sábado, 8 de maio de 2021

JOQUEBEDE, UMA MÃE QUE PRESERVOU A VIDA DE SEU FILHO

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Êxodo 1.8-22, 2.1-10

INTRODUÇÃO 

No livro de Êxodo capítulo 2.1-10, conta a história de Joquebede, uma mãe de muita coragem. Joquebede (Heb. “O Senhor é glória”). Descendente de Levi, nasceu na época em que os israelitas estavam no Egito. Foi esposa de Anrão (seu sobrinho) e mãe de Miriã, Arão e Moisés (Êx 6.20). Seu filho caçula nasceu na época em que Faraó decretara a morte de todas as crianças israelitas do sexo masculino (Êx 1.15-22). Ela guardou o filho por quase três meses, até que ele ficou muito grande e não tinha mais onde escondê-lo em casa. Joquebede então adquiriu um cesto feito de juncos, o qual calafetou com betume e piche; colocou o menino dentro, levou o cesto à margem do rio Nilo e depositou-o entre a vegetação.

A filha do Faraó desceu ao rio para banhar-se e encontrou o bebê; ao perceber que se tratava de um hebreu, ficou com pena dele (Êx 2.5,6). Miriã, irmã de Moisés, recebera instrução para vigiar o cesto; ciente do que acontecia, correu até a princesa e apresentou-lhe Joquebede, a própria mãe do menino, para cuidar dele e amamentá-lo! “Sendo o menino já grande, ela o trouxe à filha de Faraó, a qual o adotou. Ela lhe pôs o nome de Moisés, e disse: Das águas o tirei” (Êx 2.10) [1].

1 – O PERIGO RONDA A NOSSA CASA (Êx 1.15,16,22).

O livro de Êxodo 1.8-22 nos mostra que o novo Faraó que havia se levantado não conhecia José. O Faraó que tinha favorecido a José provavelmente era um dos reis hicsos. Aquela foi uma dinastia de invasores semitas, e não de nativos camitas. Na história, eles são conhecidos como reis pastores. O Egito, porém, acabou libertando-se dos estrangeiros. Talvez o novo rei tenha sido o primeiro monarca forte da 19ª Dinastia, Ramsés II. Ele representava uma nova era. José tinha sido uma grande bênção para o Egito. Agora, porém, Israel tornara-se uma ameaça aos olhos dos egípcios. Ramsés II reinou de 1290 a 1224 a. C. Na esperança de recuperar seu perdido império asiático, os faraós mudaram sua capital de Tebas, conforme tinha sido na 18ª Dinastia, para o delta do rio Nilo [2].

O Senhor no controle da história. Assim lemos em Romanos: “Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra” (Rm 9.17). A visão humana da história é muito limitada, muitas vezes nos esquecemos das histórias passadas e não planejamos o futuro. Nós cristãos ao lermos a Bíblia não deveríamos nos surpreender com os fatos ao nosso redor temendo pelo nosso futuro. Assim como Deus agiu no passado, está agindo nos dias de hoje. Observe o que está escrito em Romanos 9.17, esse texto deixa claro que o Senhor continua com as Suas mãos firmes no leme guiando a história para o fim por Ele planejado.

Sob o governo de Amósis I, que expulsou os hicsos, os hebreus perderam as regalias desfrutadas durante o domínio dos reis pastores. Nessa época, não trabalhavam mais com a plena liberdade de antes, pelo contrário, eram obrigados a executar os serviços mais pesados como os demais estrangeiros por serem semitas e vistos como inimigos. Não é possível asseverar precisamente quando começou a escravatura cerrada; mas acredita-se que a situação do povo hebreu agravou-se à medida em que ocorriam as sucessões dos faraós. Tudo indica que Ramessés II foi o mais cruel deles [3].   

Diante desse fato, Faraó começou a perceber que o povo de Deus estava mais numeroso e forte que o seu povo (Êx 1.9) e ficou com medo de que no caso de uma guerra os Hebreus se unissem com os inimigos do rei e batalhassem contra eles (Êx 1.10) então determinou que as parteiras da época matassem todos os bebês hebreus que nascessem do sexo masculino, dessa forma o povo pararia de crescer e prosperar. As parteiras temeram a Deus e não obedeceram ao rei, então ele deu uma nova ordem dizendo a todo o povo que todos os filhos que nascessem dos Hebreus deveriam ser jogados no Rio Nilo, mas as meninas poderiam viver (Êx 1.22).

Os pais de Moisés esconderam-no o máximo que puderam. Sem dúvida as casas das famílias israelitas eram vasculhadas pelos homens do desesperado Faraó. Eventualmente, sua existência chegaria à atenção de alguma autoridade, ou até mesmo um vizinho qualquer poderia jogá-lo no rio Nilo, em obediência ao decreto do Faraó (Êx 1.22) [4].

Vivemos dias tenebrosos, os Faraós de ontem são os mesmos de hoje, e querem matar os nossos filhos para que eles não cresçam e se tornem missionários, se tornem libertadores, se tornem grandes líderes usados por Deus. O espírito maligno que atuava em Faraó e Herodes para matar as crianças continua atuando no mundo.

Ilustração: AS CRIANÇAS JOGADAS NO RIO

Certa vez, dois pescadores estavam sentados à beira de um rio, pescando. De repente, ouvem gritos fortes. Olhando para a parte de cima do rio, veem duas crianças descendo pelas águas e pedindo socorro. Mais que depressa, jogam-se na água e salvam as crianças.

Mal conseguem salvá-las, ouvem mais gritos. Agora são quatro crianças que vêm, debatendo-se nas águas correntes. Pulam no rio e conseguem salvar duas delas.

Aturdidos, os pescadores ouvem pela terceira vez gritos ainda mais fortes. Desta vez são oito crianças vindo na correnteza.

Um dos pescadores vira as costas para o rio e começa a ir embora. O amigo exclama:

- Você está louco? Não vai me ajudar? Sem deter os passos, o outro responde:

- Faça o que puder. Vou tentar descobrir quem está jogando as crianças no rio.

Existem duas necessidades básicas que temos que observar: a primeira é tentar salvar nossos filhos da morte no rio da perdição e a segunda, é tentar descobrir quem e como que nossos filhos estão sendo jogados no rio.

Essa história parece sem sentido para alguns, mas veja a matéria que saiu com Karla Tenório em depoimento a Marcelle Souza no dia 07/05/2021 04h00, na Universa UOL. A chamada da matéria diz: “Eu sou Karla Tenório, tenho 38 anos, sou atriz, escritora, tenho uma filha de 10 anos e sou uma mãe arrependida”. Transformei minha angústia em um movimento para amparar mulheres como eu: que não gostam da maternidade. Sou criadora do “Mãe Arrependida”, que visa a libertação da voz das mães que não são felizes como mães, que sofrem e sentem culpa por conta da maternidade. Palavras dela: “Eu sou a titular do cuidado físico da minha filha até que ela consiga se virar sozinha, mas, para a sociedade, não é só isso. A mãe é a responsável por aquela alma até o fim da vida, um arquétipo de santa, que está nos abençoando onde quer que a gente esteja. E eu não quero assumir esse papel, quero apenas ser feliz”. “Hoje eu sou uma pessoa que está se curando da culpa, desse arrependimento. Hoje sei que o amor incondicional não existe, ela passa por mim como uma brisa, sou tocada poucas vezes por esse êxtase, porque eu tive que desenvolver uma relação, sou obrigada a cuidar de uma pessoa”. [5].

Esta mulher é uma entre milhares que têm filhos, mas que não os amam e os veem como um empecilho em suas vidas. Por isso que as feministas lutam tanto para aprovar o aborto em nosso país. Mulheres que lançam seus filhos no rio para servirem de alimento aos crocodilos. O Egito é aqui!  

2 – DIANTE DO PERIGO JOQUEBEDE OUSOU ESCONDER SEU FILHO (Êx 2.1; Hb 11.23).

Aconteceu que nessa época de perigo de morte para os meninos hebreus que nasceu o filho de Joquebede, um menino lindo. Na língua original hebraica Ki tov que quer dizer que o menino era bom. Esta foi a mesma expressão usada por Deus no dia em que Ele fez a luz. Assim Joquebede pressentia que aquele menino simbolizava a aurora e representava uma nova era para o povo Hebreu.

A família conseguiu esconde-lo por três meses e quando viu que não podia mais escondê-lo colocou-o em um cesto de junco e depositou o cesto preso nos juncos à margem do rio Nilo. Sua outra filha Miriã acompanhou o menino até que ele foi encontrado pela filha do Faraó. Logo a irmã do bebê foi até a princesa e disse que conhecia uma mulher que poderia cuidar da criança pra ela. A princesa mandou chamar a mulher, deu o menino para que ela cuidasse e ainda lhe pagou um salário por isso. Quando o menino cresceu, a filha do Faraó o adotou como filho e colocou-lhe o nome de Moisés, que significa “retirado das águas”.

Joquebede foi a única escrava da história bíblica a receber um salário para criar o seu próprio filho. Nisso vemos a provisão de Deus cuidando dessa família e do ainda infante Moisés.

Podemos aprender muitas lições com as escolhas e atitudes de Joquebede.

1ª – Joquebede foi uma mãe corajosa (Êx 2.1,2; Hb 11.23). Diante do decreto de Faraó ela ousou esconder seu filho. Seu marido, Anrão passava o dia fora de casa, sujeito ao trabalho árduo, pois era escravo. Deus concedera temor às parteiras (Êx 1.21) para o seu filho viver, mas ele não estava livre da morte como lemos em Êx 1.22: “Então ordenou Faraó a todo o seu povo, dizendo: A todos os filhos que nascerem lançareis no rio, mas a todas as filhas guardareis com vida”.

Diante disso, Joquebede não desistiu de lutar pela vida de seu filho, assim como seu esposo, apesar de estar ausente no trabalho. Ambos decidiram enfrentar Faraó e o seu maldito decreto (Hb 11.23).

Imagino quantas mães que perderam seus filhos nessa época. Umas porque os filhos lhes fora tirado à força, outras simplesmente porque obedeceram ao decreto de Faraó jogando seus filhos no rio Nilo (Êx 1.22). Talvez você fique surpreso com isso, mas não tem sido diferente hoje. Quantas mães que estão entregando seus filhos para Satanás fazer deles o que bem entende. Veja como muitas famílias “modernas” acham normal criarem seus filhos sem gênero – as famílias que seguem esse tipo de criação dão nomes neutros aos filhos e não informam o sexo. Essas famílias buscam por uma criação em que a criança possa ser mais independente, além de querer que seus filhos tenham a liberdade de poder escolher com que gênero se identificam mais. Tanto a mídia quanto a sociedade têm adotado essa ideia.

Saiu uma reportagem recentemente com esse título: “Maior congresso de sexualidade cristã do Brasil quer “restaurar” LGBTQI+”. Tem o nome de “cristã”, mas bem sabemos a quem pertence.

Os Faraós estão aí tentando matar os nossos filhos, por isso, precisamos ter cuidado para que tais ideias não entrem em nossas casas e “matem” nossos filhos. Precisamos ter coragem para desafiar Satanás e expulsá-lo de nossos lares.

2ª – Joquebede foi uma mãe criativa (Êx 2.3). Quando Joquebede viu que não havia mais como esconder o seu filho, ela buscou uma solução para salvá-lo.

O que ela fez? Tomou um cesto de junco. A expressão hebraica poderia ser traduzida “um cesto de papiro”: a única outra ocorrência do termo descreve a arca de Noé (Gn 6) e pode ser relacionado à palavra egípcia “tebet”, “arca” ou “baú”. O cesto de Moisés foi revestido com betume (Gn 11.3; 14.10) para que ficasse impermeável e possivelmente para que tivesse uma proteção extra contra o calor do sol. Pôs nos juncos à margem do rio. Os juncos cresciam junto à margem, em águas rasas, onde a corrente não levaria embora o cesto, com menor perigo de crocodilos do que num banco de areia ou numa praia. Os juncos ofereceriam ainda alguma proteção contra o sol [6].

Diante dessa atitude de Joquebede, podemos destacar duas coisas:

a) Chegará um momento em que os nossos filhos deixarão o nosso lar para encarar as águas do “rio” (a sociedade, a escola, a faculdade, o mundo). Não podemos mantê-los seguros para sempre em nosso lar, mas nem por isso deixaremos de vigiá-los (Êx 2.4). Vigiamos nossos filhos em oração e com os olhos. Joquebede não ficou sentada lamentando a situação, esperando uma solução vinda de fora. Ela sofria com a possibilidade de perder o filho e fez tudo o que estava ao seu alcance para salvar a vida do bebê.

b) Joquebede preparou o cesto em que Moisés ficaria de forma que nem o sol e nem as águas lhe causassem mal. Da mesma forma é responsabilidade dos pais prepararem os “berço” em suas casas. A expressão: “Educação vem de berço” mostra que é responsabilidade dos pais educarem seus filhos para viver em sociedade. Sendo canal de bênção num mundo que jaz no maligno. Mostrando que no mundo há pessoas boas, mas há também muita maldade. Os educando a serem simples como as pombas, mas prudentes como as serpentes (Mt 10.16).

3ª – Joquebede foi uma mãe de fé e estrategista (Êx 2.4). Joquebede sabia qual era a rotina da princesa e, estrategicamente, colocou o menino preso entre os juncos à margem do rio onde a princesa, junto com as suas donzelas, se banhava. Mulheres são muito emotivas e, provavelmente, se seu plano desse certo seu filho não seria morto.   

Acreditar que Deus é um Deus de milagres não nos isenta de agirmos segundo a direção do Espírito Santo. Para fazer o que fez Joquebede precisava acreditar num milagre vindo dos céus, pois só pela interferência Divina o menino poderia se salvar. E o milagre veio completo, como Deus é maravilhoso! O menino foi achado nada mais nada menos do que pela filha do Faraó, ela viu graça na criança mesmo percebendo que era do povo hebreu, Miriã (irmã mais velha de Moisés) viu a princesa pegando o bebê, a princesa aceitou a sugestão de Miriã e a criança voltou exatamente para o seio de sua família. Agora já não precisavam mais se preocupar porque a criança estava sobre a proteção da princesa do Egito e a família ainda receberia um salário para cuidar da criança. Quando vivemos pela fé, Ele nos dá muito mais do que pedimos e pensamos (Ef 3.20).

Quando entregamos nossas vidas nas mãos de Deus, Sua vontade é muito maior que simplesmente “ironias do destino”. Quando pensamos na nossa vida hoje, vemos que cada dia é um grande milagre de Deus. Nossos filhos não estão boiando em um rio cheio de crocodilos, mas estão em um mundo cheio de violência, doenças, perigos e más influencias. Hoje nos vemos cercados de “crocodilos” modernos, mas as Mãos de Deus operam milagres diários em nossas vidas protegendo a nós e a nossos filhos, assim como fez com Moisés.

4ª – Joquebede nos ensina é a importância da cumplicidade familiar (Êx 2.4-9; Hb 11.23). Na família o problema de um é o problema de todos. Isso é família. Quando temos uma dificuldade com os filhos, todos os membros devem participar ativamente. Devem saber sobre o que está acontecendo e cada um fazer a sua parte na solução do problema.

Observe como Miriã, também foi de grande apoio e cumplicidade quando decidiu seguir o irmão e depois em ir falar com a filha do Faraó, ela se sentiu corresponsável pela situação e fez a parte dela para resolver o problema da família. Infelizmente hoje vemos muitas mães sobrecarregadas com todas atribuições, dentre elas resolver os problemas dos filhos sozinhas. Umas agem assim por serem centralizadoras e crerem que somente elas são capazes de resolver as situações adversas, outras porque a própria família (marido e filhos) não querem se comprometer. Mas a experiência de Joquebede nos ensina que se é um problema de família, deve ser resolvido através da família.

Ilustração – Há uma foto que circula na internet de um menino japonês carregando o irmão morto. Essa foto foi tirada por Joe O’Donnell em Nagasaki. Joe fora enviado pelo exército dos Estados Unidos para documentar os estragos causados pelos ataques aéreos com as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, no mês de agosto de 1945.

Durante meses o fotógrafo viajou pelos vilarejos e cidades japonesas narrando a devastação junto à população. O relato incluiu uma vasta documentação escrita e por negativos a respeito dos efeitos da radioatividade, dos ferimentos que foram causados, quantidade de mortos, órfãos etc.

Em um dos negativos de sua máquina fotográfica se encontrava a poderosa foto de um menino com semblante sério, cumprindo seu dever de honra. A jovem criança, que devia ter menos de 10 anos de idade, carregava nas costas o irmão mais novo morto em decorrência dos ataques atômicos.

Nas palavras de Joe O’Donnell:

“Os homens com máscaras brancas se aproximaram dele e calmamente começaram a tirar a corda que segurava o bebê. Foi quando eu vi que o bebê já estava morto. Os homens o colocaram sobre o fogo e o menino permaneceu ali sem se mover em linha reta, observando as chamas. Ele estava mordendo o lábio inferior com tanta força que brilhou com sangue. A chama queimou baixo como o sol vai para baixo. O menino virou-se e caminhou em silêncio para longe”.

Tudo indicava que aquele menino havia perdido toda a família, mas fez o que a tradição ensina que era honrar os mortos e ele o fez com o seu irmão.

Essa história deve servir de exemplo para todos nós. Devemos fazer o que está ao nosso alcance para honrar os nossos familiares.

5ª – Joquebede criou seu filho sabendo quem ele era (Êx 2.11). Moisés tinha consciência de que não era um egípcio, mas um filho dos hebreus.

Devemos olhar para esse exemplo deixado por essa família na vida de Moisés. Nossos filhos precisam ser criados dentro de expectativas realistas e não fantasiosas. Ainda que nossos filhos tenham mais oportunidades que os pais, eles não devem se esquecer de sua origem, não devem se envergonhar de seus pais, muitas vezes humildes. Não devem se envergonhar, principalmente, de sua formação religiosa.  

As mães cristãs devem ter o cuidado de dar a educação espiritual necessária para que seus filhos aprendam a temer, amar a Deus e servi-lo com fidelidade. É um privilégio e uma alegria quando podemos ser instrumentos do Senhor para levar nossos filhos ao conhecimento e à fé em Jesus Cristo, ensiná-los a orar diariamente e buscar direção para suas vidas na Palavra de Deus. Deus preserva a vida de nossos filhos para Sua honra e glória.

3 – MOISÉS UM TIPO DE CRISTO NO ANTIGO TESTAMENTO.

Não foi à toa que Faraó queria matar os filhos dos Hebreus. Satanás sabia que em breve nasceria aquele que seria o libertador do povo Hebreu e que representaria a Pessoa de Cristo como libertador de Seu povo.

Moisés tipificava a Cristo, sobretudo como: 1 – um líder; 2 – um profeta; 3 – um legislador. E adiciono aqui alguns detalhes sobre a questão:

1) Moisés, tal como Cristo, foi divinamente escolhido (Êx 3.7-10; Atos 7.25; João 3.16).

2) Ambos foram rejeitados por Israel (Êx 2.11-15; Atos 7.25; 18.8; 28.17 ss.; João 1.11).

3) Durante seus períodos de rejeição, obtiveram ambos uma esposa gentílica (Êx 2.16-21; Mt 12.14-21; Ef 5.30-32).

4) Ambos tomaram-se libertadores de Israel (Êx 4.29-31; Rm 11.24-26).

5. Ambos tiveram os mesmos ofícios: como profetas (Atos 3.22,23); como advogados (Êx 32.31-35; 1Jo 2.1,2); como líderes ou reis (Dt 33.4,5; Is 55.4; Hb 11.27).

6) Um contraste: Moisés era apenas um servo na casa de outrem; Cristo era Filho adulto em Sua própria casa (Hb 3.5,6) [7].

CONCLUSÃO

Muitas mães têm se identificado com Joquebede e com muitas outras mães na Bíblia.  Joquebede ousou lutar pela sobrevivência do seu filho. Ana ousou consagrar o seu filho Samuel para Deus. Eunice educou o filho Timóteo pelo exemplo e pelo ensino. Maria foi a mãe do nosso Salvador. Todas essas mulheres aqui citadas foram mães que lutaram pelos seus filhos.

Essas, foram mulheres que se empenharam e se dedicaram no papel que lhes foi dado por Deus, de serem mães. Essas santas de Deus fizeram tudo que estavam em seu alcance para serem mães de excelência. No entanto, de uns anos para cá nós temos presenciado coisas que foge a lógica humana. Mães que são verdadeiros monstros, que geraram seus filhos e os mataram com rigor de crueldade. Os jornais e os sites de notícias nos mostram isso sempre. Sobre essas não devemos tomar nosso tempo.

Mas para você mãe que teme a Deus, que o Espírito Santo lhe abençoe ricamente nesse dia e lhe dê a graça de ver seus filhos na presença do Senhor. 

Pense nisso!    

Bibliografia

1 – Gardner, Paul. Quem é Quem na Bíblia Sagrada, Ed. Vida, São Paulo, SP, 1999, p. 375.

2 – Champlin, Russell Norman. O Antigo Testamento Interpretado, Versículo por Versículo, Ed. Hagnos, São Paulo, 2001, p. 305.

3 – Cohen, Armando Chaves. Comentário Bíblico: Êxodo, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 1998, p. 20.

4 – Champlin, Russell Norman. O Antigo Testamento Interpretado, Versículo por Versículo, Ed. Hagnos, São Paulo, 2001, p. 308.

5 – Souza, Marcelle. Minha História, Karla Tenório em depoimento a Marcelle Souza, https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/05/07/sou-uma-mae-arrependida-desde-o-parto-da-minha-filha-diz-atriz.htm, acessado em 08/05/21.

6 – Cole, R. Alan. Êxodo, Introdução e Comentário, Ed. Vida e Nova e Ed. Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1981, p. 55.

7 – Champlin, Russell Norman. O Antigo Testamento Interpretado, Versículo por Versículo, Ed. Hagnos, São Paulo, 2001, p. 308.  

domingo, 2 de maio de 2021

AS MULHERES NO MINISTÉRIO DE JESUS

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 8.1-3

INTRODUÇÃO

Esta passagem só é encontrada no texto de Lucas, ela nos fala a respeito de algumas mulheres que atuavam no ministério de Jesus. As mulheres ocupavam uma posição inferior na Palestina, assim como em todo o mundo da antiguidade, mas o Evangelho de Lucas é notável pela atenção que dedica a elas. Esse fato é claramente demonstrado pela importância de várias mulheres nesse Evangelho, como por exemplo: Isabel; Maria, a mãe de Jesus; as irmãs Maria e Marta; Maria Madalena e outras [1]. Isso mostra que muitas mulheres tiveram suas vidas revolucionadas, a ponto de serem levadas a grandes atitudes espontâneas de agradecimento e entrega. Assim como a mulher pecadora na casa de Simão o publicano (Lc 7.36-50), Lucas procura enfatizar que muitas mulheres foram impactadas e passaram a segui-lo e a servi-lo.

É importante destacar que essas mulheres eram discípulas de Jesus, mas elas não faziam parte do apostolado e nem foram enviadas para missões com os Doze. Destacamos isso devido a uma inversão de valores que temos presenciado na igreja nos últimos anos, onde muitas mulheres têm assumido lugar de liderança na igreja; sendo muitas delas consagradas a pastoras, bispas e até apóstolas. As mulheres têm uma grande importância na igreja e no Reino, mas elas não foram chamadas para ocupar lugar de liderança na igreja.

Vejamos o que esse texto tem a nos ensinar.

1 – A DINÂMICA DO MINISTÉRIO DE JESUS (Lc 8.1).

A frase “e aconteceu, depois disto” remete para o incidente envolvendo a mulher pecadora e o fariseu hipócrita registrada em Lc 7.36-50. Logo após esse incidente Jesus começou a pregar pelas cidades e aldeias da Galileia.

1º - Jesus passa a ser um pregador itinerante (Lc 8.1a). O texto nos diz que Jesus “andava de cidade em cidade, e de aldeia em aldeia”. Essas palavras de Lucas introduzem uma nova época da atividade de ensino de Jesus. Jesus já não usa mais Cafarnaum, sua cidade (Mt 9.1), como centro da atuação. Começa agora uma vida totalmente itinerante, literalmente sem ter onde reclinar a cabeça (Lc 9.57,58) [2]. A pregação nessa região irá até Lucas 9.51. Todos os passos que o Senhor Jesus deu em seu ministério estavam de acordo com a agenda pré-estabelecida pelo Pai.

Jesus sempre agiu de acordo com a vontade do Pai, em João 5.30 Ele disse: “porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou”. Anteriormente ele havia dito a seus discípulos: “A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” (Jo 4.34). Foi para fazer a vontade do Pai que Ele veio ao mundo, como ele explicou em João 6.38: “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou”.

Da mesma maneira os nossos passos devem ser de acordo com a vontade de Deus. Nossos planos e projetos devem estar de acordo com o céu e não de acordo com a nossa vontade. Como disse Tiago: “Eia agora vós, que dizeis: Hoje, ou amanhã, iremos a tal cidade, e lá passaremos um ano, e contrataremos, e ganharemos; digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece. Em lugar do que devíeis dizer: Se o Senhor quiser, e se vivermos, faremos isto ou aquilo” (Tg 4.13-15).

Isso nos mostra que o nosso futuro e as nossas decisões devem estar atreladas à vontade de Deus. Ele é quem determina os nossos passos; todas as nossas decisões devem ser para Sua glória. Nós só conseguimos ver o que está diante de nós, mas o Senhor contempla o futuro e as consequências de nossas decisões.

Assim Jesus agiu, assim devemos agir também.

2º - Jesus pregou o Evangelho do reino (Lc 8.1b). Pregando e anunciando o Evangelho do Reino de Deus. Trata-se de uma única palavra grega que traduzida como anunciando o evangelho significa, literalmente, “evangelizando” ou “anunciando (proclamando) as boas-novas (ou o evangelho). Esta seria uma viagem de evangelização; o objetivo era divulgar as boas-novas e insistir para que os homens as aceitassem [3].

Jesus não pregou uma mensagem de confrontação política ao poder dominante de Roma nem pregou uma mensagem social, denunciando as injustiças gritantes. Ele não pregou uma mensagem filosófica nem entrou pelo caminho do confronto com a religião do Estado. Ele focou sua atenção em pregar o Evangelho do reino. De igual modo, não podemos nos distrair apenas identificando as mensagens falsas. Devemos gastar nosso tempo e nossa energia pregando a mensagem certa, a mensagem do reino, o Evangelho da graça [4].

Jesus não adaptou a mensagem do reino para seus dias, Ele pregou a mensagem do reino de Deus pura e simples. No entanto, hoje há muitos líderes tentando adaptar a mensagem do Evangelho ao gosto do freguês em vez de pregar a mensagem do Evangelho como nos é apresentada nas Escrituras. É triste ver a igreja caindo nesse erro. Muitos líderes, por quererem adaptar o Evangelho ao público ouvinte, tem se estabelecido sobre forças ocultas através da mensagem por eles pregada. A Bíblia Sagrada chama uma delas de Mamom (riquezas), mas também há a força da influência política, estrutural, denominacional, histórica, fenomenológica e até visionária (leia-se empreendedora), menos sobre a real força, sobre a força que sobressai todas as outras. A saber: a Proclamação do Evangelho da forma Jesus ensinou.

Como disse Charles Swindoll: “O ímpio não precisa encontrar na igreja o mesmo mundo que encontra fora dela. A igreja não está competindo com o mundo. Jesus não é uma marca” [5].

O mundo precisa encontrar dentro da igreja o inverso do que é o mundo. Se a igreja resolver competir com o mundo irá perder de goleada. Água e óleo não se misturam. A igreja foi chamada para ser sal da terra e luz do mundo. A igreja não foi chamada para ser o docinho da terra e muito menos trevas do mundo.

Quando a igreja tenta adaptar a mensagem do Evangelho ao gosto das pessoas, ela perdeu totalmente a sua identidade de igreja militante.     

2 – OS DISCÍPULOS QUE ACOMPANHAVAM JESUS (Lc 8.1c-3).

Jesus está acompanhado dos Doze, mas também por um pequeno grupo de mulheres que mostram sua gratidão por bênçãos recebidas dele, colocando seus recursos à disposição dele e de seus seguidores.

Vamos analisar esses dois grupos e a importância deles no ministério de Jesus.

1º - Doze homens comuns com uma grande missão. Nenhum dos doze estavam entre a elite influente da sociedade judaica; suas fileiras não incluía escribas, fariseus, saduceus, rabinos ou chefes de sinagogas. Eles não vieram de famílias ricas e influentes. Os Doze frequentemente tinham uma fé fraca e falta de visão (Mt 8.26; 14.31; 15.16; 16.8-11; Mc 4.10-13; 9.32; Jo 12.16; 20.9). Todos eles o abandonaram em sua hora de necessidade (Mt 26.56). Mas Ele derramou a Sua vida por eles, e transformou-os em homens que alvoraçaram o mundo (At 17.6). Como nos fala Paulo em 1Co 1.27-29: “Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes; e Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são; para que nenhuma carne se glorie perante ele”.

A escolha de Jesus aparentemente inconsequente – mas foi escolhida depois de uma noite em oração – foi a escolha certa.  

2º - As mulheres que apoiavam o ministério de Jesus (Lc 8.2,3). Os rabinos recusavam-se a ensinar as mulheres, e geralmente lhes atribuíam um lugar de grande inferioridade. Jesus, porém, livremente as admitia à comunhão, como nesta ocasião, e aceitava o serviço delas [6].

Essa ação de Jesus foi politicamente incorreto; Ele não agiu de forma convencional. Dado o status inferior das mulheres na sociedade judaica, elas tinham pouca influência que poderiam usar para ajudá-lo. Mas, apesar de que estas mulheres viajaram com Jesus, embora não necessariamente o tempo todo, ou todos de uma vez, Lucas mostra a importância delas no ministério de Jesus. Quantas haviam não nos é indicado, mas Lucas cita pelos nomes três delas – Maria Madalena, Joana e Suzana. Mas deixa claro que havia muitas outras que seguiram o Senhor. Esta comitiva fez Jesus socialmente inaceitável, quando medido pelos padrões rabínicos.

Essas mulheres foram curadas de “espíritos malignos e doenças” e, mesmo sem maiores detalhes, podemos ver que se tratava de grandes transformações de vida, pois foram tiradas de tipos diversos de exclusão social. Observe que Lucas faz distinção entre doenças e possessão demoníaca, mostrando que há doenças físicas e doenças espirituais. Existem problemas físicos e problemas espirituais.

O que podemos observar nesse grupo de mulheres?

a) Essas mulheres formava um grupo muito heterogêneo. São mulheres de classes sociais diferentes, umas casadas outras solteiras, umas tinham uma vida exemplar, outras vieram de uma vida duvidosa. Mas todas elas foram transformadas pelo poder do Evangelho.

Já foi dito na Introdução que o Evangelho de Lucas é o “Evangelho das mulheres”. Aqui vemos um exemplo deste fato. Lucas nos informa que algumas mulheres tinham um papel vital no ministério evangelizador de Jesus. Cada uma delas tinha uma razão especial para ser muito grata a Cristo, e para se sentir devedora a Ele. Elas haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades [7]. Pelo que podemos supor Maria Madalena era solteira, no entanto Joana era casada.

A primeira a ser mencionada aqui entre as mulheres é Maria chamada Madalena, ou seja, Maria de Magdala (que significa A Torre), localizada na costa ocidental do Mar da Galileia e ao sul de Cafarnaum. Ela aparece de forma destacada nos quatro relatos da Paixão. Ela foi uma das mulheres que mais tarde: (a) presenciaram a crucificação (Mt 27.55, 56; Me 15.40; Jo 19.25); (b) viram onde o corpo de Jesus foi colocado (Mt 27.61; Me 15.47; Lc 23.55); e (c) saíram no raiar do domingo para ungir o corpo do Senhor (Mt 28.1; Me 16.1; Lc 24.10). Além disso, ela iria ser a primeira pessoa a quem o Cristo Redivivo apareceria (Jo 20.1-18; Mc 16.9) [8].

A imaginação cristã tem feito muita especulação em torno de Maria Madalena, e usualmente a vê como uma mulher muito bela a quem Jesus salvou de uma vida imoral. Absolutamente nada há nas fontes para indicar tal coisa. Lucas diz que dela saíram sete demônios, o que demonstra que Jesus a livrara de uma experiência muito angustiante. Não há, porém, razão alguma para ligar os demônios com a conduta imoral: estão mais usualmente associados com perturbações mentais [9]. Confere com o endemoninhado gadareno que agia com fúria e era considerado louco (Lc 8.26-29,35).

Eu acredito que muitas pessoas (não todas) que são consideradas loucas são, na verdade, vítimas de obra de feitiçaria. Foram vítimas de pactos, muitas vezes de seus parentes, com demônios. O endemoninhado gadareno é um exemplo do que Satanás pode fazer com uma pessoa. O jovem que tinha ataque epilético, mas era vítima de demônios (Lc 9.38-42). Cegueira e mudez (Mt 9.32-33; 12.22). A mulher que vivia encurvada a dezoito anos (Lc 13.10-12). Isso sem contar com as pessoas que não estão possessas, mas são fortemente influenciadas por Satanás. Tudo isso nos serve de exemplo que o mundo jaz no maligno.   

A segunda a ser mencionada é Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes Antipas. O registro não diz de que mal Joana foi curada – se era uma possessão demoníaca ou uma enfermidade física. A sua posição mostra que as pessoas proeminentes também eram levadas a Cristo. Supõe-se que nesta época ela fosse viúva [10]. Joana é mencionada outra vez em Lc 24.10. A terceira a ser mencionada foi Suzana que também deve ter estado doente na época antes de começar a seguir ao Senhor. Desta nós não temos nenhum outro registro. Mas isso nos leva a ver que a igreja é formada por pessoas que são mais conhecidas, outras menos conhecidas, mas todas elas úteis no Reino de Deus.

E muitas outra mulheres. Quem eram “as outras mulheres”, sobre as quais Lucas declara no v. 3 que eram “muitas outras”? Lemos a esse respeito em Mc 15.40s: “Estavam também ali mulheres, observando de longe; entre elas, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o menor, e de José, e Salomé; as quais, quando Jesus estava na Galileia, o acompanhavam e serviam; e, além destas, muitas outras que haviam subido com ele para Jerusalém”. Dessa passagem bíblica resulta que ao lado de Maria Madalena, citada pelo nome em Lc 8.2, faziam parte do grupo de “outras mulheres”, não citadas em Lc 8.2, Maria, a mãe de Tiago, e Salomé, a mãe de João [11].

Era um grupo heterogêneo pois haviam mulheres que se destacavam pela libertação alcançada, como foi o caso de Maria Madalena, que foi liberta de sete demônios, outras de doenças físicas e espirituais. Joana, esposa de um procurador do rei Herodes Antipas, uma mulher influente na sociedade judaica. Suzana, que apesar de não termos nada registrado a seu respeito é citada nominalmente e as outras mulheres, essas que são citadas como cooperadoras e financiadoras do ministério de Jesus.

Assim é a igreja com suas muitas mulheres trabalhando com afinco em prol do reino de Deus. Algumas muito cultas, ouras muito simples, mas todas engajadas na obra que lhes foi designada. Alguém já havia falado: “O ministério de um pastor depende 50% da sua esposa e os outros 50% da união feminina”. Lógico que isso é uma brincadeira, mas reflete o quanto a força das mulheres na igreja é importante. Foi assim no ministério de Jesus e Lucas fez questão de registrar para nos servir de exemplo.  

b) Muitas delas serviam no ministério com seus bens. As mulheres que foram transformadas e libertadas pelo ministério de Jesus acompanham Jesus e seus discípulos para oferecer-lhes suporte financeiro e prestar-lhes assistência com os seus bens. Apesar de possuir o poder, Jesus não operou milagres para prover o seu sustento físico. Por isso, aceitou a ajuda das mulheres [12].

Amiúde se formula a seguinte pergunta: “Como eram supridas as necessidades físicas desses treze homens – Jesus e os Doze?” Responderíamos: Pedro e André, Tiago e João, sendo pescadores, teriam algum meio de sustento; e Mateus, tendo sido um coletor (publicano), provavelmente também tinha seus recursos? Seus familiares, talvez (veja especialmente Marcos 1.20), continuaram a providenciar-lhes sustento? As únicas respostas reais que temos se acham contidas em passagens tais como Mateus 10.10; Lucas 10.7 (“digno é o trabalhador de seu salário”), e aqui, com a ajuda dessas mulheres [13].     

O apóstolo Paulo falando a respeito do ministério da Palavra disse: “Não sabeis vós que os que administram o que é sagrado comem do que é do templo? E que os que de contínuo estão junto ao altar, participam do altar? Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho” (1Co 9.13,14).

E em 2 Timóteo 5.17,18 nos diz: Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina; porque diz a Escritura: Não ligarás a boca ao boi que debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário”.

Jesus nos deu o exemplo nos mostrando que pregam a Palavra com integridade são dignos de receberem o sustento da igreja. Vemos isso de forma clara nas palavras de Paulo também.

CONCLUSÃO

Lucas nos mostra nesse texto que o Senhor não fazia acepção de pessoas e, principalmente, isso nos é demonstrado na forma como Ele lidava com as mulheres. Enquanto muitos rabinos as rejeitavam, Jesus, com grande alegria e misericórdia, as acolhia e as libertava. Em gratidão a isso, elas ajudavam financeiramente em Seu ministério. Que isso nos sirva de exemplo e que possamos investir no Reino de Deus com nossas rendas, sabendo que isso é um privilégio nos dado por Deus.

Pense nisso!

Bibliografia

1 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, vol. 6, Lucas, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 351.

2 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 122.

3 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, vol. 6, Lucas, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 402.

4 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 228.

5 – Swindoll, Charles. A Igreja Desviada, Ed. Mundo Cristão, São Paulo, SP, 2012, p. 108.

6 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 141.

7 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, vol. 6, Lucas, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 402.

8 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 1, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 559.

9 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 141, 142.

10 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, vol. 6, Lucas, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 402.

11 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 122.

12 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 228.

13 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 1, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 558.


domingo, 25 de abril de 2021

OS DOIS DEVEDORES – SIMÃO FARISEU E A MULHER PECADORA

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 7.36-50

INTRODUÇÃO

O Evangelista Lucas começa a nos escrever essa história com um convite realizado por um fariseu por nome Simão ao qual rogou (pedir com insistência) para que Jesus fosse em um banquete na sua casa. A versão ARA diz “jantar”. É interessante observarmos que o primeiro banquete retratado por Lucas tem um pecador (publicano) como anfitrião e um fariseu como intruso (Lc 5.29-32); nesse seu segundo banquete, um fariseu é o anfitrião; e uma pecadora, a intrusa [1].

Jesus não apenas aceitava a hospitalidade de publicanos e pecadores, mas também aceitava convites de fariseus. Ele comia com pecadores e também com fariseus, pois todos igualmente precisavam da palavra de Deus [2]. Alguém muito sabiamente falou: “Se Jesus não se sentasse à mesa com pecadores, Ele iria estar sempre sozinho!”.

Os fariseus diziam de Jesus: “Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores!” – Os fariseus condenavam a si mesmos com essas palavras que haviam dito sobre Jesus. Era também conviva deles, aceitava também convites deles para a ceia, embora na verdade fossem seus inimigos pessoais (já haviam considerado a ideia de matá-lo, Lc 6.11) e não se igualassem aos publicanos ávidos de salvação. Apesar da hostilidade deles, o Senhor não tem medo, mas mostra a eles e também a nós o que significa amor ao inimigo [3].

Estando lá, uma pecadora começou a ungir os pés de Jesus. Este incidente não deve ser confundida com a unção de Maria, irmã de Marta e Lázaro fez (Mt 26.6-13; Mc 14.3-9; Jo 12.1-8). A história registrada nesta passagem ocorreu na Galileia, não em Betânia; a mulher que nos é apresentada aqui é uma pecadora (provavelmente uma prostituta); esta unção aconteceu muito mais cedo no ministério do Senhor, e não durante a semana da Paixão; este fato ocorreu na casa de Simão o fariseu, não na casa de Simão o leproso. A única semelhança superficial é que os proprietários de ambas as casas tinham o nome de Simão. No entanto, Simão era um nome muito comum em Israel. O Novo Testamento apresenta vários outros homens com esse nome, incluindo dois dos apóstolos, Simão Pedro e Simão, o Zelote, (Lc 6.14-15; Mt 13.55), um dos irmãos de Jesus tinha esse nome (Mc 6.3), um homem de Cirene que foi forçado pelos romanos a carregar a cruz de Jesus (Mc 15.21), o pai de Judas Iscariotes (Jo 6.71), o falso profeta Simão, o mágico (At 8.9-24), e Simão, o curtidor, em cujas casa em Jope Pedro ficou (At 9.43).

Somente em Lucas, Jesus entra na casa de um fariseu para comer. Ele faz isso três vezes (7.36; 11.37; 14.1). Nesse jantar na casa de Simão, acontece um fato que se torna o centro do registro bíblico, e que nos traz grandes lições.

1 – ENTENDENDO O CONTEXTO HISTÓRICO.

Alguns dos detalhes característicos do Oriente Médio presumidos pelo texto são descritos minuciosamente por Tristam, um astuto viajante do Século XIX: “...receber hóspedes é um negócio público. O portão do jardim, e a porta... estão abertos... Uma mesa longa e baixa, ou mais frequentemente os grandes pratos de madeira, são colocados ao longo do centro da sala, e divãs baixos de ambos os lados, nos quais os hóspedes, colocados segundo a ordem da sua posição, reclinam-se, apoiando-se no cotovelo esquerdo, com os pés afastados da mesa. Ao chegar, todos tiram as sandálias ou chinelos, e os deixam à porta. Os servos ficam de pé por detrás dos divãs, e colocando uma bacia rasa e larga no chão, derramavam água sobre os pés dos hóspedes. Omitir essa cortesia seria dar a entender que o visitante era de posição social muito inferior... Por detrás dos servos os desocupados da aldeia se aglomeram, e não são considerados intrusos por assim agirem (Tristam, 36-38) [4].    

As casas dos judeus ricos tinham colunatas para o lado do pátio interior. Conforme o costume oriental, também estranhos podiam observar o lauto e solene banquete a partir do pátio. Vemos dispostas sobre as mesas as comidas e frutas. Diante das mesas estão colocadas almofadas altas e macias, sobre as quais repousarão os convivas. O senhor da casa vai ao encontro de cada um deles, cumprimentando-o com a saudação: “Paz seja contigo”, e beijando-o com o ósculo da paz. Esse beijo sobre a face afiança-lhes que são bem-vindos e que gozam de amor e amizade. Depois de lavados os pés, o anfitrião ainda oferecia óleo aromático (perfume) para arrumar os cabelos e para ungir a cabeça e as mãos (que os hóspedes igualmente haviam lavado) [5].

Bailey diz que além disso, os pés são sempre colocados por detrás das pessoas que está reclinada, por causa da natureza ofensiva e impura dos pés na sociedade oriental, desde os tempos imemoriais até o presente. No Antigo Testamento o mais supremo triunfo para o vencedor e insulto para o vencido era “fazer do inimigo escabelos dos pés” (Sl 110.1). A Edom, que é odiado violentamente, se diz: “Sobre Edom atirarei a minha sandália” (Sl 60.8, Sl 108.9). Moisés é obrigado a tirar as suas sandálias impuras diante da sarça ardente, por causa da santidade do solo (Êx 3.5, conf. Js 5.15). João Batista usa a ilustração de desatar o cadarço dos sapatos para expressar a sua total indignidade na presença de Jesus (Lc 3.16) [6].   

As boas maneiras ordenavam que se cumprissem estas coisas, e neste caso não aconteceu nada disto com Jesus na casa do fariseu Simão.

2 – UMA PECADORA ARREPENDIDA (Lc 7.37,38).

Diferentemente de Simão fariseu, esta mulher prestou honras a Jesus, coisa que Simão se negou a fazer. A presença dessa mulher e a forma como ela reagiu em relação a Jesus deixou Simão e, provavelmente, os outros convidados constrangidos.

Os rabinos judeus não conversavam nem comiam com mulheres em público. Essa mulher não tem nome, mas tem fama, fama de pecadora. Ela não foi convidada para o jantar na casa do fariseu; é uma penetra, uma intrusa. No conceito de Simão, essa mulher era um caso perdido, uma pessoa irrecuperável, indigna de receber atenção [7].

O que a atitude dessa mulher tem a nos ensinar?

1º - A atitude desta mulher nos mostra humildade e gratidão (Lc 7.37,38). Essa mulher havia ouvido Jesus proclamar o amor de Deus, oferecendo gratuitamente aos pecadores. Estas boas novas do amor de Deus pelos pecadores, mesmo iguais a ela, a haviam emocionado, e iniciado nela um profundo desejo de manifestar uma reação de gratidão. [Ela ungiu os pés de Jesus com unguento]. Um frasco com esse perfume era usado pelas mulheres dependurado no peito, de um cordão ao redor do pescoço. Esse perfume era usado tanto para perfumar o hálito como a pessoa. Não é necessário muita imaginação para entender como esse frasco devia ser importante para uma prostituta. A sua intenção é derramá-lo nos pés de Jesus mostrava que ela não precisava mais dele [8]. Sua vida havia sido transformada por Jesus e ela estava dizendo que ela estava abandonando a vida de pecado e sendo uma nova criatura em Cristo. O fruto de seu pecado ela estava derramando aos pés de Jesus como prova de sua nova vida.

J. C. Ryle diz que a fim de percebermos a beleza da história, devemos fazer sua leitura juntamente com o capítulo 11 de Mateus. Descobriremos o notável fato de que a mulher cuja conduta foi descrita nesta passagem provavelmente teve sua conversão como resposta às famosas palavras de Jesus: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mt 11.28). Este maravilhoso convite, dentre todas as possibilidades humanas, foi a salvação para sua alma e lhe trouxe paz, pela qual nós a vemos expressar imensa gratidão. Uma completa oferta de perdão é sempre o instrumento escolhido por Deus para trazer o pior dos pecadores ao arrependimento [9].

Wiersbe nesta mesma linha de pensamento diz que a mulher admitiu que era uma pecadora e demonstrou ser uma pecadora arrependida. Se observarmos os paralelos entre os Evangelhos, veremos que, pouco antes desse acontecimento, Jesus havia feito o convite amável: “Vinde a mim [...] e eu vos aliviarei” (Mt 11.28-30). Talvez tenha sido nessa ocasião que a mulher arrependeu-se de seus pecados e creu no Salvador. Suas lágrimas, sua atitude humilde e seu presente indicavam transformação interior [10].  

2º - A atitude desta mulher mostra extravagância (Lc 7.38). Tendo conhecimento de que Jesus estava reclinado à mesa em casa do fariseu, e sabendo que as portas poderia ser deixada em aberto, a mulher foi para lá com um plano específico em mente. Ela evidentemente, não foi imediatamente reconhecida pelas outras pessoas lá; caso contrário o fariseu teria mandado ela se retirar de sua casa. Pode ser que o banquete teve lugar de noite, e à luz fraca das velas e lâmpadas tenham mascarado sua identidade.

Ela trouxe com ela um vaso de alabastro com perfume. O vaso em que o perfume foi armazenado foi feita a partir de alabastro, uma espécie de mármore caro extraído no Egito, indica que o perfume era valioso. A mulher destina-se a ungir a cabeça de Jesus com o perfume, em vez do azeite mais comum e menos caro normalmente utilizados para esses fins (cf. v. 46). Esperando uma oportunidade, ela assumiu uma posição de pé atrás de Jesus aos Seus pés.

Na sua profissão vergonhosa ela estava acostumada a comprar perfumes, e alguns pensam ser possível que este fosse originalmente destinado para propósitos relacionados ao pecado. Mas agora o seu coração estava afastado do pecado e da vergonha e voltado para o Salvador. Assim como o seu corpo e a sua alma, este unguento estava dedicado a Cristo [11].

Ela estava tão grata pelo perdão alcançado que ela não se importou em agir para honrar o Seu Senhor, já que Simão deixou de fazê-lo. Ela provavelmente queria ungir Jesus, mas ela foi tomada de tanta emoção que começou a chorar. Por estar de pé próxima a Jesus, começou a molhar os Seus pés com as suas lágrimas. Brechó (molhado) significa, literalmente, “a chuva” (Mt 5.45; Lc 17.29; Tg 5.17; Ap 11.6). A barragem emocional tinha estourado, e as lágrimas inundaram para baixo sobre os pés de Jesus em uma chuva suave.

Como disse Hendriksen: ela se sente vencida pela emoção. Um pesar esmagador pelo pecado pregresso se mescla com profunda gratidão pelo presente senso de perdão. Seu coração transborda de amor e reverência por aquele que lhe abriu os olhos e produziu uma transformação tão radical em sua vida. Resultado: ela explode em lágrimas [12].

Inclinada aos pés de Jesus enquanto ela chorava, a mulher notou que o anfitrião não tinha lavado os pés de Jesus (v. 44). Então ela manteve enxugando-os das suas lágrimas com os seus cabelos. Naquela cultura, lavar os pés de outra pessoa era considerado degradante, algo feito apenas pelos escravos mais humildes. Mas o que teria chocado os espectadores, ainda mais do que lavar os pés, foi que ela enxugou os pés de Jesus com os seus cabelos. Para uma mulher judia fazê-lo em público era considerado algo indecente, mesmo imoral. Mas dominada pela emoção, ela não estava preocupado com a vergonha que ela poderia enfrentar.

Isso era algo tão sério que o Talmude indica que marido pode pedir divórcio pelo fato de a mulher desatar o cabelo na presença de outro homem. Em regiões conservadoras do mundo islâmico contemporâneo cabeleireiros do sexo masculino são proibidos de pentear mulheres pelas mesmas razões [13].

Depois de terminar de lavá-los, a mulher começou a beijar os pés de Jesus. Kataphileō (beijar) é uma palavra intensa. Em Lucas 15.20 descreve o beijo do filho pródigo em seu retorno para casa do pai. Lucas usou em Atos 20.37 para descrever como os anciãos da igreja de Éfeso beijou Paulo quando ele se despediu deles. Os beijos nos pés de Jesus pôr esta mulher era uma expressão marcante de afeto. Então, ela passa a ungiu os pés do Senhor com o perfume. Esta foi uma exibição impressionante de honra prestada a Jesus no meio daqueles que buscavam apenas para desonrá-Lo.

O que parecia ser algo extravagante era na verdade uma forma de gratidão. Muitas pessoas não demonstram nenhuma gratidão pela salvação alcançada. Aliás, desonram a Deus com suas atitudes diante da igreja e no mundo.

2 – SIMÃO, UM ANFITRIÃO QUE NÃO HONROU JESUS (Lc 7.39-43).

A tripla referência à situação da mulher junto aos “pés” de Jesus no versículo 38 acentua a humildade dela – ou melhor, sua humilhação. Contudo, ela não é passiva. Os versículos 37 e 38 contêm oito asserções verbais sobre a conduta da mulher: soube onde Jesus estava, trouxe um jarro de unguento, se colocou atrás dos pés de Jesus, chorou, molhou seus pés com lágrimas, os enxugou com seus cabelos, beijou-os e os ungiu com o perfume. Esses verbos atestam sua notável determinação e devoção. A conduta do fariseu, em contrapartida, é relatada em uma superficial de correção social: ele o havia convidado (Lc 7.39). O versículos 44 e 45 descrevem quão pouco ele fez de Jesus [14].

O fariseu não tem coragem de criticar Jesus a viva voz, mas o censura nas recâmaras secretas do seu coração. Ele não apenas reprova Jesus, mas também despreza a mulher pecadora. Jesus mostra a frieza exterior do coração de Simão e sua vida julgadora interior [15].

Como disse Wiersbe: o verdadeiro problema de Simão era a cegueira, não conseguia enxergar a si mesmo, a mulher, nem o Senhor Jesus. Assim, foi fácil declarar: “ela é pecadora”, mas foi impossível dizer: “eu sou pecador” (ver Lc 18.9-14). Jesus provou que, de fato, era um profeta ao ler os pensamentos de Simão e revelar suas necessidades [16].

A parábola relatada por Jesus fornece uma bela demonstração do dom profético de Jesus. As palavras de Jesus assinalam o que acontecia no coração da pecadora e também o que representam os pensamentos e as perguntas de Simão [17].

Ela corrige Simão de duas formas:

1º - Jesus revela a cegueira do coração de Simão (Lc 7.39,40). Simão estava julgando Jesus pelo fato dEle não ter discriminado a mulher, pois afinal se Ele fosse profeta Ele saberia quem era aquela mulher e não permitiria tal atitude dela. Para Simão isso confirmava que Jesus era um falso profeta. Um embusteiro. No entanto, Simão está enganado em relação a Jesus e a mulher. Jesus era mais que um profeta e a mulher era uma pecadora arrependida.

2º - Jesus revela que tanto a mulher quanto Simão eram pecadores (Lc 7.40-43). A parábola não trata da quantidade de pecados na vida de uma pessoa, mas da consciência desses pecados no coração. Quantos pecados uma pessoa precisa cometer para ser considerada pecadora? Tanto Simão quanto a mulher eram pecadores. Simão era culpado de pecados do espírito, especialmente orgulho, enquanto a mulher era culpada de pecados da carne (ver 2Co 7.1). Seus pecados eram conhecidos, enquanto os de Simão encontravam-se ocultos de todos, exceto de Deus. Os dois estavam falidos e não tinham condição de pagar sua dívida com Deus. Simão estava tão espiritualmente falido quanto aquela mulher e não tinha consciência disso [18].

O fariseu não expressava amor por Jesus porque se sentia justo, mas a mulher derramada aos seus pés lhe demonstrava acendrado amor porque se sentia pecadora, carente da graça de Jesus. Jesus veio salvar os pecadores. O médico veio curar os enfermos. Só aqueles que reconhecem seus pecados e sentem tristeza por suas mazelas são perdoados por Jesus! [19].

3 – JESUS FAZ A APLICAÇÃO DA PARÁBOLA (Lc 7.44-50).

A mulher era culpada de pecados de comissão, mas Simão era culpado de pecados de omissão. Como anfitrião, não havia recebido Jesus com a devida cortesia (contrastar com Abraão em Gn 18.1-8). Aquela mulher atentou para tudo o que Simão havia negligenciado – e o fez com mais esmero! [20].

Jesus, então, aplica o princípio ilustrado na parábola para a mulher e Simão. Dirigindo-se a ela o Senhor contrastou seu amor óbvio para Ele com sua fria indiferença.

E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês tu esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; mas esta regou-me os pés com lágrimas, e os enxugou com os cabelos de sua cabeça.  Não me deste ósculo, mas esta, desde que entrou, não tem cessado de me beijar os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta ungiu-me os pés com unguento”.

Com isso em mente podemos destacar algumas lições importantes:

1º - Sua demonstração de amor por Jesus deu provas claras de sua vida transformada. Ela muito amou, porque ela foi muito perdoada. Em contraste, Simão havia insultado Jesus ao não oferecer a cortesia normal de fornecimento de água para os seus pés (cf. Gn 18.4; 19.2; 24.32; 43.24; Jz 19.21; Jo 13.4-5), ou cumprimentá-lo com o habitual beijo (cf. Gn 29.13; 45.15; Êx 4.27; 18.7; Rm 16.16). E enquanto ele não tinha ungido o Senhor com azeite barato, ela tinha ungido Seus pés com dispendioso perfume.

Foi um amor demonstrado e não um amor velado. Ela reconhecia o quanto havia sido perdoada e estava grata por isso, e ela não mediu esforços para demonstrar isso ao seu Salvador. Aos olhos de todos ali e, principalmente de Simão, o que ela estava fazendo demonstrava uma total falta de pudor, mas para o Senhor era uma grande demonstração de amor.

2º - Ela demonstrou um grande arrependimento (Lc 7.44-46). Enquanto Simão negou a Jesus todas as cortesias, esta mulher o demonstrou de forma clara e se desfazendo de um unguento que lhe era útil para a vida que levava. Ela se desfez daquele perfume como demonstração do seu arrependimento.

3º - Ela agiu assim por ter alcançado um grande perdão (Lc 7.47-49). O que a mulher já sabia em princípio agora é reafirmado. Em vista de sua vida pregressa de pecado, ela provavelmente sentia a necessidade dessa confirmação, de modo que aquilo que ela sentia que já ocorrera – daí seu transbordamento de amor – poderia ficar mais solidamente estabelecido em seu coração, a saber, que de uma vez para sempre e de uma forma plenária seus pecados estão então apagados. E tal perdão nunca fica sozinho. E sempre perdão e mais. Deus, em Cristo, abraça essa mulher penitente com seus braços de amor protetor, amor adotivo [21].

Quem é este, que até perdoa pecados? (Lc 7.49). Para alguns daqueles que faziam esta pergunta, o fato de Jesus perdoar pecados era possivelmente uma demonstração da sua natureza divina, e para outros era, sem dúvida, um obstáculo. Mas Jesus nunca permitiu que o perigo de ser mal interpretado o impedisse de demonstrar misericórdia ou de expressar o seu amor [22].

4º - Ela alcançou uma grande salvação (Lc 7.50). Jesus oferece à mulher a salvação mediante a fé e concede a ela a sua paz. Ela entrou cheia de culpa e saiu justificada pelo Filho de Deus. Ela é salva da prisão da culpa de seu passado pecaminoso. Seu passado foi apagado. Seu presente foi transformado. Seu futuro glorioso está garantido.

“Vá em paz”, disse Jesus, ao despedi-la. Aqui não pode significar menos que o que está implícito na palavra hebraica Shalom, prosperidade para a alma e o corpo. Essa paz é o sorriso de Deus refletido no coração do pecador redimido, um refúgio na tempestade, um esconderijo na Rocha eterna, um abrigo sob suas asas. É o arco-íris ao redor do trono de onde saem relâmpagos, trovões e vozes (Ap 4.3,5) [23].  

CONCLUSÃO

Aquele jantar na casa de Simão foi um “tapa na cara com luva de pelica” de Simão que se via justo demais até para honrar Jesus. No entanto, uma mulher com uma vida duvidosa honrou ao Senhor sem medir esforços e sem se importar com o que os outros pensariam dela. Tudo isso, porque ela reconhecia que era pecadora, mas que havia alcançado o perdão através de Jesus. Simão no entanto, não se via como pecador e não se deu conta de que também tinha uma dívida impagável com Deus.

A mulher perdoada saiu honrada por Jesus, enquanto Simão foi humilhado pelo Senhor pela sua cegueira espiritual e por não honrá-lo.

Que sejamos como esta mulher, reconhecendo os nossos pecados e honrando ao nosso Senhor com tudo que temos. Ela abriu mão do fruto do seu pecado para viver na dependência e nos cuidados de Deus. Isso é um grande exemplo para todos nós.

Pense nisso!   

Bibliografia

1 – Edwards, James R. O Comentário de Lucas, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2019, p. 300.

2 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 219.

3 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 118.

4 – Bailey, Kenneth. A Poesia e o Camponês – As Parábolas e Lucas, Ed. Vida Nova, São Paulo, SP, 1985, p. 40-41.

5 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 118.

6 – Bailey, Kenneth. A Poesia e o Camponês – As Parábolas e Lucas, Ed. Vida Nova, São Paulo, SP, 1985, p. 41.

7 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 220.

8 – Bailey, Kenneth. A Poesia e o Camponês – As Parábolas e Lucas, Ed. Vida Nova, São Paulo, SP, 1985, p. 45.

9 – Ryle, J. C. Meditação no Evangelho de Lucas, Ed. Fiel, São José dos Campos, SP, 2002, p. 114.

10 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 256.

11 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, vol. 6, Lucas, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 400.

12 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 1, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 545.

13 – Bailey, Kenneth. A Poesia e o Camponês – As Parábolas e Lucas, Ed. Vida Nova, São Paulo, SP, 1985, p. 46.

14 – Edwards, James R. O Comentário de Lucas, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2019, p. 303.   

15 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 221.

16 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 256.

17 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005, p. 119.

18 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 256.

19 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 222.

20 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 256.

21 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 1, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 547.

22 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, vol. 6, Lucas, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 401.

23 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 1, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 550.