domingo, 19 de dezembro de 2021

UMA LIÇÃO DE MISERICÓRDIA PARA OS QUE REJEITAM JESUS

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 9.51-56

INTRODUÇÃO

Este é um daqueles textos que revelam muito da humanidade dos discípulos. No caso aqui em questão, de João e seu irmão Tiago. O texto nos fala que uma aldeia samaritana não quis receber Jesus e seus discípulos, e isso causou um certo “zelo” excessivo em João e Tiago que, creio, era o sentimento dos outros discípulos também. Devido a essa recusa em recebe-los os irmãos Boanerges (Mc 3.17) perguntaram a Jesus se Ele queria que eles orassem para que fogo do céu os consumisse, assim como fez Elias com os soldados que foram enviados pelo rei Acazias para prendê-lo (2Rs 1.9-12). Como se diz por aí: “eles estavam com sague nos olhos!”.

É bem provável que neles ainda aflorasse as lembranças do Monte da Transfiguração quando viram a glória de Deus e os dois personagens principais de Israel, Moisés e Elias conversando com Jesus. O orgulho e o exclusivismo ainda estavam muito latentes em seus corações. No entanto, o Senhor acalmou os ânimos exaltados dos discípulos.

ENTENDENDO A RECUSA DOS SAMARITANOS.

Para entendermos porque os samaritanos rejeitaram Jesus e seus discípulos temos que entender um pouco da história deles.

Com a divisão do reino, após a morte de Salomão, no reinado de seu filho Roboão, os moradores do Reino Sul ficaram conhecidos como judeus, tendo como capital Jerusalém. Os moradores do Reino Norte ficaram conhecidos como Samaritanos, tendo como capital Samaria (1Rs 16.24).

O reino norte foi conquistado e quase totalmente destruído pelos assírios em 721 a.C. Durante a reabilitação da região, os assírios repovoaram-no com pessoas de muitas áreas de seu reino. Isso gerou uma religião sincretista naquela localidade. Ela tem vestígios de adoração ao Senhor, mas também de muitas práticas de adoração pagã. Veja 2Rs17.24-41 para uma descrição dessa região na perspectiva judaica (i.e., do sul). Havia também persistentes animosidades entre judeus da antiga oposição samaritana quanto à reconstrução do templo de Jerusalém, após o retorno da Babilônia (Ed 4.2-24; Ne 2.19; 4.2-9) [1].

Outro problema que surgiu era que os samaritanos eram impedidos de adorar em Jerusalém, devido a isso, os samaritanos construíram seu próprio templo no Monte Gerizim (400 a.C.). No tempo dos Macabeus João Hircano (128 a.C.) destruiu este templo o que piorou ainda mais as relações entre os dois grupos. Eles aceitavam apenas o Pentateuco como Escritura canônica, e mesmo com o templo deles destruído, eles continuavam adorando a Deus no Monte Gerizim. Este é o pano de fundo do encontro de nosso Senhor com a mulher samaritana, registrada em Jo 4.7-42.

Por isso que apesar da disposição pacífica de Jesus em relação aos samaritanos, eles não o receberam porque se notava em seu semblante que ele se dirigia para Jerusalém (v. 53). A animosidade cruzava-se em ambas as direções, entre os samaritanos e os judeus [2]. Todavia, Lucas é o único dentre os Evangelhos que descreve a rejeição específica a Jesus por um povoado samaritano.

Quais as lições que podemos tirara desse texto?

1 – JESUS TINHA UM PROPÓSITO DETERMINADO EM IR PARA JERUSALÉM (Lc 9.51).

 A agenda de Moisés e Elias com Jesus no monte da Transfiguração foi sua “partida” (exodus) para Jerusalém. A cruz estava no centro daquela conversa no monte tocado pela glória de Deus. Ao descer do monte, Jesus está absolutamente comprometido com a obediência a essa agenda estabelecida na eternidade. A prontidão para obedecer, mesmo que tal obediência passasse pela horrenda cruz, estava escrita em seu semblante (9.51,53) [3]. Como disse William Hendriksen: “Toda a vida de Jesus, inclusive essa viagem a Jerusalém, se desenrolava de acordo com o plano divino” [4].

Charles C. Ryle nos diz que Ele sabia perfeitamente o que estava para acontecer-lhe. A traição, o julgamento injusto, a zombaria, os açoites, a coroa de espinhos, o cuspe no rosto, os cravos, a lança e a agonia na cruz – todas essas coisas, sem dúvida, estavam diante dele como uma fotografia. No entanto, em momento algum, Ele retrocedeu da obra com a qual havia comprometido. Ele estava dedicado a pagar o preço da redenção e mesmo a ser levado à sepultura como nossa Garantia [5].

Isso nos ensina três lições:

1º - Jesus nos dá o exemplo de obediência ao Pai. Como já falamos, Jesus tinha plena consciência do que estava para lhe acontecer, mas mesmo assim não recuou ante ao sofrimento iminente. Em Filipenses 2.8 lemos: “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz”.

Nós cristãos devemos entender que no momento em que abraçamos a fé devemos andar em obediência ao Pai. Tendo consciência que a jornada com Cristo muitas vezes é dolorosa, mas o seu fim será glorioso. Como disse o apóstolo Paulo: “Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente; não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas” (2Co 4.17,18). 

Jesus foi o nosso grande exemplo de obediência, mas temos também o exemplo que o apóstolo Paulo nos deixou. Veja o que ele nos fala em Atos 20.22-24: “E agora, eis que, ligado eu pelo espírito, vou para Jerusalém, não sabendo o que lá me há de acontecer, senão o que o Espírito Santo de cidade em cidade me revela, dizendo que me esperam prisões e tribulações. Mas de nada faço questão, nem tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira, e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus”.

2º - Jesus nos dá o exemplo de perseverança (Lc 9.51). Há pessoas que até começam bem a caminhada com Cristo, mas não são perseverantes. Jesus nos mostra isso na parábola do semeador quando nos fala da semente que caiu entre espinhos, “esses são os que ouviram e, indo por diante, são sufocados com os cuidados e riquezas e deleites da vida, e não dão fruto com perfeição” (Lc 8.14).

Jesus não se desvia do plano que Pai tem para Ele. Ele segue firmemente para Jerusalém consciente do que lhe está proposto. Assim deve ser a nossa caminhada também. Como disse Tiago em sua carta: “O homem de coração dobre é inconstante em todos os seus caminhos” (Tg 1.8). No entanto, não era assim com Jesus, ele tinha os passos firmes para o propósito que o esperava.  

A frase “manifestou o firme propósito” implica uma fixação concentrada e centralizada de sua atenção em seu próprio sacrifício, que era o propósito central de sua Encarnação. Deste ponto até o Calvário, Ele foi reconhecido como aquele cujo rosto apontava para uma direção e um propósito definido. Até os samaritanos notaram isso (cf. v. 53) [6].

3º - Jesus nos mostra que a glória do Pai é o fim que lhe está proposto (Lc 9.51a). Observe que o texto não diz não diz “antes de sua morte”, mas “antes de sua ascensão”. Ele compreendia que a cruz era um degrau para a coroa, como nos fala o autor de Hebreus 12.2: “Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus”. Quando lemos estes versículos devemos nos alegrar, pois assim como o Senhor suportou a cruz, pois sabia do gozo que lhe estava proposto, devemos entender que por mais que soframos nesta vida, esse sofrimento não se compara ao que o Senhor tem para nós.

2 – NESSA CAMINHADA PARA JERUSALÉM, JESUS ESBARRA EM DOIS OBSTÁCULOS (Lc 9.52-54).

A caminhada de Jesus nunca foi fácil, aliás, sempre foi uma caminhada cheia de percalços. Aqui não foi diferente. Indo para Jerusalém Jesus enfrentou nesse episódio dois problemas, ou dois obstáculos: primeiro a rejeição de uma aldeia samaritana e segundo, a ira de João e Tiago. Mas mesmo diante desses obstáculos o Senhor nos dá lições preciosas para nossas vidas hoje. 

1º - O primeiro obstáculo foi a rejeição dos samaritanos (Lc 9.52,53). Assim como João Batista foi enviado para preparar o caminho de Jesus, agora o Senhor envia alguns de seus discípulos para preparar-lhe pousada entre os samaritanos. Um grupo de uma dúzia ou mais seria um fardo para os recursos de uma aldeia pequena se chegassem inesperadamente; e, naturalmente, pode ter havido mais pessoas. Mas os aldeões samaritanos, vendo que decisivamente ia para Jerusalém, não queriam ter nada a ver com Jesus [7].

Aquela aldeia samaritana não percebeu o tempo da visitação de Deus em suas vidas. Devido a animosidade que havia entre judeus e samaritanos, eles deixaram se levar pelo ódio e rejeitaram o Senhor entre eles. O preconceito antigo suplantou a oportunidade presente. O ódio racial impediu-lhes de receber o Salvador do mundo. Eles dentaram de acolher aquele que veio para dar sua vida por eles [8].

Muitas vezes quando estamos pregando o evangelho muitas pessoas também irão rejeitar o Salvador. A cegueira espiritual impede as pessoas de verem a alegria da salvação que nos foi preparada. Outras vezes é o preconceito que muitas pessoas têm com o cristianismo. Aliás, isso tem se tornado algo muito comum nos dias de hoje. Pelo menos ao evangelho bíblico, pois ao evangelho sincrético estamos vendo muita adesão.   

2º - O segundo obstáculo foi a falta de amor dos discípulos (Lc 9.54). Os dois filhos de Zebedeu, Tiago e João, sentiram que a rejeição de Jesus era uma atitude que merecia o juízo de aniquilamento por Deus. A pergunta a Jesus, que manifestou sua ira, é compreensível em vista da instrução do Senhor em Lc 9.5 acerca de seu comportamento diante de casas e cidades em que lhes era negada uma acolhida hospitaleira [9]. Mas o Senhor nunca disse que os que rejeitassem a Sua mensagem fossem incinerados.

Mas Jesus corrige essa atitude desses dois apóstolos mostrando que Ele não veio para destruir as almas dos homens, mas Ele veio para salva-las.

A atitude de João e Tiago revela muitas vezes o que está em nossos corações. Nós é que, em nosso pecado, queremos fazer descer fogo do céu, a fim de destruir os que rejeitam o Salvador. Quando a religião fala mais alto que o verdadeiro cristianismo tal pensamento pode realmente nos consumir a alma. Por isso que Jesus falou tanto em amar os inimigos e orar por eles. O cristianismo é o inverso do que o mundo sem Deus ensina. Devemos ser guiados pelo Espirito Santo e não pelas nossas emoções.

Veja os que nos fala Pedro em sua segunda carta: “Porque, que glória será essa, se, pecando, sois esbofeteados e sofreis? Mas se, fazendo o bem, sois afligidos e o sofreis, isso é agradável a Deus. Porque para isto sois chamados; pois também Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigais as suas pisadas. O qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano. O qual, quando o injuriavam, não injuriava, e quando padecia não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente; levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados” (1Pe 2.20-24).                                                 

3 – OS SAMARITANOS REJEITAM JESUS, MAS JESUS NÃO REJEITA OS SAMARITANOS (Lc 9.54-56).

Se existe um evangelho inclusivo este é o evangelho de Lucas. Em contraste com Mateus, cujo foco principal é sobre o ministério de Jesus para o povo judeu, Lucas é muito mais amplo. Ele descreveu o alcance universal da redenção e enfatizou que a salvação estava disponível para todos, não apenas os judeus, mas também os gentios (cf. At 10.34-48; 14.24-27; 15.12-19). Ele próprio era um gentio, e ele escreveu a Teófilo, (Lc 1.3), que também era um gentio. Lucas vê o evangelho como sendo para todos os grupos étnicos, incluindo judeus, samaritanos e gentios, mas também para todos os tipos de pessoas dentro desses grupos, incluindo as mulheres (mesmo prostitutas), excluídos (incluindo os leprosos), os endemoninhados, coletores de impostos, mesmo desprezados (cf. Lc 7.36-50; 10.25-37; 15.11-32; 16.19-31; 8.2,27-38; 17.11-19; 19.1-10). A ênfase de Lucas sobre o apelo universal do evangelho também é evidente em sua genealogia de Jesus. Mateus começou sua genealogia com Abraão, o pai do povo judeu, mas Lucas traçou a genealogia de Cristo por todo o caminho de volta para Adão, o pai de toda a raça humana. Devido a isso, nós podemos ver a perseverança e a misericórdia de Jesus com os samaritanos.

Com isso em mente, podemos destacar algumas lições importantes.

1º - Primeiro, Jesus mostra que não podemos ser guiados por nossas emoções (Lc 9.54). Diante da rejeição dos samaritanos, os dois irmãos, a quem Jesus deu o nome de “Boanerges”, que significa “filhos do trovão” (Mc 3.17) por causa de sua natureza volátil, queria incinerar a aldeia samaritana. Jesus, porém, voltou-se e repreendeu-os por sua atitude impiedosa. Querer destruir aqueles que rejeitam a verdade não é o caminho que devemos percorrer. A rejeição à verdade sempre irá acontecer. Nossas emoções podem até aflorar, mas não podem nos dominar. O apóstolo Paulo nos ensina que podemos até irar, mas não podemos pecar (Ef 4.26), ou seja, as nossas emoções e reações nos foram dadas por Deus, e precisamos compreender esse fato. O grande problema é quando as pessoas não sabem cuidar das suas emoções, quando são guiados por elas.

2º - Jesus mostra que veio para salvar o homem perdido, não para destruir suas almas (Lc 9.56). Ao contrário de seus discípulos excessivamente zelosos, o Senhor concede misericórdia para com os pecadores hostis e ignorantes, assim como o apóstolo Paulo tinha sido antes de sua conversão (1Tm 1.13). Misericórdia, apesar da sua rejeição, foi a atitude de Jesus. Ao invés de julgamento Jesus dá a misericórdia sobre aqueles que expressam sua hostilidade para com a verdade.

Quem age com misericórdia imita a Deus (Ef 5.1.), pois Deus é misericordioso. Davi chamou de “um Deus misericordioso e piedoso” (Sl 86.15). Zacarias, o pai de João Batista, falou sobre “a misericórdia do nosso Deus” (Lc 1.78). Paulo descreveu Deus como “o Pai das misericórdias” (2Co 1.3), que é “rico em misericórdia” (Ef 2.4), enquanto o escritor de Hebreus descreveu o Senhor Jesus Cristo como “misericordioso e fiel sumo sacerdote” (Hb 2.17).

Os cristãos são ordenados a mostrar misericórdia. Em Lucas 6.36 Jesus instruiu os crentes, “Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso”, enquanto Tiago advertiu que aqueles que não conseguem mostrar misericórdia vai enfrentar o julgamento de Deus, uma vez que “o juízo será sem misericórdia para aquele que não usou de misericórdia; a misericórdia triunfa sobre o juízo” (Tg 2.13).

E num momento de grande desgraça que se abateu sobre Judá, o profeta Jeremias falou: “As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; novas são cada manhã; grande é a tua fidelidade” (Lm 3.22,23).

3º - Jesus nos ensina a não alimentarmos contendas (Lc 9.56c). O texto nos diz que eles partiram para outra aldeia. Se alimentarmos o ódio, nós é que seremos envenenados. No entanto, a História nos conta que em nome de Cristo muitas guerras foram deflagradas, muitas pessoas foram perseguidas e mortas. Aqueles que deveriam demonstrar amor foram instrumento de destruição.

J. C. Ryle nos diz que milhares e milhares de pessoas foram mortas por causa de perseguições religiosas em todo o mundo. Muitos foram queimados, enforcados, decapitados ou afogados em nome do evangelho; e aqueles que os assassinavam realmente acreditavam estar prestando um serviço a Deus. Infelizmente, apenas demonstram sua própria ignorância quanto ao espírito do evangelho e à maneira de pensar de Cristo [10].

Se formos guiados pelas nossas emoções iremos repetir a História, mas se formos guiados pelos Espírito Santo iremos praticar o amor de Cristo pelos perdidos, até por aqueles que nos perseguem.

CONCLUSÃO

Embora a Igreja nunca deva comprometer a verdade ou tolerar o pecado, no entanto, nós devemos mostrar a mesma misericórdia para os perdidos, como fez Jesus por nós no tempo da nossa ignorância. Sempre que as pessoas que afirmam representar Jesus Cristo têm exercido o direito de pronunciar julgamento temporal, os resultados foram desastrosos. A Igreja deve confrontar o pecado e chamar os pecadores ao arrependimento, mas deixar o julgamento final por conta de Deus. Nós, no entanto, devemos agir com misericórdia, pois este é o cerne do ministério redentor de Cristo, e essa misericórdia deve ser estendida a todos, sem distinção de raça, sexo, idade, ou o fundo cultural. O Deus que se deleita na misericórdia se delicia com os cristãos misericordiosos (2Co 4.1).

Pense nisso!

Bibliografia:

1 – Neale, David A. Lucas, 9 – 24, Novo Comentário Beacon, Ed. Central Gospel, Rio de Janeiro, RJ, 2015, p. 67.

2 – Ibidem, p. 66,67

3 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 324.

4 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 45.

5 – Ryle, J. C. Meditação no Evangelho de Lucas, Ed. Fiel, São José dos Campos, SP, 2002, p.159.

6 – Childers Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 408.

7 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 167.

8 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 324.

9 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 148.

10 – Ryle, J. C. Meditação no Evangelho de Lucas, Ed. Fiel, São José dos Campos, SP, 2002, p.161.      

domingo, 12 de dezembro de 2021

O PERIGO DO ORGULHO E DO EXCLUSIVISMO (Lc 9.46-50)

Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 9.46-50

INTRODUÇÃO

Este acontecimento registra o fim do ministério do Senhor Jesus na Galileia, a partir de Lc 9.51 até 19.27 Lucas registra sua última viagem a Jerusalém. Ao atravessar as cidades e aldeias da Judéia durante os meses que antecederam a sua morte, Jesus intensifica ainda mais o treinamento dos Doze. Esta passagem também é uma parte crucial da sua preparação para o futuro ministério; podemos dizer que este acontecimento atinge o ápice do que se passava no coração dos discípulos. 

Este texto nos alerta para dois perigos que estamos propensos a cair, o perigo do orgulho e do exclusivismo. Vejamos:

1 – O PERIGO DO ORGULHO (Lc 9.46-48).

É bem provável que essa discussão tenha ocorrido devido Pedro, Tiago e João terem estado com o Senhor no Monte da Transfiguração; lá eles virão a glória de Jesus se manifestar, viram Elias e Moisés, ouviram a voz de Deus; enquanto que no sopé do monte os outros discípulos estavam tendo dificuldades de expulsar um demônio de um menino e estavam discutindo com os escribas. Provavelmente os três discípulos que estavam com Jesus no monte estavam se sentindo superiores aos demais apóstolos. Embora eles só tenham contado o ocorrido no monte depois que Jesus ressuscitou (Mc 9.9,10), é bem provável que seus corações ardiam de orgulho e superioridade perante os outros integrantes do colégio apostólico. O privilégio que tiveram provavelmente lhes subiu à cabeça. É bem provável que eles estavam se sentindo o máximo, afinal de contas eles faziam parte dos três preferidos de Jesus. É provável também que quando foram perguntados o que havia acontecido do monte eles disseram que não podiam contar, mas que foi tremendo! Wiesrbe comenta que pouco antes, Jesus havia pago o imposto que Pedro devia ao templo (Mt 17.24-27), o que também pode ter suscitado certa inveja [1]. Esses são os prováveis motivos para tal discussão, mas nunca saberemos ao certo.

O orgulho é o pecado que define a natureza humana caída. É o solo em que todos os outros pecados brotam, criam raízes profundas e crescem. Este foi o pecado que fez com que Satanás se rebelasse contra Deus e o fez ser expulso do céu juntamente com outros anjos. Foi este mesmo pecado que fez com que Adão e Eva se rebelassem contra a ordem de Deus. Esse orgulho ao longo da história e na sociedade contemporânea só revela as profundezas da depravação humana.

O orgulho impede que as pessoas entendam que são pecadoras e venham à Cristo. Só quando o orgulho é divinamente dominado pela convicção de sua pecaminosidade e miséria que uma pessoa pode, verdadeiramente, se arrepender e alcança a fé salvadora.

Mas quais a lições que podemos tirar desse episódio?

1º - Em primeiro lugar, o orgulho nos impede de entendermos as palavras de Jesus (Lc 9.44-46). Observe que Jesus acabara de falar sobre auto sacrifício (Lc 9.44,45), e os discípulos começam a discutir sobre autopromoção. Enquanto Jesus fala que está pronto a dar sua vida, os discípulos passam a debater quem entre eles é o maior. Eles estão na contramão do ensino e do espírito de Jesus. Mais uma vez, os discípulos reagem com incompreensão a um ensino sobre o sofrimento [2]. Eles ainda não haviam conseguido entender as palavras de Jesus que disse: “e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11.29).

2º - Em segundo lugar, no Reino de Deus não existem privilégios (Lc 9.46). Jesus acabara de falar que iria para Jerusalém e seria entregue nas mãos dos homens (Lc 9.44), no entanto, os apóstolos estavam cheios de orgulho e proeminência. O Rei da glória, o Senhor dos senhores, o Criador do universo, dava claro sinal de seu esvaziamento e humilhação, a ponto de entregar voluntariamente sua vida em favor dos pecadores, e os discípulos, cheios de vaidade e soberba, discutem sobre qual deles era o maior [3].

Leon L. Morris citando J. C. Ryle diz que o orgulho sempre volta a ocorrer no homem, embora “De todas as criaturas nenhuma tem tão pouco direito de ser orgulhosa quanto o homem”. Acrescenta: “de todos os homens, nenhum deve ser tão humilde quanto o cristão” [4]. Deveria, mas nem sempre o é.  

Entenda, nada vem de forma mais natural para os seres humanos caídos do que orgulho, ele se manifesta no egocentrismo, no amor-próprio, autopromoção e na auto realização. O orgulho resulta em se ver superior e inferioriza os outros de forma arbitrária. Como disse o apóstolo Paulo: “Porque não ousamos classificar-nos, ou comparar-nos com alguns, que se louvam a si mesmos; mas estes que se medem a si mesmos, e se comparam consigo mesmos, estão sem entendimento” (2Co10.12).

3º - Em terceiro lugar, o orgulho destrói a unidade (Lc 9.46). Esses homens seriam a primeira geração de pregadores do evangelho, e seriam os líderes da igreja que seria fundada muito em breve. Com tanta coisa sobre eles e, posteriormente, a oposição do mundo hostil, eles precisavam estar unidos e solidários. O perigo aqui é revelado, mostrando que o orgulho arruína a unidade e destrói relacionamentos. Relacionamentos são baseados em sacrifício e serviço de amor, em altruísmo. Mas, infelizmente, orgulho desfaz tudo isso.

J. C. Ryle diz que “nenhum outro pecado se acha tão enraizado em nossa natureza. Está unido a nós como a nossa pele. Suas raízes nunca são destruídas completamente. Estão sempre prontas a brotar, em qualquer momento, manifestando perniciosa vitalidade. Nenhum outro pecado é tão ilusório e enganador” [5].

4º - Em quarto lugar, Jesus tratou o orgulho dos apóstolos (Lc 9.47,48). Jesus conhecendo o coração deles e para tratar o orgulho que os consumia, pegou um menino e colocou junto a si. “E, tomando-o nos seus braços” (Mc 9.36), Jesus disse: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus. Portanto, aquele que se tornar humilde como este menino, esse é o maior no reino dos céus” (Mt 18.3-4).

Em seu reino, o exemplo de grandeza é uma criancinha – indefesa, dependente, sem qualquer status, vivendo pela fé. A única coisa pior do que uma criança tentando agir como adulto é um adulto agindo como criança! Há grande diferença entre ser semelhante a uma criança e ser infantil (ver 1Co 13.4,5; 14.20) [6].

Jesus ensina duas coisas:

1 – Jesus ensina que o orgulho rejeita a divindade (Lc 9.48a). Quem receber esta criança, símbolo dos crentes, em meu nome a mim me recebe.

No judaísmo, meninos menores de doze anos não poderiam ser ensinadas a Torah, e, assim, passar tempo com elas era considerado um desperdício. Jesus utilizou o mais insignificante de todos para ensinar o que realmente é ser o maior de todos.

A criança pequena representa os esquecidos, os não notados ou os excluídos que, por qualquer motivo, parecem não ser levados em consideração por nós. Quem, porém, vai ao encontro do seu menor irmão na comunidade, a partir de Jesus, misteriosamente é presenteado com o próprio Jesus [7]. Aqueles que rejeitam os outros não são apenas rejeitados por Jesus, mas também pelo o Pai que enviou seu Filho (cf. Jo 5.23).

2 – O orgulho inverte a realidade espiritual (Lc 9.48b). Orgulho leva as pessoas a se exaltarem, a viver em função das suas ambições, a viver em busca de receber elogios dos outros. Mas o homem natural, por ter uma mente caída, vive em função da busca do inverso da realidade espiritual, pois, como Jesus disse aos apóstolos, aquele que é menor entre todos vocês, este é o único que é grande (cf. Mt 23.11,12). A sabedoria espiritual, o que equivale a grandeza com humildade, é o oposto do modo como o mundo, tanto secular e o religioso pensam. Grande no Reino de Deus não são aqueles que lutam para chegar ao topo e buscam as honras desta vida. Grande no Reino de Deus são aqueles que humildemente consideram os outros mais importantes do que a si mesmos e olham para fora dos seus interesses (Fl 2.3,4). É o humilde, não o orgulhoso, que Deus te exaltará (Lc 1.52; 14.11; 18:14; Mt 23.5-12; Tg 4.10; 1Pe 5.6).

Somos chamados para sermos grandes, mas não em comparação aos outros, mas pela nossa atitude humilde e honesta diante de Deus e do próximo. Assim aprendemos que não somos grandes pela quantidade de pessoas que nos servem, mas pela quantidade de pessoas que servimos.

2 – O PERIGO DO EXCLUSIVISMO (Lc 9.49,50).

Esses versículos foram chamados de “uma lição de tolerância” e de “uma advertência contra o sectarismo” [8]. João, que raramente recebe destaque nos Sinóticos, expressou-se nessa ocasião, dizendo: Mestre, vimos um que, em teu nome, expulsava demônios... e nós lho proibimos (Mc 9.38; literalmente, “tentamos impedi-lo”). O Filho do Trovão, que havia invocado o fogo do céu sobre uma inóspita aldeia samaritana (“da mesma forma que Elias”, Lc 9.54), era rigoroso quanto à lealdade do seu grupo. James R. Edwards destaca que esse é ainda outro eco do ego inflado deles, do quanto se consideravam importantes [9].

Esse episódio nos ensina duas lições que devemos observar com cuidado.

1º - No reino de Deus, a intolerância exclusivista não encontra guarida. Na teologia de João, somente o grupo deles estava com a verdade; os outros eram excluídos e desprezados. João pensava que apenas os discípulos tinham o monopólio do poder de Jesus [10].

Ciúme e inveja são duas coisas que geram no coração do homem o exclusivismo. Eram essas duas coisas que ainda tomavam o coração dos apóstolos.

O comportamento de João e dos discípulos nesta ocasião é uma ilustração da singularidade da natureza humana em todas as épocas. Em cada período da História da Igreja, milhares de pessoas têm passado suas vidas seguindo este erro de João. Trabalham intensamente para impedir que sirvam a Cristo todos aqueles que não fazem a maneira deles [11].

De igual forma, muitos segmentos religiosos têm a pretensão de serem os únicos que servem a Deus. Pensam e chegam ao disparate de pregarem com altivez como se fossem os únicos seguidores fiéis de Jesus, e batem no peito com arrogância como se fossem os únicos salvos. Muitos, tolamente, creem que Deus é um património exclusivo da sua denominação. Agem com soberba e desprezam todos quantos não aderem à sua corrente sectária. Esse espírito intolerante e exclusivista está em desacordo com o ensino de Jesus, o Senhor da igreja [12].

Algumas pessoas pensam que só a sua denominação irá para o céu. Pelo menos assim que pensam os Adventistas e as Testemunhas de Jeová. No caso das Testemunhas de Jeová só irão para o céu 144 mil, o restante deles ficará na terra. Mas isso não ocorre só com as seitas, até entre nós evangélicos isso ocorre, de forma um pouco mais velada, mas ocorre. Eu já vi pessoas perguntarem se as pessoas que seguem a teologia de Armínio são salvas. Já vi um pregador dizer que a teologia calvinista é diabólica. O “sectarismo de João” ainda ronda muitos corações.

2º - Orgulho promove exclusivismo, mas a humildade promove a unidade (Lc 9.50). Um paralelo interessante é encontrado em Números 11.26-29. Em momentos de crise, o Senhor derramou o Seu Espírito sobre os líderes de Israel e também sobre homens “não-autorizados”, Eldade e Medade. Josué insistiu com Moisés para interromper suas profecias, porém Moisés se recusou, dizendo: “Tens tu ciúmes por mim? Tomara que todo o povo do Senhor fosse profeta” (Nm 11.29) [13].

Semelhantemente com esta palavra, Jesus corrige o conceito que os discípulos tinham da forma do reinado de Deus neste mundo. De forma alguma, porém, ele com isto está alargando a porta estreita do discipulado. Não resulta aqui o ideal de uma igreja de todo mundo, que acolhe tudo que é tipo de coisa. Afinal de contas, nossa passagem tem um contrapeso em Mt 12.30: “Quem não é por mim é contra mim; e quem comigo não ajunta espalha” [14].

Não podemos abraçar aqueles que afirmam ser de Cristo, mas não pregam a verdade de Cristo. Toda heresia deve ser rechaçada, como nos fala Paulo na carta a Tito 1.10,11: “Porque há muitos desordenados, faladores, vãos e enganadores, principalmente os da circuncisão, aos quais convém tapar a boca; homens que transtornam casas inteiras ensinando o que não convém, por torpe ganância”. No entanto temos de abraçar todos os que pregam em nome de Cristo e falam sua verdade, independentemente da organização que pertencem. Os cristãos devem ter a atitude de Paulo, que se alegrou quando a verdade foi proclamada, mesmo quando aqueles que pregavam fossem cruelmente hostis a ele ((Fl 1.15-18).

Havia um antigo corinho que se cantava na igreja quando eu era ainda menino que diz assim:

Não importa a igreja que tu és

Se aos pés do calvário tu estás

Se o teu coração é igual ao meu

Dai-me a mão e meu irmão serás

Devemos buscar sempre a unidade e não exclusivismo. Wiersbe disse que “os cristãos que acreditam que seu grupo é o único reconhecido e abençoado por Deus terão uma surpresa e tanto quando chegarem ao céu” [12].

CONCLUSÃO

Jesus corrigiu dois erros graves que podemos cometer: o orgulho e o exclusivismo. Isso foi algo que ocorreu com os discípulos e que tem ocorrido hoje também. Por isso devemos vigiar. Devemos lutar pelo evangelho de Cristo e louvar a Deus por aqueles que estão honrando ao Senhor pregando o verdadeiro evangelho. Em meio a tantas heresias que se têm ouvido, quando ouvirmos alguém, ainda que aos nossos olhos seja deferente do padrão que adotamos, pregando o verdadeiro evangelho, devemos louvar a Deus por isso.

Pense nisso!

Bibliografia

1 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 270.

2 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 319.

3 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 320.

4 – Morris. Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p.166.

5 – Ryle, J. C. Meditação no Evangelho de Lucas, Ed. Fiel, São José dos Campos, SP, 2002, p. 157.

6 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 270.  

7 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 321.

8 – Sanner, A. Elwwod. Comentário Bíblico Beacon, Marcos, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 282.

9 – Edwards, James R. O Comentário de Marcos, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2018, p. 364.

10 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 321.

11 – Ryle, J. C. Meditação no Evangelho de Lucas, Ed. Fiel, São José dos Campos, SP, 2002, p. 157.

12 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 270.

13 – Sanner, A. Elwwod. Comentário Bíblico Beacon, Marcos, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 282. 

14 – Pohl, Adolf. O Evangelho de Marcos, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 1998. p. 198.   

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

A LIBERTAÇÃO DE UM JOVEM POSSESSO – ESPIRITUALIDADE SEM PODER

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 9.37-45

INTRODUÇÃO

Após a grande experiência que os discípulos, Pedro, Tiago e João tiveram no monte da Transfiguração, onde tiveram o privilégio de ver a glória de Deus, agora, ao descerem, eles se deparam com um senário caótico, a ação de Satanás na vida de um jovem possesso.

No sopé no monte encontramos confusão, medo e desespero enquanto que no monte vemos tranquilidade, graça e vitória futura. Como disse Willian Hendriksen: [no monte] “o Pai reafirmou seu amor por seu Filho, seu Escolhido; na planície, um pai agonizantemente intercede por seu único filho, um filho gravemente afligido. Mostra-nos como o grande e unigênito Filho, em seu infinito amor, revelou seu poder e compaixão para com esse outro filho único e para com seu pai” [1].

Essa passagem nós encontramos também em Mt 17.14-23; Mc 9.14-32, sendo que em Marcos essa passagem é mais rica em detalhes.

Mas quais as lições que podemos tirar desse texto?

1 – A PRIMEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE NO MONTE NOS ENCHEMOS DE FÉ, MAS É NO VALE QUE SE PRATICA ESTA FÉ.

A vida de fé é vivida no vale, não no monte. Há muitas pessoas que querem viver no vale uma vida de monte, mas não dá. No monte temos visão da glória de Deus, mas é no vale que as batalhas são enfrentadas todos os dias. No vale tem gente padecendo nas mãos do diabo e cabe a igreja levar a mensagem de fé e esperança para essas pessoas cativas do diabo.

Vemos na Escritura alguns exemplos do que estamos falando. Moisés desce da jornada santificada no monte Sinai para confrontar a rebeldia e a idolatria de Arão e do povo (Êx 32); Elias deixa a tranquila força do Horebe para enfrentar o paganismo de Jezabel e Acabe (lRs 19); [...] Jesus, na descida do monte da Transfiguração com Pedro, Tiago e João, é confrontado de imediato com a discussão entre os mestres da lei e seus discípulos e também com um pai lutando desesperadamente pela vida de seu filho e a existência de sua fé [2].

Com isso em mente podemos destacar duas coisas:

1º - A fé do monte não tem nenhuma valia se não praticada no vale. A fé dos montes é uma experiência válida, pois, é muitas vezes arrebatadora, mas é momentânea; no entanto, a fé do vale é diária. Por isso que não adianta termos uma fé arrebatadora no monte se ela não é interagida diariamente no vale. A expressão “é só vitória!”, vem mediante constantes lutas todos os dias. Como nos fala Paulo em Efésios 6.10-13: “Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo. Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais. Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mal e, havendo feito tudo, ficar firmes”. Nosso campo de batalha é no nosso dia a dia.

2º - A fé do monte é um vislumbre do céu, mas a fé do vale é a dura realidade desta terra. Depois dessa incrível experiência do reino eterno e glória divina de Cristo Jesus, Pedro, Tiago e João voltam para a dura realidade da vida, em um mundo caído e mau. Isso porque o céu não é aqui. Por isso enfrentamos tantas adversidades nesta vida. A fé que nós cristãos precisamos ter e praticar todos os dias é a do vale. Temos como exemplo o apóstolo Paulo que foi até o terceiro céu, mas pôs em prática a fé no vale de dor (2Co 12.1-10). A nossa fé é amadurecida no vale.

2 – A SEGUNDA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE NO VALE HÁ PESSOAS PADECENDO NAS MÃOS DO DIABO (Lc 9.37-39).

Os contrastes entre os dois incidentes são marcantes. Um aconteceu em um monte, o outro em um vale. No monte havia glória, no vale a tragédia. Na monte Jesus Cristo exibiu Sua gloriosa majestade, enquanto que no vale Satanás mostrou sua terrível violência e crueldade. É no vale que as pessoas estão sofrendo nas mão de Satanás e é no vale que o Senhor manifesta sua misericórdia e graça.

Diante disso o que podemos destacar algumas lições:

1º - No vale há um pai aflito esperando um milagre para seu filho (Lc 9.38,39). Hoje, há muitos pais desesperados por causa do que Satanás tem feito na vida de seus filhos. Não foi diferente com esse pai que tinha esse único filho. Vemos aqui um pai desesperado (Mt 17.15), pois o diabo entrou em sua casa e estava destruindo a vida de seu único filho (Mc 9.18).

Observe que esse pai discerniu que era um espírito maligno que se apoderara de seu filho (Lc 9.39). Embora o pai se referisse ao comportamento do menino como um epiléptico (Mt 17.15), ele entendeu que a condição de seu filho não era fisiológica, mas demoníaca. Mateus acrescenta que o demônio repetidamente tentou destruir o menino, jogando-o no fogo e muitas vezes na água. Segundo a nota particular de Mateus, esses acontecimentos estavam associados às mudanças da lua, por isso o pai o chama de lunático. Marcos observa que o demônio fez o menino ficar surdo e mudo (Mc 9.17,25), e que o havia afligido desde que ele era uma criança (Mc 9.21). A palavra usada para meninice é bréfos, palavra que descreve a infância desde o período intrauterino. O diabo não poupa nem mesmo as crianças. Aquele jovem vivia dominado por uma casta de demônios desde a sua infância [3]. Como, por que ou em que idade a criança tornou-se possuído por demônios não é revelado, por isso é inútil especular.

Isso nos serve de alerta, se Satanás ataca os nossos filhos ainda na infância, devemos ser vigilantes e procurar leva-los a Cristo desde a sua tenra idade. Satanás não tem poupado as crianças, pois ele sabe que quando mais cedo começar, mas cedo irá destrui-los. Observe a geração de hoje como se encontra. Tanto dentro quanto fora da igreja.

No auge do desespero, o pai do jovem correu para os discípulos de Jesus em busca de ajuda, mas eles estavam sem poder. A igreja tem oferecido resposta para uma sociedade desesperançada e aflita? Temos confrontado o poder do mal? Conhecimento apenas não basta; é preciso revestimento de poder. O reino de Deus não consiste em palavras, mas em poder [4].

2º - No vale há muitas pessoas desesperadas, mas há também muita discussão desnecessária (Mc 9.14-16). Enquanto que no monte a conversa do Senhor Jesus com Elias e Moisés era a respeito da nossa salvação mediante a Sua morte na cruz, no vale estava havendo uma discussão infrutífera, porque os discípulos não conseguiram expulsar o demônio daquele menino. Os discípulos se envolveram numa interminável discussão com os escribas, enquanto o diabo estava agindo livremente sem ser confrontado (Mc 9.14).

Aliás, o diabo estava agindo na vida do pobre menino e causando confusão entre os discípulos de Jesus e os escribas. Por isso que eles estavam perdendo um tempo precioso discutindo com pessoas que eram opositoras da obra de Cristo. Muitas vezes a discussão é necessária e até saudável, mas perder tempo discutindo com quem não quer nada com Jesus muitas vezes será perda de tempo. Será uma distração diabólica. Será jogar pérolas aos porcos. Outro grande problema que temos visto hoje é que há muita discussão e conhecimento, mas que não exerce ação positiva na vida das pessoas. Conhecimento sem ação é inútil.

3 – POR QUE OS DISCÍPULOS NÃO PUDERAM EXPULSAR ESSA CASTA DE DEMÔNIOS DESSE MENINO? (Lc 9.40; Mc 9.28,29)

Um pouco antes desse fato aqui ocorrer os apóstolos haviam recebido de Jesus autoridade para pregar o Evangelho do reino, curar os enfermos e expulsar demônios (Mc 6.7,12,13). Mais tarde, quando Jesus e os discípulos entraram na casa (provavelmente em Cesaréia de Filipe), os discípulos começaram a questionar-lhe em particular: “Por que não pudemos nós expulsá-lo?”. Ao estudar os três relatos (Mt 17; Mc 9 e Lc 9), descobrimos o que faltava na vida deles.

1 – Faltava fé (Mt 17.19,20). Provavelmente, devido ao sucesso passado, eles passaram acreditar que o poder vinha deles mesmos e não de Deus. Muitas vezes somos levados a acreditar que nossos sucessos dependem somente de nós mesmos e não de Deus. Corremos o risco de descair da fé confiante em Deus e passamos a acreditar em nossa própria capacitação. Isso é uma grande lição para nós.  

2 – Oração e jejum (Mt 17.21; Mc 9.29). Indicando que esses nove homens haviam deixado sua vida devocional deteriorar-se durante a breve ausência de Jesus. Não importa quantos dons espirituais possuímos, seu exercício nunca é automático [5]. Vida de oração e consagração faz parte da vida do cristão. Nós nunca saberemos quando iremos enfrentar uma casta de demônios.

Isso me lembra um fato ocorrido com um irmão que eu conheço. A alguns anos ele foi chamado para ajudar a instalar uma antena parabólica na casa de um conhecido dele que estava se mudando. Ele iria morar de caseiro. Esse irmão me contou que estava tentando sintonizar a antena na casa desse amigo, mas nada dava certo. Tentou várias vezes, e nada. Até que a esposa desse amigo dele chegou e falou para esse irmão. Fulano, a dona do sítio me perguntou se você era crente, e eu disse que sim, aí ela me perguntou se você sabe expulsar demônio, porque a empregada dela está possessa lá na cozinha dela. Você pode ir lá e expulsar o demônio? Esse amigo conta que desceu e foi até a cozinha e encontrou realmente a empregada possessa. Ele chegou expulsou o demônio em nome de Jesus, pregou o Evangelho para ela e voltou para tentar sintonizar o sinal da parabólica. Ele conta que quando voltou não levou cinco minutos e resolveu o problema, ou seja, Deus não permitiu que ele sintonizasse o sinal porque havia uma mulher que precisaria ser liberta naquela tarde da ação de Satanás.  

4 – A REAÇÃO DE JESUS DIANTE DO SOFRIMENTO DAQUELE PAI.

Se há algo que precisamos entender é que o Senhor não fica alheio ao sofrimento humano. Podemos até não entender o sofrimento e nem porque o Senhor o permite em nossas vidas. Mas alheio ao nosso sofrimento Ele não fica. Ainda que aparentemente Ele não esteja se importando.

Vejamos como o Senhor interviu naquela situação.

1º - Jesus acabou com a discussão desnecessária (Mc 9.14-16). Enquanto Satanás agia os discípulos discutiam com os enviados do diabo. Uma coisa que o diabo faz muito bem é nos distrair com conversas inúteis na hora que temos de agir.

2º - Jesus mandou trazer o menino (Mc 8.19,20). Muitas vezes estamos levando os nossos problemas para quem não pode resolvê-los. Observe que no momento em que o menino possesso chegou perto de Jesus o demônio se manifestou. Devemos levar os nossos problemas para Cristo, pois só Ele tem poder para nos dar a solução para resolvê-los. Mas entenda uma coisa, muitas vezes o problema irá aparentemente piorar. Veja que na hora que o menino chegou os demônios se manifestaram. Quando levamos os nossos problemas para Deus, o mesmo pode acontecer, mas é nessa hora que devemos confiar ainda mais na intervenção divina.

3º - Jesus trabalha a fé daquele pobre pai (Mc 9.21-24). O Senhor não estava pedindo para aquele pai lhe contar o que estava acontecendo para obter informações, pois ela já muito bem já sabia. Jesus queria que aquele pai expusesse toda sua dor perante Ele. Isso é oração. Aquele pobre pai não estava chegando à uma força impessoal, mas para uma Pessoa. Os milagres de cura que o Senhor efetuou revelam a compaixão de Deus e mostram o quanto Ele se preocupa com a dor e o sofrimento humano. Jesus permitiu que este homem que sofria pelo seu filho descortinasse toda sua dor perante Ele.

Isso é orar, mas também é crer, ou seja, o Senhor estava trabalhando no crescimento da fé daquele homem. Observe que esse pai diz: “Ajuda a minha incredulidade”. É bem provável que aquele homem estava com sua fé totalmente diluída. Já não sabia em quem, nem no que acreditar para ver seu filho liberto. A sinceridade desse homem não impediu o agir de Jesus, pelo contrário, foi a partir daí que o menino ficou liberto.

4º - Jesus intervém e a libertação acontece (Mc 9.25-27; Lc 9.42). Jesus ordenou ao espírito que mantinha o menino cativo ir embora e nunca mais voltar. Diante de todos os presentes o menino é liberto. Mas eu quero chamar a sua atenção para um fato curioso. Observe o que esse pai fala o que acontecia com este menino: “Senhor, tem misericórdia de meu filho, que é lunático e sofre muito; pois muitas vezes cai no fogo, e muitas vezes na água” (Mt 17.15). Mesmo antes da sua total libertação, o Senhor já vinha preservando a vida desse menino. Quantas coisas ruins já lhe ocorreram e você foi liberto delas. Isso já era a boa mão do Senhor guardando a sua vida. Deus tem cuidado de cada um de nós mesmo antes da nossa conversão.

5 – POR FIM, VEMOS A IGNORÂNCIA AINDA PRESENTE NO CORAÇÃO DOS DISCÍPULOS (Lc 9.44,45).

Os discípulos haviam escutado estas mesmas palavras em pouco mais de uma semana antes dessa ocasião. Mas agora, tal como na ocasião anterior, pareciam sem significado para eles [6].

A descrição da ignorância e insegurança dos discípulos faz com que reconheçamos Lucas como um excelente psicólogo. A causa principal de sua ignorância era que um véu cobria seu olhar interior. A opinião do Senhor, de que ele teria de ser entregue nas mãos dos homens conforme o desígnio de Deus, era inconcebível para eles. Jesus era o único que poderia ter-lhes clareado a escuridão. Eles, porém, não tinham coragem de perguntar-lhe. Em Mt 17.23, sua tristeza era a única coisa que não os deixava alcançar a visão clara. O temor de que todas as suas esperanças seriam destroçadas impedia-os de perguntar com mais pormenores ao Senhor acerca daquilo que ele lhes anunciava [7].

Devemos entender duas coisas com essas palavras de Jesus:

1º - Jesus não queria que os discípulos perdessem o foco do que em breve iria lhe acontecer. Tendo sido ensinado toda a sua vida que o Messias seria um libertador político e militar, eles acharam difícil deixar essas esperanças que estavam enraizadas em seus corações. Mas Jesus repetidamente deixava claro para eles que em sua primeira vinda ele não veio como conquistador e governante, mas como Salvador e sacrifício pelo pecado.

2º - Jesus não queria que os discípulos cultivassem falsas expectativas a seu respeito. Observe que o Senhor mais uma vez disse aos seus discípulos: “Ponde vós estas palavras em vossos ouvidos”. Exortou-os a ouvir; a prestar atenção e entender o que ele estava prestes a dizer-lhes. Jesus diz isso após a multidão ficar maravilhada com o que havia acontecido. A homenagem da multidão era inconstante; o louvor que lhe são oferecidos em admiração e reverência diante da grandeza de Deus, era algo trivial e temporário. Em cerca de seis meses, as pessoas iriam se voltar contra ele, rejeitá-Lo, e exigir que Ele fosse crucificado. Naquela época o Filho do Homem seria entregue nas mãos dos homens.

Jesus não se deixava impressionar pelas palavras de louvor dos homens e fazia de tudo para que tais palavras não fizesse os discípulos perderem o foco do que estava por lhe acontecer.

Isso é serve de lição para todos nós hoje. Precisamos pregar o Evangelho e esperar grandes resultados, mas não ficarmos surpresos quando as mesmas pessoas que foram alcançados pelas bênçãos de Deus o neguem depois. A história sempre se repete.

CONCLUSÃO

Aprendemos aqui que não devemos viver de experiências passadas, achando que elas serão suficientes para as lutas futuras. Devemos aprender mediante esse texto que devemos manter uma vida de oração, jejum e devoção constantes na presença do Senhor. Como disse Paulo aos Efésios: “Devemos estar revestidos de todas a armadura de Deus, para enfrentarmos o dia mal”. Esse dia pode ser a qualquer momento.

Pense Nisso!

Bibliografia:

1 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 1, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 681.

2 – Edwards, James R. O Comentário de Marcos, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2018, p. 347.

3 – Lopes, Hernandes Dias. Marcos, o evangelho dos milagres, Editora Hagnos, São Paulo, 2006, p. 318.

4 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 311.

5 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 270.

6 – Ryle, J. C. Meditação no Evangelho de Lucas, Ed. Fiel, São José dos Campos, SP, 2002, p. 155.

7 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 145.

domingo, 26 de setembro de 2021

O MONTE DA TRANSFIGURAÇÃO – ESPIRITUALIDADE SEM DISCERNIMENTO

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 9.28-36

INTRODUÇÃO

Este episódio é narrado nos três Evangelhos Sinóticos (Mt 17.1-13; Mc 9.2-13 e Lc 9.28-36). No que se refere ao relato dos Evangelhos, a transfiguração foi a única ocasião, durante seu ministério aqui na Terra, em que Cristo revelou sua glória [1]. Jesus só se transfigurou na presença de três discípulos – Pedro, Tiago e João, e após a sua transfiguração, o Senhor lhes ordenou que eles só poderiam contar este episódio depois da Sua ressurreição (Mt 17.9).

Charles L. Childers destaca que Lucas apresenta três contribuições à história:

1) Ele nos diz que Jesus subiu ao monte para orar, e que Ele se transfigurou enquanto estava orando (2.8-29).

2) Ele informa que Moisés e Elias falaram da morte de Jesus, que estava próxima, e que havia de se cumprir em Jerusalém (30).

3) Ele narra que Pedro, Tiago e João dormiram durante uma parte dos acontecimentos na montanha, e acordaram a tempo de ver os visitantes do céu (32) [2].

Esse episódio ocorre depois que Jesus declara abertamente para os seus discípulos a respeito da sua ida a Jerusalém e da sua iminente morte na cruz (Mt 16.21). Podemos destacar que esse acontecimento têm um propósito duplo: o Pai tem o propósito de encorajar Jesus que está para morrer na cruz e Jesus tem o propósito de encorajar os discípulos, que haviam ficado abalados com a notícia de sua morte.

É interessante destacarmos que os montes figuram de forma proeminente no ministério de Jesus: nos montes ele ora (Lc 9.28, 6.12, 22.39; Mc 6.46; Jo 6.15), prega (Mc 3.13; Mt 5.1), realiza milagres (Mt 15.29,30), é tentado (Lc 4.5; Mt 4.8), chama os seus discípulos (Lc 6.12,13; Mc 3.13), envia-os em missão (Mt 28.16) e realiza sua paixão (Mc 11.1; 14.32; 15.22). Das várias referências a montes na Escritura, no entanto, o monte da transfiguração junto com o monte Sinai passaram a ser um local par excellence de revelação divina [3].

Mas quais as lições que podemos tirar desse texto para nós?

1 – NA TRANSFIGURAÇÃO JESUS REVELA A SUA GLÓRIA (Lc 9.28,29).

Em Lucas 9.27 Jesus destaca que alguns deles não morreriam antes de verem o reino de Deus, e nesse monte, perante três de seus discípulos, Jesus revelou Sua glória. Observe que o Antigo Testamento registra muitas ocasiões em que Deus revelou sua glória mediante muitos sinais. A Sua glória foi vista de várias maneiras, desde o deserto até a conclusão do templo (1Rs 8.10,11). No entanto, as manifestações da glória de Deus no Antigo Testamento foram envolta em mistério. Por exemplo, Moisés pediu a Deus que lhe mostrasse a Sua glória (Êx 33.18). O Senhor lhe falou que ele só poderia vê-lo pelas costas, mas não poderia ver o Seu rosto (Êx 33.22,23). O Senhor disse a Moisés que homem nenhum poderia ver a Sua face, pois quem a visse morreria (Êx 33.20). Aqui no monte, no entanto, esses três discípulos tiveram a honra de ver a glória de Cristo.

A transfiguração de Jesus nos revela alguns pontos importantes:

1º - A transfiguração de Jesus revela o Reino de Deus (Lc 9.27-29). Jesus havia dito que alguns dos que ali se encontravam não morreriam antes de verem o reino de Deus. Esse acontecimento revelou aos discípulos algumas lições:

1) Revelou a glória que Jesus tinha antes de vir a este mundo. O texto de Lucas nos diz que “estando ele orando, transformou-se a aparência de seu rosto, e a sua roupa ficou branca e mui resplandecente” (Lc 9.29). Há duas palavras no grego que são utilizadas para a transformação que ocorreu com Jesus: uma é eidos (aparência) e a outra é metamorphoun, que vem a expressão: “metamorfose”. Sendo que só Lucas usa a expressão eidos. Aqui em Lucas a expressão “aparência” (gr. eidos), é uma palavra rara no Novo Testamento, ocorrendo apenas cinco vezes, uma delas no batismo de Jesus (Lc 3.22). Essa expressão eidos remete também ao tabernáculo (Êx 26.30 – LXX): “Faça o tabernáculo de acordo com o modelo (eidos) que lhe foi mostrado no monte”. Jesus aqui estava revelando a sua glória que tinha antes da encarnação. Mais uma vez os discípulos estavam tendo a prova de que Jesus era o Deus encarnado. Jesus é a expressão exata da glória do Pai (Hb 1.1-3).

A segunda palavra é metamorfose, que aparecem em Mateus e Marcos. O termo significa “uma mudança de aparência que ocorre de dentro para fora”. O verbo ocorre apenas quatro vezes na Bíblia grega (Mc 9.2; Mt 17.2; Rm 12.2; 2Co 3.18) e, em cada instância, ele sugere uma transformação radical. Paulo, referindo-se à transfiguração em 2Co 3.18, diz que nós, como uma consequência de ver a glória do Senhor, somos transformados (gr. metamorphoun) de glória em glória [4].

Essa mesma expressão é utilizada por Paulo em Rm 12.2 que diz: “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus”. A metamorfose que Paulo está dizendo aqui não é algo natural como ocorre com a lagarta que vira uma borboleta, mas a metamorfose que ocorreu com Jesus. Paulo remete ao fato ocorrido no monte da transfiguração. É a transformação que procede de Deus, gerada em nós pela ação do Espírito Santo. E essa transformação – metamorfose – não ocorre em nosso corpo, mas em nossa mente – temos a mente de Cristo (1Co 2.16). Diferentemente dos ímpios que têm uma mente a mente reprovável como nos fala Paulo em Rm 1.28: “E, por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes” (ARA).

No entanto, a nossa mente foi transformada; nós temos a mente de Cristo (1Co 2.16). Por isso podemos experimentar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm 12.2). Paulo nos diz que o homem natural não compreende as coisas do Espírito, pois elas só podem ser discernidas de forma espiritual (1Co 2.14).  

Ralph Earle diz que o propósito da Transfiguração é dupla: fala da divindade de Jesus no momento em que os três discípulos tiveram uma visão de sua glória eterna, e 2) da importância e necessidade da Paixão. Esse último ponto aparece em Lucas, onde se afirma que o tópico da conversação com os dois visitantes celestiais era a sua “morte” que deveria se cumprir em Jerusalém (Lc 9.31). A palavra grega correspondente é exodos, que significa “uma partida” (“êxodo”). Portanto, ela inclui a sua crucificação, ressurreição e ascensão, que seria o clímax de seu ministério terreno [5].

2) Renovou a fé fraca dos discípulos. Esse momento de glória que os discípulos contemplaram serviu para renovar a fé fraca que eles tinham e, renovar também a fé, indiretamente, de toda a igreja depois deles. A escolha de três homens feita por Jesus reflete a exigência do direito que “no depoimento de duas ou três testemunhas, uma questão deve ser confirmada” (Dt 19.15; cf. Mt 18.16; 2Co 13.1; 1Tm 5.19; Hb 10.28).

Quando Jesus falou que em Jerusalém ele seria julgado e crucificado os discípulos ficaram tristes com tal declaração, mas a confirmação de que esse episódio era algo pré-determinado na eternidade passada ficou clara na conversa com Moisés e Elias. A única maneira de alcançarmos o perdão de nossos pecados seria mediante a morte vicária de Cristo na cruz.  

3) Revelou que a morte não é o fim (Lc 9.30,31; 1Co 15.51-58). Se há algo que ainda assusta muitas pessoas, principalmente cristãos, é a morte. Mas aqui nesse texto nós encontramos a verdade a respeito dos que morrem no Senhor. Ali diante de Jesus estavam Moisés, que passou pela morte (Js 1.2, Jd 9) e vemos Elias que foi transladado para o céu (2Rs 2.11). Esses homens, no entanto, estavam vivos diante de Jesus com seus corpos glorificados, ou seja, a morte não é o fim. A glória que o Senhor prometeu para os que o servem é real. Igualmente é revelado o conhecimento mútuo dos redimidos do Senhor no reino da perfeição. Moisés e Elias, que viveram em épocas diferentes e não se conheciam na terra, há tempo se tornaram íntimos no além.

2 – A TRANSFIGURAÇÃO REVELA A FALTA DE ENTENDIMENTO DOS DISCÍPULOS (Lc 9.28-36).

Se a transfiguração revela a glória de Jesus, ela também revela a falta de entendimento que os discípulos ainda tinham. Jesus sobe ao monte, que para boa parte dos comentaristas seria o monte Hermom. Pedro, Tiago e João sobem o monte da Transfiguração com Jesus, mas não alcançam as alturas espirituais da intimidade com Deus. Jesus acabara de falar a respeito da cruz e agora revela a glória. O caminho da glória passa pela cruz [6].

Apesar dos discípulos estarem diante da revelação da glória de Cristo, o entendimento deles ainda estava confuso. O coração deles ainda estava fechado para discernirem tamanha revelação. O que ocorreu com esses homens no monte da transfiguração tem ocorrido com muitos cristão hoje. Muitas pessoas andam com Jesus, mas inda não discerniram a sua glória, nem o real motivo de sua vinda. Ainda tem o entendimento confuso do que seja servir a Cristo.

Quais as lições que podemos tirar desse fato aqui:

1º - Enquanto Jesus orava os discípulos dormiam (Lc 9.29,32). Enquanto Jesus buscava a comunhão com o Pai, os discípulos dormiam o sono do descaso. Por isso que o apóstolo Paulo nos diz em Ef 5.14-17: “Por isso diz: Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te esclarecerá. Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, mas como sábios, Remindo o tempo; porquanto os dias são maus. Por isso não sejais insensatos, mas entendei qual seja a vontade do Senhor”.

Enquanto orava, de repente o rosto de Jesus “resplandeceu como o sol” (Mt 17.2). O brilho afetou até mesmo sua roupa, de modo que “se tomou branca como a luz” (Mt 17.2); “de um branco resplandecente, como nenhum lavandeiro no mundo seria capaz de branqueá-las” (Mc 9.3, NVI) [7]. A glória de Deus se manifestando diante deles e, no entanto, eles estavam dormindo. Não tem sido diferente hoje, quantas vezes a graça e a misericórdia de Deus está sobre a pessoa e o indivíduo não tem o discernimento para perceber isso. Não discernem o tempo da visitação de Deus em suas vidas. Não discernem a glória revelada.   

É interessante observamos que somente Lucas destaca que foi enquanto Jesus estava orando que a Sua aparência se alterou. Existe uma sugestão de que a nossa transfiguração espiritual ocorre em nossos momentos de oração [8]. É quando oramos que entramos na sala do trono e nos prostramos na presença do Pai. É nesse momento que nossos olhos espirituais começam a se abrir para ver e entender os propósitos de Deus para nós. Como disse alguém: “Muita oração muito poder, pouca oração, pouco poder”.

A oração era o oxigénio da sua alma de Jesus. Todo o seu ministério foi regado de intensa e perseverante oração. Jesus está orando, mas em momento algum os discípulos estão orando com ele. Eles não sentem necessidade nem prazer na oração. Não têm sede de Deus. Estão no monte a reboque, por isso não se alimentam da mesma motivação de Jesus [9].

2º - Os discípulos experimentam grande êxtase, mas não tiveram discernimento espiritual (Lc 9.32-36). Os discípulos contemplaram quatro fatos milagrosos: a transfiguração do rosto de Jesus, a aparição em glória de Moisés e Elias, a nuvem luminosa que os envolveu, e a voz do céu que trovejava em seus ouvidos. Nenhuma assembleia na terra jamais foi tão esplendidamente representada: lá estava o Deus trino, além de Moisés e Elias, o maior legislador e o maior profeta. Lá estavam Pedro, Tiago e João, os apóstolos mais íntimos de Jesus; no entanto, embora envoltos num ambiente de milagres, faltou-lhes discernimento em quatro questões básicas [10].

Primeiro, eles não discerniram a centralidade da pessoa de Jesus (Lc 9.33). Os discípulos estão cheios de emoção, mas vazios de entendimento. Querem construir três tendas, dando a Moisés e a Elias a mesma importância de Jesus. Querem igualar Jesus aos representantes da Lei e dos profetas. Como o restante do povo, eles também estão confusos quanto à verdadeira identidade de Jesus (Lc 9.18,19). Não discerniram a divindade de Cristo. Andam com Cristo, mas não dão a glória devida ao seu nome (Lc 9.33). Onde Cristo não recebe a preeminência, a espiritualidade está fora de foco. Jesus é maior do que Moisés e Elias.

Moisés representava a Lei, e Elias, os Profetas. A implicação aqui é que o Antigo Testamento como um todo apontava em direção a Cristo e, especificamente, que tanto o Pentateuco quanto os Profetas predisseram a morte expiatória do Salvador. Este fato precioso foi mostrado através da tipologia e do simbolismo da Lei (por exemplo, dos sacrifícios), e das declarações dos profetas (por exemplo, Isaías 53) [11]. A Lei e os profetas apontavam para ele. Tanto a lei como os profetas, tiveram seu cumprimento em Cristo (Hb 1.1,2; 24.25-27).

O Pai corrigiu a teologia dos discípulos, dizendo-lhes: Este é o meu Filho, o meu eleito; a ele ouvi (Lc 9.34,35). Jesus não pode ser confundido com os homens, ainda que com os mais ilustres. Ele é Deus. Para ele, deve ser toda devoção. Nossa espiritualidade deve ser cristocêntrica. A presença de Moisés e Elias naquele monte, longe de empalidecer a divindade de Cristo, confirmava que de fato ele era o Messias apontado pela lei e pelos profetas.

Segundo, eles não discerniram a centralidade da missão de Jesus. Moisés e Elias apareceram para falar da iminente partida de Jesus para Jerusalém (Lc 9.30,31). A pauta daquela conversa era a cruz. A cruz é o centro do ministério de Cristo. Ele veio para morrer. Sua morte não foi um acidente, mas um decreto do Pai desde a eternidade. Jesus não morreu porque Judas o traiu por dinheiro, porque os sacerdotes o entregaram por inveja, nem porque Pilatos o condenou por covardia. Ele voluntariamente se entregou por suas ovelhas (Jo 10.11), por sua igreja (Ef 5.25).

Toda espiritualidade que desvia o foco da cruz é cega de discernimento espiritual. Satanás tentou desviar Jesus da cruz, suscitando Herodes para matá-lo. Depois, ofereceu-lhe um reino. Mais tarde, levantou uma multidão para fazê-lo rei. Em seguida, provocou Pedro para reprová-lo. Ainda quando estava suspenso na cruz, a voz do inferno vociferou na boca dos insolentes judeus: Desça da cruz, e creremos nele (Mt 27.42). Se Jesus descesse da cruz, nós desceríamos ao inferno. A morte de Jesus nos trouxe vida e libertação.

A palavra grega usada para “partida” (Lc 9.31) é exodus. A morte de Jesus Cristo abriu as portas da nossa prisão e nos trouxe libertação. A paixão de Jesus, na narrativa da transfiguração de Lucas 9.31, é descrita como um “êxodo”, uma óbvia alusão ao êxodo do Egito sob o comando de Moisés. Para Lucas, a libertação dos israelitas do Egito sob o comando de Moisés e a formação deles em uma nação são tipos da paixão de Jesus, por meio da qual ele libertou seu povo do poder do pecado e formou um novo povo na igreja. Elias também foi um libertador de Israel, embora tenha libertado da adoração aos falsos deuses de Baal, em vez de libertar de opressores estrangeiros (lRs 17-18) [12].

Hoje, há igrejas que aboliram dos púlpitos a mensagem da cruz. Pregam sobre prosperidade, curas e milagres. Mas esse não é o evangelho da cruz; é outro evangelho e deve ser anátema!

Terceiro, eles não discerniram a centralidade de seus próprios ministérios (Lc 9.33). Eles disseram: “Bom é estarmos aqui”. Eles queriam a espiritualidade da fuga, do êxtase, e não do enfrentamento. Queriam as visões arrebatadoras do monte, não os gemidos pungentes do vale. Mas é no vale que o ministério se desenvolve.

É mais cômodo cultivar a espiritualidade do êxtase e do conforto. E mais fácil estar no templo, perto de pessoas coi-guais, do que descer ao vale cheio de dor e opressão. Não queremos sair pelas ruas e becos. Não queremos entrar nos hospitais e cruzar os corredores entupidos de gente com esperança morta. Não queremos ver as pessoas encarquilhadas nas salas de quimioterapia. Evitamos olhar para as pessoas marcadas pelo câncer nas antecâmaras da radioterapia. Desviamos das pessoas caídas na sarjeta. Não queremos subir os morros semeados de barracos, onde a pobreza extrema fere a nossa sensibilidade. Não queremos visitar as prisões insalubres nem pôr os pés nos guetos encharcados de violência. Não queremos nos envolver com aqueles que vivem oprimidos pelo diabo nos bolsões da miséria ou encastelados nos luxuosos condomínios fechados. E fácil e cômodo fazer uma tenda no monte e viver uma espiritualidade escapista, fechada entre quatro paredes. Permanecer no monte é fuga, é omissão, é irresponsabilidade. A multidão aflita nos espera no vale!

Quarto, eles não discerniram a essência da adoração (Lc 9.34). Eles se encheram de medo, a ponto de caírem de bruços (Mt 17.5,6). A espiritualidade deles é marcada pela fobia do sagrado. Eles não encontram prazer na comunhão com Deus através da oração, por isso revelam medo de Deus. Veem Deus como uma ameaça. Eles se prostram não para adorar, mas para temer. Eles estavam aterrados (Mc 9.6). Pedro, o representante do grupo, não sabia o que dizia (Lc 9.33). Deus não é um fantasma cósmico. Ele é o Pai de amor. Jesus não alimentou a patologia espiritual dos discípulos; pelo contrário, mostrou sua improcedência: Aproximando-se deles, tocou-lhes Jesus, dizendo: Erguei-vos, e não temais (Mt 17.7). O medo de Deus revela uma espiritualidade rasa e sem discernimento.

CONCLUSÃO

Por mais maravilhosas que sejam essas experiências, não constituem a base de uma vida cristã sólida, que só se desenvolve pela Palavra de Deus. As experiências passam, mas a Palavra de Deus permanece sempre a mesma. Quanto mais nos afastamos desses acontecimentos, menos impacto exercem sobre nossa vida. Por isso o Pai disse: “A ele ouvi” e por isso Pedro colocou essa mesma ênfase sobre a Palavra em seu relato (2Pe 1.12-21). Nossa “transfiguração” pessoal vem da renovação interior (Rm 12.1,2), e esta, por sua vez, vem da Palavra (2Co 3.18) [13].

Pense nisso!

Bibliografia

1 – Wiersbe, Warren W. Marcos, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 268.

2 –Childers Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 405.

3 – Edwards, James R. O Comentário de Lucas, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2019, p. 365.

4 – Edwards, James R. O Comentário de Marcos, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2018, p. 333.

5 – Earle, Ralph. Comentário Bíblico Beacon, Marcos, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 122.

6 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 306.

7 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 1, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 670.

8 – Earle, Ralph. Comentário Bíblico Beacon, Marcos, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 122.

9 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 307.

10 – Ibidem, p. 307-310.

11 – Earle, Ralph. Comentário Bíblico Beacon, Marcos, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 122.

12 – Edwards, James R. O Comentário de Marcos, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2018, p. 335.

13 – Wiersbe, Warren W. Marcos, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 269.