domingo, 5 de junho de 2022

A PERSEVERANÇA NA ORAÇÃO

Pr Silas Figuiera

Texto básico: Lucas 11.5-13

INTRODUÇÃO

Jesus mostrou a seus discípulos o “Pai Nosso” como modelo de oração, que traz todas as coisas essenciais que devem ser pedidas a Deus. Depois desse ensinamento ele assegura o atendimento da oração. Essa confiança é fundamentada pelo Senhor: 1) através de um exemplo do dia-a-dia (v. 5-8); 2) com vistas à experiência diária (v. 9-10); 3) sobretudo considerando a misericórdia do Pai no céu (v. 11-13) [1].

A oração do “Pai Nosso” é um modelo de oração, não uma reza a ser recitada. Longe disso. Através da oração que Jesus deixou como modelo podemos ver que nela consiste a maturidade de como devemos orar. Nela lemos que o que prevalece na oração é a vontade do Pai: “Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (v. 2). Entendendo que a vontade do Pai é pura, perfeita e agradável (Rm 12.2), que Sua vontade soberana sempre irá prevalecer e nós nos sujeitamos à ela.

Entender que Sua vontade irá prevalecer é entender que Ele é eterno, onipotente, santo e imutável, onisciente, onipresente, que levará a efeito o plano perfeito que Ele ordenou desde o início. Isso mostra maturidade espiritual. Como disse Jó: “Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido” (Jó 42.2). Assim, entendemos que a oração não muda os planos de Deus, a oração confirma em nosso coração a Sua vontade, que como já sabemos é pura, perfeita e agradável.

Mas se a oração não muda a mente ou os planos de Deus, que proposito ela serve? Talvez você pergunte! A oração é um meio que Deus ordenou para cumprir Seus propósitos: “A oração feita por um justo pode muito em seus efeitos” (Tg 5.16), ou seja, Deus move o coração do crente a orar. Deus muda as circunstâncias pela oração. A oração remove o sofrimento, mas também nos dá poder para enfrentar os problemas e usá-los para cumprir os propósitos de Deus.

É o próprio Deus que nos leva a buscar a Sua face em meio as diversas ocasiões e crises que enfrentamos. Vemos isso na história de Israel. Veja por exemplo Jr 29.11-13, onde o Senhor diz para seu povo que estava no cativeiro babilônico que eles deveriam crescer nessa cidade e depois de setenta anos eles iram orar, e o Senhor iria lhes ouvir a oração e lhes libertar do cativeiro e leva-los de volta para Jerusalém. O mesmo vemos em Dn 9 quando Daniel lê o profeta Jeremias e descobre que o fim do cativeiro estava chegando. Devido a isso, ele ora confessando o pecado do povo. Vemos o mesmo em Neemias capítulo primeiro, quando ele soube da situação de miséria que se encontrava os judeus em Jerusalém, ele busca a face do Senhor em oração e confissão de pecados e se propõe a ir a Jerusalém para restaurar os seus muros. Esses são alguns exemplos de como o Senhor move o coração do Seu povo a orar, interceder e agir.

No texto que lemos vemos o Senhor Jesus ensinando os seus discípulos a serem perseverantes na oração. Essa confiança está fundamentada em três pilares:

1 – ESSA CONFIANÇA ESTÁ FUNDAMENTADA NA INTEGRIDADE DE DEUS (Lc 11.5-8).   

Para ilustrar sobre a importância da perseverança na oração, Jesus lhes conta uma parábola. Mas para entendermos essa parábola, devemos entender o contexto histórico da época.

O contexto histórico – Viajar à noite na Palestina era comum por causa do intenso calor do dia, e assim a chegada deste amigo à meia-noite não é de forma alguma algo incomum [2]. Kenneth Bailey diz que o elemento essencial desta parte da parábola é que o hospedeiro é hospedeiro da comunidade e não apenas do indivíduo. Este fato se reflete até como que se cumprimentavam o hóspede. É-lhe dito: “você honrou a nossa aldeia”, e nunca: “você me honrou”. Dessa forma a comunidade é responsável por hospedá-lo. O hóspede deve sair da aldeia sentindo-se bem com a hospedagem da mesma como comunidade [3]. Devido a isso, o hospedeiro poderia ir de casa em casa pedindo emprestado, caso não tenha, a melhor toalha, jarro, talheres, alimentos. E todos cederiam de bom grado. Se algum vizinho não socorresse o amigo, ele ficaria mal visto da aldeia. Por isso que, mesmo contragosto, este homem se levanta para socorrer o vizinho importuno. E não só lhe dá três pães, mas muito mais do que necessitava (v. 8).

Com isso em mente, podemos destacar três coisas importantes:  

1º - O Pai não dorme. O Pai não é um homem que se casa e procura dormir cedo. O salmista diz que “não tosquenejará nem dormirá o guarda de Israel” (Sl 121.4). Por isso que a qualquer hora da noite ou do dia o Senhor está pronto a nos atender.

2º - O Pai não é um vizinho incomodado. O Senhor não se sente incomodado com as nossos pedidos. Muito pelo contrário, Ele nos ensina que devemos ser perseverantes na oração. Em Lucas 18.1 nos diz: “E contou-lhes também uma parábola sobre o dever de orar sempre, e nunca desfalecer”.

3º - O Pai nos atende de bom grado. Leon Morris diz não devemos brincar de orar, mas, sim, devemos mostrar persistência se não recebemos a resposta imediatamente. Não é que Deus não deseje atender e precisa ser pressionado para dar uma resposta. O contexto inteiro deixa claro que está ansioso por dar. Mas se não quisermos aquilo que estamos pedindo, suficientemente para sermos persistentes, então não fazemos muita questão dele [4].

Wiersbe diz que a persistência na oração não é uma tentativa de fazer Deus mudar de ideia (“Seja feita a tua vontade”), mas sim de nos colocar numa posição em que ele nos confie a resposta [5]. A oração nos prepara para recebermos a resposta de Deus.

Esta parábola nos revela a natureza de Deus. Se um vizinho que põe tantos obstáculos para socorrer o seu vizinho inoportuno, mas por ser um homem íntegro, lhe socorrerá, muito mais o Pai que você busca em oração, por sua mais alta integridade e por lhe amar, lhe responderá a qualquer hora. Este é o ensinamento desta parábola. Deus é um Deus de honra, e por isso, seus filhos podem ter certeza absoluta de que suas orações serão atendidas em tempo oportuno.

2 – ESSA CONFIANÇA ESTÁ FUNDAMENTADA NA PRONTIDÃO DE DEUS EM NOS OUVIR (Lc 11.9,10).

Jesus faz agora a aplicação da parábola. Ele mostra que para recebermos algo da parte de Deus devemos orar.  Devemos agir como o homem da parábola, que, mesmo sabendo que estava incomodando e recebendo um não à princípio do seu vizinho, não deixou de insistir na busca do que necessitava. Com isso, ele recebeu até mais do que buscava (v. 8, conf. Ef 3.20).

Podemos destacar algumas lições importantes em relação a oração.

1º - Em primeiro lugar, a ordem de Jesus para orarmos (Lc 11.9). Há uma tríplice ordem aqui: pedi, buscai e batei. A oração tem a ver com humildade, perseverança e ousadia. Os imperativos presentes “continue a pedir”, “continue a buscar” e “continue a bater” indicam que a oração não é um ritual semipassivo em que de vez em quando partilhamos nossos interesses com Deus. A oração exige vigor e persistência [6].

John Stott diz que na oração há muita coisa por detrás dela. Primeiro, oração pressupõe conhecimento. Considerando que Deus só concede dádivas de acordo com a sua vontade, temos de esmerar-nos em descobri-la – pela meditação nas Escrituras e pelo exercício da mente cristã disciplinada nessa meditação. Segundo, oração pressupõe fé. Uma coisa é conhecer a vontade de Deus; outra é nos humilharmos diante dele e expressarmos a nossa confiança em que ele é capaz de executar a sua vontade. Terceiro, oração pressupõe desejo. Podemos conhecer a vontade de Deus e crer que ele pode executá-la, e ainda assim não desejá-la. A oração é o principal meio ordenado por Deus para a expressão de nossos mais profundos desejos. Assim, antes de pedir, precisamos saber o que pedir e se está de acordo com a vontade de Deus; temos de crer que Deus pode concedê-lo; e precisamos genuinamente desejar recebê-lo. Então, as graciosas promessas de Jesus se realizarão [7].

2º - Em segundo lugar, a promessa a quem ora (Lc 11.9,10). Os tempos verbais desta passagem são importantes: “Pedi (continuem pedindo), buscai (continuem buscando), batei (continuem batendo)”. Em outras palavras, não procurem Deus só quando surgem emergências no meio da noite, mantenham-se constantemente em comunhão com o seu Pai [8]. Entendendo que não receberemos tudo o que pedirmos, mas receberemos o que precisamos, e o que iremos receber é o melhor para nossas vidas.

3 – ESSA CONFIANÇA ESTÁ FUNDAMENTADA NA MISERICÓRDIA DO PAI NO CÉU (Lc 11.11-13).

Jesus conclui esse assunto mostrando o quanto o Pai é misericordioso. Ele faz uma comparação com o pai humano, que é falho e mal, mas que entretanto, procura dar o melhor para os filhos. Por isso devemos confiar que o Pai do céu nos dará sempre o melhor para nós.

Observe que esta parábola eleva o nível da discussão de amizade à paternidade; se uma pessoa iria responder a um pedido ousado de um amigo, quanto mais seria um pai responder aos seus filhos?

D. M. Lloyd-Jones diz que em nossa insensatez, inclinamo-nos por pensar que Deus está contra nós, quando algo de desagradável nos acontece. Entretanto, Deus é o nosso Pai; e, na qualidade de nosso Pai, Ele jamais nos dará qualquer coisa que nos seja prejudicial. Nunca; isso é simplesmente impossível [9].

Com isso em mente, podemos destacar algumas lições importantes.

1º - Deus nunca erra (Lc 11.11,12). Qual o pai que se um filho lhe pedir um pão lhe dará uma pedra? E se lhe pedir um peixe lhe dará uma serpente? Ou se lhe pedir um ovo lhe dará um escorpião? Isso é totalmente ilógico. Ora, se mesmo um pai terreno, ainda que mau por natureza (SI 51.1-5; 130.3; Is 1.6; Jr 17.9; Jo 3.3, 5; Rm 3.10; Ef 2.1), providencia para seus filhos somente coisas boas, e não coisas que venham a causar-lhes dano, quanto mais razão tem o Pai celestial – literalmente, o Pai do céu –, que é isento de toda maldade e é, de fato, a fonte de toda bondade, de dar ... o quê? [10]. Se aqui na terra o pedido dos filhos já exerce grande poder sobre os pais, a oração dos filhos de Deus move o coração do Pai no céu com muito mais intensidade [11].

Mas pode ser que por uma distração o pai dê algo ao filho algo que lhe prejudique. Quantas vezes já ouvimos de pais que esqueceram os filhos pequenos dentro do carro e foram trabalhar? Vi um vídeo de uma mãe que foi levar o filho para a aula de violão e esqueceu o filho em casa. Isso prova que somos falhos. Outras vezes procuramos fazer o melhor para os nossos filhos e no entanto estamos lhes prejudicando... somos falhos.

No entanto, Deus nunca erra. Deus conhece a diferença que entre o bem e o mal, com uma profundidade desconhecida por qualquer outro ser. O Pai jamais incorre em equívocos. Ele jamais nos dará alguma coisa que possa a vir a prejudicar-nos [12].

2º - Deus sempre tem o melhor para nós (Lc 11.13). Se, porém, os homens maus não fazem danos aos seus filhos, mas, pelo contrário, lhes fazem bem, quanto mais Deus fará bem aos Seus filhos? O bem que Deus fará não é deixado em termos gerais: Dará o Espírito Santo. Lucas está interessado na obra do Espírito Santo, e aqui vê o dom do Espírito como o sumo bem para o homem [13].

Esse é o único caso no Evangelho de Lucas no qual a presença do Espírito Santo é descrita como comum para a vida espiritual dos cristãos. A referência no contexto da história do amigo importuno é uma exortação para a persistência na busca de uma vida cheia do Espírito. E uma passagem na qual a busca pela santificação encontra uma particular garantia das Escrituras. Somente aqui, nas tradições do Evangelho, somos encorajados a buscar persistentemente o legado do Espírito Santo [14].

Para aqueles que pedem um presente, Ele dá o doador; para aqueles que procuram a verdade Ele dá o Espírito da verdade (Jo 16.13); para aqueles que procuram “amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gl 5.22-23) Ele dá o produtor de todas essas coisas. Somos a habitação do Espírito Santo (Rm 8.9,11; 1Cor 6.19; 2Tm 1.14), Ele é a fonte de todo o bem na vida do cristão (Ef 3.20).

CONCLUSÃO

Ousemos entrar confiantemente na presença do Senhor, pois teremos bons resultados em nossa oração. O Senhor tem prazer em ter comunhão com Seus filhos. Ele é o bom Pai que nos dá boas dádivas. Em Sua presença desfrutaremos as ricas bênçãos de Sua bondade e experimentaremos a realidade de que Ele “é capaz de fazer muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que opera em nós” (Ef. 3.20).

Ele não é um vizinho insensível as nossas necessidades, mas um Pai amoroso pronto a nos socorrer em tempo oportuno!

Pense nisso!

Bibliografia:

1 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 164.

2 – Childers Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 417.

3 – Bailey, Kenneth E. As Parábolas de Lucas, Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1985, p. 106.

4 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 185.

5 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 279.  

6 – Lopes, Hernandes Dias. Mateus, Jesus, o Rei dos reis, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2019, p. 239.

7 – Stott, John R. W. Contracultura Cristã, A mensagem do Sermão do Monte, Ed. ABU, São Paulo, SP, 1981, p. 88.

8 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 280.

9 – Lloyd-Jones, D. M. Estudo no Sermão do Monte, Ed. Fiel, São Paulo, SP, 1984, p. 481.

10 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 116.

11 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 166.

12 – Lloyd-Jones, D. M. Estudo no Sermão do Monte, Ed. Fiel, São Paulo, SP, 1984, p. 481.

13 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 185.

14 – Neale, David A. Lucas, 9 – 24, Novo Comentário Beacon, Ed. Central Gospel, Rio de Janeiro, RJ, 2015, p. 100. 

quarta-feira, 1 de junho de 2022

SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 11.1-4

INTRODUÇÃO

O texto que lemos nos mostra Jesus mais uma vez em oração. Após Jesus terminar de orar, um de seus discípulos lhe pede para que os ensine a orar assim como João Batista ensinou os seus discípulos. Costumamos pensar em João Batista como profeta e mártir, mas os discípulos de Jesus lembravam-se dele como homem de oração [1]. Apesar de João ser cheio do Espírito Santo desde o ventre, ele foi um homem que se mostrou na dependência de Deus através de sua vida de oração.

Alguém falou que “a oração é o fôlego da alma”. Assim como João ensinou os seus discípulos a respeito da oração o Senhor Jesus também ensinou aos seus discípulos. Jesus não só ensinou a respeito da oração como Ele também foi um homem de oração. Lucas falou mais sobre oração do que qualquer outro evangelista. Por descrever Jesus como o Homem perfeito, é o Evangelho que enfatiza a vida de oração de Jesus (3.21; 5.15-17; 6.12,13; 9.18,28; 11.1; 22.31,32; 22.39,40; 23.34). Sete destas orações de Jesus constam somente em Lucas e mostram Jesus orando antes de cada grande crise de sua vida. Somente este Evangelho registra que Jesus orou por Pedro (22.31,32). Jesus orou por seus inimigos (23.34) e por si mesmo (22.41,42). Os discípulos aprenderam a orar com Jesus, e a igreja primitiva aprendeu a orar com os discípulos [2].

Diante do pedido desse discípulo Jesus então lhes dá um modelo de oração. A oração aqui registrada tem um paralelo com Mt 6.9-13, onde no Sermão do Monte o Senhor lhes fala como os seus discípulos deveriam orar. Leon Morris diz que Jesus ensinou sobre esse modelo de oração mais de uma vez [3]. Em Mateus Jesus estava no início de seu ministério, aqui em Lucas Ele está a caminho de Jerusalém para ser crucificado. A oração registrada em Lucas é mais breve do que a incluída no Sermão do Monte, mas a centralidade de Seu ensino é o mesmo.

Vejamos o que esse texto tem a nos ensinar.

1 – A ORAÇÃO É PRIORIDADE DA VIDA DO CRENTE (Lc 11.1).

Lucas registra aqui nesse texto que estando Jesus a orar... isso despertou nos discípulos o desejo não só de orar, mas de orar de maneira certa. A orar não como os fariseus oravam, mas orar como Jesus orava. A ideia que temos é que os discípulos viam como o fariseus oravam, depois viram como João Batista orava e por fim, como Jesus orava. A oração que ouviram de Jesus era radicalmente diferente das tradicionais orações que estavam acostumados a ouvir nas sinagogas pelos escribas, fariseus e rabinos.

Jesus viveu uma vida intensa de oração. Orou antes de tomar grandes decisões em seu ministério. Orou na hora da tentação. Orou na hora mais amarga do Getsêmani. Orou suspenso na cruz. Orou às madrugadas. Passou noites inteiras em oração. Ensinou-nos a orar sempre e nunca esmorecer. Jesus ainda continua intercedendo pelas suas ovelhas junto ao trono da graça [4]. Se Jesus Cristo, o Filho perfeito de Deus, dependeu da oração “nos dias da carne” (Hb 5.7), nós dependemos muito mais! A oração eficaz é a provisão para todas as necessidades e a solução para todos os problemas [5].

Com isso em mente, podemos destacar duas coisas aqui:

1º - Existe o jeito certo de orar. Ensina-nos a orar... Jesus no Sermão do Monte disse para os seus discípulos: “E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios, que pensam que por muito falarem serão ouvidos” (Mt 6.7). Para sermos ouvido por Deus não precisamos falar muito, mas no falar de forma correta. É orar segundo a Sua vontade e não segundo a nossa vontade, como nos fala João em sua primeira carta: “E esta é a confiança que temos nele, que, se pedirmos alguma coisa, segundo a sua vontade, ele nos ouve” (1Jo 5.14).

A questão é: se existe um jeito certo de orar e esse jeito é segundo a vontade de Deus, como eu posso saber qual é a vontade de Deus? A Sua vontade está revelada em Sua Palavra. E com certeza nós oramos de acordo com a sua vontade, quando oramos de acordo com o padrão de oração que Ele nos deu. Muitos estão errando quando oram porque não oram segundo as Escrituras, mas segundo as suas vontades. Tiago em sua carta diz: “Pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites” (Tg 4.3). Por isso, antes de oramos “O pão nosso de cada dia nos dá hoje” (Mt 6.11), devemos orar “Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.10).

2º - A oração é prioridade na vida do crente (Lc 11.1). Observe que em meio a tantos milagres, tantos prodígios, autoridade sobre os demônios, autoridade no ensino... os discípulos pedem que o Senhor lhes ensinasse a orar. Isso nos mostra que a autoridade do crente vem mediante uma vida de oração e não de ação. Isso nos ensina que devemos orar para agir e não agir para orar.

Eles não pedem: “ensina-nos a pregar”, mas, “ensina-nos a orar”. Jesus deixou o exemplo de orar antes de tomarmos qualquer decisão. Antes de darmos o primeiro passo. Isso devemos observar e colocar como prioridade em nossas vidas também. A oração é mais do que meramente um dever ocasional; é um modo de vida.

Talvez você diga que não é uma pessoa de oração, ou pelo menos como dizem que devemos ser. Vou lhe dar um exemplo de uma pessoa que era um excelente escritor, excelente crente, mas um homem modesto na sua vida devocional. Esse homem era C. S. Lewis. Ele gostava de dizer: “Não sou como os místicos, aqueles que sobem a montanha para orar. Sou alguém que está no sopé da montanha. Eu não estou muito alto, nem lá embaixo. Vivo no meio da montanha, como um cristão normal” [6]. Ou seja, se você não pode ser um Moisés no alto do monte Sinai recebendo as tábuas da lei, seja pelo menos como Josué que acompanha Moisés (Êx 24.13).

2 – UM MODELO DE ORAÇÃO – PRIORIDADE NA VONTADE DE DEUS (Lc 11.2).

Os discípulos não haviam solicitado que Jesus lhes ensinasse uma oração para recitar, mas como orar. Jesus respondeu dando-lhes uma oração que, infelizmente, no decorrer dos anos passou a ser recitada e até mesmo cantada. Entre os católicos este modelo de oração que Jesus ensinou é chamada de “Oração do Pai Nosso”. No entanto, Jesus alertou contra a repetição sem sentido na oração (Mt 6.7). Jesus não teria dado aos Seus seguidores uma oração para recitar mecanicamente. Também não há qualquer registro no Novo Testamento de ninguém posteriormente recitando esta oração. Longe de ser apenas mais um ritual de oração, esta oração é um esqueleto ou estrutura para toda a oração.

No entanto, é bom lembrarmos que o conteúdo dessa oração é um tesouro de lições espirituais. Por isso, expô-las em uma mensagem é algo impossível. Esta oração modelo sobre a qual muitos livros já foram escritos não admite ser considerada adequadamente em apenas uma mensagem.    

O que podemos aprender com este modelo de oração dado por Jesus?

1º - A oração deve ser uma prática diária (Lc 11.2a). Jesus não disse: “Se orardes”, mas “Quando orardes”. Ele pressupõe que seus discípulos vão orar. A oração é uma necessidade vital na vida espiritual [7]. Há momentos em nossas vidas que a oração é tudo que nos resta. A oração não nos impede de agir, mas há certos momentos que já não temos mais nada a fazer a não ser orar. E é nessa hora que a nossa fé é colocada à prova.

2º - A oração revela nossa intimidade com o Pai (Lc 11.2b). “Pai nosso...” Jesus começa com o simples trato: Pai, o que corresponde ao aramaico abba, o modo de uma criança se dirigir ao seu pai humano. Jesus ensinou Seus seguidores a pensarem em Deus como sendo Pai deles (que aprenderam a lição é visto em Rm 8.15; G1 4.6) [8].

Abba era muitas vezes uma das primeiras palavras que uma criança aprendia a dizer. Jesus enfatiza que a oração envolve intimidade com Deus. Os crentes têm o privilégio de entrar na presença do Criador e Rei soberano do universo e se dirigindo a ele em termos íntimos. Dirigindo-se a Deus como Pai, isso mostra que os crentes vivem em família eterna com Deus. Embora sejamos pecadores (1Jo 1.8), o Senhor não deixa Suas amadas crianças a quem Ele concedeu a vida eterna (Jo 3.15,16,36).

Pai nosso – devemos entender que Ele é pessoal. Há, no entanto, um problema. Conforme João explica, somente aqueles que recebem Jesus e creem em seu nome, têm o direito de se referir a Ele como “Pai nosso” (Jo 1.12). Na verdade, Jesus deixou claro que havia apenas dois tipos de pessoas no mundo: aqueles que se referiam a Satanás como “nosso pai”, e aqueles que chamavam a Deus de “Pai nosso” (Jo 8.44-47). Não há outras opções [8].

3º - A oração revela a grandeza de Deus (Lc 11.2c). “Que estás nos céus”. Ele não é somente bom, Ele também é grande. As palavras “nos céus” indicam não tanto o lugar de sua habitação, mas também sua autoridade e o poder que tem na qualidade de criador e governador de todas as coisas. Assim ele combina amor paternal com poder celestial; e o que o seu amor ordena, o seu poder é capaz de realizar [9].

4º - A oração revela a santidade de Deus (Lc 11.2d). “Santificado seja o teu nome”. Santificado quer dizer “tornado santo”, “reverenciado”. O nome na antiguidade significava muito mais do que significa para nós. Resumia a totalidade do caráter de uma pessoa, tudo quanto era conhecido ou revelado acerca dela [10].

Santificado quer dizer venerado ou honrado, considerado santo. Está em foco a honra de Deus entre os homens e entre os seres angelicais. Veja por exemplo Isaías 6.1-5.

Na presença de Deus Todo-Poderoso, Isaías ficou completamente cônscio das suas imperfeições. A pessoa, o poder e a pureza do Santo o tornaram inteiramente ciente da sua própria corrupção. É na pureza intensa e brilhante da pessoa de Deus que as nossas fraquezas e imperfeições aparecem da pior maneira possível. Quanto mais nos aproximamos dele, tanto mais claramente sentimos os nossos próprios pecados. E é somente assim que descobriremos quanto necessitamos de nos purificar das nossas imperfeições [11].

O Nome significa tudo quanto está envolvido na Pessoa de Deus, tudo quanto nos foi revelado a Seu respeito. Por isso que o Senhor se revelou aos filhos de Israel sob diversos nomes. Ele usou certos vocábulos para indicar a sua pessoa (El ou Elohim), que apontam para o seu poder, para sua força.

O Nome – o nome de Deus – significa o título, a pessoa, o poder, a autoridade, o caráter e a própria reputação de Deus. Entenda uma coisa, tão grande era o respeito do antigo povo hebreu pelo nome de Deus que nem mesmo ousavam pronunciá-lo nem tentavam pô-lo em língua humana. Era representado pelas letras Y H W H. Mais tarde, foram aumentadas para YAWEH, que em nossas traduções é SENHOR.

O nome YAWEH quer dizer “Auto Existente”. No Antigo Testamento, o Senhor se descreveu a Si mesmo através do seu nome: Yahweh-jireh – o Senhor proverá; Yahweh-rapha – o Senhor cura; Yahweh-nissi – o Senhor é a nossa bandeira; Yahweh-shalom – o Senhor é a nossa paz; Yahweh-ra-ah – o Senhor é o nosso pastor; Yahweh-tsidkenu – o Senhor é a nossa justiça; e ainda Yahweh-shammah – o Senhor está presente. Ao lermos a antigo Testamento no original, vemos que todos esses nomes de Deus foram usados com certa frequência [12].

5º - A oração desperta o desejo do reino de Deus na terra (Lc 11.2e). “Venha o teu reino”. Desde que o homem pecou tem havido um grande número de impérios e nações ao longo da história humana, mas espiritualmente há apenas dois reinos: o reino de Deus e o reino de Satanás (cf. Cl 1.13). Todos os reinos deste mundo atualmente fazem parte do domínio das trevas de Satanás. Desde a queda a raça humana está em rebelião contra Deus. A maioria das pessoas, desde a infância, acreditam erroneamente que eles podem definir o rumo para suas vidas, determinar seu próprio destino, decidir o seu próprio futuro, e traçar seu próprio curso da vida. Agem como se o Senhor não reinasse. Como se Ele nada visse. Ledo engano.

Foi exatamente o Reino de Deus que o Senhor Jesus veio implantar na terra, não de forma literal, mas no coração dos seus discípulos. A Igreja Católica a interpreta fazendo da Igreja Romana um reino particular. Jesus em momento algum veio para inaugurar uma instituição religiosa. Longe disso.

Veja o que o Senhor Jesus falou para os fariseus sobre a vinda do Reino de Deus:

“Interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, Jesus lhes respondeu: Não vem o reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17.20,21 – ARA).

Quando o Jesus veio a este mundo Ele veio para inaugurar este Reino, que é o Evangelho sendo amplamente espalhado em toda a terra. É este Reino sendo instalado dentro dos corações das pessoas; gente que antes era serva de Satanás, mas agora convertidas ao Senhor. Como disse Paulo aos Colossenses 1.13,14: “Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados”.

E podemos ir um pouco além. Quando eu oro “venha o teu Reino”, estou desejoso de renunciar ao governo da minha própria vontade, abstenho-me de tomar as minhas próprias decisões, a fim de permitir que o Senhor, pelo Seu Espírito decida o que eu deva fazer.

É o Senhor reinando de forma plena no meio da Sua Igreja.

6º - A oração nos dá maturidade em nossos desejos (Lc 11.2f). “Seja feita a tua vontade, assim na terra, como no céu”. Alguém disse bem que o propósito da oração não é garantir que a vontade do homem seja feita no céu, mas sim que a vontade de Deus seja feita aqui na Terra. Orar não é dizer o que desejamos e depois desfrutar disso egoisticamente. Orar é pedir que Deus nos use para realizar aquilo que Ele deseja, de modo que seu nome seja glorificado, seu reino seja expandido e fortalecido e sua vontade seja feita [13].

Quando eu oro dizendo para Deus que seja feita a Sua vontade tanto na terra quanto no céu, eu estou abrindo mão da minha vontade em detrimento da dEle. Ou seja, a minha vontade não prevalece, mas a do Pai, e esta é, pura, perfeita e agradável (Rm12.2).

E temos como exemplo o próprio Senhor Jesus que disse que veio ao mundo não para fazer a Sua vontade, mas a vontade do Pai (Jo 6.38): “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, e sim a vontade daquele que me enviou”.

Mas sozinhos não conseguimos colocar em prática o que o Senhor deseja de nós. Não podemos viver um Evangelho só de palavras, mas, acima de tudo, de ação. Por isso que no final do Sermão do Monte o Senhor Jesus disse para os seus discípulos: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mt 7.21 – ARA).

Por isso que o apóstolo Paulo em Filipenses 2.13: “Porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade”.

Como disse John Stott: “Na contracultura cristã nossa prioridade máxima não está no nosso nome, no nosso reino ou na nossa vontade, mas em Deus” [14].

3 – UM MODELO DE ORAÇÃO – APRESENTANDO OS NOSSOS PEDIDOS (Lc 11.3,4).

Uma vez que estamos firmes em nosso relacionamento com Deus e em sua vontade, é possível apresentar nossos pedidos (Lc 11.3,4). Podemos pedir-lhe que supra nossas necessidades (não nossa ganância!) no dia de hoje, que nos perdoe pelo que fizemos ontem e que nos dirija para o futuro. Esses três pedidos abrangem todas as nossas necessidades: provisão material e física, perfeição moral e espiritual e proteção e orientação. Se orarmos dessa maneira, teremos certeza de orar dentro da vontade Deus [15].

1º - Provisão material e física (Lc 11.3). “Dá-nos cada dia o nosso pão cotidiano”. Devemos pedir que Deus supra nossas necessidades diárias, e não nossa ganância insaciável [16]. Aqui “pão” indica tudo o que é necessário para o sustento da vida física [17]. Podemos dizer que a substância deste pedido, pão, abrange todos os requisitos temporais básicas da vida, como a alimentação, habitação, vestuário, cuidados de saúde, e talvez até mesmo governo que oferece paz e ordem na sociedade (cf. Rm 13.1-4).

Leon Morris destaca que o presente continuo, “continua dando” e o de dia em dia tornam claro que devemos confiar em Deus constantemente, e não pedir suprimentos por um período longo e então esquecer-nos dEle [18]. Esse alerta tem base no que está escrito em Dt 8.10-17 conf. Ap 3.17-19.

2º - Perfeição moral (Lc 11.4a). “E perdoa-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos a qualquer que nos deve”. Aqui, diferentemente de Mateus, o Senhor diz que devemos pedir perdão pelos nossos pecados, enquanto que em Mateus o Senhor ensina a pedir perdão pelas nossas dívidas.

Este pedido vai além da necessidade de coisas que sustentam a vida física para a necessidade muito mais significativa, para o que proporciona vida espiritual. O perdão dos pecados é a maior necessidade de cada pessoa (Lc 5.17-20), uma vez que os pecados perdoados nos dá a garantia de que não passaremos pelo julgamento divino e que alcançamos a vida eterna (Rm 8.1).

Leon Morris diz que o Novo Testamento deixa claro que o perdão brota da graça de Deus e não de qualquer mérito humano. Pelo contrário, o pensamento avança do menor para o maior: visto que até mesmo homens pecaminosos como nós podem perdoar, podemos aproximar-nos confiantemente de um Deus misericordioso [19].

3º - Proteção espiritual (Lc 11.4b). “E não nos conduzas à tentação, mas livra-nos do mal”. A primeira vista, este pedido parece intrigante. Esta palavra, fora do contexto da Escrituras, dá a entender que Deus às vezes faz com que um homem seja tentado, no entanto, Tiago 1.13 nos assegura que Ele nunca faz assim (Tg 1.13). Pelo contrário, Jesus está encorajando a fugir da tentação (cf. 1Co 6.18; 10.14; 1Tm 6.11; 2Tm 2.22). O cristão reconhece sua fraqueza, reconhecendo a facilidade com que cede diante das tentações do mundo, da carne e do diabo. Portanto ele ora para que seja liberto de todas elas.

Devemos reconhece com humildade que somos fracos. Reconhecer que o mundo é mal, caído e, inevitavelmente, é um ambiente hostil e perigoso. Nós enfrentamos perigos físicos, perigos mentais e intelectuais e perigos espirituais. O apóstolo Paulo nos lembra muito bem em Ef 6.1-18 que estamos em guerra. Que o mundo jaz no maligno (1Jo 5.19). Por isso devemos pedir proteção moral e espiritual, rogando ao Pai que nos livre das ciladas do diabo, do laço do passarinheiro e dos ardis da tentação do maligno [20].  

CONCLUSÃO

Vemos nesse texto que a prática da oração nos leva a ter consciência da nossa total dependência de Deus. Que a oração correta nos leva a termos também consciência dos nossos pecados e que precisamos da misericórdia de Deus para alcançarmos o Seu perdão.

Vemos que os discípulos estavam interessados em aprender a orar e não em aprender a pregar ou a operar milagres. A vida devocional de Jesus despertou nos seus discípulos esse mesmo interesse. Vimos também que a oração dada por Jesus nos mostra como devemos orar, orar de forma coerente e de acordo com a Sua vontade.

Que possamos seguir os passos de Jesus e aprendermos a orar como convém, para que em tempo oportuno sejamos ouvidos.

Pense nisso!   

Bibliografia:

1 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 278.

2 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 23.

3 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 182.

4 – Lopes, Hernandes Dias, Casimiro, Arival Dias. Aprendendo a Orar Com Quem Ora, Ed. United Press, São Paulo, SP, 2015, p. 7.

5 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 278.

6 – Ferreira, Franklin. Servos de Deus, espiritualidade e teologia na História da Igreja, Ed. FIEL, São José dos Campos, SP, 2013, p. 401.  

7 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 183.

8 – Hanegraaff, Hank. A Oração de Jesus. Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2002; p. 42.

9 – Sttot, John. A Mensagem do Sermão do Monte. Editora ABU, São Paulo, SP, 1986: p. 149.

10 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 183.

11 – Keller, W. Phillip. Orando Diariamente o Pai-Nosso. Editora Vida, São Paulo, SP; p. 67.

12 – Lloyd-Jones, D. Martyn. Estudos no Sermão do Monte. Editora Fiel, São Paulo, SP, 1984: p. 345.

13 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 279.

14 – Sttot, John. A Mensagem do Sermão do Monte. Editora ABU, São Paulo, SP, 1986: p. 152.

15 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 279.

16 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 355.

17 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 111.

18 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 183.

19 – Ibidem, p. 184.

20 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 355.  

domingo, 1 de maio de 2022

O SIGNIFICADO DA CEIA DO SENHOR

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: 1Co 11.23-34

INTRODUÇÃO

As igrejas evangélicas reconhecem duas ordenanças estabelecidas por Jesus Cristo e que devem ser observadas por seu povo: o batismo e a Ceia do Senhor. Sendo que o batismo representa a nova vida que alcançamos em Cristo, a ceia simboliza a morte do Senhor.

O apóstolo Paulo, nesta Primeira Carta aos Coríntios, tratou de maneira objetiva sobre a Ceia do Senhor. Ela foi instituída pelo próprio Jesus na noite em que foi traído. Na sexta-feira, chamada pelos católicos de “sexta-feira da Paixão”. Nessa noite o Senhor foi preso e se deu por nós na cruz do calvário; mas no domingo de Páscoa o nosso Senhor ressuscitou.

Somente aqueles que foram remidos e lavados no sangue do Cordeiro e confessam o nome do Senhor Jesus devem participar desse banquete da graça. Só aqueles que discernem o que Cristo fez na cruz são chamados para participar desse memorial. A Ceia está centralizada na morte expiatória de Cristo e no Seu sacrifício vicário. A cruz de Cristo e não o egoísmo humano está no centro dessa celebração. O sangue de Cristo é o selo da nova aliança. Por meio dele Deus perdoa os nossos pecados e nos salva da ira vindoura [1].

Nesse texto nós encontramos ensinamentos do seu verdadeiro significado.

1 – O QUE PAULO NOS FALA A RESPEITO DA CEIA (1Co 11.23-26).

O apóstolo Paulo nesse texto ensina a igreja de Corinto o verdadeiro sentido da ceia, e mostra que a ceia é mais que um momento de comunhão, ele mostra que a ceia é um momento de celebração, pois o nosso Senhor não ficou no sepulcro, mas ressuscitou dentre os mortos e vive para todo o sempre. Leon Morris diz que é praticamente certo que esta epístola foi escrita antes de qualquer dos evangelhos, o que significa que este é o mais antigo relato que temos da instituição da Santa Comunhão [2].

Esse texto nos ensina algumas lições:

1º - Paulo mostra que a ceia é uma revelação (1Co 11.23a). Paulo deixa claro que o que ele está ensinando não é a sua própria opinião, mas Palavra revelada de Deus. Não é um ensinamento humano, mas uma ordenação divina. Jesus na noite em que foi traído deixou essa ordenança (Lc 22.17-20).

Alguns intérpretes acreditam que o apóstolo Paulo recebeu essa revelação diretamente do Senhor e não através dos outros apóstolos (cf. Gl 1.11,12). No entanto, a maioria dos intérpretes entende que Paulo quis dizer que a ceia faz parte das tradições da igreja e que essas tradições eram firmemente cridas como algo dado pelo próprio Senhor Jesus; e então Paulo, na qualidade de apóstolo de Cristo, expressou essas tradições com a sua autoridade apostólica [3].

Mas quanto a isso pouco nos importa, pois uma coisa nós sabemos, essa palavra procede de Deus para nós. O apóstolo recebeu do Senhor e nos ensinou o que havia recebido dele, seja direta ou indiretamente. Isso nos basta.  

2º - Paulo mostra que a ceia é um convite à comunhão com Cristo (1Co 11.23b). “Na noite em que foi traído”. Nessa noite o Senhor Jesus estava reunido com seus apóstolos em comunhão com eles. Por isso, nós precisamos entender que quando comemos o pão e bebemos o cálice, o Senhor está nos convidando à sua mesa. Ele está nos chamando a comunhão com ele e com nossos irmãos. Se os cristãos participam sem amar seus irmãos, os membros da igreja, eles estão desonrando o próprio Senhor. Por essa razão, precisamos aprender as palavras ditas pelo Senhor quando instituiu sua Ceia [4].

Na noite em que foi traído o Senhor proclamou algo tremendo para todos nós, a Sua salvação. Mesmo sabendo que Judas iria traí-lo, que Pedro iria negá-lo, que os apóstolos fugiriam, o Senhor Jesus não deixou de amá-los. Mesmo sabendo de tudo isso, a Nova Aliança foi estabelecida e a velha Aliança foi rompida. Como Jesus mesmo disse: “Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos” (Jo 15.13).

3º - Paulo mostra que a ceia é um momento de darmos graças (1Co 11.24a). E tendo dado graças. É do termo grego que Paulo usou aqui, “eucharistesas”, que se deriva nossa palavra “eucaristia”, a qual se tornou um termo técnico para indicar a Ceia do Senhor [5]. Jesus deu “graças” mesmo sabendo do que estava por vir. A algumas horas da sua morte na rude cruz, o Senhor deu graças. Jesus fez uma oração de ação de graças, à mesa. Quando Jesus vê toda a realidade de sua paixão e morte diante de si, ele agradece. Não é lamento nem tampouco pesar pela despedida que preenchem seu coração, e sim a gratidão [6]. Sermos gratos a Deus em todo o tempo é uma lição que aprendemos aqui.

4º - Paulo mostra que os elementos da ceia são símbolos do sacrifício de Cristo (1Co 11.24,25). O pão simboliza o corpo do Senhor que foi pendurado no cruz calvário, e o cálice o sangue de Cristo, a nova aliança que estava sendo inaugurada. Em seu corpo pendurado na cruz, Jesus levou sobre si os nossos pecados e o seu sangue derramado nos purifica de todo pecado (1Jo 1.7). A velha aliança estava sendo quebrada e a nova aliança estava começando. Jesus era o nosso Cordeira Pascal que foi entregue na cruz para nos reconciliar para sempre com o Pai.

“Este cálice é o novo testamento do meu sangue”. Essa expressão dá à palavra sangue um sentido espiritual mais profundo. O cálice representa a nova aliança que Jesus ratifica com seu sangue. Quando Moisés confirmou o primeiro pacto no Monte Sinai, ele aspergiu sangue sobre o povo e disse: “Este é o sangue da aliança que o Senhor fez com vocês” (Êx 24.8; ver também Zc 9.11). Sangue animal foi aspergido para o primeiro pacto. O sangue de Cristo, para o novo pacto [7].

Este sacrifício estava sendo realizado por você e por mim: “Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós”. “Este cálice é o novo testamento do meu sangue”. Jesus deu o seu corpo, toda a sua vida encarnada, por nós que cremos nEle.

Existem quatro maneiras de interpretar a ceia, principalmente os seus elementos – o pão e o vinho. Nós temos quatro interpretações:

1) TRANSUBSTANCIAÇÃO – É a ideia de que os elementos, pão e vinho, mudam de substância e se transformam em carne e sangue de Cristo na hora da consagração dos elementos. É a posição do Catolicismo Romano.

2) CONSUBSTANCIAÇÃO – É a posição de Lutero. É a ideia de que Cristo está presente fisicamente nos elementos pão e vinho. Conhecida também como empanação.

3) MEMORIAL – É a posição de Zwuinglio. É a ideia de que a Ceia é a apenas um memorial, ou seja, uma recordação da morte de Cristo – Igreja Batista.

4) MEIO DE GRAÇA – É a ideia de que Cristo está presente espiritualmente na Ceia, como alimento para nossa alma. Esta é a posição da Igreja Presbiteriana.

Temos também três tipos de ceia: a restrita – somente para os crentes em Jesus. A ultra restrita – somente para os membros daquela denominação ou somente para os membros daquela igreja. E a ceia livre – todos os presentes podem participar, independentemente de serem crentes em Jesus ou não. 

5º - Paulo mostra que a ceia deve ser realizada até a vinda do Senhor (1Co 11.26c). A Ceia do Senhor foi instituída para que a igreja pudesse recordar continuamente o sacrifício vicário de Cristo na cruz em seu favor. Todas as vezes que celebramos a Ceia do Senhor, estamos proclamando que o corpo de Cristo foi partido (pendurado na cruz), e dado por nós e seu sangue foi vertido como símbolo da nova aliança, sangue este que nos purifica de todo o pecado. A morte de Cristo é o eixo central do evangelho. Fomos reconciliados com Deus pela morte de Cristo. É pela sua morte que temos vida. Devemos anunciar a sua morte até que ele venha em glória.

João Calvino diz que a Ceia foi instituída com este propósito, a saber: para que Cristo nos lembre do benefício de sua morte, e nós, de nossa parte, possamos reconhecê-la diante dos homens [8]. Por isso, não participar da Ceia do Senhor é desobediência e um pecado visto que a ceia é uma ordenança.

2 – OS PERIGOS EM RELAÇÃO À CEIA DO SENHOR (1Co 11.27-32).

Apesar de cremos que a ceia seja um memorial, nem por isso deve-se participar dela de forma indigna. Jesus se faz presente em nossas vidas e no culto que celebramos a Ele. Por isso, não devemos negligenciar as ordenanças bíblicas e as orientações que Paulo dá em relação a ceia.

1ª – Em primeiro lugar, não devemos participar indignamente (1Co 11.27). Leon Morris diz que ninguém jamais pode se considerar digno da bondade de Cristo para conosco [9]. Aquele que pensa que é digno da bondade de Cristo não entendeu o seu estado pecaminoso. Não entendeu que foi devido ao seu pecado que Jesus morreu na cruz. Mas há um segundo problema, é achar que nunca é digno de participar da ceia. Quem pensa assim também não entendeu que a razão de participarmos dela, que é exatamente porque Jesus já pagou um alto preço por nós e, devido a isso, somos dignos de estar participando de sua mesa.

Participar indignamente deve ser entendido segundo o contexto de 1Co 11.17-22. Paulo quis dizer que a decência comum deve ser observada; não pode haver qualquer das desordens de glutonaria, de embriaguez, de egoísmo, de degradação a outros, de contendas entre os crentes, de grupos facciosos, etc., todas essas práticas atuavam como elementos perturbadores da igreja de Corinto, que profanavam sua observância da Ceia do Senhor [10]. Participar da Ceia indignamente é assentar-se à mesa de forma leviana e irrefletida.

Participar da ceia do Senhor indignamente é não entender o que Jesus fez por nós na cruz. É não entender o significado do pão e do cálice. É não perceber que aquele pedaço de pão representa o corpo do nosso Senhor que foi pendurado no madeiro por nós, levando sobre si os nossos pecados. Ele se fez maldito em nosso lugar (Gl 3.13; Cl 2.14). É não entender que o cálice representa o seu sangue inocente que foi derramado para nos purificar de todo o pecado. Éramos escravos do pecado, mas mediante o seu sangue fomos libertos.

Um exemplo do que estamos falando, quando alguém pisa ou queima a bandeira do nosso país, essa pessoa não está desonrando um pedaço de pano, mas está desonrando o país que ela representa. E caso você não saiba, isso é crime. Quando participamos da ceia indignamente estamos desonrando o nosso Salvador. E isso é pecado. 

2º - Em segundo lugar, as consequências de participarmos da ceia indignamente (1Co 11.27-30). Participar da ceia não nos trará nenhuma bênção especial. Não seremos mais santos ou iremos alcançar a salvação por causa disso. Os que participam da ceia já estão debaixo da bênção do Senhor (Ef 1.3). No entanto, se participarmos dela de forma indigna traremos castigo para nossas vidas. O apóstolo Paulo enumera algumas dessas consequências.

1 – Será culpado do corpo e do sangue do Senhor (1Co 11.27c). A versão ARA traz a palavra réu. Em outras palavras, “será culpado de”, presumivelmente como participante na causa da morte de Cristo, ou antes, “será culpado de profanar o corpo”, etc. Isso torna o indivíduo culpado de “violar” ou de “pecar contra” o corpo e o sangue de Cristo [11]. Ser réu do corpo e do sangue de Cristo Jesus é um pecado gravíssimo.  Você só tem dois lados para estar em relação ao sangue. Você está debaixo dos benefícios do sangue ou está do lado daqueles que levaram Jesus para a cruz e o mataram. Você é assassino de Cristo ou é beneficiário do sangue de Cristo. Participar indignamente da Ceia e ser réu do corpo e do sangue de Cristo; é estar na mesma posição de Anás, Caifás, Pilatos e os soldados romanos que pregaram Jesus na cruz. Assim, existem duas possibilidades: Você está debaixo dos benefícios do sangue de Cristo ou é réu do corpo e do sangue do Senhor [12]. David Prior diz que quando Paulo fala de alguém que come o pão e bebe o cálice indignamente, tornando-se réu do corpo e do sangue de Cristo, ele está dizendo que nos tornamos culpados de derramar o sangue de Cristo; isto é, nos colocamos, não do lado dos que estão participando dos benefícios de sua paixão, mas do lado dos que foram culpados por sua crucificação [13].

2 – Come para sua própria condenação (1Co 11.29,30). A versão ARA diz que come e bebe juízo para si. Uma pessoa que participa da ceia sem discernir a sua forma correta come e bebe juízo para si mesmo. A palavra grega aqui usada para juízo ou condenação é krima, aqui tem a ideia de castigo para o crente em Jesus, não de condenação eterna (Rm 8.1), é uma correção pedagógica. Há uma grande diferença no uso da palavra condenação que Paulo usa no v. 29, aqui ele usa a palavra krima no grego (julgamento) e katakrima (condenado) no versículo v. 32. A palavra krima refere-se a disciplina dos salvos e katakrima refere-se a condenação dos perdidos (para não sermos condenados com o mundo).

O versículo 30 nos fala de punições temporais e não eternas. Punições que vem sobre a vida do crente que é leviano em relação a ceia. Naturalmente, Paulo não quis dar a entender que “todas as enfermidades” são motivadas por algum pecado, porquanto ele mesmo sofria de um “espinho na carne”, tendo recebido a revelação que esse espinho lhe fora dado a fim de conservá-lo humilde, para que pudesse aprender melhor a confiar na graça de Deus em favor dele (2Co 12.7). Na verdade, a enfermidade física pode ter certo efeito disciplinador (Hb 12.5-7). E essa disciplina não significa necessária e especificamente que ela tenha sido motivada por algum pecado cometido [14].

João Calvino diz que não se pode afirmar se nesse tempo alguma praga os atormentava, ou se eram afligidos por outros gêneros de enfermidades. Seja como for, deduzimos do que Paulo diz que o Senhor havia enviado algum tipo de açoite para discipliná-los [15]. Paulo enumera três as punições que vieram sobre a igreja de Corinto: fraqueza, doença e morte física. Werner de Boor diz que pelo fato de que na celebração indigna da ceia se trata de comer e beber, a culpa também tem um efeito físico, em fraqueza e enfermidade, sim, ela até leva a falecimentos. Mais uma vez fica claro todo o realismo na compreensão paulina da santa ceia [16].

3 – Não discernindo o corpo do Senhor (1Co 11.29c). Paulo está falando de dois corpos aqui. O primeiro corpo é o corpo físico de Cristo. E o corpo que foi moído e traspassado na cruz. Contudo, há outro corpo que precisa ser discernido. E o corpo místico de Cristo. Qual é o corpo místico de Cristo? A Igreja! Quando você vem para a Ceia, mas, despreza o seu irmão, fazendo acepção de pessoas, ou nutrindo mágoa em seu coração, você está participando da Ceia sem discernir o corpo. E se você participa da Ceia sem discernir o corpo, você está participando de forma indigna [17].

Essa palavra de Paulo tem um paralelo com o Salmo 133 que nos diz: “Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união. É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desce sobre a barba, a barba de Arão, e que desce à orla das suas vestes. Como o orvalho de Hermom, e como o que desce sobre os montes de Sião, porque ali o Senhor ordena a bênção e a vida para sempre”.

Sem o discernimento do Corpo de Cristo não pode haver o derramar da graça mediante o Espírito Santo e, logicamente, não pode ter bênção e nem vida. 

3 – COMO DEVEMOS PARTICIPAR DA CEIA (1Co 11.28,33).

Esses versículos nos ensinam verdades fundamentais para participarmos da ceia.

1º - Para participar da ceia deve-se fazer um autoexame (1Co 11.28a). Os que estarão participando da ceia devem examinar-se a si mesmo. Olhar para dentro de si, vasculhar o seu coração e mente. Werner de Boor diz que a verdadeira – dignidade para a mesa do Senhor Jesus reside unicamente na minha – indignidade real e por mim mesmo confirmada [18]. O texto nos diz para olharmos para nós mesmos e participarmos da ceia, e não olharmos para a vida do irmão ao lado. Tem gente que deixa de participar da ceia porque fica bisbilhotando a vida alheia. Você não é o juiz do seu irmão. Em vez de examinar e julgar a vida alheia; examine-se a si mesmo e julgue-se a si mesmo. Investigue o seu coração. Analise a sua vida.

2º - Depois do autoexame coma do pão e beba do cálice (1Co 11.28b). E digno observar que Paulo diz: Examine-se o homem a si mesmo e coma. Paulo não diz: Examine-se o homem e deixe de comer. Você não deve fugir da Ceia por causa do pecado, mas fugir do pecado por causa da Ceia. A Ceia é um instrumento de restauração. A Ceia é um tempo de cura, de reconciliação e restauração. A Ceia é o momento em que devemos aguçar os sentidos da nossa alma para examinar-nos e nos voltarmos para o Senhor. Na Ceia devemos correr do pecado para Deus e não de Deus para o pecado. A ordem de Paulo é: Examine-se e coma! [19]. Amém?

3º - Esperar uns pelos outros (1Co 11.33). Essa palavra é usada aqui em sentido literal. É como se Paulo tivesse escrito: “Esperai até todos terem chegado, antes de iniciardes a festa”. A Ceia do Senhor tem por propósito fomentar o companheirismo espiritual, não tendo por finalidade principal satisfazer a necessidade que o corpo tem de alimentos. Se porventura algum crente está com fome, pode comer em sua própria casa [20]. Entendendo aqui que a ceia na igreja primitiva era uma festa com muito alimento. Devido a isso Paulo chama a atenção da igreja de Corinto, pois alguns que não tinham o que comer passam fome na ceia (1Co 11.21,22).

4º - Paulo mostra que quando participamos da ceia devemos olhar para quatro direções. Warren Wiersbe destaca quatro pontos que Paulo ensinou sobre a Ceia, e que devemos ainda hoje observar sempre que nos reunirmos para a Ceia do Senhor: devemos olhar para trás, para a frente, para dentro e ao redor [21].

a) Devemos olhar para trás (1Co 11.24,26a). Quando você participa da Ceia, você deve olhar para trás, para a cruz de Cristo (11.26). Jesus está ordenando que a igreja se lembre não dos Seus milagres, mas da Sua morte. Devemos olhar para trás e nos lembrar por que Cristo morreu, como Cristo morreu, por quem Cristo morreu. Cristo é o centro da Ceia. A Ceia é uma pregação dramatizada do calvário [22].

Devemos lembrar o fato de Jesus haver morrido, pois sua morte faz parte da mensagem do evangelho: “Cristo morreu [...] foi sepultado” (1Co 15.3,4). Não é a vida de Cristo nem seus ensinamentos que salvam os pecadores, mas sua morte. Portanto, devemos nos lembrar do motivo dele ter morrido: Cristo morreu por nossos pecados; foi nosso substituto (Is 53.6; 1 Pe 2.24), quitando uma dívida que jamais poderíamos pagar [23].

b) Devemos olhar para a frente (1Co 11.26). Quando participa da Ceia, você não olha somente para trás, mas também para a frente. Paulo diz: “Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha” (11.26). A Ceia nos aponta para a segunda vinda de Cristo, quando Ele vier buscar a Sua Igreja.

c) Devemos olhar para dentro (1Co 11.28). Quando você celebra a Ceia, não somente olha para trás e para a frente, mas também olha para dentro. Investigue o seu coração. Analise a sua vida. E digno observar que Paulo diz: Examine-se o homem a si mesmo e coma.

d) Devemos olhar ao redor (1Co 11.33,34). Quando você participa da Ceia, você olha ao redor (11.33,34). Paulo está orientando os crentes a esperarem uns pelos outros para uma verdadeira comunhão. E caso alguém tenha que se reconciliar com algum faça e procure ter paz com todos os irmãos.

CONCLUSÃO

A ceia é algo que vai muito além de comer o pão e beber o cálice. A ceia é nos lembrarmos da morte de Cristo e reconhecermos o que Ele fez por nós na cruz. Não devemos participar da ceia com partidarismo e ódio no coração, mas buscar estar em paz com os nossos irmãos. É fugir do pecado para os braços de Deus.

Pense Nisso!

Bibliografia

1 – Lopes, Hernandes Dias. 1 Coríntios, como resolver conflitos na Igreja, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2008, p. 216.

2 – Morris, Leon. 1 Coríntios, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 3ª ed., 1986, p. 128.

3 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, 1 Coríntios, vol. 4, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2002, p. 180.

4 – Kistemaker, Simon J. Comentário de 1 Coríntios, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 546.

5 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, 1 Coríntios, vol. 4, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2002, p. 180.

6 – Boor, Werner de. Cartas aos Coríntios, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2004, p. 93.

7 – Kistemaker, Simon J. Comentário de 1 Coríntios, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 552.

8 – Calvino, João. 1 Coríntios, Ed. FIEL, São José dos Campos, SP, 2015, p. 415.

9 – Morris, Leon. 1 Coríntios, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 3ª ed., 1986, p. 131.

10 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, 1 Coríntios, vol. 4, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2005, p. 183.

11 – Ibidem, p. 183.

12 – Lopes, Hernandes Dias. 1 Coríntios, como resolver conflitos na Igreja, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2008, p. 218.

13 – Prior, David. A Mensagem de 1 Coríntios, Ed. ABU, São Paulo, SP, 1993, p. 202.

14 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, 1 Coríntios, vol. 4, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2005, p. 185.

15 – Calvino, João. 1 Coríntios, Ed. FIEL, São José dos Campos, SP, 2015, p. 421.

16 – Boor, Werner de. Cartas aos Coríntios, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2004, p. 95.

17 – Lopes, Hernandes Dias. 1 Coríntios, como resolver conflitos na Igreja, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2008, p. 219.

18 – Boor, Werner de. Cartas aos Coríntios, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2004, p. 94.

19 – Lopes, Hernandes Dias. 1 Coríntios, como resolver conflitos na Igreja, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2008, p. 215.

20 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, 1 Coríntios, vol. 4, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2005, p. 186.

21 – Wiersbe, Warren W. 1 Coríntios, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 792,793.

22 – Lopes, Hernandes Dias. 1 Coríntios, como resolver conflitos na Igreja, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2008, p. 215.

23 – Wiersbe, Warren W. 1 Coríntios, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 792.