quinta-feira, 9 de novembro de 2023

O IRMÃO MAIS VELHO, PERDIDO DENTRO DE CASA - Lucas 15.25-32

Por Silas Figueira

Texto base: Lucas 15.25-32

INTRODUÇÃO

Nestes versículos começa a segunda porção da parábola do filho pródigo. Na realidade fala da história de outro filho pródigo – aquele que permaneceu em casa, e não o que fez, a longa jornada para o país distante. [1] O filho mais velho não gastou sua herança dissolutamente. Não vivia em orgias e farras. Nunca havia envergonhado o pai. Sempre estivera na casa paterna, trabalhando para o pai, mas também estava perdido. Há pessoas perdidas dentro da igreja que nunca foram para uma boate, nunca se drogaram, nunca se prostituíram, mas estão perdidas na casa do pai. [2]

John MacArthur diz que:

“Existem duas variações básicas de pecadores. Alguns são diretos e intrépidos em sua maldade; eles não ligam muito para quem vê o que eles fazem. Invariavelmente, o pecado deles é o orgulho – o tipo de pecado que se vê em um amor desnecessário por si mesmo e a incontrolável luxúria por prazeres próprios. Do outro lado, estão os pecadores secretos, que preferem pecar quando ninguém mais está vendo. Eles tentam mascarar seus pecados de várias formas, sempre com a pretensão da religião. O orgulho também é um pecado, mas é um tipo de orgulho que se manifesta na hipocrisia”. [3]

James R. Edwards também destaca que o filho mais moço estava totalmente separado, mas o mais velho só estava separado de forma velada. Por todas as aparências, o campo é um lugar apropriado para ele estar: ele está fazendo o que se espera que se faça, e a uma distância apropriada do pai. A separação do irmão mais moço obviamente não era segura, mas a do irmão mais velho aparentemente o é. As aparências, contudo, enganam, pois, dos dois irmãos, o mais velho está separado de forma mais perigosa. [4]

Vejamos o que esse texto tem as nos ensinar.

1 – O FILHO MAIS VELHO NÃO SE CONFORMA COM A FESTA FEITA PARA O IRMÃO (Lc 15.15.24-28).

Ao descobrir a causa da celebração, o irmão mais velho fica indignado e recusa-se a tomar parte nela. Sente-se ludibriado, visto que nenhuma festa foi celebrada em sua homenagem, a ele que sempre foi fiel. [5]

Com isso em mente, podemos destacar algumas lições:

Em primeiro lugar, ele não se alegra com a volta do irmão. Graças a Deus o irmão mais novo não encontra o irmão mais velho primeiro. Imagino que o irmão mais velho não deixaria o seu irmão entrar na aldeia sem antes demonstrar total arrependimento. Depois, se o deixasse entrar, não seria em casa. Se o irmão mais novo tivesse sorte, iria morar com os trabalhadores de seu pai. Provavelmente seria ofendido e humilhado por seus erros, e não reconciliado por seu arrependimento.

Em segundo lugar, ele não escondeu a sua indignação por tudo que estava acontecendo (Lc 15.28). O irmão mais velho não faz questão nenhuma em disfarçar a sua ira por tudo que estava acontecendo. Ele se indignou. Esta explosão foi o resultado de longo ressentimento com relação ao irmão voluntarioso, e suspeitas da parcialidade do pai, a favor do filho errante. [6] 

Jesus ensinou que os dois principais mandamentos da Lei são amar a Deus sobre todas as coisas e amar o próximo como a si mesmo. Esse filho quebrou esses dois mandamentos: ele nem amou a Deus, representado pelo Pai, nem amou ao seu irmão. Ele não perdoou o Pai por ter recebido o filho pródigo, nem perdoou o irmão pelos seus erros. Há pessoas que estão na igreja, mas não têm amor por Deus nem pelos perdidos. Estão na igreja, mas não amam os irmãos. [7] Leon Morris destaca que não se pode deixar de ver a semelhança com os fariseus. Podemos facilmente imaginar o irmão mais velho dizendo acerca do pai: “Este recebe pecadores e come com eles” (Lc 15.2). [8]

2 – O IRMÃO MAIS VELHO JUSTIFICA SUA IRA (Lc 15.29,30).

Ele era veloz para ver o pecado do irmão, mas não enxergava os próprios pecados. Era cáustico para condenar o irmão, enquanto via a si mesmo como o padrão da obediência. Os fariseus definiam pecado em termos de ações exteriores, e não de atitudes íntimas. Eles eram orgulhosos de si mesmos. [9]

Com isso em mente, vamos analisar as suas justificativas.

Em primeiro lugar, sua ira não era dirigida totalmente ao irmão mais novo, mas também ao pai. Ele não se conformava em saber que o irmão mais novo fora recebido com festa depois de tudo que fez. E cá entre nós, há muito do irmão mais velho em nossas veias. Há ou não há?

Em segundo lugar, ele não servia ao pai como filho, mas como em escravo. Leon Morris diz que o verbo douleuo, “servir como escravo”, o desmascara. O filho mais velho nunca realmente entendera o que significa ser um filho. E talvez por isso nunca entendeu o que significa ser um pai. Não podia entender por que seu pai ficou tão cheio de alegria com a volta do pródigo. [10]

Se servirmos a Deus dentro da visão do irmão mais velho, seremos os mais miseráveis dos servos. Quem não se vê como filho nunca entenderá a graça de Deus. Somos salvos pela graça e não pelas obras (Ef 2.8-10). Uma pessoa que serve a Deus assim como o irmão mais velho, não entendeu o que é servir a Deus. Tal pessoa está servindo a si mesmo e não a Deus.

É igual a história de uma mulher que estava conversando com uma de suas amigas. E essa amiga era cristã e servia a Deus em outra igreja. E ela começou a dizer como era maravilhoso servir a Deus, como Jesus a amava e que a graça do Senhor a inundava de alegria pela sua salvação. A amiga sem pestanejar disse para ela: “Esse Jesus eu quero conhecer. O que eu sirvo na minha igreja é totalmente diferente do seu!”.

O problema nunca está em Deus, mas na maneira como Ele nos é apresentado e como o servimos.

Em terceiro lugar, na visão do filho mais velho, o pai estava agindo de forma injusta. O pai divide seus bens com o filho mais novo (haveres; vida – bios em grego – vv. 12, 30) e abate o “novilho gordo”, o melhor do rebanho para ele. Mas o pai, para seu filho mais velho que trabalha há muito tempo e é moderado e obediente, não separa “nem um cabrito para ele festejar com seus amigos”. É importante observar que a cobiçada celebração do filho mais velho não inclui o pai. [11] E muito menos o irmão mais novo. A festa que ele quer realizar não inclui a família, mas somente ele e os amigos.

Essa atitude nos lembra Asafe no Salmo 73.13 quando disse: “Na verdade que em vão tenho purificado o meu coração; e lavei as minhas mãos na inocência”.

Em quarto lugar, o irmão mais velho joga na face do pai os pecados do irmão. Dizem que a melhor arma de defesa é o ataque. No entanto, o ataque do filho mais velho ao irmão e ao pai é desproporcional e maldosa. Pela expressão do irmão mais velho, vemos que ele sabia onde o irmão estava e o que estava fazendo. Ele acompanhava de perto os erros do irmão.

Existem muitas pessoas que tem prazer no pecado dos outros, pois assim, se sentem mais santas, mas justas e merecedoras das bênçãos de Deus. Tais pessoas ainda não entenderam a graça de Deus. Champlin destaca que para o irmão mais velho, o arrependimento jamais poderia encobrir a má reputação quanto ao passado. [12]

Em quinto lugar, ao desprezar a graça do pai, ele estava se condenando. Quer estivesse disposto a admitir isso ou não, o irmão mais velho precisava do perdão e da misericórdia do pai tanto quanto o Pródigo. Em vez de se ressentir da bondade do pai com seu irmão, esse filho deveria ter sido o mais ávido participante da comemoração porque ele também estava precisando desesperadamente desse tipo de misericórdia. Se ele simplesmente tivesse uma compreensão honesta da maldade do próprio coração, teria se agarrado à misericórdia do pai como a maior razão de todas para se regozijar. [13]

Ele odiava o irmão e demonstrava esse mesmo ódio para com o pai. Este homem era uma pessoa amarga e não fazia nenhuma questão em esconder o seu descontentamento. Ele se via melhor que seu irmão e o único digno de ser amado. Essa armadilha é perigosa, e muitos têm caído nela. Ela faz nos ver merecedores e não alvos da misericórdia de Deus.

Ele estava escorado orgulhosamente em sua religiosidade, arrotando uma santarronice discriminatória. Só ele presta; o pai e o irmão estão debaixo de suas acusações mais veementes. Sua mágoa começa a vazar. Para ele, quem erra não tem chance de se recuperar. No seu vocabulário, não existe a palavra perdão. Na sua religião, não existe a oportunidade de restauração. [14]

3 – A ATITUDE DO PAI (Lc 15.31,32).

A resposta do pai trazida na sequência representa uma obra prima do amor paterno. Sem o menor tom de irritação, sem o mais leve traço de repreensão o pai se justifica com tranquilidade e mansidão contra a acusação de injustiça em relação ao filho mais velho. O pai dirige-se ao filho mais velho como “filho”. Essa interpelação é uma delicada e amorosa correção em relação ao termo “pai”, que o filho mais velho deixou de utilizar em suas duras e injustificadas acusações de mágoa e ira. [15]

A atitude do pai é reveladora para o filho mais velho.

Em primeiro lugar, o pai lembra da comunhão entre eles. “Filho, tu sempre estás comigo”. Aquilo pelo que deveria estar mais agradecido, e que ignorava ou negligenciava, era: Sempre estás comigo. O amor, a honra, o respeito, e o companheirismo de seu pai, deveriam estar guardados com ele acima de qualquer coisa. [16]

Se nossa comunhão com Deus está rompida, não conseguimos ter comunhão com nossos irmãos e irmãs. Da mesma forma, se abrigamos em nosso coração algum rancor contra outros, também não somos capazes de ter comunhão com Deus (ver Mt 5.2126; 1Jo 4.18-21). Devemos perdoar os que pecam quando demonstram arrependimento e, com graça e humildade, procurar restaurá-los (Mt 18.15-35; Gl 6.1-5; Ef 4.32). [17]

Em segundo lugar, o pai quer restaurar a família. “...este teu irmão...”. O filho mais velho dirige-se ao pai chamando seu irmão de “este teu filho” (v. 30). No entanto o pai lembra ao filho mais velho que quem havia retornado era o “teu irmão”. Na restauração da família, o amor do pai cria uma nova família. O pai recupera o filho e, daí, o filho mais velho recupera – ou ganha pela primeira vez – um irmão. [18]

Em terceiro lugar, o pai lembra ao filho mais velho o motivo de tanta alegria (Lc 15.32). “Mas era justo alegrarmo-nos e folgarmos, porque este teu irmão estava morto, e reviveu; e tinha-se perdido, e achou-se”.

MacArthur destaca que no que concernia ao pai, a comemoração era perfeitamente cabida e natural. Seu filho perdido tinha retornado uma pessoa diferente. Era como receber alguém de volta dos mortos. Eles tinham que celebrar isso. Não havia alternativa: “... nós tínhamos que celebrar...”. Teria sido errado não celebrar. A implicação implícita deveria ter tocado o coração do filho mais velho: “Nós celebraremos por você também, se vier”. [19]

Em terceiro lugar, a pai é a figura central desta parábola. O amor do pai irradia do centro da história, iluminando todos ao seu redor – o ressentido filho mais velho e o humilhado filho mais novo. [20] O tema central é, portanto, “o amor anelante do pai pelos perdidos”. O Pai os busca, os traz de volta e se alegra em sua conversão operada pelo Espírito. Esse é o ponto central das três parábolas. [21]

CONCLUSÃO

A aplicação desta parábola é clara. Os publicanos e pecadores são representados pelos pródigos. Embora seus pecados sejam muitos e graves, eles encontrarão o perdão quando retornarem ao Pai Celestial com um verdadeiro arrependimento. Por outro lado, os escribas e fariseus representados pelo irmão mais velho não são apenas desprovidos de amor pelos pecadores, mas tentam evitar que Deus opere na vida de outras pessoas. Não fazem nada para restaurar o perdido, e usam a influência que possuem para se oporem a qualquer um que procurar fazê-lo. Esta foi uma das maiores razões da oposição que fizeram a Jesus. [22]

Wiersbe destaca que neste capítulo, todos se alegraram, exceto o irmão mais velho. O pastor, a mulher e seus amigos alegraram-se ao encontrar algo. O filho mais novo alegrou-se ao voltar e ser recebido por um pai amoroso e bondoso. O pai alegrou-se ao receber o filho de volta em segurança. Mas o irmão mais velho não quis perdoar o irmão, de modo que não sentiu alegria alguma. Poderia ter se arrependido e participado da festa, mas se recusou e, assim, ficou do lado de fora, sofrendo. [23]

Pense nisso!

Bibliografia:

1 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, Lucas, Vol. 2, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2005, p. 156.

2 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 466.

3 – MacArthur, John. A Parábola do Filho Pródigo, Ed. Thomas Nelson, Rio de Janeiro, RJ, 2016, p. 163.

4 – Edwards, James R. O Comentário de Lucas, Ed. Shedd, Sto Amaro, SP, 2019, p. 565.

5 – Evans, Craig A. O Novo Comentário Bíblico Contemporâneo, Lucas, Ed. Vida, São Paulo, SP, 1996, p. 265.

6 – Robertson, A. T. Comentário de Lucas, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2013, p. 282.

7 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 466.

8 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 229.

9 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 466.

10 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 229.

11 – Edwards, James R. O Comentário de Lucas, Ed. Shedd, Sto Amaro, SP, 2019, p. 566.

12 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, Lucas, Vol. 2, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2005, p. 157.

13 – MacArthur, John. A Parábola do Filho Pródigo, Ed. Thomas Nelson, Rio de Janeiro, RJ, 2016, p. 186.

14 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 467.

15 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005, p. 328.

16 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 456.

17 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo An-dré, SP, 2007, p. 308.

18 – Edwards, James R. O Comentário de Lucas, Ed. Shedd, Sto Amaro, SP, 2019, p. 569.

19 – MacArthur, John. A Parábola do Filho Pródigo, Ed. Thomas Nelson, Rio de Janeiro, RJ, 2016, p. 196.

20 – Neale, David A. Lucas, 9 – 24, Novo Comentário Beacon, Ed. Central Gospel, Rio de Janeiro, RJ, 2015, p. 176.

21 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, Ed. Cultura Cristã, São Paulo, SP, 2003, p. 304.

22 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 456.

23 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 304. 

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