sábado, 23 de novembro de 2019

O CÂNTICO DE MARIA


Por Pr. Silas Figueira

Texto Base: Lucas 1.46-56

INTRODUÇÃO

Esta passagem é chamada de “Cântico de Maria”. Aqui nos encontramos com um texto que se converteu em um dos grandes hinos da Igreja – o Magnificat. Ele é chamado assim porque na versão em latim de Lucas 1.46 diz: “Magnificat anima mea Dominum”. É uma passagem saturada do Antigo Testamento. É muito semelhante ao canto da Ana em 1 Samuel 2.1-10. Temos nesse texto uma rica oferta de louvor de Maria. É notável pela sua teologia e uso do Antigo Testamento. Ela era uma menina, talvez cerca de 13 anos de idade que, como todas as pessoas de sua época, não tinha cópia pessoal das Escrituras. Sua familiaridade com a Palavra de Deus deve ter vindo de ouvi-la ler regularmente na sinagoga. Ela guardou a palavra de Deus em seu coração e foi por ter feito isso que ela pôde abrir a boca em louvor e adoração a Deus. Que bênção seria para a Igreja hoje, se os jovens fossem tão biblicamente alfabetizados e devotados a Deus assim como foi Maria.

O louvor (cântico) de Maria dá início aos cânticos de exaltação do NT. – Em Lc 1 e 2 há quatro deles: 1. o Magnificat (Lc 1.46-55, o cântico de Maria); 2. o Benedictus (Lc 1.68-79, o cântico de Zacarias); 3. o Gloria in excelsis (Lc 2.14, o cântico dos anjos); 4. o Nunc dimittis (Lc 2.29-32, o cântico de louvor de Simeão). Na sequência, o NT ainda traz outros, tanto nos evangelhos quanto nas cartas e no Apocalipse de João.

Mas quais as lições que podemos tirar desse cântico de Maria para nós hoje, dessa adoração espontânea dessa serva do Senhor?

1 – MARIA DEFINE QUEM ELA CONFIAVA E ADORAVA (Lc 1.46,47).

Observe que Maria diz: “A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus meu salvador”. Maria está convicta de quem vinha a sua alegria e a sua salvação. Ela cria que o Senhor, Deus de Israel, era o responsável pelas bênçãos por ela alcançadas. E, devido a isso, ela adora ao Senhor.

Todo o ser humano foi criado com a necessidade de adorar a Deus, “alguém” ou “algo”. Quando nós sufocamos essa necessidade básica em nós, não nos tornamos “descrentes” mas sim idólatras. A nossa devoção centra-se, então, em outra coisa a quem nós conferimos autoridade “suprema”. Os ateus (ou, como dizem, neo-ateus) direcionam a sua necessidade humana para adorar a outros ateus, ao naturalismo, ou àquilo que eles julgam ser digno de devoção total. Tudo menos Deus, claro. Do mesmo modo que o cristão se ofende quando Deus é atacado (embora responda de forma diferente), o ateu se ofende quando o seu ídolo é ofendido também.

Por exemplo Marx disse que “A religião é o soluço da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração… o ópio do povo”. Assim dizendo, Marx não estava meramente criticando a falsa religião que, segundo ele, era conivente com o capitalismo que oprimia os trabalhadores. Marx estava acusando todas as religiões, porque, segundo ele, os trabalhadores as tomavam como um narcótico que atenuava sua dor com promessas ilusórias de céu e, assim, fazia-os tolerar passivamente a injustiça em vez de lutarem ativamente contra ela.

Assim, para o comunismo ou marxismo, a cura para toda opressão era primeiramente abandonar toda religião para, em seguida, começando com o homem, no espírito do verdadeiro humanismo, iniciar a formação de um novo homem. No entanto, Marx trocou um Deus por outro. Ele trocou a adoração ao Deus da Bíblia ou a outros deuses, para a adoração ao partido comunista. Em outras palavras, o comunismo passou a ser uma religião, ainda que aparentemente sem um “deus”, sendo que o comunismo promete o céu na terra, ou seja, o comunismo tornou-se uma religião.

Com isso em mente, podemos destacar duas coisas:

1o – A Bíblia nos mostra que a adoração verdadeira é somente a Deus. Maria disse:“A minha alma engrandece ao Senhor”. Ela deixa de forma clara quem ela estava odorando.

Quando Satanás estava tentando Jesus no deserto, Satanás diz para Jesus que se Ele o adorasse lhe daria todos os reinos do mundo, no entanto, Jesus respondeu a Satanás: “Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor adorarás, e só a ele servirás(Mt. 4.10). Para nós cristãos a nossa fé não é um ópio, um calmante emocional ou um alucinógeno. Nós prestamos a Deus um culto racional (Rm 12.1). Para nós evangélicos a irracionalidade é não servi-lo e adorá-lo. A nossa fé está centrada em Cristo e em suas promessas de vida eterna. Ele nunca nos prometeu o céu na terra, mas nos prometeu que iria nos preparar lugar jundo a Ele nos céus (Jo 14.1-3).

Quem prometeu bens a quem adorá-lo foi não foi nosso Senhor Jesus Cristo, foi Satanás que prometeu. Por isso, quando alguém se propõe a pregar o evangelho da prosperidade está pregando outro evangelho e não o evangelho bíblico. Para nós qualquer outro tipo de adoração que não seja coerente com a Bíblia é idolatria. A Bíblia deixa isso de forma muito clara.

Devido a isso que idolatria não se limita à adoração de falsos deuses; também engloba a tentativa de adorar o Deus verdadeiro de uma forma inaceitável. Por exemplo, quando Moisés recebe de Deus os Dez Mandamentos no Monte Sinai, Moisés foi interrompido por uma exibição chocante de idolatria:

Então disse o Senhor a Moisés: Vai, desce; porque o teu povo, que fizeste subir do Egito, se tem corrompido, e depressa se tem desviado do caminho que eu lhe tinha ordenado; eles fizeram para si um bezerro de fundição, e perante ele se inclinaram, e ofereceram-lhe sacrifícios, e disseram: Este é o teu deus, ó Israel, que te tirou da terra do Egito” (Êx 32.7,8).

Os israelitas não adoravam uma divindade pagã, mas tinha reduzido o verdadeiro Deus a uma imagem algo que Deus proíbe estritamente. O resultado foi uma ameaça de julgamento mortal (Ex 32.10) e sua execução (vv. 28-35).

Isso é algo inaceitável ainda hoje. A Bíblia nos mostra que devemos oferecer a Deus um culto segundo a sua vontade e não segundo o que as pessoas acham ou querem.

2o O objeto da nossa adoração determina o nosso destino eterno. Observe que Maria diz: “E o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador”. Maria reconhece que era pecadora e que dependia da graça de Deus para ser salva. Ela mostra com essas palavras que a sua salvação não era meritória. Não havia nela nada que a pudesse levar para o céu.

De acordo com quem se adora isso definirá onde passaremos a eternidade. Para nós cristãos evangélicos, a vida eterna provém da nossa fé em Jesus como nosso Salvador e Senhor. Nós não alcançamos a salvação mediante os nossos méritos, mas mediante o preço que o Senhor pagou por nós na cruz do calvário. A nossa salvação não é meritória (Ef 2.8,9). Nós não merecíamos a salvação, mas Jesus pagou o preço impagável ao Pai por todos aqueles que nele crê. O próprio Jesus deixou bem claro em Sua Palavra que a salvação só pode ocorrer por meio dele: “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” (João 14.6).

Só existe um caminho para o céu e este caminho é o Senhor Jesus. Não existem atalhos!

2 – MARIA RECONHECE O QUE O SENHOR FEZ POR ELA (Lc 1.48,49).

Enquanto muitos reclamam, Maria exalta. Ela, diferentemente de muitas outras pessoas, glorifica ao Senhor reconhecendo o cuidado dele para com ela. No entanto, é bom destacar que Maria se vê como pecadora e dependente de Deus, ela não se vê autossuficiente, ela se vê na total dependência de Deus. Ela também vê o Senhor intervindo na história da sua vida. Ela reconhece o cuidado que o Senhor está tendo com ela em todos os aspectos de sua vida.

Maria reconhece duas coisas:

1o – O cuidado de Deus para com ela, apesar de sua miséria (Lc 1.48). Quando falamos miséria não estamos nos referimos a condição social, mas a condição espiritual. Maria se vê indigna da misericórdia de Deus. No entanto, o Senhor a escolheu para ser a mãe do salvador. Devido essa escolha as gerações futuras iriam chamá-la de bem-aventurada. A humildade de Maria é demonstrada nas suas palavras: “Porque atentou para a baixeza de sua serva”. A Almeida Corrigida Fiel traz a palavra “baixeza”, já as outras versões trazem a palavra “humilde”.

Esse contemplar divino é ao mesmo tempo “acudir os miseráveis”. Isso vale não apenas para Maria, mas para todos nós. E por causa desse “não ser deixado prostrado na miséria – mas ter sido aceito…” Maria se gloria como bem-aventurada.

2o – A soberania de Deus em suas escolhas (Lc 1.49). O fato de Deus escolher uma pobre jovem, desposada de um carpinteiro desconhecido da pequena e mal falada Nazaré, é prova de que Deus é livre e soberano para agir, e Ele age por meios estranhos e não convencionais. Ele não tem obrigação nenhuma de nos dar satisfação do que Ele faz, porque faz e com quem faz. Deus não está sujeito as nossas vontades, nós é que estamos sujeitos a Sua vontade. Observe o que nos fala Lucas 3.1,2:

E no ano quinze do império de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos presidente da Judéia, e Herodes tetrarca da Galiléia, e seu irmão Filipe tetrarca da Ituréia e da província de Traconites, e Lisânias tetrarca de Abilene, sendo Anás e Caifás sumos sacerdotes, veio no deserto a palavra de Deus a João, filho de Zacarias.

Em Isaías lemos que o agir de Deus é diferente do nosso agir e seus pensamentos são completamente diferentes dos nossos:

Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor. Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos. Porque, assim como desce a chuva e a neve dos céus, e para lá não tornam, mas regam a terra, e a fazem produzir, e brotar, e dar semente ao semeador, e pão ao que come, assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei” (Isaías 55.8-11).

Basicamente o Senhor nos deixa claro que não nos deve nenhuma explicação. O que faz, porque faz e quando faz é por conta dele. Como nos Paulo em Romanos 11.33-36

Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Por que quem compreendeu a mente do Senhor? ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém”.

3 – MARIA DESTACA O PODER DE DEUS NA HISTÓRIA (Lc 1.50-55).

Maria olha para a história e vê o Senhor agindo de forma poderosa no meio dos povos e o Seu cuidado para com o Seu povo. Maria destaca o poder de Deus para invadir a história e virar a mesa, invertendo os valores do mundo. Aliás, o Evangelho é exatamente essa inversão de valores dentro da cultura secular. Nós andamos na contramão do mundo. O Evangelho é, literalmente, uma contracultura. O Evangelho são os valores de Deus estabelecidos e revelados a nós através da Sua Palavra.

Maria destaca três coisas fundamentais:

1o – Maria destaca a misericórdia de Deus para com os que o temem (Lc 1.50). Jeremias nos diz que “as misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não tem fim; novas são cada manhã; grande é a sua fidelidade” (Lm 3.22,23). Jeremias cita essas palavras não em momento de grande alegria, mas em pleno caos que se encontrava a cidade de Jerusalém. A fome assolava o povo, a guerra havia destruído tudo ao seu redor. Apesar de tudo isso, Jeremias ainda via a misericórdia sobre o seu povo. Jeremias via a mão de Deus corrigindo o Seu povo para torná-lo melhor e não para destruí-lo. Como nos fala o autor de Hebreus 12.5-8 que o Senhor corrige seus filhos.

Todos nós que tememos aos Senhor recebemos sua correção, sua misericórdia e seu socorro. Maria cita dois grupos que recebem a misericórdia de Deus: os humildes (Lc 1.52) e os famintos (Lc 1.53). Aqui o texto não está falando em justiça social advinda de uma política mais justa. Não que não devamos buscar isso para nós. O texto vai muito além. O texto nos fala de humildade espiritual e de fome espiritual. Há lugares no mundo que as pessoas têm de tudo, no entanto, padecem de fome de Deus.

Eis que vêm dias, diz o Senhor DEUS, em que enviarei fome sobre a terra; não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do SENHOR” (Amós 8.11).

2o – Maria destaca que o Senhor inverte os valores do mundo (Lc 1.51-53). Deus entra na história não pelos palácios dos governos e dos governantes. Ele não pede poder ao judiciário lhe dê cobertura. Simplesmente entra na história e faz as mais profundas inversões que se podem imaginar, deixando todo o mundo com o gosto de surpresa e espanto na boca. Ele faz uma verdadeira revolução política, econômica, social, moral e espiritual. Jesus não nasceu em um palácio, mas em uma manjedoura. O Rei dos reis, o Senhor dos senhores não andava com os poderosos, mas com os humildes dessa terra. Assim como Ele fez Ele continua fazendo até hoje. Leia as Bem-aventuranças e veremos isso claramente.

Observe o que Maria fala: “dissipou os soberbos no pensamento de seus corações. Depôs dos tronos os poderosos… despiu vazio os ricos”. É possível que Maria estive se lembrando do agir de Deus na história destronando os poderosos déspotas que se levantaram contra seu povo. Olhe a história bíblica e veremos o Senhor destronando Faraó no Egito, Nabucodonosor na Babilônia, os cananeus, os filisteus, Hamã. No entanto, o Senhor exaltou Moisés, Davi, Ester, Daniel. Deus nunca deixou que Seu povo fosse destruído. Sempre haverá um remanescente fiel.

3o – Maria destaca o cuidado de Deus para com Israel (Lc 1.54,55). O Senhor havia feito uma aliança som Abraão e através dessa aliança nasceu a nação de Israel, de onde veio o Nosso Salvador Jesus. Maria lembra que o Senhor auxiliou a Israel. Esse texto dá a ideia de “estender uma mão ajudadora a alguém que esteja caído”. Observe que quem lembrou da misericórdia foi o Senhor (Lc 1.54), não foi Israel que teve que lembrá-lo. Durante todo o tempo o Senhor guardou o Seu povo (Salmo 105.1-15).

A história está repleta de momentos em que o povo de Israel estava prestes a ser destruído, no entanto, o Senhor interveio com poder e graça e socorreu os seus. Vemos isso de forma clara no livro de Ester. O cruel Hamã planejou a destruição dos judeus, mas através da rainha Ester quem foi eliminado foi o inimigo do povo de Deus. E há algo interessante nesse livro. É o único livro da Bíblia que não traz o nome de Deus. O Senhor não é citado, mas não deixa de interagir no meio de seu povo para os guardar. Muitas vezes, parece que o Senhor está ausente de nós. Nos sentimos sozinhos e desamparados, mas saiba, o Senhor nunca desampara o seu povo.

Nós também temos uma aliança com o Senhor através de Jesus Cristo. O próprio Senhor disse que estaria conosco todos os dias até a consumação dos séculos (Mt 28.20). Podemos ser poucos e pequenos, mas temos um Deus grande que nos socorre em tempo oportuno. Por mais difícil que esteja a nossa vida nunca se esqueça que em Cristo somos mais que vencedores (Rm 8.33-39).

4 – DEUS CUIDA DE MARIA (Lc 1.56).

O texto nos diz que no final de três meses ela retorna para casa. Ela volta confiante pois acabara de presenciar um milagre na vida de Zacarias e Isabel. Ela confirmou o que o anjo que havia-lhe revelado. Ela havia crido antes mesmo de presenciar o milagre. Isso é fé.

1o – Maria não só falou do cuidado de Deus para com seu povo, ela confiou em Seu cuidado. Maria ficou com Isabel até João nascer e, em seguida, voltou para Nazaré. A essa altura, sua gravidez era aparente e, sem dúvida, as fofocas já começaram correr soltas. Afinal, havia passado três meses longe de casa, e muitos devem ter imaginado por que Maria partira com tanta pressa.

Há muitas pessoas que estão em nossas igrejas que são excelentes crentes. Falam da misericórdia de Deus e de suas maravilhas, mas quando surge um problema desestabilizam-se completamente. Falam, mas não creem. Falam, mas duvidam do cuidado de Deus na hora da prova. Maria creu na Palavra de Deus e enfrentou as consequências da sua escolha. Ela agiu como Abraão quando o Senhor lhe pede Isaque em sacrifício (Gn 12).

2o – Deus instruiu José sobre como ele deveria proceder com Maria (Mt 1.18-25). Maria confiou no cuidado de Deus e descansou nele. Houve um reboliço na vida de Maria, em sua casa, junto de sua família e amigos. José quis deixá-la secretamente. No entanto, o Senhor acalma a tempestade na mente de José e lhe revela algo que mudaria por completo a sua vida. Ele seria o “pai” do Salvador. Em meio ao caos o Senhor envia a Sua bonança. Em meio ao turbilhão de maus pensamentos o Senhor acalma a sua alma.

O Senhor continua acalmando a tempestade ainda hoje. Ele nos encoraja, nos fortalece e nos diz: “Não temais, sou eu”.

CONCLUSÃO

O cântico de Maria nos traz grandes lições de livramento, de cuidado de Deus para com Seu povo, mas também nos faz lembrar que Ele abate o soberbo e que despede de mãos vazias os ricos. Esse texto é rico em fortalecer a nossa fé e nos leva a olhar para a história de nossas vidas e ver o quanto o Senhor tem cuidado de nós.

Somos Seu povo e ovelhas do Seu pastoreio. Temos que confiar nos cuidados do Supremo Pastor de nossas almas e descansar nele. Como nos fala Davi no Salmo 23.4: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo”.

Essa deve ser também a nossa confiança!

Bibliografia:

1 – Barclay, William. Comentário do Novo Testamento, Lucas.

2 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, volume 2, Lucas e João. Editora Candeia, São Paulo, SP, 1995.

3 – Davidson, F. O Novo Comentário da Bíblia, volume 2. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1987.

4 – Keener, Craig S. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia, Novo Testamento. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 2017.

5 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus, o homem perfeito. Comentário Expositivo Hagnos. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017.

6 – Lopes, Hernandes Dias. Mateus, Jesus, o Rei dos reis. Comentário Expositivo Hagnos. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2019.

7 – MacArthur, John. Comentário do Novo Testamento, Lucas.

8 – Manual Bíblico SBB. Barueri, SP, 3a edição, 2018.

9 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário. Edições Vida Nova e Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1986.

10 – Rienecker, Fritz. Evangelho de Lucas, Comentário Esperança. Editora Esperança, Curitiba, PR, 2005.

11 – Rienecker, Fritz. Evangelho de Mateus, Comentário Esperança. Editora Esperança, Curitiba, PR, 2017.


domingo, 17 de novembro de 2019

A ALEGRIA DA COMUNHÃO - MARIA VISITA ISABEL



Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 1.39-45

INTRODUÇÃO

Como esta passagem se abre, Maria tinha acabado de receber do anjo Gabriel a mais surpreendente inimaginável anúncio, algo incompreensível que qualquer ser humano jamais ouvira falar. A mensagem que Maria ouviu do anjo era que ela seria a mãe do Messias; o Filho de Deus encarnado; o Senhor Jesus Cristo. Maria tinha respondido em humilde, obediência, submissão e fé (Lc 1.38), confiando que Deus faria o que ele tinha dito.

Embora Maria não tenha pedido um sinal, Deus, sabendo o quão surpreendente era essa mensagem, deu-lhe um de sinal. O sinal, comunicado por Gabriel, foi outro milagre da concepção, desta vez envolvendo sua parenta mais velha Isabel (Elisabete). O registro do evangelho de Lucas abre com as histórias desses dois milagres, um envolvendo uma estéril, uma mulher mais velha passada a idade fértil, e o outro, uma jovem virgem, solteira no início da adolescência. A criança do primeiro seria o precursor do Messias, João Batista; o segundo seria o próprio Messias, o Senhor Jesus Cristo.

Desde então, ela tinha certeza, pela fé, de que seria mãe. Pela transbordante emoção do coração ela anseia por outro ser humano ao qual possa contar e comunicar tudo. Maria anseia por comunhão. A verdadeira vida em Deus busca por comunhão. Ao ouvir que Isabel também estava grávida, Maria partiu numa viagem de quatro a cinco dias, saindo de Nazaré e indo ao sul, até uma cidade que ficava na região montanhosa da Judeia. Maria percorre cerca de 130 km a pé por um caminho acidentado e perigoso, e, de acordo com os costumes dos judeus, era impróprio, ou pelo menos, incomum que uma mulher solteira ou noiva viajasse sozinha. A Bíblia não nos diz como Maria conseguiu viajar dessa forma. Não sabemos se ela conseguiu autorização com seus pais ou com José, já que estava desposada com ele. De uma coisa podemos dizer com toda certeza, foi a mão de Deus sobre ela que fez com que ela conseguisse essa autorização e ser guardada dos perigos em todo o seu trajeto.

O tema principal desses textos é alegria, e há três pessoas alegrando-se no Senhor: Isabel, João e Maria. Vamos analisar esse texto para entender o que ele tem a nos ensinar.

1 – A ALEGRIA DA COMUNHÃO É A BUSCA DO “EU” A UM “TU” CONFIÁVEL (Lc 1.39).

Quanto mais Maria derrama o coração perante o Senhor, tanto mais repleto de alegria ele fica. Ela precisa de alguém ao qual consiga conversar sobre tudo que estava por acontecer. Em casa, no entanto, ela estava sozinha. Ela não fora acometida de mudez, como Zacarias, mas, na verdade, sua situação “não era muito melhor”! O delicado sentimento da virgem percebia a ameaça da perspectiva de imprevisível incompreensão e vergonha. Nessa situação não é bom estar sozinha. A solidão poderia até mesmo se tornar um perigo para ela, tão logo viessem tempos de tribulação. A comunhão de almas crentes com frequência é o único remédio para pessoas atribuladas. Já a solidão muitas vezes é um solo fértil para diversas plantas venenosas da dúvida e do desânimo.

Com isso em mente, podemos destacar três coisas:

1o – Nem tudo que o Senhor nos fala podemos compartilhar com qualquer pessoa. As pessoas que estavam em redor de Maria, provavelmente não iriam entendê-la! Ela não teria nada além de mal-entendidos e equívocos, e talvez até mesmo escárnio e zombaria. Isso não é diferente de nós hoje também. Quantas pessoas resolvem se posicionar de forma firme diante do que a Palavra de Deus fala e, sem sombra de dúvidas, irão se levantar pessoas para chamá-las de fanáticas, de fariseus, de retrógradas. Como disse Paulo a Timóteo: “E na verdade todos os que querem viver piamente em Cristo Jesus padecerão perseguições” (2Tm 3.12).

Isso me lembra um episódio que aconteceu com Billy Graham depois de uma campanha evangelística. Uma pessoa lhe disse que a forma como ele pregava e dirigia o seu trabalho estavam atrasados uns cinquenta anos. Ele então respondeu que estava triste com isso, ele queria estivesse atrasado dois mil anos, ou seja, ele queria que seu trabalho evangelístico estivesse como na época de Jesus e dos apóstolos.

2o – São poucas pessoas que estão dispostas obedecer ao Senhor, devido as suas consequências. A maioria das pessoas quer o bônus, mas não quer assumir o ônus. Em outras palavras, a maioria das pessoas quer somente os benefícios e não assumir as consequências das suas escolhas. Maria quando tomou para si essa incumbência dada pelo Senhor, ela assumiu as consequências. A Bíblia não nos relata a atitude das outras pessoas, somente a atitude de José, mas podemos imaginar a situação embaraçosa que Maria se encontrava e a reação da família e da comunidade em que ela estava inserida.

Infelizmente, as pessoas estão mais preocupadas com que as outras pessoas vão dizer a seu respeito do que tomar uma decisão correta pela obra de Deus. As consequências são reais, em todas elas sofreremos retaliações, acusações, sejam elas reais ou não. Hoje, por exemplo, se uma pessoa se converte em um país muçulmano será perseguida e morta, na Coreia do Norte é a mesma coisa; mas isso não é diferente quando uma pessoa resolve seguir a Cristo quando está inserido dentro de uma família que seguem outra religião. Vou além, até dentro de uma família que segue um cristianismo nominal. Maria assumiu o risco pela fé e foi vitoriosa.

3o – A comunhão com pessoas da mesma fé renova as nossas forças. É bem provável que o anjo Gabriel quando falou de Isabel para Maria teve a intenção de lhe mostrar duas coisas: a primeira que ela estava vivenciando um milagre compartilhado e, segundo, ela tinha alguém que iria lhe compreender diante do que ela estava passando. Essas duas mulheres estavam ligadas intimamente à história do Messias.

Entenda uma coisa, Maria era apenas uma menina que tinha no máximo quatorze anos. Ela era uma criança ou quando muito, uma adolescente. A ideia que se tem é que Maria era uma mulher adulta e experiente. Não era. Ela quando foi ter com Isabel, na verdade, ela precisava de ajuda para tentar entender tudo o que estava acontecendo. Isabel e Zacarias seriam as melhores companhias para Maria naquele momento. A experiência de fé de Isabel e Zacarias, a perseverança deles, fidelidade a Deus e vida piedosa fortaleceria ainda mais Maria e o que ela enfrentaria posteriormente.

Quando as lutas forem grandes não vá para a internet se expôr, procure gente de carne e osso, procure pessoas da mesma fé, gente adulta e experiente na fé para lhe aconselhar e lhe acolher. Cuidado com quem você se abre, nem todos são o que parecem. Mas Deus pela sua infinita misericórdia põe pessoas para nos ajudar. Pode ser até alguém da internet, mas no privado e não para todos darem as suas opiniões pessoais.

2 – A ALEGRIA DA COMUNHÃO VEM NA SAUDAÇÃO E NA RECIPROCIDADE (Lc 1.40-45).

Como eram distintas as duas que se saúdam: Maria, a jovem virgem, pouco considerada, da desprezada Nazaré, enquanto Isabel era a idosa esposa do sacerdote! Depois de chegar lá Maria entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel (Lc 1.41,44). Ao contrário do breve, casual, até mesmo os cumprimentos irreverentes comum hoje em dia, uma saudação no Antigo Oriente Médio era um evento social ampliado, envolvendo um longo diálogo (Êx 18.7-9).
Veja o que Jesus falou para os seus discípulos quando os enviou a evangelizar:

Portanto, ide! Eis que Eu vos envio como cordeiros para o meio dos lobos. Não leveis bolsa, nem mochila de viagem, nem sandálias; e a ninguém saudeis longamente pelo caminho” (Lc 10.3,4)

Isabel ao ouvir a saudação de Maria a bendiz entre as mulheres e o fruto de seu ventre. Isabel não exalta Maria acima das mulheres, mas a chama de bendita entre as mulheres. Maria não é exaltada além do que ela é, nem é tratada aquém do que ela representa.

A alegria de Isabel ao ver Maria não era só por serem parentes, mas devido as experiências que ambas estravam tendo. O kairós (tempo) de Deus estava acontecendo na vida dessas duas servas de Deus. Uma carregava em seu ventre o precursor do Messias e a outra o Messias. Um apontaria o Caminho e o outro seria o Caminho, a Verdade e a Vida.

Essa saudação e reciprocidade causaram três coisas:

1o – A saudação de Maria enche Isabel e João do Espírito Santo (Lc 1.41,44). Não havia em Maria nenhum poder ou dom especial, mas em seu ventre estava o nosso Salvador. Maria era o porta-joias com a joia mais preciosa do mundo. Maria estava cheia do Espírito Santo e carregava em seu ventre Aquele que aos trinta e três anos morreria pelos nossos pecados.

João Batista mesmo antes de seu nascimento alegra-se em Jesus Cristo e fez o mesmo durante o seu ministério, como nos diz em Jo 3.29,30:

Aquele que tem a esposa é o esposo; mas o amigo do esposo, que lhe assiste e o ouve, alegra-se muito com a voz do esposo. Assim, pois, já este meu gozo está cumprido. É necessário que ele cresça e que eu diminua”.

Isso traz uma grande lição para todos nós. Será que a nossa presença nos lugares em estamos, seja em nosso lar, na escola, no trabalho ou quem sabe no laser têm feito diferença nas pessoas? Será que as pessoas ao nosso redor conseguem ver em nossas vidas o agir do Espírito Santo ou não estamos fazendo diferença alguma onde estamos? Será que temos sido canal de bênçãos sobre a vida das outras pessoas?

Qual tem sido o fruto dos nossos lábios? A Bíblia fala que a boca fala do que está cheio o coração (Mt 12.34). John Charles Ryle disse certa feita: “A alegria compartilhada se multiplica. A tristeza se expande ao ser ocultada; a alegria, ao ser repartida”.

2o – A saudação de Isabel enfatiza o fruto do ventre de Maria (Lc 1.42b,43). Isabel reconhece que aquela que estava diante dela tinha em seu ventre o “Seu Senhor”. Há uma inversão de valores hoje em relação a Maria. Entre os católicos ela têm sido adorada como uma corredentora. Como intercessora e até como Rainha do Céu. No entanto, Isabel reconhece Maria como uma mulher bendita entre as mulheres, mas dá ênfase ao Filho de seu ventre.

Temos que tomar como exemplo essa saudação de Isabel. Devemos honrar as pessoas com a honra devida, mas somente adorar o Senhor Jesus. Uma pessoa pode ser muito abençoadora e devemos honrá-la, mas devemos tomar muito cuidado para não acharmos que tal pessoa tem algum poder especial dado por Deus. No meio secular as pessoas têm o hábito de serem fãs de certas celebridades e no meio evangélico isso não tem sido muito diferente. Alguns anos atrás isso ocorreu com Paul Washer. Ele repreendeu igreja que o aplaudiu!

3o – Isabel reconhece que Maria é bem-aventurada pela confiança na Palavra de Deus (Lc 1.45). Isabel sabe que o fruto de seu corpo também será grande perante o Senhor, porém ela reconhece com alegria que o fruto do ventre de Maria precisa ser exaltado acima de todas as pessoas abençoadas. Por essa razão, ela cumprimenta a mui ditosa mãe, Maria, como a mais ditosa, isto é, a mais abençoada dentre todos os humanos. Isabel, a venerável e idosa curva-se humildemente diante de seu Senhor. Não apenas diante de seu Senhor, mas igualmente diante da mãe dele, essa serva juvenil e humilde! Depreendemos isso das palavras: “E de onde me provém que me venha visitar a mãe do meu Senhor?” Com total ausência de inveja ela que, afinal, também é abençoada consegue alegrar-se com aquela que foi abençoada com graça maior! Cheia de bendita submissão, ela concede a honra a Maria, como se a mãe de um rei tivesse chegado a um de seus mais ínfimos súditos.

Bem-aventurada a que creu”, continua Isabel. Essa é a primeira bem-aventurança do NT, raiz e soma de todas as subsequentes. Ao que parece, Isabel pensa com dor na incredulidade de seu marido, e como o Senhor o puniu por isso. Com que diferença Zacarias havia entrado em casa naquela ocasião! Em contrapartida, que saudação jovial Maria traz ao chegar agora até ela, como uma criança feliz. Sim, bem-aventurado aquele que crê! Essa é a norma, a constituição da nova aliança: “Quem crer será bem-aventurado.”

Que grande lição para nós temos aqui. Isabel louva a Deus pela bênção na vida de Maria e glorifica a Deus por isso. Isabel não a inveja, mas exalta ao Senhor por ver Maria abençoada, e ela mesma sabe que está abençoada também. No entanto, quantas vezes as pessoas invejam umas as outras por verem as outras pessoas abençoadas, mas não conseguem ver a bênção sobre si mesmas. Há muitas pessoas como o salmista Asafe (Sl 73). Asafe entrou no templo e teve os seus olhos abertos, mas existem muitas pessoas em nosso meio que permanecem cegas. Infelizmente.

CONCLUSÃO

Aprendemos nesse texto que precisamos compartilhar as bênçãos recebidas com outras pessoas da mesma fé. No momento que o Senhor nos comissiona para Sua obra, precisamos estar na companhia de pessoas que pensem como nós, que tenham a mesma alegria e disposição para o trabalho.

Estar com as pessoas erradas só irão nos entristecer, ou até, quem sabe, nos enfraquecer na fé. Por isso devemos saber com quem nós nos relacionamos. Com quem compartilhamos os nossos sonhos e realizações. Nem todos entendem o agir de Deus, até os que se encontram na comunidade da fé pensam diferente, imagine fora do nosso arraial. Por isso, busque estar em boas companhias. Gente que te aconselhe com conselhos de Deus. Gente que vê a bênção sobre você e lhe incentive e não lhe inveje e tente te enfraquecer na fé.

Tome cuidado com quem você anda. Até o diabo se transforma em anjo de luz!

Pense nisso!

Bibliografia:

1 – Barclay, William. Comentário do Novo Testamento, Lucas.

2 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, volume 2, Lucas e João. Editora Candeia, São Paulo, SP, 1995.

3 – Davidson, F. O Novo Comentário da Bíblia, volume 2. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1987.

4 – Keener, Craig S. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia, Novo Testamento. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 2017.

5 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus, o homem perfeito. Comentário Expositivo Hagnos. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017.


6 – MacArthur, John. Comentário do Novo Testamento, Lucas.

7 – Manual Bíblico SBB. Barueri, SP, 3a edição, 2018.

8 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário. Edições Vida Nova e Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1986.

9 – Rienecker, Fritz. Evangelho de Lucas, Comentário Esperança. Editora Esperança, Curitiba, PR, 2005.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

O PRONUNCIAMENTO DO NASCIMENTO DE JESUS



Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 1.26-38 

INTRODUÇÃO


O texto que lemos nos fala que o mesmo anjo que trouxe as boas novas a Zacarias, agora está em Nazaré em uma cidade da Galileia. É interessante destacar que o que texto chama de cidade é, na verdade, um lugarejo. Nazaré não estava em qualquer uma das principais rotas de comércio, ela se quer é citada no Antigo Testamento, nos apócrifos ou nos escritos históricos de Josefo. Foi longe dos centros importantes da cultura e da religião judaica, em uma região mal vista pelos judeus (Jo 1.45,46) que o anjo Gabriel foi enviado. Além disso, Galileia, região onde Nazaré estava localizada, era conhecida como “Galileia dos gentios” (Is 9.1; Mt 4.15), por causa de sua proximidade com regiões dos gentios. Essa região tinha como vizinhos a Fenícia, a Síria e Samaria. Portanto, a Galileia estava em constante contato com a influências e ideias não judaicas. Outro detalhe que merece destaque é que a Galileia tinha sido subjugada sucessivamente pelos assírios, pelos babilônicos, pelos gregos da Síria e pelos romanos; assim, estava sob grande influência gentílica e pagã – daí o termo usado por Isaías: “a Galileia dos gentios”. A Galileia era um território, podemos dizer, aberto a novas ideias.

A escolha de Nazaré por Deus para ser local da notícia do nascimento de Jesus revela que Ele é o Salvador do mundo, e não dos poderosos, das elites, muito menos de uma só nação, mas de todos “aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos” (1Co 1.24; cf. Is 11.10; 42.6; Lucas 2.32; Atos 10. 34,35; 13.48,49; Rm 15.9-12).

Como observado, a aparição de Gabriel a Zacarias tinha quebrado quatrocentos anos de silêncio, período esse em que o Senhor não se comunicou com o Seu povo através de profetas. Surpreendentemente, apenas um pouco mais tarde, no sexto mês (de gravidez de Isabel ou Elisabete), o anjo Gabriel foi mais uma vez enviado por Deus com a revelação de que seria agora o anúncio do nascimento do Salvador, o Senhor Jesus Cristo. O nascimento de Jesus foi profetizado desde o Jardim do Éden (Gn 3.15). Os patriarcas apontaram para esse dia. Os profetas descreveram esse acontecimento. Deus, através da Sua soberania, preparou o mundo para que o Salvador viesse ao mundo (Gl 4.4). O Anjo agora não se apresenta a outro sacerdote, mas a uma jovem israelita. Não acontece no templo, mas em Nazaré da Galileia, cerca de 75 km de Jerusalém; não ao queimar do incenso no altar, mas na singela habitação da jovem Maria. Antes o anjo anuncia o nascimento de João a um casal avançado em idade, mas agora anuncia o nascimento do Salvador a uma virgem.

Quais as lições que podemos tirar desse texto para nós hoje?

1 – DEUS ESCOLHE UMA VIRGEM CASADA PARA SER MÃE DO SALVADOR (Lc 1.26,27).

Se havia loucura da parte de Deus escolher um casal idoso para gerar o precursor do Salvador, mais loucura há agora em escolher uma virgem, compromissada (casada) para ser a mãe do Salvador. Mas como Deus não trabalha na lógica humana tudo é possível.

Isso mais uma vez nos mostra que o Senhor em Sua soberania escolhe quem Ele quer para realizar a Sua obra. Observe que o contexto é de milagres, tanto na vida de um casal idoso, quanto na casa de uma jovem judia. A grande questão aqui que podemos observar é que todos eles temiam ao Senhor, andavam em Seus caminhos e estavam dispostos a obedecê-lo até o fim. Quão diferente hoje de muitas pessoas que não tem perseverança como Zacarias e Elisabete e nem a coragem de Maria.

O que podemos saber a respeito de Maria?

1o – Ela era virgem. Ela é descrita em primeiro lugar, como uma virgem. Parthenos (virgem) refere-se a uma pessoa que nunca teve relações sexuais, e esta palavra nunca seria usado para descrever uma mulher casada. Na prática judaica, as meninas eram, geralmente, envolvidas com a idade de doze ou treze anos e casava-se no final de um período de noivado de um ano. Por isso que, apesar de Maria estar “casada” (noiva) com José, eles não estavam juntos ainda. Não havia tido as núpcias.

Em Isaías 7.14 nos diz: “Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem (almah) conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel”. A concepção virginal é um dos maiores milagres das Escrituras, pois se fosse possível criar um feto usando apenas o óvulo de uma mulher, essa criança seria uma filha, e não um filho. A partenogênese (desenvolvimento de um ser vivo a partir de um óvulo não fecundado) em humanos, mesmo que fosse biologicamente possível, só poderia resultar geneticamente em uma criança do sexo feminino, uma vez que as mulheres não têm o cromossomo Y necessário para produzir uma criança do sexo masculino.

Apenas um homem pode dar o cromossomo que, junto com o da mulher, torna possível o nascimento de um filho. Este cromossomo, com outros que formaram a pessoa teantrópica de Jesus Cristo (totalmente Deus e totalmente homem), foi dado pelo Espírito Santo.

2o – Ela estava desposada com José. Maria estava comprometida com José. O compromisso durava um ano, e era tão sério como o matrimônio. Só podia ser dissolvido pelo divórcio. Se o homem que estava comprometido com uma mulher morria, perante a lei ela era viúva. Utilizava-se a estranha frase: “uma virgem viúva”. O compromisso criava um vínculo que só a morte podia romper. O noivado era completado depois de negociações realizadas pelo representante do noivo e depois de pago o dote ao pai da moça. Depois de assumido o noivado, o noivo podia reclamar a noiva a qualquer momento. O aspecto legal do casamento estava incluído no compromisso de casamento; o casamento propriamente dito era apenas um reconhecimento do compromisso que já fora estabelecido.

O Senhor havia providenciado a união dos dois porque seu propósito era conceder à virgem um protetor e vigia que haveria de defender o nascimento estranho das fofocas e assegurar à criança o direito à cidadania em Israel. A Bíblia descreve José como um homem justo (Mt 1.19). Observe que o anjo Gabriel apareceu a Maria, mas não a José. Imediatamente depois da visita do anjo a Maria, ela foi ao encontro de sua prima Elisabete, na Judeia, e ali ficou três meses, até o nascimento de João Batista. Ao retornar a Nazaré, sua gravidez era notória. Maria não compartilha com José o fato miraculoso, pelo menos a Bíblia não registra isso, e José sendo justo e não querendo infamá-la, resolveu divorciar-se sem alarde. José prefere sofrer o dano a expor Maria ao opróbrio público. José é identificado como um homem justo não só por não querer expor Maria, mas acima de tudo por dar ouvidos a voz de Deus e recebê-la como esposa (Mt 1.19-25).

O anjo aparece a Maria para lhe dar a notícia do nascimento de João e lhe dizer que ela ficaria grávida através da ação do Espírito; mas se observar nunca mais nos é dito que o anjo tornou lhe aparecer. Dali em diante o Senhor se revela somente a José (Mt 1.20; Mt 2.13,19-23).

José é um grande exemplo para todos nós, pois no momento em que ouviu a palavra do Senhor que lhe revelada a respeito da situação de Maria, imediatamente obedeceu ao Senhor e recebeu Maria por esposa. Ele creu e obedeceu! Diferentemente de alguns que até creem, mas não põe em prática a Palavra de Deus.

3o – Deus escolhe os desprezados deste mundo para manifestar a sua graça (1Co 1.25-31). O Senhor escolhe pessoas desprezadas e não as que querem receber honras. Ele escolhe as que nada são para confundir as que pensam que são. O precursor de Salvador era filho de sacerdotes, mas nunca exerceu o sacerdócio. O Rei dos reis e Senhor dos senhores nasce em uma família pobre, num lugarejo desconhecido e tem como profissão ser carpinteiro.

No mundo greco-romano as mulheres não tinham nenhum valor. Entre os judeus as mulheres eram bem menos desprezadas, mas não recebiam devidas horas que só passou a existir depois da vinda de Cristo. Agora observe que a proclamação da maravilhosa origem de Cristo da “virgem” já é profetizada no paraíso em Gn 3.15. Essa promessa, que fala da semente da mulher, e não da semente do homem, exclui o homem expressamente dessa geração. Nas genealogias do AT os israelitas se apegavam com tanta intensidade à ascendência masculina que, com exceção dessa promessa (Gn 3.15), em lugar algum se fala entre eles de outra coisa que não da semente do homem.

Uma leitura mais detalhada no Evangelho de Lucas podemos observar alguns detalhes:

1oO Evangelho dos gentios – É evidente que Lucas escreveu principalmente para os gentios. Teófilo era um gentio, como o autor, e não há no Evangelho nada que um gentio não possa captar ou compreender.

2o – O Evangelho das mulheres – O lugar das mulheres na Palestina era baixo. Na oração matinal judaica o homem agradece a Deus por não tê-lo feito “gentio, escravo ou mulher”. Mas Lucas em seu Evangelho dá um lugar muito especial à mulher. O relato do nascimento é dado do ponto de vista de Maria.

3o – O evangelho universal – Mas a característica mais proeminente de Lucas é que seu evangelho é universal. Caem todas as barreiras; Jesus é para todos os homens sem distinção.

2 – MARIA NÃO ACOLHE A MENSAGEM DE DEUS COM INCREDULIDADE (Lc 1.28-30).

Maria, diferente de Zacarias, não acolhe o mensageiro divino com incredulidade, e sim com fé. No caso de Zacarias, ele ouviu a promessa de que sua esposa, a idosa Isabel (Elisabete), lhe daria à luz o “precursor” do Messias, e ele duvidou. Maria, no entanto, ouviu a mais estranha mensagem, de que ela daria à luz o próprio Messias, o “Filho de Deus”, mesmo virgem, e – estava pronta para crer! O sacerdote precisa carregar a mensagem celestial mudo para sua casa, e somente depois que seu filho nasce ele reencontra a fala. Maria, por sua vez, está imediatamente repleta de bendita alegria e se apressa para ter com Isabel, a fim de anunciar sua felicidade com louvor e gratidão.

Esse é o contraste entre a velha e a nova aliança. Observamos, que não deixa de ocorrer a mais íntima relação de parentesco entre a velha e a nova alianças. Ambas as proclamações são trazidas pelo mesmo anjo! Na segunda proclamação o anjo até mesmo aponta para a primeira. Um é filho tardio do idoso casal de sacerdotes, que já ultrapassou “a sua época”, o outro é o primogênito de uma virgem. O nascido tardio é enchido do Espírito Santo no ventre materno, o segundo é gerado e nascido pela sobrepujante atuação de Deus na virgem pelo poder do Espírito Santo.

A mensagem do anjo a Maria nos traz algumas lições importantes:

1o – O anjo honra Maria em sua saudação (Lc 1.28). Maria deve ser honrada por todos nós. Em se tratando de Maria, a tendência das pessoas é cair em um de dois extremos. Ou a exaltam acima de Jesus (Lc 1.32), ou a ignoram e não lhe dão a consideração que merece (Lc 1.48). Maria era cheia do Espírito Santo, Elisabete a chamou de “a mãe do Senhor” (Lc 1.43), o que é motivo suficiente para honrá-la. Honrar não é adorar. Maria, podemos definir como um porta-joias, ela não era a joia. A joia de grande valor foi gerado em seu ventre, Jesus Cristo, o nosso Salvador. Maria seria a mãe de Jesus homem e não de Jesus Deus, por isso que é errado chamá-la de “mãe de Deus”, como fazem os católicos. A saudação do anjo Gabriel descrevia o seu caráter. O Senhor olhou dos altos céus e escolheu essa jovem, pois ela era a pessoa certa para ser a mãe do Salvador. Ela temia ao Senhor. Era humilde.

Maria é um dos grandes exemplos de fidelidade, coragem e intrepidez encontrados em toda a Bíblia. Ela abriu mão de seu casamento, de sua honra, de sua reputação e de sua vida por amor a Deus e a Sua Palavra. Ela creu no que o anjo havia lhe revelado e foi até o fim em seu posicionamento. Isso é um exemplo para todos nós. Por isso devemos honrá-la.

2o – A surpresa de Maria com esta saudação (Lc 1.29). O temor de Maria não é de incredulidade como Zacarias, mas de êxtase diante da revelação. A surpresa de Maria diante de tal saudação revela a sua humildade e honestidade diante de Deus. Por certo, jamais esperou receber favores especiais do céu. Não possuía nada de singular que justificasse tais coisas. Se fosse, de fato, diferente das outras moças judias, como alguns teólogos afirmam, é possível que tivesse dito: “Já era tempo! Estava te esperando!” Mas foi tudo surpresa para ela.

Observe que o texto nos diz que “vendo-o ela, turbou-se muito com essas palavras. Os versículos 29, 34, 37 e 38 expressam os diversos estágios da experiência espiritual de Maria. O versículo 29 nos mostra Maria perturbada, com medo. Espanto diante de tal saudação. Depois no versículo 34 a vemos perplexa, ela perde o medo e dá atenção ao que se está sendo dito. Logo após (v. 37) vemos Maria sendo consolada através das palavras do anjo mostrando para ela que para Deus não há impossível e lhe revela o que Deus havia feito com Isabel. E por fim, no versículo 38 vemos a entrega de Maria a vontade de Deus. Podemos dizer que houve um crescimento espiritual e uma maturidade ímpar no coração de Maria.

No entanto, quão diferente tem sido na vida de muitos jovens em nossas igrejas, isso sem falar de crentes mais velhos também. Na atual igreja, infelizmente, não há maturidade espiritual. A maioria dos crentes são imaturos, inconsequentes, refletem a visão do mundo atual. Se veem vitimadas ou se veem merecedoras de tudo o tempo todo. Pensam que são melhores que as outras pessoas e que Deus tem por obrigação abençoá-las. É uma geração de cristãos que pensam que podem mandar em Deus assim como mandam em seus pais (diferente de Maria e José que se sujeitaram a vontade de Deus). Gente com uma visão distorcida do que é ser cristão, segundo a Bíblia. Mas o mais triste é que tais crentes aprendem e vivem assim por causa de uma liderança que lhes ensina a serem assim. Muitos aprendem a dizer que são príncipes e princesas de Deus; que podem e devem reivindicar as bênçãos; que o Senhor morreu para que elas fossem ricas; tivessem de tudo de bom e do melhor desta terra… Aí quando vem as lutas e as adversidades se desviam se fazendo de vítimas, de pobres coitadas. Essa geração é a da semente lançada entre pedras e espinhos:

A semente que caiu no meio de pedras representa a pessoa que ouve a mensagem a respeito do reino e a aceita imediatamente e com muita alegria. Mas, como não tem raiz, não dura muito tempo. Assim que encontra dificuldades ou que é perseguida por causa da mensagem, abandona a sua fé. A semente que caiu no meio de espinhos representa a pessoa que ouve a mensagem a respeito do reino mas é sufocada pelas preocupações com as coisas desta vida e pela ilusão das riquezas. Essa pessoa não produz nenhum fruto” (Mt 13.20-22).

Esta tem sido uma geração infantilizada, no entanto, o propósito de Deus para os cristãos está em Efésios 4.12-14: “…com o propósito de aperfeiçoar os santos para a obra do ministério, para que o Corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da estatura da plenitude de Cristo. O objetivo é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para o outro pelas ondas teológicas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela malícia de certas pessoas que induzem os incautos ao erro”.

3 – O ANJO DESCREVE A CRIANÇA QUE SERÁ GERADA EM SEU VENTRE (Lc 1.30-33).

O anjo diz para Maria que ela achou graça diante de Deus, isso quer dizer que ela alcançou um favor especial que Deus está lhe proporcionando. Não há nada de especial nela no sentido de que ela alcançou essa graça por méritos próprios. Ela era uma crente fiel, mas não santa sem pecados como muitos afirmam. Buscando acalmá-la, Gabriel disse para a jovem assustada, “Não tenhas medo, Maria”. Sua explicação, pois achaste graça diante de Deus, assegurou a Maria que ela não tinha nada a temer; Gabriel tinha chegado a ela com uma mensagem de bênção, não de julgamento.

A partir daquela saudação ele passa descrever porque veio até ela. Ele lhe diz que ela seria a mãe do Salvador, lhe diz qual será o seu nome e passa descrevê-lo. O anjo passa a detalhar para Maria as características singulares de seu filho.

1o – Ele é o salvador do mundo (Lc 1.31). Seu nome será Jesus, pois ele será o salvador do seu povo (Mt 1.21). Assim como Josué levou o seu povo para possuir a terra prometida, assim será o Nosso Senhor irá nos levar para um novo céu e uma nova terra. Tanto que Josué e Jesus são o mesmo nome. Um em hebraico e outro em grego. O nome de Jesus foi revelado tanto a Maria quanto a José (Mt 1.21).

2o – Ele será grandemente exaltado (Lc 1.32). João Batista seria grande diante do Senhor (Lc 1.15), mas Jesus é grande de forma incomparável, pois Ele é o Deus encarnado, como lemos em João 1.14: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade”. Como vemos, Jesus é Deus de Deus, Luz de Luz, coigual, nele habita toda plenitude de Deus. Ele é grande em de si mesmo; Sua grandeza é intrínseca à sua própria natureza de Deus, e não é derivado de qualquer fonte fora de si mesmo. Jesus Cristo é “muito acima de todo governo e autoridade, poder e domínio, e de todo nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro” (Ef. 1.21).

Ser grande aos olhos do mundo é ser uma pessoa de destaque, alguém financeiramente bem- sucedida, no entanto, Jesus é chamado de grande, mas ao analisarmos sua vida vemos que Ele não se enquadra nessas qualificações. Ele nasce em uma família pobre, quando nasce é posto em uma manjedoura, vive em uma cidade desconhecida, até aos trinta anos vive no anonimato, quando inicia o seu ministério é perseguido e, por fim, é morto em uma cruz. Pela lógica do mundo, Jesus foi um malsucedido. No entanto, o apóstolo Paulo declara que Jesus, sendo Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus, antes se esvaziou, assumindo a forma de servo, e se humilhou até a morte, e morte de cruz, pelo que Deus Pai o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome (Fl 2.6-11).

3o – Ele é o Filho do Altíssimo (Lc 1.32a, 35). Jesus é o cumprimento profético (Is 7.14 conf. Mt 1.23). Aquele que estava para vir ao mundo era o Filho de Deus. Este seria o Emanuel descrito por Isaías. O Deus Conosco tão aguardado pela nação de Israel. Ele é chamado Filho de Deus porque nasceu de Maria, não porque Ele foi gerado na eternidade como dizia Ário. Ele não é a primeira criação de Deus como dizem alguns. Devemos tomar cuidado para não entrarmos por esse caminho que nos afasta de Deus. Veja o que nos fala Jo 1.1-3: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez”.

Ele foi gerado no ventre de Maria pelo Espírito Santo. De acordo com Mt 1.20 “to gennomenon” é derivado de “gennao”, não “que há de nascer”, mas “que é gerado” (gennao significa gerar). Aquile que está sendo gerado em Maria é chamado o santo, não um ente santo, provavelmente para que entenda que a criança não será primeiramente santificada pela graça, como as pessoas santas do AT e NT. Na verdade ela é, desde o primeiro instante em que é gerada, isto é, aquile que não tem máculas de pecados (Dn 9.24), que não tem pecado.

A encarnação foi o começo de uma nova criação. O Espírito Santo, o agente original da criação, voltaria a se tornar um agente da criação, desta vez no ventre de Maria. Não há a menor sugestão neste texto ou em qualquer outro lugar na Escritura da atividade sexual humana envolvida na concepção do Senhor Jesus Cristo.

4o – Ele é o Rei Eterno (Lc 1.32,33). O Senhor havia feito uma aliança com Davi (2Sm 7) e iria cumpri-la na Pessoa de Jesus. Por isso que Jesus é chamado de Filho de Davi.

Esta criança seria o Deus encarnado, perfeitamente justo em tudo o que Ele pensou, disse e fez. Ele morreria como um sacrifício sem pecado, oferecendo-se como um substituto para os pecadores, oferecendo Sua morte expiatória para salvá-los de seus pecados. Mas isso não é o fim da história. Ele não permaneceria morto, mas subiria para reinar. O ponto culminante da obra de Cristo virá quando o Senhor Deus dá o trono de seu pai Davi; e Ele reinará sobre a casa de Jacó para sempre, e seu reino não terá fim. Como observado acima, o Senhor Jesus Cristo era o legítimo herdeiro do trono de seu pai Davi através de seu pai legal, José. Palavras de Gabriel enfatizam tanto o caráter judaico do reino de Cristo, pois Ele governará sobre a casa de Jacó (Is 65.17-19; Sf 3.11-13; Zc 14.16-21, assim como o resto da humanidade; cf. Dn 7.14, 27), e sua eternidade, desde então. Seu reino não terá fim (Ap 11.15).

Seu reino não é terreno ou político, mas espiritual, um reino da graça e da verdade estabelecida no coração de todos aqueles que têm o Deus de Jacó como refúgio.

A concepção de Cristo no ventre de Maria, como o texto deixa claro, foi obra do Espírito Santo. A Bíblia também nos fala que o novo nascimento é obra da ação do Espírito Santo em nós. A Bíblia nos fala que nós estávamos mortos em delitos e em pecados, mas o Senhor nos deu vida (Ef 2.1-10).

4 – A SOBERANIA DIVINA (Lc 1.36-38).

O nascimento virginal de Jesus Cristo é fundamental para o cristianismo, já que é a única maneira de explicar como ele poderia ser o homem-Deus. Para negar o nascimento virginal, então, é negar a verdade bíblica de que Jesus Cristo é Deus (cf. Jo 1.1; 10:30; 20.28; Rm 9.5; Fp 2.6; Cl 2.9; Tt 2.13; Hb 1.8; 2Pe 1.2; 1Jo 5.20) e homem (cf. Jo 1.14; Rm 1.3; Gl 4.4; Fl 2.7,8; 1Tm 2.5; Hb 2.14; 1Jo 4. 2; 2Jo 7), e afirmar uma outra, um falso Jesus (2Co 11.4). Pois se Jesus teve um pai humano, ele era apenas um homem. E se Ele era apenas um homem, Ele não poderia ser o Salvador. E se Jesus não é o Salvador, não há Evangelho, não há salvação, não há ressurreição, não há esperança para além desta vida. Como Paulo observa:

E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens” (1Co 15.17,19).

Podemos assim “comer e beber, pois amanhã morreremos” (1Co 15.32). As implicações graves de ver Jesus como um mero homem levou Paulo a pronunciar uma maldição sobre aqueles que propagam esta mentira satânica (Gl 1.8,9).

A anjo Gabriel para confirmar que o que havia lhe falado era de fato assim, lhe diz duas coisas:

1o – Que havia outro milagre a caminho (Lc 1.36). O anjo encoraja Maria lhe contando de algo que iria, certamente, alegrar o seu coração. Sua prima que todos conheciam como estéril estava grávida na sua velhice e já estava no seu sexto mês de gravidez. O milagre que ocorreu para Elisabete (Isabel) foi uma gravidez na velhice, e não a concepção virginal de que Maria experimentaria. No entanto, a concepção de Isabel era um sinal de Deus a Maria que ele ainda era capaz de realizar milagres, que Ele poderia fazer o humanamente impossível (cf. Jr 32.17, 27; Mt 19.26.). Deus deu o sinal, não porque Maria duvidava as palavras do anjo, mas para fornecer uma âncora (cf. Hb. 6.19) para a sua fé.

2o – O anjo lhe afirma que para Deus não há impossível (Lc 1.37). O que é impossível para o homem é possível para Deus. As promessas de Deus são fiéis e verdadeiras. Uma coisa a dizer que algo que vai acontecer, outra bem diferente é fazer acontecer. O que Maria ouviu e percebeu era algo humanamente impossível. Portanto, Gabriel lembrou que por causa do poder ilimitado de Deus, nada é impossível para Ele. A prova Gabriel ofereceu, como mencionado acima, foi a concepção de João de Isabel.

3o – Diante de tudo que Maria ouviu ela se submete a vontade de Deus (Lc 1.38). Sua resposta humilde demonstrou submissão voluntária ao que o Senhor estava por realizar em sua vida. Viu-se como nada mais do que a Sua vontade, ela se colocou como uma escrava humilde, e respondeu dizendo: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”. Ela não perguntou sobre José, que, obviamente, saberia que o bebê não era dele. Maria teria, assim, que enfrentar o estigma da maternidade solteira e a aparência de ter adulterado, correndo o risco de punição que era a morte por apedrejamento (Dt 22.13-21; Lv 20.10; cf. Jo 8.3-5). Mas, na humilde, fé obediente Maria voluntariamente confiava em Deus e abriu mão de sua vida, reputação e casamento (cf. Mt 1.19-25).

Dramático encontro de Maria com o anjo Gabriel terminou com este curto, posfácio simples: E o anjo ausentou-se dela. Sua missão cumprida, Gabriel voltou para a presença de Deus. O Deus-homem estava indo para nascer; o Filho unigênito de Deus, Jesus, quem salvará o seu povo dos seus pecados, o divino Redentor, o rei divino que reinará sobre um reino que vai durar para sempre.

CONCLUSÃO

Deus ainda está fazendo seu trabalho hoje, se não for através de milagres visíveis, então espiritualmente através do seu povo que confia nele (Is 26.3; cf. Pv 29.25). Obedecer à Sua Palavra (Sl 119.17, 67, 101; Mt 7.24; Lc 11.28; Tg 1.25), e submeter humildemente como escravos obedientes à Sua vontade (Js 24.24; Sl 119.35; Ec 12.13; Fp 2.12,13).

Quantas pessoas hoje, que se dizem cristãs, estão dispostas a abrir mão de sua vontade para que a vontade de Deus prevaleça em suas vidas?

Bibliografia:

1 – Barclay, William. Comentário do Novo Testamento, Lucas.

2 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, volume 2, Lucas e João. Editora Candeia, São Paulo, SP, 1995.

3 – Davidson, F. O Novo Comentário da Bíblia, volume 2. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1987.


4 – Keener, Craig S. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia, Novo Testamento. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 2017.

5 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus, o homem perfeito. Comentário Expositivo Hagnos. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017.

6 – Lopes, Hernandes Dias. Mateus, Jesus, o Rei dos reis. Comentário Expositivo Hagnos. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2019.

7 – MacArthur, John. Comentário do Novo Testamento, Lucas.

8 – Manual Bíblico SBB. Barueri, SP, 3a edição, 2018.

9 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário. Edições Vida Nova e Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1986.

10 – Rienecker, Fritz. Evangelho de Lucas, Comentário Esperança. Editora Esperança, Curitiba, PR, 2005.

11 – Rienecker, Fritz. Evangelho de Mateus, Comentário Esperança. Editora Esperança, Curitiba, PR, 2017.