domingo, 20 de dezembro de 2020

QUANDO A RELIGIÃO SE TORNA UM FARDO

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 5.33-39

INTRODUÇÃO

O homem é por natureza um ser religioso, porque provém de Deus e para ele caminha, o homem só vive uma vida plenamente humana se viver livremente sua relação com Deus. Isso é um fato indiscutível, no entanto, quando a religião se torna algo maior que o Deus que se adora, aí ela se torna perigosa. Quando os preceitos religiosos (as doutrinas, mandamentos ou ensinamentos) viram uma obsessão, uma neurose, aí ela se torna perigosa. Ela vira um fardo. E o fardo religioso é um dos mais difíceis de carregar e de se deixar. 

Quando a religião se torna uma obrigação e não algo prazeroso temos que repensar nossa religiosidade.  Como disse o apóstolo Paulo aos Colossenses 2.21-23: “Não manuseie!” “Não prove!” “Não toque!”? Todas essas coisas estão destinadas a perecer pelo uso, pois se baseiam em mandamentos e ensinos humanos. Essas regras têm, de fato, aparência de sabedoria, com sua pretensa religiosidade, falsa humildade e severidade com o corpo, mas não têm valor algum para refrear os impulsos da carne” (NVI).

O texto que lemos nos mostra os discípulos de João, juntamente com os fariseus, questionando Jesus a respeito da prática do jejum. Esse questionamento tinha um certo peso de crítica, pois dentro da tradição judaica haviam três principais pilares: a oração, a caridade e o jejum. No entanto, os discípulos de Jesus não praticavam o jejum [1]. E isso estava trazendo um certo incômodo a esses religiosos.

A Lei determinava um jejum durante o ano todo, devendo acontecer no dia da expiação (Lv 16.29-34; 23.26-32; Nm 29.7-11; cf. At 27.9). No entanto, no decorrer dos anos, os jejuns começaram a se multiplicar, e essa prática do jejum fora dos princípios estabelecido na Lei foi aos poucos virando uma tradição. E ela estava tão enraizada nos religiosos que os que não a praticavam eram mal vistos por eles. Aliás, a grande crise que Jesus enfrentou entre os fariseus foi a observância da tradição dos anciãos como se fosse a Lei estabelecida por Deus.

Para responder a esse questionamento Jesus fala a respeito do casamento, do remendo em roupas e do vinho em odres. É sobre essa resposta de Jesus aos discípulos de João Batista e aos fariseus que eu quero pensar com você.

Quais as lições que podemos tirar desse texto para nós hoje, quando a religião se torna um fardo.

1 – A RELIGIÃO SE TORNA UM FARDO QUANDO NOS É IMPOSTA (Lc 5.33).

A religião – nesse caso estamos falando do cristianismo – se torna um fardo quando não servimos pelo prazer de servir, mas quando nos é imposta como se fosse uma obrigação.

Observe o que nos fala o versículo de Lc 5.33: “Disseram-lhe, então, eles: Por que jejuam os discípulos de João muitas vezes, e fazem orações, como também os dos fariseus, mas os teus comem e bebem?”. O discípulos de João Batista e os fariseus estavam inquietos com a vida religiosa que os discípulos de Jesus viviam.

Para eles os discípulos de Jesus eram pessoas sem compromisso com a religião e a Lei de Moisés. Na verdade eles estavam questionando o próprio Jesus que tinha fama de comilão e bebedor de vinho, como lemos em Mateus 11.18,19:

“Porquanto veio João, não comendo nem bebendo, e dizem: Tem demônio. Veio o Filho do homem, comendo e bebendo, e dizem: Eis aí um homem comilão e beberrão, amigo dos publicanos e pecadores. Mas a sabedoria é justificada por seus filhos”.

A Lei determinava somente um jejum durante o ano todo, devendo acontecer no dia da expiação (Lv 16.29-34; 23.26-32; Nm 29.7-11; cf. At 27.9). No entanto, no decorrer dos anos, os jejuns (nem sempre totais) começaram a se multiplicar, e nós lemos a respeito deles em outras ocasiões: do nascer ao pôr-do-sol (Jz 20.26; ISm 14.24; 2Sm 1.12; 3.35); por sete dias (ISm 31.13); três semanas (Dn 10.3); quarenta dias (Êx 34.2, 28; Dt 9.9, 18; lRs 19.8); no quinto e sétimo mês (Zc 7.3-5); e mesmo no quarto, quinto, sétimo e décimo mês (Zc 8.19). O clímax era a observância de um jejum “duas vezes por semana” para orgulho dos fariseus (Lc 18.12) [2]. Eles costumavam jejuar às segundas-feiras e as quintas-feiras regularmente.

Quando preceitos humanos são inseridos no cristianismo e passa ser uma obrigação acima do que a Bíblia ensina, isso se torna um peso. Por exemplo, usos e costumes, que é muito comum vermos em muitas denominações religiosas. Que vai desde uma mulher não poder usar uma calça comprida a homens não poderem usar barba; desde não poder comer mortadela a não poder tomar refrigerante...

O cristão deve se vestir e se portar com decência e ordem em todos os lugares, mas o que acontece é que muitas pessoas e igrejas querem impor o que elas acham que seja essa decência e ordem. Vou lhe dar um pequeno exemplo. Uma vez foi perguntado a um pastor que eu conhecia se o crente podia ouvir músicas seculares (do mundo). Ele respondeu que não, só se fossem músicas do Roberto Carlos. Aí podia. Meu filho foi em uma festa de quinze anos de uma amiga da escola dele. O avô da menina que era pastor não deixou tocar músicas seculares (do mundo), mas liberou tocar e dançar “Macarena”.

Eu penso que isso é coar a mosca e engolir o camelo.

“Condutores cegos! que coais um mosquito e engolis um camelo. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que limpais o exterior do copo e do prato, mas o interior está cheio de rapina e de intemperança. Fariseu cego! limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo” (Mt 23.24-26). 

Quando o cristianismo é imposto (ou qualquer outra religião), se torna um peso. A pessoa pratica por obrigação e não pelo prazer de servir. Devido a essas obrigatoriedades infundadas que nós encontramos em muitas religiões os radicais extremados ou os que não vivem se forma coerente a fé que confessam.

Sempre devemos ficar com a Bíblia e nos seus ensinamentos. Veja o que o apóstolo Paulo nos fala a respeito em 1Co 6.12:

“Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas; mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas”.

É aquela história que temos visto por aí, quando alguém pergunta para a outra pessoa porque ela não pratica tal coisa, e a resposta que geralmente dão é porque a sua religião não lhes permite; com essa resposta a pessoa está dizendo que se a sua religião não proibisse ela iria fazer tudo aquilo. Para a pessoa que pensa assim, o seu cristianismo (ou qualquer outra religião) é um peso. É uma religião de usos e costumes e de proibições. Não algo prazeroso.

2 – A RELIGIÃO SE TONA UM FARDO QUANDO É PRATICADA SEM ENTENDIMENTO (Lc 5.34,35).

Jesus disse que seus discípulos não jejuavam porque o noivo ainda estava com eles. Ou seja, Jesus era o noivo e os discípulos os amigos do noivo. Eles estavam em festa.

Jesus aqui compara sua bendita presença na terra com uma festa de núpcias. Repetidas vezes a Escritura compara a relação entre Yahweh e seu povo, ou entre Cristo e sua igreja, com o vínculo de amor existente entre o noivo e a noiva (Is 50.1 ss.; 54.1 ss.; 62.5; Jr 2.32; 31.32; Os 2.1ss.; Mt 25.1ss.; Jó 3.29; 2Co 11.2; Ef 5.32; Ap 19.7; 21.9) [3].

As festas de casamento dos judeus durava uma semana e eram ocasiões de grande alegria e celebração. Ao usar essa imagem, Jesus estava dizendo a seus críticos: “Eu vim para fazer da vida uma festa de casamento, não um funeral”. Mas Jesus deixou claro que, um dia, ele lhes seria “tirado”, uma indicação de sua rejeição e morte; mas enquanto isso não acontecia, havia motivos de sobra para alegria, pois os pecadores estavam se arrependendo [4].

Os seus questionadores não conseguiam entender que o tempo do jejum havia acabado. Lemos a seguinte doutrina judaica em Maimonides: “Todo jejum há de cessar nos dias do Messias, e não haverá outros dias bons e dias de alegria iguais àqueles, como está escrito em Zc 8.19”.

“Assim diz o Senhor dos Exércitos: O jejum do quarto, e o jejum do quinto, e o jejum do sétimo, e o jejum do décimo mês será para a casa de Judá gozo, alegria, e festividades solenes; amai, pois, a verdade e a paz” (Zc 8.19).

É nesse sentido que Jesus, contrariando seus interrogadores, se denomina de “noivo”, chamando o tempo de sua presença entre os seus de tempo de alegria nupcial. Ao perguntar se os companheiros do noivo podem ser induzidos a jejuar enquanto o noivo ainda estiver com eles, o Senhor diz que jejuar não combina com a alegria nupcial [5].

A religião judaica havia transformado a vida num fardo pesado e os ritos sagrados em instrumentos de tristeza e opressão. Os fariseus jejuavam para mostrar sua piedade, os discípulos de João para mostrar sua tristeza pelo pecado. A palavra aramaica para “jejuar” tem o sentido de “estar de luto”. Os judeus quando jejuavam e ficavam tristes tinham a intenção de conseguir algo de Deus: “Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso?” (Is 58.3). E os hipócritas jejuavam para serem vistos pelos outros (Mt 6.16).

É bom destacar que Jesus não estava contra o jejum. Ele mesmo jejuou quarenta dias e ratificou o jejum voluntário (Mt 9.15). Moisés jejuou quarenta dias no Horebe. Patriarcas, profetas, reis e sacerdotes jejuaram. Deus ordenou o jejum como um importante exercício devocional. Jesus e os apóstolos jejuaram. A Igreja de Deus ao longo dos séculos tem jejuado. Mas Jesus denunciou o jejum dos hipócritas que desfiguravam o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuavam (Mt 6.16). O jejum dos escribas e fariseus era um ritual para a sua própria exibição e não a expressão de um coração quebrantado [6].

Observe o que Jesus falou aqui no versículo 35: “Dias virão, porém, em que o esposo lhes será tirado, e então, naqueles dias, jejuarão”. Com referência a “dias virão”, seguido de “então, aqueles dias” de Lucas, Jesus está dizendo que sua morte violenta que se aproximava significará dias de luto para os discípulos. Então, naquela ocasião em particular, o jejum como expressão de dor estará em vigor e ocorrerá. João 16.16-22 indica que o luto não será de longa duração [7].

“Um pouco, e não me vereis; e outra vez um pouco, e ver-me-eis; porquanto vou para o Pai. Então alguns dos seus discípulos disseram uns aos outros: Que é isto que nos diz? Um pouco, e não me vereis; e outra vez um pouco, e ver-me-eis; e: Porquanto vou para o Pai? Diziam, pois: Que quer dizer isto: Um pouco? Não sabemos o que diz. Conheceu, pois, Jesus que o queriam interrogar, e disse-lhes: Indagais entre vós acerca disto que disse: Um pouco, e não me vereis, e outra vez um pouco, e ver-me-eis? Na verdade, na verdade vos digo que vós chorareis e vos lamentareis, e o mundo se alegrará, e vós estareis tristes, mas a vossa tristeza se converterá em alegria. A mulher, quando está para dar à luz, sente tristeza, porque é chegada a sua hora; mas, depois de ter dado à luz a criança, já não se lembra da aflição, pelo prazer de haver nascido um homem no mundo. Assim também vós agora, na verdade, tendes tristeza; mas outra vez vos verei, e o vosso coração se alegrará, e a vossa alegria ninguém vo-la tirará”.

Por desconhecerem a presença do Messias entre eles, o jejum que praticavam era um jejum sem entendimento. A Bíblia é muito clara quando nos diz que o nosso culto deve ser um culto racional (Rm 12.1). Paulo está nos dizendo que o culto não é simplesmente um formalismo, mas a vida em total entrega a Deus.

O cristianismo tem que abarcar a totalidade da vida do indivíduo, se não for assim, não passa de um fardo moral e religioso. E isso vai desde o jejum a ir aos cultos na igreja. Tudo será um peso.

O cristianismo é uma festa de celebração. Como disse Paulo: “Alegrai-vos sempre no Senhor, outra vez vos digo, alegrai-vos” (Fl 4.4). O Noivo esteve entre nós, foi para cruz, morreu em nosso lugar, mas ressuscitou ao terceiro dia, enviou o Espírito Santo para estar conosco; o Noivo voltará para buscar a Sua noiva que é a Sua Igreja, e estaremos com Ele para todo o sempre. Por isso quem conhece o que é realmente o cristianismo não vive um peso religioso, mas um fardo leve.

Hoje, celebramos a alegria da salvação, mas um dia entraremos na Casa do Pai, na glória celeste, e então, essa festa nunca vai acabar. Estaremos para sempre com Ele.

William Barclay conta que havia um criminoso japonês que se chamava Tockichi Ishii. Era um homem bestial, em quem não se manifestava a mais mínima piedade. Em sua carreira criminal tinha assassinado brutalmente homens, mulheres e meninos. Finalmente foi capturado e encarcerado. Duas mulheres canadenses visitaram a prisão. Nem sequer se pôde conseguir que falasse com elas, limitando-se a olhar com uma expressão bestial. Quando terminou a visita destas duas mulheres, deixaram-lhe uma Bíblia com a débil esperança de que a lesse em algum momento. E Ishii leu aquela Bíblia e a história da crucificação fez dele um homem novo.

Pouco tempo depois, quando o verdugo precisou levar aquele homem ao patíbulo, não encontrou o ser brutal e bárbaro que esperava, e sim a um homem radiante, sorridente, porque Ishii, o assassino tinha nascido de novo. O sinal visível daquele novo nascimento era um rosto iluminado pelo gozo. A vida que se vive em Cristo não pode ser senão uma vida cheia de gozo [8]. Porque o Evangelho não é o guardar regras e preceitos, o Evangelho é a Pessoa maravilha do nosso Senhor e Salvador Jesus em nossas vidas.

3 – A RELIGIÃO SE TORNA UM FARDO QUANDO CARREGAMOS O QUE DEUS NÃO DISSE PARA CARREGARMOS (Lc 5.34).

Jesus disse: “Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11.30). Se o fardo é leve, por que parece que está tão pesado?

Quando Jesus disse que o fardo dele é leve, é óbvio que entendemos o que ele disse, porém, não é tão fácil sentir essa leveza. Pense se não é assim: tudo o que envolve a vida religiosa, as orações, os cultos, os trabalhos, as obrigações morais, e também as restrições que nos impomos, é sentido como um fardo, e não exatamente como um fardo leve.  

Enquanto o cristianismo for apenas uma das áreas de nossa vida, enquanto ele for colocado no mesmo patamar de importância de outras coisas, mesmo como a família ou a igreja, tudo o que o envolve não será para nós nada mais que obrigações que cumprimos com muito esforço.

Quando os mandamentos de Deus se tornam penosos para nós?

1 – Quando a religião impõe exigências que não tem nada a ver com Deus. A religião coloca sobre nós exigências que nem o próprio Deus requer. O resultado é que a carga religiosa se torna mais pesada do que deveria ser. Muitas exigências dentro das igrejas não têm nada a ver com Deus. São meros mecanismos humanos de afirmação do poder religioso. Observe o que Jesus falou a respeito dos escribas e fariseus em Mateus 23.4:

“Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com seu dedo querem movê-los”.

Eu conheço um pastor que faz parte de uma igreja que é proibido os membros terem televisão, no entanto, esse pastor tem uma tv escondida dentro de seu guarda roupas.

2 – Quando a religião desenvolve um sistema para agradar a Deus na base da causa e efeito. A isso podemos chamar de barganha e não de culto. A vida cristã não é um toma- lá-dá-cá. Não é uma negociata. Não quero com isso descartar a lei da semeadura que Paulo nos alerta em Gálatas 6.7: “O que o homem planta, colhe”. Uma das grandes verdades bíblicas é que temos um Deus que é muito mais amoroso do que guardador da lei. Ele é muito mais guardador de rebanhos do que guardador de livros. Ele é muito mais guardador de vidas do que guardador de preceitos. Então obedecemos a Deus não por medo, mas porque descobrimos um cuidado dele para com a nossa vida.

3 – Quando olhamos para Deus muito mais como um Juiz do que como um Pai.   Obedecemos ao Senhor não porque é uma imposição ou obrigação, mas porque temos um pai que deseja o nosso bem e nos alerta com amor sobre os riscos que podemos correr. Infelizmente vemos o Senhor como um juiz austero e duro que passa leis que nos são impostas, e não como um pai amoroso que deseja o nosso melhor.

4 – Quando criamos mecanismos de defesa que desenvolvemos em nós mesmos. Quando nos protegemos daquilo que somos fracos acabamos exigindo mais dos outros. Por exemplo, o que ora muito e trabalha pouco é impaciente com o que trabalha muito e não ora e vice-versa. Os nossos níveis de exigências se tornam cada vez mais intolerantes e nos tornamos menos misericordiosos. O resultado disso é que os nossos relacionamentos se tornam cada vez mais problemáticos, pesados e por isso muitos dizem que é difícil servir a Deus.

De fato, é apenas isso que sobra para o homem religioso que não toma a decisão de tudo viver em Cristo: um fardo de obrigações morais e religiosas que precisam ser cumpridas com muita dificuldade.

Mas quando andamos no aminho inverso e não vemos o cristianismo como uma via de obrigações podemos falar como Paulo falou em Gálatas 2.20: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou e se entregou a si mesmo por mim”.

4 – A RELIGIÃO SE TORNA UM FARDO QUANDO NÃO SE VIVE EM NOVIDADE DE VIDA EM CRISTO JESUS (Lc 5.36-38).

Jesus usou três figuras para responder aos seus inquisidores. A primeira foi a respeito da festa de casamento e agora ele usa a figura do remendo novo em tecido velho e do vinho novo em odres velhos.

O significado da parábola do remendo novo em pano velho e vinho novo em odres velhos diz respeito ao contraste entre a Lei Mosaica (AT) e a Nova Aliança (NT). Essa parábola fala que as velhas formas cerimoniais da Lei Mosaica são inadequadas à Nova Aliança em Cristo, à mensagem do Evangelho da graça.

Quais são as lições que essas figuras nos ensinam? 

1º - Em primeiro lugar, a vida cristã não é um remendo ou reforma do que está velho, mas algo totalmente novo (Lc 5.36). Um remendo novo num pano velho abre uma fissura ainda maior. Se se põe um remendo de lã, não-encolhido, numa roupa que já viu melhores dias, o resultado será que, quando essa peça não-encolhida se molha e encolhe, rasgará as bordas da costura. O remendo que deveria consertar a ruptura original, agora produz uma ruptura ainda maior.

O cristianismo não é uma reforma do judaísmo nem um remendo das práticas judaicas. A vida cristã não é apenas um verniz, uma caiação de uma estrutura rota, mas uma nova vida, algo radicalmente novo.

O vestido velho era o antigo sistema da lei e os velhos costumes do povo judeu. A salvação que Cristo oferece são as vestes alvas e a justiça de Cristo, o linho finíssimo. Em Cristo todas as coisas são feitas novas (2Co 5.17). A vida cristã não é uma mistura do velho com o novo. É algo completamente novo. O evangelho transforma e liberta. O Evangelho é a palavra de vida; o judaísmo com seus preceitos legalistas era letra morta. O evangelho liberta, o legalismo mata; o evangelho salva, o legalismo faz perecer.

2º - Em segundo lugar, a vida cristã não pode ser acondicionada numa estrutura velha e arcaica (Lc 5.37-39). Os odres eram recipientes feitos de pele de animais, era geralmente feito da pele de cabra ou de ovelha. Por causa da elasticidade do couro, as pessoas utilizam esse material no processo de fermentação do vinho. O vinho novo era colocado em odres; mas à medida que ele fosse fermentando, a pressão aumentava e esticava os odres. Um odre velho já havia sido dilatado ao máximo e não possuía mais a elasticidade necessária para um novo processo de fermentação. Um vinho novo posto em um odre velho seria desperdício.

Tudo isso significa que os rituais da Antiga Aliança apenas apontavam para a Nova Aliança. Eles cumpriram seu papel e cessaram. Tentar continuá-los após a chegada do Messias seria como usar remendo novo em pano velho; ou colocar vinho novo em odres velhos.

O cristianismo requer novos métodos e novas estruturas. Não podemos ter o coração duro como os odres ressecados pelo tempo. Precisamos manter nosso coração aberto à mensagem transformadora do evangelho.

5 – HÁ PESSOAS QUE SE ACOSTUMAM COM O FARDO PESADO (Lc 5.39).

Não são todas as pessoas que conseguem se adaptar a liberdade em Cristo. Ser livre implica em responsabilidades e nem todos têm condições de vivê-la de forma plena. Os doutores da Lei na época de Cristo questionavam a doutrina de Jesus. Para eles o Evangelho era algo inadmissível. Tanto que os judaizantes tentaram implantar ao Evangelho que Paulo pregava preceitos da Lei e a circuncisão, que, segundo eles, quem não o fizesse não poderia ser salvo (At 15.5).

O sistema legal é muito mais confortável porque é mais fácil oferecer o exterior a Deus, pelas práticas religiosas, do que render-lhe o interior, o coração. Quem se acostumou com o vinho velho, não gosta do novo. É espumante e borbulhante demais para ele. A nova natureza do Espírito traz consigo agitação. Quem prossegue nos trilhos antigos, fica desconfortavelmente incomodado. As pessoas preferem descansar tranquilamente nas práticas devotas exteriores [9].

CONCLUSÃO

Vimos que essa parábola foi motivada devido a um questionamento acerca do jejum. Então em outras palavras, de forma mais específica, Jesus responde aos discípulos de João Batista e os fariseus que o jejum cerimonial ou qualquer outra prática mosaica observada por eles e pelos fariseus, nada tinham a ver com o Evangelho. O Evangelho é nova vida. É vida no Espírito. É novidade de vida que só em Cristo podemos alcançar.

É o que o Senhor disse para Nicodemos: é o nascer de novo. É algo que não nos é imposto, mas vivido com alegria, pois o que nos move é o Espírito Santo. Como disse o apóstolo Paulo aos Filipenses 2.13: “Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade”. 

Pense nisso!

Bibliografia

1 – Edwards, James R. O Comentário de Marcos, Santo Amaro, SP, Ed. Sheed, 2018, p. 125.

2 – Hendriksen, William. Marcos, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 131.

3 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 1, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 418.

4 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, 2012, p. 243.

5 – Rieneckerp Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, 2005. p. 92.

6 – Lopes, Hernandes Dias. Marcos, O Evangelho dos Milagres, São Paulo, Editora Hagnos, 2006, p. 141.

7 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 1, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 419.

8 – Barclay, William. Marcos, Comentário do Novo Testamento, p. 65.

9 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, 2005. p. 94.

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