terça-feira, 12 de novembro de 2019

O PRONUNCIAMENTO DO NASCIMENTO DE JESUS



Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 1.26-38 

INTRODUÇÃO


O texto que lemos nos fala que o mesmo anjo que trouxe as boas novas a Zacarias, agora está em Nazaré em uma cidade da Galileia. É interessante destacar que o que texto chama de cidade é, na verdade, um lugarejo. Nazaré não estava em qualquer uma das principais rotas de comércio, ela se quer é citada no Antigo Testamento, nos apócrifos ou nos escritos históricos de Josefo. Foi longe dos centros importantes da cultura e da religião judaica, em uma região mal vista pelos judeus (Jo 1.45,46) que o anjo Gabriel foi enviado. Além disso, Galileia, região onde Nazaré estava localizada, era conhecida como “Galileia dos gentios” (Is 9.1; Mt 4.15), por causa de sua proximidade com regiões dos gentios. Essa região tinha como vizinhos a Fenícia, a Síria e Samaria. Portanto, a Galileia estava em constante contato com a influências e ideias não judaicas. Outro detalhe que merece destaque é que a Galileia tinha sido subjugada sucessivamente pelos assírios, pelos babilônicos, pelos gregos da Síria e pelos romanos; assim, estava sob grande influência gentílica e pagã – daí o termo usado por Isaías: “a Galileia dos gentios”. A Galileia era um território, podemos dizer, aberto a novas ideias.

A escolha de Nazaré por Deus para ser local da notícia do nascimento de Jesus revela que Ele é o Salvador do mundo, e não dos poderosos, das elites, muito menos de uma só nação, mas de todos “aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos” (1Co 1.24; cf. Is 11.10; 42.6; Lucas 2.32; Atos 10. 34,35; 13.48,49; Rm 15.9-12).

Como observado, a aparição de Gabriel a Zacarias tinha quebrado quatrocentos anos de silêncio, período esse em que o Senhor não se comunicou com o Seu povo através de profetas. Surpreendentemente, apenas um pouco mais tarde, no sexto mês (de gravidez de Isabel ou Elisabete), o anjo Gabriel foi mais uma vez enviado por Deus com a revelação de que seria agora o anúncio do nascimento do Salvador, o Senhor Jesus Cristo. O nascimento de Jesus foi profetizado desde o Jardim do Éden (Gn 3.15). Os patriarcas apontaram para esse dia. Os profetas descreveram esse acontecimento. Deus, através da Sua soberania, preparou o mundo para que o Salvador viesse ao mundo (Gl 4.4). O Anjo agora não se apresenta a outro sacerdote, mas a uma jovem israelita. Não acontece no templo, mas em Nazaré da Galileia, cerca de 75 km de Jerusalém; não ao queimar do incenso no altar, mas na singela habitação da jovem Maria. Antes o anjo anuncia o nascimento de João a um casal avançado em idade, mas agora anuncia o nascimento do Salvador a uma virgem.

Quais as lições que podemos tirar desse texto para nós hoje?

1 – DEUS ESCOLHE UMA VIRGEM CASADA PARA SER MÃE DO SALVADOR (Lc 1.26,27).

Se havia loucura da parte de Deus escolher um casal idoso para gerar o precursor do Salvador, mais loucura há agora em escolher uma virgem, compromissada (casada) para ser a mãe do Salvador. Mas como Deus não trabalha na lógica humana tudo é possível.

Isso mais uma vez nos mostra que o Senhor em Sua soberania escolhe quem Ele quer para realizar a Sua obra. Observe que o contexto é de milagres, tanto na vida de um casal idoso, quanto na casa de uma jovem judia. A grande questão aqui que podemos observar é que todos eles temiam ao Senhor, andavam em Seus caminhos e estavam dispostos a obedecê-lo até o fim. Quão diferente hoje de muitas pessoas que não tem perseverança como Zacarias e Elisabete e nem a coragem de Maria.

O que podemos saber a respeito de Maria?

1o – Ela era virgem. Ela é descrita em primeiro lugar, como uma virgem. Parthenos (virgem) refere-se a uma pessoa que nunca teve relações sexuais, e esta palavra nunca seria usado para descrever uma mulher casada. Na prática judaica, as meninas eram, geralmente, envolvidas com a idade de doze ou treze anos e casava-se no final de um período de noivado de um ano. Por isso que, apesar de Maria estar “casada” (noiva) com José, eles não estavam juntos ainda. Não havia tido as núpcias.

Em Isaías 7.14 nos diz: “Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem (almah) conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel”. A concepção virginal é um dos maiores milagres das Escrituras, pois se fosse possível criar um feto usando apenas o óvulo de uma mulher, essa criança seria uma filha, e não um filho. A partenogênese (desenvolvimento de um ser vivo a partir de um óvulo não fecundado) em humanos, mesmo que fosse biologicamente possível, só poderia resultar geneticamente em uma criança do sexo feminino, uma vez que as mulheres não têm o cromossomo Y necessário para produzir uma criança do sexo masculino.

Apenas um homem pode dar o cromossomo que, junto com o da mulher, torna possível o nascimento de um filho. Este cromossomo, com outros que formaram a pessoa teantrópica de Jesus Cristo (totalmente Deus e totalmente homem), foi dado pelo Espírito Santo.

2o – Ela estava desposada com José. Maria estava comprometida com José. O compromisso durava um ano, e era tão sério como o matrimônio. Só podia ser dissolvido pelo divórcio. Se o homem que estava comprometido com uma mulher morria, perante a lei ela era viúva. Utilizava-se a estranha frase: “uma virgem viúva”. O compromisso criava um vínculo que só a morte podia romper. O noivado era completado depois de negociações realizadas pelo representante do noivo e depois de pago o dote ao pai da moça. Depois de assumido o noivado, o noivo podia reclamar a noiva a qualquer momento. O aspecto legal do casamento estava incluído no compromisso de casamento; o casamento propriamente dito era apenas um reconhecimento do compromisso que já fora estabelecido.

O Senhor havia providenciado a união dos dois porque seu propósito era conceder à virgem um protetor e vigia que haveria de defender o nascimento estranho das fofocas e assegurar à criança o direito à cidadania em Israel. A Bíblia descreve José como um homem justo (Mt 1.19). Observe que o anjo Gabriel apareceu a Maria, mas não a José. Imediatamente depois da visita do anjo a Maria, ela foi ao encontro de sua prima Elisabete, na Judeia, e ali ficou três meses, até o nascimento de João Batista. Ao retornar a Nazaré, sua gravidez era notória. Maria não compartilha com José o fato miraculoso, pelo menos a Bíblia não registra isso, e José sendo justo e não querendo infamá-la, resolveu divorciar-se sem alarde. José prefere sofrer o dano a expor Maria ao opróbrio público. José é identificado como um homem justo não só por não querer expor Maria, mas acima de tudo por dar ouvidos a voz de Deus e recebê-la como esposa (Mt 1.19-25).

O anjo aparece a Maria para lhe dar a notícia do nascimento de João e lhe dizer que ela ficaria grávida através da ação do Espírito; mas se observar nunca mais nos é dito que o anjo tornou lhe aparecer. Dali em diante o Senhor se revela somente a José (Mt 1.20; Mt 2.13,19-23).

José é um grande exemplo para todos nós, pois no momento em que ouviu a palavra do Senhor que lhe revelada a respeito da situação de Maria, imediatamente obedeceu ao Senhor e recebeu Maria por esposa. Ele creu e obedeceu! Diferentemente de alguns que até creem, mas não põe em prática a Palavra de Deus.

3o – Deus escolhe os desprezados deste mundo para manifestar a sua graça (1Co 1.25-31). O Senhor escolhe pessoas desprezadas e não as que querem receber honras. Ele escolhe as que nada são para confundir as que pensam que são. O precursor de Salvador era filho de sacerdotes, mas nunca exerceu o sacerdócio. O Rei dos reis e Senhor dos senhores nasce em uma família pobre, num lugarejo desconhecido e tem como profissão ser carpinteiro.

No mundo greco-romano as mulheres não tinham nenhum valor. Entre os judeus as mulheres eram bem menos desprezadas, mas não recebiam devidas horas que só passou a existir depois da vinda de Cristo. Agora observe que a proclamação da maravilhosa origem de Cristo da “virgem” já é profetizada no paraíso em Gn 3.15. Essa promessa, que fala da semente da mulher, e não da semente do homem, exclui o homem expressamente dessa geração. Nas genealogias do AT os israelitas se apegavam com tanta intensidade à ascendência masculina que, com exceção dessa promessa (Gn 3.15), em lugar algum se fala entre eles de outra coisa que não da semente do homem.

Uma leitura mais detalhada no Evangelho de Lucas podemos observar alguns detalhes:

1oO Evangelho dos gentios – É evidente que Lucas escreveu principalmente para os gentios. Teófilo era um gentio, como o autor, e não há no Evangelho nada que um gentio não possa captar ou compreender.

2o – O Evangelho das mulheres – O lugar das mulheres na Palestina era baixo. Na oração matinal judaica o homem agradece a Deus por não tê-lo feito “gentio, escravo ou mulher”. Mas Lucas em seu Evangelho dá um lugar muito especial à mulher. O relato do nascimento é dado do ponto de vista de Maria.

3o – O evangelho universal – Mas a característica mais proeminente de Lucas é que seu evangelho é universal. Caem todas as barreiras; Jesus é para todos os homens sem distinção.

2 – MARIA NÃO ACOLHE A MENSAGEM DE DEUS COM INCREDULIDADE (Lc 1.28-30).

Maria, diferente de Zacarias, não acolhe o mensageiro divino com incredulidade, e sim com fé. No caso de Zacarias, ele ouviu a promessa de que sua esposa, a idosa Isabel (Elisabete), lhe daria à luz o “precursor” do Messias, e ele duvidou. Maria, no entanto, ouviu a mais estranha mensagem, de que ela daria à luz o próprio Messias, o “Filho de Deus”, mesmo virgem, e – estava pronta para crer! O sacerdote precisa carregar a mensagem celestial mudo para sua casa, e somente depois que seu filho nasce ele reencontra a fala. Maria, por sua vez, está imediatamente repleta de bendita alegria e se apressa para ter com Isabel, a fim de anunciar sua felicidade com louvor e gratidão.

Esse é o contraste entre a velha e a nova aliança. Observamos, que não deixa de ocorrer a mais íntima relação de parentesco entre a velha e a nova alianças. Ambas as proclamações são trazidas pelo mesmo anjo! Na segunda proclamação o anjo até mesmo aponta para a primeira. Um é filho tardio do idoso casal de sacerdotes, que já ultrapassou “a sua época”, o outro é o primogênito de uma virgem. O nascido tardio é enchido do Espírito Santo no ventre materno, o segundo é gerado e nascido pela sobrepujante atuação de Deus na virgem pelo poder do Espírito Santo.

A mensagem do anjo a Maria nos traz algumas lições importantes:

1o – O anjo honra Maria em sua saudação (Lc 1.28). Maria deve ser honrada por todos nós. Em se tratando de Maria, a tendência das pessoas é cair em um de dois extremos. Ou a exaltam acima de Jesus (Lc 1.32), ou a ignoram e não lhe dão a consideração que merece (Lc 1.48). Maria era cheia do Espírito Santo, Elisabete a chamou de “a mãe do Senhor” (Lc 1.43), o que é motivo suficiente para honrá-la. Honrar não é adorar. Maria, podemos definir como um porta-joias, ela não era a joia. A joia de grande valor foi gerado em seu ventre, Jesus Cristo, o nosso Salvador. Maria seria a mãe de Jesus homem e não de Jesus Deus, por isso que é errado chamá-la de “mãe de Deus”, como fazem os católicos. A saudação do anjo Gabriel descrevia o seu caráter. O Senhor olhou dos altos céus e escolheu essa jovem, pois ela era a pessoa certa para ser a mãe do Salvador. Ela temia ao Senhor. Era humilde.

Maria é um dos grandes exemplos de fidelidade, coragem e intrepidez encontrados em toda a Bíblia. Ela abriu mão de seu casamento, de sua honra, de sua reputação e de sua vida por amor a Deus e a Sua Palavra. Ela creu no que o anjo havia lhe revelado e foi até o fim em seu posicionamento. Isso é um exemplo para todos nós. Por isso devemos honrá-la.

2o – A surpresa de Maria com esta saudação (Lc 1.29). O temor de Maria não é de incredulidade como Zacarias, mas de êxtase diante da revelação. A surpresa de Maria diante de tal saudação revela a sua humildade e honestidade diante de Deus. Por certo, jamais esperou receber favores especiais do céu. Não possuía nada de singular que justificasse tais coisas. Se fosse, de fato, diferente das outras moças judias, como alguns teólogos afirmam, é possível que tivesse dito: “Já era tempo! Estava te esperando!” Mas foi tudo surpresa para ela.

Observe que o texto nos diz que “vendo-o ela, turbou-se muito com essas palavras. Os versículos 29, 34, 37 e 38 expressam os diversos estágios da experiência espiritual de Maria. O versículo 29 nos mostra Maria perturbada, com medo. Espanto diante de tal saudação. Depois no versículo 34 a vemos perplexa, ela perde o medo e dá atenção ao que se está sendo dito. Logo após (v. 37) vemos Maria sendo consolada através das palavras do anjo mostrando para ela que para Deus não há impossível e lhe revela o que Deus havia feito com Isabel. E por fim, no versículo 38 vemos a entrega de Maria a vontade de Deus. Podemos dizer que houve um crescimento espiritual e uma maturidade ímpar no coração de Maria.

No entanto, quão diferente tem sido na vida de muitos jovens em nossas igrejas, isso sem falar de crentes mais velhos também. Na atual igreja, infelizmente, não há maturidade espiritual. A maioria dos crentes são imaturos, inconsequentes, refletem a visão do mundo atual. Se veem vitimadas ou se veem merecedoras de tudo o tempo todo. Pensam que são melhores que as outras pessoas e que Deus tem por obrigação abençoá-las. É uma geração de cristãos que pensam que podem mandar em Deus assim como mandam em seus pais (diferente de Maria e José que se sujeitaram a vontade de Deus). Gente com uma visão distorcida do que é ser cristão, segundo a Bíblia. Mas o mais triste é que tais crentes aprendem e vivem assim por causa de uma liderança que lhes ensina a serem assim. Muitos aprendem a dizer que são príncipes e princesas de Deus; que podem e devem reivindicar as bênçãos; que o Senhor morreu para que elas fossem ricas; tivessem de tudo de bom e do melhor desta terra… Aí quando vem as lutas e as adversidades se desviam se fazendo de vítimas, de pobres coitadas. Essa geração é a da semente lançada entre pedras e espinhos:

A semente que caiu no meio de pedras representa a pessoa que ouve a mensagem a respeito do reino e a aceita imediatamente e com muita alegria. Mas, como não tem raiz, não dura muito tempo. Assim que encontra dificuldades ou que é perseguida por causa da mensagem, abandona a sua fé. A semente que caiu no meio de espinhos representa a pessoa que ouve a mensagem a respeito do reino mas é sufocada pelas preocupações com as coisas desta vida e pela ilusão das riquezas. Essa pessoa não produz nenhum fruto” (Mt 13.20-22).

Esta tem sido uma geração infantilizada, no entanto, o propósito de Deus para os cristãos está em Efésios 4.12-14: “…com o propósito de aperfeiçoar os santos para a obra do ministério, para que o Corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da estatura da plenitude de Cristo. O objetivo é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para o outro pelas ondas teológicas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela malícia de certas pessoas que induzem os incautos ao erro”.

3 – O ANJO DESCREVE A CRIANÇA QUE SERÁ GERADA EM SEU VENTRE (Lc 1.30-33).

O anjo diz para Maria que ela achou graça diante de Deus, isso quer dizer que ela alcançou um favor especial que Deus está lhe proporcionando. Não há nada de especial nela no sentido de que ela alcançou essa graça por méritos próprios. Ela era uma crente fiel, mas não santa sem pecados como muitos afirmam. Buscando acalmá-la, Gabriel disse para a jovem assustada, “Não tenhas medo, Maria”. Sua explicação, pois achaste graça diante de Deus, assegurou a Maria que ela não tinha nada a temer; Gabriel tinha chegado a ela com uma mensagem de bênção, não de julgamento.

A partir daquela saudação ele passa descrever porque veio até ela. Ele lhe diz que ela seria a mãe do Salvador, lhe diz qual será o seu nome e passa descrevê-lo. O anjo passa a detalhar para Maria as características singulares de seu filho.

1o – Ele é o salvador do mundo (Lc 1.31). Seu nome será Jesus, pois ele será o salvador do seu povo (Mt 1.21). Assim como Josué levou o seu povo para possuir a terra prometida, assim será o Nosso Senhor irá nos levar para um novo céu e uma nova terra. Tanto que Josué e Jesus são o mesmo nome. Um em hebraico e outro em grego. O nome de Jesus foi revelado tanto a Maria quanto a José (Mt 1.21).

2o – Ele será grandemente exaltado (Lc 1.32). João Batista seria grande diante do Senhor (Lc 1.15), mas Jesus é grande de forma incomparável, pois Ele é o Deus encarnado, como lemos em João 1.14: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade”. Como vemos, Jesus é Deus de Deus, Luz de Luz, coigual, nele habita toda plenitude de Deus. Ele é grande em de si mesmo; Sua grandeza é intrínseca à sua própria natureza de Deus, e não é derivado de qualquer fonte fora de si mesmo. Jesus Cristo é “muito acima de todo governo e autoridade, poder e domínio, e de todo nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro” (Ef. 1.21).

Ser grande aos olhos do mundo é ser uma pessoa de destaque, alguém financeiramente bem- sucedida, no entanto, Jesus é chamado de grande, mas ao analisarmos sua vida vemos que Ele não se enquadra nessas qualificações. Ele nasce em uma família pobre, quando nasce é posto em uma manjedoura, vive em uma cidade desconhecida, até aos trinta anos vive no anonimato, quando inicia o seu ministério é perseguido e, por fim, é morto em uma cruz. Pela lógica do mundo, Jesus foi um malsucedido. No entanto, o apóstolo Paulo declara que Jesus, sendo Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus, antes se esvaziou, assumindo a forma de servo, e se humilhou até a morte, e morte de cruz, pelo que Deus Pai o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome (Fl 2.6-11).

3o – Ele é o Filho do Altíssimo (Lc 1.32a, 35). Jesus é o cumprimento profético (Is 7.14 conf. Mt 1.23). Aquele que estava para vir ao mundo era o Filho de Deus. Este seria o Emanuel descrito por Isaías. O Deus Conosco tão aguardado pela nação de Israel. Ele é chamado Filho de Deus porque nasceu de Maria, não porque Ele foi gerado na eternidade como dizia Ário. Ele não é a primeira criação de Deus como dizem alguns. Devemos tomar cuidado para não entrarmos por esse caminho que nos afasta de Deus. Veja o que nos fala Jo 1.1-3: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez”.

Ele foi gerado no ventre de Maria pelo Espírito Santo. De acordo com Mt 1.20 “to gennomenon” é derivado de “gennao”, não “que há de nascer”, mas “que é gerado” (gennao significa gerar). Aquile que está sendo gerado em Maria é chamado o santo, não um ente santo, provavelmente para que entenda que a criança não será primeiramente santificada pela graça, como as pessoas santas do AT e NT. Na verdade ela é, desde o primeiro instante em que é gerada, isto é, aquile que não tem máculas de pecados (Dn 9.24), que não tem pecado.

A encarnação foi o começo de uma nova criação. O Espírito Santo, o agente original da criação, voltaria a se tornar um agente da criação, desta vez no ventre de Maria. Não há a menor sugestão neste texto ou em qualquer outro lugar na Escritura da atividade sexual humana envolvida na concepção do Senhor Jesus Cristo.

4o – Ele é o Rei Eterno (Lc 1.32,33). O Senhor havia feito uma aliança com Davi (2Sm 7) e iria cumpri-la na Pessoa de Jesus. Por isso que Jesus é chamado de Filho de Davi.

Esta criança seria o Deus encarnado, perfeitamente justo em tudo o que Ele pensou, disse e fez. Ele morreria como um sacrifício sem pecado, oferecendo-se como um substituto para os pecadores, oferecendo Sua morte expiatória para salvá-los de seus pecados. Mas isso não é o fim da história. Ele não permaneceria morto, mas subiria para reinar. O ponto culminante da obra de Cristo virá quando o Senhor Deus dá o trono de seu pai Davi; e Ele reinará sobre a casa de Jacó para sempre, e seu reino não terá fim. Como observado acima, o Senhor Jesus Cristo era o legítimo herdeiro do trono de seu pai Davi através de seu pai legal, José. Palavras de Gabriel enfatizam tanto o caráter judaico do reino de Cristo, pois Ele governará sobre a casa de Jacó (Is 65.17-19; Sf 3.11-13; Zc 14.16-21, assim como o resto da humanidade; cf. Dn 7.14, 27), e sua eternidade, desde então. Seu reino não terá fim (Ap 11.15).

Seu reino não é terreno ou político, mas espiritual, um reino da graça e da verdade estabelecida no coração de todos aqueles que têm o Deus de Jacó como refúgio.

A concepção de Cristo no ventre de Maria, como o texto deixa claro, foi obra do Espírito Santo. A Bíblia também nos fala que o novo nascimento é obra da ação do Espírito Santo em nós. A Bíblia nos fala que nós estávamos mortos em delitos e em pecados, mas o Senhor nos deu vida (Ef 2.1-10).

4 – A SOBERANIA DIVINA (Lc 1.36-38).

O nascimento virginal de Jesus Cristo é fundamental para o cristianismo, já que é a única maneira de explicar como ele poderia ser o homem-Deus. Para negar o nascimento virginal, então, é negar a verdade bíblica de que Jesus Cristo é Deus (cf. Jo 1.1; 10:30; 20.28; Rm 9.5; Fp 2.6; Cl 2.9; Tt 2.13; Hb 1.8; 2Pe 1.2; 1Jo 5.20) e homem (cf. Jo 1.14; Rm 1.3; Gl 4.4; Fl 2.7,8; 1Tm 2.5; Hb 2.14; 1Jo 4. 2; 2Jo 7), e afirmar uma outra, um falso Jesus (2Co 11.4). Pois se Jesus teve um pai humano, ele era apenas um homem. E se Ele era apenas um homem, Ele não poderia ser o Salvador. E se Jesus não é o Salvador, não há Evangelho, não há salvação, não há ressurreição, não há esperança para além desta vida. Como Paulo observa:

E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens” (1Co 15.17,19).

Podemos assim “comer e beber, pois amanhã morreremos” (1Co 15.32). As implicações graves de ver Jesus como um mero homem levou Paulo a pronunciar uma maldição sobre aqueles que propagam esta mentira satânica (Gl 1.8,9).

A anjo Gabriel para confirmar que o que havia lhe falado era de fato assim, lhe diz duas coisas:

1o – Que havia outro milagre a caminho (Lc 1.36). O anjo encoraja Maria lhe contando de algo que iria, certamente, alegrar o seu coração. Sua prima que todos conheciam como estéril estava grávida na sua velhice e já estava no seu sexto mês de gravidez. O milagre que ocorreu para Elisabete (Isabel) foi uma gravidez na velhice, e não a concepção virginal de que Maria experimentaria. No entanto, a concepção de Isabel era um sinal de Deus a Maria que ele ainda era capaz de realizar milagres, que Ele poderia fazer o humanamente impossível (cf. Jr 32.17, 27; Mt 19.26.). Deus deu o sinal, não porque Maria duvidava as palavras do anjo, mas para fornecer uma âncora (cf. Hb. 6.19) para a sua fé.

2o – O anjo lhe afirma que para Deus não há impossível (Lc 1.37). O que é impossível para o homem é possível para Deus. As promessas de Deus são fiéis e verdadeiras. Uma coisa a dizer que algo que vai acontecer, outra bem diferente é fazer acontecer. O que Maria ouviu e percebeu era algo humanamente impossível. Portanto, Gabriel lembrou que por causa do poder ilimitado de Deus, nada é impossível para Ele. A prova Gabriel ofereceu, como mencionado acima, foi a concepção de João de Isabel.

3o – Diante de tudo que Maria ouviu ela se submete a vontade de Deus (Lc 1.38). Sua resposta humilde demonstrou submissão voluntária ao que o Senhor estava por realizar em sua vida. Viu-se como nada mais do que a Sua vontade, ela se colocou como uma escrava humilde, e respondeu dizendo: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”. Ela não perguntou sobre José, que, obviamente, saberia que o bebê não era dele. Maria teria, assim, que enfrentar o estigma da maternidade solteira e a aparência de ter adulterado, correndo o risco de punição que era a morte por apedrejamento (Dt 22.13-21; Lv 20.10; cf. Jo 8.3-5). Mas, na humilde, fé obediente Maria voluntariamente confiava em Deus e abriu mão de sua vida, reputação e casamento (cf. Mt 1.19-25).

Dramático encontro de Maria com o anjo Gabriel terminou com este curto, posfácio simples: E o anjo ausentou-se dela. Sua missão cumprida, Gabriel voltou para a presença de Deus. O Deus-homem estava indo para nascer; o Filho unigênito de Deus, Jesus, quem salvará o seu povo dos seus pecados, o divino Redentor, o rei divino que reinará sobre um reino que vai durar para sempre.

CONCLUSÃO

Deus ainda está fazendo seu trabalho hoje, se não for através de milagres visíveis, então espiritualmente através do seu povo que confia nele (Is 26.3; cf. Pv 29.25). Obedecer à Sua Palavra (Sl 119.17, 67, 101; Mt 7.24; Lc 11.28; Tg 1.25), e submeter humildemente como escravos obedientes à Sua vontade (Js 24.24; Sl 119.35; Ec 12.13; Fp 2.12,13).

Quantas pessoas hoje, que se dizem cristãs, estão dispostas a abrir mão de sua vontade para que a vontade de Deus prevaleça em suas vidas?

Bibliografia:

1 – Barclay, William. Comentário do Novo Testamento, Lucas.

2 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, volume 2, Lucas e João. Editora Candeia, São Paulo, SP, 1995.

3 – Davidson, F. O Novo Comentário da Bíblia, volume 2. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1987.


4 – Keener, Craig S. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia, Novo Testamento. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 2017.

5 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus, o homem perfeito. Comentário Expositivo Hagnos. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017.

6 – Lopes, Hernandes Dias. Mateus, Jesus, o Rei dos reis. Comentário Expositivo Hagnos. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2019.

7 – MacArthur, John. Comentário do Novo Testamento, Lucas.

8 – Manual Bíblico SBB. Barueri, SP, 3a edição, 2018.

9 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário. Edições Vida Nova e Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1986.

10 – Rienecker, Fritz. Evangelho de Lucas, Comentário Esperança. Editora Esperança, Curitiba, PR, 2005.

11 – Rienecker, Fritz. Evangelho de Mateus, Comentário Esperança. Editora Esperança, Curitiba, PR, 2017.

sábado, 2 de novembro de 2019

ZACARIAS, UM SACERDOTE INCRÉDULO



Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 1.18-25

INTRODUÇÃO

Após um longo período de esterilidade da parte de Deus em não se comunicar com o Seu povo através de profetas, o Senhor se revela através do anjo Gabriel para anunciar a um sacerdote casado com uma mulher estéril, avançados em idade, que eles teriam um filho. Este menino que estava por nascer exerceria um papel importante nos planos e propósitos de Deus. Isso se verifica nos casos de Isaque, Jacó, Sansão, Samuel, todos eles, fruto de um milagre. O mesmo aconteceu com Zacarias e Isabel. Ambos, pessoas boas (piedosas), de famílias sacerdotais, que sofriam há muito tempo com a dor e o estigma de não terem filhos, apesar de suas orações.

Seria de se imaginar que a presença de um anjo e a proclamação da Palavra de Deus fortaleceriam a fé de Zacarias, mas não foi isso que aconteceu. Em vez de Zacarias ficar feliz com as boas novas, ele fica na dúvida de como aquilo seria possível, já que ele e a sua esposa eram idosos. Por Zacarias ter desacreditado da Palavra de Deus através do Seu mensageiro Gabriel, Zacarias ficou mudo, mas, apesar dessa sua incredulidade, Deus não deixou de realizar o milagre.

Esse ocorrido na vida de Zacarias nos revela três fatos que ocorre conosco também:

1 – ZACARIAS DESACREDITOU DA PALAVRA DE DEUS, DEVIDO AS IMPOSSIBILIDADES HUMANAS (Lc 1.18,19).

Estamos vivendo um período muito complicado na igreja brasileira, enquanto muitas pessoas embarcam no trem da crença em sinais – de todos os tipos, diga-se de passagem –, há um grande número de pessoas que desacreditam deles. Há basicamente dois extremos em nossas igrejas hoje: “Os cessacionistas e os continuístas”. Os que acreditam em dons espirituais ainda hoje e os que desacreditam deles. Os que acreditam que o Senhor opera sinais e maravalhas hoje e os que acham que isso foi sepultado com o último apóstolo.

Eu, particularmente, acredito no agir de Deus hoje. O Deus que agiu no passado é o mesmo Deus que age hoje. Mas desacredito de tudo que dizem ser o agir de Deus em muitos lugares.

A incredulidade de Zacarias nos mostram três coisas básicas:

1oA incredulidade de Zacarias acentua as impossibilidades humanas, em vez de crer na mensagem de Deus. Zacarias desacreditou da mensagem de Deus, pois olhou para o seu estado físico, olhou para o tempo, olhou para a vida dentro da lógica humana. No entanto, quem estava diante de Zacarias era Gabriel é o mensageiro de Deus, aquele que traz boas notícias, o evangelista de Deus, o que edifica.

Observe que as palavras anteriores de Zacarias (“eu sou velho”) contrastam com as palavras do anjo: “Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus”. Zacarias quis dizer em outras palavras: “Eu sou humano, minha mulher é avançada em idade e é estéril” ou seja “é impossível isso acontecer”. Mas Gabriel diz: “Mas eu sou do céu e assisto diante de Deus e para Deus nada é impossível!”.

E para testificar ainda mais que essas palavras eram verdadeiras o anjo diz o seu nome para Zacarias, não foi simplesmente para se identificar, ele quis despertar em Zacarias a confiança e a fé: Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e fui enviado para te falar e de dar essas boas novas”. Quando Zacarias ouviu esse nome é bem provável que ele se lembrou de Daniel quando recebeu a mesma visita do mesmo anjo.

O anjo Gabriel entra em cena na narrativa Bíblia no livro de Daniel, foi ali que ele nos é apresentado pela primeira vez. Num primeiro momento ele apareceu para explicar ao profeta a visão do carneiro e do bode (Dn 8.16). Depois, Gabriel mais uma vez se encontrou com o profeta Daniel para anunciar e interpretar a profecia das 70 semanas (Dn 9.21-27). O objetivo principal dessa profecia foi anunciar a vinda do Messias que se daria depois de quase cinco séculos.

Praticamente 500 anos depois de ter aparecido ao profeta Daniel, o anjo Gabriel foi enviado à cidade de Jerusalém para anunciar o nascimento de João Batista ao sacerdote Zacarias (Lc 1.11-13,19). Nessa mesma época ele também foi até Nazaré na Galileia para anunciar a Maria o nascimento miraculoso de Jesus por obra e graça do Espírito Santo (Lc 1.26-38).

O anjo veio da parte de Deus para mostrar para Zacarias que o que Ele havia pronunciado através de seus profetas estava para se cumprir. Deus, meus irmãos, cumpre o que promete. No tempo certo, na hora certa, com as pessoas certas. Por isso que podemos dizer com toda convicção: “Para Deus não há impossível!”

2o – Deus não está limitado pelas leis da natureza. O que os homens entendem como leis da natureza são, na verdade, as leis de Deus que a natureza precisa obedecer. Por isso que de tempos em tempos o Senhor quebra as suas leis. Olhe, por exemplo, os sinais que o Senhor realizou no Egito através de Moisés. Como Ele abriu o Mar Vermelho. Como Ele abriu o Jordão para Seu povo entrar na terra prometida. Os sinais operados por Ele através de seus profetas Elias e Eliseu. Os milagres que Jesus operou em Seu ministério, isso sem contar os apóstolos também. Mas também entendo, que com o avanço da ciência, principalmente em relação a medicina, muitas doenças foram erradicadas, isso não deixa de ser um grande milagre também. Mas quantas vezes nós nos vemos orando para que o Senhor venha abençoar o médico, a medicação, a equipe médica. E assim por diante! Por mais que creiamos na medicina e em seus avanços, continuamos depositando a nossa real confiança em Deus.

Ainda antes que houvesse dia, eu sou; e ninguém há que possa fazer escapar das minhas mãos; agindo eu, quem o impedirá?” (Is 43.13).

É igual à história de um pastor que esteve pregando sobre Jonas. Ao chegar em casa o filho lhe pergunta se ele acreditava mesmo que um peixe poderia engolir um homem e ficar com ele vivo na barriga três dias e três noites? O pai respondeu, com sabedoria: “Filho, se Deus foi capaz de criar o homem sem ter nada por onde começar, e se Deus também foi capaz de criar os primeiros animais marinhos a partir do nada, você não acha que ele teria poder de fazer um peixe engolir um homem e mantê-lo vivo durante três dias, se ele assim quisesse?” O garoto respondeu: “Bem, se você vai colocar Deus nessa história, aí é diferente!”.

Essa é a questão. Quando Deus entra na história tudo muda. Quando Ele intervém o extraordinário acontece. Seja em qualquer tempo!

3o – Os milagres não são campanha de publicidade. Quando o Senhor envia seu anjo para dar um recado do céu para Zacarias, não o fez em público, mas no privado. Foi dentro do templo, longe dos olhos das pessoas que estavam do lado de fora. Mesmo quando Jesus operava sinais aos olhos de muitas pessoas, não era como campanha publicitária. Quantas vezes o Senhor operava um milagre e dizia para a pessoa não contar para ninguém.


Entenda uma coisa, o milagre tem três objetivos básicos: Ele é para o nosso próprio bem, é para a alegria dos outros e para glória de Deus. Se isso não ocorre há algo errado nesse milagre. Foi assim na vida de Zacarias e Isabel, tem que ser assim em nossas vidas.

O milagre foi muito mais abrangente, abençoou a muitos e glorifica o nome do Senhor até hoje. Por isso que o anjo disse que lhe trazia boas novas – essas “boas novas” não seria somente para Zacarias, mas, também a muito outros, porquanto as boas novas de salvação foi para todos os homens através da mensagem do Evangelho. A palavra Boas Novas vem o nosso vocábulo evangelho.

2 – ZACARIAS RECEBE UM SINAL DE JUÍZO ACOMPANHADO DE MISERICÓRDIA (Lc 1.20-23).

Apesar de Zacarias receber as boas novas do anjo Gabriel, ele desacreditou de como isso seria possível. Como falamos, Zacarias colocou as limitações humanas acima do poder de Deus. Por ter duvidado o Senhor o puniu deixando-o mudo e, provavelmente, sudo também (Lc 1.62).

1o – A dúvida de Zacarias não impediu que bênção prometida chegasse (Lc 1.20). Zacarias ficaria mudo até o dia do nascimento do menino, Deus não anulou a bênção por ele ter duvidado. Isso cai por terra a ideia que muitos pregadores, principalmente os que pregam curas e prosperidade, que dizem que as pessoas não recebem a bênção porque duvidaram. Pegam textos fora de contexto e aplicam para explicar o não recebimento das bênçãos por eles anunciadas. A culpa é sempre da outra pessoa, nunca das mentiras por eles anunciadas.

Esses pregadores pegam o texto de Pedro que duvidou e começou a afundar no mar (Mt 14.25-32). Observe que Pedro começou a afundar, mas foi logo socorrido. O medo tomou o coração de Pedro, mas o Senhor lhe estendeu a mão e o socorreu imediatamente. A única coisa que o Senhor fez foi lhe chamar a atenção por ter duvidado. Mas Pedro não afundou.

Outro exemplo foi o caso de um homem que pediu a Jesus para expulsar o espírito maligno de seu filho (Mc 9.17-27), no entanto o pai do menino pede para ajudá-lo na sua falta de fé. O pai tinha uma fé vacilante, provavelmente por ter tido tantas decepções com promessas de cura do menino e não ter visto nenhum resultado. No entanto, isso não impediu que o Senhor operasse com misericórdia na vida deles. Se depender da nossa fé, falo sem medo de errar, nós não receberíamos nada da parte de Deus. É tudo mediante a graça de Deus. Tudo!

2o – O ficar mudo implicava um juízo divino devido a sua incredulidade (Lc 1.20). Zacarias sofre as consequências da sua incredulidade, em outras palavras, a fé é abençoada, e a incredulidade é julgada. Deus deixou Zacarias mudo (talvez sudo, Lc 1.62) até que a Palavra se cumprisse. Como disse Paulo: “Eu cri; por isso falei” (2Co 4.13). Zacarias não creu e, portanto, não pôde falar. Duvidar que Deus pode fazer alguma coisa que Ele diz que fará é negar de forma prática sua onipotência. Duvidar que Deus não cumprirá completamente alguma de suas promessas é fazê-lo mentiroso.

Quantas pessoas que dizem cristãs, mas duvidam da Palavra de Deus. Desacreditam de milagres hoje. Oram, mas duvidam de que Deus possa ouvi-las. No entanto, creem que podem resolver os seus problemas na sua própria força, depositam a sua fé nos homens, no profissional, na sua intelectualidade. O cristianismo deles os levam a ver Jesus simplesmente como um homem bom, um profeta, um filósofo iluminado. Menos como Jesus realmente é, o Deus Encarnado. O Emanuel. O Deus Conosco. São religiosos, só que depositam sua fé num deus impotente e incapaz de interagir com o ser humano. Esse não é o Jesus que nos é apresentado nas escrituras.

3o – O fato de Zacarias ficar mudo refletia o oposto do ministério de João Batista (Lc 1.21,22; Lc 3.). Entenda uma coisa, quando o sacerdote saia do santuário ele ministrava a bênção sacerdotal sobre o povo (Nm 6.22-26):“O Senhor te abençoe e te guarde; o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti; o Senhor sobre ti levante o seu rosto e te dê a paz”.

No entanto, Zacarias não pôde ministrar essa bênção sobre o povo, isso já era um prenúncio do que estava por vir sobre a nação. A bênção levítica iria se calar para sempre, pois essa bênção era ministrada somente sobre o povo de Israel, mas viria aquele que seria o Sumo Sacerdote de nossas almas, Jesus Cristo, que ministraria a Sua bênção sobre todas as nações da terra. Outro detalhe, Zacarias representava os quatrocentos anos de silêncio enquanto que seu filho seria o retorno da voz de Deus sendo ouvida, até no deserto, que é uma representação dos confins da terra (At 1.8).

Zacarias representava a Lei (tribo de Levi), mas seu filho viria para apontar para outro sacerdote, Jesus Cristo (tribo de Judá). Como lemos em Hebreus 7.11-17:

Se fosse possível alcançar a perfeição por meio do sacerdócio levítico (pois em sua vigência o povo recebeu a lei), por que haveria ainda necessidade de se levantar outro sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque e não de Arão? Pois quando há mudança de sacerdócio, é necessário que haja mudança de lei. Ora, aquele de quem se dizem estas coisas pertencia a outra tribo, da qual ninguém jamais havia servido diante do altar, pois é evidente que o nosso Senhor descende de Judá, tribo da qual Moisés nada fala quanto a sacerdócio. O que acabamos de dizer fica ainda mais claro, quando aparece outro sacerdote semelhante a Melquisedeque, alguém que se tornou sacerdote, não por regras relativas à linhagem, mas segundo o poder de uma vida indestrutível. Pois sobre ele é afirmado: “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque” (NVI).

Quando a voz do que clama no deserto é anunciada, o sacerdócio do AT emudece. Cala-se a bênção levítica quando vem “a descendência em que serão benditas todas as nações da terra” (cf. Gn 12.3).

3 – O OPRÓBRIO DE ISABEL FOI REMOVIDO (Lc 1.23-25).

A palavra profética se cumpriu. Isabel finalmente ficou grávida e ocultou a sua gravidez por cinco meses. Os motivos não são mencionados. É bem provável que ela estivesse querendo uma confirmação, pois, a grávida, geralmente, sente o bebê mexendo pela primeira vez na barriga entre a 16ª e a 20ª semana de gestação, ou seja, no final do 4º mês ou durante o 5º mês de gravidez. Porém, na segunda gravidez, é normal a mãe sentir o bebê mexer mais cedo, entre o final do 3º mês e o início do 4º mês de gestação. É bem provável que seja isso, mas o texto não nos dá o devido motivo, por isso, devemos ser cautelosos para não fazermos especulações desnecessárias aqui, pois onde a palavra de Deus não tem voz, nós não devemos dar ouvidos.

1o – O Senhor cumpre a Sua Palavra (Is 55.10,11). “Porque, assim como desce a chuva e a neve dos céus, e para lá não tornam, mas regam a terra, e a fazem produzir, e brotar, e dar semente ao semeador, e pão ao que come, assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei”.

A expressão “opróbrio” (vergonha, desgraça), que evoca os longos anos de humilhação que a devota israelita experimentara, é explicada pelas palavras do anjo no v. 36: “aquela que diziam ser estéril”. “A estéril” era seu epíteto infame entre as mulheres de sua localidade, mas Deus a contemplara e abençoara. Como já falamos, naquele tempo a esterilidade era vexame e um sinal do juízo divino. Era como se a promessa de Gênesis 2.28 não se realizava sobre a pessoa pôr estar sendo castigada por Deus. Certamente, sendo ela e seu marido pessoas piedosas, muitos questionamentos eram feitos, muitas suspeitas eram levantadas e muitos juízos eram lançados sobre o casal.

Isso é um cuidado que devemos ter muito cuidado em não fazer, julgar sem conhecer os fatos. Não é porque alguém está enfrentando alguma dificuldade que devemos logo questionar a sua fidelidade a Deus. Corremos o risco de sermos como os amigos de Jó que o acusavam de pecado, sendo ele inocente. As bênçãos recebidas ou não recebidas, não são medidor de nossa fidelidade a Deus. É no cadinho que o ouro é purificado.

2o – É da fé, e não da natureza, que resulta um fruto verdadeiramente divino. Felizes de nós quando, por meio da relação viva com Deus, trazemos fruto para Deus! Era isso, pois, que puderam experimentar também os dois idosos, já grisalhos, já no limiar do Novo Testamento. Sua mísera vida na terra, colocada à disposição de Deus, podia gerar frutos para a eternidade em virtude da grande graça de Deus. Seu filho João, pelo qual rogaram a Deus, foi o fruto de sua vida cheia de fé. E João tornou-se frutífero para as gerações futuras, ao abrir espaço para o Senhor. Uma bênção presenteada por Deus, no entanto, somente torna-se bênção real para o povo de Deus e o mundo quando é novamente devolvida a Deus; quando o fruto continua sendo um sacrifício oculto, oferecido tão-somente a Deus.

Tudo que Deus nos dá deve-se entender que é para abençoar outros também. Não podemos ser como o Mar Morto que recebe água doce, mas por não ter saída fica salgado e infrutífero. As bênçãos recebidas devem ser para gerar mais bênçãos sobre nós e sobre outras pessoas.

CONCLUSÃO

Vimos nesse texto que as promessas de Deus se cumprem em nossas vidas, não no nosso tempo, mas no Seu tempo e do Seu modo; não quando determinamos, como temos visto alguns por aí fazendo. Mas também não nos cabe duvidar do poder de Deus para realizar em nossas vidas aquilo que queremos, ainda que esteja demorando. Muitas vezes, a demora de Deus é para que possamos amadurecer na fé e não servi-lo pelo que ele dá e faz.

Aquela que era conhecida como estéril se tornou mãe quando todas as possibilidades já se haviam esgotado, isso para provar que para Deus nada é impossível. O Senhor havia profetizado que o precursor do messias viria e estava agora cumprindo o que havia dito. João Batista era mais que um menino, filho de pais idosos. Ele era mais que um milagre. João era a “a voz que clama no deserto”, o profeta que levaria muitos a reconhecer Jesus como o salvador do mundo. Por isso, se o que você tem buscado da parte de Deus não tiver um propósito maior em sua vida, se não passa de mero desejo egoísta, você não entendeu o que significa as bênçãos de Deus em sua vida.

Pense nisso!

Bibliografia:

1 – Barclay, William. Comentário do Novo Testamento, Lucas.
2 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, volume 2, Lucas e João. Editora Candeia, São Paulo, SP, 1995.
3 – Davidson, F. O Novo Comentário da Bíblia, volume 2. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1987.
4 – Keener, Craig S. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia, Novo Testamento. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 2017.
5 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus, o homem perfeito. Comentário Expositivo Hagnos. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017.
6 – MacArthur, John. Comentário do Novo Testamento, Lucas.
7 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário. Edições Vida Nova e Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1986.
8 – Rienecker, Fritz. Evangelho de Lucas, Comentário Esperança. Editora Esperança, Curitiba, PR, 2005