sexta-feira, 5 de agosto de 2022

NÃO DESPERDICE AS OPORTUNIDADES - Lucas 11.29-32

Por Pr Silas Figueira

Texto base: Lucas 11.2936

INTRODUÇÃO

Durante todo o Seu ministério, o Senhor Jesus Cristo enfrentou a hostilidade e oposição, principalmente dos líderes da seita religiosa judaica; os escribas, fariseus e saduceus. Em Mateus 12.38 nos diz que os escribas e os fariseus tentaram colocar Jesus em dificuldades, pedindo que Ele lhes mostrasse algum sinal. O Mestre tinha acabado de lhes dar um maravilhoso sinal, ao libertar o endemoninhado cego e mudo. Mas eles procuravam alguma coisa ainda mais sensacional e espetacular. O texto de Lucas 11.16 indica que eles estavam pedindo “um sinal do céu” que provasse que Ele era o Messias [1]. Eles queriam um sinal do céu, algo como a chuva de maná no deserto (Êx 16.4s) ou a parada do sol e da lua (Js 10.13) ou a chuva de fogo do céu em Elias (1Rs 18.38). A exigência do sinal era tão-somente um pretexto para justificar sua incredulidade [2].

Jesus já tinha curado enfermos, purificado leprosos e ressuscitado mortos, e eles ainda se mantinham reféns de seu coração endurecido. Até mesmo quando Jesus estava dependurado no madeiro, disseram-lhe: Desce da cruz e creremos em ti. O problema deles, entretanto, não era evidência suficiente, mas cegueira incorrigível [3].

No relato de Marcos, Jesus diz simplesmente: “a esta geração não se lhe dará sinal algum” (Mc 8.12). Eles estavam tão cegos em seu ódio contra Jesus, que eles não perceberam as oportunidades espirituais que estavam perdendo.

Vejamos quais as lições que podemos aprender com esse texto.

1 – JESUS NÃO SE SURPREENDEU COM A INCREDULIDADE DAQUELA GERAÇÃO (Lc 11.29).

Jesus não se surpreendeu com a incredulidade daquelas pessoas, principalmente dos líderes judeus. Não era por falta de sinais e prodígios que eles desacreditavam de Jesus, era porque Jesus não fazia o que lhes agradava. Jesus colocava em xeque a autoridade deles (Mt 7.28,29), e isso gerou no coração deles um ódio profundo por Jesus.

Podemos destacar duas lições aqui:

1º - Em primeiro lugar, o problema dos líderes religiosos não era a falta de luz, mas a falta de visão. Eles estavam cegos de ira e de inveja de Jesus. A luz estava em todos os lugares. Ela brilhou de forma extraordinária nos milagres realizados por Jesus (Jo 15.24; cf. Jo 5.36; 10.25,38; 14.11) e no ensino incomparável que Ele deu (cf. Mt 7.28; Jo 7.46). Nada revela mais profundamente a maldade dos que o rejeitaram do que a realidade de que a luz estava em toda parte, mas eles recusaram-se a vê-la.

Há um velho ditado que diz que “o pior cego é aquele que não quer ver”. Assim eram essas pessoas que pediam um sinal a Jesus. E se Jesus lhes desse mais algum sinal eles continuariam na incredulidade.

2º - Em segundo lugar, aquela geração era maligna (Lc 11.29). Outro grande problema que temos aqui é que aquela geração era maligna. Era uma geração de incrédulos. Como lemos em Jo 12.37-40: E, ainda que tinha feito tantos sinais diante deles, não criam nele; para que se cumprisse a palavra do profeta Isaías, que diz: Senhor, quem creu na nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor? Por isso não podiam crer, então Isaías disse outra vez: Cegou-lhes os olhos, e endureceu-lhes o coração, A fim de que não vejam com os olhos, e compreendam no coração, E se convertam, E eu os cure”. O Senhor permitiu que eles permanecessem em sua incredulidade.

O uso da palavra genea (geração) indica que Jesus estava se referindo à maioria das pessoas em Israel naquela época; tanto de galileus (cf. Lc 9.41), quanto também dos judeus. A forma como Jesus caracteriza o povo de Israel como ímpio é chocante. Afinal, Ele não estava falando dos pagãos que adoravam ídolos ou ateus. A geração que Ele se referia era, pelos padrões humanos normais, extremamente morais, religiosos e conscientes de Deus. O povo judeu foi fanaticamente devotado a manter a lei de Deus e observar suas tradições religiosas, como a vida de Paulo antes de sua conversão ilustra (cf. Atos 22.3; Gl 1.14). Mas embora exteriormente parecesse ser justas, interiormente, estavam cheios de maldade (Lc 11.39; Mt 23.25-28).

Algo que não podemos deixar de observar nos dias de hoje. Vivemos um tempo de muita apostasia, de muita incredulidade e de pouca fé. Uma geração de cristãos que espera muito de Deus, mas que não quer lhe dar a devida adoração. Uma geração mimada que pisam no sagrado e profanam o nome do Senhor. E não precisamos ir longe para vermos o que está acontecendo, basta olharmos as redes sociais.

2 – JESUS DÁ TRÊS SINAIS AOS SEUS OPONENTES (Lc 11.31-36).

Jesus não se sujeita em realizar o que seus adversários desejavam.  Eles queriam que Jesus realizasse algum sinal (milagre) extraordinário, mas Jesus diz que lhes dará três sinais, não sinais miraculosos, mas sinais de condenação, pois aquela geração cega havia rejeitado a luz do mundo (João 8.12; 9.5). Estes versículos revelam a realidade do julgamento, e a razão para o julgamento.

1º - Primeiro, o sinal do profeta Jonas (Lc 11.29,30,32). Quando Jonas foi chamado a pregar em Nínive, ele tentou escapar do Deus de Israel abandonando a terra de Israel: “Mas Jonas fugiu da presença do Senhor, dirigindo-se para Társis” (Jn 1.3a). A história demonstra que Deus não só está presente no templo de Israel, mas também onipresente em todas as nações [4].  

a) Os ninivitas se arrependeram com a mensagem de Jonas (Lc 11.32). Pessoas menos iluminadas obedeceram a uma pregação menos iluminada; porém pessoas muito mais iluminadas se negaram a obedecer à Luz do Mundo [5]. Ambos proclamaram julgamento e chamado para o arrependimento.

Jesus diz que, no dia do juízo, os ninivitas se levantarão para condenar essa geração, pois ouviram a pregação de Jonas e se arrependeram; no entanto, Jesus, sendo maior do que Jonas, não foi ouvido por sua geração, que permaneceu incrédula e perversa [6].

b) Jonas simboliza a ressurreição de Jesus (Mt 12.40). “Pois, como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim estará o Filho do homem três dias e três noites no seio da terra”. Para os ninivitas, “o sinal” era claramente a reaparição miraculosa do homem que se cria estar morto. Jonas tinha estado dentro da baleia (Jn 1.17) antes de voltar à vida, por assim dizer. Para os ninivitas o sinal foi o reaparecimento de um homem que aparentemente estivera morto durante três dias. Para os homens dos dias de Jesus, o sinal seria o reaparecimento do Filho do homem no terceiro dia após a Sua morte [7].

A mensagem de Jonas impactou os ninivitas porque o profeta era um milagre de alguém que estivera morto por três dias e havia voltado à vida. Assim a mensagem de Jesus tem impacto sobre nossas vidas, pois Ele ressuscitou ao terceiro dia (Jo 2.18,19), mas diferente de Jonas, Ele vive eternamente.

2º - Segundo, o sinal de Salomão (Lc 11.31). A rainha do sul, conhecido no Antigo Testamento como a Rainha de Sabá (1Rs 10.1-13), vai subir com os homens desta geração no dia do julgamento e irá condená-los por rejeitarem a mensagem de salvação.

Esta rainha fez uma árdua jornada de várias semanas desde os confins da terra (Seba foi localizado no sudoeste da Arábia, mais de mil quilômetros de Jerusalém), seu propósito era ouvir a sabedoria de Salomão, enquanto a sabedoria de Jesus era de fácil acesso para as pessoas de sua geração. Ela era uma idólatra pagã, sem o conhecimento do verdadeiro Deus, enquanto eles estavam mergulhados no Antigo Testamento. Eles foram convidados a vir a Jesus (Mt 11.28-30), enquanto que não há nenhuma indicação de que ela tenha sido convidada para visitar Salomão. No entanto, ela foi salva do seu pecado depois de crer no que Salomão disse a ela sobre o Deus verdadeiro, enquanto que aquela geração rejeitou salvação do verdadeiro Rei, infinitamente mais sábio e maior que Salomão. Essa é uma acusação grave sobre aquela geração perversa.

Quando Jonas pregou aos gentios de Nínive, eles se arrependeram e foram poupados. Quando uma rainha gentia ouviu as palavras do rei Salomão, maravilhou-se e creu. Se, com todos os seus privilégios, os judeus não se arrependessem, o povo de Nínive e a rainha de Sabá testemunhariam contra eles no julgamento final. O Senhor deu a Israel inúmeras oportunidades, mas ainda assim se recusaram a crer (Lc 13.34, 35; Jo 12.35-41) [8].

Quantos hoje têm tido a oportunidade de ouvir o Evangelho, mas o rejeitam ou dizem que em outra ocasião tomarão a decisão por Cristo. As oportunidades têm sido dadas, mas muitas pessoas continuam descrentes da mensagem de salvação que lhes tem sido pregadas. No entanto, chegará um tempo em será tarde demais para decidirem.

3º - O terceiro sinal, a luz (Lc 11.33-36). A experiência universal da luz e da escuridão no mundo físico fornece uma porta para a compreensão do conceito de luz e escuridão no mundo espiritual. Aqui a luz é uma metáfora para compreender a verdade revelada por Deus, já que a luz revela (Ef 5.13), enquanto que as trevas escondem (1Co 4.5). A Palavra de Deus é uma luz que brilha neste mundo escuro (SI 119.105; Pv 6.23). Mas não basta a luz brilhar externamente, também deve penetrar em nossa vida, a fim de surtimos os seus efeitos. “A entrada das tuas palavras dá luz, dá entendimento aos simples” (SI 119.130) [9]

Jesus ilustra esse assunto com três exemplos:

1) O perigo de esconder a luz (Lc 11.33). Seria inútil para alguém, depois de acender uma lâmpada colocá-la em um porão ou escondê-la debaixo do alqueire (cesta para medir grãos). Ninguém acende uma candeia e depois a coloca em lugar onde não pode ser vista. Pelo contrário, é colocada onde sua luz pode ser vista com o melhor proveito. No entanto, era exatamente o que os líderes judeus estavam fazendo na esfera espiritual. Em vez de permitir que luz de Jesus iluminasse os seus corações eles a estavam a obscurecendo.

2 – O perigo dos olhos maus (Lc 11.34,35). Sabendo que eles eram cegos, o Senhor emitiu este aviso “vê pois” (gr. Skopeo) poderia ser traduzido “manter um olhar atento sobre”, “nota com cuidado”, “prestar atenção a” ou “estar preocupado com”. Este aviso forte era uma chamada para o autoexame cuidadoso. O perigo de que o que eles pensavam que era luz neles, na verdade era escuridão. Esse autoengano marca cada falso sistema de crença para além do evangelho de Jesus Cristo.

Há dois tipos de escuridão: (a) a da ignorância; e (b) a da incredulidade obstinada. O segundo tipo, o que aqui está pauta, é muitíssimo mais perigoso. Foi esse tipo de escuridão que reinou no coração dos que odiavam a Jesus [9].

3 – A luz ilumina a todos que ouvem Jesus (Lc 11.36). Quando o coração tem uma configuração correta, isto é, quando ele pertence à verdade e intenta a verdade, ele se apropria da revelação da verdade divina e comunica essa luz com toda a capacidade da alma [10]. Quando cremos em Jesus Cristo, nossos olhos são abertos, a luz penetra nosso ser e nos tornamos filhos da luz (Jo 8.12; 2Co 4.3-6; Ef 5.8-14). É importante usar a luz e fixarmos nosso olhar na fé [11].

CONCLUSÃO

Quero concluir com as palavras de Wiersbe que diz que cada um de nós é controlado pela luz ou pela escuridão. O mais assustador é que algumas pessoas se endurecem de tal modo contra o Senhor que não conseguem fazer distinção entre uma coisa e outra! Acreditam que estão seguindo a luz quando, na verdade, seguem a escuridão. Os escribas e fariseus afirmavam “ver a luz” ao estudar a Lei, mas na verdade estavam vivendo em trevas (ver Jo 12.35-50) [12].

Pense nisso!

Bibliografia:

1 – Earle, Ralph.  Comentário Bíblico Beacon, Mateus, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 95.

2 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 170.

3 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 368.

4 – Neale, David A. Lucas, 9 – 24, Novo Comentário Beacon, Ed. Central Gospel, Rio de Janeiro, RJ, 2015, p. 105.

5 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 137.

6 – Lopes, Hernandes Dias. Mateus, Jesus, o Rei dos reis, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2019, p. 369.

7 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 189.

8 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 281.

9 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 142.

10 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 170.

11 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 281.

12 – Ibidem, p. 282.

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