domingo, 5 de junho de 2022

A PERSEVERANÇA NA ORAÇÃO

Pr Silas Figuiera

Texto básico: Lucas 11.5-13

INTRODUÇÃO

Jesus mostrou a seus discípulos o “Pai Nosso” como modelo de oração, que traz todas as coisas essenciais que devem ser pedidas a Deus. Depois desse ensinamento ele assegura o atendimento da oração. Essa confiança é fundamentada pelo Senhor: 1) através de um exemplo do dia-a-dia (v. 5-8); 2) com vistas à experiência diária (v. 9-10); 3) sobretudo considerando a misericórdia do Pai no céu (v. 11-13) [1].

A oração do “Pai Nosso” é um modelo de oração, não uma reza a ser recitada. Longe disso. Através da oração que Jesus deixou como modelo podemos ver que nela consiste a maturidade de como devemos orar. Nela lemos que o que prevalece na oração é a vontade do Pai: “Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (v. 2). Entendendo que a vontade do Pai é pura, perfeita e agradável (Rm 12.2), que Sua vontade soberana sempre irá prevalecer e nós nos sujeitamos à ela.

Entender que Sua vontade irá prevalecer é entender que Ele é eterno, onipotente, santo e imutável, onisciente, onipresente, que levará a efeito o plano perfeito que Ele ordenou desde o início. Isso mostra maturidade espiritual. Como disse Jó: “Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido” (Jó 42.2). Assim, entendemos que a oração não muda os planos de Deus, a oração confirma em nosso coração a Sua vontade, que como já sabemos é pura, perfeita e agradável.

Mas se a oração não muda a mente ou os planos de Deus, que proposito ela serve? Talvez você pergunte! A oração é um meio que Deus ordenou para cumprir Seus propósitos: “A oração feita por um justo pode muito em seus efeitos” (Tg 5.16), ou seja, Deus move o coração do crente a orar. Deus muda as circunstâncias pela oração. A oração remove o sofrimento, mas também nos dá poder para enfrentar os problemas e usá-los para cumprir os propósitos de Deus.

É o próprio Deus que nos leva a buscar a Sua face em meio as diversas ocasiões e crises que enfrentamos. Vemos isso na história de Israel. Veja por exemplo Jr 29.11-13, onde o Senhor diz para seu povo que estava no cativeiro babilônico que eles deveriam crescer nessa cidade e depois de setenta anos eles iram orar, e o Senhor iria lhes ouvir a oração e lhes libertar do cativeiro e leva-los de volta para Jerusalém. O mesmo vemos em Dn 9 quando Daniel lê o profeta Jeremias e descobre que o fim do cativeiro estava chegando. Devido a isso, ele ora confessando o pecado do povo. Vemos o mesmo em Neemias capítulo primeiro, quando ele soube da situação de miséria que se encontrava os judeus em Jerusalém, ele busca a face do Senhor em oração e confissão de pecados e se propõe a ir a Jerusalém para restaurar os seus muros. Esses são alguns exemplos de como o Senhor move o coração do Seu povo a orar, interceder e agir.

No texto que lemos vemos o Senhor Jesus ensinando os seus discípulos a serem perseverantes na oração. Essa confiança está fundamentada em três pilares:

1 – ESSA CONFIANÇA ESTÁ FUNDAMENTADA NA INTEGRIDADE DE DEUS (Lc 11.5-8).   

Para ilustrar sobre a importância da perseverança na oração, Jesus lhes conta uma parábola. Mas para entendermos essa parábola, devemos entender o contexto histórico da época.

O contexto histórico – Viajar à noite na Palestina era comum por causa do intenso calor do dia, e assim a chegada deste amigo à meia-noite não é de forma alguma algo incomum [2]. Kenneth Bailey diz que o elemento essencial desta parte da parábola é que o hospedeiro é hospedeiro da comunidade e não apenas do indivíduo. Este fato se reflete até como que se cumprimentavam o hóspede. É-lhe dito: “você honrou a nossa aldeia”, e nunca: “você me honrou”. Dessa forma a comunidade é responsável por hospedá-lo. O hóspede deve sair da aldeia sentindo-se bem com a hospedagem da mesma como comunidade [3]. Devido a isso, o hospedeiro poderia ir de casa em casa pedindo emprestado, caso não tenha, a melhor toalha, jarro, talheres, alimentos. E todos cederiam de bom grado. Se algum vizinho não socorresse o amigo, ele ficaria mal visto da aldeia. Por isso que, mesmo contragosto, este homem se levanta para socorrer o vizinho importuno. E não só lhe dá três pães, mas muito mais do que necessitava (v. 8).

Com isso em mente, podemos destacar três coisas importantes:  

1º - O Pai não dorme. O Pai não é um homem que se casa e procura dormir cedo. O salmista diz que “não tosquenejará nem dormirá o guarda de Israel” (Sl 121.4). Por isso que a qualquer hora da noite ou do dia o Senhor está pronto a nos atender.

2º - O Pai não é um vizinho incomodado. O Senhor não se sente incomodado com as nossos pedidos. Muito pelo contrário, Ele nos ensina que devemos ser perseverantes na oração. Em Lucas 18.1 nos diz: “E contou-lhes também uma parábola sobre o dever de orar sempre, e nunca desfalecer”.

3º - O Pai nos atende de bom grado. Leon Morris diz não devemos brincar de orar, mas, sim, devemos mostrar persistência se não recebemos a resposta imediatamente. Não é que Deus não deseje atender e precisa ser pressionado para dar uma resposta. O contexto inteiro deixa claro que está ansioso por dar. Mas se não quisermos aquilo que estamos pedindo, suficientemente para sermos persistentes, então não fazemos muita questão dele [4].

Wiersbe diz que a persistência na oração não é uma tentativa de fazer Deus mudar de ideia (“Seja feita a tua vontade”), mas sim de nos colocar numa posição em que ele nos confie a resposta [5]. A oração nos prepara para recebermos a resposta de Deus.

Esta parábola nos revela a natureza de Deus. Se um vizinho que põe tantos obstáculos para socorrer o seu vizinho inoportuno, mas por ser um homem íntegro, lhe socorrerá, muito mais o Pai que você busca em oração, por sua mais alta integridade e por lhe amar, lhe responderá a qualquer hora. Este é o ensinamento desta parábola. Deus é um Deus de honra, e por isso, seus filhos podem ter certeza absoluta de que suas orações serão atendidas em tempo oportuno.

2 – ESSA CONFIANÇA ESTÁ FUNDAMENTADA NA PRONTIDÃO DE DEUS EM NOS OUVIR (Lc 11.9,10).

Jesus faz agora a aplicação da parábola. Ele mostra que para recebermos algo da parte de Deus devemos orar.  Devemos agir como o homem da parábola, que, mesmo sabendo que estava incomodando e recebendo um não à princípio do seu vizinho, não deixou de insistir na busca do que necessitava. Com isso, ele recebeu até mais do que buscava (v. 8, conf. Ef 3.20).

Podemos destacar algumas lições importantes em relação a oração.

1º - Em primeiro lugar, a ordem de Jesus para orarmos (Lc 11.9). Há uma tríplice ordem aqui: pedi, buscai e batei. A oração tem a ver com humildade, perseverança e ousadia. Os imperativos presentes “continue a pedir”, “continue a buscar” e “continue a bater” indicam que a oração não é um ritual semipassivo em que de vez em quando partilhamos nossos interesses com Deus. A oração exige vigor e persistência [6].

John Stott diz que na oração há muita coisa por detrás dela. Primeiro, oração pressupõe conhecimento. Considerando que Deus só concede dádivas de acordo com a sua vontade, temos de esmerar-nos em descobri-la – pela meditação nas Escrituras e pelo exercício da mente cristã disciplinada nessa meditação. Segundo, oração pressupõe fé. Uma coisa é conhecer a vontade de Deus; outra é nos humilharmos diante dele e expressarmos a nossa confiança em que ele é capaz de executar a sua vontade. Terceiro, oração pressupõe desejo. Podemos conhecer a vontade de Deus e crer que ele pode executá-la, e ainda assim não desejá-la. A oração é o principal meio ordenado por Deus para a expressão de nossos mais profundos desejos. Assim, antes de pedir, precisamos saber o que pedir e se está de acordo com a vontade de Deus; temos de crer que Deus pode concedê-lo; e precisamos genuinamente desejar recebê-lo. Então, as graciosas promessas de Jesus se realizarão [7].

2º - Em segundo lugar, a promessa a quem ora (Lc 11.9,10). Os tempos verbais desta passagem são importantes: “Pedi (continuem pedindo), buscai (continuem buscando), batei (continuem batendo)”. Em outras palavras, não procurem Deus só quando surgem emergências no meio da noite, mantenham-se constantemente em comunhão com o seu Pai [8]. Entendendo que não receberemos tudo o que pedirmos, mas receberemos o que precisamos, e o que iremos receber é o melhor para nossas vidas.

3 – ESSA CONFIANÇA ESTÁ FUNDAMENTADA NA MISERICÓRDIA DO PAI NO CÉU (Lc 11.11-13).

Jesus conclui esse assunto mostrando o quanto o Pai é misericordioso. Ele faz uma comparação com o pai humano, que é falho e mal, mas que entretanto, procura dar o melhor para os filhos. Por isso devemos confiar que o Pai do céu nos dará sempre o melhor para nós.

Observe que esta parábola eleva o nível da discussão de amizade à paternidade; se uma pessoa iria responder a um pedido ousado de um amigo, quanto mais seria um pai responder aos seus filhos?

D. M. Lloyd-Jones diz que em nossa insensatez, inclinamo-nos por pensar que Deus está contra nós, quando algo de desagradável nos acontece. Entretanto, Deus é o nosso Pai; e, na qualidade de nosso Pai, Ele jamais nos dará qualquer coisa que nos seja prejudicial. Nunca; isso é simplesmente impossível [9].

Com isso em mente, podemos destacar algumas lições importantes.

1º - Deus nunca erra (Lc 11.11,12). Qual o pai que se um filho lhe pedir um pão lhe dará uma pedra? E se lhe pedir um peixe lhe dará uma serpente? Ou se lhe pedir um ovo lhe dará um escorpião? Isso é totalmente ilógico. Ora, se mesmo um pai terreno, ainda que mau por natureza (SI 51.1-5; 130.3; Is 1.6; Jr 17.9; Jo 3.3, 5; Rm 3.10; Ef 2.1), providencia para seus filhos somente coisas boas, e não coisas que venham a causar-lhes dano, quanto mais razão tem o Pai celestial – literalmente, o Pai do céu –, que é isento de toda maldade e é, de fato, a fonte de toda bondade, de dar ... o quê? [10]. Se aqui na terra o pedido dos filhos já exerce grande poder sobre os pais, a oração dos filhos de Deus move o coração do Pai no céu com muito mais intensidade [11].

Mas pode ser que por uma distração o pai dê algo ao filho algo que lhe prejudique. Quantas vezes já ouvimos de pais que esqueceram os filhos pequenos dentro do carro e foram trabalhar? Vi um vídeo de uma mãe que foi levar o filho para a aula de violão e esqueceu o filho em casa. Isso prova que somos falhos. Outras vezes procuramos fazer o melhor para os nossos filhos e no entanto estamos lhes prejudicando... somos falhos.

No entanto, Deus nunca erra. Deus conhece a diferença que entre o bem e o mal, com uma profundidade desconhecida por qualquer outro ser. O Pai jamais incorre em equívocos. Ele jamais nos dará alguma coisa que possa a vir a prejudicar-nos [12].

2º - Deus sempre tem o melhor para nós (Lc 11.13). Se, porém, os homens maus não fazem danos aos seus filhos, mas, pelo contrário, lhes fazem bem, quanto mais Deus fará bem aos Seus filhos? O bem que Deus fará não é deixado em termos gerais: Dará o Espírito Santo. Lucas está interessado na obra do Espírito Santo, e aqui vê o dom do Espírito como o sumo bem para o homem [13].

Esse é o único caso no Evangelho de Lucas no qual a presença do Espírito Santo é descrita como comum para a vida espiritual dos cristãos. A referência no contexto da história do amigo importuno é uma exortação para a persistência na busca de uma vida cheia do Espírito. E uma passagem na qual a busca pela santificação encontra uma particular garantia das Escrituras. Somente aqui, nas tradições do Evangelho, somos encorajados a buscar persistentemente o legado do Espírito Santo [14].

Para aqueles que pedem um presente, Ele dá o doador; para aqueles que procuram a verdade Ele dá o Espírito da verdade (Jo 16.13); para aqueles que procuram “amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gl 5.22-23) Ele dá o produtor de todas essas coisas. Somos a habitação do Espírito Santo (Rm 8.9,11; 1Cor 6.19; 2Tm 1.14), Ele é a fonte de todo o bem na vida do cristão (Ef 3.20).

CONCLUSÃO

Ousemos entrar confiantemente na presença do Senhor, pois teremos bons resultados em nossa oração. O Senhor tem prazer em ter comunhão com Seus filhos. Ele é o bom Pai que nos dá boas dádivas. Em Sua presença desfrutaremos as ricas bênçãos de Sua bondade e experimentaremos a realidade de que Ele “é capaz de fazer muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que opera em nós” (Ef. 3.20).

Ele não é um vizinho insensível as nossas necessidades, mas um Pai amoroso pronto a nos socorrer em tempo oportuno!

Pense nisso!

Bibliografia:

1 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 164.

2 – Childers Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 417.

3 – Bailey, Kenneth E. As Parábolas de Lucas, Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1985, p. 106.

4 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 185.

5 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 279.  

6 – Lopes, Hernandes Dias. Mateus, Jesus, o Rei dos reis, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2019, p. 239.

7 – Stott, John R. W. Contracultura Cristã, A mensagem do Sermão do Monte, Ed. ABU, São Paulo, SP, 1981, p. 88.

8 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 280.

9 – Lloyd-Jones, D. M. Estudo no Sermão do Monte, Ed. Fiel, São Paulo, SP, 1984, p. 481.

10 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 116.

11 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 166.

12 – Lloyd-Jones, D. M. Estudo no Sermão do Monte, Ed. Fiel, São Paulo, SP, 1984, p. 481.

13 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 185.

14 – Neale, David A. Lucas, 9 – 24, Novo Comentário Beacon, Ed. Central Gospel, Rio de Janeiro, RJ, 2015, p. 100. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário