domingo, 21 de agosto de 2022

UMA HIPOCRISIA REVELADA - Lucas 11.37-54

Por Pr Silas Figueira

Texto base: Lucas 11.37-54

INTRODUÇÃO

Jesus mais uma vez foi convidado a fazer uma refeição na casa de um fariseu. Não era a primeira vez que tal coisa acontecia. Em outra ocasião o Senhor havia sido convidado também (Lc 7.36-49). Wiersbe destaca que a essa altura do ministério de Cristo, quando os líderes religiosos já haviam decidido matá-lo, o que levou um fariseu a convidá-lo para uma refeição em sua casa? Se estivesse buscando a verdade de coração, teria conversado com Jesus em particular. Ao que parece, procurava uma oportunidade de acusar Jesus e pensou tê-la encontrado, quando Jesus não realizou a lavagem cerimonial antes de comer (Mc 7.2,3) [1]. Jesus aproveita o momento para mostrar a insensatez desse fariseu e condenar os pecados do farisaísmo (11.42- 52) [2].

Parece que o contato de Jesus com os fariseus, até mesmo quando era um convidado deles, jamais produziu resultados favoráveis, pois se via forçado a pronunciar alguma reprimenda negativa [3]. Jesus não poderia evitar o conflito com o pecado e o erro, mesmo que tivesse que confrontá-lo à mesa no momento de uma refeição. Jesus era paciente e amoroso com os pecadores, mas era severo e até, para alguns, rude com os hipócritas. Estamos vivenciando uma época em que a promoção da tolerância e da diversidade está sendo visto como as mais altas virtudes, devido a isso, muitas pessoas são incapazes de distinguir a verdade do erro. Por isso que o engano tem dominado as mentes das pessoas. Mesmo aqueles que se dizem cristãos defendem tolerar falsos mestres em nome do amor, aceitação, paz e unidade. Coisa que Jesus nunca fez.

Muitas das declarações de Jesus relativas aos fariseus e doutores da lei nesta passagem são muito parecidas com suas acusações a esses mesmos grupos em Mateus 23. Estas não são, no entanto, duas versões do mesmo discurso, mas dois discursos proferidos pelo Mestre em duas ocasiões diferentes. Os eventos e ensinos registrados em Mateus 23 ocorreram em Jerusalém durante a Semana da Paixão; o episódio que estamos considerando em Lucas aconteceu enquanto Jesus estava na Peréia, a caminho de Jerusalém [4].

Quais as lições que esse texto tem para nós hoje?

1 – JESUS DISCERNE O PENSAMENTO DO FARISEU (Lc 11.37-38).

Quando Jesus entrou, o fariseu admirou-se que Jesus não se lavara (o verbo é baptizõ) antes da refeição. Isto nada tinha a ver com a higiene, mas, sim, era uma regra feita visando a pureza cerimonial. Antes de comer alguma coisa, os judeus escrupulosos mandavam derramar água sobre suas mãos para remover a contaminação contraída pelo seu contato com um mundo pecaminoso [5]. As abluções rituais, observadas antes das refeições, não foram prescritas por qualquer regulamento de lei mosaica, mas eram elaboradamente observadas pelos fariseus, em obediência à legislação oral criada pelos escribas (Mc 7.3,4) [6]. Por Jesus não ter agido segundo as suas tradições, este fariseu ficou admirado da Sua conduta.

Com isso em mente podemos destacar duas coisas:

1º - Jesus não tem compromisso com tradições humanas. Esses hábitos inventados pela tradição oral dos escribas não tinha nenhum respaldo bíblico, por isso Jesus não tinha nenhum compromisso em observá-la como eles observavam.

Muitas pessoas inventam usos e costumes, coisas até mesmo absurdas em nome de Deus. Aplicam proibições em coisas que a Bíblia não proíbe e liberam o que a Bíblia proíbe. E, geralmente, o peso recai muito mais sobre as mulheres.

2º - As tradições humanas afastam as pessoas de Deus. Muitas pessoas são tão presas às tradições e a usos e costumes que se afastam de Deus. Tradições são práticas, ensinamentos e costumes transmitidos de outras pessoas, muitas vezes, de uma geração para outra. Os religiosos da época de Jesus guardavam longas listas de regras inventadas e transmitidas por homens, princípios que não vieram da Lei revelada pelo Senhor. Tudo isso não passava de idolatria, pois eles colocavam em pé de igualdade as suas tradições com a Lei de Moisés.

2 – AS ACUSAÇÕES DE JESUS CONTRA OS FARISEUS (Lc 11.39-44).

Tudo indica que Jesus propositadamente não lavou as mãos antes do jantar. Se a ação de Jesus foi de fato deliberada, Ele deve ter tido dois motivos: a) Ele estava expressando sua reprovação a uma regra que, além de não ter significado, obscurecia um importante princípio e ocasionava um pretexto hipócrita; b) Ele, provavelmente, estava tentando provocar uma discussão com os fariseus exatamente sobre esses assuntos. Assim, Jesus e o fariseu (ou fariseus, se outros estivessem trabalhando por meio deste) estariam tentando precipitar o conflito verbal. Com certeza, Jesus não estava sendo vingativo; Ele estava tentando ajudar os fariseus a verem a verdade e, ao mesmo tempo, estava tentando salvar outros da influência corruptora do farisaísmo [7].

Jesus condena os fariseus pela hipocrisia da sua religião de aparência.

1º - Primeiro, os fariseus eram superficiais na conduta de fé. Embora o fariseu não dissesse nada, o Senhor sabia o que se passava em sua mente e entendeu que ele estava perturbado porque Jesus tinha ignorado a lavagem ritual. Imediatamente, sem pedir desculpas e sem deferência, Jesus confrontou a superficialidade do fariseu e lhe disse: “E o Senhor lhe disse: Agora vós, os fariseus, limpais o exterior do copo e do prato; mas o vosso interior está cheio de rapina e maldade” (Lc 11.39).

2º - Segundo, os fariseus não se preocupavam em ter um coração puro (Lc 11.39-41). Jesus expõe a hipocrisia dos fariseus que são zelosos na purificação cerimonial e descuidados com a santificação do coração. Denuncia a espiritualidade das aparências farisaicas sem o concurso de uma vida piedosa. Do que vale seguir à risca os rituais cerimoniais sem observar a purificação do coração? Jesus declarou que lavar o corpo enquanto o coração permanece impuro é tão absurdo quanto lavar por fora um prato sujo por dentro [8]. Os fariseus falham em não purificar o coração “de rapina e perversidade”. Essa purificação interior é infinitamente mais importante do que a observação de seus preceitos exteriores de purificação [9].

Jesus mostra que o interior deve refletir no exterior, pois somos o que demonstramos ser interiormente e não o contrário (Lc 11.40,41). Jesus chama a atenção que os fariseus deveriam dar, generosa e amorosamente, de sua natureza mais íntima – seu amor, sua compaixão, sua devoção, seu próprio ser. O versículo 39 implica que esses fariseus estavam roubando os pobres [10].

Observe que Jesus chamam esses homens de “loucos” (v. 40). Loucos! Aphrones – grego (tolos, sem juízo, bobos) descreve aqueles que são ignorantes, que não têm bom senso e pensam superficialmente. Jesus então pergunta: “Quem fez o exterior fez também o interior?”, era uma repreensão inconfundível. É pensar que Deus santo só estaria preocupado com a sua observância de rituais externos e não sobre seus corações era o cúmulo da loucura.

Essa denúncia de Jesus em relação aos fariseus continua hoje. Não é incomum vermos cristãos preocupados em demasia com os usos e costumes, mas não vigia a língua, o mau testemunho na sociedade. Muitos, infelizmente, são maus pagadores. Péssimos pais de família. Guardam ódio no coração.

Bem disse Jesus em Mateus 5.8: “Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus”.

- A partir do versículo 42 começa os “ais” de Jesus. “Ai” é uma expressão de pesar, não de índole vindicativa, e tem um significado como “Que pena!” [11]. Os primeiros três “ais” são dirigidos especificamente aos fariseus por suas prioridades erradas; os últimos três, aos escribas, especialistas na lei, ou “advogados”. Doutores da Lei.

3º - Os fariseus dizimavam do supérfluo e deixavam de dizimar do que era essencial (Lc 11.42). O que provocou esse primeiro “ai” era a devoção dos fariseus ao que era de importância secundária. Era costume entre eles, até se excediam, dando ao Senhor a décima parte de todas as pequenas ervas aromáticas que cultivavam em suas hortas, e exigiam de seus seguidores que fizessem o mesmo. Segundo eles o viam, a hortelã de “aroma adocicado”, a arruda de aroma forte, de fato toda erva de hortaliça, devia ser dizimada sem falta! Mas, na lei de Moisés não se diz uma palavra sequer acerca do dízimo dessas coisas [12].

No entanto, eles haviam Deixado completamente de lado o cerne da lei, de julgar com justiça e com o amor a Deus. Jesus ordena que a essência da lei seja cumprida; já as coisas secundárias, como o dízimo das ervas da horta, tampouco devem ser deixadas de lado!

4º - Os fariseus prezavam a reputação acima do caráter (Lc 11.43). Acreditavam que se tomariam mais espirituais ao se assentar nos lugares certos e ao ser reconhecidos pelas pessoas certas. Reputação é aquilo que as pessoas pensam que somos; caráter é aquilo que Deus sabe que somos [13]. Os fariseus eram hipócritas, orgulhosos e desprezavam as pessoas comuns (Jo 7.49), e deixavam de fazer justiça aos mais necessitados. Não obstante, queriam ser amados, admirados, reverenciados, respeitados, e se colocavam em uma posição elevada, acima de todos os outros.

5º - Os fariseus contaminavam o ambiente que viviam (Lc 11.44). Segundo um costume judaico, pouco antes da chegada das grandes caravanas de pessoas que viajavam para Jerusalém com o fim de assistir à Páscoa, os sepulcros eram caiados. Isso era feito para que ficassem bem visíveis, de modo que ninguém se contaminasse cerimonialmente ao andar inadvertidamente sobre um sepulcro (Nm 19.11-22) [14].

No entanto, os fariseus eram como sepulturas sem qualquer identificação (invisíveis); sua aparência não correspondia, de maneira alguma, à realidade! Isso significa que, inconscientemente, contaminavam os outros quando, na verdade, pensavam estar ajudando-os a se tornar mais santos! Ao invés de ajudar as pessoas, os fariseus as prejudicavam [15]. Os homens que passavam por sepulturas não marcadas tornavam-se cerimonialmente impuros. E os homens que andavam no ensino e nos caminhos dos fariseus tornavam-se moralmente impuros [16].

Como nos fala o autor de Hebreus 12.14,15: “Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor; tendo cuidado de que ninguém se prive da graça de Deus, e de que nenhuma raiz de amargura, brotando, vos perturbe, e por ela muitos se contaminem”.

3 – AS ACUSAÇÕES DE JESUS CONTRA OS DOUTORES DA LEI (Lc 11.45-52).

Uma objeção feita por um professor da Lei levou o discurso de Jesus em outra direção, pois um dos especialistas na lei não pôde conter-se por mais tempo e reagiu ao discurso de Jesus. Esse homem pergunta a Jesus se ele não percebe que ao atacar os fariseus está também “insultando” os especialistas na lei. Diante desse argumento Jesus então se volta para os doutores da lei. Os intérpretes da lei eram homens que se entregavam ao estudo da Lei do Antigo Testamento.

Jesus então profere três “ais” contra eles também.

1º - Os escribas colocavam fardos pesados sobre as pessoas que eles mesmos não carregavam (Lc 11.46). Esta é uma acusação brutal aos escribas (doutores da lei) por suas interpretações mesquinhas da lei escrita em seus ensinamentos orais (posteriormente, registradas por escrito como Mishna e depois como Gemara). Esta terrível carga, os doutores da lei não pretendiam carregar, nem mesmo “com um de seus dedos tocar” para ajudar as pessoas [17]. A Mishna determina que é mais importante observar as interpretações escribais do que a própria Lei. Os intérpretes da lei deveriam fazer uma tal exposição da Lei de Deus que ajudasse e inspirasse aos homens. Pelo contrário, fizeram dela um fardo cansativo [18].

2º - Os escribas seguiam as mesmas pegadas de seus pais, que foram assassinos de profetas (Lc 11.47-51). O primeiro martírio registrado no Antigo Testamento foi o de Abel, e o último, o de Zacarias (ver Gn 4.1-15; 2Cr 24.20-27, lembrando que 2Cr é o último livro da Bíblia hebraica) [19]. A segunda crítica foi o tratamento que os intérpretes da lei tinham dado aos profetas. Sustentavam que estavam honrando os heróis da fé ao edificar túmulos esplêndidos para eles. Mas realmente, nada mais faziam senão completar a obra daqueles que os mataram. O mesmo espírito operava em ambos os grupos. Sua ação dava assentimento inconsciente aos assassinos. É sempre mais fácil honrar santos mortos do que santos vivos. As vidas dos edificadores dos túmulos dos profetas mostravam por demais claramente que eram do mesmo espírito dos assassinos [20].  

3º - Os escribas não entravam no Reino e impediam os outros de entrarem (Lc 11.52). O terceiro “ai” contra os professores da lei diz que a Escritura Sagrada é um livro fechado para eles mesmos e para o povo [21]. Jesus diz que os intérpretes da lei tomam a chave do conhecimento e a escondem, não entrando no reino nem deixando que as pessoas entrem. Os escribas eram culpados de privar as pessoas comuns do conhecimento da Palavra de Deus. Em vez de abrir as Escrituras para o povo e explicá-las fielmente, eles impediam as pessoas de entenderem a Palavra [22]. Wiersbe diz que Jesus é a chave para o entendimento das Escrituras (Lc 24.44-48). Quando se remove a chave, não é possível entender o que Deus escreveu [23].

4 – JESUS SUSCITA A IRA DOS FARISEUS E DOUTORES DA LEI (Lc 11.53,54).

Infelizmente, os fariseus e os escribas não conseguiram dar ouvidos às advertências de Jesus. Em vez de se arrependerem de seus pecados, repudiando seu falso sistema de religião, e pedindo misericórdia divina, eles se tornaram ainda mais agressivos e hostis com Jesus. Enechō em grego (hostil) poderia ser traduzido como “guardar rancor”. Eles não apenas não concordavam com Jesus teologicamente, a animosidade contra Jesus era pessoal devido expô-los publicamente como falsos mestres.

Os escribas e os fariseus tentavam fazer Jesus errar em suas palavras (Lc 11.53,54). A última coisa que os hipócritas querem é ver seus pecados revelados, pois isso prejudica sua reputação. Em vez de se oporem ao Senhor, esses homens deveriam buscar sua misericórdia. Começaram a atacá-lo deliberadamente com perguntas capciosas, na esperança de pegá-lo em alguma heresia e de mandar prendê-lo. Que maneira vergonhosa de tratar o Filho de Deus! [24].

Diante do que Jesus falou esses homens se sentiram humilhados e resolveram confrontar Jesus ao invés de se arrependerem de seus pecados. E a ira deles se tornou ainda maior porque Jesus não fez isso em oculto, em uma conversa particular, mas à vista de muitas pessoas. Veja o capítulo 12.1: “Ajuntando-se entretanto muitos milhares de pessoas, de sorte que se atropelavam uns aos outros, começou a dizer aos seus discípulos: Acautelai-vos primeiramente do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia”.

CONCLUSÃO

A igreja de Jesus Cristo deve, em qualquer tempo e lugar, estar sempre vigilante contra os falsos mestres que fingem serem morais, finge que amam a Deus, e que ensinam a verdade, mas, na realidade, são pecaminosos, tolos egoístas, desprovido de poder espiritual, de vida espiritual e da verdade espiritual. Porque eles são culpados de “falarem coisas perversas, para atraírem os discípulos após si” (At 20.30), eles não devem ser recebidos em nome da tolerância, mas devem ser rejeitados, pois, “promovem dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles” (Rm 16.17). Esses tais devem ser confrontados em nome da sã doutrina e por amor a Deus!

Pense nisso!

Bibliografia:

1 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 282.

2 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 373.

3 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, Lucas, vol. 2, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2005, p. 120.

4 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 420.

5 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 191.

6 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, Lucas, vol. 2, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2005, p. 120.

7 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 421.  

8 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 374.

9 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 172.

10 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 421. 

11 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 192.

12 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 149.

13 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 282.

14 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 151.

15 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 282.

16 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 193.

17 – A. T. Robertson. Comentário de Lucas, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2013, p. 225.

18 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 193.

19 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 283.

20 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 194.

21 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 174.

22 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 376.

23 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 283.

24 – Ibidem, p. 283.

sábado, 6 de agosto de 2022

JESUS LAVOU OS PÉS DOS DISCÍPULOS DELE

Esta é uma leitura errada das Escrituras de acordo com os ideais humanistas pós-modernos.

É verdade que Jesus lavou os pés de seus discípulos, mas a palavra-chave operativa aqui é "d'Ele". Em outras palavras, ele não lavou os pés de todo e qualquer um, mas apenas os daqueles que o Pai lhe deu. De fato, depois de lavar os pés de seus discípulos, ele fez esta oração por eles:

"Eu revelei o teu Nome àqueles que do mundo me deste. Eles eram teus; Tu os confiaste a mim, e eles têm obedecido à tua Palavra. Agora, eles entendem que tudo o que me deste vem de Ti. Pois Eu compartilhei com eles as palavras que me deste, e eles as aceitaram. Eles reconheceram, de fato, que vim de Ti e creram que me enviaste. Eu rogo por eles. Não estou orando pelo mundo, mas por aqueles que me deste, pois são teus. Tudo o que tenho é teu, e tudo o que tens é meu; e neles Eu Sou glorificado. Agora, não ficarei muito mais no mundo, mas estes ainda estão no mundo, e Eu vou para Ti. Pai santo, protege-os em Teu Nome, o Nome que me deste, para que sejam um, assim como somos um. Enquanto Eu estava com eles, protegi-os e os defendi em teu Nome. E nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição, para que se cumprisse a Escritura."

(João 17:6-12 - KJA)

Claramente, então, nosso Senhor Jesus Cristo — o verdadeiro Senhor das Escrituras, não a imaginação vã e hippie de uma cultura sem Deus — intercede e ora em favor apenas dos que são d'Ele. Em outras palavras, Ele não saiu aleatoriamente lavando pés, como se estivesse desesperado pela atenção de todos, mas apenas daqueles que o Pai em Sua soberana graça lhe deu.

Não, Jesus não lavou os pés de Pôncio Pilatos, ou Herodes, ou Caifás, etc., mas somente aqueles que o Pai escolheu.

Qualquer coisa menos do que isso ou fingir que Jesus sai lavando os pés de alguém sem nenhum chamado real à salvação e santificação, bem… não passa de uma completa degradação e corrupção do verdadeiro Evangelho de nosso Senhor que reduz Cristo a um “mendigo por amor”: quem faz isso é o falso Gezuz hippie da cultura hollywoodiana que predomina em nosso tempo.

(Tradução adaptada a partir de publicação de Cristiano Conservador)

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

NÃO DESPERDICE AS OPORTUNIDADES - Lucas 11.29-36

Por Pr Silas Figueira

Texto base: Lucas 11.29-36

INTRODUÇÃO

Durante todo o Seu ministério, o Senhor Jesus Cristo enfrentou a hostilidade e oposição, principalmente dos líderes da seita religiosa judaica; os escribas, fariseus e saduceus. Em Mateus 12.38 nos diz que os escribas e os fariseus tentaram colocar Jesus em dificuldades, pedindo que Ele lhes mostrasse algum sinal. O Mestre tinha acabado de lhes dar um maravilhoso sinal, ao libertar o endemoninhado cego e mudo. Mas eles procuravam alguma coisa ainda mais sensacional e espetacular. O texto de Lucas 11.16 indica que eles estavam pedindo “um sinal do céu” que provasse que Ele era o Messias [1]. Eles queriam um sinal do céu, algo como a chuva de maná no deserto (Êx 16.4s) ou a parada do sol e da lua (Js 10.13) ou a chuva de fogo do céu em Elias (1Rs 18.38). A exigência do sinal era tão-somente um pretexto para justificar sua incredulidade [2].

Jesus já tinha curado enfermos, purificado leprosos e ressuscitado mortos, e eles ainda se mantinham reféns de seu coração endurecido. Até mesmo quando Jesus estava dependurado no madeiro, disseram-lhe: Desce da cruz e creremos em ti. O problema deles, entretanto, não era evidência suficiente, mas cegueira incorrigível [3].

No relato de Marcos, Jesus diz simplesmente: “a esta geração não se lhe dará sinal algum” (Mc 8.12). Eles estavam tão cegos em seu ódio contra Jesus, que eles não perceberam as oportunidades espirituais que estavam perdendo.

Vejamos quais as lições que podemos aprender com esse texto.

1 – JESUS NÃO SE SURPREENDEU COM A INCREDULIDADE DAQUELA GERAÇÃO (Lc 11.29).

Jesus não se surpreendeu com a incredulidade daquelas pessoas, principalmente dos líderes judeus. Não era por falta de sinais e prodígios que eles desacreditavam de Jesus, era porque Jesus não fazia o que lhes agradava. Jesus colocava em xeque a autoridade deles (Mt 7.28,29), e isso gerou no coração deles um ódio profundo por Jesus.

Podemos destacar duas lições aqui:

1º - Em primeiro lugar, o problema dos líderes religiosos não era a falta de luz, mas a falta de visão. Eles estavam cegos de ira e de inveja de Jesus. A luz estava em todos os lugares. Ela brilhou de forma extraordinária nos milagres realizados por Jesus (Jo 15.24; cf. Jo 5.36; 10.25,38; 14.11) e no ensino incomparável que Ele deu (cf. Mt 7.28; Jo 7.46). Nada revela mais profundamente a maldade dos que o rejeitaram do que a realidade de que a luz estava em toda parte, mas eles recusaram-se a vê-la.

Há um velho ditado que diz que “o pior cego é aquele que não quer ver”. Assim eram essas pessoas que pediam um sinal a Jesus. E se Jesus lhes desse mais algum sinal eles continuariam na incredulidade.

2º - Em segundo lugar, aquela geração era maligna (Lc 11.29). Outro grande problema que temos aqui é que aquela geração era maligna. Era uma geração de incrédulos. Como lemos em Jo 12.37-40: E, ainda que tinha feito tantos sinais diante deles, não criam nele; para que se cumprisse a palavra do profeta Isaías, que diz: Senhor, quem creu na nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor? Por isso não podiam crer, então Isaías disse outra vez: Cegou-lhes os olhos, e endureceu-lhes o coração, A fim de que não vejam com os olhos, e compreendam no coração, E se convertam, E eu os cure”. O Senhor permitiu que eles permanecessem em sua incredulidade.

O uso da palavra genea (geração) indica que Jesus estava se referindo à maioria das pessoas em Israel naquela época; tanto de galileus (cf. Lc 9.41), quanto também dos judeus. A forma como Jesus caracteriza o povo de Israel como ímpio é chocante. Afinal, Ele não estava falando dos pagãos que adoravam ídolos ou ateus. A geração que Ele se referia era, pelos padrões humanos normais, extremamente morais, religiosos e conscientes de Deus. O povo judeu foi fanaticamente devotado a manter a lei de Deus e observar suas tradições religiosas, como a vida de Paulo antes de sua conversão ilustra (cf. Atos 22.3; Gl 1.14). Mas embora exteriormente parecesse ser justas, interiormente, estavam cheios de maldade (Lc 11.39; Mt 23.25-28).

Algo que não podemos deixar de observar nos dias de hoje. Vivemos um tempo de muita apostasia, de muita incredulidade e de pouca fé. Uma geração de cristãos que espera muito de Deus, mas que não quer lhe dar a devida adoração. Uma geração mimada que pisam no sagrado e profanam o nome do Senhor. E não precisamos ir longe para vermos o que está acontecendo, basta olharmos as redes sociais.

2 – JESUS DÁ TRÊS SINAIS AOS SEUS OPONENTES (Lc 11.31-36).

Jesus não se sujeita em realizar o que seus adversários desejavam.  Eles queriam que Jesus realizasse algum sinal (milagre) extraordinário, mas Jesus diz que lhes dará três sinais, não sinais miraculosos, mas sinais de condenação, pois aquela geração cega havia rejeitado a luz do mundo (João 8.12; 9.5). Estes versículos revelam a realidade do julgamento, e a razão para o julgamento.

1º - Primeiro, o sinal do profeta Jonas (Lc 11.29,30,32). Quando Jonas foi chamado a pregar em Nínive, ele tentou escapar do Deus de Israel abandonando a terra de Israel: “Mas Jonas fugiu da presença do Senhor, dirigindo-se para Társis” (Jn 1.3a). A história demonstra que Deus não só está presente no templo de Israel, mas também onipresente em todas as nações [4].  

a) Os ninivitas se arrependeram com a mensagem de Jonas (Lc 11.32). Pessoas menos iluminadas obedeceram a uma pregação menos iluminada; porém pessoas muito mais iluminadas se negaram a obedecer à Luz do Mundo [5]. Ambos proclamaram julgamento e chamado para o arrependimento.

Jesus diz que, no dia do juízo, os ninivitas se levantarão para condenar essa geração, pois ouviram a pregação de Jonas e se arrependeram; no entanto, Jesus, sendo maior do que Jonas, não foi ouvido por sua geração, que permaneceu incrédula e perversa [6].

b) Jonas simboliza a ressurreição de Jesus (Mt 12.40). “Pois, como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim estará o Filho do homem três dias e três noites no seio da terra”. Para os ninivitas, “o sinal” era claramente a reaparição miraculosa do homem que se cria estar morto. Jonas tinha estado dentro da baleia (Jn 1.17) antes de voltar à vida, por assim dizer. Para os ninivitas o sinal foi o reaparecimento de um homem que aparentemente estivera morto durante três dias. Para os homens dos dias de Jesus, o sinal seria o reaparecimento do Filho do homem no terceiro dia após a Sua morte [7].

A mensagem de Jonas impactou os ninivitas porque o profeta era um milagre de alguém que estivera morto por três dias e havia voltado à vida. Assim a mensagem de Jesus tem impacto sobre nossas vidas, pois Ele ressuscitou ao terceiro dia (Jo 2.18,19), mas diferente de Jonas, Ele vive eternamente.

2º - Segundo, o sinal de Salomão (Lc 11.31). A rainha do sul, conhecido no Antigo Testamento como a Rainha de Sabá (1Rs 10.1-13), vai subir com os homens desta geração no dia do julgamento e irá condená-los por rejeitarem a mensagem de salvação.

Esta rainha fez uma árdua jornada de várias semanas desde os confins da terra (Seba foi localizado no sudoeste da Arábia, mais de mil quilômetros de Jerusalém), seu propósito era ouvir a sabedoria de Salomão, enquanto a sabedoria de Jesus era de fácil acesso para as pessoas de sua geração. Ela era uma idólatra pagã, sem o conhecimento do verdadeiro Deus, enquanto eles estavam mergulhados no Antigo Testamento. Eles foram convidados a vir a Jesus (Mt 11.28-30), enquanto que não há nenhuma indicação de que ela tenha sido convidada para visitar Salomão. No entanto, ela foi salva do seu pecado depois de crer no que Salomão disse a ela sobre o Deus verdadeiro, enquanto que aquela geração rejeitou salvação do verdadeiro Rei, infinitamente mais sábio e maior que Salomão. Essa é uma acusação grave sobre aquela geração perversa.

Quando Jonas pregou aos gentios de Nínive, eles se arrependeram e foram poupados. Quando uma rainha gentia ouviu as palavras do rei Salomão, maravilhou-se e creu. Se, com todos os seus privilégios, os judeus não se arrependessem, o povo de Nínive e a rainha de Sabá testemunhariam contra eles no julgamento final. O Senhor deu a Israel inúmeras oportunidades, mas ainda assim se recusaram a crer (Lc 13.34, 35; Jo 12.35-41) [8].

Quantos hoje têm tido a oportunidade de ouvir o Evangelho, mas o rejeitam ou dizem que em outra ocasião tomarão a decisão por Cristo. As oportunidades têm sido dadas, mas muitas pessoas continuam descrentes da mensagem de salvação que lhes tem sido pregadas. No entanto, chegará um tempo em será tarde demais para decidirem.

3º - O terceiro sinal, a luz (Lc 11.33-36). A experiência universal da luz e da escuridão no mundo físico fornece uma porta para a compreensão do conceito de luz e escuridão no mundo espiritual. Aqui a luz é uma metáfora para compreender a verdade revelada por Deus, já que a luz revela (Ef 5.13), enquanto que as trevas escondem (1Co 4.5). A Palavra de Deus é uma luz que brilha neste mundo escuro (SI 119.105; Pv 6.23). Mas não basta a luz brilhar externamente, também deve penetrar em nossa vida, a fim de surtimos os seus efeitos. “A entrada das tuas palavras dá luz, dá entendimento aos simples” (SI 119.130) [9]

Jesus ilustra esse assunto com três exemplos:

1) O perigo de esconder a luz (Lc 11.33). Seria inútil para alguém, depois de acender uma lâmpada colocá-la em um porão ou escondê-la debaixo do alqueire (cesta para medir grãos). Ninguém acende uma candeia e depois a coloca em lugar onde não pode ser vista. Pelo contrário, é colocada onde sua luz pode ser vista com o melhor proveito. No entanto, era exatamente o que os líderes judeus estavam fazendo na esfera espiritual. Em vez de permitir que luz de Jesus iluminasse os seus corações eles a estavam a obscurecendo.

2 – O perigo dos olhos maus (Lc 11.34,35). Sabendo que eles eram cegos, o Senhor emitiu este aviso “vê pois” (gr. Skopeo) poderia ser traduzido “manter um olhar atento sobre”, “nota com cuidado”, “prestar atenção a” ou “estar preocupado com”. Este aviso forte era uma chamada para o autoexame cuidadoso. O perigo de que o que eles pensavam que era luz neles, na verdade era escuridão. Esse autoengano marca cada falso sistema de crença para além do evangelho de Jesus Cristo.

Há dois tipos de escuridão: (a) a da ignorância; e (b) a da incredulidade obstinada. O segundo tipo, o que aqui está pauta, é muitíssimo mais perigoso. Foi esse tipo de escuridão que reinou no coração dos que odiavam a Jesus [9].

3 – A luz ilumina a todos que ouvem Jesus (Lc 11.36). Quando o coração tem uma configuração correta, isto é, quando ele pertence à verdade e intenta a verdade, ele se apropria da revelação da verdade divina e comunica essa luz com toda a capacidade da alma [10]. Quando cremos em Jesus Cristo, nossos olhos são abertos, a luz penetra nosso ser e nos tornamos filhos da luz (Jo 8.12; 2Co 4.3-6; Ef 5.8-14). É importante usar a luz e fixarmos nosso olhar na fé [11].

CONCLUSÃO

Quero concluir com as palavras de Wiersbe que diz que cada um de nós é controlado pela luz ou pela escuridão. O mais assustador é que algumas pessoas se endurecem de tal modo contra o Senhor que não conseguem fazer distinção entre uma coisa e outra! Acreditam que estão seguindo a luz quando, na verdade, seguem a escuridão. Os escribas e fariseus afirmavam “ver a luz” ao estudar a Lei, mas na verdade estavam vivendo em trevas (ver Jo 12.35-50) [12].

Pense nisso!

Bibliografia:

1 – Earle, Ralph.  Comentário Bíblico Beacon, Mateus, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 95.

2 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 170.

3 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 368.

4 – Neale, David A. Lucas, 9 – 24, Novo Comentário Beacon, Ed. Central Gospel, Rio de Janeiro, RJ, 2015, p. 105.

5 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 137.

6 – Lopes, Hernandes Dias. Mateus, Jesus, o Rei dos reis, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2019, p. 369.

7 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 189.

8 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 281.

9 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 142.

10 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 170.

11 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 281.

12 – Ibidem, p. 282.

domingo, 24 de julho de 2022

O REINO DE DEUS ENTRE NÓS - Lucas 11.20-28

Por Pr Silas Figueira

Texto base: Lucas 11.20-28

INTRUDUÇÃO

Após Jesus expulsar um demônio de um homem que o deixava mudo e cego, os fariseus (Mt 12.24) e os escribas (Mc 3.22) começaram a blasfemar e dizer que Jesus fazia tais prodígios pelo poder de Belzebu, o príncipe dos demônios – Satanás. Em sua defesa Jesus lhes pergunta por quem expulsava os seus filhos? Com essa pergunta o Senhor deixava exposta a incoerência deles. Se expulsar demônios provava que alguém estava em aliança com Satanás, então os exorcistas que atuavam entre eles estavam em aliança com Belzebu também! Esses exorcistas eram rabinos, fariseus, escribas e seus discípulos. Como explicar isso então? Com isso, Jesus os encurrala em seus próprios argumentos. 

Jesus continua o diálogo dizendo que se Ele expulsava demônios pelo dedo de Deus era chegado a eles o reino de Deus. Leon Morris diz que a presença do reino deve ser vista, não em bons conselhos nem em práticas piedosas, mas, sim, no poder que expulsa as forças do mal [1].  

Quais as lições que podemos tirar desse texto para nós hoje?

1 – A AUTORIDADE DE JESUS SOBRE OS DEMÔNIOS ERA A PROVA DA CHEGADA DO REINO DE DEUS (Lc 11.20-23).

Longe de aceitar a perversa e blasfema acusação dos escribas, Jesus mostra a libertação dos cativos pelo dedo de Deus como uma prova irrefutável da triunfal chegada do reino de Deus sobre eles (11.20) [2]. Jesus expulsava os demônios pelo poder do Espírito Santo (cf. Mt 12.28). Basta que Jesus levante o dedo, e Satanás solta a sua presa. Esse modo de falar simboliza o reino e a supremacia incondicionais sobre Satanás. Neste caso, porém, o reino de Deus chega já na pessoa de Jesus [3].

Quando Jesus usou a expressão “dedo de Deus”, Ele estava reportando ao que aconteceu em Êxodo 8.19, quando os magos de Faraó reconheceram o poder de Deus agindo através de Moisés. No entanto, os líderes religiosos judeus não reconheciam o poder de Deus exibido pelo Senhor Jesus Cristo. Nada poderia demonstrar mais claramente a sua condição de morte espiritual. A incredulidade era tanta que eles não perceberam o tempo da visitação de Deus em suas vidas.

Com isso em mente, podemos destacar três fatos importantes:

1º - Em primeiro lugar, Jesus destaca que Satanás é um adversário forte (Lc 11.21). Aqui Jesus compara Satanás a um homem forte totalmente armado. Jesus deixa claro que a nossa luta é contra um adversário poderoso. Em momento algum o Senhor disse que o diabo é um ser fraco, pelo contrário, ele é um ser ardiloso, como nos alertou o apóstolo Paulo (2Co 2.10,11).

Jesus mostra Satanás como o valente que guarda sua casa armado. Sua casa aqui simboliza o homem sob o seu poder. Satanás até então estava em paz, pois ainda não havia se manifestado o reino de Deus.

2º - Em segundo lugar, Jesus destaca que Satanás é um adversário derrotado (Lc 11.22). Jesus é o mais valente que ataca e domina o valente, tira-lhe toda a armadura em que ele confiava e distribui seus despojos. Satanás e suas hostes demoníacas são impotentes para impedir o Senhor Jesus de resgatar almas do reino das trevas (Cl 1.13,14). Jesus demonstrou claramente o Seu poder curando o mal que estava sobre este homem, e também outras doenças que eram resultado da ação de Satanás sobre a raça humana em pecado. Jesus foi além, Ele venceu a morte “aniquilando o que tinha o império da morte, isto é, o diabo” (Hb 2.14). Ninguém além de Jesus poderia tão completamente “destruir as obras do diabo” (1Jo 3.8).

3º - Em terceiro lugar, Jesus alerta acerca da neutralidade (Lc 11.23). Na guerra entre Deus e Satanás, entre o céu e o inferno, entre o bem e o mal, entre a verdade e o erro, ninguém é neutro. Não podemos tentar agir como Pilatos que lavou as suas mãos quando tinha que tomar uma decisão a respeito de Jesus (Mt 27.19,24). Não é necessário se opor abertamente a Cristo atacando a Sua divindade, Sua Palavra, o Evangelho ou mesmo Sua Igreja para ser contra Ele; é suficiente apenas não tomar uma decisão sobre Ele. Não tomar decisão nenhuma já é uma decisão tomada.

Há duas forças espirituais agindo no mundo, e devemos escolher uma delas. Satanás espalha e destrói, mas Jesus Cristo junta e constrói. Devemos fazer uma escolha e, se optarmos por não escolher um lado, já teremos decidido ficar contra o Senhor [4]. Saiba de uma coisa: “O muro pertence ao diabo”.

2 – O PERIGO DA CASA VAZIA (Lc 11.24-26).

Quando um homem se vê livre de um espírito maligno, mas não põe nada no seu lugar, está passando grave perigo moral. Ninguém pode viver por muito tempo tendo um vácuo moral na sua vida. O reino de Deus não provoca semelhante vácuo moral num homem. Significa uma vitória tão grande sobre o mal que o mal é substituído pelo bem e por Deus [5].

Podemos destacar algumas lições do que Jesus falou a respeito da casa adornada e vazia.

1º - Em primeiro lugar, existe muita libertação superficial (Lc 11.24,25). Jesus trata aqui de um homem que foi libertado de um espírito imundo, mas deixou de comprometer-se com Deus. O demônio que saiu do homem ainda o chama de “minha casa”. O demônio saiu, mas o Espírito Santo não entrou. A vida tornou-se melhor, mas a transformação não aconteceu [6]. É o que podemos chamar de evangelho social. Moralmente este homem melhorou, mas por pouco tempo. Não aconteceu uma conversão genuína a Cristo, mas uma mudança superficial. Ele não é trigo, ele continua joio.

2º - Em segundo lugar, uma casa adornada, mas vazia, ainda é moradia do diabo (Lc 11.25). É uma verdade fundamental que a alma de um homem não pode ficar vazia. Não adianta os demônios saírem se a alma do homem liberto não for preenchida pela presença do Espírito Santo. Ela continuará vazia. Esta foi a crítica que Jesus fez aos exorcistas de sua época. Eles expulsavam o demônio, mas não preenchia a alma liberta com a presença de Deus. Jesus quando expulsava demônios os proibia de retornarem (Mc 9.25), pois a pessoa liberta se convertia a Cristo (Mc 5.18-20).

O evangelho social tem feito isso com as pessoas – pois não há conversão –, elas aparentemente têm melhorado, mas estão vazias da presença do Espírito Santo em suas vidas. São frequentadoras da igreja, mas andam descompromissadas com a verdade do Evangelho. Muitos vivem de forma dissoluta não testemunhando uma fé genuína.

Como disse Champlin: “Nenhuma verdadeira santidade existe ali para barrar a porta; nenhuma espiritualidade positiva existe para guardar o portão. A reforma é superficial sujeita a reversão imediata” [7].

3º - Em terceiro lugar, o último estado é pior que o primeiro (Lc 11.26). “Porquanto se, depois de terem escapado das corrupções do mundo, pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, forem outra vez envolvidos nelas e vencidos, tornou-se-lhes o último estado pior do que o primeiro. Deste modo sobreveio-lhes o que por um verdadeiro provérbio se diz: O cão voltou ao seu próprio vômito, e a porca lavada ao espojadouro de lama” (2Pe 2.20,22).

Vivemos hoje o perigo da igreja adornada e vazia. O perigo de uma igreja que tem perdido os seus valores judaico-cristãos. Uma igreja que tem feito aliança com o mundo para agradar as pessoas do mundo. É o que chamamos de liberalismo teológico. E temos visto isso acontecer em todas as denominações.

Vivemos em uma época extremamente relativista. Essa forma de pensamento pós-modernista pressupõe apenas uma coisa: negar a existência da verdade. É um pensamento filosófico que nega o pensamento absoluto e exalta que tudo depende do ponto de vista. E isso tem ocorrido em relação às Escrituras dentro da igreja. A presença do politicamente correto nas igrejas vem com a relativização dos “valores morais” presentes na Bíblia Sagrada, para agradar a audiência, por isso tantas igrejas têm abraçado a ideia de “igreja inclusiva”. E isso é só o começo.

Para você ter apenas uma ideia do que está acontecendo por aí. Um determinado líder afirmou que muitas igrejas aceitam gays, mas pedem para que eles se abstenham das relações homoafetivas. Na igreja que ele pastoreia, disse ele, não será necessário abandonar tal prática. A Igreja desse indivíduo anunciou a novidade utilizando a bandeira LGBTQ+ que é representada pelo arco-íris. Isso é só uma gota no mar lamacento que estamos vendo entrando na igreja hoje. Judas em sua carta chama esses líderes de “Ondas impetuosas do mar, que escumam as suas mesmas abominações” (Jd 1.13).

3 – A VERDADEIRA LIBERTAÇÃO (Lc 11.27,28).

Somente Lucas nos conta acerca desta exclamação espontânea de uma mulher que estava entre a multidão. Parece que aquela senhora pensava quão maravilhoso seria ter um filho como Jesus, e pronunciou uma bem-aventurança sobre aquela que O deu à luz. Suas palavras envolvem um reconhecimento do Seu messiado e são parcialmente uma saudação a Jesus [8].

Com isso, podemos destacar duas coisas:

1º - Em primeiro lugar, Jesus foi exaltado em meio à blasfêmia dos líderes religiosos. Esta mulher dentre a multidão estava, sem dúvida, dominada pela sabedoria e pelo poder que se manifestavam nas palavras e obras de Jesus. Ela podia ser uma daquelas que haviam experimentado a cura da possessão demoníaca que Jesus acabara de discutir [9]. O louvor da mulher certamente representou uma bela honraria num instante em que os hierarcas do país já o condenavam como herege supostamente aliado ao diabo [10].

Vivemos uma época em muitas pessoas têm blasfemado o nome do Senhor, difamado a Sua Igreja e menosprezado a Sua Palavra. Mas nós, como seus servos, devemos fazer como esta mulher, exaltar o Senhor por tudo que Ele representa em nossas vidas, e isso deve ser feito não em oculto, mas diante daqueles que O blasfemam. Isso se chama testemunho.

2º - Em segundo lugar, Jesus deixou claro qual é a verdadeira bem-aventurança. A maior bênção é ouvir as Palavras de Jesus e organizar a vida de acordo com elas. Portanto, mesmo para a própria Maria, a relação de discípula é mais abençoada do que a de mãe [11].

Essa bem-aventurança está em harmonia com o Salmo 128.1 que diz: “Bem-aventurado aquele que teme ao SENHOR e anda nos seus caminhos”. E também com os ensinamentos de Jesus: “Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras, e as pratica, assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha” (Mt 7.24).

Você é um bem-aventurado?

CONCLUSÃO

Os tempos podem não ser os mais favoráveis para a igreja, mas é nessa hora que devemos levantar a bandeira do verdadeiro Evangelho e mostrar ao mundo que o Nosso Redentor Vive e que temos uma aliança com Ele. Que a nossa aliança não é com o relativismo e muito menos com a teologia liberal. Somos sim, fundamentalistas, pois estamos fundamentados na verdade do Evangelho e não negociamos a nossa fé para agradar o mundo.

Pense nisso!

Bibliografia:

1 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 187.

2 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 361.

3 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 168.

4 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 280.

5 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 188.

6 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 364.

7 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, Lucas, vol. 2, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2005, p. 118.

8 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 189.

9 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 419.

10 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 169.

11 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 419.

domingo, 10 de julho de 2022

O PODER DE JESUS SOBRE OS DEMÔNIOS - Lucas 11.14-19

Pr Silas Figueira

Texto básicio: Lucas 11.14-19

INTRODUÇÃO

Nesse texto encontramos Jesus expulsando um demônio de um homem que o impedia de falar. Após a sua libertação o homem passou a falar normalmente. Devido a isso, os fariseus passaram acusar de Jesus de expulsar demônios pelo poder de Belzebu, príncipe dos demônios. “Belzebu” era um dos nomes do deus filisteu Baal (2Rs 1.1-3) e significa “senhor das moscas”. Uma variação desse nome é “Belzebul”, que significa “senhor da habita­ção” e se encaixa com as ilustrações em Lucas 11.18-26. Os judeus costumavam usar essa designação para se referir a Satanás [1].

Esse episódio se encontra em todos os Evangelhos sinóticos. Lucas, no entanto é o mais sucinto dos evangelistas. Tanto Mateus como Marcos trata da blasfêmia contra o Espírito Santo neste episódio em que Jesus confronta seus acusadores. Aqui no texto de Lucas esse episódio não é descrito. Mateus também relata que o possesso tinha perdido a faculdade não só da fala, mas também da visão (Mt 12.22). Lucas é indefinido sobre a identidade dos atacantes de Cristo (“algumas pessoas”); Mateus os denomina de fariseus; Marcos, de escribas [2].

Quais as lições que podemos tirar desse texto para nossas vidas?

1 - NÃO PODEMOS IGNORAR OS ARDIS DE SATANÁS (2Co 2.10,11).

O apóstolo Paulo em 2 Coríntios  nos diz: “para que não sejamos vencidos por Satanás; porque não ignoramos os seus ardis” (2Co 2.10,11). Existem dois grandes perigos que Satanás tenta implantar na mente das pessoas, o primeiro é que ele não existe e o outro que tudo de ruim que ocorre conosco procede dele. Esses dois extremos têm causado muita confusão no meio evangélico. Enquanto que em algumas igrejas dizem que tudo que ocorre conosco é físico ou emocional, em outras igrejas, no entanto, dizem que tudo procede do diabo. Quem joga toda a culpa no diabo se esquece, ou não sabe que existe a responsabilidade humana. Que somos responsáveis por nossos atos e por eles responderemos. E quem diz que tudo é emocional ou físico desconhece os ardis do diabo.

Não podemos nos esquecer de que Satanás é um ser ardiloso e que em todo o tempo quer gerar confusão em nosso meio, por isso devemos procurar entender como ele age.

Ao lermos as Escrituras nós vemos que o diabo é um ser real e ativo na terra. Por isso que o apóstolo Paulo disse que não posemos ignorar os seus ardis. Devemos ter consciência de que estamos em guerra contra principados e potestades (Ef 6.12).

1º - Podemos destacar dez estratégias de Satanás contra o povo de Deus.

1 – Satanás mente, e é o pai da mentira. “Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8.44).

2 – Ele cega as mentes dos incrédulos. “O deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo” (2Co 4.4).

3 – Ele se apresenta como um anjo de luz e justiça. “O próprio Satanás se transforma em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus próprios ministros se transformem em ministros de justiça” (2Co 11.14,15).

4 – Satanás faz sinais e maravilhas. Em 2 Tessalonicenses 2.9, os últimos dias são descritos assim: “Ora, o aparecimento do iníquo é segundo a eficácia de Satanás, com todo poder, e sinais, e prodígios da mentira”.

5 – Satanás tenta as pessoas a pecar. Em 2Co 11.3, Paulo adverte todos os crentes contra isso: “Mas receio que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia, assim também seja corrompida a vossa mente e se aparte da simplicidade e pureza devidas a Cristo”.

6 – Satanás arranca a palavra de Deus dos corações das pessoas e sufoca a fé. Jesus contou a parábola dos quatro solos em Marcos 4.1-9. Nela, a semente da palavra de Deus é semeada, e algumas caem no caminho e os pássaros rapidamente as tiram. Ele explica no versículo 15, “logo vem Satanás e tira a palavra semeada neles”.

7 – Satanás causa algumas enfermidades e doenças. Certa vez, Jesus curou uma mulher que estava encurvada e não conseguia endireitar-se. Quando alguns o criticaram por fazer isto no sábado, ele disse: “Por que motivo não se devia livrar deste cativeiro, em dia de sábado, esta filha de Abraão, a quem Satanás trazia presa há dezoito anos?” (Lucas 13.16). Jesus viu a Satanás como aquele que havia causado esta doença.

8 – Satanás é um assassino. Jesus disse daqueles que estavam planejando matá-lo: “Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade” (João 8.44). João diz: “não [seja] segundo Caim, que era do Maligno e assassinou a seu irmão” (1João 3.12).

9 – Satanás luta contra os planos de missionários. Paulo conta como seus planos missionários foram frustrados em 1 Tessalonicenses 2.17,18: “Ora, nós, irmãos..., com tanto mais empenho diligenciamos, com grande desejo, ir ver-vos pessoalmente. Por isso, quisemos ir até vós . . . ; contudo, Satanás nos barrou o caminho”. Satanás odeia o evangelismo e o discipulado, e lançará todos os obstáculos que puder no caminho dos missionários e das pessoas com um zelo pelo evangelismo.

10 – Satanás acusa os cristãos diante de Deus. Apocalipse 12.10 diz: “Então, ouvi grande voz do céu, proclamando: Agora, veio a salvação, o poder, o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo, pois foi expulso o acusador de nossos irmãos, o mesmo que os acusa de dia e de noite, diante do nosso Deus”. A derrota de Satanás é certa. Mas suas acusações não cessaram [3].

Duas coisas que não podemos fazer em relação a Satanás, primeiro é subestimá-lo e segundo, é superestimá-lo. Devemos entender os seus ardis, mas conscientes de que ele já foi vencido na cruz do Calvário.

2ª – Jesus liberta um homem cativo de Satanás (Lc 11.14). Lucas nos diz que este homem estava possesso, e devido a isso ele não podia falar. Mateus é mais específico nos diz que ele também estava cego (Mt 12.22).

Podemos destacar aqui que Satanás tem “poder” para colocar doenças nas pessoas. É o que podemos chamar de doenças espirituais. Satanás pode atacar tanto o campo físico, mental (emocional) e espiritual. Vemos no capítulo 13 de Lucas uma mulher que tinha um espírito de enfermidade, havia já dezoito anos; e andava encurvada, e não podia de modo nenhum endireitar-se. Mas Jesus a libertou e esclareceu que Satanás a mantivera presa durante todos aqueles anos. Jesus mostra que aquela enfermidade não era algo natural, mas uma ação orquestrada de Satanás contra a vida daquela pobre mulher.

A libertação desse homem cego e mudo também era uma ação deliberada de Satanás contra a vida dele. Aqui tanto a cegueira quando a mudez que Satanás colocou era física, mas é comum vermos isso ocorrendo nas áreas emocionais e mentais.

Não quero com isso dizer que toda doença emocional seja uma ação de Satanás e nem mesmo mental. Existem várias doenças que são causadas por problemas emocionais e mentais que podem ser tratadas com profissionais qualificados – psicólogos e psiquiatras. Aliás, boa parte dos profissionais de saúde afirma que a maioria das doenças é psicossomática. Como diziam os gregos “mente sã, corpo são”.

3ª – A multidão glorificou a Deus (Mt 12.23). As pessoas ali presentes estavam presenciando o que está escrito em Isaías 29.18: “E naquele dia os surdos ouvirão as palavras do livro, e dentre a escuridão e dentre as trevas os olhos dos cegos as verão”.

Em Mateus 12.23 a multidão começou a questionar se Jesus não seria o Filho de Davi, uma alusão ao Messias prometido. Essa libertação fez com que o povo visse e falasse das maravilhas de Deus, reconhecendo que Jesus era o Messias de Deus. A ação de Satanás na vida daquele homem era um reflexo da multidão ali presente. Observe que a multidão glorificou a Deus, os líderes judeus não, pelo contrário, falaram que Jesus expulsava demônios pelo poder de Belzebu.  

2 – A ACUSAÇÃO DOS ADVERSÁRIOS DE JESUS (Lc 11.15,16).

Visto que era impossível para os inimigos de Jesus negar que os milagres que Ele realizava eram algo notório (cf. Jo 11.47), eles procuraram atribuir que tais sinais eram operados por poderes demoníacos. Não contente apenas em afirmar que Jesus recebeu o Seu poder de um demônio comum (cf. João 7.20; 8.48, 52; 10.20), eles o acusam de ser capacitado por Belzebu, um nome judeu para o governante dos demônios, Satanás.

Em vez de os líderes religiosos se alegrarem por ter Deus enviado o Redentor, rebelaram-se contra o Cristo de Deus e difamaram sua obra, atribuindo-a a Satanás [4]. Na sua incredulidade essas pessoas chamaram o Filho de Deus de servo do diabo.

Com isso em mente, podemos destacar quatro coisas:

1º - Em primeiro lugar, muitas pessoas hoje desacreditam do poder de Jesus. Eu não estou falando de ateus, eu estou falando de pessoas dentro de nossas igrejas que acham que o poder de Jesus ficou limitado ao seu tempo, ou quando no máximo, na era apostólica. Temos que entender que muitos milagres passados foram necessários devido à falta de recursos médicos que temos hoje, mas dizer que o Senhor deixou de operar milagres é muita falta de fé. Mesmo com todo o avanço da ciência hoje, vivemos ainda na total dependência de Deus; se o Senhor não agir e abençoar o profissional de saúde, tanto quanto a medicação, o tratamento aplicado, nada adiantará.

Assim como desacreditam do milagre hoje, assim também desacreditam da ação de Satanás sobre as pessoas. Seja uma doença causada por ele, seja uma possessão demoníaca.

2º - Em segundo lugar, muitas pessoas acham que não precisamos dos profissionais da saúde e nem de medicação. É outro extremo que precisamos evitar. Muitos líderes eclesiásticos que pregam a cura divina e o pensamento positivo insistem nessa loucura. Segundo eles, quem é crente em Jesus não fica doente e nem pode passar por crise financeira. Leiam os livros desses pregadores e vocês ficarão surpresos com o que dizem. Sendo assim, esses líderes levam os seus seguidores a acreditarem que tudo é espiritual e que basta orar e crer que tudo irá passar. Que tudo é obra do diabo ou falta de fé.

Philip Yancey no seu livro “Decepcionado com Deus” conta a respeito de uma igreja nos Estados Unidos que cria que a fé pura podia curar qualquer doença e que buscar ajuda em qualquer outro lugar ou pessoa – por exemplo, de médicos – demonstrava falta de fé em Deus. Muitas pessoas ligadas a essa igreja haviam morrido depois de recusarem tratamento médico, em obediência ao ensino da igreja. Muitas mulheres morriam ao dar à luz, a taxa de mortalidade infantil era enorme. Muitos pais ficavam sentados à beira da cama dos filhos os vendo morrer, sem fazer nada. O pastor persuadia os pais a não chamarem o médico [5]. Devido a um erro teológico aquela igreja estava matando os seus membros. E o pior, a igreja estava expandindo e chegando a outros estados.

3º - Em terceiro lugar, devemos buscar um ponto de equilíbrio em nossa fé. Eu tenho plena convicção de que Jesus cura hoje assim como curou no passado, mas eu também sei que o Senhor usa os médicos e os profissionais da saúde como instrumento dele para nos abençoar. Mas em momento algum eu desacredito da ação de Satanás contra nossas vidas, seja nos oprimindo, adoecendo ou causando confusão em nossas vidas. Devemos entender que estamos em guerra (Ef 6.1-18).

4º - Em quarto lugar, o milagre não gera fé (Lc 11.16). As obras poderosas que Jesus já havia feito já era a prova conclusiva de que Ele era o Messias e Filho de Deus (Jo 10.25), por isso Jesus recusou seu pedido. Como Ele disse a eles, em Lucas 11.29: “Maligna é esta geração; ela pede um sinal; e não lhe será dado sinal, senão o sinal do profeta Jonas”.

Muitas pessoas, mesmo diante dos milagres do Senhor, continuam na incredulidade. Outros agem de forma ainda pior, não só duvidam de Jesus como também blasfemam o seu nome.

Se os incrédulos estavam blasfemando o nome do Senhor diante de Seus milagres, nós devemos vigiar para não blasfemarmos o nome do Senhor em meio às crises que vida nos proporciona. Que tenhamos a maturidade de Paulo: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza [disse o Senhor a Paulo]. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo. Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte” (2Co 12.9,10).

3 – O ARGUMENTO DE JESUS CONTRA SEUS ADVERSÁRIOS (Lc 11.17-19).

Seus sussurros poderiam ter sido “escondidos” dos ouvidos do Senhor, mas não de Sua onisciência, pois Ele sabia os seus pensamentos (cf. Lc 5.22; 6.8; Jo 2.25). Seus propósitos e intenções eram transparentes para Jesus, e Ele sabia que esses pensamentos eram blasfemos e condenáveis.

O Senhor defende-se de seus adversários com uma brandura digna de admiração. Jesus não se defende com a Escritura, mas faz uso do bom senso. Mostra a tolice nas reflexões pecaminosas dos acusadores [6].

Com isso em mente podemos tirar algumas lições.

1º - Em primeiro lugar, o reino das trevas é um reino organizado (Lc 11.17,18). Jesus refutou o argumento dos escribas contando-lhes, a parábola do reino dividido. Jesus mostra quanto o argumento dos escribas era ridículo e absurdo. Satanás estaria destruindo sua própria obra e derrubando seu próprio império. Estaria havendo uma guerra civil no reino do maligno. Nenhum demônio pode ser expulso por outro demônio. O reino satânico sucumbiria se Satanás guerreasse contra si mesmo e lutasse contra seus próprios ajudantes [7].

2º - Em segundo lugar, Satanás tenta nos dividir. Se o seu reino é organizado, Satanás fará de tudo para tumultuar a Igreja de Cristo. E como ele faz isso?

1º - Levantando falsos profetas (Mt 7.15). Os falsos profetas têm enganado muitas pessoas porque eles se apresentam de forma inofensiva, apesar de serem lobos, eles se apresentam como ovelhas.

2º - Disseminando heresias (1Tm 4.1,2). “Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios; pela hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a sua própria consciência”.

3º - Apresentando falsos cristos (Mt 24.4,5,23,24). Esses falsos cristos são pessoas que se passarão por Jesus, como foi o Reverendo Moon que disse que ele era o terceiro Adão. O primeiro Adão fracassou, o segundo Adão, que foi Jesus também fracassou, pois não constituiu família e não teve filhos. Mas ele era o terceiro Adão o Messias prometido, pois ele constituiu família.

Mas os falsos cristos podem ser identificados mediante a apresentação de uma teologia que não revela toda a doutrina do Evangelho. Apresenta um cristo que não está na Bíblia. Um cristo que não é nem mesmo genérico, é placebo mesmo. Um cristo que ama a todos e que não se importa com a vida que a pessoa leva. Um cristo que não se importa com o pecado e nem condena o pecador. Um cristo que levará todos para o céu e viveremos felizes para sempre. Um cristo que desconhece o futuro e que se surpreende com os homens.

O diabo não brinca de ser diabo, mas tem muito crente brincando de ser cristão.

3º - Jesus encurrala os seus acusadores (Lc 11.19). Os filhos dos acusadores faziam o que Jesus estava fazendo, expelindo demônios. Se Jesus estava fazendo no poder de Belzebu, eles também estavam. Assim, seus filhos seriam os próprios juízes para condenar sua acusação blasfema e leviana [8].

A pergunta do Senhor deixava exposta sua inconsistência, a hipocrisia de seus corações e a falta de integridade deles. Se expulsar demônios provava que alguém estava em aliança com Satanás, então por que eles não suspeitavam de seus próprios exorcistas, ou seja, rabinos, escribas, fariseus e seus associados? Como eles poderiam não aplicar os mesmos padrões para os seus fracassos como eles fizeram para o sucesso de Jesus?

CONCLUSÃO

Em todo o tempo Jesus foi atacado por seus inimigos, pessoas que estavam cegas para verem a glória de Deus diante deles e mudas em não glorificar o nome do Senhor diante deles. Hoje não tem sido diferente. Muitas pessoas agem da mesma maneira, blasfemam o Seu nome, mas exaltam a Satanás. São inimigos da cruz e rejeitam a mensagem do Evangelho. Mas a nossa luta não é contra carne e nem sangue, mas contra principados e potestades nas regiões celestiais (Ef 6.12).

Bibliografia:

1 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 280.

2 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, Ed. Cultura Cristã, São Paulo, SP, 2003, p. 120.

3 – Piper, John. As Dez Estratégias de Satanás Contra Nós, https://www.thegospelcoalition.org/pt/article/dez-estrategias-de-satanas-contra-nos/, acessado em 04/07/2022.

4 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 360.

5 – Yancey Philip. Decepcionado com Deus, Ed. Cultura Cristã, São Paulo, SP, 2004, p. 24.

6 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 167.

7 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 360.

8 – Ibidem, p. 361.