domingo, 26 de setembro de 2021

O MONTE DA TRANSFIGURAÇÃO – ESPIRITUALIDADE SEM DISCERNIMENTO

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 9.28-36

INTRODUÇÃO

Este episódio é narrado nos três Evangelhos Sinóticos (Mt 17.1-13; Mc 9.2-13 e Lc 9.28-36). No que se refere ao relato dos Evangelhos, a transfiguração foi a única ocasião, durante seu ministério aqui na Terra, em que Cristo revelou sua glória [1]. Jesus só se transfigurou na presença de três discípulos – Pedro, Tiago e João, e após a sua transfiguração, o Senhor lhes ordenou que eles só poderiam contar este episódio depois da Sua ressurreição (Mt 17.9).

Charles L. Childers destaca que Lucas apresenta três contribuições à história:

1) Ele nos diz que Jesus subiu ao monte para orar, e que Ele se transfigurou enquanto estava orando (2.8-29).

2) Ele informa que Moisés e Elias falaram da morte de Jesus, que estava próxima, e que havia de se cumprir em Jerusalém (30).

3) Ele narra que Pedro, Tiago e João dormiram durante uma parte dos acontecimentos na montanha, e acordaram a tempo de ver os visitantes do céu (32) [2].

Esse episódio ocorre depois que Jesus declara abertamente para os seus discípulos a respeito da sua ida a Jerusalém e da sua iminente morte na cruz (Mt 16.21). Podemos destacar que esse acontecimento têm um propósito duplo: o Pai tem o propósito de encorajar Jesus que está para morrer na cruz e Jesus tem o propósito de encorajar os discípulos, que haviam ficado abalados com a notícia de sua morte.

É interessante destacarmos que os montes figuram de forma proeminente no ministério de Jesus: nos montes ele ora (Lc 9.28, 6.12, 22.39; Mc 6.46; Jo 6.15), prega (Mc 3.13; Mt 5.1), realiza milagres (Mt 15.29,30), é tentado (Lc 4.5; Mt 4.8), chama os seus discípulos (Lc 6.12,13; Mc 3.13), envia-os em missão (Mt 28.16) e realiza sua paixão (Mc 11.1; 14.32; 15.22). Das várias referências a montes na Escritura, no entanto, o monte da transfiguração junto com o monte Sinai passaram a ser um local par excellence de revelação divina [3].

Mas quais as lições que podemos tirar desse texto para nós?

1 – NA TRANSFIGURAÇÃO JESUS REVELA A SUA GLÓRIA (Lc 9.28,29).

Em Lucas 9.27 Jesus destaca que alguns deles não morreriam antes de verem o reino de Deus, e nesse monte, perante três de seus discípulos, Jesus revelou Sua glória. Observe que o Antigo Testamento registra muitas ocasiões em que Deus revelou sua glória mediante muitos sinais. A Sua glória foi vista de várias maneiras, desde o deserto até a conclusão do templo (1Rs 8.10,11). No entanto, as manifestações da glória de Deus no Antigo Testamento foram envolta em mistério. Por exemplo, Moisés pediu a Deus que lhe mostrasse a Sua glória (Êx 33.18). O Senhor lhe falou que ele só poderia vê-lo pelas costas, mas não poderia ver o Seu rosto (Êx 33.22,23). O Senhor disse a Moisés que homem nenhum poderia ver a Sua face, pois quem a visse morreria (Êx 33.20). Aqui no monte, no entanto, esses três discípulos tiveram a honra de ver a glória de Cristo.

A transfiguração de Jesus nos revela alguns pontos importantes:

1º - A transfiguração de Jesus revela o Reino de Deus (Lc 9.27-29). Jesus havia dito que alguns dos que ali se encontravam não morreriam antes de verem o reino de Deus. Esse acontecimento revelou aos discípulos algumas lições:

1) Revelou a glória que Jesus tinha antes de vir a este mundo. O texto de Lucas nos diz que “estando ele orando, transformou-se a aparência de seu rosto, e a sua roupa ficou branca e mui resplandecente” (Lc 9.29). Há duas palavras no grego que são utilizadas para a transformação que ocorreu com Jesus: uma é eidos (aparência) e a outra é metamorphoun, que vem a expressão: “metamorfose”. Sendo que só Lucas usa a expressão eidos. Aqui em Lucas a expressão “aparência” (gr. eidos), é uma palavra rara no Novo Testamento, ocorrendo apenas cinco vezes, uma delas no batismo de Jesus (Lc 3.22). Essa expressão eidos remete também ao tabernáculo (Êx 26.30 – LXX): “Faça o tabernáculo de acordo com o modelo (eidos) que lhe foi mostrado no monte”. Jesus aqui estava revelando a sua glória que tinha antes da encarnação. Mais uma vez os discípulos estavam tendo a prova de que Jesus era o Deus encarnado. Jesus é a expressão exata da glória do Pai (Hb 1.1-3).

A segunda palavra é metamorfose, que aparecem em Mateus e Marcos. O termo significa “uma mudança de aparência que ocorre de dentro para fora”. O verbo ocorre apenas quatro vezes na Bíblia grega (Mc 9.2; Mt 17.2; Rm 12.2; 2Co 3.18) e, em cada instância, ele sugere uma transformação radical. Paulo, referindo-se à transfiguração em 2Co 3.18, diz que nós, como uma consequência de ver a glória do Senhor, somos transformados (gr. metamorphoun) de glória em glória [4].

Essa mesma expressão é utilizada por Paulo em Rm 12.2 que diz: “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus”. A metamorfose que Paulo está dizendo aqui não é algo natural como ocorre com a lagarta que vira uma borboleta, mas a metamorfose que ocorreu com Jesus. Paulo remete ao fato ocorrido no monte da transfiguração. É a transformação que procede de Deus, gerada em nós pela ação do Espírito Santo. E essa transformação – metamorfose – não ocorre em nosso corpo, mas em nossa mente – temos a mente de Cristo (1Co 2.16). Diferentemente dos ímpios que têm uma mente a mente reprovável como nos fala Paulo em Rm 1.28: “E, por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes” (ARA).

No entanto, a nossa mente foi transformada; nós temos a mente de Cristo (1Co 2.16). Por isso podemos experimentar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm 12.2). Paulo nos diz que o homem natural não compreende as coisas do Espírito, pois elas só podem ser discernidas de forma espiritual (1Co 2.14).  

Ralph Earle diz que o propósito da Transfiguração é dupla: fala da divindade de Jesus no momento em que os três discípulos tiveram uma visão de sua glória eterna, e 2) da importância e necessidade da Paixão. Esse último ponto aparece em Lucas, onde se afirma que o tópico da conversação com os dois visitantes celestiais era a sua “morte” que deveria se cumprir em Jerusalém (Lc 9.31). A palavra grega correspondente é exodos, que significa “uma partida” (“êxodo”). Portanto, ela inclui a sua crucificação, ressurreição e ascensão, que seria o clímax de seu ministério terreno [5].

2) Renovou a fé fraca dos discípulos. Esse momento de glória que os discípulos contemplaram serviu para renovar a fé fraca que eles tinham e, renovar também a fé, indiretamente, de toda a igreja depois deles. A escolha de três homens feita por Jesus reflete a exigência do direito que “no depoimento de duas ou três testemunhas, uma questão deve ser confirmada” (Dt 19.15; cf. Mt 18.16; 2Co 13.1; 1Tm 5.19; Hb 10.28).

Quando Jesus falou que em Jerusalém ele seria julgado e crucificado os discípulos ficaram tristes com tal declaração, mas a confirmação de que esse episódio era algo pré-determinado na eternidade passada ficou clara na conversa com Moisés e Elias. A única maneira de alcançarmos o perdão de nossos pecados seria mediante a morte vicária de Cristo na cruz.  

3) Revelou que a morte não é o fim (Lc 9.30,31; 1Co 15.51-58). Se há algo que ainda assusta muitas pessoas, principalmente cristãos, é a morte. Mas aqui nesse texto nós encontramos a verdade a respeito dos que morrem no Senhor. Ali diante de Jesus estavam Moisés, que passou pela morte (Js 1.2, Jd 9) e vemos Elias que foi transladado para o céu (2Rs 2.11). Esses homens, no entanto, estavam vivos diante de Jesus com seus corpos glorificados, ou seja, a morte não é o fim. A glória que o Senhor prometeu para os que o servem é real. Igualmente é revelado o conhecimento mútuo dos redimidos do Senhor no reino da perfeição. Moisés e Elias, que viveram em épocas diferentes e não se conheciam na terra, há tempo se tornaram íntimos no além.

2 – A TRANSFIGURAÇÃO REVELA A FALTA DE ENTENDIMENTO DOS DISCÍPULOS (Lc 9.28-36).

Se a transfiguração revela a glória de Jesus, ela também revela a falta de entendimento que os discípulos ainda tinham. Jesus sobe ao monte, que para boa parte dos comentaristas seria o monte Hermom. Pedro, Tiago e João sobem o monte da Transfiguração com Jesus, mas não alcançam as alturas espirituais da intimidade com Deus. Jesus acabara de falar a respeito da cruz e agora revela a glória. O caminho da glória passa pela cruz [6].

Apesar dos discípulos estarem diante da revelação da glória de Cristo, o entendimento deles ainda estava confuso. O coração deles ainda estava fechado para discernirem tamanha revelação. O que ocorreu com esses homens no monte da transfiguração tem ocorrido com muitos cristão hoje. Muitas pessoas andam com Jesus, mas inda não discerniram a sua glória, nem o real motivo de sua vinda. Ainda tem o entendimento confuso do que seja servir a Cristo.

Quais as lições que podemos tirar desse fato aqui:

1º - Enquanto Jesus orava os discípulos dormiam (Lc 9.29,32). Enquanto Jesus buscava a comunhão com o Pai, os discípulos dormiam o sono do descaso. Por isso que o apóstolo Paulo nos diz em Ef 5.14-17: “Por isso diz: Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te esclarecerá. Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, mas como sábios, Remindo o tempo; porquanto os dias são maus. Por isso não sejais insensatos, mas entendei qual seja a vontade do Senhor”.

Enquanto orava, de repente o rosto de Jesus “resplandeceu como o sol” (Mt 17.2). O brilho afetou até mesmo sua roupa, de modo que “se tomou branca como a luz” (Mt 17.2); “de um branco resplandecente, como nenhum lavandeiro no mundo seria capaz de branqueá-las” (Mc 9.3, NVI) [7]. A glória de Deus se manifestando diante deles e, no entanto, eles estavam dormindo. Não tem sido diferente hoje, quantas vezes a graça e a misericórdia de Deus está sobre a pessoa e o indivíduo não tem o discernimento para perceber isso. Não discernem o tempo da visitação de Deus em suas vidas. Não discernem a glória revelada.   

É interessante observamos que somente Lucas destaca que foi enquanto Jesus estava orando que a Sua aparência se alterou. Existe uma sugestão de que a nossa transfiguração espiritual ocorre em nossos momentos de oração [8]. É quando oramos que entramos na sala do trono e nos prostramos na presença do Pai. É nesse momento que nossos olhos espirituais começam a se abrir para ver e entender os propósitos de Deus para nós. Como disse alguém: “Muita oração muito poder, pouca oração, pouco poder”.

A oração era o oxigénio da sua alma de Jesus. Todo o seu ministério foi regado de intensa e perseverante oração. Jesus está orando, mas em momento algum os discípulos estão orando com ele. Eles não sentem necessidade nem prazer na oração. Não têm sede de Deus. Estão no monte a reboque, por isso não se alimentam da mesma motivação de Jesus [9].

2º - Os discípulos experimentam grande êxtase, mas não tiveram discernimento espiritual (Lc 9.32-36). Os discípulos contemplaram quatro fatos milagrosos: a transfiguração do rosto de Jesus, a aparição em glória de Moisés e Elias, a nuvem luminosa que os envolveu, e a voz do céu que trovejava em seus ouvidos. Nenhuma assembleia na terra jamais foi tão esplendidamente representada: lá estava o Deus trino, além de Moisés e Elias, o maior legislador e o maior profeta. Lá estavam Pedro, Tiago e João, os apóstolos mais íntimos de Jesus; no entanto, embora envoltos num ambiente de milagres, faltou-lhes discernimento em quatro questões básicas [10].

Primeiro, eles não discerniram a centralidade da pessoa de Jesus (Lc 9.33). Os discípulos estão cheios de emoção, mas vazios de entendimento. Querem construir três tendas, dando a Moisés e a Elias a mesma importância de Jesus. Querem igualar Jesus aos representantes da Lei e dos profetas. Como o restante do povo, eles também estão confusos quanto à verdadeira identidade de Jesus (Lc 9.18,19). Não discerniram a divindade de Cristo. Andam com Cristo, mas não dão a glória devida ao seu nome (Lc 9.33). Onde Cristo não recebe a preeminência, a espiritualidade está fora de foco. Jesus é maior do que Moisés e Elias.

Moisés representava a Lei, e Elias, os Profetas. A implicação aqui é que o Antigo Testamento como um todo apontava em direção a Cristo e, especificamente, que tanto o Pentateuco quanto os Profetas predisseram a morte expiatória do Salvador. Este fato precioso foi mostrado através da tipologia e do simbolismo da Lei (por exemplo, dos sacrifícios), e das declarações dos profetas (por exemplo, Isaías 53) [11]. A Lei e os profetas apontavam para ele. Tanto a lei como os profetas, tiveram seu cumprimento em Cristo (Hb 1.1,2; 24.25-27).

O Pai corrigiu a teologia dos discípulos, dizendo-lhes: Este é o meu Filho, o meu eleito; a ele ouvi (Lc 9.34,35). Jesus não pode ser confundido com os homens, ainda que com os mais ilustres. Ele é Deus. Para ele, deve ser toda devoção. Nossa espiritualidade deve ser cristocêntrica. A presença de Moisés e Elias naquele monte, longe de empalidecer a divindade de Cristo, confirmava que de fato ele era o Messias apontado pela lei e pelos profetas.

Segundo, eles não discerniram a centralidade da missão de Jesus. Moisés e Elias apareceram para falar da iminente partida de Jesus para Jerusalém (Lc 9.30,31). A pauta daquela conversa era a cruz. A cruz é o centro do ministério de Cristo. Ele veio para morrer. Sua morte não foi um acidente, mas um decreto do Pai desde a eternidade. Jesus não morreu porque Judas o traiu por dinheiro, porque os sacerdotes o entregaram por inveja, nem porque Pilatos o condenou por covardia. Ele voluntariamente se entregou por suas ovelhas (Jo 10.11), por sua igreja (Ef 5.25).

Toda espiritualidade que desvia o foco da cruz é cega de discernimento espiritual. Satanás tentou desviar Jesus da cruz, suscitando Herodes para matá-lo. Depois, ofereceu-lhe um reino. Mais tarde, levantou uma multidão para fazê-lo rei. Em seguida, provocou Pedro para reprová-lo. Ainda quando estava suspenso na cruz, a voz do inferno vociferou na boca dos insolentes judeus: Desça da cruz, e creremos nele (Mt 27.42). Se Jesus descesse da cruz, nós desceríamos ao inferno. A morte de Jesus nos trouxe vida e libertação.

A palavra grega usada para “partida” (Lc 9.31) é exodus. A morte de Jesus Cristo abriu as portas da nossa prisão e nos trouxe libertação. A paixão de Jesus, na narrativa da transfiguração de Lucas 9.31, é descrita como um “êxodo”, uma óbvia alusão ao êxodo do Egito sob o comando de Moisés. Para Lucas, a libertação dos israelitas do Egito sob o comando de Moisés e a formação deles em uma nação são tipos da paixão de Jesus, por meio da qual ele libertou seu povo do poder do pecado e formou um novo povo na igreja. Elias também foi um libertador de Israel, embora tenha libertado da adoração aos falsos deuses de Baal, em vez de libertar de opressores estrangeiros (lRs 17-18) [12].

Hoje, há igrejas que aboliram dos púlpitos a mensagem da cruz. Pregam sobre prosperidade, curas e milagres. Mas esse não é o evangelho da cruz; é outro evangelho e deve ser anátema!

Terceiro, eles não discerniram a centralidade de seus próprios ministérios (Lc 9.33). Eles disseram: “Bom é estarmos aqui”. Eles queriam a espiritualidade da fuga, do êxtase, e não do enfrentamento. Queriam as visões arrebatadoras do monte, não os gemidos pungentes do vale. Mas é no vale que o ministério se desenvolve.

É mais cômodo cultivar a espiritualidade do êxtase e do conforto. E mais fácil estar no templo, perto de pessoas coi-guais, do que descer ao vale cheio de dor e opressão. Não queremos sair pelas ruas e becos. Não queremos entrar nos hospitais e cruzar os corredores entupidos de gente com esperança morta. Não queremos ver as pessoas encarquilhadas nas salas de quimioterapia. Evitamos olhar para as pessoas marcadas pelo câncer nas antecâmaras da radioterapia. Desviamos das pessoas caídas na sarjeta. Não queremos subir os morros semeados de barracos, onde a pobreza extrema fere a nossa sensibilidade. Não queremos visitar as prisões insalubres nem pôr os pés nos guetos encharcados de violência. Não queremos nos envolver com aqueles que vivem oprimidos pelo diabo nos bolsões da miséria ou encastelados nos luxuosos condomínios fechados. E fácil e cômodo fazer uma tenda no monte e viver uma espiritualidade escapista, fechada entre quatro paredes. Permanecer no monte é fuga, é omissão, é irresponsabilidade. A multidão aflita nos espera no vale!

Quarto, eles não discerniram a essência da adoração (Lc 9.34). Eles se encheram de medo, a ponto de caírem de bruços (Mt 17.5,6). A espiritualidade deles é marcada pela fobia do sagrado. Eles não encontram prazer na comunhão com Deus através da oração, por isso revelam medo de Deus. Veem Deus como uma ameaça. Eles se prostram não para adorar, mas para temer. Eles estavam aterrados (Mc 9.6). Pedro, o representante do grupo, não sabia o que dizia (Lc 9.33). Deus não é um fantasma cósmico. Ele é o Pai de amor. Jesus não alimentou a patologia espiritual dos discípulos; pelo contrário, mostrou sua improcedência: Aproximando-se deles, tocou-lhes Jesus, dizendo: Erguei-vos, e não temais (Mt 17.7). O medo de Deus revela uma espiritualidade rasa e sem discernimento.

CONCLUSÃO

Por mais maravilhosas que sejam essas experiências, não constituem a base de uma vida cristã sólida, que só se desenvolve pela Palavra de Deus. As experiências passam, mas a Palavra de Deus permanece sempre a mesma. Quanto mais nos afastamos desses acontecimentos, menos impacto exercem sobre nossa vida. Por isso o Pai disse: “A ele ouvi” e por isso Pedro colocou essa mesma ênfase sobre a Palavra em seu relato (2Pe 1.12-21). Nossa “transfiguração” pessoal vem da renovação interior (Rm 12.1,2), e esta, por sua vez, vem da Palavra (2Co 3.18) [13].

Pense nisso!

Bibliografia

1 – Wiersbe, Warren W. Marcos, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 268.

2 –Childers Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 405.

3 – Edwards, James R. O Comentário de Lucas, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2019, p. 365.

4 – Edwards, James R. O Comentário de Marcos, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2018, p. 333.

5 – Earle, Ralph. Comentário Bíblico Beacon, Marcos, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 122.

6 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 306.

7 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 1, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 670.

8 – Earle, Ralph. Comentário Bíblico Beacon, Marcos, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 122.

9 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 307.

10 – Ibidem, p. 307-310.

11 – Earle, Ralph. Comentário Bíblico Beacon, Marcos, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 122.

12 – Edwards, James R. O Comentário de Marcos, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2018, p. 335.

13 – Wiersbe, Warren W. Marcos, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 269.

sábado, 14 de agosto de 2021

O PREÇO DO DISCIPULADO – TOMAR A CRUZ

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 9.23-26

INTRODUÇÃO

Esta breve passagem tem verdades valiosas, claras e brilhantes, e contém o coração do convite de Jesus para seus discípulos. Em suas próprias palavras o Senhor colocou para fora o que significa ser um verdadeiro discípulo. Confessar a fé no Salvador vai muito além de palavras, envolve ação e reação. Envolve atitude e posicionamento ante a fé professada. O que é mais impressionante sobre o chamado do Senhor ao discipulado é que ele exige abnegação radical, talvez a ponto de morrer, ao mesmo tempo, vivendo em completa obediência aos seus mandamentos.

A visão equivocada do messiado leva a um a visão equivocada do discipulado. Esse é o ponto em Marcos 8.34, em que o assunto passa de Jesus para seus seguidores. Marcos reintroduz de forma abrupta “a multidão” e, com isso, indica que o que Jesus diz agora o diz para todos os discípulos, e não apenas para os Doze. A gravidade do ensino é assinalada pelo relato de que Jesus convocou (gr. proskaleomar, NVI, “chamou”) a multidão [1]. Essas exigências são para todos os que querem ser seus discípulos.

Quais as lições que podemos tirar desse texto para nós?

1 – DEVEMOS ENTENDER O QUE NÃO É TOMAR A CRUZ

Diante do evangelho que muitos têm pregado, há uma distorção do que venha ser “tomar a cruz” que Jesus exige dos seus discípulos. Para isso devemos primeiramente procurar entender o que não é tomar a cruz. Podemos destacar duas coisas básicas:

1º - Tomar a cruz não é auto realização. Isso coloca o verdadeiro evangelho pregado por Jesus em nítido contraste com o pseudo-evangelho contemporâneo de auto realização, popularmente anunciado e recebido por muitos que se identificam como cristãos. Esses falsos mestres veem o Senhor como um gênio da lâmpada utilitário, como um deus domesticado e adestrado que concede as pessoas o que eles quiserem. Alguns afirmam que Jesus quer que as pessoas sejam saudáveis e ricas, e se eles não estão é porque elas não conseguiram reivindicar suas bênçãos.

Outros afirmam que o objetivo principal de Deus é fazer as pessoas se sentirem melhores, elevando sua autoimagem e eliminando os seus pensamentos negativos. Alguns até já pediram uma “nova reforma”, abandonando a teologia centrada no Deus bíblico em favor de uma teologia centrada no homem. Esta abordagem do evangelho “ao gosto do freguês” veio para substituir o Evangelho bíblico da salvação, com um conjunto de suportes psicológicos para elevar as pessoas a satisfação e maior propósito de vida. Este narcisismo, quase Cristão, promove o egoísmo, o que na verdade caracteriza os falsos mestres que o pregam (2Tm 3.2) e centralizam, como eles fazem, em sua satisfação, em vez da glória de Deus.

2º - Tomar a cruz não são os problemas que enfrentamos. Outro grande erro que muitos pensam é que a cruz são as dificuldades da vida, as crises que enfrentamos, principalmente as doenças. Mas quem tem esse pensamento não deveria orar para Deus resolver os seus problemas e nem pedir a cura, pois como lemos em Lucas 9.23 devemos tomar a cruz cada dia. Se a cruz são os problemas, então não devemos orar para que Deus nos ajude a superá-los. Isso seria uma contradição.

2 – TOMAR A CRUZ É COMPROMISSO COM O EVANGELHO (Lc 9.23).

Qualquer judeu da Palestina saberia que o homem condenado à crucificação, com frequência, era forçado a carregar parte da sua própria cruz uma obrigação e um sinal da morte [2]. Jesus usou uma linguagem que eles entendiam muito bem, pois era um caminho sem volta.

Podemos destacar duas coisas em relação ao tomar a cruz:

1º - Tomar a cruz é entender o significado da cruz para Jesus (Lc 9.22). Só podemos entender as palavras de Jesus para os seus discípulos depois que entendemos o que a cruz significava para Jesus. E uma das coisas que Jesus deixou claro para os seus discípulos era o seu real significado e propósito. Ele nunca escondeu isso deles.

Jesus depois da confissão de Pedro passa a falar claramente a respeito do propósito de sua ida para Jerusalém (Mt 16.21). Para isso Ele veio e estava cumprindo o Seu propósito. Jesus estava em total submissão ao Pai, como Ele nos fala em João 6.38: “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou”.   

A morte de Jesus foi planejada e planejada desde a eternidade (Ap 13.8). Toda a história da humanidade foi uma preparação para a chegada do Messias e ele veio para morrer, e morrer pelos nossos pecados. Tanto sua morte como sua ressurreição estavam fartamente profetizados nas Escrituras (1Co 15.3,4). A morte de Jesus foi uma tragédia, mas não foi um acidente; pois ele estava cumprindo o propósito de Deus na redenção.

2º - Tomar a cruz é seguir o exemplo de Jesus. A cruz que o Senhor nos mandou tomar não é a cruz literal. A cruz que Ele nos mandou tomar todos os dias é seguir o seu exemplo de obediência ao Pai, e aos Seus mandamentos. Como disse o apóstolo Paulo em Gálatas 2.20: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim”.

Esse é o verdadeiro significado de tomar a cruz que Jesus quer de nós.

3 – O PREÇO DO DISCÍPULADO (Lc 9.23).

Uma das expressões mais significativas de Jesus (cf. Mt 10.38; Mc 8.34; Lc 9.23; 14.27) é encontrada nessa exortação. Não era só Cristo que deveria enfrentar a Cruz, mas também os seus discípulos [3]. Jesus sabia que as multidões que o seguiam estavam apenas atrás de milagres e prazeres terrenos, sem disposição para trilhar o caminho da renúncia ou pagar o preço do discipulado. O discipulado é uma proposta oferecida a todos, indistintamente (Lc 9.23). Jesus dirige-se não apenas aos discípulos, mas também à multidão. O discipulado não é apenas para uma elite espiritual, mas para todos quantos quiserem seguir a Cristo.

Jesus chama a si a multidão porque a fervorosa exortação que se segue é de importância para todos; aliás, é para todos uma questão de vida ou morte, de vida eterna em oposição à morte eterna [4].

O que é ser um discípulo de Cristo? Talvez essa pergunta hoje tenha perdido o seu real significado. Muitas vezes está atrelado a alcançar todos os sonhos, possuir muitos bens materiais, nunca ficar enfermo... essa ideia tem tomado muitos púlpitos, mas essa é uma distorção maligna do que venha ser um verdadeiro discípulo de Cristo.

Vejamos o que é ser um verdadeiro discípulo nas próprias palavras de Jesus:

1º - O discípulo de Jesus sabe o preço do discipulado (Lc 9.23). O discípulo de Jesus não é alguém iludido com promessas vãs e ideias distorcidas de uma vida sem problemas. Como disse Leon Morris Jesus imediatamente acrescentou à previsão da cruz uma referência a outra cruz, sendo que esta teria de ser carregada pelos Seus seguidores. Há, naturalmente, uma diferença. A cruz deles não era literal, e os sofrimentos não tinham poder expiador. Mas era (e é) real [5].

a) O discipulado começa com um chamado condicional“se alguém quer vir após mim...”. A soberania de Deus não violenta a vontade humana. E preciso existir uma predisposição para seguir a Cristo. Jesus citou quatro tipos de ouvintes: os endurecidos, os superficiais, os ocupados e os receptivos. Muitos querem apenas o glamour do evangelho, mas não a cruz. Querem os milagres, mas não a renúncia. Querem prosperidade e saúde, mas não arrependimento. Querem o paraíso na terra, mas não a bem- aventurança no céu [6].

b) O discipulado exige renúncia“...negue-se a si mesmo...”. Negar-se a si mesmo é despedir-se. Dar adeus à vontade própria, às inclinações e aos desejos pessoais, essa é a “negação de si mesmo” que nos cabe realizar. Negar-se a si mesmo significa viver como se não nos importássemos mais conosco e nossa vontade [7]. É priorizar o Reino de Deus e a Sua vontade. Como nos ensinou Jesus: “Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.10).

Negue-se, isto é, que diga de uma vez por todas Não ao seu velho eu, o eu como se acha separado da graça regeneradora. Uma pessoa que se nega renuncia toda a confiança no que ela mesma é por natureza e depende, para a salvação, tão-somente de Deus. Afasta-se decepcionada não só com os pensamentos e hábitos que são claramente pecaminosos, mas inclusive com a confiança nas ideias “religiosas” – por exemplo, farisaicas – que não podem harmonizar-se com a confiança em Cristo. Veja 2Co 10.5. Deve dispor-se a dizer com Paulo: “As coisas que para mim eram lucro, agora as considero perda por amor a Cristo ...” Veja Filipenses 3.7-11 [8].

c) O discipulado exige tomar a cruz“e tome cada dia a sua cruz...”. Tomar a cruz é um caminho sem volta. Os judeus na época de Jesus estavam familiarizados com a cruz, e com as crucificações que os romanos realizavam. Eles sabiam que quando um malfeitor passava carregando a cruz e ia para ser crucificado, ele não retornaria com vida. Tomar a cruz é abraçar a morte e escolher a vereda do sacrifício.

Tomar sobre si a cruz refere-se ao fardo que devemos nos dispor a carregar. A cruz é a mais infame pena de morte que jamais existiu. Jesus compromete os seus com a morte. Ao mostrar-lhes o desfecho que esperava por ele em Jerusalém, asseverou-lhes: “Minha cruz mostra a vocês para onde eu conduzo. Vocês estão seguindo atrás de mim como expulsos, malditos, condenados à morte, iguais àqueles que carregam sua cruz para o local de execuções. Para essas pessoas, o mundo passou e a vida está encerrada; o que ainda têm diante de si é somente infâmia, dor e morte” [9].

“Dia a dia tome a sua cruz e siga-me” (ARA) – A razão de Lucas para inserir a expressão “dia a dia” só pode ter sido que ele entendia esta exigência como uma ação constantemente repetida no discipulado de Jesus. Não é algo que se pode fazer esporadicamente, é algo constante, envolve renúncia e consequências desse ato. É morte para o eu e vida com Cristo.

Um erro contra o qual devemos guardar-nos é a noção de que uma pessoa pode, por suas próprias forças, negar-se a si mesma, tomar a cruz e seguir o Salvador. A conversão (bem como o processo de santificação que se segue), embora certamente seja uma responsabilidade humana, é impossível sem a regeneração (Jó 3.3,5) que é a obra do Espírito Santo no coração do homem [10].

d) O discipulado é um convite para uma caminhada dinâmica com Cristo“...e siga-me”. Seguir a Cristo é algo sublime e dinâmico. Esse desafio nos é exigido todos os dias, em nossas escolhas, decisões, propósitos, sonhos e realizações. Seguir a Cristo é imitá-lo. É fazer o que ele faria em nosso lugar. E amar o que ele ama e aborrecer o que ele aborrece. E viver a vida na sua perspectiva [11]. Siga-me é o caminho que nos cabe percorrer, é andar a cada instante o caminho traçado por Cristo e em cada passo seguir as pegadas dele [12].

3 – O PARADOXO DO VERDADEIRO DISCÍPULO (Lc 9.24).

No Evangelho de Marcos esse texto acrescenta a morte por amor a Cristo e do Evangelho: “Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho salvá-la-á” (Mc 8.35).

O discipulado implica o maior paradoxo da existência humana. Os valores de um discípulo estão invertidos: ganhar é perder, e perder é ganhar. O discípulo vive num mundo de ponta-cabeça. Para ele ser grande, é preciso ser servo de todos. Ser rico é ter a mão aberta para dar. Ser feliz é renunciar os prazeres do mundo. Satanás promete a você glória, mas no fim lhe dá sofrimento. Cristo oferece a você uma cruz, mas no fim lhe oferece uma coroa e o conduz à glória [13].

Paradoxalmente, tal autonegação e tal submissão é o ganho mais seguro e duradouro, enquanto a vida egocêntrica de auto expressão, tão estimada pelos filósofos modernos, leva o homem a perder sua alma. E uma vez perdida, que dará o homem em troca, para remi-la? (Mc 8.37). Tal perda é irrevogável.

1º - Como uma pessoa pode ganhar a vida e ao mesmo tempo perdê-la?

a) Quando busca a salvação fora de Cristo. Há muitos caminhos que conduzem as pessoas para a religião, mas um só caminho que conduz o homem a Deus. Uma pessoa pode ter fortes experiências e arrebatadoras emoções na busca do sagrado, no afã de encontrar-se com o Eterno, porém quanto mais mergulha nas águas profundas das filosofias e religiões, mais distante fica de Deus e mais perdida fica sua vida.

b) Quando busca realização em coisas materiais. O mundo gira em torno do dinheiro. Ele é a mola que move o mundo. É o maior senhor de escravos da atualidade. Muitos se esquecem de Deus na busca do dinheiro e perdem a vida nessa corrida desenfreada. A possessão de todos os tesouros que o mundo contém não compensa a ruína eterna [14].

Fritz Rienecker diz que o termo psyché (vida em grego) designa a alma com todas as suas pulsões e capacidades naturais. Salvar a vida psíquica significa querer mantê-la da maneira como ela é, tentando tão-somente desenvolvê-la e satisfazê-la. Esse, porém, é o meio para perdê-la. Porque nesse caso tentamos transformar em algo duradouro o que por natureza representa apenas uma passagem. Para protegê-la do aniquilamento, existe apenas um meio: é preciso consentir em perdê-la livremente, pelo fato de entregá-la ao sopro do Espírito divino, que mata e vivifica simultaneamente, e o qual a preenche com seu poder superior e lhe comunica valor e beleza perenes. Contudo, quando se visa conservar a vida psyché, perde-se não apenas a vida natural em si, mas também a vida superior, eterna, na qual deveria ter-se transformada como a flor que se transforma no fruto [15].

2º - Como uma pessoa pode perder a vida e ao mesmo tempo ganha-la?

a) Perdendo a vida por amor a Cristo (Lc 9.24c). Apenas entregando a si mesmo a Cristo o ser humano pode corresponder a essa profunda lei da existência humana. O eu somente é capaz de negar-se a si mesmo quando existe a finalidade de reconhecer um eu superior, diante de cuja palavra absoluta ele se curva [16].

Jesus em Mateus 10.37,38 nos diz: “Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim; e quem não toma a sua cruz e vem após mim não é digno de mim”.

b) Perdendo a vida por amor ao Evangelho (Mc 8.35). “Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho salvá-la-á” (Mc 8.35). Observe que aqui o Senhor acrescenta também o Evangelho.

E o que é o Evangelho? O Evangelho é as boas-novas de salvação que o Senhor veio nos trazer.

Negar-se a si mesmo não é um ato de desespero, mas sim de devoção. No entanto, é preciso ir ainda mais longe: a devoção pessoal deve conduzir a responsabilidades práticas, a compartilhar o evangelho com o mundo perdido. A declaração: “por causa de mim” poderia levar a um isolamento religioso egoísta, de modo que é contrabalançada com: “e do evangelho”. Por viver para Cristo, vive-se para os outros [17].

4 – O DISCÍPULO VALORIZA A VIDA COM JESUS (Lc 9.25).

O versículo 25 coloca a questão do discipulado no contexto da realidade derradeira: a alma e o mundo. Suponha que o indivíduo fosse ganhar “o mundo todo” – tudo pelo que alguém pudesse possivelmente esperar – ao custo de sua alma. De acordo com Jesus, essa seria uma troca ruim. O indivíduo consegue viver sem “o mundo”, mas quando ele perde sua pessoalidade ou ser, o que se pode dar em troca por isso (Sl 49.6-8)? [18].

Suponha, que você pudesse possuir todo o mundo, alcançar tudo o que as suas paixões desejassem, tudo que seus olhos cobiçassem, e pudesse satisfazer seu orgulho de todas as demandas (cf. 1Jo 2.16), qual seria o lucro se você perdesse a sua alma eterna?”. A resposta óbvia é “nada”. Nada no mundo é de valor comparável a alma eterna de uma pessoa. É isso que Jesus deixa bem claro aqui.

Podemos destacar três fatos a respeito desse texto [19].

1º - O dinheiro não pode comprar a vida eterna. Há muitas pessoas que são ricas no mundo, mas são pobres diante de Deus (Lc 12.16-21). Transigir com os absolutos de Deus, vender a consciência e a própria alma para amealhar riquezas, é uma grande tolice. A vida é curta e o dinheiro perde o seu valor para quem vai para o túmulo. A morte nivela ricos e pobres. Nada trouxemos e nada levaremos do mundo. Passar a vida correndo atrás de um tesouro falaz é loucura. Pôr sua confiança na instabilidade e efemeridade da riqueza é estultícia.

2º - A salvação da alma vale mais do que as riquezas (Lc 9.25). É melhor ser salvo do que ser rico. A riqueza só pode nos acompanhar até o túmulo, mas a salvação será desfrutada por toda a eternidade. Jesus chamou de louco o homem que negligenciou a salvação da sua alma e pôs sua confiança nos bens materiais. A morte chegou e, com ela, o juízo (Lc 12.20).

3º - A perda da alma é uma perda irreparável (Lc 9.25). Algumas pessoas vendem a honra, os princípios, a consciência e a até mesmo a alma para alcançar bens, popularidade e prazeres terrenos. Porém, nenhuma quantidade de dinheiro, poder ou status pode comprar de volta uma alma perdida. Vender a alma por dinheiro, portanto, é um péssimo negócio. Essa troca é um engodo. A um morto não pertence mais nada; ele é que pertence à morte. No julgamento final, essa conta não fechará.

Jesus pressupõe que o propósito de preservar a própria vida tenha sido coroado com o mais esplêndido sucesso imaginável, chegando-se a possuir o mundo inteiro [20].

O discipulado é uma questão de ganhos e de perdas, de desperdiçar ou de investir a vida. Deve-se atentar para a advertência de Jesus aqui: ao gastar a vida, não há como comprá-la de volta! Não é possível esquecer que ele estava instruindo seus discípulos, homens que já o haviam confessado como Filho de Deus [21].

5 – O DISCÍPULO NÃO SE ENVERGONHA DE JESUS (Lc 9.26).

Jesus identifica aqueles que não irão se arrepender e crer nEle como aqueles que estão com vergonha dele e de suas palavras (cf. Mt 10.32,33). Se envergonhar neste contexto significa rejeitar, desprezar e se encontrar inaceitável. Tais pessoas são orgulhosas do que deveriam ter vergonha; a sua “glória é para confusão deles” (Fl 3.19). Deus disse dos israelitas impenitente: “nem sabem que coisa é envergonhar-se. Portanto, cairão com os que caem; quando eu os castigar, tropeçarão, diz o Senhor” (Jr 6.15).

A mensagem da cruz é loucura e algo ofensivo para aqueles que querem manter os seus pecados (1Co 1.18,23), que amam mais a aprovação dos homens do que a aprovação de Deus (Jo 12.43).

Podemos tirar duas lições importantes desse texto:

1º - Os que se envergonham de Cristo. Envergonhar-se de Jesus significa estar alguém tão orgulhoso de si mesmo que não quer ter nada com ele [Jesus] e com suas palavras. De tais pessoas Jesus também se envergonhará [22].

Quando uma pessoa se envergonha de Cristo? Quando temos medo que as pessoas saibam que o amamos, bem como a sua doutrina, que desejamos viver de acordo com os seus mandamentos e que nos sentimos constrangidos quando nos identificam como membros do seu povo. Quando o negamos como Pedro o fez (Mt 26.69-75).

Ser cristão nunca foi e jamais será uma posição de popularidade. Todos aqueles que querem viver piedosamente em Cristo serão perseguidos (2Tm 3.12). Contudo, é mil vezes melhor confessar Cristo agora, e ser desprezado pelo povo, do que ser popular agora e ser desonrado por Cristo diante do Pai no dia do julgamento [23].

2º - Os que se envergonham de Cristo sofrerão uma perda irreparável. Aqueles que se envergonham de Cristo agora, Cristo se envergonhará deles na sua segunda vinda. O julgamento mais pesado que as pessoas receberão no dia do juízo é que elas vão receber exatamente aquilo que sempre desejaram. O injusto continuará sendo injusto. Quem se envergonhou de Cristo durante esta vida se apartará dele eternamente [24].

CONCLUSÃO

O verdadeiro discípulo recebe alguma recompensa? Sim. Torna-se cada vez mais semelhante a Jesus Cristo e, um dia, compartilhará de sua glória. Satanás promete glória, mas no final o que se recebe é apenas sofrimento. Deus promete sofrimento, mas por fim esse sofrimento será transformado em glória. Quem reconhece a Cristo e vive para ele, um dia será por ele reconhecido e compartilhará sua glória [25].

Bibliografia

1 – Edwards, James R. O Comentário de Marcos, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2018, p. 324.

2 – Carson, D. A. Carson, D. A. O Comentário de Mateus, Editora Shedd, Santo Amaro, SP, 2010, p. 444.  

3 – Earle, Ralph. Comentário Bíblico Beacon, Mateus, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 120.

4 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 296.

5 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p.161.

6 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 297.

7 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 139.

8 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 1, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 662.

9 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 139.

10 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 1, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 663.

11 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 298.

12 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 140.

13 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 299.

14 – Ibidem, p. 299,300.

15 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 140.

16 – Ibidem, 140.

17 – Wiersbe, Warren W. Marcos, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 181.

18 – Edwards, James R. O Comentário de Lucas, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2019, p. 361.

19 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 301.

20 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 141.

21 – Wiersbe, Warren W. Marcos, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 181.

22 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 1, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 666.

23 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 302.

24 – Ibidem, p. 302.

25 – Wiersbe, Warren W. Marcos, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 181. 

domingo, 1 de agosto de 2021

QUEM É JESUS?

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 9.18-22

INTRODUÇÃO

Este texto é uma espécie de linha divisória no Evangelho de Lucas. E uma dobradiça que divide o livro. Até aqui Jesus provou ser o Messias. A partir de agora, ele mostra aos discípulos o propósito de sua vida. Fala-lhes a respeito da cruz e ruma para Jerusalém, onde será crucificado, como um rei caminha para sua coroação [1].

De acordo com Mateus e Marcos, Jesus estava na região de Cesareia de Filipe. Nesse lugar remoto o Senhor encontrou a solidão silenciosa que havia buscado em vão até então. Não se dirigiu à cidade, mas, como diz Mateus, “às adjacências – às partes”, mais precisamente, conforme Marcos, às “aldeias de Cesareia de Filipe”. Aqui Jesus poderia dialogar intimamente com os apóstolos. Lucas enfatiza, como em outras vezes, a oração (cf. Lc 6.12s). Assim como naquela ocasião Jesus passou a noite em oração diante de Deus antes de escolher os doze apóstolos, assim também agora ora nessa importante guinada de sua vida na terra, a fim de revelar-se aos discípulos como o Messias enviado por Deus. Os doze tinham de ser preparados para sua iminente paixão em Jerusalém [2].

Esta passagem representa o clímax do ministério de ensino de Jesus. Foi, com efeito, o exame final dos apóstolos, que consiste em apenas uma pergunta, a pergunta final que todo ser humano deve enfrentar: Quem é Jesus Cristo? A resposta para esta pergunta é de importância monumental, porque nesta resposta estão as dobradiças do seu destino eterno. É uma questão que ninguém pode fugir ou evitar. Não podemos fazer como a mulher de Pilatos que lhe disse para não se envolver na questão desse justo, porque num sonho muito sofri por causa dele (Mt 27.19). É impossível deixar de se envolver com Jesus, seja o aceitando ou o negando, todos nós estamos envolvidos com Ele. Seja na vida, seja na morte, todos terão que se envolver com Esse Justo e responder a essa pergunta.

Toda a alma, por assim dizer, vai ser preso contra a parede da eternidade e forçado a responder a essa pergunta; como disse o apóstolo Paulo em Filipenses 2.9-11: “Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai”.

Olhando para esse texto quais as lições que podemos tirar dele.

1 – CONFUNDINDO JESUS COM OS ÍDOLOS (Mt 16.13,14; Mc 8.27,28; Lc 9.18,19).

Em todos os lugares que Jesus levava os apóstolos havia um motivo especial. Jesus viajou em direção ao norte, até à costa de Cesareia de Filipe. Essa cidade havia sido construída por Filipe, filho de Herodes, o Grande, e recebeu o nome de Cesareia em honra ao imperador reinante, Tibério César. Posteriormente, ela recebeu a designação de Filipe para distingui-la da cidade de Cesareia na costa do Mediterrâneo, construída por Herodes e que, na época de Jesus, era a sede do governo romano na Judéia. Estava localizada em um planalto rochoso debaixo das sombras do elevado monte Hermom, cujos picos ficam cobertos de neve o ano todo [3].

Cesareia de Filipe se encontra a uns quarenta e seis quilômetros ao nordeste do mar da Galileia, fazendo fronteira com a Síria. Estava fora do território pertencente ao Herodes Antipas, governador da Galileia, e dentro da região pertencente o Felipe o tetrarca. A maior parte da população não era judia e ali Jesus estaria tranquilo e poderia ensinar aos Doze. Cesareia de Filipe ficava a poucos quilômetros da antiga cidade judaica de Dã, que durante séculos foi considerado o limite norte da Terra Prometida.

A cidade era famosa por seu santuário a Pan (de quem a cidade recebeu o nome de Cesareia Pânias). Pan, metade homem e metade bode, era reverenciado como o guardião dos rebanhos e da natureza e adorado em uma caverna aos pés do monte Hermom, ao lado da caverna da qual jorra um dos principais tributários do rio Jordão [4].

Foi nesta encruzilhada do paganismo e do judaísmo que Jesus deixou um momento de comunhão íntima com o Pai celestial e confrontou os discípulos com a pergunta que cada pessoa e cada religião deverá ter uma resposta um dia.

Com isso em mente, podemos destacar três coisas importantes:

1º - O que o mundo religioso pensa a respeito de Jesus? (Lc 9.18c). As pessoas de quem o Senhor se referiu eram os judeus, o povo escolhido de Deus, a quem o Messias foi enviado primeiro (Rm 1.16; cf. João 4.22).

Esta pergunta de Jesus não era porque Ele não tinha conhecimento do que as pessoas estavam dizendo sobre Ele, mas Ele queria que os Doze pensassem cuidadosamente sobre essas percepções populares. Ele não estava preocupado com as opiniões dos escribas e fariseus que eram incrédulos e hipócritas; alguns dos quais ainda tinham o acusou de estar ligado com Satanás (Mt 10.25; 12.24). Jesus estava querendo um parecer daqueles que andavam com Ele. Como eles o estavam vendo depois de ouvirem os Seus ensinamentos e testemunhar Seus milagres. Qual era o seu veredicto final sobre Jesus, o Filho do Homem?

O mundo religioso tem uma visão distorcida de Jesus. Eles têm até um Jesus, mas não o Jesus que se revela nas Escrituras. Dentro do mundo religioso Jesus é mais um dentre muitas outras divindades.

Muitas vezes o Senhor nos leva a reavaliar a nossa fé, pois somos passives de erros e de sermos influenciados pelo o que o mundo diz e pensa a respeito à Pessoa de Jesus. Por isso essa pergunta deve ser feita a você e a mim: Quem tem sido Jesus para mim e para você? Como temos visto Jesus no nosso dia a dia?

2º - Os judeus tinham uma ideia pagã a Seu respeito (Lc 9.19). O mundo religioso pagão da época de Jesus tinha uma forte influência sobre os judeus. Observe que alguns dos judeus acreditavam que Jesus era a reencarnado de João Batista, que havia voltado do túmulo para continuar o seu ministério de anunciar o Messias. Como Herodes, as pessoas reconheceram que o poder milagroso de Jesus era inexplicável em uma base humana. No ministério de Elias e Eliseu ocorreram ressurreições, assim como no ministério de Jesus e no envio dos apóstolos. Essa ideia de reencarnação vinha do mundo pagão e estava influenciando os judeus. Por isso citaram Elias e até mesmo Jeremias (Mt 16.14, conf. Jo 9.1,2).

Ao longo da história, houve vários debates acerca de quem é Jesus. Os ebionistas acreditavam que Jesus era apenas uma emanação de Deus (Os Ebionitas foram uma seita cristã que acreditavam que Jesus era um homem comum que se tornou divino na ocasião do batismo). Os gnósticos não acreditavam na sua divindade. Os arianos não acreditavam na sua eternidade. Hoje, há aqueles que creem que Jesus é um mediador, mas não o Mediador entre Deus e os homens. Há aqueles que dizem que Jesus é apenas um espírito iluminado, um mestre, mas não o Senhor e Mestre. Há aqueles que ainda escarnecem de Jesus e o colocam apenas como um homem mortal que se casou com Maria Madalena e teve filhos, como ensina o heterodoxo autor do livro Código da Vinci de Dan Brown (2003) [5].  

3º - Uma má teologia distorce a Pessoa de Cristo. Sem uma base sólida na teologia é muito fácil sucumbir aos modismos e ideias distorcidas a respeito de Cristo.

Creio que algumas das pessoas viam em Jesus algo do caráter e da mensagem de João Batista. Alguns viam nele o fogo e intensidade de Elias; e outros ainda viam nele o lamento e tristeza de Jeremias. Em todas as três dessas identidades, no entanto, Jesus foi pensado para ser apenas o precursor do Messias, mas não o próprio Messias. Eles não podiam negar Seu poder sobrenatural, mas eles não quiseram aceitá-lo como Messias e Salvador, eles estavam tão perto da verdade suprema de Deus, mas sem o reconhecer plenamente e aceitá-lo como Soberano Senhor de suas vidas.  

O mesmo tem ocorrido hoje em muitos ministérios evangélicos. Muitos líderes apresentam um Cristo diferente das Escrituras. Apresentam um Cristo criado dentro de conceitos pagãos e até mesmo inventado para agradar as pessoas.

O pastor Rodrigo Mocellin escreveu recentemente em seu Facebook um texto muito interessante. Ele começa assim: “Eu sou gay, e Jesus me aceita como eu sou”. Quem disse isso? Um gay do Quebrando o Tabu que, como ele mesmo disse, nem acredita em Jesus, mas distorce as palavras de Cristo para aprovar o seu comportamento. Aí vem o cristão moderninho e faz coro a um sujeito desses, evangelizando assim: “Deus o ama do jeito que você é e ...” e fim; isso é tudo o que eles pregam [6]. Ou seja, pregam um evangelho que procede da boca de pagãos como se fosse a verdade das Escrituras. São levados pelo engodo de Satanás e não se dão conta disso.

A igreja moderna tem adaptado as Escrituras ao gosto do freguês e tem negligenciado o verdadeiro Evangelho. Aliás, essa é a ideia dos teólogos liberais, fazer uma releitura das Escrituras para adaptá-la aos tempos modernos. Que Deus nos livre de tais pensamentos e atitudes.

J. C. Ryle disse que a verdade de Deus perturba a indolência espiritual dos homens. Ela os constrange a pensar. O Evangelho os faz discutir, argumentar, especular e inventar teorias, para justificar sua preocupação em alguns lugares e sua rejeição em outros. Milhares de pessoas, em todas as épocas da História da igreja, gastam suas vidas nestas coisas e jamais chegam a se aproximar de Deus [7].

Se você não souber com clareza quem é Jesus, estará perdido na questão mais importante da vida. A vida, a morte e a ressurreição de Cristo, bem como sua obra expiatória, não são assuntos laterais, mas a própria essência do cristianismo. Se você não discerne claramente quem é Jesus, não pode ser considerado um cristão. O cristianismo é muito mais do que um conjunto de doutrinas; é uma Pessoa. O cristianismo tem que ver com a pessoa de Cristo. Ele é o centro, o eixo, a base, o alvo e a fonte de toda a vida cristã. Fora dele não há redenção nem esperança. Ele é a fonte da qual procedem todas as bênçãos [8].    

2 – CONFESSANDO JESUS EM MEIO AOS ÍDOLOS (Lc 9.20).

Depois que os discípulos relataram que as multidões estavam dizendo sobre Ele, Jesus então perguntou: “Mas vós, quem dizeis que eu sou?”. Os Doze sabiam que a maioria dos pontos de vista que as pessoas faziam a respeito de Jesus eram inadequados, pra não dizer falsas. Agora, eles tiveram que responder por si.  

E aqui, nas regiões afastadas do paganismo e até mesmo de hostilidade ao judaísmo, que Jesus é proclamado Messias pela primeira vez! [9]. É em meio a um mundo pagão e idólatra que a luz do verdadeiro Evangelho tem que brilhar.  

Jesus encontra-se em uma região cheia de templos dos deuses sírios; em um lugar que contemplavam os deuses gregos; em um lugar onde a história do Israel enchia as mentes dos homens, onde o esplendor de mármore branco da casa em que se rendia culto a César dominava a paisagem e obrigava à vista a posar-se nele. E ali – entre todos os lugares possíveis – se ergue este surpreendente carpinteiro e pergunta aos homens quem acreditam que Ele é, e espera a resposta: “O Cristo de Deus”. É como se Jesus se levantasse a propósito contra o pano de fundo das religiões do mundo em toda sua história e seu esplendor e exigisse que o comparassem com elas e que se decidissem em favor dEle. Há poucas cenas em que a consciência de sua própria divindade brilha com uma luz mais maravilhosa em Jesus [10].

Com isso em mente, podemos tirar lições preciosas para as nossas vidas.

1º - A confissão de Pedro (Lc 9.20). Depois que Jesus ouviu o eco da opinião do povo, ele ouve da boca de Pedro, que fala em nome de todos os discípulos, o vigoroso testemunho de sua fé pessoal, viva e autônoma, de que eles o consideram “o Cristo de Deus”. Essa confissão de Pedro é transmitida de diversas maneiras pelos evangelhos sinóticos: Mateus escreve “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16.16); Marcos: “Tu és o Cristo” (Mc 8.29); segundo Lucas, Jesus é “o Cristo de Deus” (Lc 9.20). Em Jo 6.69 a confissão é: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivente”. Essas memoráveis palavras de Pedro são o centro e foco absolutos da confissão de fé [11].

Pedro era o porta-voz do grupo e deu uma resposta clara afirmando a divindade de Jesus Cristo. Essa foi a segunda vez que professou Cristo publicamente (Jo 6.68,69). Com exceção de Judas (Jo 6.70, 71), todos os apóstolos criam em Jesus Cristo [12].

A confissão dos apóstolos é a confissão do salvo. Confessar Jesus como salvador pessoal é muito mais do que palavras, essa confissão reflete nossa total confiança de que Ele é o nosso Salvador, nosso Redentor, Aquele que pagou um alto preço por nós na cruz do Calvário. É reconhecer nossa total dependência dele para alcançarmos a salvação. É reconhecer que éramos por natureza filhos da ira, mas que, mediante o Seu sacrifício na cruz, nós fomos salvos, justificados e por fim seremos glorificados; e que só alcançamos tudo isso unicamente por Sua graça (Ef 2.1-10).

Qualquer um que rejeita Jesus, o Messias de Deus, é amaldiçoado (1Co 16.22) e merecedor da punição mais severa (Hb 10.29). Essa é uma dura realidade, mas é a única realidade das Escrituras. 

2º - Ninguém confessa a Cristo se o Pai não o revelar (Mt 16.16). “Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus”. Jesus deixa claro que Pedro só sabe quem Ele é porque o Pai lhe revelara isso. Do contrário, como o povo, Pedro também estaria rendido à mais completa confusão. Só podemos conhecer Cristo por revelação divina, e não por investigação humana [13]. As pessoas não chegam à fé em Cristo por investigação e dedução, mas porque o Pai revela Seu Filho a elas (Jo 6.65) [14].

3º - Uma revelação do termo Messias (Lc 9.21,22). O termo Christos (Cristo) é a tradução grega da palavra hebraica Mashiach. Ambas as palavras se referem à ungido (Lc 4.18; At 10.38; Hb 1.9), a quem o próprio Deus escolheu para ser Profeta, Sacerdote e Rei como a Palavra de Deus nos revela (Lc 2.26; 23.35; At 3.18; 4.26; Ap 11.15; 12.10).

Depois que os discípulos tiveram os olhos da alma abertos e receberam pleno discernimento acerca da messianidade de Jesus, por revelação de Deus Pai, Jesus iniciou um novo capítulo no seu discipulado e começou a falar-lhes claramente acerca do seu padecimento, prisão, morte e ressurreição. Jesus revela que o seu propósito em vir ao mundo era dar sua vida em resgate do seu povo. Jesus não morre como um mártir que recusa renunciar suas convicções. Ele morre como parte do plano redentivo de Deus (Mc 10.45; Rm 3.21-26). Isso é indicado pelo “é necessário”, uma necessidade baseada na vontade soberana de Deus (Lc 9.22) em sua oferta de redenção. Jesus deixa claro que o sofrimento para ele não era nenhum acidente, mas, sim, uma necessidade imperativa. A cruz era a sua vocação. O evangelista Lucas usa a expressão “é necessário” em diferentes circunstâncias da vida de Jesus, especialmente acerca da necessidade de sua morte (2.49; 4.43; 9.22; 13.33; 17.25; 24.7) [15].

A vontade de Deus era a sua vontade. Não tinha outro objetivo senão cumprir na Terra que o que Deus o havia enviado a fazer. O cristão, como seu Senhor, é um homem que está sob ordens. Por isso que o Senhor nos ensinou que na oração devemos falar: “Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.10).

4º - Os que iriam rejeitar o Senhor Jesus (Lc 9.22b). Todos os três evangelhos sinóticos parafraseiam aqui o termo Sinédrio, enumerando essas três categorias oficiais. Que terrível impacto para as expectativas dos discípulos teve essa primeira pregação da paixão, que dizia: Cristo, rejeitado por aquelas pessoas que por força do cargo, da origem e do conhecimento detinham a autoridade máxima e das quais justamente se esperava o reconhecimento do Messias e sua proclamação pública!

O alto conselho era formado por 71 membros de três tipos de categorias. Eram os seguintes grupos que forneciam esses membros:

1) Os sumo sacerdotes, entre os quais estavam o sumo sacerdote atual e os que já haviam exercido a função. A eles agregavam-se os membros das poucas famílias que eram consideradas dignas do sumo sacerdócio.

2) Os anciãos, que eram as famílias israelitas cuja genealogia podia comprovar com segurança a pureza de sua origem israelita e cujas filhas tinham o direito de casar com sacerdotes.

3) Os escribas, mais precisamente aqueles que tinham a incumbência de copiar o texto da lei, mas que em breve receberam a fama de serem os únicos que possuíam o conhecimento necessário para explicar a lei; eram tidos como especialistas da lei ou eruditos do direito por profissão.

No entanto, era preciso que a pedra fosse rejeitada pelos construtores para que se tornasse a pedra angular escolhida (Sl 118.22). A confissão de Pedro a respeito de Jesus, o Cristo de Deus, chegou à plenitude somente depois do Pentecostes, quando ele proclamou publicamente: “Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo” (At 2.36). Paulo diz o mesmo por meio das conhecidas palavras: “Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado” (1Co 2.2) [16].

5º - Por que Jesus tinha que morrer? Por que era necessário Jesus sofrer, morrer e ressuscitar? Será por que havia poderes superiores que o subjugariam? Impossível! Será por que ele queria dar um exemplo de abnegação e auto sacrifício? Impossível! Então, por que era necessário Jesus morrer? Sua morte foi necessária para que fosse feita expiação pelo pecado humano. Sem o derramamento do seu sangue, não haveria redenção para o homem. Sem o seu sacrifício vicário, não poderíamos ser reconciliados com Deus. Sua morte nos trouxe vida. A morte de Cristo é a mensagem central da Bíblia. Sem a cruz de Cristo, o cristianismo não passa de mera religião, desprovida de esperança [17].

CONCLUSÃO

Quem é Jesus para você? Como você o vê?

O mundo tem uma ideia a respeito de Jesus, os religiosos também, mas a revelação plena a Seu respeito se encontra nas Escrituras e mediante o Pai tirar dos nossos olhos a venda da incredulidade (2Co 4.4).

E todo aquele que nele crê o confessa em meio aos deuses do mundo que Jesus Cristo é o Filho do Deus vivo!

Pense nisso!

Bibliografia

1 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 291.

2 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 138.

3 – Earle, Ralph. Comentário Bíblico Beacon, Mateus, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 117.

4 – Edwards, James R. O Comentário de Marcos, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2018, p. 312.

5 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 292.

6 – Mocellin, Ricardo. Eu sou gay, e Jesus me aceita como eu sou... https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=362078022157936&id=111215387244202, acessado em 29/07/21.

7 – Ryle, J. C. Meditação no Evangelho de Lucas, Ed. Fiel, São José dos Campos, SP, 2002, p. 146.

8 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 293.

9 – Edwards, James R. O Comentário de Marcos, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2018, p. 312.

10 – Barclay, William. Comentário do Novo Testamento, Mateus, tradução: Carlos Biagini, p. 564.

11 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 138.

12 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 267.

13 – Lopes, Hernandes Dias. Mateus, Jesus, o Rei dos reis, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2019, p. 513.

14 – Radmacher, Earl D. O Novo Comentário Bíblico, Editora Central Gospel, Rio de Janeiro, RJ, 2010, p. 49.

15 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 294, 295.

16 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 138, 139.

17 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 295.