terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

O RICO E LÁZARO, UMA VERDADE MUITAS VEZES ESQUECIDA

Por Pr. Silas Figueira

A parábola do Rico e Lázaro (Lucas 16.19–31) é uma das falas mais penetrantes de Jesus Cristo registradas na Bíblia porque ela não apenas descreve dois destinos após a morte, mas revela como a eternidade ilumina o verdadeiro valor da vida presente. Jesus conta essa história para confrontar uma mentalidade comum: medir sucesso por aparência, conforto e posição social. Ao narrar a vida de um homem riquíssimo e de um pobre invisível aos olhos da sociedade, Ele mostra que aquilo que parece definitivo aqui é, na verdade, provisório — e aquilo que parece insignificante pode ter peso eterno.

O rico vive cercado de luxo, simbolizado por suas roupas de púrpura e linho finíssimo, tecidos caríssimos e associados à elite. Seus dias são marcados por banquetes e abundância contínua. Nada no texto sugere que ele tenha praticado crimes evidentes; o problema é mais profundo e silencioso. À porta de sua casa jazia Lázaro, um homem doente, faminto e vulnerável, desejando apenas as sobras que caíam da mesa. O contraste não é apenas econômico, mas espiritual. O rico possui tudo, mas não enxerga. Lázaro não possui nada, mas é conhecido por Deus. A parábola mostra que o pecado mais perigoso nem sempre é uma ação agressiva, e sim a indiferença confortável que se acostuma ao sofrimento alheio. É fazer da riqueza o seu Deus. 

Quando ambos morrem, a narrativa muda radicalmente de cenário. O que era invisível na terra torna-se visível na eternidade. Lázaro é consolado, e o rico experimenta angústia. Essa inversão não é apresentada como uma surpresa arbitrária, mas como revelação de uma realidade que já existia. A eternidade não cria novos valores; ela apenas torna permanentes os valores que foram escolhidos em vida. O que o rico cultivou foi uma existência centrada em si mesmo. O que Lázaro viveu foi dependência de Deus em meio à dor. Assim, a parábola não glorifica a pobreza nem condena a riqueza em si, mas expõe o coração humano quando confrontado com o próximo.

Um detalhe marcante é que Lázaro é nomeado, enquanto o rico permanece anônimo. Na cultura bíblica, o nome representa identidade e reconhecimento. O homem ignorado na terra é reconhecido na eternidade; o homem celebrado na terra é desconhecido no relato eterno. Essa inversão revela um princípio profundo: a verdadeira identidade não é construída pela posição social, mas pela relação com Deus.

O diálogo entre o rico e Abraão revela outra verdade essencial: há um “grande abismo” fixo entre os destinos. Essa imagem comunica a seriedade das escolhas feitas na vida presente. Não se trata de punição impulsiva, mas de consequência consolidada. A parábola ensina que a vida não é um rascunho que poderá ser reescrito depois; ela é o momento em que o coração se orienta definitivamente para Deus ou para si mesmo. A eternidade não oferece novas oportunidades de transformação porque a vida já foi o espaço da decisão.

Quando o rico pede que alguém volte para alertar seus irmãos, a resposta afirma que já existe revelação suficiente. A Palavra de Deus já aponta o caminho para arrependimento e transformação. O problema humano não é falta de informação espiritual, mas resistência interior. A parábola sugere que quem não se sensibiliza com a verdade revelada dificilmente será transformado por sinais extraordinários. A mudança começa quando o coração se abre para ouvir e obedecer.

A mensagem central emerge com clareza: o valor real da vida não é medido pelo que se possui, mas pelo que se ama; não pelo que se acumula, mas pelo que se torna. A eternidade revela que a vida humana é um tempo de formação do coração. Cada atitude de compaixão, cada escolha de justiça, cada gesto de amor possui peso que ultrapassa o presente. Da mesma forma, a indiferença repetida molda uma existência fechada em si mesma.

Pensando na nossa realidade, a parábola convida a olhar ao redor com sensibilidade espiritual. O ensino não é abstrato. Ele chama para uma vida em que fé e compaixão caminham juntas, em que o relacionamento com Deus se expressa no cuidado com pessoas reais. A eternidade não começa depois da morte; ela começa na direção que o coração assume agora.

No fim, o Rico e Lázaro não é apenas uma história sobre dois homens, mas um espelho para todo leitor. A pergunta silenciosa que permanece é: o que tem definido o valor da nossa vida — aquilo que passa ou aquilo que permanece? A parábola responde que somente a eternidade revela o verdadeiro valor, mas a vida presente é o lugar onde esse valor é formado.