quinta-feira, 19 de setembro de 2019

O que significa a letra mata, mas o espírito vivifica?


Por André Sanchez

Talvez um dos textos mais mal compreendidos hoje em dia seja 2 Coríntios 3.6: “o qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica.”

Antes de explicar o significado de a letra mata, mas o espírito vivifica, quero elencar algumas coisas que esse versículo NÃO SIGNIFICA, mas que são muito pregadas por aí:

(1) Não significa que o estudo das Sagradas Escrituras mata o espírito do estudante e nem que pelo estudo se diminui a ação do Espírito de Deus nele. Alguns ousam afirmar que esse verso indique que devemos agir na “liberdade” total, sem estudos mais sistemáticos da Bíblia, pois estudar a “letra” equivaleria a matar o espírito. Isso vai totalmente contra o que disse Jesus e Paulo, que mandaram examinar as Escrituras com zelo (João 5.39; Atos 17.11)

(2) Não significa que ter o espírito vivificado seja manejar a Bíblia ao acaso, abrindo em qualquer lugar e pregando sem considerar a interpretação correta do texto e usando métodos alegóricos para interpretá-la no calor de sentimentalismos prejudiciais.

(3) Não significa que “a letra” não é algo de Deus e “o espírito” seja algo de Deus. Veremos a seguir que tanto a “letra” quando o “espírito” foram dados por Deus em momentos diferentes e devem ser entendidos claramente dentro de cada contexto e momento da revelação de Deus.

Feitas essas ponderações, vamos agora entender o que Paulo realmente quis dizer com a frase “A letra mata, mas o espírito vivifica”:

(1) A letra é uma referência clara de Paulo a Lei de Moisés. Em 2 Coríntios 3.6 Paulo chama a Lei de Moisés de “letra”, no verso 7, chama de “ministério da morte” e no verso 9 de “ministério da condenação.”

(2) Com todos esses adjetivos Paulo estava demonstrando em seu argumento que a Lei (Antigo Testamento) tem seu valor (observe que Paulo fala também da glória da Lei – V.7 – ainda que seja uma glória que já não resplandece – V.10), mas não era a prática dos preceitos [desta Lei] que traria a vida eterna as pessoas. Algo muito defendido pelos judeus que não aceitavam a Cristo e impunham a obediência a Lei como uma forma de salvação.

(3) A revelação de Deus na Bíblia é progressiva e, naquele momento, Jesus já fora revelado e implementou uma aliança superior a antiga (Hebreus 8.6), na qual devemos andar. Essa aliança é permanente e perfeita, diferente da antiga.

(4) Aqueles que insistem em andar guiados somente pelos preceitos do tempo da Lei estão mortos pela letra, pois negam a revelação de Deus, Jesus Cristo. Já aqueles que compreendem que Jesus veio, cumpriu a Lei e nos tornou justificados diante de Deus, andam com sua vida vivificada, o que equivale a dizer que o ”espírito vivifica” a vida destes que cumprem a vontade de Deus.

(5) A nova aliança de Cristo não destrói a Lei do Antigo Testamento, caso contrário poderíamos jogar o Antigo Testamento fora. Antes, reafirma os princípios morais da Lei do Antigo Testamento, anula aqueles que não são mais necessários e cumpre tudo aquilo que a própria Lei falou sobre o que haveria de vir.

(6) Para finalizar poderíamos resumir o significado de a letra mata, mas o espírito vivifica da seguinte forma: Aqueles que insistem em viver debaixo da Lei em nosso tempo, mesmo após a manifestação do Salvador, tempo em que temos Cristo, estão mortos, pois nunca conseguirão satisfazer as exigências da Lei da antiga aliança. Somente um conseguiu satisfazer essas exigências, Cristo, e, por isso, pelos méritos de Jesus, podemos hoje satisfazer a Deus e termos vida em nós. Aqueles, porém, que estão andando em Cristo, tratando a Lei da forma como tem de ser tratada, estes colhem uma vida vivificada dada por Deus!

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Coaching Pregacional


Por Maurício Montagnero

“Filhinhos, esta é a última hora e, assim como vocês ouviram que o anticristo está vindo, já agora muitos anticristos têm surgido… Amados, não creiam em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo

(Jo 2.18 e 4.1)

Teologia do coaching? Não! Coaching Pregacional? Sim! Por quê? Porque nesta nova onda que entra na igreja e vagueia pelos púlpitos não tem nenhum fundamento teológico, tampouco doutrinário e muito menos bíblico – como um próprio coaching disse: Deus não me chamou para discutir teologia; lógico que não, pois para isso, primeiro, precisava saber de. Sua base está, mais ou menos, na ciências naturais, em técnicas psicodélicas, em psicologia de rodoviárias, em neurociência inválida e hipnoses, mas não na teologia! Então não tem como identificar este movimento como teológico, porém, como mais um modismo que tem arrebatado pessoas e as tornado doentes espiritualmente. Assim fazem através de pregações motivacionais e autoajuda… Portanto, tem utilizado a pregação com um estilo de coach e produzidos púlpitos de mensageiros que são: coachings pregacionais.  

Mas o que é o coaching? A primeira vez que me deparei com esta palavra foi no curso de oratória que fiz no SENAC em Araraquara (como falar em público?). A nossa professora era uma. Ela nos explanou que este refere-se a uma pessoa capacitada que instrui o seu cliente (pode ser pessoa física ou jurídica) os passos necessários para alcançar um determinado objetivo e, assim, para o “sucesso”. Compreendemos melhor ao traduzimos ela do inglês: treinamento. Então é uma espécie de treinamento, igual a um atleta passa, com as devidas etapas (periodizações) para chegar ao pódio (objetivo ou sucesso). Por isso que o professor de crossfit não é chamado de técnico, mas de coach, embora o sentido final seja o mesmo – Observo aqui no que se refere a este “coaching secular” tenho também as minhas reservas, enquanto conselheiro filosófico, mas não entrarei na questão neste espaço.

Traduzindo isto nos púlpitos do evangelicalismo brasileiro, especialmente em Tiago Brunet e Deive Leonardo, eles dão toda uma orientação para os seus ouvintes a fim destes terem sucessos existenciais, vitórias emocionais e renovos motivacionais. Fazem isto como “técnicas” da neurociência, psicologia e hipnose. Favorecem suas mensagens com a piscodelia, por exemplo: fundos musicais, luzes baixas, falar romantizado alternado com gritos vitoriosos, paredes pintadas, vestimenta despojada, estilo na moda e etc… Quanto a isto, nada contra, quando usado com sapiência e prudência e não como um meio para um fim tenebroso, como é feito por eles. Qual fim? Exaltação do homem, seja do emissor ou do receptor.

Existencialismo & Antropocentrismo?

David Charles Gomes, grande teólogo e apologista reformado brasileiro, ele nos ensina a teoferência. Esta nada mais é do que o resumo da doutrina do autoconhecimento encontrado em Agostinho de Hipona, João Calvino, Herman Dooyweerd e Cornelius Van Til. Eles ensinavam que um verdadeiro conhecimento existencial é o conhecer a Deus. Destarte, para o ser-em-si (a pessoa) se conhecer de fato é necessário que ela tenha Deus como ponto de referência, Este revelado em sua inteireza nas Escrituras Sagradas. Embora há um conhecimento inato (dentro do ser, da pessoa em si) dEle, a clareza deste conhecimento parte do ensino bíblico.

O movimento coaching pregacional, sem saber, altera a referência de Deus para o próprio ser. Decompõe a teoreferência e compõe a egoreferência (termos trabalhados por Jonas Madureira em seu livro: Inteligência Humilhada). O ego (eu) é o ponto de referência para o conhecimento e, por conseguinte, para as conquistas. Por isso que é necessário a motivação interior que estes “pregadores” promovem com as devidas técnicas já apontadas. O que determina agora o sentido daquele momento da mensagem não é mais a exposição do texto bíblico em si ou seu ensino, mas, sim, a fusão de horizontes (termo usado pelo filósofo alemão Hans-Georg Gadamer) do receptor com o texto bíblico, logo, isto não passa de um velho inimigo teológico chamado de existencialismo.

Bultmann, o grande precursor do existencialismo teológico, influenciado pela filosofia de Heidegger, dizia que a verdade do texto não era importante. Por exemplo, não importa se de fato Jesus ressuscitou ou não, se Jonas ficou três dias na baleia ou não, se essas histórias são verdadeiras ou mitos, o que importa é na sua conotação para o contexto de vida daquele que lê e ouve, e para cada qual há um sentido diferente. Então você tem o problema/experiência do ouvinte/leitor (tese), o texto bíblico (antítese) e no encontro deles o resultado é a verdade existencial do ouvinte/leiror (síntese) que ele toma para si. Então a intepretação última do texto bíblico não é ele em si, mas a síntese produzida. Isto, portanto, remonta a outro teólogo existencialista: Paul Tillich em sua teologia da correlação/apologética existencial. Esse método existencial de ler o texto bíblico é chamado de Nova Hermenêutica ou Hermenêutica Existencial e Exegese Estruturalista.

Este método existencial não passa de uma tendência antiquada, refutada, porém utilizada pelos coachings pregacionais. O inacreditável é que promovem isso sem saber de toda este aparato teológico existencial e liberal que há por trás…  Eles são conservadores na ortodoxia (aquilo que crê) mais existencialista e liberais na ortopraxia (aquilo que se prática e prega) e, assim, falta coerência.

Por fim, gera o antropocentrismo, pois quem se torna o centro do discurso é o homem, o ouvinte, o ser existencial e não Deus. Da mesma maneira que a idade moderna migrou, ou retornou, para o antropocentrismo, ao colocar o homem com sua razão no centro do conhecimento e desenvolvimento e retirar Deus do discurso, assim o coaching pregacional faz ao colocar o homem com sua comoção (emoção forte e repentina) no centro, típico do pós-moderno, e retirar Cristo do discurso. Mesmo que leia textos bíblicos, conte histórias bíblicas e cite versículos, continua sem Cristo no centro, pois não fala em sua inteireza e a devida e honesta exposição, mas só usa como antítese conforme apontado acima, tendo-o o ouvinte como tese, e a síntese sabe lá o que irá virar.

Preste atenção aqui! Quando Nicolau Copérnico descobriu que não era o Sol que girava em volta da Terra (geocentrismo – modelo antigo de Aristóteles e Ptolomeu), mas, sim, era a Terra que girava em torno do Sol (heliocentrismo) esta verdade ficou conhecida como revolução copernicana. Mas o que isto tem a ver com o assunto? Vamos lá… Há também a chamada revolução copernicana filosófica onde o pensador do idealismo alemão, Immanuel Kant, propôs que o centro do conhecimento não é mais o objeto, mas, sim, o sujeito racional. Então o sujeito racional não circula em volta do objeto para a descoberta do conhecimento, porém, é o objeto que circula. Ao traduzirmos isto para o contexto deste artigo vemos que o egocentrismo, existencialismo, antropocentrismo, enfim, as mensagens do coaching pregacional fazem justamente isto, colocam a bíblia em volta do sujeito existencial e este fica no centro e aquela perde sua centralidade no ensino…

Diante disto trabalhasse com a eisegese e não com a exegese do texto bíblico, pois esta é tirar do texto o que ele diz (preposição ex: para fora de) enquanto aquela coloca dentro do texto o que o leitor/ouvinte quer (preposição eis: para dentro de). Por fim, voltamos ao velho problema da escola de interpretação bíblica de Alexandria, a chamada alegorização do texto a qual acreditava que o texto bíblico tinha suas obscuridades e enigmas e ai atribuíam ao texto intepretações incorretas e equivocadas, como, por exemplo, dizer que Sara era a verdadeira sabedoria e Hagar a filosofia pagã. Porém, a alegorização agora é existencial (ela faz parte da nova hermenêutica citada acima) e a obscuridade e o enigma são decifrados pela experiência, a qual é o centro, do leitor e ouvinte. Destarte, devido a isto, é que ouvimos trivialidades e verborreias, como por exemplo:

“Quando se trata de você, se trata do ponto fraco de Deus”. (Interpretação alegórica de Sl 51.17)

“Do coração de Jesus você é o centro”. (Interpretação alegórica de 1Jo 3.1)

“Ele planeja coisas para sua vida e, de diversas formas, inclusive pelas suas decisões, você pode apagar o que Ele escreveu para você… A vontade de Deus só se cumpre quando você, por livre arbítrio, coloca tudo na mão Dele”.

Pelagianismo & Semi-Pelagianismo…

Ao colocar o homem como ponto de referência (egocentrismo), tendo-o no centro (antropocentrismo), ao lado de suas comoções (sujeito pós-moderno) com suas experiências em contato com a mensagem para a verdade em si (existencialismo teológico + alegorição) e dando a ele o poder de decisão com seu “livre-arbítrio”, assim faz pois crê que no indivíduo há algo de excelência ou bom que ele possa de tal modo determinar. Isto não passa de uma velha heresia chamada pelagianismo com sua filha, o semi-pelagianismo. A primeira diz que a vontade humana não foi prejudicada pela queda/pecado original, logo, ela não está corrompida. Desta forma o homem ou a mulher podem chegar a uma santidade moral pelo próprio esforço. A segunda ainda que creia na salvação pela graça de Deus, crê que o homem tem a iniciativa de sua vontade própria, que é boa, para isto, logo, o homem coopera com Deus para sua salvação, porém este só dá continuidade ao processo começado por aquele.

Quando estes mensageiros colocam no ouvinte a confiança em que eles conquistarão o que querem através de suas palavras positivas (a heresia da confissão positiva de fé), que a oração quântica (contém expressões/vibrações boas e convictas) equilibrará a vida, precisam desbravar a motivação interior que há e assim por diante, dão ao homem ou a mulher o poder primário e do esforço próprio as devidas conquistas, objetivos e vitórias. Deus será só um mero coadjuvante e motivador através do “texto bíblico pregado”… Deste modo gera a questão filosófica: a vontade de potência de Friedrich Nietzsche. Ela ensina que no ser, em sua realidade interna (psique), existe um desejo, uma emoção instigante, um eros (paixão fervorosa), uma vontade a qual tornar-se a força, o combustível, a potencialidade necessária para que o indivíduo viva intensamente, alcance seus objetivos – especialmente existenciais.

Então a semelhança que há na mensagem do coaching pregacional com a vontade de potência é levar o indivíduo buscar dentro de si, do seu ser, a energia precisa para seguir em frente; se a vontade de potência estava baixa agora ela é renovada e pronta para as conquistas, não na dependência e confiança em Deus, porém, na auto dependência, auto confiança, no auto esforço; enfim na vontade de potência, ministrada pelo coaching pregacional, que por sua vez “é boa e eficaz” conforme vimos nas heresias oriundas de Pelágio.    

Réplica:

Gosto muito de um apologista protestante, Francis Schaeffer. Dentre dos mais variados ensinos que tive lendo-o, um deles foi a busca pelo andar de cima. Schaeffer ensina que o homem vive existencialmente vazio, no desespero. Diante disso ele tem duas buscas a fazer: o andar de baixo e o andar de cima. O primeiro é a procura do fundamento na razão, e o segundo é a busca do fundamento da fé cega; para o homem de hoje a razão é uma coisa e a fé é outra e são insociáveis (visão dualista). Então o indivíduo vive a busca pelo andar de baixo em seus estudos, trabalho e apego ao racionalismo, mas, de repente, ele dá um salto para o andar de cima a fim de buscar a experiência que o satisfaça, experimentada pela fé. Pode ser qualquer coisa que esteja fora da razão que traga ao homem sentido: filosofia, artes, música, cultura em geral; drogas, bebida, sexo, curtição, baladas, lazer, esporte; shows gospels, experiências místicas nos cultos, emoção descontrolada no momento do “louvor”, mensagens motivacionais e etc.

Schaeffer nos dias de hoje falaria, talvez, ao ver a onda do coaching pregacional, que não há diferença em qualquer um desses meio para buscar o andar de cima e a mensagem destes “pregadores”. O uso de drogas, ou ir na balada, ou a aventura intensa são semelhantes as mensagens coachings. Na época dele, ao criticar a teologia liberal, escreveu: Você pode experimentar drogas ou o liberalismo teológico moderno. Não faz diferença: os dois são viagens separadas da razão. Ou seja, tanto as pregações do coaching pregacional enquanto as drogas levam para a mesma experiência, um sentido de viver não integral, fora da razão.

Isto se dá, segundo Schaeffer, pelo fato do homem estar separado de Deus. Ele foi criado a imagem de Deus (imago dei), porém, devido ao pecado, o homem está destituído de Deus (Rm 3.23), assim sem sentido da vida. Ora ele busca o sentido de viver na razão (andar de baixo) ou na fé mística e cega com as devidas experiências existenciais (andar de cima). Porém, a solução está em Cristo exposto em sua inteireza e plenitude!

Não tem como o homem buscar isto pelo próprio esforço ou vontade, conforme vimos. O homem por natureza é mau devido ao pecado original! Ao explorarmos os primeiros capítulos de romanos vemos muito bem fundamentado e evidenciado, especialmente no capítulo 3.9 – 20. O homem não tem livre-arbítrio, mas, sim, um servo-arbítrio que é escravizado pela sua vontade de potência má e natureza corrompida, depravado totalmente. Até mesmo salvo necessita lutar constantemente na presença de Cristo (Rm 7.15 – 25). Por isso que a solução não está em nós mesmo, em nossa egoreferência antropocêntrica, mas em Cristo. Por Ele que somos salvos, redimidos, e nossa vontade e realização está embasada (Rm 3.21 – 28).

Podemos ilustrar isto na história da queda. No capítulo 3 e versos 8 – 11 se vê que Adão e Eva se esconderam do Senhor – uma fuga, por natureza, das pessoas de seus relacionamentos com o verdadeiro Deus, em Cristo. Esta fuga se deu em plano espacial (vs/8; entre as árvores) e intelectual (vs/10 e 11), como se dá nos dias de hoje conforme já visto acima sobre a definição pela busca do andar de cima.Mas o próprio Deus que dá a solução ao vir ao encontro do homem (vs/9) e providência o derramamento de sangue e morte de um animal para cobrir a nudez (vs/21) – prefiguração de Cristo; por mais que o homem buscasse a própria solução nesta fuga (vs/7), e até hoje assim tenta fazer sem Cristo…

Não para por aqui! No verso 16 – 19 se vê que o Senhor declarou as consequências do pecado original para o homem e, assim, podemos afirmar que até hoje sofremos resultado de ordem existencial, tanto físico enquanto psicologicamente, em decorrência deste afastamento de Deus. Próprio Martinho Lutero falava de pavor, desespero, sensação de perdição, agressão e ansiedade; uma angústia intensa a qual ele chamava de anfechtung. Isto o afligia na consciência, dizia: não há um só canto não preenchido pelo mais amargo sofrimento, horror, medo, dor, e todas essas coisas parecem eternas.

Neste terror emocional e existencial pelo qual o reformador passava ele não optava por fugas, andar de cima, vontade de potência ou ouvir coachings pregacionais (se fosse nos dias de hoje); lutava ao dizer: Cristus pro me – Cristo por mim! Era o âmago de sua teologia: em Jesus Cristo, Deus deu-se a si mesmo, absolutamente e sem reversar, para nós. Não pelo fato de você ser o centro, mas pelo exercício de Sua graça e misericórdia (Ef 2.8 – 10; Tt 2.11 – 14). Assim Ele é por nós e não contra nós, porém isto aprende não em mensagens motivacionais e psicodélicas, todavia, nas profundezas da experiência com Cristo (Fl 3.10).

Voltando a citar Schaeffer, ele foi o fundador da apologética reformada em seu aspecto prático. Ele mostra a centralidade de Cristo em todos os aspectos da vida. Não existe a dicotomia do racional e pístico (da fé) do ponto de vista da verdade cristã. Tudo está em Cristo e convergido nEle (Mt 18.20; Ef 1.10; Cl 1.20). Então a partir do momento que pararmos de viver essa vida dividida e colocarmos toda nossa existência em Cristo, tendo-O como centro de tudo, vivendo nEle e em sua dependência, não necessitaremos mais por esta busca desenfreada por experiências surreais, como as mensagens dos coachings. Em Cristo há a resposta para tudo e assim não há necessidade de tratar as Escrituras com alegorias, existencialismo, estruturalismo e toda esta onda trivial.

O texto bíblico deve ser exposto de forma correta e com a devida interpretação. O pregador necessita estudar profundamente o texto e lá desfrutar da presença de Deus. Passar por todas as etapas exegéticas e hermenêuticas necessárias. Depois disto fazer a devida contextualização para os nossos desafios atuais. Parafraseando Barth: precisamos ler a bíblia em uma mão e o jornal em outra (nos dias de hoje seria o smartphone). Explicar o texto corretamente (igualmente Esdras e Pedro fizeram, por exemplo [cf. Ne 8 e At 2]), não exaustivamente, e aplicar devidamente e concluir em Cristo e sua supremacia, e não para o ego do ouvinte. A mensagem das Escrituras já é atual, contextual e existencial em sua exposição, não precisa de anomalias dos coachings para agradar o sujeito pós-moderno.

Ultimato:

Lembra da revolução copernicana filosófica que falamos? Então… Também há a revolução copernicana teológica. Ela sugere que o nome de Deus não seja mais o centro do discurso, pois o nome dEle pode ser ouvido e interpretado por aquilo ou aquele que a pessoa tem como deus em sua vida. Ao falar Deus, portanto, há vários sentidos que o ouvinte pode atribuir. Então é necessário fechar o discurso em Cristo, logo, o centro de é o nome de Cristo e tudo circula em volta dEle. O Cristo que apazigua a ira do Pai (1Ts 1.10) contra nós, meros pecadores e não centro nem o ponto fraco de ninguém… O Cristo que revela verdadeiramente Deus (Jo 1.14 e 18).

Se as pessoas continuarem atrás deste modismo de coachings pregacionais e estes persistirem assim a ministrar, colocando-se como o centro do discursos com suas vontades e ambições, só estarão na fuga e não saberão de fato o que é o evangelho em sua inteireza e completude. Portanto, sugiro que parem com tamanho gracejo e se coloquem no seu lugar por direito que é aos pés de Jesus, igual fez aquele mulher pecadora (Lc 7.36 – 50), pecadora igual a você e a mim, sujeita a sua condição má, todavia, achou a solução nEle.

Querido, rejeite esses falso profetas, anticristos, coachings pregacionais; rejeite seu ego, sua vontade e sua experiência como fundamento.Centralize e conheça Cristo! Para isto envolva-se com pessoas que preguem e vivam o evangelho verdadeiramente, como representantes do corpo de Cristo (1Co 12).

“Não há um único centímetro quadrado, em todos os domínios de nossa existência, sobre os quais Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: ‘É meu!’”. (Abraham Kuyper)

Fonte: NAPEC

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

UMA TÃO GRANDE SALVAÇÃO (João 3.16)



Por Pr. Silas Figueira

Texto base: João 3.16 – “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.

INTRODUÇÃO

Jesus está conversando com Nicodemos à noite e esta conversa gira em torno da salvação do homem – particularmente do próprio Nicodemos, que por ser fariseu e muito zeloso pela Lei achava que estava salvo. O Senhor começa dizendo que se Nicodemos não nascesse de novo não poderia, nem ver e nem entrar no Reino de Deus (Jo 3.3,5). Que a salvação não é meritória, mas mediante a graça de Deus.

Para entendermos João 3.16, nós precisamos entender o seu contexto. Antes de Jesus falar para Nicodemos a respeito de como a salvação é alcançada, o Senhor lhe mostra o real sentido da serpente de bronze que Moisés levantou.

No versículo 14 o Senhor fala a respeito da serpente de bronze que foi levantada por Moisés (Nm 21.4-9) para ilustrar como acontece a regeneração (nascer de novo). Nesse episódio o povo começou a falar mal de Deus e de Moisés, dizendo: “Por que vocês não nos tiraram do Egito para morrermos no deserto? Não há pão! Não há água! E nós detestamos esta comida miserável!”. (Nm 21.5 – NVI). Devido a isso, o Senhor envia serpentes venenosas que morderam o povo. Quando as pessoas começaram a morrer, Moisés intercede pelo povo. O Senhor, em resposta, instrui Moisés a fazer uma serpente de bronze e colocá-la em um poste (haste) para que aqueles que fossem picados por alguma serpente, pudessem olhar para ela. Quando a pessoa que fosse picado pela serpente olhasse para esta serpente de bronze o veneno perderia a sua eficácia.

O ponto de conexão mais profundo entre a serpente de bronze e Jesus estava no ato dele ser levantado. O verbo “levantar” possui duplo sentido: ser crucificado (Jo 8.28, 12.32-34) e ser glorificado e exaltado (Jo 12.23,24). Olhando para Jesus, todas as pessoas são salvas da morte eterna, da separação de Deus e do tormento eterno ao contemplar com os olhos espirituais a pessoa de Jesus, levantado na cruz.

A humanidade, como aqueles israelitas do passado, foi mordida por uma serpente, mas o veneno mortal que ela lhe instalou nas veias é o veneno do pecado, pois o salário do pecado é a morte (Rm 6.23). Mas o Pai providenciou um remédio na Pessoa de seu Filho; na crucificação vemos o aniquilamento do pecado. Essa salvação que o Senhor Jesus veio proporcionar ao homem perdido é chamado de “novo nascimento”. Como vemos em João 3.15, o Senhor falando para Nicodemos: “para que todo que nele crê tenha a vida eterna”. A vida eterna aqui é a própria vida de Deus que está no Verbo eterno (A vida estava nele – Jo 1.4), e por Ele a vida eterna é transmitida a todos os crentes.

Crer no Filho de Deus é semelhante a olhar para a serpente de bronze. Aqueles que foram amados por Deus e creem no seu Filho, em vez de condenação, recebem a vida eterna. Assim como Deus usou de misericórdia com os israelitas que fitaram a serpente, da mesma forma o Senhor tem usado de misericórdia para com o homem pecador que olha para Jesus. E através desse olhar o homem tem alcançado a salvação de sua alma.

A forma como o Pai nos deu está salvação está descrita em João 3.16, onde o Senhor Jesus fala para Nicodemos como isso ocorreu. Vamos analisar esse texto que nos fala de forma maravilhosa esse ato de Deus por nós.

1 – A SALVAÇÃO PROCEDE DO GRANDE AMOR DE DEUS (Jo 3.16 a).

Porque Deus amou o mundo de tal maneira...”

Esse texto é tão sublime e tão profundo que Lutero o chamou de “miniatura do evangelho”.

Jesus deixa claro para Nicodemos que a nossa salvação procede do amor do Pai por nós. Foi porque Deus amou que fomos salvos, foi porque ele é misericordioso que fomos alcançados.

Para os judeus o Senhor só amava os filhos de Israel; aqui, porém, o amor de Deus não se restringe a uma raça. João já havia falado sobre isso em João 1.11-13. O amor de Deus ao mundo não é porque o mundo é bom, mas porque o mundo é mau. O mundo é tão ímpio que João em sua primeira carta proíbe os cristãos de amá-lo ou de amar qualquer coisa do mundo (1Jo 2.15-17). Em outras palavras, o homem caído é mal e o sistema em que ele está inserido também é mal.

A palavra “amor” no grego, nesse texto, é agape, que é um amor sacrificial.

Jesus cita qual é a fonte desse amor, Ele fala para Nicodemos que fonte é o próprio Deus. Jesus deixa claro para Nicodemos que a nossa salvação não procede dos nossos atos (Ef 2.8,9) e muito menos da nossa escolha por Ele (Rm 3.10-26). Essa escolha procedeu do Pai. O amor de Deus é um ato livre de Sua vontade, não uma emoção produzida nEle por nosso estado miserável e muito menos por nossos atos de “bondade”. Esse amor é dirigido particularmente aos crentes (Rm 9.18).

Devemos entender que o amor de Deus por nós é eterno e incondicional. A Bíblia nos fala que o Senhor nos elegeu nEle antes da fundação do mundo (Ef 1.4). Ele nos amou quando ainda éramos inimigos da cruz (Rm 5.10). Por isso que não há nada que possamos fazer para Deus nos amar mais, nem há nada que possamos fazer para Ele nos amar menos. Ele ama porque isso é de sua natureza (1Jo 4.8). A causa do amor de Deus não está em mim e nem em você, está no próprio Deus.

Conta-se a história de um médico que se formou e foi atuar numa cidade muito pobre. Montou seu consultório e atendia a todos com alegria. O que muitos não sabiam é que ao se deparar com a miséria da grande maioria da população, não cobrava nada. Eram tão pobres que se compadecia, atendia e depois pegava a ficha e escrevia: “Muito pobre. Dívida paga”. Os anos foram se passando, as fichas aumentando. Até que um dia o médico veio a falecer. A viúva, olhando seu consultório, observando as fichas, indignada, procura a justiça e pede indenização pelos serviços prestados e não recebidos. Quase toda a cidade foi acionada. Ao analisar as fichas o juiz pergunta se a viúva reconhecia a letra que escreveu: “Muito pobre. Dívida paga”. Imediatamente responde que sim. Que era de seu falecido marido. O juiz então decreta a sentença. Minha senhora, o próprio autor do serviço os liberou do pagamento. Eles têm a garantia dele para não pagar.

Assim somos nós. Você sabia que tivemos uma dívida perdoada por quem um dia tratou de nós? João 3.16 nos mostra que por amor essa dívida foi cravada na cruz. A nossa dívida era impagável, mas o Senhor a perdoou através do sacrifício de Jesus na cruz.

Segunda coisa que devemos entender que esse amor de Deus se estende a todas as pessoas. A palavra “mundo” em grego é kosmos, essa palavra na Bíblia tem muitos sentidos, mas nesse texto nos fala da humanidade. Jesus morreu na cruz para salvar o homem perdido (Lc 19.10). Esse amor se estende a todos os povos, raças, tribos e nações (Ap 7.9), e não somente aos judeus como pensava Nicodemos.

O comprimento, a largura, a altura e a profundidade do amor de Deus procede desde Adão e vai até o último homem. Por isso que o apóstolo Paulo ora para que esse amor seja compreendido pela igreja de Éfeso. Como está escrito:

Para que Cristo habite pela fé nos vossos corações; a fim de, estando arraigados e fundados em amor, poderdes perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus. Ora, àquele que é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera” (Ef 3.17-20).

A terceira coisa que devemos entender é a intensidade desse amor – de tal maneira. Deus ama o mundo tão intensamente, tão incompreensivelmente, tão profunda e poderosamente que a expressão “de tal maneira” só pode ser compreendida à luz do verso 14 que diz: assim importa que o Filho do Homem seja levantado”. É um amor que não podemos entender a sua dimensão, a nossa mente finita não alcança tal entendimento para compreender esse amor. Ele amou a mim e a você desde a eternidade passada e planejou o meio para nos salvar. Apesar de tudo que éramos em relação a Ele, Ele não desistiu de nos amar.

Há alguns estudiosos que dizem que o termo traduzido por “tanto, de tal” não é um advérbio de intensidade, mas de modo (desse modo); o tempo dos verbos gregos reforça essa leitura: “É assim que Deus amou o mundo: ele deu seu Filho”.

Não importa se “tanto” é um advérbio de intensidade ou de modo, a prova do amor de Deus por nós está centrada em seu amor por nós.

2 – A SALVAÇÃO PROCEDE DE UMA GRANDE DÁDIVA DE DEUS (Jo 3.16b).

...que deu seu Filho unigênito...”

Essa dádiva de Deus implicava na encarnação e morte na cruz de Seu Filho. O apóstolo Paulo escrevendo aos Romanos diz: “Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8). A nossa salvação sempre partiu do amor de Deus por nós. A prova desse amor está manifesta naquilo que Ele deu para nos salvar. Ele deu o próprio Filho. Filho Unigênito. Mais uma vez citando Paulo ele nos diz: “Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios” (Rm 5.6).

Há um paralelo entre Deus e Abraão e entre Jesus e Isaque. Vemos que o Senhor em Gênesis 22 põe Abraão à prova. O Senhor pede seu filho Isaque em sacrifício em um dos montes que o Senhor lhe mostraria. Abraão não questionou a Deus, mas foi até o fim nesse propósito. Da mesma forma o Pai ofereceu seu Filho Jesus em sacrifício por nós na cruz, mas diferente de Isaque que não foi sacrificado, o nosso Senhor e Salvador Jesus foi pendurado na cruz, pagando um alto preço pelas nossas vidas.

O Filho de Deus esteve entre nós na forma de servo (Fl 2.7; Jo 6.38). Deus enviou Seu Filho para o exílio entre nós. Ele veio para o que era seu, mas os seus não o receberam (Jo 1.11). Os homens o rejeitaram, mas mesmo sabendo que isso ocorreria, Ele foi enviado para estar entre nós.

Entenda uma coisa, Deus não nos amou porque Cristo morreu por nós; Cristo morreu por nós porque Deus nos amou. O amor de Deus é a causa; a cruz é a consequência. O Pai não poupou seu próprio Filho (Rm 8.32).

Como nos diz Isaías: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu” (Is 9.6a). O menino Jesus nasceu, mas o Filho foi dado. Esse Filho era o unigênito do Pai. A palavra “unigênito” é monogenes em grego. A ideia que nos dá aqui é que Jesus é o único do seu tipo. Como nos fala João em sua primeira carta:

Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele vivamos. Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados” (1 Jo 4.9,10).

Essa grande dádiva ultrapassa a compreensão humana, pois mesmo sabendo de tudo que seu Filho passaria nas mãos dos homens, Ele não retrocedeu. Mesmo o vendo transpassado, escarnecido, ferido, o Senhor não poupou seu próprio Filho, mas, pelo contrário, o entregou por nós (Rm 8.32).

3 – A SALVAÇÃO PROCEDE DE UMA GRANDE OPORTUNIDADE (Jo 3.16c).

...para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.

A coisa mais extraordinária sobre a fé é que ela nos livra da destruição eterna (Calvino).

No dia 6 de janeiro de 1850, uma tempestade de neve praticamente paralisou a cidade de Colchester, na Inglaterra, e um rapaz não conseguiu chegar à igreja que costumava frequentar. Assim, se dirigiu a uma capela metodista muito simples perto de sua casa, onde um leigo despreparado substituía o pastor que não havia aparecido. O texto de sua mensagem era Isaías 45.22: “Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os limites da terra”. Fazia meses que esse rapaz estava infeliz, e seu coração pesava por causa de seus pecados; mas, apesar de ter crescido dentro da igreja (tanto seu pai quanto eu avô eram pastores), não tinha certeza da salvação.

O pregador improvisado não tinha muito que dizer, de modo que continuou repetindo o texto. “Não é preciso fazer uma faculdade para ser capaz de olhar”, gritava. “Qualquer um pode olhar, uma criança pode olhar”. Foi então que o pregador olhando para o jovem visitante ali sentado, apontou para ele e disse: “Meu rapaz, você parece extremamente infeliz. Olhe para Jesus”.

O rapaz olhou para Jesus pela fé, e foi assim que o grande pregador, Charles Haddon Spurgeon, se converteu.

Spurgeon não deixou passar essa oportunidade, no entanto, muitos tem deixado ela passar, como foi o caso do jovem rico (Mc 10.17-22), que confiou em sua religiosidade e nos seus bens e não seguiu a Cristo.

A palavra “fé” em grego é pisteuo, aparece 98 vezes no evangelho de João – várias vezes por capítulo. Esse termo pisteuo significa “reconhecer a verdade como verdade”. Crer em Cristo é aceitar que Ele diz a verdade.

Segundo, pisteuo significa “acreditar em, depositar a confiança em, estar persuadido de” algo ou alguém. Quando digo que creio em Jesus Cristo, declaro que confio nele, apoio-me nele, ponho minha completa confiança nele.

A fé em Cristo é uma grande oportunidade:

Primeiro, de crer na verdade do evangelho. É crer que o alto preço que Jesus pagou na cruz por mim é o suficiente para minha salvação.

Segundo, de se apropriar da verdade do evangelho. Não basta conhecer a verdade por conhecimento apenas. Existem muitas pessoas que acreditam no evangelho, mas não querem nenhum compromisso com o Senhor. Esse tipo de fé mantém a pessoa na morte eterna. Crer é confessar que Jesus Cristo é o Senhor e se entregar a Ele.

Terceiro, de descansar nessa fé. É estar firmado e confiante de que essa fé em Jesus nos dá a vida eterna. Que o nosso nome consta no livro da vida (Ap 21.27).

Através da fé em Jesus nós temos um grande livramento (...não pereça...). A fé em Jesus nos dá vida eterna, mas quem não tem o Filho já está condenado para a morte eterna (Jo 3.18). Como disse Calvino: a coisa mais extraordinária sobre a fé é que ela nos livra da destruição eterna.

A palavra “perecer” em grego é apollumi, “destruir, colocar um fim à ruina”. A fé (confiança) no Filho de Deus salva o cristão da penalidade a que o pecado faz jus.

Ter a vida eterna é a consequência da fé em Cristo Jesus, nosso salvador. Mas esta vida não começa no céu quando nós morrermos, essa vida começa no momento que recebemos Jesus como nosso salvador pessoal. Para o crente em Jesus a vida em Cristo tem gosto de vida, ainda que estejamos passando por lutas e adversidades.

Jesus revela a verdadeira natureza de Deus. Ele anseia ver sua criação salva da justa pena, resultante do pecado, desfrutando do gozo eterno em sua presença. Por isso o Pai envia ao mundo o Filho para que o mundo seja salvo por ele (Jo 3.17).

CONCLUSÃO

João 3.16 é o resumo de toda a Bíblia. Nesses versos nós encontramos o amor de Deus se revelando na pessoa do Filho. Mostrando que o mundo está perdido, mas que a fé no nosso salvador nos garante a vida eterna.

Jesus mostra para Nicodemos que a salvação não procede das obras da lei, mas nos foi dada mediante a graça de Deus. Que esta salvação vem até nós quando depositamos a nossa fé no Salvador Jesus. Nicodemos veio a Cristo perdido, confiado que estava salvo por seus próprios méritos, mas o Senhor lhe mostrou que o Pai providenciou um meio seguro para a nossa salvação: nos deu o seu próprio Filho para morrer em nosso lugar. Por isso que mediante a fé em Jesus somos justificados. Meu amigo, me responda, em quem você está confiado para a sua salvação?

Bibliografia:

1 – Boor, Werner de. Evangelho de João I. Comentário Esperança. Editora Evangélica Esperança.
2 – Bruce, F. F. João, Introdução e Comentário. Mundo Cristão e Edições Vida Nova.
3 – Calvino, João. Evangelho Segundo João. Vol. 1. Editora Fiel.
4 – Champlin, R. N. Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo. Vol. 2. Editora e Distribuidora Candeia.
5 – Lopes, Hernandes Dias. João, as glórias do Filho de Deus. Comentários Expositivos Hagnos. Editora Hagnos.
6 – Keener, Graig S. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia, Novo Testamento. Edições Vida Nova.
7 – Wiersbe, Warren W. Novo Testamento 1. Vol. 5. Comentário Expositivo. Editora Geográfica.


sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Pare de Comer Doces Espirituais


Por Amy Gannett

Eu sempre gostei muito de doces. Amo sobremesas de todos os tipos — especialmente de sorvete. Coisas doces são agradáveis e às vezes reconfortantes. E desde que estou sempre tendo vontade de doces? Bem, eles sempre parecem ser a solução.

Mas nos últimos anos tive que fortalecer meu sistema imunológico, o que significou reduzir drasticamente o consumo de açúcar. E é engraçado o que aconteceu.

Primeiro, percebi que o açúcar está em absolutamente tudo. Eu não tinha ideia de quantas coisas eu comia — coisas que eu achava que eram boas e nutritivas para mim — que estavam cheias de açúcar e corroíam lentamente minha saúde em geral. Aprender isto me deixou ainda mais agradecida pela segunda coisa que notei: quanto menos açúcar eu comia, menos eu desejava comer.

Mas meu desejo por doce não abrange apenas os meus desejos físicos. Isso respinga em minha vida espiritual também. Em tempos de luta espiritual, tenho me voltado para frases doces aparentemente verdadeiras, para acalmar meus desejos espirituais.

Apoiei-me em citações, dignas do Pinterest, sobre como eu sou uma vencedora que pode fazer qualquer coisa. Em tempos de seca espiritual, escutei os influenciadores das mídias sociais dizendo que eu já tinha tudo do que necessito dentro de mim. E em tempos de caos, valorizei palavras bem intencionadas de amigos relembrando-me de que já sou mais forte do que poderia acreditar.

Em tempos em que senti que estava sendo esticada ao máximo, procurei por doces: pequenos lembretes deliciosos de como sou capaz, de como sou invencível, do quanto posso realizar. Eles são agradáveis e reconfortantes. E desde quando estou sempre desejando os doces? Bem, eles sempre parecem ser a solução.

Mas esses mantras saborosos não estão me transmitindo a verdade inteira.

Doces Substitutos da Verdade

Eu não estou sozinha. Os cristãos frequentemente trocam as verdades nutritivas da Palavra de Deus por substitutos “mais doces”. Particularmente, quando a vida nos desgasta, podemos nos apoiar em meias-verdades sobre nossa própria resiliência, em vez de nos lembrarmos da soberania e suficiência de Deus.

Quando eu comecei a reduzir o açúcar, pensei que não seria capaz de fazer isso. Sentia desejo por açúcar constantemente. Uma amiga enfermeira explicou o que estava acontecendo no meu corpo. Ela me disse que o açúcar mente, dizendo aos nossos corpos que temos mais energia do que realmente temos, fazendo-nos sentir como se tivéssemos comido algo mais substancial do que realmente comemos. E, lentamente, o açúcar pode nos transformar em viciados, sempre procurando aquele agrado tranquilizante para nos levar ao próximo desejo.

O mesmo pode ser dito dos substitutos espirituais dos quais tenho me alimentado. Tal como o açúcar, essas citações motivacionais mentem para mim.

Elas me dizem que eu sou forte, mas não fazem nada para me lembrar da verdadeira força de Deus (Is 41.10). Elas me dizem que sou capaz, mas deixam de dizer que Deus é a fonte de todas as coisas (Tg 1.17). Elas me dizem que eu sou suficiente, mas deixam de lembrar-me que Ele é o eterno “EU SOU” (Ex 3.14). Elas me dizem que posso fazer mais do que realmente posso. Elas me convencem a pensar que oferecem alimento duradouro, apenas para me deixar exausta, derrotada e procurando a minha próxima dose.

Aprenda a Desejar a Verdade

Cortar o açúcar da minha dieta ensinou (e reensinou) meu corpo a desejar a verdadeira nutrição. Por meio de pequenas escolhas diárias, estou treinando meu corpo para ficar satisfeito com folhas verdes da horta de minha amiga e a desejar a acidez de um tomate amadurecido naturalmente. E felizmente, quanto mais eu me alimento da verdadeira nutrição, mais eu anseio pelas coisas boas.

Desmamar da espiritualidade pobre em nutrientes é um trabalho árduo, mas à medida que fazemos a escolha diária de nos deleitar no caráter imutável de Deus, nós nos ensinamos a desejar aquilo que realmente satisfará. Quando nos sentimos fracos e optamos por nos banquetearmos na Palavra, somos transformados em pessoas que buscam a obra de Deus em nossa fraqueza e que confiam no Seu Espírito em nosso querer.

Portanto, vamos decidir nos alimentar de uma fonte mais sustentadora. Vamos parar de nos alimentar de lixo espiritual que não nos nutre. Vamos parar de dizer a nós mesmos que somos fortes o suficiente, corajosos e bons o suficiente para fazer o que nós, em nossas limitações humanas, não podemos fazer. Vamos abraçar a realidade de quem somos e quem nosso Deus é. Somos consistentemente fracos; Deus é quem deve aparecer e se fazer visto.

E, ao fazer isso, encontraremos o que encontrei com o açúcar: o disparate do doce está em absolutamente tudo. Mas à medida que aprendemos a identificá-lo e eliminá-lo, desejaremo-lo muito menos. Ao nos lembrarmos das verdades do caráter de Deus, começaremos a desejar as ricas verdades da Palavra de Deus. E à medida que nos alimentamos desse pão diário, ensinaremo-nos a desejar o que eternamente satisfaz — o Pão da Vida em si.

Traduzido por Raul Flores

domingo, 28 de julho de 2019

Não sonhe os sonhos de Deus


Por Maurício Zágari

Quando dizemos que temos um sonho, isso significa que temos um desejo no coração que esperamos que se realize, apesar de não haver nenhuma certeza de que ele ocorrerá. É como quando eu digo “Meu sonho é viajar para a Lua”. Quando expresso isso, significa que viajar para a Lua é algo que eu gostaria muito de fazer, porém não tenho nenhuma segurança de que conseguirei algum dia. Há o desejo; não há a garantia. Nesse sentido, sonhar com algo está no campo da fé e não da razão. É uma expectativa, uma possibilidade, e não uma certeza. No sonho só cabem probabilidades. 

Se dizemos que Deus tem um sonho, isso o esvazia de toda onisciência e onipotência. O deus que sonha não tem certeza do futuro, mas transita no campo da expectativa. O deus que sonha não é Deus, pois não tem segurança do futuro, não é soberano sobre o que vai acontecer, apenas cruza os dedos e fica na torcida. O deus que sonha é um deus sem glória. O Deus da Bíblia, por sua vez, é o Deus que tudo pode e cujos planos não podem ser frustrados (Jó 42.2). 

Deus sabe tudo o que vai ocorrer desde a fundação do mundo. O futuro para ele é tão presente quanto o passado, pois ele habita fora do tempo. Portanto, não, Deus não tem sonhos. Tem planos de ação. Ele já sabe o que vai fazer. Se acordo de manhã e digo “Vou escovar os dentes”, isso não é um sonho meu, é algo que sei que ocorrerá, pois estou me levantando da cama para realizar. 

Portanto, a expressão “Sonhe os sonhos de Deus” é antibíblica. É uma expressão que esvazia Deus de seu poder, o destitui de seu trono e faz dele alguém que sabe tão pouco sobre o futuro e tem a mesma possibilidade de influenciá-lo quanto nós, seres criados. O deus cujos sonhos preciso sonhar é um ídolo, um bezerro de ouro. 

Meu irmão, minha irmã, não ore ao Senhor pedindo que os sonhos dele se realizem em sua vida. Isso não vai acontecer. Pois é o mesmo que pedir que ele não realize nada em sua vida, visto que ele não tem sonhos. Ore pedindo-lhe que cumpra sua santa vontade, a mesma que guia os passos do mundo desde tempos imemoriais. Ao fazer isso, ore com a certeza de que o Deus todo-poderoso estará agindo para realizar aquilo que se encaixa no perfeito mecanismo que ele criou e conduz da caminhada da humanidade debaixo de seu absoluto poder.

Fonte: Apenas

quinta-feira, 11 de julho de 2019

DÍZIMOS E OFERTAS HOJE



Por Pr. Silas Figueira

INTRODUÇÃO

Texto base: Malaquias 3.6-12

O livro do profeta Malaquias foi escrito num período de grande crise espiritual em Israel. O povo havia voltado do cativeiro babilônico, no entanto, eles ainda não haviam aprendido nada com este cativeiro. Apesar de o Senhor ter colocado à frente deles líderes como Zorobabel, Esdras e Neemias e ter levantado profetas para motivá-los, o povo e os seus líderes continuavam em total descaso para com Deus e o culto que lhe era devido. Os tempos mudaram, mas o coração do povo não.

Sabemos que Malaquias foi um profeta pós-exílio e muitos o colocam num período entre a ausência de Neemias (doze anos), ou até mesmo depois de Neemias, tendo em vista que ele trata dos mesmos problemas que Neemias enfrentou quando ao seu retorno da Pérsia: sacerdócio corrompido, retenção dos dízimos e casamento misto.

Apesar de o templo estar reconstruído, o culto, entretanto, estava sendo oferecido com total desleixo. Havia frieza espiritual por parte do povo e, pior, dos sacerdotes. Estes eram somente profissionais no seu ofício e o povo somente religiosos. Infelizmente, nada diferente dos dias de hoje.

Warren W. Wiersbe conta uma história a respeito de uma senhora que havia repreendido o seu pastor por fazer uma série se sermões sobre “Os pecados dos santos”.
- Afinal – argumentou ela –, os pecados dos cristãos são diferentes dos pecados de outras pessoas.
-Sem dúvida – disse o pastor. - São piores.

São piores porque, quando os cristãos pecam, não apenas transgridem a lei de Deus, mas também entristecem o coração do Senhor [1].

O livro de Malaquias descreve alguns pecados que são comuns nos dias de hoje e que tem sido negligenciado por muitos cristãos: casamentos mistos com pagãos, a contaminação do sacerdócio, opressão dos pobres, descaso para com a religião (religiosidade morta), e por fim a negligência para com os dízimos e as ofertas.

De todos os pecados citados por Malaquias somente os dízimos, principalmente estes, são os mais questionados nos dias de hoje. Para muitos essa exigência ficou no Antigo Testamento, hoje, segundo eles, estamos debaixo da graça e isso não é mais necessário. Não há mais sacerdócio hoje e muito menos templo como havia antigamente. O Novo Testamento não fala sobre esse assunto. Enfim, não faltam argumentos para não se entregar o dízimo.

Mas é sobre este assunto que eu quero tratar com você. Vamos analisar o que a Bíblia tem a nos falar sobre esse assunto tão polêmico em nossos dias.

Antes de entrarmos propriamente no assunto “dízimo”, é necessário entendermos o que estava se passando naquela época e que é um reflexo da igreja atual.

Quais a lições que aprendemos aqui:

1 – EM PRIMEIRO LUGAR, DEVEMOS ENTENDER QUE DEUS É IMUTÁVEL (Ml 3.6).

A imutabilidade de Deus nos dá garantia de que aquilo que Ele prometeu irá se cumprir, mas também é um alerta em relação a aquilo que Ele exige do seu povo continua inalterado. Como nos fala Tiago 1.17: “Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança” (ACF), ou “sombra de variação” (ARA).

Por isso que, apesar de o Senhor ser provocado até ao limite, não se torna menos misericordioso [2]. A imutabilidade de Deus foi a causa do povo de Israel não ter sido consumido porque havia uma aliança entre Deus e Israel. Mas em que consistia essa aliança? Os termos da aliança eram estes: se o povo obedecesse a Deus, este o abençoaria; mas, se o povo desobedecesse a ele, seria castigado. E através da Lei dada por meio de Moisés o povo firmou essa aliança.

Em Deuteronômio 28 vemos as consequências da obediência – as bênçãos, e as consequências da desobediência – as maldições. E no capítulo 29 temos a renovação da aliança.

Foi esta aliança feita que o povo de Israel estava quebrando, e, devido a isso, estavam colhendo os frutos amargos dela proveniente.

O Rev. Hernandes Dias Lopes comentando sobre este texto nos mostra três verdades importantes em relação a Sua aliança com Seu povo [3]:

1oEm primeiro lugar, Deus é imutável em seu ser. Deus não tem picos de crise. Seu amor por nós não passa por baixas. Em outras palavras: Deus não é bipolar. Nele não há sombra de variação (Tg 1.17).

2oEm segundo lugar, Deus, é imutável em relação à Sua aliança conosco. Deus é leal ao compromisso que assume. Por isso que ainda que sejamos infiéis, Deus é permanece fiel (2Tm 2.13).

3oEm terceiro lugar, a imutabilidade de Deus é a nossa segurança. A imutabilidade de Deus é a causa de nós não sermos destruídos. Se Deus nos tratasse segundo os nossos pecados, estaríamos arruinados.

Se Deus não muda, isso deveria ser motivo para o povo temer ainda mais a Deus, no entanto, eles estavam vivendo em um total desleixo e apatia espiritual. A nação não estava temendo a Deus. Achavam que Deus era como eles e que faria vista grossa ao pecado. Assim como o antigo Israel estava cego em relação a Deus e a sua imutabilidade, a igreja de hoje também passa pelo mesmo problema. Passam-se os anos, mas os pecados continuam os mesmos.

O SENHOR através de Malaquias continua a chamar a atenção ao pecado do povo e nos serve de alerta hoje. Como disse Paulo em sua primeira carta aos Coríntios 10.6:

Essas coisas ocorreram como exemplos para nós, para que não cobicemos coisas más, como eles fizeram”.

Da mesma forma o relato do livro de Malaquias no serve de alerta hoje.

2 – EM SEGUNDA LUGAR, O SENHOR FAZ UM CONVITE AO ARREPENDIMENTO (Ml 3.7).

Devido à aliança quebrada, não havia como o Senhor abençoar de forma plena o Seu povo. A bênção e a maldição são uma via de mão dupla. O povo queria as bênçãos do Senhor, mas não queriam compromisso em cumprir integralmente a Lei por Ele estabelecida, devido a isso, o Senhor retinha as bênçãos sobre eles.

Como nos fala Oseias 4.9: “Como é o povo, assim é o sacerdote”, assim se encontrava a nação desviada de Deus.

No entanto, vemos nesse texto o Senhor mais uma vez usando de misericórdia com Seu povo. O Senhor estende a Sua mão em direção ao povo e os convida ao arrependimento. Champlin diz que a idolatria – adultério – apostasia começou cedo na história de Israel e persistiu por longo tempo. Na geração de Malaquias, aquele povo se tornou perito em pecar e debochar, imitando as corrupções antigas da nação, misturando múltiplos pecados pagãos. Há muito a Lei de Moisés tinha deixado de ser o guia […]. Portanto, eram necessário o arrependimento decisivo e a volta para YAHWEH [4].

O Rev. Hernandes Dias Lopes nos fala a respeito de quatro verdades fundamentais nesse convite gracioso de Deus [5]:

1o Em primeiro lugar, a paciência perseverante do restaurador (Ml 3.7a). A geração de Malaquias estava no mesmo curso de desvio e desobediência dos seus pais. O que não é diferente dos dias de hoje onde encontramos uma igreja longe de Deus, mas vemos a Sua mão estendida para esta mesma igreja.

2o Em segundo lugar, o profundo anseio do restaurador. “Tornai-vos para mim…” (Ml 3.7). “Voltem para mim...” (NVI). Deus não quer apenas uma volta a determinados ritos sagrados, a uma religiosidade formal. Ele quer comunhão, relacionamento. Por isso essa palavra. Não é diferente hoje, o cristianismo é mais que uma religião de credos, é comunhão com uma pessoa, com a Pessoa bendita de Deus. É um relacionamento vivo com um Deus vivo.

3oEm terceiro lugar, a dinâmica relacional do restaurador (Ml 3.7b). Quando nos voltamos para Deus com nosso coração arrependido, nós o encontramos de braços abertos para nos receber de volta. Assim como o pai do filho pródigo fez com seu filho que retornou para casa arrependido.

O que lemos aqui em Malaquias é o que vemos hoje através da pessoa de Jesus Cristo que pagou um alto preço por nós para nos reconciliar com o Pai. Como lemos em 2Co 5.19:

Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação”.

4o Em quarto lugar, a insensibilidade espiritual dos que são chamados à restauração (Ml 3.7c). Pior que o pecado é a insensibilidade a ele. Pior que a transgressão é a falta de consciência dela. A cauterização e o anestesiamento da consciência são estágios mais avançados da decadência espiritual.

Hoje estamos vendo o mesmo ocorrendo em muitas igrejas. Vemos uma liderança entorpecida pelo pecado e fazendo olhos e ouvidos de mercador diante do pecado nas igrejas que lideram.

3 – A TERCEIRA LIÇÃO QUE APRENDO AQUI É QUE O HOMEM PODE ROUBAR A DEUS (Ml 3.8,9).

O pecado que encabeça a lista é seu roubo a Deus. Eles roubaram a Deus, não trazendo [os dízimos e] as ofertas exigidas por Moisés, substituindo-os por animais defeituosos; também não trouxeram as ofertas necessárias para o sustento do ministério e do culto no templo. Foram ladrões das coisas divinas, um crime agravado [6]. Estavam como Acã roubando as coisas consagradas a Deus e trazendo sobre si e seus familiares a maldição.

Quando olhamos para esse texto que nos fala a respeito do dízimo, muitas pessoas pensam que esse texto ficou reservado ao Antigo Testamento. Muitas dessas pessoas pensam assim porque há em nossos dias líderes (não poucos), que destorcem a Palavra de Deus e fazem do dízimo um patuá. Uma forma de espantar toda e qualquer ação de Satanás sobre nossas vidas.

Quais são os erros mais frequentes que vemos em muitos ministérios em relação aos dízimos e as ofertas? Erros esses que trazem grandes escândalos em nosso meio:

1 – A manipulação de pastores para arrecadar dinheiro. Usam texto fora de contexto para manipular os incautos. E muitos desses líderes acumulam riquezas através de seus “ministérios”. E são esses que mais aparecem na mídia.

2 – Usam a oferta e o dízimo como barganha. Esses falsos pastores fazem com que as pessoas acreditem que a entrega dos seus dízimos e de suas ofertas vai fazer com que os ofertantes fiquem ricos, alcancem sucesso e tenha excelente saúde. E ainda dizem que quanto mais contribuírem mais receberão. Como se Deus fosse obrigado a cumprir uma palavra que não disse. Usando texto fora de seu contexto, na verdade estão gerando ganância no coração das pessoas. Eles centralizam no homem o culto e ensinam que essa entrega é uma aposta segura e um grande sucesso financeiro.

Claro que existe a lei da semeadura. Seríamos desleais com a Palavra de Deus que nos mostra claramente esta lei (2C 9.6-10; Pv 11.17,24,25,19.17; At 20.25; Gl 6.9,10). O que estamos falando aqui não é o dar e receber como nos diz esses textos, mas a motivação dessa entrega. No entanto, as pessoas que estão indo nesses lugares onde destorcem a Palavra, não estão entregando as suas ofertas e seus dízimos como culto a Deus, mas como barganha. Negociata. Um “toma lá dá cá”.
3 – O falso ensina da teologia da prosperidade. Em muitos púlpitos o verdadeiro evangelho já não existe a muito tempo. Foi substituído pelo evangelho da prosperidade que promete um paraíso aqui na terra. Como um certo “pastor” disse que Deus havia lhe revelado em oração pela madrugada que Jó passou por tudo que passou porque ele não era dizimista [7], ou seja, segundo esse indivíduo, Jó estaria blindado contra todo e qualquer mal se fosse dizimista e ofertante.

4 – O mercadejamento da Palavra de Deus. São os famosos cachês para os pregadores e cantores. Pessoas que querem ser tratados como astros e estrelas, ícones. Gente que acende os holofotes para si mesmos. Com isso Cristo e sua Palavra ficam em último plano, quando ficam em algum lugar na vida e nas palavras dessas pessoas.

Poderíamos citar muito mais coisas, mas creio que o que foi dito aqui já é o suficiente para entendermos o porquê de tantos escândalos em nosso meio em relação aos dízimos e as ofertas.

4 – A QUARTA LIÇÃO QUE APRENDO AQUI É QUE ESTAMOS ROUBANDO A DEUS RETENDO OS NOSSOS DÍZIMOS E AS NOSSAS OFERTAS (Ml 3.8,9).

As necessidades dos sacerdotes e levitas eram supridas pelos sacrifícios e também pelos dízimos e ofertas levados ao templo pelo povo. A palavra “dízimo” vem do termo hebraico maaser e do grego dexatem que quer dizer “dez”. O dízimo é 10% dos grãos, dos frutos, dos animais ou do dinheiro de uma pessoa (Lv 27.30-34; Ne 13.5). Havia no templo depósitos especiais para guardar grãos, frutos e dinheiro que o povo levava para o Senhor em obediência a sua lei. Se as pessoas não quisessem carregar produtos pesados, podiam convertê-los em dinheiro, mas deviam acrescentar 20% só para certificar-se de que não estavam lucrando nem roubando a Deus (Lv 27.31) [8].

Dízimos e ofertas do tempo da graça. Muitas pessoas dizem que não são dizimistas porque o dízimo faz parte da lei cerimonial, e esta foi abolida na cruz.

De todas as críticas feitas à doutrina do dízimo, talvez esta seja a mais frequente. Se esta prática era para o Antigo Pacto, logo estou desobrigado de tal coisa hoje. No entanto, esta prática do dízimo está presente em toda a Bíblia.

A entrega do dízimo no Antigo Testamento era um gesto de adoração a Deus que vinha antes da Lei. Esse gesto vinha desde a ocasião em que Abrão deu o dízimo a Melquisedeque, reconhecendo que este sacerdote era o representante do Deus Altíssimo (Gn 14.20; Hb 7.1-10. Jacó fez um voto ao Senhor de que daria o dízimo o Gn 28.18-22), de modo que esta prática é antes da Lei de Moisés. Posteriormente, o dízimo foi incorporado oficialmente à Lei como parte da adoração a Deus.

A entrega do dízimo está presente em toda a Bíblia. Está presente nos livros da lei (Nm 18.21-32), nos Livros Históricos (Ne 13.10-14), nos livros poéticos (Pv 3.9,10) e nos livros proféticos (Ml 3.8-12). No Novo Testamento está presente nos Evangelhos (Mt 23.23) como nas Epístolas (Hb 7.1-19; 1Co 9.11-14).

Preste atenção no texto de 1Co 9.11-14 onde Paulo deixa claro que no ministério de hoje, na vigência da Nova Aliança, os que pregam o evangelho (pastores, missionários), devem viver do ministério.

Embora a ordem levítica tenha cessado com o advento da Nova Aliança (Hb 7.18), os dízimos não cessaram, porque Abraão, como pai da fé, entregou o dízimo a Melquisedeque, um tipo de Cristo (Hb 7.17).

O Senhor não precisa de nada, pois todas as coisas lhe pertencem (Sl 50.9-15; At 17.25). A entrega do dízimo não é porque o Senhor necessita de alguma coisa, mas é um sinal de obediência a Sua Palavra. Pois como disse o Senhor Jesus:

Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam; mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a

ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Mt 6.19-21).

Não quero dizer aqui que devemos entregar tudo que temos a igreja, mas devemos ser fiéis a Deus e sempre confiar que quem nos sustenta é o Senhor. Que o melhor investimento que podemos fazer é em Seu reino.

O apóstolo Paulo ensina que a contribuição deve ser pela graça (1Co 16.1,2; 2Co 9.7), de acordo com a renda de cada um, que certamente vai além dos 10%. Deveria ser entregue com alegria e não por constrangimento. E como já falamos, nem muito menos por barganha.

Se no tempo da Antiga Aliança se entregava a décima parte, hoje muito mais, no tempo da graça, na Nova Aliança. Reconhecendo o sacrifício de Jesus na cruz e a necessidade de que esse Evangelho chegue ao maior número possível de pessoas, vendo a necessidade da igreja local e emprenho dos líderes em pregar um Evangelho cristocêntrico. Devemos assim investir parte dos nossos ganhos reconhecendo esse ministério e em obediência a ordem do Senhor.

Em outras palavras, se os cristãos acreditam que, se os antigos fiéis sob a antiga aliança davam o dízimo, então como os cristãos sob a nova aliança podem começar com qualquer quantia abaixo disso? [9].

É preciso deixar claro que o dízimo não é uma questão somente financeira. Trata-se do reconhecimento de que tudo o que existe é de Deus. Não trouxemos nada para este mundo nem para dele levaremos (1Tm 6.7). Somos apenas mordomos de Deus e, no exercício dessa mordomia, devemos ser achados fiéis (1Co 4.2). O dízimo é um sinal de fidelidade a Deus e confiança em sua providência. A entrega dos dízimos é uma ordenança divina. Não temos licença para retê-lo, subtrai-lo nem administrá-lo (Ml 3.8-10).

Malaquias deixa claro que quem não entregava o dízimo estava roubando três vezes [10]:

1o – Estavam roubando de Deus (Ml 3.7,8). As necessidades dos sacerdotes e levitas eram supridas pelos sacrifícios e também pelos dízimos, e estes eram representantes legais de Deus aqui na terra.

2o – Estavam roubando a si mesmos (Ml 3.9-11). Sempre que roubamos de Deus, também roubamos de nós mesmos. Preste atenção, se o Senhor nos incentiva a contribuir não será lógico que Ele nos dará condições para contribuir? Por isso que quando não contribuímos nós atraímos dificuldades para nós e para os outros.

a) Privamo-nos das bênçãos espirituais que sempre acompanham a obediência e a contribuição fiel (2Co 9.6-15). Se nós não confiamos que Deus cuida de nós, então qualquer coisa em que confiamos se mostrará inútil.

b) O dinheiro que pertence a Deus nunca fica conosco (Ag 1.6). Só quem é dizimista fiel sabe do quanto esse dinheiro que fica em nossas mãos rende. Não falo por ouvir falar, mas por experiência.

3o – Estavam roubando dos outros (Ml 3.12). Como as nações ao redor saberiam o quanto Deus estava abençoando Israel? Através das bênçãos derramadas sobre a nação. Mas se eles eram infiéis o Senhor não tinha como abençoá-los. Diante disso os povos ao redor não poderiam ver sobre eles as bênçãos de Deus e também não poderiam confiar no Deus que eles diziam que havia feito grandes coisas por eles. Era uma coisa lógica. O mesmo ocorre com cada um de nós hoje. Observe a vida de uma pessoa que é fiel a Deus e uma que não é. E não falo pelos bens que uma e a outra possui, mas pelas bênçãos espirituais que brotam em abundância sobre a vida da pessoa. Se você não crê observe.

5 – QUINTA LIÇÃO QUE APRENDO AQUI SÃO AS CONSEQUÊNCIAS ESPIRITUAIS (Ml 3.9-11).

Há pessoas que ensinam ou que aprenderam que o devorador é um demônio, mas, na verdade, o Senhor está falando de gafanhotos, não de demônios, que devoravam a plantação dos israelitas. Mas quem tem todo poder e autoridade sobre todas as coisas é o nosso Deus.

Vemos isto claramente descrito no livro de Jonas quando o Senhor usa a natureza para ensinar grandes lições ao seu servo – a chuva, o grande peixe, a planta que cresce e depois é morta por um verme, o vento – tudo está debaixo da autoridade do nosso Deus. Até os gafanhotos que Joel descreve em seu livro (Joel 1.4,2.25).

O que deixou o gafanhoto cortador, comeu-o o gafanhoto migrador; o que deixou o migrador, comeu-o o gafanhoto devorador; o que deixou o devorador, comeu-o o gafanhoto destruidor. Restituir-vos-ei os anos que foram consumidos pelo gafanhoto migrador, pelo destruidor e pelo cortador, o meu grande exército que enviei contra vós outros” (ARA).

Não quero dizer com isso que os fiéis nos dízimos não passarão por dificuldades e que não ficarão doentes. Longe disso. Eu quero dizer que o Senhor guarda e sustenta os seus servos e os acompanha nas suas tribulações. Como disse Paulo em sua segunda carta a Timóteo 4.16-18:

Na minha primeira defesa, ninguém apareceu para me apoiar; todos me abandonaram. Que isso não lhes seja cobrado. Mas o Senhor permaneceu ao meu lado e me deu forças, para que por mim a mensagem fosse plenamente proclamada, e todos os gentios a ouvissem. E eu fui libertado da boca do leão. O Senhor me livrará de toda obra maligna e me levará a salvo para o seu Reino celestial. A ele seja a glória para todo o sempre. Amém” (NVI).

Quando não somos fiéis duas coisas ocorrerão, segundo o texto de Malaquias:

a) O Senhor reterá as suas bênçãos (Ml 3.9). Observe que o Senhor diz que devido à infidelidade do povo eles estavam sendo amaldiçoados. Não é o Senhor que amaldiçoa, mas Ele deixa de abençoar. A desobediência sempre desemboca em maldição. Isso é muito sério.

b) O devorador pode ser tudo aquilo que subtrai nossos bens. Quando retemos o que pertence a Deus, o devorador come o que deveríamos entregar no altar do Senhor. Isso é fé, não lógica.

Quando somos fiéis duas coisas ocorrerão:

c) As bênçãos que acompanham a restauração que o Senhor realiza (Ml 3.10-12). O Senhor diz que irá nos abrir as janelas do céu. Todas as ricas bênçãos procede somente de Deus. Isso significa fartura em nossa vida. A Bíblia nos fala que o que plantamos colhemos, então, pela lógica da fé, iremos colher abundante colheita espiritual que se tornarão bênçãos materiais (Lc 6.38).

d) E teremos uma vida feliz (Ml 3.12). Essas são algumas bênçãos que acompanham o servo fiel. Nos faltaria tempo para descrever todas que acompanham aqueles que temem e obedecem ao Senhor.

O que você planta você colhe. Isso é uma lei espiritual.

Pense Nisso!

Fonte:

1 – Wiersbe, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo, Proféticos vol. 4, p. 591.
2 – Champlin, R. N. O Antigo Testamento Interpretado, Versículo por Versículo, vol. 5, p. 3710.
3 – Lopes, Hernandes Dias. Malaquias, a igreja no tribunal de Deus, p. 90.
4 – Champlin, R. N. O Antigo Testamento Interpretado, Versículo por Versículo, vol. 5, p. 3710.
5 – Lopes, Hernandes Dias. Malaquias, a igreja no tribunal de Deus, p. 91,92.
6 – Champlin, R. N. O Antigo Testamento Interpretado, Versículo por Versículo, vol. 5, p. 3711.
7 – Silveira, Jerônimo Onofre da. Os Exterminadores de Riquezas.
8 – Wiersbe, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo, Proféticos vol. 4, p. 602.
9 – Wiersbe, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo, Proféticos vol. 4, p. 602.
10 – Wiersbe, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo, Proféticos vol. 4, p. 603.