quarta-feira, 21 de julho de 2010

Pecado, a tragédia!
















Por Jorge Fernandes Isah


Nos últimos anos, temos lido e ouvido uma avalanche de justificativas para as tragédias que têm acometido o mundo: tsunamis, terremotos, enchentes, seca, e muitas outras catástrofes que nos têm deixado atônitos. A pergunta que não quer se calar é: qual a relação entre essas tragédias e o pecado?

Muitos apelarão para o deus que se surpreende com um tsunami ou um terremoto. Outros dirão que ele abriu mão da sua onipotência e onisciência para sentir e sofrer como nós, logo, estando impotente para agir diante das desgraças, e mesmo da vontade do homem; um pobre-coitado preso na própria armadilha, sem chance de se libertar. Outros, ainda, alegarão que deus não está nem aí para este mundo. Haverá os que defendem a soberania da natureza, a eco-divindade, a deusa Gaya dos tempos modernos, que está a se revoltar contra as agressões perpetradas pelo homem. Porém, o fato é que:


1) Deus é soberano; e nada acontece alheio ou contra a sua vontade: “Eu sou o Senhor, e não há outro. Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas” [Is 45.6-7]; “Tocar-se-á a trombeta na cidade, e o povo não estremecerá? Sucederá algum mal na cidade, sem que o Senhor o tenha feito?” [Amós 3.6].


2) Deus controla e coordena todas as coisas, inclusive as mais insignificantes e desprezadas; ao ponto em que muitos se perguntam: Por que Deus se importaria com isso?... Ele tem mais o que fazer!


Acontece que Ele é Deus, o Criador de todas as coisas; e se foram criadas, foram-no com um propósito definido, irrevogável, ultimado, a produzir eficazmente os resultados que determinou antes da fundação do mundo; portanto, por que o Senhor deixaria ao léu a criação? À própria sorte? Como está escrito: “E todos os moradores da terra são reputados em nada, e segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem possa estorvar a sua mão, e lhe diga: Que fazes?” [Dn 4.35].


3) O cerne da questão é: até que ponto o Deus bíblico pode deixar de ser Deus? Até que ponto Ele pode abandonar a sua criação e continuar Deus? E se existe alguma autonomia nas coisas, seja na natureza ou no homem, Deus permaneceria Deus, o Todo-Poderoso, o Soberano, Senhor de tudo? Não, porque Ele mesmo diz de Si mesmo: “Como pensei, assim sucederá, e como determinei, assim se efetuará... Porque o Senhor dos Exércitos o determinou; quem o invalidará? E a sua mão está estendida; quem pois a fará voltar atrás?” [Is 14.24, 27].


Algo que o crente jamais poderá duvidar é na completa, plena, irreversível e inexorável soberania divina, com o risco de se comprometer a fé bíblica e ser achado entre os que rejeitando a fé e a boa consciência “fizeram naufrágio na fé”[1Tm 1.19]. Então, sejam os tsunamis, os terremotos, incêndios, pestes, ou um tiro desferido ao “acaso” e que vitimou alguém, ou uma doença incurável, tudo estará magistralmente sob o domínio do Senhor, sem que um mísero fio de cabelo caia por indiferença, ao contrário, ele cairá sempre e infalivelmente segundo a autoridade dAquele que decretou eternamente que caísse: “Não se vendem dois passarinhos por um ceitil? E nenhum deles cairá em terra sem a vontade de vosso Pai. E até mesmo os cabelos da vossa cabeça estão todos contados” [Mt 10.29-30].


Assim, dizer que Deus não quis que milhões de pessoas morressem desgraçadamente, vitimadas por calamidades naturais é, para dizer pouco, uma blasfêmia; quando não, o reflexo do ceticismo, da autoidolatria, da não-conversão, em que muitos, por não aceitar a verdade, refestelam-se na mentira. Pois como Ele diz: “Eu sou o Senhor, e não há outro; fora de mim não há Deus” [Is 45.5]. Se alguém está a crer em outra coisa, seja o homem, a ciência, ou em outro deus qualquer, jamais a fé estará depositada no Deus bíblico, o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.


Acreditar que o "acaso" ou forças impessoais dirigem o universo, e de que Deus é um mero espectador, impassível ou angustiado em sua impossibilidade de ação, é estar imerso na mais falsa e espúria corrupção, ao ponto em que Deus é desfigurado de tal maneira que não guarda nada em sua essência que seja verdadeiro. Resta aos defensores dessas doutrinas assumirem as consequências de não terem a mente de Cristo; e urge voltarem à Palavra, sob pena de serem por ela declarados culpados [Jo 12.48].


Voltando à pergunta inicial, qual a relação entre as tragédias e o pecado? É certo afirmar que o pecado não tem nada a ver com as catástrofes pessoais ou coletivas? Errado! Porque não entender que todas as coisas acontecem pelo vontade ativa do Senhor torna o homem num tolo, já que "na sua mão está a alma de tudo quanto vive, e o espírito de toda a carne humana" [Jó 12.9-10].


A primeira conseqüência do pecado foi a morte do homem. Não a morte física, mas a morte espiritual. O homem foi separado de Deus. E pode haver conseqüência pior, mais danosa? Foi o Senhor quem disse a Adão: “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” [Gn 2.17]; o que também foi confirmado pelo profeta: “Cada um morrerá pela sua iniqüidade” [Jr 31.30]. A pior morte não é a corrupção da carne, sendo ela também reflexo do pecado, mas a separação profunda e intensamente letal de Deus.


Em Gênesis, após o pecado de Adão e Eva, Deus os amaldiçoou, bem como a serpente; e lê-se: “maldita é a terra por causa de ti [Adão]; com dor comerás dela todos os dias da tua vida... No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque és pó e em pó te tornarás” [Gn 3.17, 19]. Ou seja, o pecado do homem afetou não somente a sua condição, mas a condição de toda a criação, que clama pelo dia em que será redimida também: “Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora. E não só ela, mas nós mesmos que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo” [Rm 8.22-23]. O pecado é o maior de todos os males, a desgraça potencialmente destrutiva e que, se minimizado, representará a completa destruição daquele que negligencia sua nocividade, sendo indulgente para com ele.


Paulo diz: “Mortificai, pois, os vossos membros, que estão sobre a terra: a fornicação, a impureza, a afeição desordenada, a vil concupiscência, e a avareza, que é idolatria; pelas quais coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência” [Cl 3.5-6].


Podemos afirmar, seguramente, que as tragédias não têm nada a ver com o pecado? E que não acontecem como manifestação da ira divina? Em quais bases os “apologistas” desta doutrina se firmam para garanti-la?


Será, porventura, no Salmo 78.31? “Ainda lhes estava a comida na boca, quando a ira de Deus desceu sobre eles, e matou os mais robustos deles, e feriu os escolhidos de Israel”.


Ou será em Atos 5.1-10? Quando Ananias e sua mulher venderam uma propriedade, retiveram parte do dinheiro, e depositaram o restante aos pés dos apóstolos? “Disse então Pedro: Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, e retivesses parte do preço da herdade? Guardando-a não ficava para ti? E, vendida, não estava em teu poder? Por que formaste este desígnio em teu coração? Não mentiste aos homens, mas a Deus. E Ananias, ouvindo estas palavras, caiu e expirou” [v. 3-5].


Pode ser Atos 13.8-12? Em que Elimas, o encantador, resistia a Paulo e Barnabé, diante do Procônsul Sérgio Paulo, procurando afastá-lo da fé? Ao que Paulo disse: “Ó filho do diabo, cheio de todo o engano e de toda a malícia, inimigo de toda a justiça, não cessarás de perturbar os retos caminhos do Senhor? Eis aí, pois, agora contra ti a mão do Senhor, e ficarás cego, sem ver o sol por algum tempo. E no mesmo instante a escuridão e as trevas caíram sobre ele e, andando à roda, buscava a quem o guiasse pela mão” [v.10-11].

Porventura seria 1 Samuel 5? Em que os filisteus tomaram a arca de Deus, colocando-a na casa de Dagom? “Porém a mão do Senhor se agravou sobre os de Asdode, e os assolou; e os feriu com hemorróidas, em Asdode e nos seus termos”[v.6].


A arca foi passada de mão em mão, e a peste se alastrou sobre aqueles que retinham a arca de Deus: “A arca do Deus de Israel será levada até Gade... E sucedeu que, assim que a levaram, a mão do Senhor veio contra aquela cidade, com mui grande vexame” [v. 8.9]. “E os homens que não morriam eram tão atacados com hemorróidas que o clamor da cidade subia até o céu” [v.12].


Quem sabe em Levítico 10? “E os filhos de Arão, Nadabe e Abiú, tomaram cada um o seu incensário e puseram neles fogo, e colocaram incenso sobre ele, e ofereceram fogo estranho perante o Senhor, o que não lhes ordenara. Então saiu fogo de diante do Senhor e os consumiu; e morreram perante o Senhor” [v.1-2].


Ou ainda, em 2 Samuel 6? “E, chegando à eira de Nacom, estendeu Uzá a mão à arca de Deus, e pegou nela; porque os bois a deixavam pender. Então a ira do Senhor se acendeu contra Uzá, e Deus o feriu ali por esta imprudência; e morreu ali junto à arca de Deus” [v. 6-7].


Acho que não...


Assim como esses versos, há uma profusão de outros versos na Escritura que revelam o castigo divino sobre os rebeldes, sejam castigos físicos ou espirituais, ou ambos. Dizer que Deus não castiga o pecador é um grande engano. Da mesma forma, muitos querem humanizá-lo a partir de falsos pressupostos, como se o crente não devesse se utilizar dos pressupostos bíblicos. Por isso, muitos desprezam a Escritura, querem desacreditá-la, reescrevê-la, reinterpretá-la, a fim de atender aos objetivos mais vis e desprezíveis que a alma humana pode conceber. Há uma legião de falsos crentes que estão sistematicamente a deflagrar em outros o seu ceticismo, ao ponto de acreditarem apenas na própria tolice. Estão a entoar uma canção fúnebre, marchando em direção ao abismo, evitando qualquer contato com a sabedoria que vem do alto [Ecl 7.5].


Um dos argumentos mais usados para defender o não-castigo para o pecado é o trecho em que Cristo fala sobre os galileus, presente em Lucas 13. Segundo o argumento deles, diga-se de passagem distorcido, se Cristo diz: “Cuidais vós que esses galileus foram mais pecadores do que todos os galileus, por terem padecido tais coisas? Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis” [v. 2-3], é sinal de que não foi pelo pecado que aqueles homens padeceram a tragédia [esses galileus foram mortos e tiveram o sangue misturado com os seus sacrifícios no templo, por Pilatos]. Porém, não é isso que o Senhor afirma, pois, o que está a dizer é: todos são pecadores, e não foi porque alguns pecaram mais que sofreram mais; contudo, mesmo não pecando tanto como aqueles, se não se arrependerem perecerão de igual modo. O Senhor está chamando a atenção não para o grau de pecado, se maior ou menor, mas para o fato de que pecando, seja em qual nível for, sem arrependimento estarão todos condenados à morte. Ou seja, o pecado será sempre punido, de uma forma ou de outra.


Outro trecho muito utilizado é o de João 9. Ali, os discípulos ao verem um cego de nascença, perguntam: “Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? Jesus respondeu: Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus” [v.2-3]. Apressadamente, muitos dirão: "Viu! O mal não sobrevém por causa do pecado. O cego não fez nada para merecer a cegueira, coitadinho! Senão, como explicar que ele nasceu cego? E por que eu não nasci cego?".


Especificamente, nesta questão, Cristo disse que a cegueira daquele homem era para que a obra de Deus fosse manifestada nele. Cristo o curaria diante dos olhos incrédulos dos judeus, ao ponto em que o cego daria testemunho não somente diante da assistência atônica [“desde o princípio do mundo nunca se ouviu que alguém abrisse os olhos a um cego de nascença” v. 32], mas também diante dos fariseus, da incredulidade e hipocrisia deles, que consideravam transgressão Cristo curar no Sábado. Aquele homem foi instrumento para revelar ao mundo que em Cristo está manifestada a glória de Deus, pelas obras que Ele faz em nome do Pai; “a fim de que os que não vêem veja, e os que vêem sejam cegos” [v.39]; mas mais do que isso, para revelar que era Deus, e não estava sujeito à Lei, ainda que a cumprisse integralmente. Há também uma referência explícita à cegueira espiritual em que o homem natural está imerso, e somente Cristo pode tirá-lo da sepultura, das trevas em que se encontra, trazendo-o para a luz, salvando-o da condenação. Logo, não há argumento aqui a isentar o homem de sofrer pelo pecado; pelo contrário, todos sofrerão por causa dele, de um jeito ou de outro. Mesmo nós, os remidos pelo sangue de Cristo na cruz, não estamos livres dos seus efeitos, o que acontecerá somente na eternidade, quando seremos impossibilitados por Deus de pecar, feitos santos como santo é o seu Filho Amado.


Em outra passagem, Jesus curou um homem que se achava enfermo trinta e oito anos. O Senhor se aproximou dele sabendo que estava doente há muito. Depois de algum tempo, eles se encontraram novamente no templo, e Jesus disse-lhe: “Eis que já estás são; não peques mais, para que não te suceda alguma coisa pior” [Jo 5.14]. Ao meu ver, o Senhor está a falar de um pecado específico cometido por aquele homem no passado e que motivou a enfermidade, ou simplesmente de pecados genéricos. De qualquer forma, o aspecto geral de sua exortação era para que ele evitasse o pecado a todo custo, resistindo-lhe.


Como nos exemplos anteriores, vemos que existe a punição física pelo pecado também aqui, tanto no aspecto individual como coletivo. Com isso, não quero dizer que devamos sair à caça dos pecados alheios, apontando-os e usando-os como justificativa para a tragédia na vida humana. Porém, Deus em sua soberania, pode dispor de cada um de nós da forma como quiser, como melhor lhe convém, sem que possamos, com isso, acusá-lo de qualquer delito ou desvio de caráter. Deus é santo, perfeito, justo e Senhor. Cabe-nos reconhecê-lo como tal, e a Ele dar honra e glória, para sempre. Sem nos esquecer de que o pecado será punido, de que o infrator, ao rejeitar o nome de Cristo como Senhor e Salvador, estará irremediavelmente perdido. Porque a verdade não pode ser desfeita, nem alterada, mas permanece imutável, garantida pelo próprio Deus: “Eis que todas as almas são minhas; como o é a alma do pai, assim também a alma do filho é minha: a alma que pecar, essa morrerá” [Ez 18.4].


Deixar-se iludir pelo pecado, ainda que ele tenha uma aparência atrativa, representará a morte; pois ele é fatal, e cobrará o seu salário no tempo devido [Rm 6.23].

Fonte: KÁLAMOS

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