sábado, 20 de maio de 2017

JEROBOÃO E O ALTAR DA IDOLATRIA


Por Pr. Silas Figueira

Texto Base: 1 Reis 13.1-10

INTRODUÇÃO

A história de Jeroboão é um exemplo de como uma pessoa que tem as promessas de Deus para sua vida, mas devido à falta de fé e por medo, entra por caminhos errados e se afasta completamente de Deus. É a história de um homem que tinha tudo para dar certo, mas fracassou em todas as áreas de sua vida. Assim como Davi entrou para a história como um modelo de integridade para com Deus, Jeroboão era o modelo do monarca ímpio. Essa lembrança constante de seu pecado indica a maneira como o Senhor tratou a idolatria durante a história de Israel (1Rs 16.26; 2Rs 14.24).

Este homem era servo de Salomão. Era um homem que exercia entre o povo uma grande liderança. Ele era da tribo de Efraim. Salomão o colocou como supervisor de todo o trabalho forçado.

Salomão, o terceiro rei de Judá, pecou tanto contra Deus que o Senhor decidiu tirar a maior parte do reino das mãos dos descendentes dele. Após a morte deste filho de Davi, o reino se dividiu em duas partes. A parte do sul, conhecida como Judá, ficou sob o domínio dos descendentes de Davi. A maior parte, composta das dez tribos do norte, foi dada por Deus a Jeroboão, filho de Nebate, um efraimita já provado como administrador hábil. Por ser um excelente líder e por estar o reino de Salomão em declínio por causa da sua idolatria (1Rs 11.9-13); o Senhor levantou contra Salomão vários inimigos, dentre eles o próprio Jeroboão (1Rs 11.26).

O profeta Aías procurou Jeroboão com um recado do Senhor lhe dizendo que o reino de Israel seria divido após a morte de Salomão e que ele seria rei de dez tribos e que ele seria bem sucedido, mas para isso teria que seguir ao Senhor (1Rs 11.29-40).

Quando Salomão morre e seu filho Roboão passa a reinar, Jeroboão retorna do Egito e vê se cumprir a profecia que o Senhor lhe havia falado (1Rs 12.16-20), pois Roboão, em sua arrogância, não deu ouvidos ao conselho dos mais velhos, mas seguiu o conselho dos jovens. E o conselho deles era para que se tornasse pior que seu pai.

Quando o profeta Aías transmitiu a Jeroboão a mensagem de Deus garantindo-lhe o reino de Israel (1Rs 11.28-39), o profeta deixou claro que a divisão política não dava espaço a um afastamento religioso. O lugar de culto a Deus continuaria sendo em Jerusalém. No entanto, por não confiar nas promessas de Deus, ele estabeleceu o seu próprio culto e sacerdotes para evitar que o povo que estava sob sua liderança fosse adorar em Jerusalém (1Rs 12.25-33).

Jeroboão conduziu o povo a uma falsa religião. Essa religião que inventou era confortável, conveniente e barata, mas não era autorizada pelo Senhor. Ia contra a vontade de Deus revelada nas Escrituras e tinha como propósito a unificação do reino de Jeroboão e não a salvação do povo e a glória de Deus. Era uma religião feita por mãos humanas, e Deus a rejeitou inteiramente.

Devido a isso, o Senhor envia a Betel um profeta para profetizar contra Jeroboão e seu altar idólatra. Por isso, eu quero pensar com você sobre a vida de Jeroboão e o seu altar e quais as lições que podemos aprender com isto.

Em primeiro lugar, quando levantamos nossos próprios altares deixamos Deus de lado e criamos os nossos próprios deuses para adorar (1Rs 12.28-30).

Em Êxodo 1-6 nos diz:

“Então, falou Deus todas estas palavras: Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o SENHOR, teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos”.

A adoração verdadeira envolvia a arca da aliança, o altar dos holocaustos, o templo em Jerusalém, mas não havia imagem de Deus, pois como disse o Senhor Jesus a mulher samaritana em João 4.24: “Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade”. A religião inovadora de Jeroboão tinha outros deuses – bezerros de ouro e altares em Dã e Betel. Ele tinha um certo apoio histórico, pois o primeiro sumo sacerdote de Israel (Arão) havia feito um bezerro de ouro (Êxodo 32.1-29). Precedente histórico, sem a aprovação divina, não serve para guiar o nosso caminho.

a) Vivemos hoje numa era em que a “religião inventada” é popular, aprovada e aceita.

b) Os líderes cegos que conduzem outros cegos asseveram que vivemos em uma “sociedade pluralista” e que ninguém tem o direito de afirmar que apenas uma revelação é verdadeira e que apenas um caminho para salvação é correto.

Esse tipo de mensagem agrada ao ouvido de muitos, mas não é a verdadeira mensagem. A Verdade é imutável. A Bíblia é a nossa regra de fé e prática, por isso não podemos relativá-la como muitos tem feito. Se negligenciarmos o que a Palavra de Deus nos fala, então não precisamos dela. 

A sociedade pode ser pluralista, mas a Palavra de Deus não. A sociedade pode pensar o que quiser, mas nós somos guiados pela Bíblia e nela que encontramos a orientação de como deve ser a nossa adoração. Se a negligenciarmos deixaremos o caminho trassado pelo Senhor e passamos a andar por atalhos que nos afastarão cada vez mais da sua presença. Como nos fala o autor de Hebreus:

"Portanto, convém-nos atentar com mais diligência para as coisas que já temos ouvido, para que em tempo algum nos desviemos delas. Porque, se a palavra falada pelos anjos permaneceu firme, e toda a transgressão e desobediência recebeu a justa retribuição, como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram" (Hb 2.1-3).

Em segundo lugar, quando levantamos os nossos próprios altares criamos as nossas próprias regras, nossas próprias leis espirituais e nossos próprios sacerdotes (1Rs 12.31)

A lei dada por meio de Moisés foi clara. Os sacerdotes de Israel seriam levitas. Jeroboão não respeitou esta limitação e ordenou pessoas de outras tribos como sacerdotes. Quem tivesse dinheiro para fazer os sacrifícios que o rei pediu poderia ser sacerdote (2Cr 13.9).

“Não lançastes fora os sacerdotes do SENHOR, os filhos de Arão e os levitas, e não fizestes para vós outros sacerdotes, como as gentes das outras terras? Qualquer que vem a consagrar-se com um novilho e sete carneiros logo se faz sacerdote daqueles que não são deuses”.

Quando Deus dá qualificações para posições de serviço no reino dEle, devemos respeitar todas as condições por Ele impostas. Apesar de tais orientações na Palavra, quantos homens hoje continuam agindo como pastores, mesmo não tendo todas as qualificações que Deus exige deles? Quem tiver dinheiro para pagar mensalidades de algum curso de teologia se torna pastor, ignorando e desrespeitando as qualificações bíblicas (1 Timóteo 3.1-7 e Tito 1.5-9).

Pastores e “profetas” autodesignados criam a própria teologia e a passam adiante, como se fosse a verdade. Não se interessam nem um pouco no que as Escrituras têm a dizer; antes, colocam as suas “palavras fictícias” no lugar da Palavra imutável e inspirada por Deus, levando muita gente crédula a ser condenada (2Pe 2.1-3):

"E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição. E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade. E por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas; sobre os quais já de largo tempo não será tardia a sentença, e a sua perdição não dormita".

Esses falsos líderes abandonaram as Escrituras e inventaram seus próprios manuais de regras e condutas.

E a impressão que temos é que quanto mais longe das Escrituras mais o povo gosta. Quanto mais longe da verdade mais as pessoas se interessam. Só há um detalhe que essas pessoas não sabem: "A Verdade liberta". 

A Verdade traz o entendimento que nos leva a compreender a mensagem da cruz e, através desse entendimento, alcançamos a salvação de nossas almas.   

Em terceiro lugar, quando levantamos nossos próprios altares fazemos o que bem entendemos, pois não temos a quem prestar contas (1Rs 13.1)

Jeroboão criou uma religião que lhe permitia ser rei e sacerdote, ou seja, ele fazia o que bem entendesse.

Jeremias e Ezequiel foram sacerdotes que foram chamados para serem profetas, mas a lei mosaica não permitia que reis servissem como sacerdotes. No livro de  2Cr 26.16-23, nos diz que o rei Uzias quis oferecer incenso sobre o altar e por causa desta transgressão ele ficou leproso.

Hoje temos vivido um cristianismo do “tudo pode”, “não tem nada a ver”, “qual o problema?”. Temos visto por aí um evangelho sem compromisso com Deus, um evangelho sem cruz, um evangelho sem Deus. Entenda uma coisa: “Só houve Pentecostes porque houve cruz. Sem cruz não há Pentecostes”.

Leia o que o Senhor nos diz em Lucas 14.25-33:

"Grandes multidões o acompanhavam, e ele, voltando-se, lhes disse: Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. E qualquer que não tomar a sua cruz e vier após mim não pode ser meu discípulo. Pois qual de vós, pretendendo construir uma torre, não se assenta primeiro para calcular a despesa e verificar se tem os meios para a concluir? Para não suceder que, tendo lançado os alicerces e não a podendo acabar, todos os que a virem zombem dele, dizendo: Este homem começou a construir e não pôde acabar. Ou qual é o rei que, indo para combater outro rei, não se assenta primeiro para calcular se com dez mil homens poderá enfrentar o que vem contra ele com vinte mil? Caso contrário, estando o outro ainda longe, envia-lhe uma embaixada, pedindo condições de paz. Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo".

A. W. Tozer escreveu:

A cruz é a coisa mais revolucionária que já apareceu entre os homens. A cruz dos tempos romanos não sabia o que era fazer acordos; nunca fez concessões. Ela vencia todas as suas discussões matando seu oponente e silenciando-o para sempre. Não poupou a Cristo, mas assassinou-o violentamente como fez aos demais. Ele estava vivo quando o penduraram naquela cruz e completamente morto quando o retiraram dali, seis horas depois. [...] Com perfeito conhecimento de tudo isso, Cristo disse: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me”. Então, a cruz não somente trouxe um fim à vida de Cristo, mas também à primeira vida, a vida velha, de cada um de seus verdadeiros seguidores. A cruz destrói o padrão antigo, o padrão de Adão, na vida do crente e o traz a um fim. Então, Deus que ressuscitou Cristo dentre os mortos ressuscita o crente, e uma nova vida começa.

Isso, e nada menos, é o verdadeiro cristianismo.

Devemos fazer algo em relação à cruz. E só podemos fazer um de duas coisas – fugir da cruz ou morrer nela.

Em quarto lugar, quando levantamos os nossos próprios altares e oferecemos nele os nossos próprios sacrifícios o Senhor não se dirige mais a nós (1Rs 13.2)

O profeta não se dirige a Jeroboão, mas ao altar onde ele está sacrificando, pois o coração desse ímpio rei estava cheio de si e ocupado com seus próprios planos e não tinha tempo de ouvir Deus.

Observe que sua mão secou quando ameaçou o profeta e depois foi restaurada. Ele vivenciou o milagre, mas não se voltou para Deus. O coração de Jeroboão estava completamente fechado para Deus. 

O altar de Jeroboão era uma profanação ao altar do templo em Jerusalém. No altar desse rei o que era oferecido não era aceito por Deus, era feito para engrandecimento e fortalecimento do reinado e não para Deus. Não era um lugar de quebrantamento pelo pecado, mas um lugar de engrandecimento de si mesmo.

Há muitos altares em nossas igrejas hoje parecidos com o altar de Jeroboão. Vivemos um tempo secularizado em que os altares das igrejas se parecem mais com palcos de shows do que lugar de adoração. Devido a esta preocupação, precisamos entender qual é o propósito do altar que temos em nossos templos.

Por isso eu pergunto: “O que é um altar?”

1- O Altar é um LUGAR: Malaquias 1.17 “Ofereceis sobre o meu altar pão imundo e ainda perguntais: Em que te havemos profanado? Nisto, que pensais: A mesa do SENHOR é desprezível”.

O profeta Malaquias questiona porque o povo profanava o altar oferecendo pão imundo, ou seja, entregando ofertas indesejáveis ao Senhor e desprezando o lugar santo. Isso ainda acontece quando as pessoas fazem do altar um lugar comum onde se apresentam não a Deus, mas a um público.

O altar é um local, contudo deve ser um lugar santificado e “ungirás também o altar do holocausto e todos os seus utensílios e consagrarás o altar; e o altar se tornará santíssimo” (Êxodo 40.10). Não podemos usar um lugar consagrado a Deus para dar glória aos homens (João 5.41). No Antigo Testamento, para subir ao altar era preciso reverência com vestes apropriadas “nem subirás por degrau ao meu altar, para que a tua nudez não seja ali exposta” (Êxodo 20.26). Hoje estamos no tempo da Graça e dispensação do Espírito Santo, mas não podemos deixar de respeitar o lugar de adoração.
                               
2- O Altar é uma POSIÇÃO: Malaquias 1.10 “Tomara houvesse entre vós quem feche as portas, para que não acendêsseis, debalde, o fogo do meu altar. Eu não tenho prazer em vós, diz o SENHOR dos Exércitos, nem aceitarei da vossa mão a oferta”.

Malaquias também lamenta que estavam oferecendo fogo em vão no altar do Senhor e deseja que as portas fossem fechadas para que isso não acontecesse mais. Afirma que o Senhor Deus não tem alegria em receber sacrifícios falsos e não aceita um culto religioso apenas sem sentido espiritual.
O altar, além de ser um lugar de adoração é uma posição, ou seja, uma postura que precisa ser tomada pelo adorador. Para estar no lugar de adoração é preciso ser um adorador.
Estar diante do Altar da igreja exige muito respeito e temor porque “o nosso Deus é fogo consumidor” (Hebreus 12.29) e “tudo, porém, seja feito com decência e ordem” (I Coríntios 14.40). Embora hoje estejamos no tempo da graça e temos alegria e liberdade pelo Espírito Santo, não podemos negligenciar a seriedade do altar do Senhor.

3- O altar é a VIDA: Malaquias 2.13 “Ainda fazeis isto: cobris o altar do SENHOR de lágrimas, de choro e de gemidos, de sorte que ele já não olha para a oferta, nem a aceita com prazer da vossa mão”.

Malaquias repreende o povo porque ofereciam ofertas no altar e não tinham prazer ao entregar seu sacrifício. A tristeza do povo não era de arrependimento dos seus pecados.

O Altar é a vida de cada cristão porque “o corpo é santuário do Espírito Santo, que está em vós” (I Coríntios 6.19). Então a pessoa que confessa a Jesus deve viver uma vida diante do Altar do Senhor em seu coração.

Spurgeon aconselhava seus alunos no seminário a nunca se descuidarem da prática da oração como parte integrante na vida do Ministro da Palavra. Declarou que o pregador precisa se distinguir acima de todas as demais pessoas como um homem de oração. "Ele ora como um cristão comum, ou de outra forma seria um hipócrita. Ora mais que os cristãos comuns ou de outra forma estaria desqualificado para o cargo que assumiu".

CONCLUSÃO

Essa realidade espiritual que ocorreu na vida de Jeroboão é uma triste realidade que temos visto em nossos dias. Temos que estar atentos para não cairmos no erro de Jeroboão, que duvidou da Palavra de Deus e se enredou por outro caminho, criando o seu próprio sistema de culto, sua própria religião.

Cada crente deve ter consciência de viver no Altar do Senhor, colocando-se em oração constante diante de Deus (I Tessalonicenses 5.17) sabendo que Jesus morreu pelos seus pecados e que o Espírito Santo intercede por nós.

Nossas vidas devem ser oferecidas a Deus “como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus que o vosso culto racional” (Romanos 12.1) ao negar-se a si mesmo e tomar sua cruz como Jesus ordenou (Lucas 9.23).  Em Apocalipse o altar é o lugar onde repousam as almas dos mártires (Apocalipse 6.9) que se sacrificaram por amor a Deus.


O altar da adoração é o coração do adorador. 

Pense Nisso!

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Existe abuso espiritual? Pastor diz que sim e mostra sete formas usadas por líderes cristãos


Por Leiliane Roberta Lopes

Ronald M. Enroth, pastor americano, resolveu acompanhar algumas pessoas que se desligaram da Jesus People USA, um grupo religioso dos Estados Unidos, e coletou informações sobre como os pastores faziam pressão psicológica para impedir que o povo deixasse sua congregação.

As atitudes usadas por eles foram marcadas como “abuso espiritual” e foram relatadas em um livro assinado por Ronald que também é sociólogo de religião. Apesar de ser uma pesquisa realizada nos Estados Unidos percebe-se que muitas dessas atitudes são aplicadas nas igrejas brasileiras para impedir que os membros se desliguem e partam para outros ministérios.

O pastor Enrolth listou no livro “Churches That Abuse”, lançado em 1991, sete formas de abuso espiritual praticadas por igrejas evangélicas. Entre elas a distorção da Palavra, a criação de uma liderança autocrática, o sentimento de superioridade em relação ao outros grupos religiosos e o elitismo espiritual.

O pastor Serol, da Igreja Batista da Palavra Viva resumiu As Sete Regas do Abuso Espiritual em seu blog.

Confira:

Distorção da Escritura

Para defender os abusos usam de doutrinas do tipo “cobertura espiritual”, distorcem o sentido bíblico da autoridade e submissão, etc. Encontram justificativas para qualquer coisa. Estes grupos geralmente são fundamentalistas e superficiais em seu conhecimento bíblico. O que o líder ensina é aceito sem muito questionamento e nem é verificado nas Escrituras se as coisas são mesmo assim, ao contrario do bom exemplo dos bereanos que examinavam tudo o que Paulo lhes dizia.

Liderança autocrática

Discordar do líder é discordar de Deus. É pregado que devemos obedecer ao discipulador, mesmo que este esteja errado. Um dos “homens de Deus” de uma igreja diz que se jogaria na frente de um trem caso o “Líder” ordenasse, pois Deus faria um milagre para salvá-lo ou a hora dele tinha chegado. A hierarquia é em forma de pirâmide (às vezes citam o salmo 133 como base), e geralmente bastante rígida.

Em muitos casos não é permitido chamar alguém com cargo importante pelo nome, (seria uma desonra) mas sim pelo cargo que ocupa, como por exemplo “pastor Fulano”, “bispo X”, “apostolo Y”, etc. Alguns afirmam crer em “teocracia” e se inspiram nos líderes do Antigo Testamento. Dizem que democracia é do demônio, até no nome.

Isolacionismo

O grupo possui um sentimento de superioridade. Acredita que possui a melhor revelação de Deus, a melhor visão, a melhor estratégia. Eu percebi que a relação com outros ministérios se da com o objetivo de divulgar a marca (nome da denominação), para levar avivamento para os outros ou para arranjar publico para eventos. O relacionamento com outros ministérios é desencorajado quando não proibido. Em alguns grupos no louvor são tocadas apenas músicas do próprio ministério.

Elitismo espiritual

É passada a ideia de que quanto maior o nível que uma pessoa se encontra na hierarquia da denominação, mais esta pessoa é espiritual, tem maior intimidade com Deus, conhece mais a Bíblia, e até que possui mais poder espiritual (unção). Isso leva à busca por cargos. Quem esta em maior nível pode mandar nos que estão abaixo. Em algumas igrejas o número de discípulos ou de células é indicativo de espiritualidade. Em algumas igrejas existem camisetas para diferenciar aqueles que são discípulos do pastor. Quanto maior o serviço demonstrado à denominação, ou quanto maior a bajulação, mais rápida é a subida na hierarquia.

Controle da vida

Quando os líderes, especialmente em grupos com discipulado, se metem em áreas particulares da vida das pessoas. Controlam com quem podem namorar, se podem ou não ir para a praia, se devem ou não se mudar, roupas que podem vestir, etc. É controlada inclusive a presença nos cultos. Faltar em algum evento pro motivos profissionais ou familiares é um pecado grave. Um pastor, discípulo direto do líder de uma denominação, chegou a oferecer atestados médicos falsos para que as pessoas pudessem participar de um evento, e meu amigo perdeu o emprego por discordar dessa imoralidade.

Rejeição de discordâncias

Não existe espaço para o debate teológico. A interpretação seguida é a dos lideres. É praticamente a doutrina da infalibilidade papal. Qualquer critica é sinônimo de rebeldia, insubmissão, etc. Este é considerado um dos pecados mais graves. Outros pecados morais não recebem tal tratamento. Eu mesmo precisei ouvir xingamentos por mais de duas horas por discordar de posicionamentos políticos da denominação na qual congregava. Quem pensa diferente é convidado a se retirar. As denominações publicam as posições oficiais, que são consideradas, obviamente, as mais fiéis ao original. Os dogmas são sagrados.

Saída traumática

Quem se desliga de um grupo destes geralmente sofre com acusações de rebeldia, de falta de visão, egoismo, preguiça, comodismo, etc. Os que permanecem no grupo são instruídos a evitar influências dos rebeldes, que são desmoralizados.

Os desligamentos são tratados como uma limpeza que Deus fez, para provar quem é fiel ao sistema. Não compreendem como alguém pode decidir se desligar de algo que consideram ser visão de Deus. Assim, se desligar de um grupo destes é equivalente a se rebelar contra o chamado de Deus. Muitas vezes relacionamentos são cortados e até familias são prejudicadas apenas pelo fato de alguém não querer mais fazer parte do mesmo grupo ditatorial.

Fonte: Gospel Prime

terça-feira, 16 de maio de 2017

IRMÃOS, NÓS NÃO SOMOS PROFISSIONAIS


Por John Piper

Nós, pastores, estamos sendo massacrados pela profissionalização do ministério pastoral. A mentalidade do profissional não é a mentalidade do profeta. Não é a mentalidade do escravo de Cristo. O profissionalismo não tem nada que ver com a essência e o cerne do ministério cristão. Quanto mais profissionais desejamos ser, mais morte espiritual deixaremos em nosso rastro. Pois não existe a versão profissional do “tornar-se como criança” (Mt 18.3); não existe compassividade profissional (Ef 4.32); não existem anseios profissionais por Deus (Sl 42.1).

No entanto, nossa primeira atividade deve ser ansiar por Deus em oração. Nossa atividade é chorar por nossos pecados (Tg 4.9). Por acaso existe choro profissional? Nossa atividade é prosseguir para o alvo para ganhar a santidade de Cristo e o prêmio do chamado soberano de Deus (Fp 3.14); esmurrar o corpo e o reduzir à escravidão para não sermos desqualificados (1Co 9.27); negarmos a nós mesmos e tomarmos a cruz ensanguentada todos os dias (Lc 9.23). Como é possível carregar uma cruz de modo profissional? Nós fomos crucificados com Cristo e vivemos pela fé naquele que nos amou e a si mesmo se deu por nós (Gl 2.20). O que seria, então, a fé profissional?

Não devemos nos encher de vinho, mas do Espírito (Ef 5.18). Nós somos os inebriados de Deus, loucos por Cristo. Como é possível se embriagar com Jesus profissionalmente? Então, maravilha das maravilhas, foi-nos concedido transportar o tesouro do evangelho em vasos de barro para que a excelência do poder seja de Deus (2Co 4.7). Existe um modo de ser um vaso de barro profissional?

De todos os lados somos pressionados, mas não desanimados; ficamos perplexos, mas não desesperados; somos perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não destruídos. Trazemos sempreem nosso corpo o morrer de Jesus (profissionalmente?), para que a vida de Jesus também seja revelada (de forma profissional?) em nosso corpo (2Co 4.8-11).

Porque me parece que Deus nos colocou a nós, pregadores, em último lugar no mundo. Somos loucos por causa de Cristo, mas os profissionais são sensatos; somos fracos, os profissionais, porém, são fortes. Eles são sempre honrados; mas ninguém nos respeita. Não tentamos garantir um estilo de vida profissional; antes, passamos fome, sede, nudez e falta de morada. Quando somos amaldiçoados, abençoamos; quando perseguidos, suportamos; quando caluniados, respondemos com amabilidade. Até agora nos tornamos a escória da terra, o lixo do mundo (1Co 4.9-13). Temos mesmo?

Irmãos, nós não somos profissionais! Somos rejeitados. Somos estrangeiros e peregrinos no mundo (1Pe 2.11). A nossa cidadania está nos céus, de onde esperamos ansiosamente o Salvador (Fp 3.20). Não se pode profissionalizar o amor por seu aparecimento sem matá-lo. E isso significa morrer.

Os objetivos de nosso ministério são eternos e espirituais. Eles não são compartilhados por nenhuma profissão. E é precisamente pela inabilidade de percebê-los que estamos morrendo.

O pregador que concede vida é um homem de Deus, cujo coração está sempre sedento de Deus, cuja alma está sempre seguindo com afinco a Deus; cujos olhos estão fixos em Deus e em quem, pelo poder do Espírito de Deus, a carne e o mundo têm sido crucificados e seu ministério se apresenta como a corrente abundante de um rio doador de vida.1

Decididamente, não fazemos parte de um grupo social com os mesmos objetivos dos outros profissionais. Os nossos alvos são um escândalo, são loucura (1Co 1.23). A profissionalização do ministério é uma constante ameaça à ofensa do evangelho. É uma ameaça à natureza profundamente espiritual do nosso trabalho. E tenho visto com frequência: que o amor do profissionalismo (em paridade com os profissionais do mundo) mata a crença do homem de ter sido enviado por Deus para salvar as pessoas do inferno e para torná-las glorificadores de Cristo, estrangeiros espirituais no mundo.

O mundo estabelece a agenda do homem profissional; Deus estabelece a agenda do homem espiritual. O vinho forte de Jesus Cristo rompe o odre do profissionalismo. Existe uma diferença infinita entre o pastor cujo coração se dedica a ser profissional e o pastor cujo coração deseja ser o aroma de Cristo, o cheiro de morte para uns e a fragrância de vida eterna para outros (2Co 2.15,16).

Ó Deus, livra-nos dos profissionalizantes! Livra-nos da mente pequena, controladora, idealizadora e do caráter manipulador em nosso meio.2 Deus, dá-nos lágrimas por nossos pecados. Perdoanos por sermos tão superficiais na oração, tão vagos na compreensão das verdades sagradas, tão insensíveis diante dos vizinhos que perecem, tão desprovidos de paixão e seriedade em nossas conversas. Restaura-nos a alegria infantil pela nossa salvação. Dá-nos temor por meio do poder e da santidade assombrosos daquele que tem o poder de lançar corpo e alma no inferno (Mt 10.28). Ensina-nos a carregar a cruz com temor e tremor como a nossa árvore da vida cheia de esperança e ofensa. Não nos concedas nada, absolutamente nada, do que importa aos olhos do mundo. Que Cristo seja tudo em todos (Cl 3.11).

Elimina o profissionalismo de nosso meio, ó Deus, e em seu lugar dá-nos uma oração apaixonada, pobreza de espírito, fome de ti, estudo rigoroso das coisas sagradas, devoção fervorosa a Jesus Cristo, extrema indiferença diante de todo lucro material e o labor incessante para resgatar os que estão perecendo, aperfeiçoar os santos e glorificar nosso soberano Senhor.

Humilha-nos, ó Deus, sob tuas mãos poderosas, e levanta-nos não como profissionais, mas como testemunhas e participantes dos sofrimentos de Cristo. No maravilhoso nome dele. Amém.

NOTAS

1 - John Piper e Wayne Grudem: Recovering Biblical Manhood and Womanhood: A Response to Evangelical Feminism. Wheaton, IlI.: Crossway Books, 1991, p.16.
2 - Richard Cecil citado em E. M. Bounds, Power through Prayer. Grand Rapids, Mich.: Baker Book House, 1972, p.59.

Fonte: 

Piper, John. Irmãos, Nós Não Somos Profissionais. Shedd Publicações, Santo Amarto, SP, 3ª Reimpressão 2014: p. 15-18. 

quinta-feira, 11 de maio de 2017

RISPA, UMA MÃE QUE VELOU OS FILHOS MORTOS


Por Pr. Silas Figueira

Texto base: 2 Samuel 21.1-14

INTRODUÇÃO

Esse texto nos fala de uma aliança quebrada e as suas consequências, mas também nos fala de uma mãe que não desistiu de guardar seus filhos e de procurar honrá-los mesmo depois de mortos. Esse é um quadro horrendo. Algo que gera em nós uma interrogação do porque que algo tão terrível teve que acontecer, ou melhor, porque Deus permitiu que acontecesse.

No entanto, esse é um daqueles textos que nos leva a reavaliar as consequências de uma aliança quebrada feita diante do Senhor, ainda que tenha sido feita por nossos antepassados ela não cai por terra. Quando empenhamos a nossa palavra diante de Deus devemos procurar cumpri-la, pois as consequências são desastrosas. 

A Bíblia nos relata que houve três anos de fome em Israel. Foi um tempo difícil e com grandes perdas para o povo e a nação. O rei Davi então consultou ao Senhor e veio a resposta divina: “Há culpa de sangue sobre Saul e sobre a sua casa, porque ele matou os gibeonitas” (v.1b.) Violar um voto era uma transgressão grave contra a Lei de Deus (Nm 30.1,2). Davi reconheceu que a fome era uma disciplina enviada por Deus devido ao pecado que Saul havia cometido.

Quem pecou foi Saul, mas o peso do pecado e as suas consequências acabaram caindo sobre a nação de Israel após a sua morte. Isso até hoje é algo que ocorre. Os pais pecam e acabam deixando de herança as suas consequências para sua próxima geração. Leia o que nos fala Jeremias em Lamentações 5.7:
“Nossos pais pecaram e já não existem; nós é que levamos o castigo das suas iniquidades”.

Talvez você diga: “Isso não é justo!”. Não é, mas é o que mais acontece. Veja por exemplo como isso ocorre hoje. Os homens estão destruindo a natureza sem pensar no amanhã. Os homens estão levando prédios e mais prédios, aumentando as cidades de forma desproporcional. Com isso os rios estão morrendo, os mares estão cada vez mais poluídos. Estão desmatando as florestas, com isso causando um desequilíbrio ambiental. Quem irá sofrer com tudo isso? A próxima geração. Outro exemplo. A sociedade está ditando as normas de como devemos educar os nossos filhos, e o que estão passando para nós é totalmente contrário aos ensinamentos bíblicos. E há uma leva de gente aplicando esses ensinamentos; como será a próxima geração? O sucesso de uma sociedade depende do sucesso da família. A forma como a sociedade define moralmente a família estabelece os padrões de conformação da personalidade da futura geração. Dessa forma podemos prever o caos ou a organização da sociedade. Foi o caso de Israel colhendo os frutos que Saul havia plantado.

Davi chamou os gibeonitas e lhes perguntou: “O que quereis que eu vos faça? E que resgate vos darei, para que abençoeis a herança do Senhor?” E a sua resposta foi: “Não é por prata nem ouro que temos questão com Saul e com sua casa; nem tampouco pretendemos matar pessoa alguma em Israel [...] Quanto ao homem que nos destruiu e procurou que fôssemos assolados, sem que pudéssemos subsistir em limite algum de Israel, de seus filhos se nos deem sete homens, para que os enforquemos ao Senhor, em Gibeá de Saul, o eleito do Senhor…” (v.3-6).

Em parte alguma das Escrituras é explicada quando ou por que Saul matou os gibeonitas, rompendo, assim a aliança que Israel havia feito com esse povo no tempo de Josué (Js 9).  
Saul não respeitara a aliança feita por Josué aos gibeonitas (Js 9.15, 20-21). Quando Canaã fora conquistada pelo exército de Israel, os moradores de Gibeom vieram a Josué e, fingindo vir de uma terra muito distante (fora dos limites da “Terra Prometida”), pediram-lhe que fizesse aliança com eles: que lhes conservariam a vida e seria um povo amigo. O líder Josué não consultou ao Senhor nessa questão (Js 9.14), talvez por julgá-la de pouca importância; e concedeu-lhes paz e firmou aliança de proteção. Foi então que descobriu que eles eram moradores de Canaã e estavam na lista de Deus como povos para serem destruídos; mas era tarde demais, a aliança tinha sido firmada e não poderia voltar atrás. Devido a isso, Gibeão tornou-se uma cidade levítica (Js 21.17) e, durante algum tempo, abrigou o tabernáculo (1Rs 3.4,5).

Davi estava diante de uma dura situação: de um lado o povo de Israel, sofrendo com a seca, consequência da desobediência de Saul e de outro lado a dor de mandar enforcar homens da sua própria família, pois Davi era genro de Saul.

Muitas pessoas firmam, impensadamente, alianças muito sérias em suas vidas: alianças de casamentos, de sociedades, alianças espirituais, e depois é que vão refletir sobre o que fizeram. Então é tarde demais. As alianças são registradas diante do Senhor. Elas têm um peso de responsabilidade e compromisso. Não podem ser desfeitas de maneira leviana (Sl 15.4). Por isso, pense muito antes de se casar. Pense muito antes de romper um casamento. Pense muito antes de fazer uma sociedade com alguém. Não somente pense, mas ore ao Senhor a respeito dessas decisões. Ouça a Sua voz e não caia em armadilhas, para que, mais tarde, você não venha a se arrepender.

Para que o Senhor viesse novamente abençoar a nação foi exigida a morte de sete homens da descendência de Saul. Entenda uma coisa, a ira de Deus não se aplaca com sacrifício humano – com a morte de alguém – mas os gibeonitas exigiram justiça de acordo com os princípios de Nm 35.31-33, uma vida em troca de outra em caso de homicídio. Na versão Almeida Corrigida Fiel nos diz assim o versículo primeiro: “... É por causa de Saul e da sua casa sanguinária, porque matou os gibeonitas”. Essa expressão: “casa sanguinária” – dá a entender que os filhos de Saul participaram da matança dos gibeonitas. Por isso que o v. 14c nos diz que “Deus se tornou favorável para com a terra”, ou, “Deus se aplacou para com a terra”, depois da morte desses homens.  Nos casos em que os filhos não estavam envolvidos nos pecados do pai, não se devia ser castigados (Dt 24.16).

Um detalhe interessante: fazia mais de trinta anos que Saul havia morrido, e o Senhor esperou pacientemente para tratar o pecado dele, mas não deixou de tratar.

Então Davi teve de escolher sete homens da família de Saul para serem enforcados, para que a chuva pudesse novamente cair sobre a terra de Israel. Davi escolheu os cinco filhos de Merabe, netos de Saul, e os dois filhos de Rispa, sua concubina. A Bíblia diz que foram mortos nos primeiros dias da ceifa da cevada. Seus corpos foram esquecidos pelos seus executores; foram deixados no madeiro, ao relento. Então Rispa, a mãe de Armoni e Mefibosete, “tomou um pano de saco e o estendeu para si sobre uma penha, desde o princípio da ceifa, até que sobre eles caiu água do céu” (v.10). Rispa assistiu ao milagre da chuva caindo, após a execução do castigo consequente da ira irrefletida de Saul e de seu “zelo” pelo Senhor, levado a efeito fora da sua suprema vontade. Rispa pôde ver o valor de uma aliança feita diante de Deus e as consequências do rompimento de uma palavra empenhada.

A Lei exigia que os corpos fossem retirados até o pôr do sol e sepultados (Dt 21.22,23). Mas, a fim de ter certeza de que todo o possível havia sido feito para tratar do crime de Saul, Davi permitiu que os corpos ficassem expostos até virem as chuvas, indicando que o Senhor havia voltado a abençoar seu povo. Durante todo esse tempo, Rispa protegeu os corpos de seus filhos e sobrinhos, num ato de amor e de coragem, e isso durou cerca de seis meses [1].

Rispa significa “pedra quente”, e, firme como uma rocha, ela colocou pano de saco sobre a penha em frente aos cadáveres de seus filhos e os ficou guardando de dia e de noite: “e não deixou as aves do céu pousar sobre eles de dia, nem os animais do campo de noite” (v.10). Ao colocar ali um pano de saco percebe-se a dor de Rispa; sua humilhação diante de Deus em favor de seus filhos. O “pano de saco”, na Bíblia, sempre teve o significado de arrependimento e humilhação diante do Senhor.

Você pode imaginar a dor dessa mulher diante dos corpos em decomposição, dia e noite? Pode imaginar o que se passava em seu coração de mãe? Suas lágrimas e o desejo de vê-los com um sepultamento digno, pelo menos?

ILUSTRAÇÃO:

Certo dia, um homem e seu filho avistaram de cima de uma montanha a destruição de uma cidade. Homens, mulheres e crianças foram mortos. Alguns tinham entregado suas vidas a Jesus. Lá do alto, o homem então disse: “Ah, se eu fosse Deus!” O menino perguntou: “Se o senhor fosse Deus não permitiria tal coisa?” E o pai respondeu: “Não, se eu fosse Deus eu compreenderia...”

Eu também não compreendo muitas coisas, mas eu sei que o Senhor sabe o que faz, independentemente de nossa compreensão dos fatos.

QUAIS AS LIÇÕES QUE PODEMOS TIRAR DESSE EPISÓDIO OCORRIDO COM ESTA MÃE?

“O amor de mãe é aquele que nunca se esgota, nem mesmo quando o filho escolhe trilhar caminhos tortuosos transformando sua paz em aflição” – Teresa Teth.

Esse foi o caso dos filhos de Rispa, que pelo que entendemos participou da morte dos gibeonitas. Mas independentemente da escolha deles, ela os amou mesmo assim e os velou mesmo depois de mortos por seis meses.

A PRIMEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE O AMOR DE MÃE É INCONDICIONAL (2 Sm 21.8-10).

Rispa não deixou de amar seus filhos mesmo sabendo do que eles haviam feito. Para isso não é necessário ir muito longe, basta olharmos para as filas intermináveis nas portas dos presídios. Quantas mães ficam ali em todas as visitas para ver seus filhos e demonstrar o seu amor por eles, apesar do que eles fizeram.

Dificilmente você verá um pai ali, mas mães você perde a conta.

Como diz um antigo adágio: “Filho feio não tem pai”. Mas tem mãe. Uma mãe não olha para a deficiência de seu filho, ela olha para O SEU FILHO. Ela o ama, cuida e vela por ele. 

1º - Rispa velou os filhos mortos dia e noite, assim também há muitas mães hoje velando seus filhos mortos espiritualmente (2Sm 21.10). Rispa era uma mulher forte e de caráter firme. Seu nome significa “Pedra Quente”. Ela era filha de Aiá, cujo nome vem da mesma raiz da palavra “intocável”. Ela foi mulher do rei Saul e teve com ele dois filhos: Armoni e Mefibosete e que estavam ali mortos diante dela (2Sm 21.8).

Uma das coisas mais tristes que temos visto em nossas igrejas são mães, assim como Rispa, chorando por seus filhos que estão mortos em seus próprios pecados. Filhos que foram criados no caminho do Senhor, mas hoje estão distantes dEle e de sua casa.

Quantas mães que colocam “panos de saco” sobre a “Rocha”, que simboliza a Palavra de Deus e suas promessas, e vigiam seus filhos “mortos”. Filhos espiritualmente mortos, e por estarem espiritualmente mortos, estão envolvidos em tantas coisas erras. Muitos estão nas drogas, nos vícios, na prostituição, no homossexualismo, nas depravações da imoralidade, envolvidos em outras religiões. Filhos que exalam o mau cheiro do pecado; decompondo-se dia-a-dia na podridão do mundo. Mães que oram, crendo no impossível; que Deus irá ressuscitar seus filhos e lhes dará uma nova e maravilhosa vida. Elas creem que seus filhos receberão o “toque” de vida do Espírito Santo e serão ressuscitados. E, por isso, elas não se cansam dia e noite de vigiar… E orar… E crer… Até que o “Rei” olhe para elas, tenha misericórdia e faça cessar a sua dor.

Mas quando lemos os evangelhos, nós encontramos um amor ainda maior, o amor de Deus por mim e por você. Em João 3.16 nós vemos esse amor sendo revelado, mas quando olhamos para cruz do Calvário nós vemos esse amor sendo cumprido.

Como disse o apóstolo Paulo em Romanos 5.6-8:

“Porque Cristo, quando nós ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios. Dificilmente, alguém morreria por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém se anime a morrer. Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores”.

Rispa demonstra o seu amor pelos seus filhos, o Senhor demonstra o seu amor pelos pecadores.

2º - Rispa velou seus filhos mortos lutando com as bestas feras dia e noite, assim também há muitas mães hoje lutando com Satanás em defesa de seus filhos (2Sm 21.10b). A luta de Rispa era com as aves de rapina de dia e com os animais carnívoros de noite enquanto os filhos de decompunham. Foi uma vigília sem tréguas. Sem descanso. Dia e noite velando pelos filhos mortos. Durante cerca de seis meses.

Enquanto os corpos se decompunham o mau cheiro era insuportável, mas ela não desistiu de ficar ali velando pelos seus filhos. Ela não arredou o pé, não passou a responsabilidade para outros. O que esta mãe fez não tem explicação dentro da lógica humana.

A Bíblia nos fala que “a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Ef 6.12).

Muitas mães estão lutando pelos seus filhos, pois elas sabem que a luta é espiritual. Há coisas que ocorrem com seus filhos que elas veem de forma nítida que é uma batalha contra principados e potestades. Uma mãe crente em Jesus consegue discernir que certos fatos que ocorrem com seus filhos não são coisas naturais, mas espirituais. São ataques demoníacos contra sua família e, principalmente, contra seus filhos.

Mas elas sabem que com Deus e em Deus elas alcançarão a vitória. Como um grupo que temos aqui em nossa cidade que se chama: “Mães de joelho, filhos de pé!”

A SEGUNDA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE A ATITUDE DE RISPA TROUXE CONSEQUÊNCIAS (2 Sm 21.11-14).

A Bíblia é clara quando nos diz que o que o homem planta ele colhe (Gl 6.7). Rispa não se deu por vencida. Seus filhos podiam estar mortos, mas no mínimo eles mereciam um sepultamento descente.  

1º - Rispa velou os seus filhos mortos e tal atitude chegou ao conhecimento do rei, assim também hoje há muitas mães em suas vigílias de oração e as suas orações estão chegando ao trono do Rei dos reis. A atitude de Rispa chegou aos ouvidos do rei Davi; as suas orações estão chegando aos ouvidos do nosso Deus, não deixe de orar, não deixe de vigiar os corpos de seus filhos. Ainda que estejam em total decomposição espiritual ainda há esperança, pois para Deus nada é impossível. Leia Ez 37.1-14. Creia no milagre.

Ainda que todos digam que não há jeito, que é um caso perdido, não desista milha irmã. Falaram para Jairo que não era para ele incomodar mais o Mestre, pois a sua filha já havia morrido, mas o Senhor falou para ele crer somente (Mc 5.36). Creia somente! 

- Rispa velou os seus filhos mortos e alcançou o favor do rei, assim também hoje há muitas mães alcançando o favor do nosso Senhor. Os filhos de Rispa, por fim, foram sepultados. Todo israelita desejava ser sepultado de modo apropriado junto aos seus antepassados, e Davi concedeu essa bênção a Saul e a sua família.

Observe que a atitude de Rispa não só trouxe honra a seus filhos, mas também a Saul e a seu filho Jônatas. Quando o Senhor abençoa ela é abrangente, ela alcança a muitos. Um filho restaurado pode gerar em muitas outras pessoas restauração também, pois o testemunho de uma pessoa pode gerar fé em muitas outras pessoas.

Observe por exemplo o texto de Atos 3 quando o coxo da porta formosa foi curado. Pedro aproveita o milagre na vida do coxo e prega a salvação em Jesus e o resultado nós encontramos em Atos 4.4:

“Muitos, porém, dos que ouviram a palavra a aceitaram, subindo o número de homens a quase cinco mil”.

Creio que o favor do Rei dos reis irá se voltar a você mãe que tem orado por seus filhos, o Senhor há de se voltar para você e conceder o seu pedido. Como disse o Senhor Jesus a Marta: “Seu irmão há de ressuscitar”. O Senhor lhe diz hoje também: “Seu filho, sua filha, sua família há de ressuscitar!”

- Rispa velou seus filhos mortos e moveu a mão do rei em seu favor e a chuva caiu sobre a terra, assim também hoje há muitas mães movendo a mão do Rei e trazendo a bênção sobre seus lares. Rispa ficou em seu posto sozinha. Espantava as aves de dia e as feras de noite. Ela não tinha medo. Não saía de sua “torre de vigia”, mas esperava que o rei se compadecesse e desse um sepultamento digno de nobres aos seus filhos. Ela ficou por muitos dias ali, passaram-se mais de seis meses, e isto foi dito a Davi. Ele então “tomou os ossos de Saul e os ossos de Jônatas [...] e também os ossos dos enforcados [...] Enterraram [...] na terra de Benjamim [...] Depois disto, Deus se tornou favorável para com a terra” (v.12-14).

Enquanto Davi não honrou aos que morreram não houve o favor, a bênção de Deus sobre a terra. Foi Rispa quem fez a mão do rei Davi trazer a bênção novamente sobre Israel. Minha querida irmã são as suas orações que tem movido a mão do Senhor em favor da sua família.

Foram seis meses velando pelos seus filhos, mas a consequência foi o derramar das bênçãos de Deus sobre a nação. A oração de um justo vale muito em seus efeitos. Por isso minha irmã não desista de orar e buscar o favor do Senhor pelos seus filhos, pois a bênção não cairá somente sobre eles, mas muitas outras pessoas serão agraciadas pelo Senhor.  
  
CONCLUSÃO

Como você agiria estando no lugar de Rispa?

Você tem amado seus filhos e paga um preço de oração por eles?
Onde e como estão seus filhos agora?

Você, querida irmã, que talvez não seja ainda casada, não tenha filhos, pode sentir a dor de quantas pessoas estão mortas em seus pecados e precisam receber a Vida? Que tal orar por estas pessoas ao seu redor?

Você sabe o que é assentar-se em “pano de saco” sobre a Penha? Tem buscado se humilhar diante do Senhor em oração?

Você tem coragem suficiente para “enxotar” as aves de rapina e os animais (demônios e más companhias) que querem “devorar” seus filhos?

Quanto você acha que valem as lágrimas de uma mãe?

Eu quero terminar co uma pequena ilustração do quanto o amor de mãe é algo incondicional:

Conta-se que era costume no Japão antigo, quando os pais atingissem uma idade improdutiva os filhos deveriam leva-los a uma grande floresta e abandoná-los. Certa vez um filho teve incumbência de levar a sua mãe a uma floresta e a deixar lá para morrer. Em meio a galhos espinhosos e uma floresta densa ele ia à frente de sua mãe que com dificuldade o seguia-o a passos lentos devido ao peso de sua idade. Depois de caminhar várias horas ele olhou para trás e observou que a sua mãe estava quebrando pequenos galhos que marcavam o caminho de volta. Ele parou de caminhar e reprendeu a sua mãe de forma dura e sem nenhuma demonstração de afeto:

-Mãe, você está quebrando os galhos para marcar o caminho e poder voltar? A senhora não sabe que tenho que cumprir a tradição de nosso povo, e se não o fizer serei severamente castigado!

A velha senhora, que já não enxergava bem e caminhava lentamente devido a sua idade, respondeu de forma doce e calma:

-Meu filho, estou quebrando os galhos para marcar o caminho de volta para que você não se perca ao retornar!

Sensibilizado pela atitude da mãe ele a trouxe de volta e disse que sofreria qualquer castigo, mas que jamais poderia deixar a sua mãe na floresta para morrer. A história ganhou popularidade e chegou ao imperador que baniu para sempre esse costume.

Pense nisso e que Deus nos abençoe!
Fonte:

1 – Wiersbe, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo vol. 2, Históricos. Editora Geográfica, Santo André, SP, 2012: p. 365.