domingo, 18 de abril de 2021

JESUS TESTIFICA DE JOÃO BATISTA

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 7.24--35

INTRODUÇÃO

Aquilo que pensamos a respeito de nós mesmos ou que os outros pensam de nós não é tão importante quanto aquilo que Deus pensa. Jesus esperou até que os mensageiros [de João] tivessem partido e, então, elogiou João publicamente por seu ministério, revelando, ao mesmo tempo, o coração pecaminoso daqueles que rejeitavam o ministério de João [1].

João Batista, com frequência, testemunhou de Jesus; agora, Jesus testemunha de João [2]. Como disse J. C. Ryle, Jesus pleiteou a causa de seu amigo ausente utilizando um linguagem forte e ardente. Ordenou seus ouvintes a tirarem de sua mente as dúvidas a respeito desse homem piedoso [3].

Quando lemos as Escrituras, nós encontramos o Senhor testemunhando de algumas pessoas: Gideão o Senhor o chamou de “homem valoroso” (Jz 6.12); Daniel foi chamado de “homem muito amado” (Dn 10.11); João Batista “o maior profeta” (Lc 7.28); Herodes Jesus o chamou de “raposa” (Lc 13.32). Por isso mais uma vez repito: “Aquilo que pensamos a respeito de nós mesmos ou que os outros pensam de nós não é tão importante quanto aquilo que Deus pensa. De que maneira Jesus definiria você?

Sobre esse testemunho de Jesus a respeito de João que eu quero pensar com você.

1 – JOÃO UM HOMEM APROVADO POR JESUS (Lc 7.24-30).

Podemos destacar cinco características de João que o texto nos mostra.

1º - João Batista não era um homem que se curvava diante das adversidades (Lc 7.24). A cana a que Jesus se referia era comum nas margens dos rios do Oriente Próximo, incluindo as do Jordão, onde João batizou. Eles eram leves e flexíveis, acenando para trás e para frente com cada brisa. “Um caniço agitado pelo vento” sugere uma pessoa instável, levada em seu julgamento pelos ventos da opinião pública ou da desdita pessoal [4].

João Batista não era um caniço agitado pelo vento, que se curva diante das adversidades. Era um homem incomum e inabalável. Ele preferiu ir para a prisão com a consciência livre a ficar livre com a consciência prisioneira. Ele preferiu a morte à conivência com o pecado do rei Herodes. O martírio é preferível à apostasia! [5]. João Batista não era um homem de disposição instável, de conduta fraca e covarde.

Sua prisão por reprovar o rei Herodes mostrou que ele não tinha medo dos homens; e quanto à sua constância, apesar de parecer um pouco abalada pela mensagem que ele enviou, não foi prejudicada por ela. Pois sua fé em Cristo não podia deixar de permanecer inviolável, pois havia sido fundada em uma revelação específica e na descida visível do Espírito Santo, acompanhada por uma voz do céu, declarando que ele era o Filho de Deus.

Como nos fala Paulo em sua carta ao Efésios: “Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente” (Ef 4.14).

João Batista não era um caniço balançado pelo jogo do vento, mas sim um cedro sacudido pela tempestade [6]. Se alguma vez houve um homem com convicções inabaláveis, foi João Batista.

2º - João Batista não se deixou seduzir pelo poder e nem pelo luxo (Lc 7.25). João Batista não era um homem dos palácios, mas do deserto. Ele não se importava com os trajes finos dos palacianos. Todos sabiam que João usava uma roupa extremamente rústica - uma veste de pelos de camelo e um cinto de couro (Mt 3.4). Tanto que   a expressão “vestes delicadas” (malakos em grego), só usado em outras duas passagens do Novo Testamento em Mt 11.8 e em 1Co 6.9, conota “suavidade” ou até mesmo “efeminação” e pode ser um termo irônico. Contrasta a roupa áspera que o profeta realmente vestia. A expressão que se refere aos que estão “nos palácios reais” é uma alfinetada maliciosa no homem que matinha João Batista na prisão [7].

João Batista também não era uma celebridade que desfrutava a amizade de gente importante e os prazeres da riqueza [8]. João teve muitas oportunidades para jogar com a multidão e ganhar a aprovação das autoridades. Ele era uma figura tão poderosa e dominante que muitas pessoas pensavam que ele próprio poderia ser o Messias (Lc 3.15), no entanto, ele nunca se utilizou dessa popularidade para se promover e ser aceito por todos.

Diferentemente de alguns pastores que gostam dos holofotes e adoram andar com pessoas influentes. Andam com políticos de má índole, gente que tem o nome sujo por escândalos e desvio de verbas públicas. Esses pastores fazem questão de saírem em fotos com esse tipo de gente só para dizer que também são influentes. Gente assim envergonha o nome de João Batista que preferiu a prisão e a morte a apoiar o pecado de Herodes.     

Como falou o Reverendo Hernandes Dias Lopes: “João Batista era um homem insubornável. Ele não viveu bajulando os poderosos, tecendo-lhes elogios a despeito de seus pecados. Ao contrário, confrontou-os com firmeza granítica e robustez hercúlea. Ele não vendeu sua consciência para alcançar o favor do rei. Não buscou as glórias deste mundo para angariar favores efémeros, mas cumpriu cabal e fielmente o seu ministério” [9].

3º - João Batista, profeta e precursor do Messias (Lc 26,27). O povo reuniu-se no deserto para ver um profeta, uma vez que todos concordavam que havia séculos que um profeta verdadeiro não aparecia. Não é de admirar tamanha agitação. Jesus confirma o julgamento da multidão e o ultrapassa – João não era apenas um profeta, era mais que um profeta. Em que sentido? Neste: não só ele era como outros profetas do Antigo Testamento, um porta-voz direto de Deus para chamar a nação ao arrependimento, mas ele mesmo também foi o sujeito da profecia – aquele que, de acordo com a Escritura, anunciaria o Dia do Senhor (Lc 7.27) [10].

João Batista não era apenas um profeta, mas sim um profeta cujo ministério havia sido profetizado (Is 40.3 e Ml 3.1)! João Batista foi o último profeta do Antigo Testamento e, como mensageiro de Deus, teve o privilégio de apresentar o Messias a Israel [11].

A vida e o ministério de João Batista é a prova do que está escrito em Isaías 55.10,11: “Porque, assim como desce a chuva e a neve dos céus, e para lá não tornam, mas regam a terra, e a fazem produzir, e brotar, e dar semente ao semeador, e pão ao que come, assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei”.

4º - João Batista era uma pessoa ímpar no Reino de Deus (Lc 7.28). João Batista se destaca como primeiro entre todos os profetas por sua posição única no reino de Deus. Ele encerrou a antiga aliança e iniciou a nova. João merece ser chamado o maior entre todos os profetas, porque ele foi o enviado de quem falou Malaquias [12]. A partir de uma perspectiva terrena, o caráter e o chamado de João fez dele o maior homem nascido entre os homens. Em qualidades superiores como um ser humano, João era inigualável.

Mas fica uma pergunta: de que maneira o menor no reino de Deus é maior do que João? Em termos de posição, não de caráter nem de ministério. João foi arauto do Rei, anunciando o reino. Os cristãos de hoje são filhos do reino e amigos do Rei (Jo 15.15). O ministério de João constituiu um divisor de águas, tanto na história nacional de Israel quanto no plano redentor de Deus (Lc 16.16) [13].

Leon L. Morris diz que o menor no reino é maior, não por causa de quaisquer qualidades que venha a possuir, mas, sim, porque pertence ao tempo do cumprimento. Jesus não está subestimando a importância de João. Está colocando a membrezia do reino na sua perspectiva apropriada [14].

Essa declaração deve ser explicada à luz de Lc 10.23, 24: “Felizes sãos os olhos que veem o que vocês veem, pois eu lhes digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vocês estão vendo, mas não viram; e ouvir o que vocês estão ouvindo, mas não ouviram”. (NVI) O menor no reino era maior que João no sentido de ser mais altamente privilegiado, porque o João encarcerado não estava em contato tão estreito com Jesus como estava o menor dentre eles [15].

5º - João Batista pregou com ousadia a vinda do Reino de Deus (Lc 7.29,30, Mt 3.1,2). Muitos do povo em geral ouviram a mensagem de João, aceitaram-na e foram batizados por ele como prova de seu arrependimento. Assim, “reconheceram a justiça de Deus”, ou seja, concordaram com aquilo que Deus havia dito sobre eles (SI 51.4). Os líderes religiosos, porém, se justificaram a si mesmos (Lc 16.15) sem reconhecer a justiça de Deus e rejeitaram João e sua mensagem [16].

O que ocorreu no tempo de João Batista continua ocorrendo nos dias de hoje. O homem continua o mesmo, pois somos feitos do mesmo barro de Adão. Muitos por orgulho, por se verem independentes e autossuficientes rejeitam a Deus. Mas os humildes que olham para dentro de si e se veem dependentes de Deus, a estes o Senhor se revela. Como escreveu Paulo: “Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes; e Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são; para que nenhuma carne se glorie perante ele” (1Co 1.27-29).

2 – UMA DURA CRÍTICA AOS QUE REJEITAM OS MENSAGEIROS DE DEUS (Lc 7.31-35).

A parábola das crianças teimosas com certeza consideram de maneira especial os fariseus e escribas. Sua posição diante de João e Jesus assemelha-se à de crianças inconstantes ao brincar. Tocam a flauta, mas ninguém dança. Entoam um lamento fúnebre, porém ninguém golpeia o peito (Mt 11.17; Lc 7.32). Por meio dessa comparação Jesus afirma: seus contemporâneos são como as crianças mal-humoradas que criticam maldosamente tudo o que Deus realizou através de João e dele mesmo. No entanto, Deus enviou a essa geração João Batista e “o Filho do Homem”, como últimos emissários antes da catástrofe final. Por causa de seu modo de vida ascético, disseram de João Batista que ele teria um demônio. Jesus, que tinha uma conduta não-ascética, foi chamado glutão e beberrão, um amigo de coletores de impostos e pecadores (Lc 5.27-32; 15.1). A pregação de arrependimento de João não lhes servia, e a pregação do evangelho de Jesus tampouco lhes era simpática. Os contemporâneos daquela época eram tão inconstantes e travessos que reclamavam de tudo o que Deus fazia por eles [17].

Com isso em mente podemos destacar duas coisas:

1º - A infantilidade religiosa continua hoje. Muitas pessoas hoje estão agindo como os fariseus e escribas da Lei da época de Jesus; nunca estão satisfeitos com o agir de Deus em suas vidas e na História. Por mais que o Senhor faça e se revele, para tais pessoas nunca é o suficiente. Por isso Jesus comparou aquela geração com pessoas imaturas (crianças), que não se contentavam com coisa alguma. A infantilidade religiosa perdura até hoje. A sociedade se modernizou, mas o ser humano é o mesmo. E diante da pandemia que temos enfrentado nós temos visto isso de forma ainda mais clara.

Observe que quando as crianças brincam, elas frequentemente imitam o comportamento dos adultos. Aparentemente, as crianças nos dias de Jesus, muitas vezes brincavam de duas coisas que refletiam os acontecimentos mais significativos na vida social judaica: casamentos e funerais. Assim era João Batista e Jesus. João simbolizava o funeral, a antiga Lei e Jesus a festa de casamento, representando a graça.

João pregava uma mensagem severa de julgamento, e eles diziam: “Tem demônio!”. Jesus misturava-se com o povo e pregava uma mensagem de salvação repleta de graça, e eles diziam: “Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores!”; ou seja, não queriam nem o funeral nem o casamento, pois nada lhes agradava [18].

Vivemos hoje dias tão difíceis que até para Jesus operar um milagre é algo complicado. Antigamente Jesus multiplicava pão e peixe, hoje vivemos uma geração (dentro da igreja e na sociedade), que, ou não comem uma coisa ou não comem a outra, ou nenhuma as duas coisas; mas reclamam porque não existem mais milagres hoje!

2º - Os sábios, porém, não se deixam desanimar. A sabedoria é justificada por todos os seus filhos. O verbo justificada quer dizer “declarada justa” ou “demonstrada como sendo justa” ou “aceita como justa”. Aqueles que são realmente sábios (os filhos da sabedoria), pronunciarão justo o caminho justo, seja ele ascético ou social. Verão a sabedoria de Deus tanto em João quanto em Jesus. Não andarão nos caminhos críticos dos homens que nunca se deixam contentar [19].

Quem quer evitar encarar a verdade sobre si mesmo sempre encontra algum defeito no pastor. Essa é uma forma de “justificar-se”. Mas a sabedoria de Deus não é frustrada por argumentos de “sábios e prudentes”. Antes, é demonstrada na vida transformada dos que creem. Somente assim a verdadeira sabedoria é “justificada” [20].

João e Jesus tinham cada um uma missão distinta a cumprir. Cada um tinha sua tarefa. Jesus, que pessoalmente era e é a “sabedoria de Deus” (1Co 1.30), levou a bom termo sua tarefa de forma perfeita; João a cumpriu em grande medida de forma excelente. Então, os filhos da sabedoria são todos os que foram suficientemente sábios a ponto de levar a sério e sinceramente a mensagem de João e a de Jesus [21].

CONCLUSÃO

O maior testemunho que uma pessoa pode ter não é a que vem do si mesmos e nem dos outros, mas de Deus. João Batista foi esse homem que recebeu de Jesus o maior dos elogios. Mas aí fica a pergunta: como o Senhor tem visto você? O que Ele pode falar a seu respeito? Você alguma vez já pensou a esse respeito?

Pense nisso!  

Bibliografia

1 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 255.

2 – Carson, D. A. O Comentário de Mateus, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2011, p. 313.

3 – Ryle, J. C. Meditação no Evangelho de Lucas, Ed. Fiel, São José dos Campos, SP, 2002, p. 109.

4 – Carson, D. A. O Comentário de Mateus, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2011, p. 313.

5 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 215.

6 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Mateus, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 125.

7 – Carson, D. A. O Comentário de Mateus, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2011, p. 313, 314.

8 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 255.

9 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 216.

10 – Carson, D. A. O Comentário de Mateus, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2011, p. 314.

11 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 255.

12 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Mateus, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 126.

13 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 255.

14 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 136.

15 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 1, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 533.

16 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 255.

17 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005, p. 116.

18 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 255.

19 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 138.

20 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 255.

21 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 1, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 537.

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