domingo, 18 de abril de 2021

JESUS TESTIFICA DE JOÃO BATISTA

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 7.24--35

INTRODUÇÃO

Aquilo que pensamos a respeito de nós mesmos ou que os outros pensam de nós não é tão importante quanto aquilo que Deus pensa. Jesus esperou até que os mensageiros [de João] tivessem partido e, então, elogiou João publicamente por seu ministério, revelando, ao mesmo tempo, o coração pecaminoso daqueles que rejeitavam o ministério de João [1].

João Batista, com frequência, testemunhou de Jesus; agora, Jesus testemunha de João [2]. Como disse J. C. Ryle, Jesus pleiteou a causa de seu amigo ausente utilizando um linguagem forte e ardente. Ordenou seus ouvintes a tirarem de sua mente as dúvidas a respeito desse homem piedoso [3].

Quando lemos as Escrituras, nós encontramos o Senhor testemunhando de algumas pessoas: Gideão o Senhor o chamou de “homem valoroso” (Jz 6.12); Daniel foi chamado de “homem muito amado” (Dn 10.11); João Batista “o maior profeta” (Lc 7.28); Herodes Jesus o chamou de “raposa” (Lc 13.32). Por isso mais uma vez repito: “Aquilo que pensamos a respeito de nós mesmos ou que os outros pensam de nós não é tão importante quanto aquilo que Deus pensa. De que maneira Jesus definiria você?

Sobre esse testemunho de Jesus a respeito de João que eu quero pensar com você.

1 – JOÃO UM HOMEM APROVADO POR JESUS (Lc 7.24-30).

Podemos destacar cinco características de João que o texto nos mostra.

1º - João Batista não era um homem que se curvava diante das adversidades (Lc 7.24). A cana a que Jesus se referia era comum nas margens dos rios do Oriente Próximo, incluindo as do Jordão, onde João batizou. Eles eram leves e flexíveis, acenando para trás e para frente com cada brisa. “Um caniço agitado pelo vento” sugere uma pessoa instável, levada em seu julgamento pelos ventos da opinião pública ou da desdita pessoal [4].

João Batista não era um caniço agitado pelo vento, que se curva diante das adversidades. Era um homem incomum e inabalável. Ele preferiu ir para a prisão com a consciência livre a ficar livre com a consciência prisioneira. Ele preferiu a morte à conivência com o pecado do rei Herodes. O martírio é preferível à apostasia! [5]. João Batista não era um homem de disposição instável, de conduta fraca e covarde.

Sua prisão por reprovar o rei Herodes mostrou que ele não tinha medo dos homens; e quanto à sua constância, apesar de parecer um pouco abalada pela mensagem que ele enviou, não foi prejudicada por ela. Pois sua fé em Cristo não podia deixar de permanecer inviolável, pois havia sido fundada em uma revelação específica e na descida visível do Espírito Santo, acompanhada por uma voz do céu, declarando que ele era o Filho de Deus.

Como nos fala Paulo em sua carta ao Efésios: “Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente” (Ef 4.14).

João Batista não era um caniço balançado pelo jogo do vento, mas sim um cedro sacudido pela tempestade [6]. Se alguma vez houve um homem com convicções inabaláveis, foi João Batista.

2º - João Batista não se deixou seduzir pelo poder e nem pelo luxo (Lc 7.25). João Batista não era um homem dos palácios, mas do deserto. Ele não se importava com os trajes finos dos palacianos. Todos sabiam que João usava uma roupa extremamente rústica - uma veste de pelos de camelo e um cinto de couro (Mt 3.4). Tanto que   a expressão “vestes delicadas” (malakos em grego), só usado em outras duas passagens do Novo Testamento em Mt 11.8 e em 1Co 6.9, conota “suavidade” ou até mesmo “efeminação” e pode ser um termo irônico. Contrasta a roupa áspera que o profeta realmente vestia. A expressão que se refere aos que estão “nos palácios reais” é uma alfinetada maliciosa no homem que matinha João Batista na prisão [7].

João Batista também não era uma celebridade que desfrutava a amizade de gente importante e os prazeres da riqueza [8]. João teve muitas oportunidades para jogar com a multidão e ganhar a aprovação das autoridades. Ele era uma figura tão poderosa e dominante que muitas pessoas pensavam que ele próprio poderia ser o Messias (Lc 3.15), no entanto, ele nunca se utilizou dessa popularidade para se promover e ser aceito por todos.

Diferentemente de alguns pastores que gostam dos holofotes e adoram andar com pessoas influentes. Andam com políticos de má índole, gente que tem o nome sujo por escândalos e desvio de verbas públicas. Esses pastores fazem questão de saírem em fotos com esse tipo de gente só para dizer que também são influentes. Gente assim envergonha o nome de João Batista que preferiu a prisão e a morte a apoiar o pecado de Herodes.     

Como falou o Reverendo Hernandes Dias Lopes: “João Batista era um homem insubornável. Ele não viveu bajulando os poderosos, tecendo-lhes elogios a despeito de seus pecados. Ao contrário, confrontou-os com firmeza granítica e robustez hercúlea. Ele não vendeu sua consciência para alcançar o favor do rei. Não buscou as glórias deste mundo para angariar favores efémeros, mas cumpriu cabal e fielmente o seu ministério” [9].

3º - João Batista, profeta e precursor do Messias (Lc 26,27). O povo reuniu-se no deserto para ver um profeta, uma vez que todos concordavam que havia séculos que um profeta verdadeiro não aparecia. Não é de admirar tamanha agitação. Jesus confirma o julgamento da multidão e o ultrapassa – João não era apenas um profeta, era mais que um profeta. Em que sentido? Neste: não só ele era como outros profetas do Antigo Testamento, um porta-voz direto de Deus para chamar a nação ao arrependimento, mas ele mesmo também foi o sujeito da profecia – aquele que, de acordo com a Escritura, anunciaria o Dia do Senhor (Lc 7.27) [10].

João Batista não era apenas um profeta, mas sim um profeta cujo ministério havia sido profetizado (Is 40.3 e Ml 3.1)! João Batista foi o último profeta do Antigo Testamento e, como mensageiro de Deus, teve o privilégio de apresentar o Messias a Israel [11].

A vida e o ministério de João Batista é a prova do que está escrito em Isaías 55.10,11: “Porque, assim como desce a chuva e a neve dos céus, e para lá não tornam, mas regam a terra, e a fazem produzir, e brotar, e dar semente ao semeador, e pão ao que come, assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei”.

4º - João Batista era uma pessoa ímpar no Reino de Deus (Lc 7.28). João Batista se destaca como primeiro entre todos os profetas por sua posição única no reino de Deus. Ele encerrou a antiga aliança e iniciou a nova. João merece ser chamado o maior entre todos os profetas, porque ele foi o enviado de quem falou Malaquias [12]. A partir de uma perspectiva terrena, o caráter e o chamado de João fez dele o maior homem nascido entre os homens. Em qualidades superiores como um ser humano, João era inigualável.

Mas fica uma pergunta: de que maneira o menor no reino de Deus é maior do que João? Em termos de posição, não de caráter nem de ministério. João foi arauto do Rei, anunciando o reino. Os cristãos de hoje são filhos do reino e amigos do Rei (Jo 15.15). O ministério de João constituiu um divisor de águas, tanto na história nacional de Israel quanto no plano redentor de Deus (Lc 16.16) [13].

Leon L. Morris diz que o menor no reino é maior, não por causa de quaisquer qualidades que venha a possuir, mas, sim, porque pertence ao tempo do cumprimento. Jesus não está subestimando a importância de João. Está colocando a membrezia do reino na sua perspectiva apropriada [14].

Essa declaração deve ser explicada à luz de Lc 10.23, 24: “Felizes sãos os olhos que veem o que vocês veem, pois eu lhes digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vocês estão vendo, mas não viram; e ouvir o que vocês estão ouvindo, mas não ouviram”. (NVI) O menor no reino era maior que João no sentido de ser mais altamente privilegiado, porque o João encarcerado não estava em contato tão estreito com Jesus como estava o menor dentre eles [15].

5º - João Batista pregou com ousadia a vinda do Reino de Deus (Lc 7.29,30, Mt 3.1,2). Muitos do povo em geral ouviram a mensagem de João, aceitaram-na e foram batizados por ele como prova de seu arrependimento. Assim, “reconheceram a justiça de Deus”, ou seja, concordaram com aquilo que Deus havia dito sobre eles (SI 51.4). Os líderes religiosos, porém, se justificaram a si mesmos (Lc 16.15) sem reconhecer a justiça de Deus e rejeitaram João e sua mensagem [16].

O que ocorreu no tempo de João Batista continua ocorrendo nos dias de hoje. O homem continua o mesmo, pois somos feitos do mesmo barro de Adão. Muitos por orgulho, por se verem independentes e autossuficientes rejeitam a Deus. Mas os humildes que olham para dentro de si e se veem dependentes de Deus, a estes o Senhor se revela. Como escreveu Paulo: “Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes; e Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são; para que nenhuma carne se glorie perante ele” (1Co 1.27-29).

2 – UMA DURA CRÍTICA AOS QUE REJEITAM OS MENSAGEIROS DE DEUS (Lc 7.31-35).

A parábola das crianças teimosas com certeza consideram de maneira especial os fariseus e escribas. Sua posição diante de João e Jesus assemelha-se à de crianças inconstantes ao brincar. Tocam a flauta, mas ninguém dança. Entoam um lamento fúnebre, porém ninguém golpeia o peito (Mt 11.17; Lc 7.32). Por meio dessa comparação Jesus afirma: seus contemporâneos são como as crianças mal-humoradas que criticam maldosamente tudo o que Deus realizou através de João e dele mesmo. No entanto, Deus enviou a essa geração João Batista e “o Filho do Homem”, como últimos emissários antes da catástrofe final. Por causa de seu modo de vida ascético, disseram de João Batista que ele teria um demônio. Jesus, que tinha uma conduta não-ascética, foi chamado glutão e beberrão, um amigo de coletores de impostos e pecadores (Lc 5.27-32; 15.1). A pregação de arrependimento de João não lhes servia, e a pregação do evangelho de Jesus tampouco lhes era simpática. Os contemporâneos daquela época eram tão inconstantes e travessos que reclamavam de tudo o que Deus fazia por eles [17].

Com isso em mente podemos destacar duas coisas:

1º - A infantilidade religiosa continua hoje. Muitas pessoas hoje estão agindo como os fariseus e escribas da Lei da época de Jesus; nunca estão satisfeitos com o agir de Deus em suas vidas e na História. Por mais que o Senhor faça e se revele, para tais pessoas nunca é o suficiente. Por isso Jesus comparou aquela geração com pessoas imaturas (crianças), que não se contentavam com coisa alguma. A infantilidade religiosa perdura até hoje. A sociedade se modernizou, mas o ser humano é o mesmo. E diante da pandemia que temos enfrentado nós temos visto isso de forma ainda mais clara.

Observe que quando as crianças brincam, elas frequentemente imitam o comportamento dos adultos. Aparentemente, as crianças nos dias de Jesus, muitas vezes brincavam de duas coisas que refletiam os acontecimentos mais significativos na vida social judaica: casamentos e funerais. Assim era João Batista e Jesus. João simbolizava o funeral, a antiga Lei e Jesus a festa de casamento, representando a graça.

João pregava uma mensagem severa de julgamento, e eles diziam: “Tem demônio!”. Jesus misturava-se com o povo e pregava uma mensagem de salvação repleta de graça, e eles diziam: “Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores!”; ou seja, não queriam nem o funeral nem o casamento, pois nada lhes agradava [18].

Vivemos hoje dias tão difíceis que até para Jesus operar um milagre é algo complicado. Antigamente Jesus multiplicava pão e peixe, hoje vivemos uma geração (dentro da igreja e na sociedade), que, ou não comem uma coisa ou não comem a outra, ou nenhuma as duas coisas; mas reclamam porque não existem mais milagres hoje!

2º - Os sábios, porém, não se deixam desanimar. A sabedoria é justificada por todos os seus filhos. O verbo justificada quer dizer “declarada justa” ou “demonstrada como sendo justa” ou “aceita como justa”. Aqueles que são realmente sábios (os filhos da sabedoria), pronunciarão justo o caminho justo, seja ele ascético ou social. Verão a sabedoria de Deus tanto em João quanto em Jesus. Não andarão nos caminhos críticos dos homens que nunca se deixam contentar [19].

Quem quer evitar encarar a verdade sobre si mesmo sempre encontra algum defeito no pastor. Essa é uma forma de “justificar-se”. Mas a sabedoria de Deus não é frustrada por argumentos de “sábios e prudentes”. Antes, é demonstrada na vida transformada dos que creem. Somente assim a verdadeira sabedoria é “justificada” [20].

João e Jesus tinham cada um uma missão distinta a cumprir. Cada um tinha sua tarefa. Jesus, que pessoalmente era e é a “sabedoria de Deus” (1Co 1.30), levou a bom termo sua tarefa de forma perfeita; João a cumpriu em grande medida de forma excelente. Então, os filhos da sabedoria são todos os que foram suficientemente sábios a ponto de levar a sério e sinceramente a mensagem de João e a de Jesus [21].

CONCLUSÃO

O maior testemunho que uma pessoa pode ter não é a que vem do si mesmos e nem dos outros, mas de Deus. João Batista foi esse homem que recebeu de Jesus o maior dos elogios. Mas aí fica a pergunta: como o Senhor tem visto você? O que Ele pode falar a seu respeito? Você alguma vez já pensou a esse respeito?

Pense nisso!  

Bibliografia

1 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 255.

2 – Carson, D. A. O Comentário de Mateus, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2011, p. 313.

3 – Ryle, J. C. Meditação no Evangelho de Lucas, Ed. Fiel, São José dos Campos, SP, 2002, p. 109.

4 – Carson, D. A. O Comentário de Mateus, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2011, p. 313.

5 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 215.

6 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Mateus, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 125.

7 – Carson, D. A. O Comentário de Mateus, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2011, p. 313, 314.

8 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 255.

9 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 216.

10 – Carson, D. A. O Comentário de Mateus, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2011, p. 314.

11 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 255.

12 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Mateus, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 126.

13 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 255.

14 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 136.

15 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 1, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 533.

16 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 255.

17 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005, p. 116.

18 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 255.

19 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 138.

20 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 255.

21 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 1, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 537.

domingo, 11 de abril de 2021

QUANDO DEUS NÃO ATENDE AS NOSSAS EXPECTATIVAS

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 7.18-23

INTRODUÇÃO

No momento em que Jesus começou a ministrar na Galileia, João Batista havia sido preso por Herodes por denunciar casamento adúltero do rei com a mulher do seu irmão (Mt 14.3-4). João já havia anunciado que Jesus era o Messias, se dirigiu a Ele como o Cordeiro de Deus (Jo 1.29), o batizou no rio Jordão, e declarou com humildade que “Convém que ele cresça e que eu diminua” (Jo 3.30). Ele já tinha reconhecido Jesus como o Cristo e confiara nele como seu próprio Senhor e Salvador (Jo 3.36). Mas agora João Batista está preso. O ministério de Jesus cresce, enquanto João Batista é esquecido na prisão. Os milagres de Jesus são notórios, enquanto o seu precursor vive na escuridão lôbrega do cárcere. As multidões fluem a Jesus e recebem seus milagres, enquanto João amarga o ostracismo de uma prisão imunda [1]. João parece estar perplexo diante do que tem ouvido a respeito de Jesus e então ele manda dois de seus discípulos perguntar-lhe: “És tu aquele que havia de vir, ou esperamos outro?”.

Esse é um daqueles textos que têm algumas interpretações.

Há os que defendem que João Batista teve um momento em seu ministério que duvidou de que Jesus era o Messias. João está preso já acerca de um ano na prisão de Maquerós, a leste do mar Morto, e aquele que ele apresentara como o Noivo e o Messias do Senhor, nada fazia para libertá-lo do cárcere. Nem uma visita havia lhe feito nesse período de encarceramento. Os defensores desse ponto-de-vista argumentam que João passou por uma grande crise pois João esperava que o Messias estivesse agindo com rigorosa justiça no seu ministério contra os gentios, e no entanto, ele havia curado o servo de um centurião romano. Por isso que a resposta que o Senhor manda dar a João era para renovar a sua fé.

Outros argumentam que a atitude de João fora pedagógica. João não alimentava dúvidas nem decepção alguma em relação a Jesus, não que João não pudesse cair em dúvidas, mas não era essa a questão aqui. Quem defende essa opinião diz que João sabia que seu ministério estava por terminar, então João envia dois de seus discípulos para lhes fortalecer a fé no Messias Jesus. Tanto que a resposta de Jesus aos discípulos de João são citações diretas do livro do profeta Isaías (Is 29.18; 35.5,6; 42.18; 26.19; 61.1).

O argumento que defendo é que João não duvidou que Jesus era o Messias prometido. Creio que tal pensamento não lhe ocorreu. Quando lemos os Evangelhos e principalmente o Evangelho de João 1.19-34 isso não nos deixa dúvida. Creio que o que estava por trás da pergunta de João era decepção e não dúvida. Creio que as suas expectativas em relação a Jesus foram frustradas na forma como o Senhor estava agindo. Mas ao mesmo tempo João foi pedagógico com seus discípulos, para não permitir que essa mesma decepção os atingisse também. Por isso João envia dois de seus discípulos a Jesus. A resposta de Jesus foi um renovo para João e um fortalecimento na fé dos seus discípulos. João sabia que seu ministério estava por terminar, mas ele não queria deixar os seus discípulos órfãos. Tanto que ele falou em João 3.30,36: “É necessário que ele cresça e que eu diminua. Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece”.   

Eu quero pensar com você a partir dessa perspectiva da decepção de João Batista e como podemos lidar quando essas decepções também nos atingem.

1 – JOÃO ERA HOMEM SEMELHANTE A NÓS (Lc 7.18,19).

João estava na prisão havia alguns meses (Lc 3.19,20), mas seus discípulos o mantinham informado do que Jesus estava fazendo. Deve ter sido difícil a um homem acostumado à vida no deserto ficar confinado à prisão. A pressão física e emocional certamente era enorme, e os longos dias de espera não facilitavam as coisas. Os líderes judeus não tomaram atitude alguma a fim de interceder por João, e, ao que parecia, nem mesmo Jesus se preocupava com ele. Se Cristo veio mesmo para libertar os cativos (Lc 4.18), João Batista era um candidato! [2].

João, embora figura única na história bíblica, não era um super-homem. Estava sujeito, como todos os seres humanos, à depressão e à decepção [3]. Não é incomum grandes líderes espirituais terem seus dias de dúvida e de incredulidade. Moisés quase desistiu certa ocasião (Nm 11.10-15), assim como também Elias (1 Rs 19) e Jeremias (Jr 20.7-9, 14-18); até Paulo sabia o que era sentir desespero (2Co 1.8,9) [4].

Com isso em mente, podemos destacar três coisas:

1º - Ninguém está livre de passar por crises de depressão e decepção em relação a Deus. Quando um crente mantêm-se fiel ao Senhor e procura servi-lo com empenho ao longo dos anos e, de repente, experimenta a tragédia em sua vida, talvez até mesmo uma série de tragédias, é difícil não se perguntar sobre o amor e a justiça de Deus.

No Salmo 73 nós encontramos Asafe passando por essa crise. Veja o que ele fala nos versos 13,14: “Na verdade que em vão tenho purificado o meu coração; e lavei as minhas mãos na inocência. Pois todo o dia tenho sido afligido, e castigado cada manhã”.

Asafe não era apenas um levita, mas era também profeta (2Cr 29.30), no entanto, ele passou por tamanha crise que deixou registrado nas Escrituras em forma de canção.

Quando lemos a carta aos Hebreus, vemos que o autor lembra aos seus leitores das lutas que eles passaram a enfrentar quando foram iluminados pelo Senhor:

“Lembrai-vos, porém, dos dias passados, em que, depois de serdes iluminados, suportastes grande combate de aflições. Em parte fostes feitos espetáculo com vitupérios e tribulações, e em parte fostes participantes com os que assim foram tratados. Porque também vos compadecestes das minhas prisões, e com alegria permitistes o roubo dos vossos bens, sabendo que em vós mesmos tendes nos céus uma possessão melhor e permanente” (Hb 10.32-34).

A questão não é passar por esse tipo de crise, a questão é enfrentá-la sem perder a esperança e a fé. Como disse Wiersbe: Há uma diferença entre dúvida e incredulidade. A dúvida diz respeito à mente: não conseguimos entender o que Deus está fazendo nem seus motivos para fazê-lo. A incredulidade diz respeito à vontade: nós nos recusamos a crer na Palavra de Deus e a obedecer ao que nos ordena” [5]. Nisso devemos vigiar.

2º - Passar por esses questionamentos não é pecado. A pergunta de João não era resultado de incredulidade, mas de dúvida alimentada por pressão física e emocional. Questionar o agir de Deus em relação a certas situações que enfrentamos não é pecado. Pecado é negar a fé por estar enfrentado alguma crise.

Jó passou por uma grande crise, no entanto ele não pecou (Jó 1,2). Leia o Salmo 88, nele nós encontramos um homem enfrentando uma grande crise por estar doente e abandonado pelos amigos. Mas este homem está orando: “SENHOR Deus da minha salvação, diante de ti tenho clamado de dia e de noite” (Sl 88.1). Ele não perdeu a fé, apesar da crise que está enfrentando.

Podemos passar por muitas crises e questionarmos a Deus o porquê delas. O que muitas vezes ocorre é que muitas pessoas blasfemam diante da crise. Negam o nome do Senhor. Falam as coisas mais absurdas a Seu respeito. Nisso devemos vigiar.

3º - O Senhor nos ajuda em nossas crises (Lc 7.21-23). O Senhor não deixou João sem uma resposta à sua pergunta. Talvez a resposta não seja a que João gostaria de ter recebido, mas nem por isso Jesus deixou de responde-lo.

Observe que na resposta de Jesus trouxe à tona as obras que estava realizando, obras essas claramente ligadas a ação do Messias no mundo, profetizadas no Antigo Testamento (Por exemplo, em Isaías 35.5-6). O que Jesus quis mostrar a João Batista é que a agenda de Deus estava sendo cumprida. Apesar de não estar sendo feita como João desejava ou esperava, Deus estava agindo conforme Sua vontade soberana. João deveria estar atento a isso!

A resposta de Jesus não tirou João da prisão física, mas com certeza, o libertou da prisão da decepção. Foi isso que ocorreu também com o apóstolo Paulo.

O apóstolo Paulo orou três vezes para ser liberto de um espinho na carne. No entanto, o apóstolo não teve da parte do Senhor o livramento que esperava, mas mesmo assim, ele teve a resposta que precisava ter. Veja o que ele nos fala a esse respeito:

“E, para que não me exaltasse pela excelência das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de não me exaltar. Acerca do qual três vezes orei ao Senhor para que se desviasse de mim. E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo. Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte” (2Co 12.7-10).

Diante da resposta do Senhor o apóstolo se conformou e se alegrou no Senhor, apesar da crise continuar. Creio que com João Batista não tenha sido diferente.  

2 – COMO CONCILIAR A GRAÇA E A MISERICÓRDIA DE JESUS COM O SOFRIMENTO (Lc 7.20-23).

Talvez os pensamentos e perguntas de João naquela solidão fossem os seguintes: Se realmente for verdade o que meus discípulos informam sobre ressurreições e maravilhosas curas de enfermos, isso é algo grandioso. Mas então, por que não brilha uma luz na minha cela escura? Se for verdade que o Mestre disse de si: “Vim para apregoar aos cativos a libertação” (Lc 4.18), se isso realmente for verdade, por que o Senhor não liberta o seu servo, que já está há tanto tempo apodrecendo na prisão? O servo espera, mas nada acontece. O Mestre nem mesmo lhe faz uma visita. Parece que Jesus nem se importa com o seu servo e arauto. Para um coração humano isso evidentemente é incompreensível. Aonde isso vai levar? A quem devo me dirigir na minha angústia? Assim o Batista preso talvez esteja cismando e lutando. Não consegue livrar-se das perguntas e dos anseios de seu coração. Um único pensamento o detém sem cessar: Que há com esse Jesus? Não devia ele tomar a pá e fazer uma limpeza, em especial diante da revoltante injustiça desse Herodes, a quem ele (João) havia dito a verdade de modo tão claro e insofismável? [6].

Jesus cura enfermos e ressuscita mortos, mas onde está Jesus que não vem ao encontro do seu profeta para libertá-lo? Esse é, também, o nosso drama. Como conciliar o poder de Jesus com as angústias que sofremos? Como conciliar o poder de Jesus com a inversão de valores da sociedade: Herodes no trono e João Batista na cadeia? Como conciliar o poder de Jesus numa época em que uma jovem fútil, uma mulher adúltera e um rei bêbado podem atentar contra a vida do maior homem, do maior profeta, sem nenhuma intervenção do céu? [7].

Creio que para essas perguntas temos três respostas.

1º - Muitos dos questionamentos que temos é porque criamos falsas expectativa em relação a Jesus. João não teve dúvidas de que Jesus era o Messias, mas ele provavelmente esperava que o Senhor agisse com mais rigor em seu ministério. De acordo com João, Jesus tinha vindo para peneirar a colheita. Ele recolheria os grãos e queimaria a palha com fogo que não se apagava (Lc 3.16,17). Em vez disso, Jesus estava percorrendo os montes da Galileia, pregando o evangelho e curando os enfermos. O machado tinha sido afiado e o fogo estava aceso (Mt 3.10), mas parece que Jesus não se interessara por eles.

Essa é a crise que muitas vezes enfrentamos também. Esperamos o agir de Deus segundo a nossa vontade e não segundo a vontade dele. Sabemos o que queremos e assim colocamos isso na boca de Deus. Deixamos nossos desejos governar nossas expectativas. Por isso ficamos frustrados.

Foi esse mesmo sentimento que enchia o coração dos discípulos no caminho de Emaús quando falavam a respeito das expectativas que tinham a respeito de Jesus, como lemos em Lucas 24.21: “E nós esperávamos que fosse ele o que remisse Israel; mas agora, sobre tudo isso, é já hoje o terceiro dia desde que essas coisas aconteceram”. Eles esperavam um reino terreno e imediato, mas não foi isso que o Senhor veio realizar. Expectativas erradas traz grandes tristezas ao coração. Mas isso ocorreu por desconhecimento das Escrituras (Lc 24.25-27).

2º - Muitas vezes nossas orações são respondidas segundo a nossa vontade e passamos a crer que será sempre assim. Às vezes os objetivos que determinamos de fato vêm a ser conforme o que Deus pretende fazer. Quando isso acontece, ficamos muito animados, tão entusiasmados que estabelecemos mais objetivos para Deus. Porém, cedo ou tarde – e com muita probabilidade acontecerá mais cedo que mais tarde – o que Deus realiza é tão contrário às nossas expectativas que mal sabemos o que pensar.

- Oramos por cura, e o doente morre.

- O emprego que parece tão perfeito para nós vai para outra pessoa.

- A pessoa que seria a companhia ideal para toda a vida não corresponde aos nossos sentimentos.

Diante disso, ficamos profundamente transtornados não apenas porque Deus não fez o que queríamos que ele fizesse, nem sequer porque não fez o que esperávamos que fizesse. Ficamos assombrados por Deus não ter feito o que sabemos em nosso íntimo que ele devia ter feito [8]. Aí entramos em crise!

3º - Ficamos decepcionados com Jesus porque não vemos o que ele está realmente fazendo (Lc 7.21,22). Observe que a resposta de Jesus aos discípulos de João não consistiu somente em palavras, mas em ação. Ele mostrou várias coisas que Ele estava realizando. Mostrando para os discípulos de João e respondendo ao próprio João que a Palavra de Deus estava se cumprindo, ainda que ele João, não estivesse vendo.

Três verdades devem ser aqui destacadas na resposta de Jesus a João Batista [9]:

1 – Jesus dá provas de que ele é o Messias (7.21). Esses sinais seriam operados pelo Messias que havia de vir (Is 29.18,19; 35.4-6; 42.1-7). Não era, portanto, necessário esperar outro Messias, pois o Jesus histórico é o Messias de Deus!

2 – Jesus prega aos ouvidos e aos olhos (7.22). Jesus fala e faz, prega e demonstra, revela conhecimento e também poder. Jesus prega aos ouvidos e aos olhos. A mensagem de Jesus a João tem três ênfases, como vemos a seguir.

Primeiro, a mensagem de Jesus mostra que o reino de Deus abre as portas para que os rejeitados sejam aceitos. Ninguém era mais discriminado na sociedade do que os cegos, os coxos, os leprosos e os surdos. Eles não tinham valor. Eram feridas cancerosas da sociedade. Eram excesso de bagagem à beira da estrada. Mas a estes que a sociedade chamava de escória, Jesus valorizou, restaurou, reciclou, curou, levantou e devolveu a dignidade da vida. Jesus manda dizer a João que o reino que ele está implantando não tem os mesmos valores dos reinos deste mundo.

Segundo, a mensagem de Jesus mostra que no reino de Deus a sepultura não tem força e a morte não tem a última palavra. O problema do homem não é o tipo de morte que enfrenta agora, mas o tipo de ressurreição que terá no futuro. Se Jesus é o nosso Senhor, então a morte não tem mais poder sobre nós. Seu aguilhão foi arrancado. A morte foi vencida.

Terceiro, a mensagem de Jesus mostra que no reino de Deus há uma oferta gratuita de vida eterna. O reino de Deus é para o pobre, que se considera falido espiritualmente, não importa qual seja sua condição social. Enquanto João está pedindo a solução do temporário, Jesus está cuidando do eterno.  

Muitas vezes só achamos que o Senhor está realizando grandes coisas, quando essas “grandes coisas” acontecem conosco. Sabe porque isso acontece? É que partimos de um pressuposto errado. Jesus veio por nós, mas isso não significa que Ele veio para nos agradar. Jesus não veio para fazer os nossos caprichos. Embora essa tem sido a mensagem pregada em muitos púlpitos por aí.

Jesus veio por nossa causa, mas Ele não responde a nós. Jesus veio por nós, mas Ele não se sujeita aos nossos planos, por melhor que eles sejam. Pelo contrário, Jesus exige que nos sujeitemos aos planos dele.

Eu sou barro e Ele o oleiro. O problema é que o barro quer debater com o Oleiro o que Ele está fazendo.

Veja o que a Bíblia nos fala a respeito disso:

“Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” (Rm 9.20,21).

“A palavra do SENHOR, que veio a Jeremias, dizendo: Levanta-te, e desce à casa do oleiro, e lá te farei ouvir as minhas palavras. E desci à casa do oleiro, e eis que ele estava fazendo a sua obra sobre as rodas, Como o vaso, que ele fazia de barro, quebrou-se na mão do oleiro, tornou a fazer dele outro vaso, conforme o que pareceu bem aos olhos do oleiro fazer. Então veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? diz o Senhor. Eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel” (Jr 18.1-6).

Lembrem-se: somos barro e o Oleiro Jesus sabe o que faz!

3 – O SENHOR RECRIMINA JOÃO POR SUA DÚVIDA E DECEPÇÃO (Lc 7.23).

Jesus mostra aqui que João estava caindo em uma armadilha. O termo σκανδαλίζω (escândalo) é a isca numa armadilha ou laço. É o espeque que arma a armadilha; daí, laço, tentação para o pecado, sedução (Mt 18.7; Lc 17.1); também, objeto de repulsa, o escândalo da cruz (1Co 1.23; Gl 5.11). Semelhantemente, o verbo basicamente significa cair no laço, induzir ao pecado, desviar-se (Mt 5.29; 18.6; etc.). No passivo, pode significar ser repelido por (Mt 11.6; Me 6.3; e aqui em Lc 7.23) [10].

O verbo escandalizar se referia originalmente ao graveto usado como pinguela em armadilhas. Por causa de sua preocupação com aquilo que Jesus não estava fazendo, João corria o risco de cair numa armadilha. Estava tropeçando sobre seu Senhor e o ministério dele. Jesus lhe disse gentilmente para ter fé, pois seu Senhor sabia o que estava fazendo.

Hoje em dia, muita gente critica a Igreja por não “mudar o mundo” e resolver os problemas econômicos, políticos e sociais. No entanto, os críticos esquecem que Deus muda seu mundo ao transformar indivíduos. A história mostra que muitas das grandes iniciativas humanitárias partiram da Igreja, mas sua tarefa principal é outra: levar os pecadores ao Salvador. Todo o resto é resultado desse objetivo central. Proclamar o evangelho deve ser sempre a maior prioridade da Igreja [11].

CONCLUSÃO

Assim como João Batista, muitas vezes nós ficamos frustrados com o agir de Deus. Ficamos assim porque esperamos que Ele aja de acordo com a nossa vontade, segundo a nossa interpretação das coisas. Tudo isso ocorre porque olhamos para o efêmero e não para a eternidade. Muitas vezes somos tão egoístas que queremos o agir de Deus em nossas vidas e não nos importamos com os outros. Achamos que por sermos servos do Senhor, Ele irá agir sempre a nosso favor segundo a nossa vontade.

Mas não isso não será sempre assim. Jesus deixou claro aos seus discípulos quando disse: “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, me odiou a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia. Lembrai-vos da palavra que vos disse: Não é o servo maior do que o seu senhor. Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa” (Jo 15.18-20).

O que podemos esperar então neste mundo? Quantos irmãos nossos estão sofrendo perseguições, torturas e mortes. Isso ocorreu no início da Igreja, isso ocorreu durante a história e isso tem ocorrido hoje. Então viva a para Cristo firmado em Suas promessas, mas não se iluda que a vida cristã é uma colônia de férias. Nem todos sofrerão torturas e mortes, mas todo aquele que quiser viver piedosamente em Cristo Jesus sofrerá perseguição. Lembre-se disso. E que Deus o abençoe!

Pense nisso!

Bibliografia:

1 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 210.

2 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 254. 

3 –Tasker, R. V. G. Mateus, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, 1985, p. 90,91.

4 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 254.

5 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 254.

6 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Mateus, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 123.

7 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 212.

8 – Koessler, John. A Surpreendente Graça nas Decepções, Ed. Vida Nova, São Paulo, SP, 2019, p. 56.

9 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 214, 215.

10 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 1, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 540.

11 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 254, 255. 

domingo, 4 de abril de 2021

JESUS RESSUSCITA O FILHO DE UMA VIÚVA

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 7.11-17

INTRODUÇÃO

O capítulo sete de Lucas começa nos dizendo que Jesus estava na cidade de Cafarnaum, onde curou o servo de um oficial romano. No outro dia, nós vemos Jesus dirigindo-se para a cidade de Naim e com Ele numerosa multidão. Naim ficava cerca de 38 km de Cafarnaum. Esse percurso era de pelo menos um dia de viagem e, no entanto, Jesus foi até lá sem ninguém ter pedido que o fizesse. Uma vez que os judeus sepultavam seus mortos no mesmo dia em que faleciam (Dt 21.23; At 5.5-10), é bem provável que Jesus e seus discípulos tenham chegado às portas da cidade no final do dia em que o menino faleceu [1].

CIDADE DE NAIM - Naim, que em hebraico significa a “bela”, “a graciosa”, era uma aldeia construída próximo ao Hermom, a sudoeste de Nazaré. Naim está situada na região de Suném, onde Eliseu ressuscitou o filho da Sunamita (2Rs 4.8-37).

Este episódio só é descrito no Evangelho de Lucas. Esta é uma das três ocasiões em que nosso Senhor ressuscitou um morto. O filho da viúva de Naim, a ressurreição da filha de Jairo (Mt 9.18-26, Mc 5.21-43 e Lc 8.40-56), e a ressurreição de Lázaro (Jo 11.1-46). Somente estas três ressurreições são descritas no ministério de Jesus, embora haja clara evidência de que outras pessoas, não informadas nos evangelhos, tenham sido ressuscitadas (Lc 7.22).

É na entrada desta cidade que algo maravilhoso acontece. Podemos dizer que foi um incidente notável o encontro entre as duas multidões às portas de Naim. Pelos olhos espirituais podemos ver a morte montada em seu cavalo amarelo (Ap 6.7,8); e como disse Spurgeon: A morte leva seus despojos até o túmulo” [2]. De repente, o cortejo fúnebre se depara com uma multidão que acompanhava Jesus e seus discípulos. Diz-nos o texto que o Senhor Jesus olha para aquela pobre viúva e se compadece dela. Não foi a viúva que o viu e correu ao seu encontro e pediu que o Senhor a abençoasse ressuscitando seu filho. Mas foi o Senhor quem a viu e foi ao seu encontro. Ele para o cortejo consola aquela mãe enlutada e ressuscita o seu jovem filho. Aquela mulher que estava condenada a terminar os seus dias sozinha, sem descendente, de repente é surpreendida com a bênção inesperada.

A participação de um cortejo era uma “obra de misericórdia”. A participação nos procedimentos fúnebres não era apenas uma expectativa social, mas uma exigência rabínica. Na Galileia, era costume os homens caminharem na frente do morto e as mulheres atrás dele, com pranteadores e músicos com instrumentistas contratados produzindo seu gênero respectivo [3].

Lucas não menciona esses pranteadores profissionais, mas decerto estavam ali, pois até os mais pobres em Israel costumavam alugar pelo menos dois flautistas e uma carpideira nessas ocasiões. O principal objetivo destas era levar os partícipes ao choro e lamento, mesmo que o defunto não merecesse.

O que podemos aprender com esse texto? Que lições ele nos tem a dar?

1 – SEMPRE HAVERÁ DUAS MULTIDÕES: UMA ACOMPANHANDO  O SENHOR DA MORTE E A OUTRA ACOMPANHANDO O SENHOR DA VIDA (Lc 7.11,12).

Este texto nos coloca diante de duas multidões que se encontram na porta da cidade de Naim. A primeira estava feliz, cheia de emoção e alegria, já a segunda estava infeliz.

A multidão que acompanhava Jesus estava feliz, pois acompanhava o Senhor da Vida, a multidão que saía da cidade de Naim estava infeliz porque acompanhava um féretro onde se encontra um jovem.

Assim como esta multidão que saía da cidade de Naim, existem muitas pessoas hoje caminhando a passos largos para o cemitério. Eles tinham como ponto de referência um rapaz morto. Eles contemplavam um defunto e procuravam consolar a sua triste mãe. Eles tinham como referência a morte e uma mãe enlutada. Estavam caminhando para o cemitério em direção a um túmulo. O ponto de referência daquela multidão estava morto.

Muitas pessoas têm como referencial de vida a morte. E quem tem como referencial em sua vida a morte, vive uma vida infeliz, pois a morte traz profunda tristeza. Tanto que o Senhor Jesus diz para aquela mãe: “Não chores”.

O mais triste da morte não é a mote física, mas a morte espiritual. É saber que no fim da vida a pessoa continuará morta, vivenciando a morte eterna.

Spurgeon comentando sobre esse texto destaca três pontos importantes [4].

1º - Os espiritualmente mortos provocam grande tristeza aos que estão embaixo da graça de Cristo. Muitas pessoas que estão debaixo da graça, que foram alcançadas por Jesus vivem enlutadas por ainda não verem sua casa alcançada pela ressurreição. Assim como aquela mãe não podia ter mais comunhão com seu filho, pois falecera, muitas mães hoje estão sem comunhão com seus filhos queridos porque eles estão espiritualmente mortos.  

Quantas mães estão chorando por seus filhos que vivem no vale da sombra e da morte (Sl 23.4). Quantas esposas estão chorando por seus maridos espiritualmente mortos. Quantas pessoas enlutadas por causa da morte espiritual de seus entes queridos. Quantas mães servindo refeição a filhos mortos. Quantas esposas deitadas ao lado de maridos mortos. A Bíblia nos fala em 1Jo 5.19 nos diz: “Sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro jaz no Maligno. O termo jaz dá a ideia de estar sob o domínio, de estar morto (Ef 2.1-3).  

2º -  Ficamos enlutados por causa do futuro dos espiritualmente mortos. Assim como uma pessoa morta precisa ser enterrada por causa da corrupção da carne, assim também ocorre com os mortos espirituais. Eles também estão em estado de decomposição. O pecado decompõe a alma, faz com que ela cheire mal nas narinas do nosso Deus. 

Apesar de não crermos em zumbis, vivemos num mundo cheio de mortos-vivos. Eles vivem ao nosso redor, estão entre nós; eles se casam, têm filhos, amam, lutam, odeiam, tiram férias, frequentam igreja... Estamos literalmente cercados por mortos-vivos.

Nós não só estamos entre eles, como de fato éramos um deles. Paulo diz: “E vos vivificou, estando vós mortos em delitos e pecados” - Efésios 2.1 – A palavra usada significa literalmente cadáver. Paulo está dizendo que cada membro da igreja em Éfeso antes era completamente desprovido de vida espiritual. Ele está dizendo que pecadores perdidos são completamente incapazes e também indispostos de chegar a Deus por iniciativa própria.

Para nós cristãos esta é uma dura realidade. Vivemos em um mundo que jaz no maligno – que está morto no maligno. Mas nem todos têm consciência dessa dura realidade. Que possamos despertar para esse fato.

3º - Ficamos enlutados porque perdemos a possibilidade de comunhão com eles. Todos nós sabemos o que morte física significa. Uma pessoa morta é incapaz de responder a qualquer estímulo. Quando a pessoa morre seu corpo é reduzido a um vazio infinito, todo estímulo é fútil, não há capacidade de ouvir, falar, pensar. Os toques que antes tanto emocionavam já não produzem nada, as vozes familiares ao ouvido caem agora num mundo de silêncio impenetrável. O corpo que foi cheio de vida agora não passa de uma concha vazia. Todas as famílias da terra já tiveram experiência com a morte, cada cidade tem cemitérios cheios de tristeza todos os dias.

Um homem morto perdeu toda a capacidade de responder ao mundo físico, e essa é a ilustração perfeita colocada por Paulo em Efésios 2.1 sobre os homens que não foram regenerados. Uma pessoa não regenerada não tem comunhão com Deus e não tem comunhão com os filhos de Deus.

Aquela mãe não podia ter mais comunhão com seu filho querido depois de morto, pois os mortos não sabem coisa alguma. Não sentem. Não interagem com ninguém. Assim é o homem natural. O homem natural está morto (1Co 2.14). Ele vive, se move, ri, busca prazer. Mas estão mortos espiritualmente. Não estão mortos para o mundo, mas estão mortos para Deus.

Os espiritualmente mortos não podem manter comunhão com Deus e não podem manter comunhão espiritual com os filhos de Deus. Podemos ter comunhão física e emocional, mas não comunhão espiritual. Isso é impossível. Essa é uma dura realidade que tem sido negligenciada em muitas igrejas. Há pessoas que pensam que basta ser boa para ir para o céu. Quem pensa assim está negligenciando o sacrifício de Cristo na cruz do calvário.

A morte espiritual é o oposto da vida eterna. Cristo em João 17.3 diz: “E a vida eterna é essa: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro...”. João repete a mesma verdade: “Aquele que tem o Filho tem a vida, e quem não tem o Filho de Deus não tem vida” – 1 João 5.12.

É interessante observar que os Evangelhos registram três ressurreições que o Senhor Jesus realizou: A filha de Jairo – esta acabara de morrer; o filho da viúva de Naim – este estava morto a vinte e quatro horas e Lázaro – que estava morto há quatro dias. A única diferença entre estes três mortos era o grau de decomposição. A filha de Jairo o corpo ainda estava quente, o filho da viúva de Naim o corpo estava entrando em estado de decomposição e Lázaro já cheirava mal, ou seja, estava em decomposição. No entanto, os três mortos o Senhor ressuscitou. Assim como o Senhor Jesus tem poder para ressuscitar o corpo, Ele também tem poder para ressuscitar os mortos espirituais.

Mas a multidão que acompanhava Jesus está alegre, pois estava acompanhando o Senhor da vida. Quem tem Jesus como referência ainda que esteja vivendo entre os mortos, crê que a ressurreição há de acontecer a qualquer momento. Nas horas menos esperadas o Senhor para o esquife e traz vida, pois Ele é o Senhor da vida. Esse texto nos enche dessa real esperança.

2 – AQUELE RAPAZ REPRESENTA TODA A ESPERANÇA QUE MUITOS DEPOSITAM NO FUTURO (Lc 7.12).

O fato de que o funeral se dirigia para fora da cidade não era um acontecimento fortuito, mas devia-se à circunstância de que os judeus não permitiam o sepultamento de seus mortos dentro da cidade (entre os vivos) – somente podiam ser enterrados fora dos muros de suas localidades [5]. A esperança de um futuro feliz morreu e estava sendo levado para fora da cidade. Seu filho, sua esperança, sua razão de um futuro melhor estava indo para a sepultura.

1º - Aquele garoto representava toda a esperança que ainda lhe restava. Além desta pobre mulher ser viúva, acabara de perder seu único filho. A morte lhe bateu a porta duas vezes e foi vitoriosa. Provavelmente este rapaz era a única fonte de sustento daquela velha mãe. A sua única esperança de sobrevivência – era muito comum naquela época, muitas viúvas sem filhos passarem necessidade e terem que partir para a mendicância.

Aquele menino foi a única coisa boa que lhe havia restado, que lhe dava razão para continuar vivendo. Que lhe dava sentido à vida.

Certamente ela sonhava com o casamento do seu filho, uma boa nora, alguns netos, uma velhice feliz ao lado de seu filho. Uma família próspera; mas agora tudo estava indo por terra abaixo, ou melhor, para o túmulo.

2º - Esse rapaz morto representa para muitas pessoas hoje um futuro tranquilo que morreu.  Este rapaz representa para muitas pessoas toda a esperança, todas as alegrias e investimentos que sucumbiram diante da morte, da falência, da perda.

 – Quantas pessoas casaram pensando que o casamento traria felicidade, e agora veem o casamento desmoronando, morrendo.

 – Outros colocam suas esperanças numa UTOPIA POLÍTICA, achando que o mundo melhorará a partir de um bom projeto político. No entanto, ele vê seu sonho indo de caos em caos.  

 – BERTRAND RUSSEL – matemático, filósofo e sociólogo, nascido em 1872 disse que a ciência dos nossos dias melhoraria até mesmo os GENES DOS HOMENS, de forma que iriam nascer mental e psicologicamente melhores. Mas o que vemos é o homossexualismo aumentando, os jovens nas drogas, a vida sendo destruída, morrendo. Sem falar das duas guerras mundiais que ocorreram e as guerras civis em muitos países. E hoje a guerra biológica que enfrentamos.

 – Há aqueles que perderam totalmente a esperança e por isso vivem infelizes - corações vazios – pessoas seguindo a morte. Gente vivendo num cemitério existencial.

ILUSTRAÇÃO

Certa noite, no ano de 1954, Billie Sicard demitiu-se da vida. Nenhum anúncio foi feito, nem documento oficial algum foi assinado. Mas, mesmo assim, ela demitiu-se. Billie decidiu não viver mais. Seu espírito morreu em 1954, seu corpo em 1979.

Naquela noite de 1954, a única razão para Billie viver deixou-a. Seu filho George, de 12 anos, morreu de um tumor cerebral. A vida do pequeno George prendeu Billie num vácuo. Ela tinha 34 anos quando ele nasceu. Depois que o marido a deixou, o filho tornou-se a sua vida. Quando ele morreu, a morte dele passou a ser a dela.

Ela era rica. Billie morava desde 1937 num bairro de luxo em Sunset Island. Sua casa foi vendida por 226.000 dólares depois que ela morreu. Tudo isso, porém, era imaterial para Billie. Sua vida era o filho.

Contam que quando George morreu num hospital na cidade de Nova Iorque, o corpo dele foi levado para o velório em sua casa. Depois de o corpo ter ficado exposto a visitação durante um dia na casa da Sra. Sicard, os responsáveis pela funerária foram removê-lo. Ela impediu que o retirassem. Durante vários dias ficou chorando por trás das portas fechadas, até que finalmente deu permissão para o sepultamento.

Gastar cem dólares em brinquedos para George não representava nada para Billie. Em 1979 quando o corpo dela foi encontrado, encontraram também os brinquedos, exatamente como ele os deixara. Nada tinha sido guardado, nada mudado de lugar.

Durante 25 anos, Billie vagou por uma casa cheia de brinquedos, com o coração cheio de memórias. Quando a casa foi vendida, o uniforme de escoteiro de George estava ainda pendurado no armário do pavimento térreo. Na parede se via um desenho infantil de um trenzinho desenhado com lápis vermelho. Ela jamais limpou. Os chinelos dele enfeitados com o Mickey Mouse, repousavam num canto do quarto.

Quando Billie demitiu-se da vida, tornou-se uma reclusa da sociedade. Seu jardim transformou-se em selva. Sua casa tornou-se uma fonte de história de fantasmas e boatos. Não se importava com nada.

Billie simplesmente aposentou-se. Sua vida representa um legado silencioso à humanidade:

“O HOMEM PRECISA POSSUIR ALGO MAIOR QUE A MORTE... CASO CONTRÁRIO, A MORTE PASSA POSSUÍ-LO”

Aquela pobre viúva e toda aquela multidão que a acompanhava estavam vivenciando a morte.

Se a nossa esperança está naquilo que pode morrer, corremos o risco de vivenciarmos a morte todo dia, mas se a nossa esperança está no Senhor da vida, ainda que vivenciemos a morte todos os dias, não a tememos, pois a morte já foi vencida, o Senhor a venceu por nós. Como nos fala Paulo em 1Co 15.55-57:

“Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória? Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. Mas graças a Deus que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo”.

3 – JESUS É O ÚNICO REFERENCIAL DA VIDA (Lc 7.13-15).

Assim como havia uma multidão enlutada, havia outra multidão alegre tendo como referencial o Senhor Jesus. O Senhor da vida, não de uma esperança fugaz, não só da vida comum, mas principalmente da vida eterna. Como Ele mesmo falou em Jo 10.10:Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”. Aquela multidão que acompanhava Jesus tinha uma única razão para estarem felizes, eles tinham esperança de vida eterna.

As contingências e circunstâncias eram idênticas para ambas, a multidão que acompanhava Jesus também morria, ficava doente, chorava, mas o que as diferenciavam era para quem estavam olhando (Mt 7.24,25). Ah queridos, em quem você está fitando seus olhos espirituais? Se for para o Senhor Jesus, você é um bem-aventurado, mas se estiver olhando para outra direção que triste sina é a sua vida. Como disse Paulo em 1Co 15.19: “Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens”.

Nas ruas de nossa cidade nós nos deparamos com pessoas caminhando para o cemitério umas abraçadas a morte eterna e outras mas indo céu, abraçadas a vida eterna. Gente rindo, mas por dentro infelizes, e gente enfrentando as maiores lutas, mas com esperança de mudança por confiarem em Jesus.

A grande diferença entre estas duas multidões não é se uma tem mais dinheiro que a outra, nem porque gozam de mais saúde e outros não, ainda mais que saúde não é perpétua. O que faz desta multidão que segue a Jesus, de nós que somos cristãos, diferentes daquela outra multidão desesperada, seguindo um enterro, é justamente o fato de estarmos olhando e seguindo a Jesus – “Que vive e reina para sempre!”.

Somente Ele é capaz de fazer brotar a paz e a felicidade em meio as calamidades da vida. Esta multidão que segue a Jesus tinha esperança de vitória em meio as lutas da vida, assim como nós. Veja o que o apóstolo Paulo nos fala em Rm 8.31-39. Essa é a nossa esperança.

Temos o Espírito Santo que nos consola e intercede por nós com gemidos inexprimíveis (Rm 8.26-30).

Posso andar com alegria porque há um túmulo vazio em Jerusalém, aja o que houver o túmulo de Jesus está vazio. Ele ressuscitou e vive pelos séculos dos séculos e está conosco todos os dias (Mt 28.20).

Nós temos um referencial vivo, uma motivação para viver e para andar em esperança. Não fazemos parte dessa multidão de infelizes e desesperados, FILHOS DO CEMITÉRIO, andando para a sepultura, adorando a morte.

Nós nascemos para a vida, para a esperança, para a felicidade, para o céu. Nascemos para a felicidade encarnada em Jesus porque o túmulo está vazio.

4 – O QUE O SENHOR JESUS FAZ QUANDO OLHA PARA ESTA MULTIDÃO DESESPERADA?

Quando Ele olha para você que investiu no futuro do seu casamento e agora o está vendo ruir, quando Ele olha para o seu idealismo político, mas que não passou de uma grande utopia, quando Ele olha para o enorme vazio do seu coração, quando Ele olha para você que vê seus intentos indo para o cemitério, para o túmulo, Ele faz a mesma coisa que fez com aquela viúva em Naim.

1º – O texto nos diz que Jesus sentiu compaixão (v 13a). Observamos, antes de mais nada, que o motivo deste milagre foi a compaixão. Sem dúvida, Jesus realizou milagres para confirmar a sua divindade. Mas a sua maravilhosa compaixão nunca estava ausente quando o milagre tinha algo a ver com os problemas humanos ou com o sofrimento humano, e algumas vezes esta compaixão parece ser o único motivo envolvido. Além disso, vemos que a compaixão era relacionada à viúva. Não há indicação de que Jesus tenha se comovido pela condição do filho morto, exceto pelo fato de que a sua morte trouxe dificuldades e tristeza para a mãe. Cristo não vê a morte como uma tragédia, a menos que seja a morte de um pecador. Não chores. Estas amáveis palavras, vindas do grande coração amoroso de Jesus, trariam um pouco de conforto à mulher [6].

William Hendriksen diz que com frequência a compaixão entre seres humanos pecadores é fingida, não genuína. Em contrapartida, quando Jesus sentiu compaixão, realmente a sentiu. Sua compaixão era genuína e profunda. Ele se preocupava com os enfermos, com os tristes, com os aflitos. Ele se preocupava tanto que dele foi escrito: “Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e sobre si levou as nossas doenças” (NVI) (Is 53.4; Mt 8.17). A compaixão meramente humana é às vezes impotente. A compaixão que nosso Senhor demonstrou realmente ajudou. Foi eficaz [7].

Jesus não é indiferente as nossas dores. Ele se importa comigo, Ele se importa com você. Ele se importa com a nossa dor. O autor de Hebreus nos fala assim:

“Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado. Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna”. (Hb 4.15,16)

2º – O texto nos diz que Jesus consolou aquela mãe enlutada (V 13b). Não há uma palavra mais insensata num funeral do que esta: “Não chores”. Funeral é lugar de choro. A morte traz sofrimento e dor. As lágrimas são esperadas numa hora do luto. Mas o Jesus que ordena, “Não chores”, é o mesmo que tem poder para estancar as lágrimas. Seu poder não é apenas para consolar nossa dor, mas também para colocar um ponto final na causa do nosso choro [8].

“Não chores” porque ainda há esperança. Em Jesus nós encontramos consolo, esperança em meio à tragédia.

3º – O texto nos diz que houve uma intervenção de Jesus (v 14). O esquife não era um caixão como os usados pelos egípcios, mas uma estrutura plana, semelhante a uma cama, na qual o cadáver era colocado embrulhado em um tecido [9].

Ele parou o esquife, Ele parou o enterro, Ele parou a morte. Jesus tem poder para interferir em nossas catástrofes. Como disse Spurgeon: “Para semelhante pesar existe um só ajudador: mas existe um ajudador” [10]. Jesus ainda intervém: – No casamento

 – Na firma falida – no desemprego.

 – Nos relacionamentos – no casamento em crise.

 – Na enfermidade

 – Na morte

Hoje o Senhor pode interferir em sua vida!

4º – O senhor Jesus quando interferiu falou ao morto e este ouviu (v 14). Ele para os que conduziam o enterro e carregavam o morto. Jesus chama o morto e dá uma ordem a ele: “Levanta-te”. Aquele que é a ressurreição e a vida tem poder sobre a morte. A morte escuta a sua voz. Quando Jesus chega, a morte precisa bater em retirada. A morte não tem a última palavra quando Jesus ergue sua voz! O mesmo Jesus que ressuscitou esse jovem trará à vida todos os mortos no último dia (Jo 5.28,29) [11]. O Cristo (o Ungido), o Messias, acordou alguém da maca mortuária com a mesma rapidez e facilidade com que outra pessoa tenta despertar alguém do sono [12].

“Levanta-te” - Hoje Ele pode dizer para sua vida desestruturada e caída: Levanta-te”. Para o seu casamento caído: “Erga-te!”. Ele pode dar uma ordem de vida, de ressurreição para sua vida morta.

5º – Jesus o restituiu a sua mãe (v 15). A solicitude de Jesus para com a viúva revela-se no detalhe de que restituiu o jovem à sua mãe (conforme fizera Elias numa situação semelhante 1Rs 17.23) [13]. A esperança voltou a brilhar no coração daquela mãe. O irremediável aconteceu. O impossível tornou-se realidade. A vida desfraldou suas bandeiras. O choro doído foi trocado pela alegria indizível. As vestes mortuárias foram deixadas para trás [14].

Jesus tem poder sobre a morte. Basta uma palavra e o milagre da vida acontece. Só Ele tem o poder da restituição. Ele não restitui algo morto, mas vivo, pulsante, que gera choro de alegria.

- Jesus pode restituir o seu marido. Sua esposa. Seu casamento. Seus filhos.

- Jesus pode restituir a alegria da salvação, a paz de espírito que seu coração tanto busca.

- Jesus pode restituir a sua saúde - física, emocional e espiritual.

Ele pegou aquele jovem morto e o devolveu vivo, ressuscitado. “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente” (Hebreus 13.8)

Jesus pode fazer isso por você hoje!

6º – Todos glorificaram a Deus (v 16, 17). A intervenção de Jesus foi sobre aquele jovem morto e o restituiu vivo a sua mãe. No entanto, nós vemos que não só aquela viúva e o seu filho glorificaram a Deus, mas toda a multidão. Eles reconheceram que Deus havia visitado o seu povo.

Por meio da ressuscitação deste morto Jesus revelou-se como o Messias esperado pelo povo. Suas testemunhas oculares agora viam nele o “grande profeta” que Deus havia suscitado em seu meio (cf. Dt 18.15,18) [15].

Todos os milagres tem que levar as pessoas a glorificarem a Deus.

Wiersbe resume essa passagem dizendo que podemos observar quatro encontros específicos, ocorridos às portas da cidade naquele dia:

- O encontro de dois grupos. Em termos espirituais, cada um de nós se encontra em um desses dois grupos. Se crermos em Cristo, estamos indo para a cidade (Hb 11:10, 13-16; 12:22). Se estamos "mortos nos nossos pecados", já estamos no cemitério e sob a condenação de Deus (Jo 3.36; Ef 2.1-3). Precisamos crer em Jesus Cristo e ser ressuscitados dentre os mortos (Jo 5.24; Ef 2.4-10).

2º - O encontro de dois filhos únicos. Um estava vivo, mas destinado a morrer, o outro estava morto, mas destinado a viver.

3º - O encontro entre dois sofredores. Jesus, o “homem de dores”, não teve dificuldade em se identificar com o sofrimento da viúva. Não apenas estava aflita como também se encontrava sozinha numa sociedade sem recursos para cuidar de viúvas.

4º - O encontro entre dois inimigos. Jesus enfrentou a morte, “o último inimigo” (1Co 15.26). Quando pensamos na dor e tristeza que a morte causa a este mundo, de fato é um inimigo terrível, e somente Jesus Cristo é capaz de nos dar a vitória (1Co 15.51-58; Hb 2.14,15) [16].

CONCLUSÃO

Deus está aqui e quer visitar o seu coração e fazer nele morada. Ele quer restaurar a sua vida arruinada, destruída, morta. Ele quer te dar vida.

Vida eterna – vida plena de significado, com prazer de viver. Vida com cheiro de vida e não uma vida com cheiro de morte.

O Senhor da vida está te chamando!

Saia da sombra da morte venha para a luz de Cristo. Jesus está passando hoje pela sua vida, não o deixe passar adiante. Convide-o a entrar em sua vida hoje. Assim como o Senhor Jesus abençoou aquela viúva e o seu filho, Ele quer restaurar também a sua vida e sua casa.  

Pense nisso!

Bibliografia

1 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 253.

2 – Spurgeon, C. H. Os Milagres de Jesus, vol. 1, Editora Shedd, São Paulo, SP, 1ª Reimpressão 2011, p. 68.

3 – Edwards, James R. O Comentário de Lucas, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2019, p. 286.

4 – Spurgeon, C. H. Os Milagres de Jesus, vol. 1, Editora Shedd, São Paulo, SP, 1ª Reimpressão 2011, p. 69-71.

5 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 112.

6 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, vol. 6, Lucas, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 398.

7 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 1, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 516.

8 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 207.

9 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, vol. 6, Lucas, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 398.

10 – Spurgeon, C. H. Os Milagres de Jesus, vol. 1, Editora Shedd, São Paulo, SP, 1ª Reimpressão 2011, p. 74.

11 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 207.

12 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 112.

13 – Morris, L. Leon. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 133.

14 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 207.

15 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 112.

16 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 253.