Pr. Cleber Montes Moreira
“Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios; não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios.” (1 Coríntios 10:21)
Ao navegar pela internet logo no início do ano, deparei-me com inúmeras notícias e postagens mostrando como pessoas e grupos religiosos passaram a virada do ano. Muitos repetiram o ritual de vestir branco e aguardar a chegada de 2026 à beira-mar. O que chama atenção é que, entre eles, estavam também pessoas que se dizem cristãs, conscientes ou não do significado dessa prática. Abandonaram o ajuntamento cristão e o culto ao Deus verdadeiro para iniciar o ano misturados àqueles que seguem outras crenças e adoram outros deuses.
Isso levanta uma pergunta que me inquieta profundamente: por que alguns preferem passar a virada do ano longe do ajuntamento da família de Deus? Essa escolha não é neutra. Ela revela mais do que uma simples preferência de lugar; expõe um afastamento da doutrina bíblica, da comunhão dos santos e, sobretudo, da centralidade de Deus na vida. Quando o cristão troca o culto por um ambiente que contradiz sua fé, ele precisa avaliar seu relacionamento com Deus à luz das Escrituras e arrepender-se urgentemente.
O costume de vestir branco no Réveillon, especialmente em ambientes litorâneos, é uma prática amplamente difundida no Brasil e possui raízes claras nas religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda. Historicamente, o uso do branco está associado à reverência a Oxalá, enquanto a ida à praia relaciona-se ao culto a Iemanjá, com oferendas feitas às águas em busca de proteção, paz e prosperidade. Para o cristão, porém, essa prática exige discernimento espiritual. A purificação, a paz e a esperança para um novo tempo não procedem de cores, roupas, datas ou rituais, mas da obra completa e suficiente de Cristo na cruz. “O sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado” (1 João 1:7). Quando símbolos e práticas religiosas alheias à fé bíblica são incorporados, ainda que sob o pretexto de tradição cultural, abre-se espaço para o perigoso sincretismo, que atribui a elementos da criação e a falsas divindades uma confiança que pertence exclusivamente ao Senhor.
Este texto não é um ataque à liberdade religiosa daqueles que seguem outras doutrinas. É, antes, um chamado à fidelidade dos que afirmam servir ao Deus da Bíblia. O Senhor declara: “Eu sou o SENHOR; este é o meu nome; e a minha glória não darei a outrem” (Isaías 42:8). Ele condena a vida dividida, pois “ninguém pode servir a dois senhores” (Mateus 6:24), e adverte que “a amizade do mundo é inimizade contra Deus” (Tiago 4:4). O Deus santo não aceita um coração dividido entre Ele e os ídolos, sejam eles explícitos ou disfarçados de costumes sociais.
Confesso que ficaria profundamente entristecido se um amigo que se diz cristão, ou mesmo uma ovelha sob cuidado pastoral, fosse visto atravessando a virada do ano praticando rituais que contradizem a fé bíblica. Da mesma forma, entristece-me ver aqueles que trocam o culto por ambientes marcados por embriaguez, linguagem torpe ou shows seculares onde o nome de Deus não é honrado. Essas escolhas não são meramente circunstanciais; elas revelam valores, prioridades e, em última instância, o caráter espiritual de cada um.
O apóstolo Paulo é claro e incisivo ao nos advertir: “Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios; não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios” (1 Coríntios 10:21). Ele afirma que tal postura provoca o Senhor ao ciúme e, em seguida, apela à consciência cristã: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm; todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam” (1 Coríntios 10:23). A pergunta que permanece é inevitável: suas escolhas edificam sua fé e glorificam a Deus?
Suas crenças, suas decisões e seu modo de viver glorificam o Deus verdadeiro ou acabam exaltando outros “deuses”? À luz da Palavra, cada cristão é chamado a examinar a si mesmo e a decidir, com temor e fidelidade, de qual mesa realmente participa.
domingo, 4 de janeiro de 2026
A MESA DO SENHOR, OU A MESA DOS DEMÔNIOS?
sábado, 1 de novembro de 2025
A SAUDAÇÃO DE TIAGO (Tg 1.1)
Tiago, servo de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos que andam dispersas, saúde (Tg 1.1).
A epístola
de Tiago pertence à categoria de escritos bíblicos chamados de epístolas gerais.
Hebreus, Tiago, 1 Pedro, 2 Pedro, 1 João, 2 João, 3 João e Judas. Algumas
dessas epístolas, porém, não têm destinatário; no caso de Hebreus e de 1 João,
também falta o nome do autor. Tiago nos dá o seu nome e o nome daqueles a quem
se refere e sua saudação.1
Podemos destacar algumas lições importantes em sua apresentação:
Primeiro, Tiago se apresenta como servo de Deus. Tiago, servo de Deus... (v. 1a).
As cartas no primeiro século iniciavam geralmente com o nome do autor, seguido pelo nome do receptor e uma fórmula de saudação na mesma ordem que aparecem nesta carta. O autor identificou-se simplesmente como Tiago. Provavelmente, nenhuma outra explicação era necessária para os cristãos daquela época. Eles logo compreendiam tratar-se de Tiago de Jerusalém, o reconhecido líder da Igreja.2
Humildemente, Tiago se denomina “servo” (doulos, lit. “escravo”) enquanto Judas, além de se descrever como servo (doulos), acrescenta “irmão de Tiago”.3
Tiago é o único escritor do Novo Testamento que se descreve a si com o termo doulos (escravo) sem acrescentar nenhuma outra qualificação. Paulo se apresenta a si mesmo como servo de Jesus Cristo e como seu apóstolo (Rm 1.1; Fp 1.1). Mas Tiago não vai mais além de se chamar a si mesmo escravo de Deus e do Senhor Jesus Cristo.
Há, pelo menos, quatro implicações neste título.
1) Obediência absoluta. O escravo não reconhece outra lei à parte da palavra de seu amo ou senhor; não tem direitos próprios de nenhuma classe. É possessão absoluta de seu senhor e está ligado a este por uma total e indisputável obediência.
2) Humildade absoluta. É a palavra de um homem que não pensa em seus privilégios, mas em seus deveres; não em seus direitos, mas em suas obrigações. É um homem que perdeu sua própria identidade para servir a Deus. É um homem que literalmente se negou a si mesmo, que disse não a si para dizer sim a Deus.
3) Lealdade absoluta. É a atitude de um homem que não tem interesses próprios porque está plenamente entregue a Deus. O que faz, ele o faz para Deus. As conquistas e as preferências próprias não entram em seus cálculos. Sua lealdade é em relação a Deus.
4) Orgulho por ser escravo de Cristo. Longe de ser algo desonroso, este era o título com o qual eram conhecidos os grandes homens do Antigo Testamento. Ao tomar o título de doulos, Tiago se coloca na grandiosa sucessão daqueles que encontraram sua liberdade, sua paz e sua glória na perfeita submissão à vontade de Deus. A única grandeza a que o cristão pode aspirar é a grandeza de ser escravo de Deus.4
Elizabeth George enfatiza que:
[...] a palavra grega doulos (escravo, servo) refere-se a uma posição de obediência completa, humildade absoluta e lealdade inabalável. A obediência era a tarefa, a humildade, a posição, e a lealdade, o relacionamento que um senhor esperava de um escravo... Não há maior atributo para o crente, que ser conhecido como servo de Jesus, obediente, humilde e leal.5
O termo “escravo” quando era usado em relação a Deus, os leitores judeus compreendiam tratar-se de um adorador.6
Segundo, Tiago se apresenta também como servo de Jesus Cristo. ...e do Senhor Jesus Cristo... (v. 1b).
Este é o único lugar no Novo Testamento onde um indivíduo é chamado de servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo. Alguns pensam que “Cristo” não é usado aqui como um título, sendo quase um nome próprio. Todavia, é provável que Tiago tenha em mente as duas qualificações de Jesus, para obter força teológica: Jesus é tanto o Messias prometido de Israel como o Senhor a quem se deve servir. É interessante que na única outra oportunidade em que Tiago se refere a Jesus, ele O descreve com os mesmos dois títulos (2.1).7
Fritz Grünzweig destaca que:
[...] Tiago é “servo do Senhor Jesus Cristo”. Não afirma que é o irmão do Senhor. Viu-o como ressuscitado. Conhece-o como Aquele que agora foi glorificado. Portanto, já não tem a mesma posição diante d’Ele como no passado, quando ambos cresceram juntos em Nazaré. Vemos aqui o que significa: “Não conhecemos mais a Cristo segundo a carne” (2Co 5.16). Impede-se a falsa familiaridade. Não devemos esquecer a magnitude e santidade de nosso Senhor em vista da sua proximidade e amor.8
Terceiro, Tiago escreve sua epístola a uma igreja perseguida. ...às doze tribos que andam dispersas, saúde (v. 1c).
Tiago 1.1 diz que “as doze tribos na dispersão” (gr. diáspora) são os destinatários (cf. 1Pe 1.1). Tiago dirige sua epístola ao povo de descendência judaica que vive fora de Israel, entre outras nações. São os judeus da Dispersão (Jo 7.35).9
A “diáspora” judaica era um fenômeno bem conhecido desde o exílio assírio e babilônico, e no tempo de Tiago já havia comunidades judaicas em várias cidades do Mediterrâneo (Alexandria, Antioquia, Roma, etc.). Esses judeus, agora convertidos a Cristo, enfrentavam desafios específicos: perseguições tanto de autoridades judaicas quanto romanas, dificuldades econômicas e a tentação de se conformar com o mundo ao redor.
Esse termo grego dá a ideia de “espalhar sementes”. Quando os cristãos judeus foram dispersos na primeira onda de perseguição (At 8.1, 4), na verdade, o que ocorreu foi uma semeadura em diversos lugares, e muitas dessas sementes deram frutos (At 11.19ss).10
John
MacArthur destaca que:
[...] além de exercer liderança na igreja de Jerusalém, Tiago também desempenhou um ministério mais abrangente. A expressão “doze tribos”, utilizada no Novo Testamento como referência à nação de Israel, remete à divisão ocorrida após o reinado de Salomão: dez tribos formaram o reino do norte e Judá e Benjamim constituíram o reino do sul. Com a queda do reino do norte e a deportação para a Assíria, parte do remanescente das tribos migrou para Judá, mantendo a representatividade das doze tribos. Embora a identidade tribal tenha se perdido após a destruição dos registros durante o domínio babilônico, as Escrituras afirmam que, no futuro, Deus restaurará a nação e confirmará a identidade de cada tribo (Is 11.12,13; Jr 3.18; 50.19; Ez 37; Ap 7.5-8).11
Parece provável que, embora Tiago tivesse como foco da sua atenção os judeus convertidos, estas palavras incluíam todo Israel espiritual, isto é, os cristãos em toda parte.12
Quarto, a saudação de Tiago. ...saúde (v. 1d).
“Saudações” ou “saúde”, traduz a palavra grega chairein que vem da mesma raiz de “alegria” (charan), que aparece logo no versículo seguinte. Ela enfatiza que os cristãos, pertencentes à família remida de Cristo, têm motivos especiais para se alegrar no relacionamento que têm mutualmente por causa dessa redenção.13
Fritz Grünzweig destaca que:
[...] o mensageiro de Jesus conhece e traz a razão da alegria, a grande oferta: o ser humano é aceito por Deus. Recebe a paz d’Ele. Torna-se filho d’Ele. Deus é bom para ele. Servindo a Ele, a vida humana se reveste de sentido. Ele confere participação na grande e convicta esperança. O crente pode participar eternamente daquilo que Deus é, tem e faz. Isso é evangelho, boa notícia, motivo de alegria.14
A palavra final traz um convite para enxergar a vida cristã com esperança, mesmo em meio a provações. Tiago vai desenvolver isso logo a seguir (1.2: “tende por motivo de grande alegria o passardes por várias provações”). Ou seja, a saudação já antecipa o tom da carta: fé viva, perseverança e alegria em Cristo.
Bibliografia:
1 – KISTEMAKER, Simon J. Comentário
do Novo Testamento, Tiago e Epístolas de João. 1ª ed., São Paulo, Cultura
Cristã, 2006, p. 39.
2 – HARPER, A. F. Comentário
Bíblico Beacon, Hebreus a Apocalipse, Vol. 10. 1ª ed., Rio de
Janeiro, CPAD, 2006, p. 152.
3 – SHEDD, Russell P., BIZERRA, Edmilson F. Uma
Exposição de Tiago, A Sabedoria de Deus. 1ª ed., São Paulo, Shedd, 2010, p.
11.
4 – BARCLAY, William. The Letter of James. [S.I.: s.n.], 1975, p. 43, 44.
5 – GEORGE, Elizabeth. Tiago:
crescendo em sabedoria e fé. 1ª ed., São Paulo, Hagnos, 2004, p. 15.
6 – HARPER, A. F. Comentário Bíblico Beacon, Hebreus a
Apocalipse, Vol. 10. 1ª ed., Rio de Janeiro, CPAD, 2006, p. 152.
7 – MOO, Douglas J. Tiago, Introdução e Comentário.
1ª ed., São Paulo, Vida Nova, 2011, p. 57.
8 – GRÜNZWEIG, Fritz. Cartas
de Tiago, Pedro, João e Judas, Comentário Esperança. 1ª ed., Curitiba,
Esperança, 2008, p. 27.
9 – KISTEMAKER, Simon J. Comentário
do Novo Testamento, Tiago e Epístolas de João. 1ª ed., São Paulo, Cultura
Cristã, 2006, p. 41.
10 – WIERSBE, Warren W. Novo
Testamento 2, Comentário Bíblico Expositivo Vol. 6. Santo André,
Geográfica, 2007, p. 431.
11 – MACARTHUR, John. Comentario del Nuevo Testamento,
Santiago. 1ª ed., Michigan, Portavoz, 2018, p. 19.
12 – HARPER, A. F. Comentário
Bíblico Beacon, Hebreus a Apocalipse, Vol. 10. 1ª ed., Rio de Janeiro,
CPAD, 2006, p. 153.
13 – SHEDD, Russell P., BIZERRA, Edmilson F. Uma
Exposição de Tiago, A Sabedoria de Deus. 1ª ed., São Paulo, Shedd, 2010, p.
10.
14 – GRÜNZWEIG, Fritz. Cartas
de Tiago, Pedro, João e Judas, Comentário Esperança. 1ª ed., Curitiba,
Esperança, 2008, p. 27.
sábado, 13 de setembro de 2025
A PARÁBOLA DAS DEZ MINAS - Lucas 19.11-27
Por Silas Figueira
Jesus contou Suas histórias a partir das experiências habituais da vida cotidiana do povo. Esta incrível história não é uma exceção. [1] Esta parábola é única entre as que Jesus relatou, porque é a única apoiada em parte num evento histórico. Conta-nos a respeito de um rei que saiu de viagem para receber um reino, e seus súditos fizeram tudo o que puderam para que não o fizesse. Quando Herodes o Grande morreu no ano 4 a.C. deixou seu reino dividido entre Herodes Antipas, Herodes Felipe e Arquelau. Antes de entrar em vigência a divisão tinha que ser ratificada pelos romanos que dominavam a Palestina. [2]
Arquelau,
após falecimento de seu pai, Herodes o Grande, partiu em viagem por mar a Roma,
tendo iniciado a jornada em Jericó, a fim de solicitar a César Augusto que
fosse nomeado rei da Judeia em lugar de seu progenitor. [3] Arquelau recebeu por
herança a Judéia, mas o povo o detestava, e enviou representantes para pedir
que o reino não fosse dado a ele. No entanto, Arquelau já lhes dera boas razões
para odiá-lo. Na primeira Páscoa após a sua ascensão, por exemplo, massacrara cerca
de 3.000 dos seus súditos. Era um soberano completamente mau. O imperador,
porém, confirmou-o no lugar de autoridade, embora lhe negasse o título de “rei”
até que comprovasse ser digno dele (o que nunca fez). [4]
Arquelau
criou o caos na Judeia, devido a isso, após dez anos de governo, os romanos o
removeram do poder e foi obrigado a se exilar.
Eles o substituíram por uma série de governadores, sendo Pilatos o quinto. Esse
incidente com o qual todos os ouvintes de Jesus estavam familiarizados
proporcionou uma experiência histórica para pavimentar o caminho para esta parábola.
[5]
Quais as lições que podemos tirar deste episódio?
1 – JESUS CORRIGE O CONCEITO EQUIVOCADO ACERCA DA NATUREZA DO SEU REINO (Lc 19.11).
A
parábola fala sobre um homem nobre que se ausenta para tomar posse de um reino
e depois voltar. Antes de partir, o nobre entrega uma mina, ou seja, cem
dracmas (isto é, cerca de ½ quilo de prata, ou seja, o salário de 3 meses de um
trabalhador braçal), a dez de seus servos, dando-lhes a ordem de negociar esses
valores até sua volta. Na sua volta, ele recompensou os servos fiéis, porém
repreendeu severamente o servo negligente, além de ordenar sumariamente a
execução dos inimigos. [6] O motivo de nosso Senhor proferir esta parábola foi corrigir
as falsas expectativas dos discípulos em referência ao reino de Cristo. Foi um
anúncio profético de coisas presentes e futuras que deveriam suscitar
pensamentos solenes na mente de todos os que professam ser crentes. [7]
Com
isso em mente, podemos tirar algumas lições aqui.
Primeiro,
Jesus não alimenta as falsas expectativas do povo (Lc 19.11c). Porquanto
estava perto de Jerusalém, e cuidavam que logo se havia de manifestar o Reino
de Deus. Este interesse aumentava à medida que Jesus se aproximava de
Jerusalém. Havia uma excitação, uma atmosfera de expectativa, que finalmente
explodiu em uma glorificação pública e em uma aclamação na entrada triunfal de
Cristo. Mas a excitação se devia, quase que de forma generalizada, a uma noção
equivocada – a crença universal, por parte daqueles que consideravam Jesus o
Messias, de que o reino apareceria imediatamente. Era de se esperar que
Jerusalém fosse o lugar onde o Messias estabeleceria o seu reino, e
naturalmente muitos criam que a hora havia chegado. Jesus contou esta parábola
para corrigir esta noção. [8]
Os
apóstolos tinham sonhado com o privilégio de se sentar à direita e à esquerda
de Jesus no seu reino, desfrutando de tranquilidade depois do seu trabalho
árduo, e de honra depois do desprezo que lhes estava sendo direcionado, e se
alegravam com este sonho; mas Cristo lhes diz algo que, se eles entendessem
corretamente, os encheria de cuidados, preocupações, e pensamentos graves, em
vez destas aspirações com as quais eles enchiam as suas mentes. [9]
Muitas
das frustrações de muitos cristãos é esperar de Jesus o que Ele não disse.
Muitas pessoas se apoiam em promessas feitas por homens e não consultam as Escrituras
para confirmar o que está sendo falado, ou, se o que está foi falado está
dentro do contexto bíblico. Como dizem: “texto fora de contexto é pretexto para
heresia”.
A
alguns anos eu ouvi um pregador ministrar um sermão. Ao término de sua
exposição eu o chamei à parte e lhe falei que havia entendido muito bem o que
ele havia falado, que a palavra dele era bíblica, mas que os textos que ele
havia usado como referência estavam fora de contexto. Ele não gostou da minha
correção, mas ele era membro de minha igreja e eu não podia deixar de
corrigi-lo.
Segundo,
Jesus estava indo para Jerusalém para ser coroado, mas não como rei. Lucas
preparou-nos bem para essa história, que nos introduz ao caráter “final” da
entrada de Jesus em Jerusalém e à consumação definitiva de sua vida na
crucificação, ressurreição e ascensão, diz Eugene Peterson. [10]
Champlin
diz que a morte de Jesus sugeria, igualmente, a necessidade da segunda vinda de
Cristo, pelo que temos aqui este paralelo, que serve para descrever as
condições do período do intervalo até o retorno final do Rei, o qual regressará
depois de haver recebido o poder de reinar. [11]
John
MacArthur é enfático em afirmar que o Senhor Jesus não veio para derrotar os
romanos e estabelecer o reino messiânico terreno como o povo judeu esperava.
Também não era seu objetivo realizar uma reforma social como os liberais
acreditam erroneamente. Se esse era seu objetivo, ele falhou completamente em
alcançá-lo. O Senhor veio para oferecer a salvação a todos os que confessam sua
perdição pecaminosa, se arrependem e creem em Jesus Cristo como seu único
Salvador. [12] Jesus veio estabelecer um reino espiritual. Como disse Jesus: “porque
eis que o reino de Deus está entre vós” (Lc 17.21).
Jesus também ressalta a importância de Jericó como ponto de entrada para “tomar posse da terra prometida”, diz Eugene Peterson. Tanto Josué (como o nome “Jesus” é escrito e pronunciado em hebraico), mil anos antes, quanto Jesus, agora, usam Jericó para fornecer uma demonstração visível da glória de Deus e da iminência da salvação (a queda dos muros no caso de Josué, devolvendo a visão a Bartimeu no caso de Jesus). E cada um deles resgatou uma alma “perdida” em Jericó – Raabe no caso de Josué e Zaqueu no caso de Jesus. [13]
2 – O ACERTO DE CONTAS COM O REI (Lc 19.11-27).
Enquanto
os que estavam no lar de Zaqueu estão ouvindo Jesus apresentar-se como aquele
que viera buscar e salvar os perdidos, ele prosseguiu contando uma parábola.
Ele fez isso com o fim de corrigir certas ideias danosas que já se difundiam;
especialmente a noção de que agora o reino de Deus estava para aparecer de
repente, o reino de esplendor externo, terreno e judaico. [14]
Essa
parábola tem certa relação com uma parábola semelhante encontrada em Mateus 25.14-30.
Na versão de Mateus um homem dá a seus servos cinco talentos, dois talentos e
um talento (de ouro ou de prata). Os servos que receberam cinco e dois
talentos, respectivamente, dobraram seus investimentos, mas o que recebera um
talento escondeu-o no chão. Na versão de Lucas, um homem nobre viaja porque vai
tomar para si um reino. Antes de partir, confia a dez servos seus o equivalente
a dez minas para que com elas negociassem. Estando esse homem ausente, alguns
de seus súditos enviam embaixadores que tentam impedir que ele reine. Mas ele
volta depois de ter tomado o reino e convoca os seus servos a fim de verificar
o que cada um tinha ganhado, negociando. [15]
Podemos
destacar algumas lições aqui.
Primeiro,
os servos tinham uma tarefa a cumprir antes da volta do seu senhor (Lc 12,13).
O homem nobre fez os planos para seus negócios serem continuados durante sua
ausência, ao confiar dinheiros a dez servos seus (não escravos, pois o escravo
não teria a autoridade necessária para as transações comerciais em vista). Mina
translitera mna, uma moeda grega com o valor de cem dracmas (a dracma
era o salário de um trabalhador por um dia de serviço). [16]
A
inferência aqui é que Cristo não iria estabelecer um reino imediatamente, mas
iria embora para o céu a fim de assegurar um reino. Mais tarde, Ele retornaria
para aqueles que estivessem prontos para ser cidadãos do seu Reino. [17] John
C. Ryle nesta mesma linha de pensamento destaca que quando nosso Senhor deixou
o mundo, ascendeu ao céu como um vencedor, levando “cativo o cativeiro” (Ef
4.8). Agora Ele se encontra no céu, assentado à direita de Deus, realizando a
obra de um Sumo Sacerdote em favor de todos os crentes e sempre intercedendo
por eles. Mas não ficará ali para sempre; o Senhor Jesus deixará o Santo dos
Santos para abençoar seu povo. Virá novamente com poder e glória para sujeitar todos
os inimigos debaixo de seus pés e estabelecer seu reino. [18]
Na
aplicação, esta é uma chamada para viver uma vida que honre o nobre ausente
(Cristo), que irá prestar contas com as pessoas responsáveis por suas ações
quando Ele voltar. [19] Por isso, devemos ter em mente que nossos dons e
habilidades são diferentes, mas nosso trabalho é o mesmo: compartilhar a
Palavra de Deus, de modo que se multiplique e se propague por todo o mundo (1Ts
1.8; 2 Ts 3.1). [20]
Como disse o apóstolo Paulo:
“Porque, se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois me é imposta essa obrigação; e ai de mim, se não anunciar o evangelho!” (1Co 9.16).
Segundo,
Deus nos quer, mas o homem não quer Deus (Lc 19.14). Como falamos
anteriormente, este nobre, entretanto, enfrenta a hostilidade de seus
concidadãos que o odiavam. Logo que ele partiu, seus inimigos enviaram após ele
uma embaixada, dizendo que não queriam se submeter ao seu reinado (Lc 19.14).
Essa parábola de Jesus tinha uma estreita conexão com um fato histórico muito
conhecido de seus ouvintes, como já comentamos.
Eugene Peterson destaca que:
[...] a linguagem de Jesus é proferida em mundo
no qual Deus nos quer. Somos criados por Deus para Deus. Separamo-nos de Deus,
e Deus está decidido a nos recuperar. Deus nos quer como o amado quer sua
amada. Insistentemente, inflexivelmente, Deus busca um relacionamento restaurado
conosco. Deus nos busca. Deus está buscando e esteve nos buscando antes de
termos qualquer ideia de buscar a Deus.
Mas – nós não queremos Deus. A prova bem documentada é que queremos ser nossos próprios deuses. As provas vão se empilhando uma sobre as outras em cada continente e civilização, cada século e cada religião. São irrefutáveis. As provas são plenas e convincentemente confirmadas em nossas escrituras e documentadas em cada uma de nossas vidas. Queremos ser nossos próprios deuses. A Serpente prometeu que lograríamos esse tanto – “sereis como Deus” (Gn 3.5) –, e nós acreditamos desde esse momento. No final das contas, mostramos ser muito bons nessa insistência. [21]
Terceiro,
a recompensa dos servos fiéis na volta de seu senhor (Lc 19.15-19). A
tentativa de impedir que o nobre recebesse seu reino fracassou. Assim também
toda tentativa de frustrar os planos do Filho do homem fracassará. Ele sobe ao
céu e recebe seu reino, como já se indicou. O regresso do nobre e sua reunião
com seus servos simbolizam a segunda vinda gloriosa de Cristo quando ele
demandará de seus servos que os mesmos prestem contas do modo como eles
trataram o evangelho; e nesse caso, com os dons e as oportunidades de serviço
que foram postos à sua disposição. [22]
Então,
o senhor volta e chama os servos para uma prestação de contas. A título de
exemplo, chamou dois servos para se apresentarem. Em se tratando de dar
testemunho, todos os cristãos começam no mesmo nível, de modo que a recompensa
é proporcional à fidelidade e ao que cada um realiza. Os servos fiéis foram
recompensados, sendo nomeados governantes de várias cidades. A recompensa pelo
trabalho fiel é sempre... mais trabalho! Mas que grande honra o senhor ter
confiado a esses servos o governo de tantas cidades! [23]
Matthew
Henry destaca que aqueles que fazem o que é bom, receberão elogios da mesma
forma. Aja bem, e Cristo irá lhe dizer: Bem está; e, se Ele disser Bem está,
não importa se alguém disser outra coisa. [24] Aqui está a diferença quando
realizamos a obra de Cristo. Se fazemos para o Senhor, louvamos o Seu nome e
seremos exaltados por Ele. Se fazemos para nós mesmos, é puro egocentrismo. Mas
se fazemos para os outros verem, queremos a glória que seria de Jesus. Isso é
idolatria.
Quarto,
a punição dos servos infiéis na volta de seu senhor (Lc 19.20-26). A
história relata o acerto de contas com apenas três dos dez servos. Os outros
sete não são importantes para o tema da parábola. E no acerto de contas com
este terceiro servo que encontramos o verdadeiro significado e propósito da
história. [24]
O
terceiro servo, sendo infiel, se apresentou e fez um relatório negativo. Aqui a
conservação inativa do dinheiro é derivada do temor do servo. As palavras “eis
aqui a tua mina” estão no começo de tudo. Com a devolução da propriedade ao
patrão ele combina a confissão de que guardou a mina em um lenço. Sua desculpa
é hipócrita pelo fato de que, ao invés de admitir sua preguiça, alega o temor
diante da dureza de seu patrão. Aquilo que o servo preguiçoso apresenta em sua
defesa abre caminho justamente para sua condenação. [25]
Se,
de fato, ele fosse coerente com suas palavras, não teria guardado o dinheiro do
seu senhor, mas teria, no mínimo, colocado esses valores no banco para render
juros. [26]
Diante
desta negligência a ordem do nobre foi incisa e imediata: Tirai-lhe a mina e
dai-a ao que tem as dez (Lc 19.24). Diante da ponderação de que este já
tinha dez minas, o senhor respondeu: “A todo o que tem dar-se-lhe-á; mas o
que não tem, até o que tem lhe será tirado” (Lc 19.26). Não há espaço para
negligência no reino de Deus. A neutralidade e a omissão são ofensas ao Senhor
e prejuízos à sua causa. [27] Na vida cristã não há tal coisa como estar quietos. Ou
obtemos mais ou perdemos o que tínhamos. Ou avançamos a maiores alturas ou
retrocedemos cada dia. [28]
O
patrão – que agora retorna como rei –, elogiou os dois primeiros empregados e,
com muita veemência, dispensou o terceiro, o minimalista que não corre riscos,
diz Eugene Peterson. [29]
Wiersbe
destaca que um princípio fundamental da fé cristã é que as oportunidades
perdidas representam recompensas perdidas e, possivelmente, a perda do
privilégio de servir. Se não vamos usar os dons dados por Deus de acordo com
sua orientação, para que tê-los? Outra pessoa poderia fazer melhor uso dos dons
para a glória de Deus (cf. Mt 13.12 e Lc 8.18). E continua, o servo foi infiel
porque seu coração não estava em ordem com seu senhor. Ele considerava seu
senhor um homem severo, exigente e injusto. Não o amava; antes, tinha medo dele
e receava lhe desagradar. [30]
Quinto,
a severa punição dos inimigos na volta do senhor (Lc 19.14,27). Na
parábola, todos foram julgados, mas somente os inimigos foram efetivamente
castigados. A sua execução pode referir-se em análise final à destruição de
Jerusalém. Por trás desta história está a ideia solene de que a vinda de Jesus
é um teste para todo homem, e força todo homem a tomar uma grave decisão. [31]
John
MacArthur destaca que ao contrário do relato histórico de Arquelau, contudo,
nada na história indica que o nobre deu aos seus cidadãos qualquer causa para
odiá-lo. Isso ilustra o fato de que Jesus era odiado sem causa (Jo 15.25; Sl 69.4).
A atitude do povo judeu em direção Arquelau era razoável; sua atitude para com
Jesus era uma blasfêmia. [32]
John C. Ryle tem razão quando diz que virá o dia em que o Senhor Jesus julgará todo o seu povo e recompensará a cada um de acordo com suas obras. O curso deste mundo não permanecerá para sempre no estado em que se encontra agora. Desordem, confusão, falsa confissão de fé e pecados impunes não permearão sempre a face da terra. O grande trono branco será estabelecido; e sobre ele se assentará o Juiz de todos. Os mortos ressurgirão de seus sepulcros. Os vivos serão todos convocados ao tribunal. Os livros serão abertos. Grandes e pequenos, ricos e pobres, nobres e simples – todos finalmente prestarão contas a Deus e receberão a sentença eterna. [33]
CONCLUSÃO
Quero
concluir com as palavras de Wiersbe que diz que Jesus estava perto de Jerusalém
e, em poucos dias, ouviria a multidão gritar: “Não temos rei, senão César!” (Jo
19.15). Em outras palavras: “Não queremos que este reine sobre nós”.
Deus
foi benevolente com Israel e concedeu à nação quase quarenta anos de graça para
se arrepender antes de lhe sobrevir o julgamento (Lc 19.41-44). No entanto,
devemos ver aqui uma advertência a todos os que rejeitam Jesus Cristo – quer
judeus quer gentios –, pois durante esse tempo em que está no céu, Jesus Cristo
está chamando as pessoas de toda a Terra para se arrependerem e se sujeitarem a
Ele. [34]
Pense nisso!
Bibliografia:
1
– MacArthur, John. Comentário do Novo Testamento, Mateus a Apocalipse, Lucas,
p. 2890.
2
– Barclay, William. Comentário do Novo Testamento, Lucas, p. 205.
3
– Champlin, R. N. O Novo
Testamento Interpretado, versículo por versículo, Lucas, Vol. 2, Ed. Hagnos,
São Paulo, SP, 2005, p. 185.
4
– Morris, Leon L. Lucas,
Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP,
1986, p. 257.
5
– MacArthur, John. Comentário do Novo Testamento, Mateus a Apocalipse, Lucas,
p. 2890.
6
– Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito,
Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 558.
7
– Ryle, J. C. Meditações no Evangelho de Lucas, Ed. FIEL, São José dos Campos,
SP, 2002, p. 306.
8
– Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio
de Janeiro, RJ, 2006, p. 471.
9
– Henry,
Matthew. Comentário Bíblico Novo Testamento Mateus a João, Ed. CPAD, Rio de
Janeiro, RJ, 2008, p. 690.
10 – Peterson, Eugene. A Linguagem de Deus, Ed.
Mundo Cristão, São Paulo, SP, 2011, p. 163.
11 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado,
versículo por versículo, Lucas, Vol. 2, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2005, p.
185.
12
– MacArthur, John. Comentário do Novo Testamento, Mateus a Apocalipse, Lucas,
p. 2891.
13
– Peterson, Eugene. A Linguagem de Deus, Ed. Mundo Cristão, São Paulo, SP,
2011, p. 164.
14
– Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, Ed. Cultura Cristã, São Paulo, SP, 2003,
p. 430.
15
– Evans, Craig A. O Novo
Comentário Bíblico Contemporâneo, Lucas, Ed. Vida, São Paulo, SP, 1996, p. 321.
16
– Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições
Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 258.
17
– Childers, Charles L.
Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006,
p. 472.
18
– Ryle, J. C. Meditações no Evangelho de Lucas, Ed. FIEL, São José dos Campos,
SP, 2002, p. 306.
19
– MacArthur, John. Comentário do Novo Testamento, Mateus a Apocalipse, Lucas,
p. 2891.
20
– Wiersbe, Warren W. Lucas,
Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André,
SP, 2007, p. 328.
21
– Peterson, Eugene. A Linguagem de Deus, Ed. Mundo Cristão, São Paulo, SP,
2011, p. 165, 166.
22
– Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, Ed. Cultura Cristã, São Paulo, SP, 2003,
p. 433.
23
– Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo,
Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 328.
24
– Henry, Matthew. Comentário Bíblico Novo Testamento Mateus a João, Ed. CPAD,
Rio de Janei-ro, RJ, 2008, p. 691.
24
– Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio
de Janeiro, RJ, 2006, p. 472.
25
– Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica
Esperança, Curitiba, PA, 2005, p. 389.
26
– Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São
Paulo, SP, 2017, p. 560.
27
– Ibidem, 560.
28
– Barclay, William. Comentário do Novo Testamento, Lucas, p. 207.
29
– Peterson, Eugene. A
Linguagem de Deus, Ed. Mundo Cristão, São Paulo, SP, 2011, p. 169.
30
– Wiersbe, Warren W. Lucas,
Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André,
SP, 2007, p. 329.
31
– Ash, Anthony Lee. O
Evangelho Segundo Lucas, Ed. Vida Cristã, São Paulo, SP, 1980, p. 273.
32
– MacArthur, John. Comentário do Novo Testamento, Mateus a Apocalipse, Lucas,
p. 2892.
33
– Ryle, J. C. Meditações no Evangelho de Lucas, Ed. FIEL, São José dos Campos,
SP, 2002, p. 307.
34
– Wiersbe, Warren W. Lucas,
Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André,
SP, 2007, p. 329.
quarta-feira, 21 de maio de 2025
A CONVERSÃO DE ZAQUEU - Lucas 19.1-10
Por Silas A. Figueira
Texto base: Lucas 19.1-10
INTRODUÇÃO
James R. Edwards diz que o chamado de Levi
(Mateus) e as parábolas dos perdidos e achados, por conseguinte, preparam os
leitores para o encontro de Jesus com Zaqueu. O encontro de Jesus e o chefe dos
publicanos é um ponto temático culminante não só das duas unidades precedentes,
mas da associação de Jesus com os proscritos ao longo do terceiro evangelho.1
A conexão entre o parágrafo final do
capítulo 18 e o parágrafo inicial do capítulo 19 é quase inesquecível; porque
(a) ambos os eventos ocorreram em Jericó; e (b) no primeiro caso, um homem
pobre tomou-se seguidor de Jesus; no segundo, um homem rico fez isso.2
No episódio precedente vimos o toque de
cura de Jesus que restaurou a visão e a fé de um desprezado do ponto de vista
religioso e social, em Israel, diz Evans. No episódio a seguir temos outro
exemplo da restauração de alguém que também era desprezado, não por causa de problemas
de ordem física, nada que se julgasse ser causado pelo pecado, mas desprezado
por causa de sua profissão.3
Leon Morris destaca que a história de
Zaqueu fica em contraste marcante com a do jovem rico. Vindo tão cedo depois da
declaração enfática acerca da dificuldade da salvação dos ricos (Lc 18.24-25),
este incidente deve ser visto como uma manifestação notável da graça de Deus (Lc
18.27).4
Jericó era uma cidade muito rica e
importante. Estava localizada no vale do Jordão e dominava o caminho de
Jerusalém e o cruzamento do rio que dava acesso às terras do leste do Jordão.
Contava com um grande bosque de palmeiras e abetos balsâmicos famosos no mundo
que perfumavam o ar por vários quilômetros quadrados. Seus jardins de rosas
eram bem conhecidos. Era chamada “A cidade das Palmas”. Os
romanos deram fama mundial a suas tâmaras e seu bálsamo. Tudo isto fazia com
que fosse um dos maiores centros impositivos de toda a Palestina.5
Por ser uma cidade fronteiriça, em
Jericó havia uma alfândega. Como era também uma das cidades mais ricas da
Palestina, situada em uma das regiões mais férteis da Judeia, com um belo
palácio herodiano e residência de muitas famílias sacerdotais abastadas, o
valor do recolhimento de impostos era volumoso ali.6 Champlin também
chama a atenção para o fato de que Jericó era usada por Herodes como sua
capital de inverno, tendo sido ornamentada por estruturas tipicamente gregas ou
romanas (helenísticas), por Herodes e por seu filho, Arquelau, de tal modo que
não tinha a aparência típica das cidades da Palestina.7
Jesus estava passando pela última vez por
Jericó. Ele estava indo para a cruz. Naquela semana, ele seria morto. Aquele
era o dia da oportunidade de Jericó. Era o céu aberto sobre Jericó. Era a
salvação oferecida a Jericó. Era o dia mais importante na agenda da cidade de
Jericó.8 MacArthur nessa mesma linha de pensamento destaca que Deus
procura os pecadores, porque “não há ninguém que busque a Deus” (Rm 3.11), a
não ser que Ele graciosamente os chame, eles jamais virão (cf. Rm 1.6,7; 8.28;
11.29; 1Co 1.9, 23,24, 26; Gl 1.6; Ef 4.
1,4). Depois que Adão e Eva pecaram e tentaram se esconder do Senhor,
Deus chamou-lhes: “Onde estás?” (Gn 3.8,9). Ao longo da história Deus tem
continuado a procurar o perdido (cf. Ez 34.11,16; Lc. 15.4-32). Não haveria
reconciliação, salvação, perdão, ou esperança do céu se o Senhor não o fizesse.9
Como disse Matthew Henry: “Esta cidade
tinha sido construída sob uma maldição, ainda assim Cristo a honrou com
sua presença, pois o Evangelho remove a maldição”.10
Uma multidão se acotovelava para ver
Jesus, mas só dois homens foram salvos: um rico e outro pobre. Um à beira do
caminho e o outro empoleirado em uma árvore. Para se encontrar com Cristo, um
precisou se levantar, e o outro precisou descer. Um era esquecido, e o outro
era odiado. Um era aristocrata e o outro era mendigo, mostrando que Deus não
faz acepção de pessoas. Não importa a sua posição política, financeira, a cor
da sua pele ou a sua religião, Jesus veio aqui para salvar você. Esta pode ser
também a sua última oportunidade. O tempo é agora para o encontro da salvação.11
Vejamos quais as lições que esse texto tem a nos ensinar.
1 – AS BARREIRAS QUE IMPEDIAM ZAQUEU DE VER JESUS (Lc 19.1-4).
Este é o único lugar no Novo Testamento
onde se menciona um “líder de coletores”.12 Zaqueu não era
simplesmente um publicano como os demais, mas, sim, maioral dos publicanos (architelones).
De modo que seu significado exato é desconhecido, mas parece indicar o chefe da
repartição local de impostos. Zaqueu empregaria outros para fazer a coleta
propriamente dita dos impostos, ao passo que ele pagaria aos romanos a parte
exigida por eles. Não é surpreendente que Zaqueu era rico. [13] Zaqueu estava
no topo da pirâmide.
O nome Zaqueu é de origem hebraica e
significa “puro”, “justo”. [14] Era um nome judeu, uma variante do qual no
Antigo Testamento aparece como “Zacai” (Ed 2.9; Ne 7.14). [15] Zacai era um
nome comum entre os judeus. Havia um famoso rabino, aproximadamente nesta
época, com este nome. [16] Outro cobrador de impostos conhecido pelo seu nome
foi Mateus ou Levi (Mt 9.9).
John MacArthur destaca que os cobradores de impostos eram os párias mais odiados e desprezados em Israel.
Não era
um crime a ser um cobrador de impostos, uma vez que a tributação é uma
instituição divina. O reino teocrático de Israel no Antigo Testamento foi
financiado por um sistema de tributação detalhado no qual cada pessoa pagava
essencialmente 23,3 por cento de sua renda para apoiar o governo. Quando alguns
cobradores de impostos arrependidos perguntaram a João Batista: “Mestre, o que
devemos fazer?” (Lc 3.12), ele não lhes disse para parar seus trabalhos como
cobradores de impostos, mas sim ordenou-lhes, “Recolham não mais do que aquilo
que você foi ordenado” (v. 13). Jesus ordenou que os impostos deveriam ser
pagos quando disse: “Dai a César o que é de César” (Lc 20.25; cf. Rm 13.7), e
Ele mesmo pagou os impostos necessários (Mt 17.24-27).
O que Deus condenava eram os impostos abusivos ou ilegítimos, extorsão, desonestidade, e tirar dinheiro de pessoas por uso de violência física, intimidação e crueldade, como os cobradores de impostos no mundo antigo faziam.17
Hernandes Dias Lopes enfatiza que Zaqueu era maioral ou o chefe dos publicanos.
Embora seu nome signifique “puro”, ele era considerado um homem repugnante pelo povo. Zaqueu era a antítese do seu nome. Seu nome significa justo, mas ele enriquecera por meios fraudulentos. Ele era o cabeça daquele odiado esquema de corrupção. Era um homem inteligente e esperto que usava o trabalho de outros para se fortalecer. Mas, a despeito da sua posição, ele procurou ver a Jesus (19.3). Espiritualmente, era um homem infeliz, necessitado, insatisfeito, perdido e incompleto. Sua vida era marcada por um vazio que nem a fama, nem o dinheiro, nem o sucesso podia preencher. Ele tinha dinheiro, mas não tinha paz. Era rico, mas não feliz. “Melhor é o pouco havendo temor do Senhor, do que grande tesouro onde há inquietação” (Pv 15.16).18
Apesar de Zaqueu ser um homem de grande
influência na cidade de Jericó, ele encontrou alguns obstáculos para ver Jesus.
Primeiro, o obstáculo da multidão (Lc
19.3b). A cena não é uma aldeia quieta da Galileia, mas uma cena bem
pública às portas de Jerusalém. Os que estavam ali não eram os poucos que
estiveram com Jesus em Seus primeiros dias, mas uma multidão tão grande que um
homem pequeno como Zaqueu nem conseguia vê-lo. [19] Havia tantas pessoas que
Zaqueu estava encontrando dificuldades, não só para ver Jesus, mas também de
identificá-lo.
A mesma multidão quis calar o cego Bartimeu
em Jericó. A multidão apertava Zaqueu e não o deixava ver Jesus. Cuidado com a
multidão, que pode ser um estorvo na sua vida. Não deixe que a multidão sufoque
o seu grito de socorro nem que ela impeça você de ter um encontro com Cristo.
Quantas vezes um indivíduo se sente constrangido de ir ao Salvador por causa de
parentes, amigos, opinião pública e do povo. Zaqueu não se intimidou por causa
da multidão. Seu desejo de ver Jesus foi maior do que o obstáculo da multidão.
[20]
Segundo, o obstáculo de sua condição
física (Lc 19.3c). A altura de Zaqueu não permitia que ele olhasse por cima
da multidão. Não sabemos qual era a altura exata de Zaqueu, mas para Lucas
destacar que ele era uma pessoa de pequena estatura, tudo indica que ele
deveria sofrer de nanismo. Ele, para falar com as pessoas, tinha que erguer a
cabeça. É bem provável que isso era um fator de chacota em sua vida desde novo.
É bem provável que Zaqueu trouxesse em sua alma traumas profundos devido a
isso.
Muitas pessoas trazem tantos traumas em suas vidas que dificilmente conseguem ver Jesus devido a baixeza de suas condições emocionais. Se veem impuras demais para se aproximarem de Jesus. Pessoas tão machucadas em suas almas que acham que não são importantes para o Senhor. No entanto, o apóstolo Paulo escrevendo aos Coríntios disse:
“Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes; e Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são; para que nenhuma carne se glorie perante ele” (1Co 1.27-29).
2 – AS BARREIRAS QUE ZAQUEU SUPEROU PARA VER JESUS (Lc 1.4,7).
Zaqueu não se conformou em ficar sem ver
Jesus. Talvez por ter passado por tantas coisas ruins e ter que enfrentar
tantas coisas para superá-las, que ele não mediu esforços para ver Aquele que
pela última vez passaria em Jericó. Como dizem: “Se a vida lhe der um limão,
faça uma limonada”.
Vejamos quais as barreiras que Zaqueu superou
para ver o Senhor.
Primeiro, ele correu à frente da
multidão. Ele deixou de lado sua posição social e correu pelo meio da rua,
passando à frente de todos para poder achar um lugar que facilitasse ver o
Mestre. É provável que durante toda sua vida ele vivesse correndo das chacotas
devido a sua pouca altura. Corresse dos outros meninos para não apanhar.
Corresse dos bullyings constantes que sofria na cidade. Ele já estava
acostumado a correr para poder se defender, mas desta vez, estava correndo para
ver Jesus.
Segundo, ele não se importou com a
profissão que exercia (Lc 19.2). Ele não era uma pessoa do povo, uma pessoa
comum. Ele era o chefe dos cobradores de impostos da cidade mais importante da
região. Ele ocupava um lugar de destaque na cidade. Mas nada disso o impediu de
correr pelas ruas da cidade para poder ver Jesus.
Wiersbe destaca que no Oriente, não era
comum um homem adulto correr, especialmente um funcionário público de posses.
Zaqueu, no entanto, correu pela rua como um garotinho seguindo um desfile e até
subiu numa árvore! Sem dúvida, a curiosidade é uma das características da
maioria das crianças e, nesse dia, Zaqueu deixou-se levar por sua curiosidade.
[21]
Uma das coisas que mais impedem as pessoas
de verem Jesus é o orgulho. Muitos até abraçam a religião, mas não abraçam a fé
genuína, com vergonha de serem taxados de fanáticos. Medo de não serem mais
aceitos pelos amigos, e para não ficarem de lado na sociedade, acabam abraçando
um Cristo gnóstico. Um Cristo placebo. Um Cristo ao gosto do freguês.
Terceiro, ele sobe em um sicômoro (Lc
19.4b). Sendo ele de pequena estatura, não podia ver Jesus. Não obstante, tão
profundo era seu interesse pelo Mestre que estava disposto a fazer quase
qualquer coisa para vê-lo. Portanto, sabendo para onde Jesus ia, célere correu
adiante da multidão e, sem se importar com sua posição social, subiu em um
sicômoro, um dos que haviam sido ali plantados à margem da via. É também
chamado figueira sicômoro, e é altamente apreciado pela sombra que proporciona.
[22]
A figueira brava (ou sicômoro) em que ele
subiu era o fícus-sycomorus. Seu tronco horizontal e baixo facilitava a
subida, e sua folhagem era suficiente para escondê-lo da multidão. [23]
Existem hoje muitas pessoas iguais a Zaqueu,
que são muito curiosas e estão desejosas de ver Jesus. Devido a isso, elas
acabam fazendo coisas que foge à normalidade do que é o cristianismo bíblico. Muitas
pessoas se envolvem em vários tipos de religiões acreditando que Jesus esteja
ali, ou que passará por ali. No entanto, o Jesus bíblico se revela nas
Escrituras, através da ação do Espírito Santo, o revelando em nossos corações.
Qualquer outro “Cristo” fora das Escrituras é um falso Cristo. E qualquer
pessoa que o apresenta ao mundo é um falso profeta.
Zaqueu encontrou o Jesus verdadeiro, pois
Ele estava passando exatamente onde Zaqueu se encontrava. Mas observe que não
foi Zaqueu que viu Jesus, mas Jesus que o viu e o chamou.
Quarto, ele não dá ouvidos aos murmuradores (Lc 19.7). Quem são os murmuradores? São aqueles que se enxergam como justos e únicos merecedores da salvação. São aqueles que chegam aos ouvidos de Jesus para dizer: Esse Zaqueu é lalau; ele é sujo, ele é indigno. Os murmuradores são aqueles que acham que são melhores do que os outros. [24]
3 – O ENCONTRO DE JESUS COM ZAQUEU (Lc 19.5,6).
Zaqueu sobe em uma árvore para ver
Jesus, mas ele foi surpreendido por Jesus. Ele que queria ver Jesus, foi visto antes
pelo Senhor Jesus e abordado pelo Mestre.
Com isso em mente, podemos tirar
algumas lições fundamentais aqui.
Primeiro, Jesus
buscou Zaqueu antes de Zaqueu buscá-lo (Lc 19.5).
Quando Jesus chegou àquele lugar onde Zaqueu estava, sentado na “sala de estar”
da árvore. Jesus agiu de maneira que deve tê-lo deixado chocado. Primeiro, o
Senhor parou, então olhou para cima e fez contato visual com Zaqueu, e chamou-o
pelo nome, embora eles nunca tivessem se encontrado (cf. Sua interação com
Natanael em Jo 1.45-48). E o mais impressionante de tudo, o Senhor ordenou
Zaqueu para levá-lo para sua casa! [25]
William Hendriksen nessa mesma linha
de pensamento diz que é especialmente significativo notar que mesmo que Zaqueu
certamente estivesse muito ansioso para ver Jesus, foi este e não o líder dos coletores
quem tomou a iniciativa de estabelecer um contato pessoal entre ambos. Era
Jesus quem estava buscando e salvando (veja v. 10). [26]
Hernandes Dias Lopes citando Walter Liefeld diz que o desejo de Zaqueu de ver Jesus foi suplantado pelo desejo de Jesus de vê-lo. [27] Wiersbe destaca que Zaqueu pensou que estava procurando Jesus (Lc 19.3), mas, na verdade, era Jesus quem o procurava (Lc 19.10)! Não é próprio da natureza do pecador perdido buscar o Salvador (Rm 3.11). [28]
Segundo, foi um chamado eficaz (Lc 19.5). Charles H. Spurgeon diz que o chamado eficaz significa que o Espírito Santo de Deus age no coração de um homem de tal maneira que quando ele recebe o chamado de Deus, não pode fazer nada senão obedecer a ordem e vir até Deus. [29] Foi isso que ocorreu com Zaqueu quando Jesus o chamou.
Terceiro, o chamado de Jesus foi pessoal (Lc 19.4a). Jesus encontrou aquele que subira na árvore, chamou-o pelo nome, olhou para dentro de seu coração e convidou-se para ser hóspede na casa dele. Cumpre notar bem cada traço da história. Jesus chama Zaqueu pelo nome, assim como o próprio Deus também chama seus redimidos pelo nome (cf. Is 43.1). [30]
Jesus chamou por Zaqueu, embora, é bem
provável que houvesse outras pessoas na árvore. Há diferentes tipos de chamados
na Bíblia. Lemos... “...porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos” (Mt
20.16). Este é um exemplo de chamado geral de Deus para todos os que estiverem
ouvindo o evangelho. Os homens não têm em si mesmos o poder para responder a
esse chamado. O chamado pessoal é o eficaz. Deus está operando no coração da
pessoa que Ele chamou pelo nome. Ela responderá. Ela seguirá o chamado de Deus.
[31] O evangelho é anunciado aos pecadores e aos alienados de Deus, diz
Champlin, e não há exceções na operação da graça de Deus. [32]
Quarto, foi um chamado urgente (Lc
19.5b). Desce depressa. Essa foi a ordem de Jesus para Zaqueu. A salvação é
algo urgente. E hoje. E agora. Não é possível adiar mais. Aquele era o último
dia. Aquela era a última hora. Jesus nunca mais passaria por Jericó. Jesus tem
pressa para salvar você. Hoje é o dia da visitação de Deus à sua vida. Não
perca o dia da sua oportunidade. Não endureça o seu coração. Busque o Senhor
enquanto se pode achar. A eternidade jaz à porta. [33]
Os verbos traduzidos por “descer e
pressa” são imperativos, e requerem uma ação imediata. O Senhor sabe que não só
Ele salvará, mas onde e quando que a salvação terá lugar (cf. Jo 3.8). [34]
Quinto, foi um chamado à humildade
(Lc 19.5b). Descer é uma experiência dolorosa. Primeiro, devemos descer do
pensamento de que nossas próprias obras podem nos salvar. Temos que descer
ainda mais, até reconhecermos que somos pecadores desobedientes. Então, temos
que ir ainda mais baixo, até clamarmos por Deus em desespero, dizendo-lhe que
não podemos fazer nada para nos salvar. Quando Deus nos trouxe para baixo,
então Ele nos levantará. “Ele derrubou dos seus tronos os poderosos e exaltou
os humildes” (Lc 1.52). [35]
Matthew Henry
nessa mesma linha de pensamento destaca que aqueles a quem Cristo chama devem
descer, devem humilhar-se, e não pensar em subir ao céu por qualquer justiça
própria; e devem apressar-se em descer, pois os atrasos são perigosos. [36]
Sexto, foi um chamado à comunhão
(Lc 19.5c). Jericó, naquela ocasião, era uma das cidades preferidas pelos
sacerdotes. Nosso Senhor passou adiante de suas casas, bem como das moradias
dos fariseus, a fim de passar a noite hospedado na casa de um publicano. Ali,
conforme podemos crer, Jesus viu uma entrada para uma atuação especial, que não
pôde encontrar em nenhum outro lugar. [37]
James R. Edwards destaca que esta é a
única ocasião nos evangelhos em que Jesus se convida para ficar na presença ou
dependência de outra pessoa. [38]
Hernandes Dias Lopes nessa mesma linha
de pensamento também destaca que Ele nunca entrou numa casa sem ser chamado e
nunca ficou sem ser acolhido. Jesus disse: [...] me convém ficar em sua casa,
ou seja, “eu preciso ficar em sua casa”. Estava na agenda de Cristo salvar
Zaqueu, como estava na agenda de Cristo passar em Samaria e salvar a mulher
samaritana (Jo 4.1,2). [39]
Concordo com
John C. Ryle quando diz que nunca podemos desprezar o “dia dos humildes
começos” (Zc 4.10). Não devemos reputar insignificante qualquer coisa que se
refere à alma. Os caminhos pelo quais o Espírito Santo leva homens e mulheres a
Cristo são maravilhosos e misteriosos. Com frequência, Ele inicia em
determinado coração uma obra que permanecerá por toda a eternidade, quando
aqueles que a observam não percebem nada admirável. Em cada obra, precisa haver
um começo; e na obra espiritual o começo em geral é muito insignificante. [40]
4 – JESUS VAI À CASA DE ZAQUEU (LC 19.6,7).
O pedido no v. 5 deve ter surpreendido tanto Zaqueu como a multidão. Da mesma forma que o cego tinha sido escolhido, aqui também aconteceu agora a mesma coisa. A alegria de Zaqueu superou seu senso de dignidade, e ele desceu a toda a pressa da árvore. [41]
Fritz Rienecker destaca que com pressa
maior do que ele jamais usara para recolher o mais palpável rendimento, Zaqueu
abriu a casa para o importante viajante, ao qual seu coração se sentira tão
extraordinariamente atraído. – O Senhor Jesus havia dito “depressa”, e
rapidamente Zaqueu organizara tudo. [42]
Com isso em mente, podemos destacar duas
lições.
Primeiro, Zaqueu recebe Jesus com
alegria (Lc 19.6). O coração de Zaqueu explodiu de júbilo com o desejo de
Jesus de estar em sua casa. De todas as casas da cidade de Jericó, a casa mais
improvável seria a de Zaqueu para o Senhor pernoitar. É provável que teria sido
a primeira vez que uma pessoa honrada, cerimonialmente limpa e respeitada tivesse
ido a sua casa. Como o pai recebeu o filho pródigo (Lc 15.11-32), Jesus abraçou
o chefe dos publicanos odiado por todos da cidade. [43]
Segundo, a cidade murmurou da
atitude de Jesus (Lc 19.7). A multidão deve ter sido quase unânime na
reprovação da escolha de Jesus. Sentiram que a sua atitude era uma afronta aos
sacerdotes e a outros líderes religiosos dos locais por onde Ele passara. Sua
escolha era uma aprovação visível deste homem chamado tão rotineiramente de
“pecador”. Duas coisas os impediram de reconhecer o verdadeiro motivo de Jesus.
Uma era o exclusivismo cego deles, que se recusava a enxergar qualquer coisa
boa em um publicano. A outra era a incapacidade de entender como Jesus poderia
se associar com pecadores sem se contaminar. [44]
Isso prova o amor de Jesus e o propósito
urgente de Jesus em salvar Zaqueu. O prazer de Deus é perdoar os seus pecados.
Jesus revela que o seu amor é desprovido de preconceitos. A cidade inteira
murmurou ao ver Jesus se hospedando com Zaqueu (19.7). Eles sabiam que Zaqueu
era um grande pecador. Mas Jesus é o amigo dos publicanos e pecadores. Ele não
veio buscar aqueles que se acham justos e bons. Como médico, ele veio curar os
que se consideram doentes. [45]
AS EVIDÊNCIAS DA SALVAÇÃO DE ZAQUEU (Lc 6,8-10).
Um testemunho não tem nenhum valor a não ser que esteja respaldado por obras que garantam sua sinceridade. Jesus Cristo não pede uma mudança nas palavras, e sim na vida. [46]
Com isso em mente, podemos destacar
algumas lições.
Primeiro, a prontidão de Zaqueu em
obedecer ao chamado de Jesus (Lc 19.6). A conversão de Zaqueu se deu quando o
Senhor o chama e ele o recebe com alegria em sua casa e em seu coração. Zaqueu
desceu depressa. Ele obedeceu sem questionar e sem adiar. Abriu sua vida, seu
coração, sua consciência e seu cofre e deixou que Jesus entrasse em cada área
da sua vida. [47]
Segundo, Zaqueu tomou uma decisão
voluntariamente (Lc 19.8). Aqui vemos tanto um
verdadeiro espírito generoso como o desejo genuíno de reparar qualquer erro do
passado. As duas atitudes refletem uma mudança de coração. O discurso de Zaqueu
não foi dirigido à multidão, mas a Jesus. Não era um esforço para convencer as
pessoas de que ele era sincero. Ao invés disso, era uma resposta não premeditada,
espontânea, de um coração que se tornara limpo, e de um espírito que se tornara
novo e que havia recebido a vida eterna. [48]
O rico cobrador de impostos enxergou o
erro de seu modo de viver (dado ao materialismo, à desonestidade, à cobiça) e
agora vê-se arrependido; e, como evidência de seu arrependimento, promete dar
metade de suas riquezas aos pobres e grande parte do que sobraria devolveria às
pessoas a quem extorquira. [49] Como disse John C. Ryle: “Quando um crente
rico
começa a distribuir sua riqueza e um extorquidor começa a fazer restituições, certamente
podemos crer que as coisas velhas já passaram e tudo se fez novo (2Co 5.17)”.
[50]
John MacArthur diz que a salvação do homem é evidente a partir da transformação de sua vida na parte de sua vida em que o seu pecado se manifestou mais abertamente. [51]
Vemos isto em duas atitudes de Zaqueu:
O primeiro sinal de conversão na vida de Zaqueu foi o amor, a generosidade, a disposição de dar. “Eu resolvo dar”. Até então, sua vida era marcada por receber e tomar o que era dos outros. Ele, que sempre tomou, agora quer dar.
O segundo sinal foi a prontidão para corrigir as faltas do passado. Zaqueu desviou muita coisa de gente inocente. Pisou nos menos favorecidos. Ganhou muita propina pelos cambalachos que fazia para os ricos. Ao encontrar-se com Jesus, ele se dispôs a corrigir as faltas do seu passado. Uma pessoa convertida torna-se honesta. Zaqueu quer agora reparar os erros do passado. Quer restituir às pessoas a quem tinha lesado. Quer limpar o seu nome. Quer uma vida certa. [52]
Sua restituição foi além do que era
legalmente necessário. Somente se fosse um roubo deliberado e violento com fins
de destruição era necessário restituir o quádruplo (Êx 22.1). Se fosse um roubo
comum, e os bens originais não podiam ser devolvidos, devia-se pagar o dobro de
seu valor (Êx 22.4,7). Se mediava confissão voluntária, e se oferecia uma
restituição voluntária, devia-se pagar o valar original mais um quinto do mesmo
(Lv 6.5; Nm 5.7). Zaqueu estava decidido a fazer mais do que a lei pedia.
Mostrou por suas obras que tinha mudado. [53]
Terceiro, o testemunho de Jesus a
respeito da conversão de Zaqueu (Lc 19.9,10). Um pecador em busca do
Salvador se encontra com o Salvador que está em busca do pecador. Com
verdadeiro arrependimento, o homem encontrou a salvação pessoal. Estas palavras
graciosas do Mestre eram uma garantia da salvação de Zaqueu, uma proclamação em
sua defesa diante da multidão, e uma promessa a todos os homens, em todos os
lugares, e em todas as épocas, de que Jesus Cristo salva os pecadores. [54]
John MacArthur destaca que foi tão
completa a transformação de Zaqueu que ele instantaneamente deixou de ser um
ladrão para ser um benfeitor; deixou de ser egoísta e se tornou altruísta, deixou
de ser um tomador e passou a ser um doador. Ele se tornou um verdadeiro judeu,
parte do Israel de Deus (Gl 6.16), um verdadeiro judeu interiormente (Rm 2.28,29).
Ele já não era apenas um filho de Abraão por raça, mas um filho de Abraão pela
fé. Naquele mesmo dia, ele foi justificado pela fé. O que tinha sido perdido
foi salvo e liberto do pecado, da morte e do inferno. O Senhor deu-lhe vida e
luz para crer e se arrepender e sua conduta foi transformada. [55]
E Jesus conclui dizendo: “Hoje veio
a salvação a esta casa, pois também este é filho de Abraão. Porque o Filho do
Homem veio buscar e salvar o perdido” (Lc 19.9, 10). Com essas palavras,
este incidente se torna, em microcosmo, a reprodução do ministério de Jesus
(cf. 15.3-10; 1Tm 1.15). Esta é uma importante declaração do propósito de
Jesus. Hoje confirma a conclusão de que as decisões financeiras de Zaqueu
tinham acabado de ser feitas. Filho de Abraão pode ter sido uma repreensão aos
judeus que criticavam Zaqueu e queriam exclui-lo dos plenos privilégios judeus.
Salvação aqui equivale à vida eterna (Lc 18.18) e ao reino de Deus (Lc 18.17).
[56]
CONCLUSÃO
Quando um dia começa, nunca sabemos como terminará. Para Zaqueu, aquele diaterminou em alegre comunhão com o Filho de Deus, pois o publicano havia sidotransformado e tinha diante de si uma nova vida. Jesus ainda procura os perdidose deseja ardentemente salvá-los. Você já foi encontrado? [57]
Pense nisso!
Bibliografia:
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2017, p. 546.
12 – Hendriksen,
William. Lucas, vol. 2, Ed. Cultura Cristã, São Paulo, SP, 2003, p. 424.
13 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e
Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 255.
15 – Edwards, James R. O Comentário de
Lucas, Ed. Shedd, Sto Amaro, SP, 2019, p. 665.
16 – Henry, Matthew. Comentário Bíblico
Novo Testamento Mateus a João, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2008, p. 687.
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Testamento, Mateus a Apocalipse, Lucas, p. 2887.
26 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, Ed.
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27 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o
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31 – Spurgeon, Charles H. Sermões Sobre a
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32 – Champlin, R. N. O Novo Testamento
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35 – Spurgeon, Charles H. Sermões Sobre a
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36 – Henry, Matthew. Comentário Bíblico
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37 – Champlin, R. N. O Novo Testamento
Interpretado, versículo por versículo, Lucas, Vol. 2, Ed. Hagnos, São Paulo,
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38 – Edwards, James R. O Comentário de
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42 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de
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43 – MacArthur, John. Comentário do Novo
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45 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o
homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 551.
46 – Barclay, William. Comentário do Novo
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48 – Childers, Charles L. Comentário
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49 – Evans, Craig A. O Novo Comentário
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50 – Ryle, J. C. Meditações no Evangelho de
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52 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o
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53 – Barclay, William. Comentário do Novo
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54 – Childers, Charles L. Comentário
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55 – MacArthur, John. Comentário do Novo
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56 – Ash, Anthony Lee. O Evangelho Segundo
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