstolos”. Marcos diz que Jesus os envia de dois em dois (Mc 6.7) [2]. Quando lemos Atos 13 vemos que o Senhor é quem comissiona Barnabé e Saulo para a obra missionária (At 13.2,3). Hoje, infelizmente, muitos têm comissionado a si mesmos para a obra e dizem que o Senhor os chamou – como desse alguém uma vez: “Tem o pastor chamado e o chamado pastor”. Devido a isso, temos visto muitos escândalos no seio da igreja. E a maioria desses “comissionados” sem nenhuma formação teológica.    

2º - O Senhor os capacitou para a missão (Lc 9.1b). A capacidade dos apóstolos de realizarem curas era um dom especial que servia para autenticar seu ministério (ver Rm 15.18, 19; 2Co 12.12; Hb 2.1-4). Os milagres eram uma prova de que o Senhor os havia enviado e de que operava por meio deles (Mc 16.20). Hoje, usamos a Palavra de Deus para testar o ministério de uma pessoa (1Jo 2.18-29; 4.1-6). Os milagres, por si mesmos, não provam que uma pessoa foi, verdadeiramente, enviada por Deus, pois Satanás também é capaz de realizar falsos ministérios e de fazer coisas prodigiosas (Mt 24.24; 2Co 11.13-15; 2 Ts 2.9,10) [2].

A autoridade dos apóstolos procedia do Senhor, não vinha deles mesmos. O homem por si só não pode fazer nada. Quando Paulo e Barnabé entraram na cidade de Listra curaram um homem coxo de nascença, devido a isso, as pessoas pensavam que eles eram deuses. “E chamavam Júpiter a Barnabé, e Mercúrio a Paulo; porque este era o que falava” (At 14.12). Mas veja qual foi a reação de Paulo e Barnabé diante desse fato: “Ouvindo, porém, isto os apóstolos Barnabé e Paulo, rasgaram as suas vestes, e saltaram para o meio da multidão, clamando, e dizendo: Senhores, por que fazeis essas coisas? Nós também somos homens como vós, sujeitos às mesmas paixões, e vos anunciamos que vos convertais dessas vaidades ao Deus vivo, que fez o céu, e a terra, o mar, e tudo quanto há neles; o qual nos tempos passados deixou andar todas as nações em seus próprios caminhos” (At 14.14-16).

Eles não aceitaram adoração em hipótese alguma. No entanto, hoje temos visto alguns líderes não só sendo adorados como recebendo “primícias” (dinheiro), beijo nos pés com oferta dada após o beijo... e tantas outras aberrações. Enquanto Barnabé e Paulo gritam para não fazerem tal coisa, esses ditos líderes fazem totalmente ao contrário.

3º - O Senhor os envia para pregar o Evangelho do Reino (Lc 9.2). A mensagem não era dos apóstolos, a mensagem que eles deveriam pregar era a mensagem do reino de Deus. A mensagem que eles vinham ouvindo Jesus pregar. Os discípulos não criaram a mensagem; apenas a entregaram. Não levaram aos homens sua opinião, mas o evangelho do reino. Essa mensagem deveria ser pregada aos ouvidos e aos olhos. Eles deveriam pregar a proximidade do reino, curar os enfermos, ressuscitar os mortos e libertar os endemoninhados. A cura e a libertação fazem parte do evangelho [4].

O púlpito é o lugar onde as maiores vitórias do evangelho têm sido conquistadas, e a igreja que faz bastante para o avanço do verdadeiro cristianismo é aquela que valoriza a pregação [5]. O pregador não é dono da mensagem, ele é o seu arauto. Ele tem por função ministrar o que está nas Escrituras e não invencionices como temos visto por aí.

4º - A missão deveria ser realizada sem nenhuma recompensa financeira (Mt 10.8). “De graça recebestes, de graça dai”. Charles Spurgeon comentando sobre esse texto diz que tudo isso deveria ser feito sem dinheiro ou recompensa: as suas capacidades não tinham sido compradas, seus milagres não deveriam ser vendidos [6]. A mensagem em seus lábios e o poder manifesto não vinham deles, mas do Senhor que os havia comissionado. O poder do Evangelho e os milagres provinham da graça e da misericórdia de Deus, que, primeiramente, os havia alcançado, agora eles deveriam entregar a outros. Foi assim que o Senhor fez com o endemoninhado gadareno depois de liberto (Lc 8.39).

Não cabia aos apóstolos se aproveitar na desgraça alheia para alcançar o enriquecimento pessoal, coisa comum nos dias de hoje. Aliás, esse texto tem sido negligenciado em muitas “ditas” igrejas. Eu nunca ouvi falar em campanhas de cura, libertação e pregação da palavra sem que não aja a obrigatoriedade de ofertas. É interessante que nessas igrejas não se fala muito em dízimo, mas há uma grande ênfase nas ofertas alçadas.

Nessas campanhas fala-se em cura, libertação e enriquecimento pessoal. Mas as únicas pessoas que realmente ficam ricas são os líderes dessas igrejas, os frequentadores continuam enfrentando as mesmas lutas e deficiência financeira.   

2 – A PROVISÃO VEM DO SENHOR PARA OS APÓSTOLOS (Lc 9.3-5)

Assim como Jesus concedeu a seus emissários a necessária força e autorização para o serviço, assim ele lhes deu também as necessárias orientações para o início da jornada e o transcurso da viagem.

Recomenda-lhes que partam tão livres e desprendidos como estão naquele instante. – A bagagem para uma viagem consiste primordialmente de três coisas: dinheiro, mantimentos e roupas. Mateus é o mais severo ao relatar a proibição de levar dinheiro, citando três espécies de metais: ouro, prata e cobre. Marcos menciona apenas cobre. Lucas fala somente de prata, a expressão usual para dinheiro.

Jesus, que dessa maneira proibia aos discípulos qualquer fardo para a jornada, permitiu e ordenou-lhes que esperassem pela fé tudo o que fosse necessário. De antemão podiam ter certeza a respeito daquilo que mais tarde confessariam: que não sofreram carência de nada (cf. Lc 22.35) [7].

Com isso em mente, podemos destacar quatro coisas:

1º - Os apóstolos deveriam confiar no provedor, e não na provisão (Lc 9.3). Eles não deveriam levar ouro, prata, cobre, túnica extra, alforje ou dinheiro. Deviam confiar na provisão divina enquanto faziam a obra. Jesus estava lhes mostrando que o trabalhador é digno do seu salário (Mt 10.10c). Jesus queria que eles fossem adequadamente supridos, mas não a ponto de cessarem de viver pela fé. Jesus alerta sobre o perigo da ostentação [8].

Creio que esse tem sido um dos grandes problemas na igreja, muitos líderes gostam de ostentar. Muitos desses líderes vivem em comunidades modestas, mas gostam de mostrar os seus bons carros, suas roupas (etiquetas), suas casas... muitos desses líderes pregam um evangelho que não condiz com as Escrituras. Pregam um evangelho espúrio. Eles dizem que a fé traz benefícios materiais e físicos, quem não os têm é porque não tem fé. No entanto, a Bíblia nunca ensinou tal coisa.   

2º - Eles deveriam ser gratos pela acolhida (Lc 9.4). O Senhor deu aos doze também uma prescrição especial para o caso de serem acolhidos em uma casa. Os discípulos não devem visar o conforto físico, como os falsos mestres (Rm 16.18), isto é, trocar de hospedagem quando não for suficientemente confortável, nem preferir visitar os ricos em detrimentos dos pobres. – Devem despedir-se de uma casa hospitaleira em que entraram somente no momento em que saem do local a que se destina a pregação para anunciar o evangelho em outro local [9].

3º - Nem todos darão atenção a mensagem do Evangelho (Lc 9.5). Após viajarem através de território pagão, os judeus tinham o costume de sacudir o pó de suas sandálias e de sua roupa antes de entrarem na Terra Santa. Tinham medo que, se não fizessem isso, em seu próprio país os objetos leviticamente limpos, bem como eles próprios, viessem a tomar-se impuros. Portanto, o que Jesus aqui está dizendo é que qualquer lugar – seja uma casa, uma vila, uma cidade, um vilarejo, que se negue aceitar o evangelho, deve ser considerado imundo e ser tratado como tal [10].

Assim, Jesus disse-lhes que, quando saíssem da cidade que os rejeitou, eles deveriam sacudir o pó dos seus pés, em testemunho contra eles. Esta cidade deveria ser tratada como uma cidade gentílica. Ressaltando a importância dos apóstolos como Seus mensageiros, Jesus solenemente advertiu que “Em verdade vos digo que, no dia do juízo, haverá menos rigor para o país de Sodoma e Gomorra do que para aquela cidade” do que para aqueles que rejeitaram sua mensagem (Mt 10.15). A ordem do Senhor reflete as graves consequências de rejeitar o Evangelho (1Co 16.22; 2Ts 1.6-9).

Afastar-se dos que rejeitam a mensagem do Evangelho, porque tem um coração duro não era apenas uma questão de julgamento, mas também uma questão de prioridade. O nosso tempo é precioso demais para desperdiçarmos com aqueles que se endureceram contra a verdade.

Jesus afirmou esse princípio em uma declaração chocante para seus seguidores: “Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem” (Mt 7.6).

Esta analogia de Jesus em relação aos cães e aos porcos representam aqueles que rejeitam o evangelho de forma permanente e o tratam com desdém absoluto. O que deve ter sido ainda mais surpreendente para os Doze era a identidade dos cães e dos porcos dos quais o Senhor os advertiu. Uma vez que os apóstolos foram enviados nesta missão para o povo judeu, os cães e porcos não eram gentios pagãos impuros, mas judeus ultra religiosos. Quando confrontados com a rejeição de um coração duro, era para os apóstolos dar-lhes uma advertência do juízo que enfrentariam e seguir em frente.

Isso é uma grande lição para nós também. Muitas vezes insistimos em pregar para pessoas que desdenham do Evangelho, que ridicularizam a nossa fé, que menosprezam o nosso Salvador. Devemos agora viver o Evangelho, que eles vejam em nós, mediante o nosso testemunho o Salvador em nossas vidas. Muitas vezes queremos fazer o papel que cabe ao Espírito Santo, que é convencer o homem do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8).  

4º - Esse texto não isenta a igreja do cuidado digno para os seus líderes e missionários. Usar este texto para condenar qualquer provisão dada a pregadores e missionários, em forma de dinheiro e roupas, é contrário a Escritura. Nem os apóstolos João (cf. 3Jo 5-8) e Paulo (2Co 11.8) e nem mesmo Jesus (Lc 22.36) se sobrecarregaram com a obediência literal a essas palavras. É preciso levar em consideração que Jesus enviava seus mensageiros para as cidades e localidades de Israel, onde todos os seus servos, como também os levitas, tinham direito ao sustento (Nm 18.31; cf. 1Co 9.13s) [11].

Devemos entender que o contexto histórico em que esse texto foi escrito. Na época de Jesus era muito comum dar hospedagem para os viajantes. A hospitalidade era um dever sagrado no Oriente. Sempre que chegava uma visita a uma casa judaica era recebida com muita atenção. A hospitalidade era um dos traços marcantes da sociedade judaica, e tornou-se também uma característica dos cristãos primitivos. Isso não quer dizer que não houvesse indivíduos mal-educados e até insociáveis, mas a atitude mais comum entre eles era de franca generosidade.

Da hospitalidade, faziam parte a saudação, lavar os pés, oferecer comida, proteger e acompanhar na despedida. Os pregadores não podem violentar a cultura do povo ao pregar a Palavra de Deus. O evangelho deve ser anunciado dentro do contexto cultural de cada povo [12].

3 – O MUNDO DESFIGURA A IMAGEM DE JESUS E SUA MENSAGEM (Lc 9.6-9).

Quando Herodes ouviu falar de tudo o que estava acontecendo em conexão com o ministério da pregação dos Doze, ele ficou muito perplexo. Os Doze estavam dando toda a glória e crédito para Jesus mediante sua pregação poderosa e milagres (Atos 3. 11-12). Mas quem foi Jesus? Isso foi dito por alguns que Ele era João Batista ressuscitado dos mortos e isso foi particularmente preocupante para Herodes. Para aumentar a confusão, estava sendo dito por alguns que Elias tinha aparecido, e por outros que um dos antigos profetas tinha ressuscitado (Mt 16.14; 17.10). No entanto, Herodes, assombrado por sua execução indevida de João Batista, a quem ele mesmo reconheceu ter sido “um homem justo e santo” (Mc 6.20), disse: “Eu mesmo tive João decapitado”. De acordo com o relato de Marcos, Herodes, atormentado por sua consciência culpada, continuou dizendo: “João, que mandei degolar, ressuscitou!” (Mc 6.16). Herodes é o símbolo de um mundo que jaz no maligno, que tem sua consciência cauterizada ou, muitas vezes, atormentada pelo pecado. 

Com isso em mente, podemos destacar duas coisas:

1º - O mundo continua confuso em relação a Jesus. Tragicamente, a maioria das pessoas hoje continuam dando a resposta errada em relação a Jesus. O mais triste é que as respostas erradas em relação a Jesus estão muitas vezes aonde isso não poderia acontecer, dentro da igreja. Em muitas igrejas Jesus têm sido apresentado como curandeiro, psicólogo, provedor de bens materiais, menino mimado que chora porque ninguém o aceita... menos como Soberano Senhor, Rei dos reis, o justo Juiz, Salvador do mundo.

Como disse Rienecker: “quem não teme a Deus, teme coisas supersticiosas” [13].   

2º - Essa questão da identidade de Jesus é a mais importante já feita e respondida. A resposta que cada pessoa dá em relação a Jesus determinará o seu destino eterno, no inferno ou no céu. Devido a sua importância, Lucas registrou repetidamente casos de pessoas fazendo essa pergunta (cf. v 18; 5.21; 7.20, 49; 8.25; 22.67, 70; 23.3.). Mas Pedro, falando para os discípulos (Mt 16.16), um centurião romano na cruz (Mc 15.39), e Tomé (Jo 20.28), entre outros, deu a resposta correta: “Jesus é Deus Filho, o Messias, Salvador e Senhor”.

Como disse o apóstolo Paulo: “Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, a saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido. Porquanto não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam” (Rm 10.8-12).

Se o mundo está confuso em relação a Jesus, nós, seus servos não podemos estar. Precisamos ter uma fé firme, conhecendo as Escrituras e pregando e vivendo um Evangelho cristocêntrico. O mundo precisa glorificar a Deus mediante nosso testemunho diário. Como disse Jesus em Mateus 5.16: “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus”.

CONCLUSÃO

Os princípios contidos no envio do Senhor aos apóstolos são aplicáveis a todos os crentes no Senhor Jesus Cristo. Devemos ter em mente que a Grande Comissão (Mt 28.19,20), faz parte da igreja hoje. O Senhor disse que nos enviaria como ovelhas para o meio de lobos (Mt 10.16), mas também disse que estaria conosco até a consumação dos séculos (Mt 28.20).

Assim como os apóstolos nós também somos comissionados a pregar o Evangelho do Reino, por onde quer que o Senhor nos leve. E pregar é mais do que falar, é viver. É testemunhar com a vida, palavras e obras. O mundo, ainda que zombe da nossa fé, espera de nós um bom testemunho. Foi isso que o Doze fizeram, é isso que o Senhor espera de nós também.

Pense nisso! 

Bibliografia

1 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Mateus, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 1998. p. 111.

2 – Lopes, Hernandes Dias. Mateus, Jesus, o Rei dos reis, Editora Hagnos, São Paulo, 2019, p. 330.

3 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 265.

4 – Lopes, Hernandes Dias. Mateus, Jesus, o Rei dos reis, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2019, p. 332.

5 – Ryle, J. C. Meditações no Evangelho de Lucas, Ed. Fiel, S. J. dos Campos, SP, 2002, p. 140.

6 – Spurgeon, C. H. O Evangelho Segundo Mateus, a narrativa do Rei, Editora Hagnos, SP, 2018, p. 182.

7 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 133.

8 – Lopes, Hernandes Dias. Mateus, Jesus, o Rei dos reis, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2019, p. 333.

9 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 133.

10 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 1, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 631.

11 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 133.

12 – Lopes, Hernandes Dias. Mateus, Jesus, o Rei dos reis, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2019, p. 334.

13 – 7 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 134.