sexta-feira, 17 de abril de 2026

DEUS AINDA ESTÁ PRESENTE?

Por Pr. Silas Figueira

Há momentos em que a pergunta não nasce da incredulidade, mas do esgotamento silencioso da alma. Não é a negação de Deus – é o cansaço de quem já percorreu longas madrugadas em oração, de joelhos no chão frio, com palavras que parecem não atravessar o teto. É o silêncio de quem esperou, insistiu, confiou… e, ainda assim, não ouviu resposta. “Deus ainda está presente?” não irrompe como grito de rebeldia, mas como um sussurro quebrado, quase imperceptível, que brota de um coração ferido. Não é desafio – é sobrevivência.

Essa pergunta, embora desconcertante, não é estranha às Escrituras. A Bíblia não a censura, nem a corrige com dureza. Pelo contrário, ela a acolhe com uma ternura surpreendente. Os Salmos estão repletos desse tipo de clamor – orações que não escondem a angústia, nem maquiam a dor. “Até quando, Senhor?” (Sl 13) não é apenas uma pergunta; é um desabafo existencial. É a prova de que a fé bíblica não é construída sobre respostas prontas, mas sobre uma relação viva, onde até o silêncio pode ser levado diante de Deus. Como observa Eugene Peterson, a espiritualidade autêntica não ignora o sofrimento nem o elimina; ela o integra à conversa com Deus.1 Isso significa que aquilo que sentimos – essa ausência, esse vazio – não é evidência de que Deus se foi, mas parte do caminho pelo qual continuamos a nos dirigir a Ele.

Há, porém, uma tensão inevitável entre o que sentimos e o que é real. A teologia bíblica nos ensina que a presença de Deus não se fundamenta na nossa percepção sensorial, mas na sua fidelidade imutável. Deus não está mais presente quando é sentido, nem menos presente quando é silencioso. Ele é Emmanuel – Deus conosco – não como metáfora emocional, mas como realidade ontológica (Mateus 1.23). Ele está. Mesmo quando tudo em nós parece dizer o contrário.

E talvez seja justamente aí que reside um dos maiores paradoxos da vida espiritual: a ausência percebida pode ser o terreno onde Deus está mais intensamente operando. Não na superfície das emoções, mas nas camadas mais profundas da alma, onde Ele trabalha em silêncio, sem espetáculo, sem ruído. Há processos divinos que não se anunciam – apenas se cumprem.

A.W. Tozer compreendeu essa dinâmica com rara sensibilidade ao afirmar que a fé cresce na escuridão, porque é nesse ambiente que ela se liberta da dependência da evidência e aprende a descansar no caráter de Deus.2 Na luz, cremos porque vemos. Na noite, cremos porque conhecemos. E esse conhecimento não é intelectual apenas – é relacional, forjado ao longo do tempo, muitas vezes através de lágrimas.  

Deus, portanto, não se retira quando silencia. Ele se aprofunda. Sua presença deixa de ser percebida na superfície e passa a atuar em níveis que não controlamos, nem compreendemos completamente. O silêncio de Deus não é um afastamento, mas uma mudança de linguagem. Ele continua falando – mas agora de um modo que exige mais do coração do que dos ouvidos.

Talvez, então, a pergunta mais honesta não seja “Deus ainda está presente?”, mas outra, mais íntima e desafiadora: “sou capaz de confiar na presença de Deus mesmo quando não a sinto?”. Essa é a fronteira da fé madura. Não aquela que se apoia em experiências sensíveis, mas aquela que se ancora naquilo que Deus é. 

Porque existe uma fé que floresce na luz – quando tudo faz sentido, quando as orações parecem respondidas, quando o céu parece próximo. Mas há outra fé, mais rara, mais silenciosa, mais profunda, que nasce na noite. Uma fé que não depende de sinais, nem de respostas imediatas. Uma fé que persiste, mesmo quando tudo parece vazio.

E é essa fé – nascida no escuro, sustentada pelo invisível – que nos conduz aos encontros mais profundos com Deus. Não apesar da noite, mas através dela. 

Bibliografia:

PETERSON, Eugene H. Um ano com os Salmos. São Paulo: Ultimato, 2000.

TOZER, A. W. O conhecimento do Santo. São Paulo: Vida, 2017. 

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