segunda-feira, 25 de agosto de 2014

PERIGO!


Por Fabio Campos

Texto base: “Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé”. – 1 Timóteo 4.1

Estamos sob pressão! A sensação que tenho é que a qualquer hora o mundo vai explodir. As guerras, as injustiças sociais, a programação televisiva (que a cada dia “ama o que deveria odiar e odeia o que deveria amar”) têm sido o alimento de muitos, com toda sorte de porcaria obscena e imoral. Mas há uma esfera pior! A apostasia! Como vamos ser luz se estamos nas trevas? Como vamos ser sal da terra se nossa vida tornou-se insípida?

Disse Nosso Senhor, “Igualmente hão de surgir muitos falsos profetas, e enganarão a muitos; e, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará” (Mt 24. 11-12 AFC).

O pecado, a iniquidade e a injusta têm sido o alimento dado por satanás à alma do homem que por natureza é incrédula. Muitos estão se alimentando deste engodo; e pior, nem ao menos sentiram o incomodo digestivo desta comida podre. Ouvindo aos demônios, como disse o apóstolo, estão se apostatando da fé.

Precisamos diferenciar “apostatar” e “desviar”. Quando alguém se desvia, há perdão e misericórdia no quebrantamento (Tg 5.19-20). Este ainda não perdeu o temor e reconhece que precisa se concertar com Deus. Apostatar-se é totalmente diferente.

É mesmo termo usado para “divórcio”. Ou seja, há um rompimento. O apóstata peca deliberadamente contra Deus. Não esboça nenhuma atitude de arrependimento. Tragicamente “crucificaram para si mesmos o filho de Deus e o expuseram à ignomínia” (Hb 6. 4-6). Este é o pecado para morte qual a Bíblia diz para não orarmos em favor daquele que o cometeu (1 Jo 5.16).

Infelizmente o amor de muitos têm se esfriado. Não há mais esperança – não há mais fé – jogaram a “responsabilidade do homem” nas costas da “Soberania de Deus”. Esqueceram-se da maior injustiça de todos os tempos, a saber, “o justo que morreu pelos injustos”. Tornaram-se infelizes por terem esperado em Cristo somente nesta vida (1 Co 15.19). Pois é, a esperança dada por Nosso Senhor é escatológica! Seu Reino não é este! Como, então, atribuir às intempéries do mundo a Deus, sendo que o “mundo jaz no maligno”? Do que se queixar quando simplesmente comemos os frutos de nossos próprios pecados (Lm3.39)?

Amados, o perigo é constante! O leão ruge buscado a quem possa tragar! Portanto, o Senhor nos deixou de sobreaviso que no “mundo teríamos tribulações”. Se você ouviu algo diferente disto, sinto-lhe informar que você foi enganado! As heresias estão aí! A elite “intelectual” está formando a opinião dos leigos que pensa que pelo simples fato de possuir uma conta “rechonchuda” e uma boa retórica, é detentor da verdade.

Mas não é assim! Pelo contrário! Neste ponto abordado endosso aquilo que disse Olavo de Carvalho: "O modelo supremo de sabedoria a que aspira a inteligência [nociva] moderna é, indiscutivelmente, o demônio. Ele não pode nos salvar; mas pode justificar de maneira cada vez mais científica a nossa danação".

Que Deus guarde o nosso coração e preserve para si sete mil homens e mulheres que não se dobraram a baal, mas que pela firme convicção, independentemente da situação, continue a dizer: “... eu sei em quem tenho crido” (2 Tm 1.12 AFC).

Considere este artigo e arrazoe isto em seu coração.

Soli Deo Gloria!

Fonte: Fabio Campos

Lágrimas Desconhecidas aqui!


Por Josemar Bessa

Há situações descritas por outras pessoas que são tão impressionantes que nossas mentes tem dificuldade de processar e imaginar. Em Apocalipse 5 nós temos uma dessas cenas impressionantes assim.

Um anjo forte diante de todo o exército dos céus está fazendo uma “pesquisa” exaustiva e convocando alguém capaz de abrir “o livro” que está nas mãos de quem está assentado no Trono.

“E vi na destra do que estava assentado sobre o trono um livro escrito por dentro e por fora, selado com sete selos. E vi um anjo forte, bradando com grande voz: Quem é digno de abrir o livro e de desatar os seus selos? E ninguém no céu, nem na terra, nem debaixo da terra, podia abrir o livro, nem olhar para ele.” - Apocalipse 5:1-3

A questão é: o que contém este livro?

Baseado no que vemos acontecer neste capítulo e nos capítulos subsequentes, dali flui o juízo iminente de todo pecado, de toda maldade.... de TUDO que na história humana roubou a glória de Deus que tudo criou para manifestá-la. E agora o juízo está pronto para ser derramado sobre todo roubo dessa glória.

O que lemos nos capítulos sucessivos a partir daí, é o desencadeamento da Ira do Cordeiro. Todos os atos de Deus purgando toda a maldade do coração humana, toda a ruína trazida por isso a esse planeta, todo pecado e sua mancha... o início da restauração de todas as coisas de uma criação que está gemendo onde tudo manifestará a glória do Criador... é um conteúdo que em sua plenitude é insondável por nós.

E este anjo forte é enviado e completa a chamado por toda terra e céu e NINGUÉM em toda a criação é achado “digno”, qualificado para abrir o livro. NINGUÉM!

O apóstolo João tem uma reação forte a isso ( Deus queira que nossos corações sintam como o dele ) – “E eu chorava muito, porque ninguém fora achado digno de abrir o livro, nem de o ler, nem de olhar para ele.” - Apocalipse 5:4

João começa a chorar totalmente tomado pela emoção mais profunda. Por que? Por que? Esse, o mundo em que vivemos, é abundante em lágrimas, mas essas lágrimas de João são estranhas para este mundo. Ele chora, todas as suas entranhas se comovem, olhe para o texto, porque ninguém era digno de abrir o livro ou sequer olhar para ele.

O que isso significa?

Bem, se o livro contém o julgamento posterior de Deus sobre toda a impiedade e tudo que lhe “roubou” sua glória, ou não dar um testemunho verdadeiro dela, (cada pecado é uma mentira sobre o Criador) – e se o livro é um catalisador para trazer a restauração final de todas as coisas para a glória de Cristo, do Pai, do Espírito Santo, e não pode ser aberto, então... então estamos presos... então a glória de Deus não vai ser vindicada.

Isso não pode acontece! Isso não pode acontecer, e João sabe que ninguém entre os homens ou até mesmo entre todos os anjos do céu podem vir e tomar este livro e executar o seu conteúdo... então ele está angustiado, totalmente angustiado. Seu coração está em pedaços, rasgado... pois parece que Os propósitos de Deus parecem ser frustrados se ninguém pode abrir o livro e dar início a vindicação da glória de Deus.

A palavra usada é a mesma na construção do choro de Pedro ao negar a Jesus:“E lembrou-se Pedro das palavras de Jesus, que lhe dissera: Antes que o galo cante, três vezes me negarás. E, saindo dali, chorou amargamente.” - Mateus 26:75 – É um grito alto e amargo.

Isso te faz chorar? O que te faz chorar? O que tem feito a igreja chorar?
João está emocionalmente totalmente perturbado com a perspectiva de o pecado não ser tratado, a glória de Deus não ser vindicada e a restauração de tudo para a glória de Deus não ser realizada.

Você já se encontrou com lágrimas nos olhos por causa da glória de Deus? São lágrimas que este mundo não conhece. As lágrimas do mundo são auto-centradas. São antropocêntricas.

Pense agora em todas as abundantes lágrimas que foram derramadas por todos os santos ao longo da história chorando pela vindicação do Nome de Deus. Orações como as do Salmo 13, que clama aos céus: “...até quando Senhor” – todos os verdadeiramente redimidos em Cristo clamando “venha a nós o Teu Reino...” – Séculos e séculos de clamor por uma vindicação da glória de Deus que trouxesse plena restauração a todas as coisas. Suas lágrimas estão entre essas?

Aqui João chega ao fim do tempo, ao fim da estrada, diante do Trono. Ele vê o livro que contém o plano da batalha que traz a consumação dos séculos, e então ele vê a busca exaustiva desse anjo forte por todo o universo e eras... para que alguém possa tomar o livro e executar seu conteúdo... Mas NINGUÉM é encontrado!!

João está chorando pelo julgamento, pelo juízo, pela vindicação do Nome e da Glória de Deus. Seu choro está conectado à purificação do planeta do pecado, do universo manchado pelo pecado... Mesmo quando pedimos e oramos pela volta de Cristo, tristemente nossas lágrimas, na maioria das pessoas, não estão sendo derramadas por causa da glória do nome de Deus que deve ser vindicado.

No entanto João e os santos no Apocalipse, oram pela expressão máxima do que é “venha o teu reino” – julgue todo pecado, vindique o Seu santo Nome, trazendo uma restauração plena que Te exalte completamente, trazendo uma exaltação infinita no coração de todos os que amam a Sua vinda.

Não é difícil chorar e sentir angústia sobre todas as coisas que trazem sofrimento para nós pessoalmente ou pelo nosso mundo. Mas aqui João está sendo tão diferente da grande maioria dos homens. Infelizmente da grande maioria dos que se dizem cristãos em nossos dias. A tristeza de João não está encerrada sobre si mesmo, mas sim sobre a GLÓRIA e a VINDICAÇÃO de Deus.

Que em Sua graça infinita, Deus nos conceda um coração que possa chorar as lágrimas que este mundo de lágrimas não conhece.

Fonte: Josemar Bessa

Sou a favor da escravidão

escravo1

Por Maurício Zágari

Você é a favor da escravidão? Pode parecer estranho e até ofensivo eu te perguntar isso, afinal, nenhum ser humano civilizado considera a escravidão humana algo correto, não é mesmo? Bem, na verdade, até pouco mais de um século, aqui mesmo no Brasil, milhões de pessoas civilizadas e cultas acreditavam que ter escravos humanos era algo totalmente normal e cabível. Como pode? Como pode tantos indivíduos bons e até mesmo cristãos terem visto essa prática abominável como aceitável? Eu estava vendo fotos do acervo do Instituto Moreira Salles que mostram escravos no Brasil há apenas cerca de 130 anos. As imagens me impactaram e comecei a refletir sobre a escravidão. Meu primeiro impulso foi o de condenar aquela sociedade, que abraçava como natural a ideia de que pessoas podem ser donas de outras e fazer com elas o que quiserem. Mas, pensando mais um pouco, acabei chegando à conclusão de que, se eu vivesse no Brasil daquela época, também não teria problemas com a escravidão. Possivelmente, eu mesmo teria alguns escravos. Por quê? Porque estaria tão inserido naquela realidade que nem gastaria muito tempo pensando sobre a validade daquilo. Na verdade, estaria tão acostumado com aquela situação que minha mentalidade seria: sempre foi assim, sempre será; é como é, não há o que questionar. E essa constatação me conduziu a uma percepção espiritual: eu sou a favor da escravidão. Permita-me explicar.

Você já assistiu ao filme “O show de Truman”? Se não, recomendo que o faça, é um dos longa-metragens mais interessantes a que já assisti. Narra a história de um homem que viveu toda sua vida num gigantesco estúdio de televisão. Todas as pessoas com quem convive são atores, num grande reality show. Sua vida não passa de uma enorme mentira, mas ele vive anos nessa loucura sem perceber. Em certo momento do filme, um repórter pergunta para o diretor e idealizador do show: “Por que o senhor acredita que Truman nunca percebeu que está num programa de televisão?”. A resposta dele é muito significativa: “Nós aceitamos a realidade do mundo conforme nos é apresentada”. Isso explica com clareza por que milhões de pessoas boas acatavam a escravidão como normal: elas nasceram numa realidade em que aquilo era natural, cresceram aprendendo que não havia nada de mais na escravidão e, por isso, nunca questionaram aquela barbárie.

Nascemos escravos do pecado. Crescemos escravos do pecado. No mundo, enxergamos a escravidão ao pecado como algo aceitável. Enquanto as correntes da transgressão prendem nossos pés, não questionamos essa situação. Vemos como algo natural a desobediência a Deus, afinal, a realidade que nos foi apresentada pela sociedade ao nosso redor é a da escravidão ao pecado – e a temos como normal. Até que, um dia, uma alternativa se descortina diante de nossos olhos: Jesus nos dá carta de alforria. Percebemos, então, que é viável uma vida que se desagrada do pecado. É impossível nos livrarmos totalmente das algemas que nos prendem à transgressão, mas o Espírito Santo nos mostra que podemos não nos conformar a ela. “Porque, se fomos unidos com ele [Jesus] na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição, sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos [...] Mas graças a Deus porque, outrora, escravos do pecado, contudo, viestes a obedecer de coração à forma de doutrina a que fostes entregues; e, uma vez libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” (Rm 6.5-6, 17-18).

Até aqui nenhuma novidade. Tenho certeza de que você já sabia que a salvação em Cristo no torna livres da escravidão do pecado. Você é chamado pela graça de Deus e, com isso, torna-se absolutamente, totalmente, inquestionavelmente livre, certo?

Errado.

Eis o ponto fundamental: na verdade, a salvação não vem para nos tornar livres da escravidão. Ela vem apenas para mudar o nosso dono. Continuamos escravos, mas não mais do pecado: de Cristo. “O que foi chamado no Senhor, sendo escravo, é liberto do Senhor; semelhantemente, o que foi chamado, sendo livre, é escravo de Cristo” (1Co 7.22). Ou seja: deixamos de ser escravos do pecado para nos tornarmos escravos de Jesus. Nesse sentido, sou, sim, totalmente a favor da escravidão e me contento com essa realidade, apresentada não mais pelo mundo, mas pelas Escrituras sagradas. “Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna” (Rm 6.22).

A grande diferença entre esses dois tipos de escravidão é que o pecado nos torna apenas escravos – seres abatidos, sem vontade própria, destituídos de liberdade. Porém, ao nos tornarmos escravos de Cristo, recebemos também outros títulos: somos feitos filhos de Deus, amigos de Jesus, herdeiros da eternidade, verdadeiramente livres!“Replicou-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: todo o que comete pecado é escravo do pecado. O escravo não fica sempre na casa; o filho, sim, para sempre. Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (Jo 8.34-36). Ser escravo de Cristo significa receber alforria não para ser um indivíduo autônomo e independente, mas totalmente acorrentado à liberdade que a vida eterna nos concede. Portanto, aceite a escravidão, ela é uma realidade inevitável.

Infelizmente, mesmo ao nos tornarmos escravos de Cristo algumas correntes de nosso antigo senhor continuam atadas aos nossos membros. Por isso, embora tenhamos sido chamados pela graça à servidão a Deus, continuamos sendo puxados de volta à senzala do pecado. É o que Paulo escreveu: “Porque bem sabemos que a lei é espiritual; eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado. Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto. Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim. Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado” (Rm 7.14-25).

Não tem jeito, meu irmão, minha irmã, você é e será sempre escravo. A questão é: de quem? Se Cristo te chamou pela graça, você pertence ao Senhor, mas saiba que o pecado não ficou feliz com essa mudança. O pecado quer você de volta. Não permita que isso aconteça, lute pela sua servidão ao único amo que oferece a paz, Jesus Cristo. A cruz te libertou, mas o Diabo quer manter você acorrentado. O que te manterá longe da senzala da transgressão é a sua santidade. Muitas vezes fraquejamos, caímos, perdemos a batalha, nos arrastamos como cães ao antigo vômito da escravidão ao pecado. Mas Jesus não se conforma com isso, pois você pertence a ele. Então ele te chama constantemente ao arrependimento e, se você rende sua vontade a ele, o perdão sempre está ao seu alcance.

Você é cristão mas tem cedido ao pecado? As correntes da desobediência o têm arrastado de volta ao lugar de onde saiu? Você tem praticado novamente aquilo de que Jesus já te libertou? Então a hora é esta: ouça a voz do Bom Pastor chamando-o de volta. Peça perdão. Abandone essa prática. Você pertence a Cristo e foi chamado para habitar não mais nas imundas senzalas do pecado, mas nas puras mansões celestiais. Você é escravo da liberdade. Não abra mão disso.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Fonte: Apenas

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

QUERO TRAZER À MEMÓRIA O QUE ME PODE DAR ESPERANÇA


Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lm 3.1-3; 19-21

INTRODUÇÃO

O livro de Lamentações retrata uma das páginas mais dolorosas da história do povo de Deus. Nele encontramos Judá devastada após a invasão do Império Babilônico sob o comando de Nabucodonosor. Jerusalém, outrora a cidade da paz, da adoração e da presença manifesta de Deus, agora jazia em ruínas. O templo havia sido destruído, os muros derrubados, o povo disperso e a terra transformada em cenário de luto e desolação.

Não é por acaso que, na Septuaginta, a antiga tradução grega do Antigo Testamento, o livro recebe o título de Cânticos Fúnebres. Trata-se de uma coleção de cinco poemas que expressam a profunda dor de uma nação que experimentou o peso do juízo divino. Os quatro primeiros capítulos são acrósticos alfabéticos, seguindo a sequência das vinte e duas letras do alfabeto hebraico. Essa estrutura literária demonstra que a lamentação de Jeremias não era fruto de um desespero descontrolado, mas de uma dor organizada diante de Deus.

Ao lermos essas páginas, percebemos que a tristeza do profeta se assemelha à de alguém que chora a morte de um amigo querido. Jerusalém não era apenas uma cidade; era o lugar onde Deus havia escolhido fazer habitar o Seu nome. Ver aquela cidade destruída era como contemplar a ruína de tudo aquilo que o povo considerava seguro e permanente.

Entretanto, Jeremias deixa claro que aquela tragédia não aconteceu por acaso. A destruição de Jerusalém foi consequência direta dos séculos de rebeldia, idolatria e endurecimento espiritual do povo. O Senhor havia advertido Judá repetidas vezes, mas suas advertências foram desprezadas.

Durante cerca de quarenta anos de ministério profético, Jeremias clamou pelo arrependimento nacional. Contudo, os reis, sacerdotes e líderes preferiram ouvir os falsos profetas que anunciavam paz quando não havia paz (Jr 6.14). Antes dele, Isaías já havia advertido a nação mais de um século antes acerca dos perigos do pecado e das consequências da desobediência. Deus demonstrou extraordinária longanimidade, concedendo inúmeras oportunidades para que Seu povo retornasse aos Seus caminhos.

Essa é uma das grandes evidências da graça divina. Antes de exercer o juízo, Deus envia Sua Palavra. Antes de disciplinar, Ele adverte. Antes de ferir, Ele chama ao arrependimento. Contudo, Judá endureceu o coração e continuou se afastando do Senhor.

Por essa razão, chegou o dia da prestação de contas. A invasão babilônica não foi simplesmente uma derrota militar; foi a manifestação do juízo de Deus contra uma nação que havia quebrado Sua aliança e desprezado Sua correção.

As deportações ocorreram em etapas. Em 605 a.C., muitos jovens nobres foram levados para a Babilônia, entre eles Daniel e seus companheiros. Anos depois, uma nova deportação atingiu a nação. Finalmente, em 586 a.C., Jerusalém foi destruída, o templo incendiado e os muros derrubados, marcando o colapso completo do reino de Judá.

Diante desse cenário, surge uma pergunta inevitável: que lições podemos aprender com um livro tão marcado pela dor, pelo sofrimento e pela disciplina divina?

Embora Lamentações tenha sido escrito há mais de dois mil e quinhentos anos, suas mensagens continuam extremamente atuais. Ele nos ensina sobre a gravidade do pecado, a justiça de Deus, os perigos da rebeldia, a necessidade do arrependimento e, acima de tudo, sobre a esperança que permanece mesmo em meio às mais profundas tragédias.

I – A PRIMEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE O PECADO É ALGO ABOMINÁVEL AOS OLHOS DE DEUS (Lm 1.5,8,9; 4.6,13)

A primeira grande lição que emerge das páginas de Lamentações é a terrível realidade do pecado. O livro inteiro é uma demonstração das consequências produzidas quando um povo abandona os caminhos do Senhor.

Vivemos em uma geração que frequentemente trata o pecado com superficialidade. Muitos o consideram apenas um erro, uma fraqueza ou uma escolha pessoal. No entanto, a Bíblia o apresenta como uma afronta à santidade de Deus. O pecado não é apenas uma falha moral; é uma rebelião contra o Criador.

Por essa razão, Jeremias não atribui a destruição de Jerusalém à força militar da Babilônia, mas ao pecado persistente da própria nação. Os babilônios foram apenas o instrumento utilizado por Deus para executar Seu juízo.

O profeta declara:

“Jerusalém gravemente pecou; por isso, se fez repugnante” (Lm 1.8).

O pecado sempre produz consequências. Nem sempre elas atingem apenas quem o pratica; muitas vezes alcançam famílias inteiras e até gerações futuras. Em Lamentações 5.7 lemos:

“Nossos pais pecaram e já não existem; nós é que levamos o castigo das suas iniquidades.”

Esse texto não ensina que Deus condena filhos inocentes pelos pecados dos pais. O que Jeremias está mostrando é que as consequências do pecado podem atravessar gerações quando os descendentes continuam andando pelos mesmos caminhos de rebeldia.

Foi exatamente o que aconteceu em Judá. Os filhos seguiram os pecados dos pais. Herdaram não apenas suas tradições, mas também sua idolatria, sua dureza de coração e sua resistência à Palavra de Deus.

Isso nos leva a uma pergunta importante:

Que legado estamos deixando para nossos filhos?

Estamos transmitindo uma herança de fé, santidade e obediência, ou apenas reproduzindo os mesmos erros e pecados que recebemos?

O Senhor não deixou Seu povo sem advertência. Séculos antes da queda de Jerusalém, Ele já denunciava o pecado da nação por meio dos profetas.

Isaías declarou:

“Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer o mal” (Is 1.16).

Mais tarde, Jeremias repetiria o mesmo chamado ao arrependimento. Em Jeremias 8.11, ele denuncia os falsos profetas que tratavam superficialmente a enfermidade espiritual do povo, dizendo:

“Paz, paz; quando não há paz.”

A grande tragédia de Judá não foi a falta de informação. O povo sabia o que Deus exigia. O problema foi a recusa em obedecer.

O mesmo acontece em nossos dias.

Deus continua falando por meio de Sua Palavra. Ele continua chamando homens e mulheres ao arrependimento. Continua denunciando o pecado e apontando o caminho da salvação em Cristo. O problema não está na falta de luz, mas na rejeição da luz.

O apóstolo Paulo resume essa realidade ao afirmar:

“Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23).

E acrescenta:

“Porque o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23).

Essas palavras nos lembram que o pecado continua sendo tão grave hoje quanto era nos dias de Jeremias. Deus não mudou Seu padrão de santidade.

Ao contrário do que muitos imaginam, a graça de Deus não diminui a seriedade do pecado. Ela não nos dá licença para viver de qualquer maneira. A graça nos conduz à santidade.

Por isso Paulo escreve:

“Andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne” (Gl 5.16).

Logo em seguida, o apóstolo apresenta uma extensa lista das obras da carne: prostituição, impureza, idolatria, inimizades, ciúmes, iras, dissensões, invejas e tantas outras práticas que continuam presentes em nossa sociedade e, infelizmente, às vezes também dentro das igrejas.

Paulo conclui com uma advertência solene:

“Os que tais coisas praticam não herdarão o reino de Deus” (Gl 5.21).

Diante disso, Lamentações nos leva a uma conclusão inevitável: o pecado continua sendo algo extremamente sério aos olhos de Deus.

A destruição de Jerusalém é um monumento erguido pela história para lembrar a cada geração que Deus é santo, que Sua Palavra é verdadeira e que ninguém pode desprezar Seus mandamentos sem sofrer as consequências.

Por isso, antes de olharmos para os pecados de Judá, devemos examinar nosso próprio coração. O maior propósito deste livro não é apenas mostrar o fracasso de uma nação antiga, mas levar cada um de nós a reconhecer nossa necessidade de arrependimento, santidade e dependência da graça de Deus.

O pecado continua sendo abominável aos olhos do Senhor, mas a Sua graça continua sendo suficiente para perdoar todo aquele que se volta para Ele com sincero arrependimento.

II – A SEGUNDA LIÇÃO QUE APRENDO AQUI É A TRÁGICA CONSEQUÊNCIA DO PECADO

Se a primeira lição de Lamentações nos mostra a gravidade do pecado, a segunda nos revela seus efeitos devastadores. O pecado nunca permanece isolado. Ele produz consequências espirituais, morais, familiares e até sociais. Jerusalém tornou-se uma demonstração visível daquilo que acontece quando um povo abandona os caminhos do Senhor.

Ao longo do livro, Jeremias descreve com riqueza de detalhes a calamidade que se abateu sobre Judá. Cada cena registrada pelo profeta é um testemunho da seriedade do juízo divino e um alerta para todas as gerações.

1. Em primeiro lugar, ele fala da escravidão do povo (Lm 1.1)

Jerusalém, que antes era uma cidade cheia de habitantes, tornou-se solitária. A cidade que exercia influência entre as nações agora se encontrava reduzida à condição de serva.

A escravidão sempre foi uma das consequências mais dolorosas da desobediência. O povo que fora libertado do Egito pela poderosa mão de Deus agora experimentava novamente o jugo da servidão.

O pecado possui exatamente essa característica. Ele promete liberdade, mas produz escravidão. Jesus declarou:

“Todo o que comete pecado é escravo do pecado” (Jo 8.34).

Aquilo que começa como uma escolha muitas vezes termina como uma prisão.

2. Em segundo lugar, ele fala do exílio

(Lm 1.3,6,18)

A terra prometida era um dos maiores símbolos da aliança entre Deus e Israel. Ser expulso dela significava experimentar a disciplina do Senhor de forma profunda.

Jeremias contempla a nação espalhada entre povos estrangeiros. Os que antes desfrutavam das promessas divinas agora viviam longe de sua pátria.

O exílio não representava apenas uma mudança geográfica; simbolizava a ruptura da comunhão provocada pelo pecado.

Desde o Éden, o pecado produz afastamento. Adão e Eva foram expulsos do jardim. Israel foi levado para a Babilônia. E o pecador permanece distante de Deus enquanto não se arrepende.

3. Em terceiro lugar, ele fala da humilhação dos líderes e da violência sofrida pelo povo (Lm 4.16; 5.11-12)

Os sacerdotes foram desprezados. Os anciãos perderam sua honra. As mulheres foram violentadas. Os jovens sofreram humilhações.

A sociedade que rejeita a Deus inevitavelmente caminha para a degradação moral.

Quando a presença do Senhor é desprezada, os valores se corrompem, a justiça enfraquece e a dignidade humana é atacada.

Jerusalém tornou-se um retrato doloroso de uma sociedade colhendo os frutos de sua própria rebelião.

4. Em quarto lugar, ele fala da profanação do Templo (Lm 1.10)

Os utensílios consagrados ao culto foram saqueados pelos babilônios.

Aquilo que havia sido separado para o serviço de Deus foi tratado como despojo de guerra.

O Templo representava a presença do Senhor entre Seu povo. Ver seus objetos sagrados nas mãos de pagãos era um golpe profundo para a identidade espiritual de Israel.

Quando o pecado domina uma nação, até mesmo aquilo que deveria ser santo perde sua importância.

5. Em quinto lugar, ele fala da destruição do Templo e dos muros da cidade (Lm 2.6-9)

O lugar onde gerações haviam adorado ao Senhor foi reduzido a escombros.

Os muros, símbolo de proteção e segurança, foram derrubados.

A destruição de Jerusalém demonstrava que nenhuma estrutura humana é capaz de permanecer de pé quando Deus remove Sua mão disciplinadora.

O salmista declarou:

“Se o SENHOR não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o SENHOR não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela” (Sl 127.1).

Toda segurança que não está fundamentada em Deus é ilusória.

6. Em sexto lugar, ele fala das inúmeras mortes ocorridas (Lm 2.21-22)

Velhos e jovens tombaram pelas ruas da cidade.

A guerra não fez distinção de idade, posição social ou importância política.

A cena descrita por Jeremias é devastadora. Jerusalém transformou-se em um grande campo de sofrimento.

O pecado produz morte. Essa é uma verdade que atravessa toda a Escritura.

Desde o jardim do Éden até o Apocalipse, a Bíblia mostra que a morte entrou no mundo por causa do pecado (Rm 5.12).

7. Em sétimo lugar, ele fala da terrível fome que assolou a cidade (Lm 1.11; 2.11-12; 4.4,9-10)

O cerco babilônico produziu uma das maiores tragédias da história de Jerusalém.

A fome tornou-se tão severa que mães chegaram ao ponto de comer os próprios filhos para sobreviver.

É difícil imaginar um cenário mais desesperador.

Aquilo que Deus havia advertido em Sua Lei agora se cumpria diante dos olhos da nação (Dt 28.52-57).

O pecado sempre leva mais longe do que imaginamos e cobra um preço maior do que estamos dispostos a pagar.

8. Em oitavo lugar, ele fala dos falsos profetas que enganaram o povo (Lm 2.14)

Jeremias denuncia aqueles que deveriam ter proclamado a verdade, mas preferiram alimentar ilusões.

Eles anunciavam prosperidade quando o juízo estava às portas.

Prometiam segurança quando a destruição já se aproximava.

Diz o profeta:

“Os teus profetas viram para ti visões falsas e enganosas.”

Essa realidade continua extremamente atual.

Muitas pessoas ainda preferem ouvir mensagens agradáveis em vez da verdade transformadora da Palavra de Deus. A verdade confronta. A verdade exige arrependimento. A verdade chama à mudança. Por isso, muitos rejeitam a verdade e abraçam a mentira.

Como afirmou Jesus:

“O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más” (Jo 3.19).

A tragédia de Jerusalém não começou quando Nabucodonosor chegou às suas portas. Ela começou quando o povo deixou de ouvir a voz de Deus. A destruição física foi apenas a consequência de uma ruína espiritual que já existia há muito tempo.

O PROFETA DESCREVE SUA PRÓPRIA DOR

Ao contemplar toda essa devastação, Jeremias não permanece indiferente.

Ele não fala como um observador distante, mas como alguém profundamente ferido pela tragédia de sua nação.

Por isso declara:

“Eu sou o homem que viu a aflição pela vara do furor de Deus” (Lm 3.1).

Nos versículos seguintes (Lm 3.1-18), o profeta descreve sua angústia, seu sofrimento e sua aparente falta de esperança.

A dor é tão intensa que ele chega a dizer:

“Já pereceu a minha glória, como também a minha esperança no Senhor” (Lm 3.18).

Contudo, a história não termina aí.

Quando tudo parece perdido, quando as ruínas são maiores do que as forças humanas conseguem suportar, Jeremias faz uma das mais extraordinárias declarações de fé de toda a Bíblia:

“Quero trazer à memória o que me pode dar esperança” (Lm 3.21).

III – A TERCEIRA LIÇÃO QUE APRENDO AQUI É QUE O PROFETA JEREMIAS NÃO QUER SER CONSUMIDO PELA TRAGÉDIA (Lm 3.21)

Depois de descrever a devastação de Jerusalém, a humilhação do povo, a destruição do Templo e a profunda dor que tomou conta de sua alma, Jeremias chega a um dos pontos mais extraordinários de toda a Escritura.

Até este momento, o profeta havia falado sobre lágrimas, sofrimento, disciplina e aflição. Entretanto, quando tudo parecia perdido, ele faz uma declaração que muda completamente o rumo de seu pensamento:

“Quero trazer à memória o que me pode dar esperança” (Lm 3.21).

Essa frase marca uma mudança decisiva. Jeremias não nega a realidade da tragédia. Ele não tenta minimizar a dor nem fingir que tudo está bem. Pelo contrário, ele reconhece plenamente o sofrimento. Contudo, ele se recusa a permitir que a dor tenha a última palavra.

O escritor Eugene Peterson observou que muitas vezes é mais fácil entregar-se ao desespero do que viver pela esperança. O desespero nos paralisa, enquanto a esperança nos desafia a continuar caminhando. O desespero exige apenas rendição; a esperança exige fé.

Jeremias poderia ter se tornado um homem amargurado. Poderia ter permitido que as ruínas de Jerusalém produzissem ruínas em sua alma. Poderia ter sucumbido à desesperança. Mas ele toma uma decisão consciente: dirigir seus pensamentos para as verdades eternas acerca de Deus.

Essa é uma das maiores lições espirituais do livro de Lamentações.

As circunstâncias nem sempre estão sob nosso controle, mas aquilo que alimenta nossa mente e nosso coração é uma escolha que fazemos diariamente.

O profeta não olha para dentro de si mesmo em busca de força. Ele não procura esperança nas circunstâncias. Ele não a encontra nos líderes de Judá, nem nos exércitos, nem nos recursos humanos. Sua esperança está inteiramente fundamentada no caráter de Deus.

Por isso, ele passa a recordar algumas verdades que sustentam sua alma.

1. A primeira coisa que ele traz à memória é que o Senhor é misericordioso (Lm 3.22-23a)

Jeremias declara:

“As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã.”

Essas palavras brilham como um raio de luz em meio às trevas do sofrimento.

Observe que Jeremias não diz que Judá não havia pecado. Ele reconhece plenamente a culpa da nação. Também não afirma que o castigo era injusto. Pelo contrário, ele sabe que a disciplina recebida era consequência da desobediência do povo.

Mas há algo maior que o pecado de Judá: a misericórdia de Deus.

Se Jerusalém ainda existia, ainda que em ruínas, era porque a misericórdia divina continuava operando. Se havia um remanescente sobrevivente, era porque Deus não havia abandonado completamente Seu povo.

A misericórdia é a disposição divina de não nos tratar segundo aquilo que nossos pecados merecem.

Davi compreendeu essa verdade quando escreveu:

“Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos retribui consoante as nossas iniquidades” (Sl 103.10).

Mesmo na disciplina, Deus continua sendo misericordioso. O próprio profeta Habacuque reconheceu isso quando declarou:

“Ó SENHOR, para executar juízo, puseste aquele povo; tu, ó Rocha, o fundaste para servir de disciplina” (Hc 1.12).

A disciplina divina não é expressão de rejeição, mas de amor.

Por isso Salomão escreveu:

“Porque o SENHOR repreende a quem ama, assim como o pai ao filho a quem quer bem” (Pv 3.12).

O autor de Hebreus retoma essa mesma verdade ao afirmar:

“Porque o Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe” (Hb 12.6).

A maior demonstração da misericórdia divina, porém, não foi preservada para Jerusalém, mas revelada em Cristo.

Na cruz do Calvário, Deus manifestou Seu amor de forma definitiva.

Paulo escreve:

“Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8).

A cruz é a prova eterna de que as misericórdias do Senhor não têm fim.  Todos nós merecíamos condenação, mas recebemos graça. Todos nós merecíamos juízo, mas recebemos perdão. Todos nós merecíamos morte, mas recebemos vida em Cristo.

Por isso Jeremias encontra forças para continuar.

As circunstâncias permaneciam difíceis, mas a misericórdia de Deus continuava presente.

ILUSTRAÇÃO

Conta-se que Napoleão Bonaparte certa vez condenou à morte um soldado que havia sido encontrado dormindo durante seu turno de guarda.

A mãe do jovem implorou misericórdia ao imperador.

Napoleão respondeu que o rapaz merecia morrer, pois havia colocado todo o exército em risco.

A mulher concordou:

— Eu sei que meu filho merece a morte. Se ele não merecesse, eu estaria pedindo justiça. Mas estou pedindo misericórdia.

Diante daquela resposta, Napoleão decidiu perdoar o jovem.

Essa história ilustra uma verdade espiritual profunda.

Nenhum de nós pode reivindicar salvação com base em méritos próprios. Nossa única esperança está na misericórdia de Deus revelada em Jesus Cristo.

Por isso Jeremias afirma:

“As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos.”

E essa continua sendo a esperança do povo de Deus ainda hoje.

2. A segunda coisa que ele traz à memória é que o Senhor é fiel (Lm 3.23b)

Após exaltar a misericórdia divina, Jeremias acrescenta:

“Grande é a tua fidelidade.”

Essas palavras tornaram-se um dos maiores cânticos de esperança da Igreja ao longo dos séculos.

O Deus da Bíblia é um Deus fiel. Ele é fiel às Suas promessas. É fiel à Sua Palavra. É fiel ao Seu caráter. É fiel à Sua aliança. Mesmo quando o povo falha, Deus permanece imutável.

É exatamente isso que sustentava Jeremias.

Apesar da infidelidade de Judá, Deus não havia abandonado a aliança feita com Abraão, Isaque e Jacó.

A disciplina era real, mas as promessas continuavam de pé.

Paulo expressa essa mesma verdade quando escreve:

“Se somos infiéis, ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo” (2Tm 2.13).

A fidelidade de Deus não depende da estabilidade das circunstâncias. Ela depende do Seu próprio caráter. Por isso Jeremias consegue enxergar além das ruínas. Ele sabe que o mesmo Deus que disciplinou Seu povo também o restauraria.

Essa certeza o impede de afundar no desespero.

A esperança cristã não está fundamentada naquilo que vemos, mas na fidelidade daquele que prometeu.

3. A terceira coisa que ele traz à memória é que o Senhor era a sua verdadeira herança e a sua única esperança na terra dos viventes (Lm 3.24)

Jeremias declara:

“A minha porção é o SENHOR, diz a minha alma; portanto, esperarei nele.”

A palavra “porção” possui um significado profundo no Antigo Testamento. Ela era usada para indicar a herança recebida por uma pessoa. Quando a terra de Canaã foi dividida entre as tribos de Israel, cada uma recebeu sua porção. Entretanto, aos levitas foi dito algo diferente:

“Eu sou a tua porção e a tua herança no meio dos filhos de Israel” (Nm 18.20).

Ao afirmar que o Senhor era a sua porção, Jeremias está dizendo que, mesmo tendo perdido quase tudo, ainda possuía aquilo que realmente importava.

Jerusalém havia sido destruída. O templo havia sido queimado. Os muros haviam sido derrubados. A nação estava no exílio. Mas Deus permanecia o mesmo.

Essa é uma verdade que sustenta o cristão em qualquer circunstância. Os bens materiais podem desaparecer. A saúde pode enfraquecer. Pessoas queridas podem partir. Sonhos podem ser interrompidos. Entretanto, aquele que possui o Senhor jamais ficará sem sua verdadeira riqueza.

O salmista expressou essa mesma convicção quando escreveu:

“Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra. Ainda que a minha carne e o meu coração desfaleçam, Deus é a fortaleza do meu coração e a minha herança para sempre” (Sl 73.25,26).

Foi essa certeza que sustentou Jeremias.

Sua esperança não estava nas circunstâncias, mas no Deus que governa as circunstâncias.

Martinho Lutero expressou essa verdade em seu famoso hino Castelo Forte:

“Se temos de perder
Os filhos, bens, mulher,
Embora a vida vá,
Por nós Jesus está,
E dar-nos-á seu Reino.”

Diante disso, somos levados a refletir:

Quem tem sido a nossa herança?

Estamos depositando nossa segurança nas coisas passageiras deste mundo ou no Deus eterno que nunca muda?

4. A quarta coisa que ele traz à memória é que o Senhor é bom para os que nele esperam (Lm 3.25)

Jeremias prossegue:

“Bom é o SENHOR para os que esperam por ele, para a alma que o busca.”

A esperança bíblica não é um simples desejo de que algo aconteça. Esperar em Deus significa confiar em Seu caráter, descansar em Sua soberania e permanecer firme mesmo quando não compreendemos Seus caminhos.

Judá havia depositado sua confiança em alianças políticas, em exércitos estrangeiros e em estratégias humanas. Contudo, tudo isso falhou.

Deus, porém, nunca falha.

A Bíblia está repleta de exemplos de pessoas que aprenderam essa verdade.

Abraão esperou décadas pelo filho prometido. José aguardou anos até que os sonhos de Deus se cumprissem. Davi passou por longos períodos de perseguição antes de assumir o trono. Os discípulos enfrentaram tempestades antes de verem o poder de Cristo manifestado. O Senhor nunca chega atrasado.

No Evangelho de João encontramos uma cena que ilustra essa verdade. Os discípulos estavam atravessando o mar durante a noite e enfrentando uma forte tempestade.

O texto diz:

“Já se fazia escuro, e Jesus ainda não viera ter com eles” (Jo 6.17).

Essa pequena palavra — ainda — é carregada de esperança.

O texto não diz que Jesus não viria.

Diz apenas que Ele ainda não havia chegado.

Muitas vezes nos encontramos em situações semelhantes. Oramos e parece que nada acontece. Clamamos e o céu parece silencioso. Esperamos e não vemos mudanças.

Mas o Senhor continua vindo ao encontro dos Seus. Ele nunca abandona aqueles que esperam n’Ele.

Como declarou Isaías:

“Mas os que esperam no SENHOR renovam as suas forças” (Is 40.31).

Jeremias sabia disso. Por isso continuava esperando.

5. A quinta coisa que ele traz à memória é que o Senhor é o seu Salvador (Lm 3.26)

O profeta declara:

“Bom é aguardar a salvação do SENHOR, e isso, em silêncio.”

A palavra salvação aqui aponta para o livramento que vem exclusivamente de Deus.

Jeremias compreende que nenhuma solução humana seria capaz de restaurar Judá. A verdadeira esperança estava no Senhor.

Essa verdade alcança sua plenitude em Jesus Cristo.

A maior necessidade do ser humano não é simplesmente ser livre das dificuldades temporais, mas ser salvo do pecado e reconciliado com Deus. Muitas pessoas enxergam a salvação apenas como uma garantia de entrada no céu. Embora isso seja verdadeiro, a salvação é muito mais profunda.

Ser salvo significa ser libertado do domínio do pecado. Significa ser transformado pela graça. Significa encontrar prazer em Deus acima de todas as coisas. Significa viver para Sua glória.

O salmista declarou:

“Uns confiam em carros, outros, em cavalos; nós, porém, nos gloriaremos em o nome do SENHOR, nosso Deus” (Sl 20.7).

Essa era a confiança de Jeremias. Essa deve ser também a nossa confiança. Quando tudo parece ruir, a salvação continua vindo do Senhor.

6. A sexta coisa que ele traz à memória é que o Senhor atende aos humildes (Lm 3.29)

Jeremias utiliza uma figura muito forte:

“Ponha a boca no pó; talvez ainda haja esperança.”

Colocar a boca no pó era um gesto de profunda humilhação diante de Deus.

Representava arrependimento. Representava submissão. Representava reconhecimento da própria fragilidade. Uma das razões da queda de Judá foi justamente o orgulho espiritual.

O povo acreditava que jamais seria disciplinado porque possuía o templo, os sacerdotes e as tradições religiosas.

Mas Deus resiste aos soberbos.

A Escritura declara:

“Deus resiste aos soberbos, contudo, aos humildes concede a sua graça” (Tg 4.6).

O apóstolo Paulo também exorta:

“Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo” (Fp 2.3).

O maior exemplo de humildade é o próprio Senhor Jesus.

Ele declarou:

“Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11.29).

A verdadeira grandeza não está em exaltar a si mesmo, mas em reconhecer a absoluta dependência de Deus.

Um coração quebrantado continua sendo terreno fértil para a ação da graça divina.

Por isso o salmista afirmou:

“Coração compungido e contrito não o desprezarás, ó Deus” (Sl 51.17).

7. A sétima coisa que ele traz à memória é que o Senhor não se prolonga em sua ira (Lm 3.31-32)

Jeremias conclui sua reflexão afirmando:

“Porque o Senhor não rejeitará para sempre; pois, ainda que entristeça alguém, usará de compaixão segundo a grandeza das suas misericórdias.”

Essas palavras revelam o propósito da disciplina divina.

O objetivo de Deus nunca foi destruir Seu povo, mas restaurá-lo.

O cativeiro babilônico foi severo, mas não foi definitivo.

Após setenta anos, o Senhor trouxe o remanescente de volta à sua terra, conforme havia prometido (Jr 25.11,12).

Mesmo durante o exílio, Deus continuou cuidando do Seu povo.

Por intermédio de Jeremias, enviou uma mensagem de esperança:

“Eu é que sei que pensamentos tenho a vosso respeito, diz o SENHOR; pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o fim que desejais” (Jr 29.11).

O castigo teve prazo determinado. A misericórdia, porém, permanece para sempre. Davi compreendeu essa verdade quando escreveu:

“Porque não passa de um momento a sua ira; o seu favor dura a vida inteira” (Sl 30.5).

O Senhor nunca abandona os Seus filhos. Mesmo nas horas mais difíceis, Sua graça continua operando.

O apóstolo Paulo reforça essa verdade ao dizer:

“Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza” (Rm 8.26).

Quando não conseguimos orar, o Espírito intercede. Quando nossas forças acabam, Ele nos sustenta. Quando a esperança parece enfraquecer, Ele nos lembra das promessas divinas.

Por isso Jeremias não foi vencido pela tragédia.

As ruínas estavam diante de seus olhos, mas as promessas de Deus estavam diante de sua fé.

E é exatamente essa esperança que deve sustentar o povo de Deus em todas as épocas.

As circunstâncias mudam. Os sofrimentos vêm e passam. As lutas surgem e desaparecem. Mas a misericórdia, a fidelidade e o amor do Senhor permanecem para sempre.

CONCLUSÃO

O livro de Lamentações nos conduz por um caminho de lágrimas, ruínas e sofrimento. Ao longo de suas páginas contemplamos uma cidade destruída, um povo humilhado, uma nação disciplinada e um profeta profundamente ferido pela dor. Contudo, a mensagem central do livro não é a tragédia, mas a esperança que sobrevive à tragédia.

Jeremias não ignorou o sofrimento. Ele não fingiu que a dor não existia. Ele chorou, lamentou e expôs diante de Deus toda a angústia de sua alma. Entretanto, recusou-se a permanecer prisioneiro do desespero. Quando tudo ao seu redor parecia perdido, ele tomou uma decisão que mudou completamente sua perspectiva:

“Quero trazer à memória o que me pode dar esperança” (Lm 3.21).

Essa continua sendo uma das maiores necessidades do povo de Deus. Em tempos de crise, nossa tendência natural é concentrar os pensamentos naquilo que perdemos, nas portas que se fecharam, nos sonhos frustrados e nas circunstâncias que não conseguimos controlar. Jeremias, porém, nos ensina a levantar os olhos acima das ruínas e contemplar o caráter imutável de Deus.

Em vez de permitir que a tragédia definisse sua visão da realidade, Jeremias escolheu contemplar o caráter de Deus. Ele encontrou descanso na certeza de que as misericórdias do Senhor nunca se esgotam, de que Sua fidelidade jamais falha e de que nenhuma circunstância pode privar o crente de sua verdadeira herança, que é o próprio Deus. Sua esperança foi renovada ao lembrar que o Senhor é bom para os que nele esperam, que a salvação vem exclusivamente de Suas mãos e que Ele acolhe os humildes com graça e compaixão. Acima de tudo, o profeta compreendeu que o juízo é temporário, mas a misericórdia divina permanece para sempre. Essas verdades não apenas sustentaram sua alma em meio às ruínas de Jerusalém, mas continuam sustentando todos aqueles que confiam no Senhor em meio às adversidades da vida.

Todos nós enfrentaremos períodos difíceis ao longo da vida. Haverá momentos de perdas, enfermidades, decepções, crises familiares, dificuldades financeiras e dores que parecem difíceis de suportar. O próprio Senhor Jesus afirmou:

“No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (Jo 16.33).

A vida cristã nunca foi uma promessa de ausência de sofrimento, mas uma promessa da presença de Deus em meio ao sofrimento.

Por isso, quando a angústia bater à porta do seu coração, lembre-se de que o Senhor continua assentado no trono. Quando as lágrimas vierem, lembre-se de que Deus continua sendo bom. Quando as forças faltarem, lembre-se de que Suas misericórdias se renovam a cada manhã.

Isso não significa que não sofreremos. Não significa que não haverá marcas deixadas pelas lutas. Somos humanos, não máquinas. O próprio Senhor Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro (Jo 11.35). O sofrimento faz parte da experiência humana neste mundo caído.

Entretanto, existe uma grande diferença entre sofrer e ser vencido pelo sofrimento.

O cristão pode chorar, mas não precisa perder a esperança.

Pode atravessar o vale, mas não precisa permanecer nele.

Pode ser abatido, mas não destruído.

Como escreveu o apóstolo Paulo:

“Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos” (2Co 4.8,9).

A esperança cristã não está fundamentada na ausência de problemas, mas na presença constante de Deus.

Por isso, o salmista declarou:

“Este é o dia que o SENHOR fez; regozijemo-nos e alegremo-nos nele” (Sl 118.24).

Mesmo em meio às dificuldades, ainda temos razões para confiar, adorar e prosseguir.

Da mesma forma, o apóstolo Paulo nos exorta:

“Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento” (Fp 4.8).

Jeremias escolheu ocupar sua mente com as verdades de Deus e não apenas com as tragédias da vida. Essa também deve ser a nossa escolha.

Quando tudo parecer escuro, traga à memória as promessas do Senhor.

Quando o medo tentar dominar seu coração, lembre-se de Sua fidelidade.

Quando a dor parecer insuportável, lembre-se de Sua misericórdia.

Quando as forças acabarem, lembre-se de Sua graça.

E quando a esperança parecer distante, lembre-se de Cristo, a maior demonstração do amor de Deus por nós.

A cruz nos ensina que Deus transforma tragédias em triunfo, morte em vida, lágrimas em consolo e desespero em esperança.

Por isso, enquanto caminhamos neste mundo, façamos das palavras de Jeremias a nossa oração diária:

“Quero trazer à memória o que me pode dar esperança.”

Que o Senhor nos ajude a olhar além das circunstâncias, a confiar em Sua soberania e a descansar em Sua infinita misericórdia.

Pense nisso.

Que o Senhor o abençoe!