segunda-feira, 14 de março de 2022

O QUE FAZER PARA HERDAR A VIDA ETERNA? - Lucas 10.25-28


Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 10.25-28

INTRODUÇÃO

De todas as perguntas que poderiam ser feitas, nenhuma é mais importante do esta que foi feita por este doutor da lei: “Que farei para herdar a vida eterna?”. Essa pergunta revela uma inquietação que está enraizada no coração do ser humano, a realidade de que cada alma humana é imortal. Mas a questão não é se as pessoas vão viver para sempre, mas onde elas vão viver para sempre, se no céu ou no inferno.

O que nos chama a atenção nessa passagem é que esta pergunta não foi feita por uma pessoa comum da comunidade, mas foi feita por um doutor da lei, por um membro renomado da sociedade judaica. Ele era um membro de uma instituição religiosa com pessoas altamente educadas, proeminentes, poderosas e influentes; embora fossem duramente hostis a Jesus e aos seus ensinamentos.  

Este escriba, não identificado, teve um raro privilégio de perguntar a respeito da vida eterna para Aquele que é Ele mesmo a vida eterna (1Jo 5.20), no entanto, este homem é um trágico exemplo da oportunidade perdida, o escriba, apesar de fazer a pergunta certa a pessoa certa e receber a resposta certa, ele virou-se para enfrentar a morte eterna.

Por que este escriba perdeu a oportunidade de receber a vida eterna? Para respondermos a esta pergunta devemos analisar estes primeiros versículos.

1 – A PRIMEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE NÃO BASTA FEZER A PERGUNTA CERTA COM A MOTIVAÇÃO ERRADA (Lc 10.25).

Muitas vezes Jesus foi questionado a respeito da salvação, como lemos a respeito do jovem rico em Mt 19.16ss; Mc 10.17ss; Lc 18.18-23. Por isso o diálogo com este escriba toma um curso completamente diferente, apesar do conteúdo idêntico da pergunta.

Podemos destacar três atitudes desse escriba diante de Jesus:

1º - Este escriba se aproxima de Jesus com má intenção (Lc 10.25a). Aparentemente este homem se aproxima de Jesus de forma cordial. Observe que o texto diz que “ele levantou-se”. No Oriente Médio o aluno sempre se levanta para dirigir-se ao professor, por cortesia. Aqui o doutor da lei não apenas se levanta, para dirigir-se a Jesus, mas também o chama de “Mestre”, que é a palavra que Lucas usa para “rabi” [1]. As Escrituras fazem questão de destacar a falta de sinceridade deste homem. Não era a pergunta sincera de uma pessoa que estivesse disposta a aprender; era uma prova – um desafio ou uma pegadinha –, ou uma tentativa de confundi-lo [Jesus] com um dilema moral ou um paradoxo para o qual não existia uma resposta clara, como acreditava o especialista [2].

Como disse A. T. Robertson: “O espírito deste doutor da lei era mau. Ele queria armar uma cilada para Jesus, se fosse possível” [3]. A sua aproximação parecia ser de uma pessoa bem intencionada, mas o seu coração não era de uma pessoa assim. Ele tinha um coração maligno. Assim como Satanás se aproximou de Jesus para tenta-lo no deserto, da mesma forma este homem se aproximou de Jesus. O texto é claro em dizer que ele se aproximou de Jesus para “tenta-lo”.

O mesmo acontece hoje. Muitas pessoas se aproximam da igreja ou de pessoas cristãs para “tentar” com perguntas capciosas, com más intenções, com o desejo de nos pegar em alguma falha, seja em palavra ou no nosso comportamento.

É igual a história de um menino que queria pregar uma peça em um sábio. Ele colocou um pássaro escondido entre as mãos e colocou as mãos para atrás, e perguntou ao sábio: “o pássaro que está nas minhas mãos está vivo ou morto?”. Se o sábio dissesse que estava vivo o menino o mataria, se dissesse que estava morto ele o soltaria. Diante desse dilema o sábio então respondeu: “o pássaro que está em suas mãos o destino dele está em suas mãos”.

Existem muitas pessoas assim que passam pelas nossas vidas, por isso devemos pedir a Deus sabedoria para aprendermos a lidar com essas pessoas e com as situações que elas tentam nos colocar. Façamos o que nos diz Tiago 1.5: “E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada”.   

2º - Este escriba fez a pergunta certa, embora tendo uma motivação errada (Lc 10.25b). A má intenção desse homem nos é descrita no texto. Ele queria “tentar” Jesus. Sua pergunta não era honesta. O homem não queria aprender, mas embaraçar. Queria colocar Jesus numa enrascada para depois se sentir superior [4]. Como já falamos, mas a despeito da motivação vil do especialista, a primeira pergunta que ele fez é uma pergunta boa. Na verdade, é a melhor pergunta já feita ou respondida, e era uma pergunta que mantinha ocupada a mente daqueles que se aproximavam de Jesus para aprender dele [5].  

J. C. Ryle diz que infelizmente, esta é uma pergunta com a qual poucos se importam. Milhares estão constantemente perguntando a si mesmos: “O que comeremos? Com que nos vestiremos? Como podemos satisfazer a nós mesmos? Como podemos prosperar neste mundo?”. Poucos, muito poucos, tomarão algum tempo para meditar a respeito da salvação de suas almas. Os homens odeiam este assunto, visto que os deixam intranquilos. Fogem do assunto e o descartam. Fiéis e verdadeiras são as palavras do Senhor: “Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela” (Mt 7.13) [6].

3º - Este escriba tinha uma teologia distorcida (Lc 10.25c). Pode parecer estranho que um membro de uma instituição religiosa fizesse essa pergunta. Afinal, o povo judeu estava convencido de que, como filhos de Abraão (Mt 3.9; Jo 8.39), a quem pertence “a adoção de filhos, e a glória, e as alianças, e a lei, e o culto, e as promessas; dos quais são os pais” (Rm. 9.4-5a), seria garantida a entrada no reino eterno de Deus. Mas sua herança judaica não iria salvar aqueles cuja religião era rasa, superficial, hipócrita e externa (Lc 3.8; Rm 2.28,29). Este escriba, no entanto, não estava preocupado com sua salvação, pois, para ele, ser judeu era o suficiente para herdar a vida eterna. Na mente desse doutor, a vida eterna era uma conquista das obras, e não uma oferta da graça. Para ele, a salvação era uma questão de merecimento humano, e não uma dádiva divina [7].

Hoje muitas pessoas pensam que herdarão a vida eterna pelos seus méritos, por estarem ou fazerem parte de uma instituição religiosa. Outros acham que basta ser uma boa pessoa que já é o suficiente para herdá-la. Como se a salvação partisse de nossas atitudes e não da graça de Deus.

A questão sobre herdar a vida eterna começou a aparecer, principalmente durante o ministério de Jesus e posteriormente com os apóstolos, por causa das dúvidas e medos causados por uma consciência incômoda e um coração descontente ((Mt 25.46; Mc 10. 29,30, Jo 4.36, 5.24,39; 6.27,40,47,54,68; 10.28; 12.25,50; 17.2,3; cf. At 13.48; Rm 2.7; 5.21; 1Tm 1.16; Tt 1.2; 1Jo 1.2; 2.25; 3.15; 5.11,13,20; Jd 21). Assim como Nicodemos que procurou Jesus à noite (Jo 3), muitos sabiam que eles não eram justos diante de Deus; que o seu verniz de atividades religiosas serviram apenas como cal, cobrindo um túmulo “que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia” (Mt 23.27).

Esse incômodo em relação a vida eterna só ocorre em corações sinceros diante de Deus. Veja por exemplo a mulher samaritana em João 4. Esta mulher apesar de ter uma má reputação tinha sede de saber onde era o verdadeiro lugar para se adorar a Deus. Ela tinha sede de Deus, e devido a isso, o Senhor, por misericórdia, se revelou a ela como o Messias prometido. O Senhor não quer de nós perfeição, mas Ele quer de cada um honestidade. A mulher samaritana foi honesta na resposta a respeito de sua vida conjugal, o doutor da lei foi desonesto na sua pergunta.

2 – A SEGUNDA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE JESUS REVERTE A ARMADILHA (Lc 10.26-28).

Já que este escriba era um intérprete da lei ele deveria saber interpretá-la de forma correta. Por isso a pergunta de Jesus: “Que está escrito na lei? Como lês?” (Lc 10.26). A pergunta de Jesus era uma forma de desarmar o escriba da sua arrogância, ou seja, o escriba cai na sua própria armadilha. E isso ocorreu de duas maneiras:

1º - O escriba dá uma resposta comprometedora (Lc 10.27). Jesus estava se referindo ao Keri’at Shema, a leitura diária em voz alta de Deuteronômio 6,4,5: “Ouça, ó Israel: O SENHOR, o nosso Deus, é o único Senhor. Ame o SENHOR, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todas as suas forças”. Ao responder, o perito na lei citou a primeira metade da mesma passagem, acrescentando a segunda metade de Levítico 19.18: “Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todas as suas forças e de todo o seu entendimento” e “Ame o seu próximo como a si mesmo” (Lc 10.27). Era um resumo perfeito das exigências morais da lei [8]. 

Quando lemos Mt 22.37-40 observamos que esta foi exatamente a mesma resposta que Jesus havia dado em outra ocasião quando outro perito na lei lhe perguntou: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?” (Mt 22.36). E Jesus respondeu: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas”.

O escriba sabia interpretar a lei, mas não a sua aplicabilidade – A combinação das duas passagens da lei como síntese de toda a lei era nova em sua característica, ou pelo menos não era familiar. Não há nenhum relato acerca de como o mestre da lei encontrou essa resposta. De qualquer maneira, sua resposta evidencia que ele havia compreendido o cerne da lei. Na passagem do AT (Dt 6.5) fala-se de três órgãos fundamentais do ser humano: o coração, a alma e a força. Lucas acrescenta, conforme a Septuaginta, ainda “com todo o seu entendimento”. O coração, foco central da vida humana, precisa ser integralmente rendido a Deus. A alma, o eu, deve colocar-se de tal maneira a serviço de Deus que todos os impulsos sejam regidos pelo Espírito de Deus. A força ou a vontade deve estar às ordens de Deus. Por fim, Deus precisa poder dispor inteiramente do entendimento ou do pensamento, da capacidade intelectual. Assim essa composição de quatro elementos expressa a entrega total a Deus. O segundo dos maiores mandamentos na lei, a saber, o amor ao semelhante, somente pode ser cumprido em conexão com o amor a Deus. Somente a pessoa dominada pelo amor a Deus está em condições de, livre do egoísmo, valorizar o eu do próximo tanto quanto seu próprio eu [9].

Existem muitas pessoas que citam a Bíblia como poucos, mas vivem longe de praticar o que conhecem. Assim como esse escriba que era versado na lei, mas que tinha dificuldade de praticá-la conforme ele mesmo citava. Aliás, é bom destacar que viver da forma correta como está sendo explanado aqui só é possível mediante a graça regeneradora de Deus em nossas vidas.

2º - Jesus lança o escriba em sua própria armadilha (Lc 10.28). Quando disse para o escriba que ele havia respondido bem, que ele deveria fazer isso e alcançaria a vida eterna, Jesus não está ensinando que a salvação é mediante as obras da lei. Jesus está dizendo que se alguém praticar o que o escriba havia falado, tal pessoa certamente era perfeita. Só Jesus cumpriu os ditames da lei de forma plena, mas ninguém. Nós não conseguimos porque somos pecadores. Por isso que a salvação é mediante a graça e não por obras, como lemos em Efésios 2.8,9: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie”.

Mas as Escrituras nos deixam claro que é impossível alguém ser salvo por guardar a lei, como está escrito: “Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado” (Rm 3:20), e “porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las” (Gl 3.10 cf. Dt 27.26). Como resultado: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.23), De modo que “Não há um justo, nem um sequer” (Rm 3.10 Cf. 5.12; Gl 3.22).

Champlin diz que a contribuição do “legalismo” consistiu em dizer-nos claramente que “DEVEMOS fazer algo”. Pois a fé religiosa precisa transformar-se e manifestar-se na vida prática. O vício do legalismo consiste em incluir o “mérito humano” no quadro, diminuindo a operação do Espírito. A virtude da graça consiste em mostrar que o homem nada é e nem pode ser nada sem a operação do Espírito. A corrupção da graça, pela – crença fácil – mediante o que os homens se olvidam que precisam do poder transformador do Espírito, oculta o fato de que assim não haverá verdadeira aplicação da graça à vida do indivíduo [10].

Por isso que Jesus diz para este escriba que ele havia respondido bem; faça isso e você alcançará a vida eterna. Mas a grande questão é exatamente esta, quem poderá fazer isso? Somos salvos mediante a graça e não por obras meritórias. Muito menos por guardar a lei.

Essa armadilha que o escriba tentou armar para Jesus foi a armadilha que ele mesmo caiu. Isso lembra da forca que Hamã fez para enforcar Mardoqueu foi a forca que o próprio Hamã foi morto (Et 7.8,9).

CONCLUSÃO

Esses quatro primeiros versículos desse diálogo era só o começo da parábola do Bom Samaritano. Este homem ainda estava longe de entender o que Jesus havia lhe falado. Se ele fosse uma pessoa humilde e tivesse feito a pergunta sincera sobre como herdar a vida eterna, a resposta de Jesus teria sido suficiente para ele. E, provavelmente, o escriba saberia que é impossível ao homem herdar a vida eterna pela prática da lei.

Esse escriba é o retrato de muitas pessoas hoje em nossa sociedade. Quantas pessoas pensam que herdarão a salvação por seus próprios méritos, por serem pessoas de boa reputação ou por fazer parte de uma instituição religiosa. Mas a Bíblia é clara em afirmar que o único caminho que leva o homem a Deus é mediante o sacrifício de Jesus na cruz. Não há outra forma de chegarmos ao céu por atalhos criados pelos homens. Se quisermos herdar a vida eterna só mediante a adoção de Deus pai mediante o Seu Filho Jesus (Ef 1.5).

Pense nisso!   

Bibliografia:

1 – Bailey, Kenneth E. As Parábolas de Lucas, Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1985, p. 77.

2 – MacArthur, John. As Parábolas de Jesus, Ed. Thomas Nelson, Rio de Janeira, RJ, 2018, p. 108.

3 – Robertson, A. T. Comentário de Lucas, à luz do Novo Testamento grego, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2013, p. 204.

4 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 338.

5 – MacArthur, John. As Parábolas de Jesus, Ed. Thomas Nelson, Rio de Janeira, RJ, 2018, p. 108.

6 – Ryle, J. C. Meditação no Evangelho de Lucas, Ed. Fiel, São José dos Campos, SP, 2002, p.177.

7 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 339.

8 – MacArthur, John. As Parábolas de Jesus, Ed. Thomas Nelson, Rio de Janeira, RJ, 2018, p. 109.

9 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005, p. 157.

10 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, Lucas, vol. 2, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2005, p. 108. 

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