sábado, 3 de dezembro de 2016

ATITUDES EM RELAÇÃO AO VERBO



Por Pr. Silas Figueira

Texto base: João 1.10-13

INTRODUÇÃO

João, depois de ter mostrado o Verbo como aquele que veio trazer luz espiritual ao homem que andava em densas trevas em relação a Deus, agora nos mostra como o mundo o recebeu. Como o mundo se posicionou diante do Seu Criador. Como o mundo agiu diante do Deus encarnado. Como muitos o rejeitaram e como muitos o receberam.

Essa mesma postura continua hoje, pois o homem não mudou. A Pessoa de Jesus ainda gera muito incômodo em muitas pessoas. Pois, como disse o próprio Senhor, os homens amaram mais as trevas que a luz (Jo 3.19). E por que os homens amaram mais as trevas? Em primeiro lugar, porque a luz incomoda. Faz doer os olhos do entendimento. Causa um mal estar na consciência. Em segundo lugar, porque revela todas as coisas. Tudo que antes estava oculto é revelado, e para muitas pessoas isso não lhes agrada.

A luz de Cristo que tem incomodado tantas pessoas hoje é refletida através da sã doutrina. Através da Sua Palavra pregada sem ocultar a verdade que liberta. Como disse o apóstolo Paulo a Timóteo:

“Pregue a palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo, repreenda, corrija, exorte com toda a paciência e doutrina. Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; ao contrário, sentindo coceira nos ouvidos, juntarão mestres para si mesmos, segundo os seus próprios desejos. Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando-se para os mitos” (2Tm 4.2-4 – NVI).

A sã doutrina divide, confronta, separa, julga, convence, repreende, chama a atenção, exorta e refuta o erro. Nenhuma dessas coisas goza de alta estima no pensamento pós-moderno. Entretanto, a saúde da igreja depende de mantermos a verdade com firmeza, pois, onde convicções fortes não são toleradas, o discernimento não pode sobreviver [1].

Mas assim como existem aqueles que odeiam a Luz, há aqueles que a buscam. São aquelas pessoas que se veem na total dependência de Deus e sabem que só através de Sua amorosa direção andarão seguras neste mundo. São aquelas pessoas que amam a luz e nela se regozijam. Veja o que nos fala o Salmo 119.105,106:

“A tua palavra é lâmpada que ilumina os meus passos e luz que clareia o meu caminho. Prometi sob juramento e o cumprirei: vou obedecer às tuas justas ordenanças” (NVI). 

João no texto que lemos nos mostra a atitude do mundo em relação a Jesus e a Sua mensagem, daqueles que o rejeitaram como também dos que o receberam. Podemos destacar quatro pontos importantes aqui:

EM PRIMEIRO LUGAR, JOÃO NOS MOSTRA O VERBO EM RELAÇÃO AO MUNDO (Jo 1.10).

Em Cristo, Deus está relacionado diretamente a este mundo conhecido como kosmos. João usa esse conceito 79 vezes e demonstra as várias relações de Deus com o kosmos. Somos informados no Evangelho de João que “Deus amou o mundo de tal maneia que deu se Filho unigênito...” (Jo 3.16). “Porque Deus enviou o Seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” (Jo 3.17). Somos informados de que Cristo é “o Cordeiro de Deus que tira [carrega] o pecado do mundo” (Jo 1.29); “o Salvador do mundo” (Jo 4.42); “o pão de Deus é aquele que... dá vida ao mundo” (Jo 6.63); “a luz do mundo” (Jo 8.12; 9.5; 12.46). Fala-se do Espírito Santo como o Consolador que irá condenar ou “convencer o mundo” (Jo 16.8) [2]. Por “mundo” subentendem-se o mundo de pessoas, alienado de Deus, que, nas palavras de Paulo, “que desprezaram o conhecimento de Deus” (Rm 1.28 – NVI), apesar de, “desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas” (Rm 1.20 – NVI) [3]. Sendo tais pessoas indesculpáveis.

O versículo 10 do texto que lemos nos traz a palavra “mundo” três vezes:
“Aquele que é a Palavra estava no mundo, e o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o reconheceu” (NVI). 

1º - O Verbo estava no mundo. O Verbo sempre esteve presente no mundo. Antes de ele vir a Terra Ele já estava reinando no mundo, pois Ele reina em toda a criação desde o princípio. Quando João diz que “o Verbo estava no mundo”, está falando a respeito de Sua encarnação. Como lemos no verso quatorze:

“Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós” (NVI).

2º - O Verbo criou o mundo. O mundo é de Deus, criado por Ele através do Logos. Vemos isso no verso três:

“Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito” (NVI).

O Verbo é o agente divino na criação do universo. Foi Ele quem trouxe à existência as coisas que não existiam. Deus disse: “Haja luz”. E houve luz (Gn 1.3). O Verbo é a palavra criadora de Deus, por meio de quem todas as coisas foram feitas, tanto as visíveis como as invisíveis, tanto as terrenas como as celestiais (Cl 1.16) [4].

3º - O Verbo foi ignorado pelo mundo. Por que a nação de Israel rejeitou Jesus Cristo? Porque “não o conheceu”. O povo de Israel era espiritualmente ignorante. Jesus é a “verdadeira Luz” – a Luz original da qual toda outra luz é cópia –, mas os judeus contentaram-se com as cópias. Tinham Moisés e a Lei, o templo e os sacrifícios, mas não entendiam que essas “luzes” apontavam para a verdadeira Luz, a conclusão e a consumação da religião do Antigo Testamento [5].

Isso é um alerta par todos nós hoje. Muitas vezes ficamos encantados com as coisas aparentes a tal ponto que perdemos o foco do que devemos adorar.

Veja o que aconteceu com a igreja de Éfeso (Ap 2.1-4). Corremos este mesmo perigo! 
 
Em um estilo majestoso, João retrata o fato, o propósito e o resultado da vinda de Jesus ao mundo. O fato: ele estava no mundo. O propósito: ele veio para o que era seu. O resultado: mas os seus não o receberam. João coloca, assim, em chocante contraste a oferta divina e a rejeição humana [6].

EM SEGUNDO LUGAR, JOÃO NOS MOSTRA QUE O VERBO FOI REJEITADO (Jo 1.10,11).

A Igreja está vivendo um período extremamente difícil onde a sã doutrina tem sido substituída pelo pragmatismo (corrente de ideias que prega que a validade de uma doutrina é determinada pelo seu bom êxito prático – o importante é o que dá certo e não o que é certo). As igrejas que pensam assim abandonaram a suficiência das Escrituras e a substituíram por doutrinas falsas. A sã doutrina gera no coração do pecador consciência de que ele está perdido e de que precisa do Salvador, ele pode até rejeitar o Senhor Jesus, mas consciente de seus erros.

A. W. Tozer enumera cinco razões pelas quais os Seus O rejeitaram e porque as pessoas ainda hoje O rejeitam:

1 – Mudança nas prioridades. A primeira razão para a rejeição de Cristo tem a ver com prioridades. Receber Jesus enquanto Ele estava aqui teria significado uma possível perda financeira. Temos o exemplo do jovem rico (veja Mt 19.16-29). As pessoas no tempo de Jesus não O recebiam porque amavam mais o dinheiro do que amavam a Deus.

Por que as pessoas não O recebem hoje? A resposta é simples e, mesmo assim, complicada. Receber Jesus Cristo conforme Ele exige ser recebido requer dar as costas a tudo, o que poderia significar perda financeira. Caso determinadas pessoas, algum dia, quisesse seguir Jesus Cristo, teriam de, por exemplo, sair de um negócio lucrativo. Mas há pessoas que pensam que podem glorificar Jesus onde estão.

E Tozer vai além, diz ele que, se as coisas continuarem a ir de mal a pior nos círculos evangélicos logo chegará o momento em que imprimiremos João 3.16 no fundo de um copo de cerveja, de modo que, quando um companheiro beber e olhar para o fundo, “verá a salvação irradiar na sua direção”. Além disso, hotéis de beira de estrada disporão meninas que, além de oferecerem seus “favores”, distribuirão pequenas mensagens bíblicas. Você não pode ser cristão e fazer algumas coisas. É melhor esclarecer isso agora.

2 – Mudança de hábito. A segunda razão tem a ver com nossos hábitos. Para os judeus, receber Jesus significaria mudar a maneira de eles viverem. O que não é diferente nos dias de hoje.

Exemplos de maus hábitos na igreja: Cultuar ou orar com o celular ligado. Chegar atrasado às reuniões da Igreja. Gostar de fofoca. Só buscar ao Senhor quando se vê em apuros. Sair, antes do término, das reuniões da Igreja. Passar uma “temporada boa” sem se reunir com os demais irmãos. Dar razão a um interlocutor que maltrata a Igreja, os irmãos da Igreja e os oficiais da Igreja. Dormir durante as reuniões da Igreja. Passar o culto no maior bate papo com a pessoa sentada ao lado. Administrar, ele próprio, o dízimo. Convidar pessoas para virem às reuniões da Igreja e não comparecer! Não meditar, com verdadeiro amor, na Palavra de Deus. Visitar todas as “igrejas” que lhe fazem um convite. Repetir “nossa” como um mantra (“Nossa” vem de “nossa senhora”, entende? Ou quer que eu desenhe) [7].

3º - Limpeza pessoal. A terceira razão pela qual recusaram Cristo tem a ver com a limpeza pessoal. Aceitá-Lo significaria uma limpeza completa do interior. Algumas pessoas preferem a sujeira ao Filho de Deus. Preferem as trevas a irem para a luz (Jo 3.19).

4º - Mudança de direção. A quarta razão pela qual não aceitam Jesus é o fato de isso significar uma mudança completa para eles. Significaria uma limpeza completa da casa, de seu interior, e uma renúncia do eu. Veja o que Jesus disse a respeito de quem quer segui-lo:

“Então Jesus disse aos seus discípulos: Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16.24 – NVI).

Isso gera a morte do "eu", e matar o "eu" é mais difícil do que parece.

5º - Amamos mais o pecado. Ninguém pode compreender o cristianismo, a menos que esteja dentro dele. Ninguém que ama o pecado vive o verdadeiro cristianismo. A tragédia é que O temos rejeitado no coração porque queremos os nossos próprios caminhos [8]. 

João não está pensando só no que aconteceu quando o Verbo veio a Sua própria terra, mas no que vinha acontecendo durante toda a história de Israel. Veja o que o Senhor nos fala pela boca do profeta Jeremias:

“Desde a época em que os seus antepassados saíram do Egito até o dia de hoje, eu lhes enviei os meus servos, os profetas, dia após dia. Mas eles não me ouviram nem me deram atenção. Antes, tornaram-se obstinados e foram piores do que os seus antepassados” (Jr 7.25,26 – NVI).

Com Jesus a história só estava se repetindo como já vinha acontecendo há anos a fio. Os judeus viram suas obras e ouviram as suas palavras. Observaram a sua vida perfeita. Jesus deu-lhes inúmeras oportunidades de compreender a verdade, de crer e de receber a salvação. Jesus é o caminho, mas se recusaram a andar com ele (Jo 66-71). Ele é a vida, mas o crucificaram! [9].

EM TERCEIRO LUGAR, JOÃO NOS MOSTRA QUE O VERBO FOI ACEITO (Jo 1.12).

“Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus” (NVI).

Aqui cai por terra aquele velho ditado que diz que “todos são filhos de Deus”. Há, inclusive, uma música popular que diz no refrão: “Todos somos filhos de Deus, só não falamos a mesma língua” [10]. No entanto, esse é um ledo engano. Na verdade todos nós somos criaturas de Deus, pois Ele é o criador de todas as coisas.

Não basta nascer para se tornar filho de Deus; na verdade é necessário morrer para se tornar Seu filho. Como disse o apóstolo Paulo:

“Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl 2.20 – ARA).

Assim como Deus tem seus filhos, o diabo também tem os seus:

“Desta forma sabemos quem são os filhos de Deus e quem são os filhos do Diabo: quem não pratica a justiça não procede de Deus, tampouco quem não ama seu irmão” (1Jo 3.10 – NVI).

Como ocorre o novo nascimento e o que prova que a pessoa nasceu de novo?

1º - O novo nascimento ocorre quando a pessoa recebe Jesus como seu salvador pessoal. Receber aquele que é a Palavra de Deus significa depositar a fé nele, jurar fidelidade a ele, e também, de maneira muito prática, acreditar que ele é o que diz ser [11]. Esse nascimento não é natural, mas espiritual como Jesus explicou a Nicodemos (Jo 3.3-6). Esse nascimento é mediante a fé em Jesus.

2º - A salvação é mediante a graça (Ef 2.8,9). A salvação procede de Deus agindo através da Sua graça no coração do homem perdido. Veja o que o apóstolo Paulo nos fala em Ef 2.8,9: 

“Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie” (NVI).

3º - A prova de que a pessoa nasceu de novo. O que revela que uma pessoa nasceu de novo, entre muitas provas, creio que seja a de que essa pessoa passa a ser habitado pelo Espírito Santo. Veja o que nos fala Rm 8.9:

“Entretanto, vocês não estão sob o domínio da carne, mas do Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vocês. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo” (NVI). 

Muitas pessoas pensam que por ser bons pais, bons cidadãos, terem boa conduta perante a sociedade, serem honestas etc. são filhos de Deus. Cornélio é um exemplo de um homem bom, religioso, bem visto pela sociedade, tanto gentílica quanto judaica, no entanto não era salvo. Veja o que o próprio texto em Atos nos conta:

Havia em Cesaréia um homem chamado Cornélio, centurião do regimento conhecido como Italiano. Ele e toda a sua família eram religiosos e tementes a Deus; dava muitas esmolas ao povo e orava continuamente a Deus. Certo dia, por volta das três horas da tarde, ele teve uma visão. Viu claramente um anjo de Deus que se aproximava dele e dizia: “Cornélio!” Atemorizado, Cornélio olhou para ele e perguntou: “Que é, Senhor?” O anjo respondeu: “Suas orações e esmolas subiram como oferta memorial diante de Deus. Agora, mande alguns homens a Jope para trazerem um certo Simão, também conhecido como Pedro, que está hospedado na casa de Simão, o curtidor de couro, que fica perto do mar. Depois que o anjo que lhe falou se foi, Cornélio chamou dois dos seus servos e um soldado religioso dentre os seus auxiliares e, contando-lhes tudo o que tinha acontecido, enviou-os a Jope (At 10.1-8 – NVI).

"O Espírito me disse que não hesitasse em ir com eles. Estes seis irmãos também foram comigo, e entramos na casa de um certo homem. Ele nos contou como um anjo lhe tinha aparecido em sua casa e dissera: “Mande buscar, em Jope, a Simão, chamado Pedro. Ele lhe trará uma mensagem por meio da qual serão salvos você e todos os da sua casa”. Quando comecei a falar, o Espírito Santo desceu sobre eles como sobre nós no princípio" (At 11.12-15 – NVI).

Através desse texto vemos claramente que a salvação não é pelas obras, mas mediante a graça de Deus (Ef 2.8,9).

4º - O novo nascimento gera novo comportamento. Quem teve um encontro real com Cristo não vive na prática de velhos hábitos, não quero dizer com isso que tal pessoa não peque, mas que é uma pessoa que não vive na prática do pecado. Veja o que nos diz 1Jo 3.9:

“Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus” (ARA).

Veja também Cl 3.1-10:

Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a sua vida, for manifestado, então vocês também serão manifestados com ele em glória. Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria. É por causa dessas coisas que vem a ira de Deus sobre os que vivem na desobediência, as quais vocês praticaram no passado, quando costumavam viver nelas. Mas agora, abandonem todas estas coisas: ira, indignação, maldade, maledicência e linguagem indecente no falar. Não mintam uns aos outros, visto que vocês já se despiram do velho homem com suas práticas e se revestiram do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do seu Criador (NVI). 

Para se tornar filho de Deus e entrar nesta família é preciso receber Aquele que é a Palavra como seu único e suficiente salvador.

EM QUARTO LUGAR, JOÃO NOS MOSTRA QUE O VERBO VEIO PARA SALVAR O MUNDO (Jo 1.13).

“Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.” (ARA).

A salvação sai das fronteiras de Israel e se estende para o mundo inteiro. Pessoas de todas as tribos, raças e povos, que recebem Cristo, receberão poder de serem feitas não apenas filhos de Abraão, mas filhos de Deus, de fazerem parte da família de Deus. Esse poder é conferido não aos que se julgam merecedores por suas obras, mas aos que creem no Seu Nome [12]. Para os judeus a salvação era só para eles. A ideia que eles tinham era que o restante do mundo não tinha nenhum merecimento a salvação que lhes fora entregue.

Por terem sido escolhidos como nação eleita o orgulho lhes cegou o entendimento para ver o que a própria Escritura dizia em relação a Deus e como Ele queria que Israel se posicionasse em relação aos gentios. Várias passagens das Escrituras revelam o amor de Deus manifestado gratuitamente aos gentios que exerceram fé no Santo de Israel, como por exemplo, Raabe (Js 6.1-27); Rute (Rt 1– 4 ); Naamã (2 Rs 5.1-19), e os ninivitas (Jn 3.1-10). Se isso não bastasse, o Senhor prometera tornar os gentios o seu povo (Is 11.1,10; 421-5; 52.15; 65.1; compare com Mt 12.18-21; At 15.14-18; Rm 9.25-30; 10.19-21; 15.8-12, 19-21).

Outro detalhe interessante é que o versículo 13 antecipa a declaração mais completa sobre o novo nascimento, que será feita no capítulo 3. Lá se enfatiza a diferença entre as duas ordens: “O que é nascido da carne, é carne; e o que é nascido do Espírito, é espírito” (Jo 3.6) [13].

João mostra que para se tornar filho de Deus não ocorre de forma natural. Para se tornar filho de Deus tem que haver uma intervenção divina na pessoa, e ele nos apresenta isso de três maneiras negativas:

 1º - Não se é filho de Deus por ser judeu - Os quais não nasceram do sangue. Hereditariedade – ninguém recebe a salvação por herança. Em outras palavras: filho de crente não é crentinho. Toda pessoa precisa ter sua própria experiência com Deus. Para os judeus bastava ser judeu para herdar a vida eterna, no entanto Jesus deixou bem claro que tal coisa era uma ideia distorcida que eles tinham.

Muitos líderes religiosos criam que por serem judeus e religiosos que isso lhes bastava, mas Jesus mostrou-lhes que eles eram filhos do diabo e não de Deus (Jo 8.44).

2º - Não se é filho de Deus por vontade própria - Nem da vontade da carne, nem da vontade do homem. Eu não me torno filho de Deus pela minha própria vontade. Como dizem alguns: “Eu passei para crente”. A mudança de religião não traz salvação para a pessoa. Ninguém irá para o céu por ser evangélico ou ser um religioso. Veja o que Paulo nos fala em Rm 9.15,16:

“Pois ele diz a Moisés: “Terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia e terei compaixão de quem eu quiser ter compaixão”. Portanto, isso não depende do desejo ou do esforço humano, mas da misericórdia de Deus” (NVI).

3º - Se é filho de Deus pela vontade de Deus - mas de Deus. Este direito de nascimento divino não tem nada a ver com laços raciais, nacionais ou familiares. O que nos leva a sermos filhos de Deus vem da graça e misericórdia de Deus agir em nossos corações.

E se Deus, querendo mostrar a sua ira e tornar conhecido o seu poder, suportou com grande paciência os vasos de sua ira, preparados para a destruição? Que dizer, se ele fez isto para tornar conhecidas as riquezas de sua glória aos vasos de sua misericórdia, que preparou de antemão para glória, ou seja, a nós, a quem também chamou, não apenas dentre os judeus, mas também dentre os gentios? Como ele diz em Oséias: “Chamarei “meu povo” a quem não é meu povo; e chamarei “minha amada” a quem não é minha amada”, e: “Acontecerá que, no mesmo lugar em que se lhes declarou: “Vocês não são meu povo”, eles serão chamados “filhos do Deus vivo” (Rm 9.22-26 – NVI).

Não depende de mim nem muito menos de você, mas de Deus usar de Sua misericórdia.

CONCLUSÃO

O texto que nós meditamos mostra que o Senhor Jesus veio a este mundo buscar o perdido, mas que muitos dos que estavam perdidos não se viam perdidos. Esse é o grande problema da humanidade ainda hoje. Muitos confiam em seus próprios méritos para chegar ao céu. Muitos acreditam que por serem boas pessoas mereçam ser salvas. Outras por sua vez creem que para tal é necessário ter uma religião. Outros já pensam que todos irão ser salvos, pois todos somos filhos de Deus “só não falamos a mesma língua”.

O mundo continua sem reconhecer Jesus, por isso cada um pensa de um jeito e agem segundo as suas próprias vontades.

No entanto, o texto de João é claro em afirmar que para nos tornarmos filhos de Deus é necessário crer no Seu Filho Jesus e tê-lo como senhor de nossas vidas. Fora de Jesus não há salvação, pois só Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida.

Pense nisso!  

Notas

1 – MacArthur, John. A Guerra Pela Verdade. Editora Fiel, São José dos Campos, SP, 2014: p. 244.
2 – Peters, George W. Teologia Bíblica de Missões. Editor CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 11ª impressão, 2015: p. 47.
3 – Bruce, F. F. João: introdução e comentário. Edições Vida Nova e Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1987: p. 41.
4 – Lopes, Hernandes Dias. João, As glórias do Filho de Deus. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2015: p. 27.
5 – Wiersbe, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo vol. 5. Editora Geográfica, Santo André, SP, 2012: p. 368.  
6 – Lopes, Hernandes Dias. João, As glórias do Filho de Deus. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2015: p. 31.
7 – Magela, Geraldo. Maus hábitos dos crentes. http://pastorgeraldomagela.blogspot.com.br/2009/07/maus-habitos-dos-crentes.html, acessado em 02/12/16.
8 – Tozer, A. W. E Ele Habitou Entre Nós. Graça Editorial, Rio de Janeiro, RJ, 2014, p: 74-80.
9 – Wiersbe, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo vol. 5. Editora Geográfica, Santo André, SP, 2012: p. 369.  
10 – Música O Mundo. Compositor: André Abujamra.
11 – Bruce, F. F. João: introdução e comentário. Edições Vida Nova e Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1987: p. 43.
12 – Lopes, Hernandes Dias. João, As glórias do Filho de Deus. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2015: p. 32.
13 – Bruce, F. F. João: introdução e comentário. Edições Vida Nova e Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1987: p. 43.

domingo, 27 de novembro de 2016

JESUS: A VIDA E A LUZ DOS HOMENS



Por Pr. Silas Figueira

Texto base: João 1.4-9

INTRODUÇÃO

O versículo três de João nos diz que “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito”. Através desse verso entendemos que o Verbo é o agente divino na criação, ou seja, houve um Ser criador de todas as coisas, e no versículo 10b fecha a questão dizendo: “e o mundo foi feito por intermédio dele”. A Bíblia deixa claro que o Verbo é o criador de todas as coisas. E há muitas pessoas que tem crido que existe um criador. Mas a questão é como as pessoas têm crido nesse Criador? Porque crer vai muito além de acreditar. Vai muito além de reconhecer Jesus como criador e salvador. Crer, biblicamente falando, significa ter compromisso com o criador. É tê-lo como Senhor de suas vidas. No entanto, há muitas que creditam num criador, mas como se relacionam com esse criador? Essa é a questão!

Por exemplo, há várias religiões no mundo, cada qual tendo o seu deus pessoal. Sendo adorado segundo seus costumes, suas tradições e seus mandamentos. Isso não é diferente com o cristianismo. Mas há uma diferença entre o cristianismo e as outras religiões, no cristianismo o Deus adorado se preocupa com a sua criatura. Coisa bem diferente dentro das outras religiões. Ainda em nível de introdução vamos ver como pensam as principais religiões mundiais. A maioria das principais religiões mundiais encaixa-se em uma dessas três categorias de visões religiosas: teísmo, panteísmo e ateísmo.

O teísta é a pessoa que acredita num Deus pessoal criador do Universo, mas que não é parte do Universo. Isso seria mais ou menos o equivalente ao pintor e a pintura. Deus é o pintor, e a Sua criação é a pintura. Deus fez a pintura, e Seus atributos estão expressos nela, mas Deus não é a pintura. As principais religiões teístas são o cristianismo, judaísmo e islamismo.

Em contraste, uma pessoa panteísta é alguém que acredita num Deus impessoal que literalmente é o Universo. Assim em vez de fazer a pintura, os panteístas acreditam que Deus é a pintura. O fato é que os panteístas acreditam que Deus é tudo o que existe: Deus é a grama, Deus é o céu, é a árvore, Deus sou eu, Deus é você. As principais religiões panteístas são orientais, tais como o hinduísmo, algumas formas de budismo e muitas formas da “Nova Era”.

Um ateu, naturalmente, é alguém que não acredita em nenhum tipo de Deus. Seguindo nossa analogia, os ateus acreditam que aquilo que se parece com uma pintura sempre existiu e ninguém a pintou. Os humanistas encaixam-se nessa categoria [1].

Resumindo: teísmo – Deus fez tudo. Panteísmo – Deus é tudo e ateísmo – não há Deus. 

Até para ser ateu deve-se ter muita fé, pois um ateu acredita que do nada todas as coisas vieram a existir, ou como dizem: tudo o que existe sempre existiu, não há um criador.

No entanto, não é isso que aprendemos aqui no Evangelho de João, pelo contrário, vemos que o Senhor Jesus não só criou o mundo e tudo que existe como também veio a este mundo para nos salvar nos tirando das trevas da ignorância espiritual. O Senhor Jesus se mostra como um Deus pessoal que se importa com o homem perdido e por isso Ele veio ao mundo salvar o homem dos seus pecados.  

O texto que lemos nos ensina algumas lições extremamente importantes em relação a este assunto. Vejamos:

A PRIMEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE O VERBO É O SENHOR DA VIDA (Jo 1.4a).

A vida é um tema-chave de João, sendo um termo usado 38 vezes neste Evangelho. Tanto a vida natural quanto a vida espiritual procedem do Senhor, pois Deus tem vida em si mesmo. Ele é autoexistente. Observe que o texto nos mostra que “Nele estava a vida e esta era a luz dos homens”. Há três palavras gregas para descrever a palavra vida: bios, psique e zoe.

1º - O sentido de bios. Bios se relaciona com o viver, denota a “vida” nas suas manifestações externas e concretas. Desde o seu surgimento, se refere ao “curso da vida”, “duração da vida” ou “modo de vida”. Bios é uma palavra rara no NT, ocorre apenas 11 vezes e tem um significado claramente temporal e finito. A “vida” (bios) é, portanto, física, temporal, curta e finita.

Por isso que a vida (bios) do homem depende de quatro coisas básicas para viver, são elas: luz (se o sol se apagasse tudo morreria), ar, água e alimento.

No entanto, Jesus é todas essas coisas! Ele é a Luz da vida e a Luz do mundo (Jo 8.12). Ele é “o Sol da justiça” (Ml 4.2). Por meio do Seu Espírito Santo, Ele nos dá o “fôlego de vida” (Jo 3.8; 20.22) e água da viva (Jo 4.10, 13,14; 7.37-39). Por fim, Jesus é o Pão da Vida que desceu do céu (Jo 6.35ss). Não apenas tem vida e dá vida, mas também é a vida (Jo 14.6) [2].
     
2º - O sentido de psique. É de onde se deriva nossa palavra “alma”. Se examinada detalhadamente, desde seus usos mais antigos, ela significa basicamente três coisas: 1) a base impessoal da vida ou a própria vida, 2) a parte interior do homem e 3) uma alma independente do corpo. No Antigo Testamento, ela significa em linhas gerais o “hálito da vida”, o “coração”, o “homem interior” ou um “ser vivente”. No NT, ela ocorre 101 vezes e significa a sede da vida, a vida inteira de alguém. Psique abrange, portanto, a totalidade da existência e vida do ser humano, com a qual se preocupa e da qual tem cuidado constante. Essa palavra equivale ao ego, à pessoa ou à personalidade do homem. Psique é a vida interior do ser humano.

3º - O sentido de zoe. A vida (zoe) se refere a própria vida de Deus comunicada aos que a receberam em Cristo. Essa vida é de qualidade superior, ilimitada (pois não é confinada ao tempo histórico) e escatológica, porque nos levará à era futura, que possui uma vida cuja duração não tem fim: a Vida Eterna. Quando Jesus disse que veio para nos dar vida e vida em abundância (Jo 10.10b), a palavra vida ali é zoe, ou seja, vida de Deus, vida eterna. A mesma palavra nós encontramos em Jo 3.16; 6.40; 6.47.

A vida que o Senhor tem para os Seus é zoe, vida de Deus! 

A SEGUNDA LIÇÃO QUE PRENDO É QUE O SENHOR TRAZ LUZ AO ENTENDIMENTO (Jo 1.4b).

Jesus é tanto luz natural da razão concedida à mente humana, como para a iluminação espiritual que acompanha o novo nascimento; nenhuma das duas pode ser recebida sem a luz que está no Verbo. O que o evangelista tem em mente aqui é a iluminação espiritual que dissipa a escuridão do pecado e da descrença [3]. Em João “luz” significa revelação que manifesta a “vida” que está em Cristo e traz juízo aos que a rejeitam (Jo 3.19).

Mas quando não há a iluminação do Espírito duas coisas acontecem:

1º - As pessoas que conhecem a letra da Palavra, mas ignoram o Espírito da Palavra. Há muitas pessoas que conhecem a Bíblia (letra), mas que agem totalmente contrários aos seus ensinamentos. São pessoas que estão em nossas igrejas, pregando em muitos púlpitos, mas totalmente cegos no conhecimento espiritual, que é a revelação da Palavra.

Em Lucas 24.44,45 nos diz que o Senhor abre o entendimento dos discípulos para entenderem as Escrituras:

“Foi isso que eu lhes falei enquanto ainda estava com vocês: Era necessário que se cumprisse tudo o que a meu respeito está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. Então lhes abriu o entendimento, para que pudessem compreender as Escrituras. (NVI).

Sem a revelação do Espírito Santo não há entendimento espiritual das Escrituras.  

2º - Há de muitas pessoas colocando as tradições religiosas em pé de igualdade com as Escrituras (Mc 7.1-13). Os fariseus apegavam-se a um conjunto de “tradições dos pais”, as quais acreditavam que, embora transmitidas oralmente e não escritas na lei, também haviam sido dadas a Moisés no monte Sinai. Os fariseus, portanto, pensavam que havia duas revelações paralelas de Deus, igualmente importantes e fidedignas: a lei escrita e a tradição oral. Durante o segundo século antes de Cristo, essas tradições orais foram registradas na forma escrita no que ficou conhecida como Mishná, uma coleção com seis divisões que contém leis sobre agricultura, festas, e casamento, junto com leis civis, penais e cerimoniais. Foi completada mais tarde com a Guemará, que é um comentário sobre ela. A Mishná junto com a Guemará formam o Talmude judaico [4].

Hoje podemos chamar isso de usos e costumes. E isso se encontra em quase todas as tradições evangélicas, principalmente as mais antigas, conhecidas como históricas. Isso tanto nas tradicionais como nas pentecostais.

Uma vez eu fui pregar em uma igreja batista no Rio de Janeiro e o dirigente do culto não estava usando gravata, imediatamente um diácono tirou a sua própria gravata e colocou no dirigente, pois sem gravata não se podia dirigir o culto naquela igreja.

O problema não está na tradição, mas no tradicionalismo. O teólogo luterano Jaroslav Pelikan, professor emérito da Universidade de Yale fez a seguinte distinção entre tradição, de um lado e o que denominou tradicionalismo, de outro. Ele diz:

“Tradição é a fé viva daqueles que já morreram. Tradicionalismo é a fé morta dos que ainda vivem”

O caso que ocorreu na igreja que fui pregar não passa de puro tradicionalismo. 
         
TERCEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE A LUZ DO VERBO DISSIPA TODA A TREVA (Jo 1.5).

Na primeira criação “Havia trevas sobre a face do abismo” (Gn 1.2) até que Deus chamou a luz à existência. Da mesma forma, a nova criação (em que o Verbo é o agente de Deus com tanta eficiência como na primeira) abrange a expulsão da escuridão espiritual pela luz que brilha no mundo. Sem luz o mundo está envolto em trevas [5].

Satanás esforça-se para manter as pessoas nas trevas, porque trevas significam morte e inferno, ao passo que luz significa vida e céu [6]. Mas João nos diz que as trevas não prevaleceram. Não se pode apagar o testemunho à verdade divina. A luz é inextinguível e inconquistável, “as trevas não prevaleceram contra ela” [6].

As trevas significam falta de conhecimento da verdade, cegueira espiritual, como nos fala Paulo em 2Co 4.4:

“O deus desta era cegou o entendimento dos descrentes, para que não vejam a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” (NVI).

Por isso, quando o Senhor ilumina a mente do homem duas coisas acontecem:

1º - O homem passa a ver o seu estado espiritual. O homem sem Deus não tem ideia do seu estado espiritual, pois as trevas o impedem de se ver como na verdade ele está. Veja o que o apóstolo Paulo nos fala em 1Co 2.14:

“Quem não tem o Espírito não aceita as coisas que vêm do Espírito de Deus, pois lhe são loucura; e não é capaz de entendê-las, porque elas são discernidas espiritualmente” (NVI).

Quando a Luz de Cristo brilha o homem discerne a diferença entre luz e trevas. Veja o que Paulo nos fala a respeito da iluminação do Espírito na mente do homem regenerado:

“Mas quem é espiritual discerne todas as coisas, e ele mesmo por ninguém é discernido; pois ‘quem conheceu a mente do Senhor para que possa instruí-lo?’ Nós, porém, temos a mente de Cristo”  (1Co 2.15,16 – NVI).

Quando a luz do Evangelho chega às trevas se dissipam, pois o homem iluminado pela verdade da Palavra têm seus olhos espirituais abertos para ver o que antes era impossível ver. 

2º - Ele passa odiar as trevas. Jesus conversando com Nicodemos disse que “a luz veio ao mundo, mas os homens amaram as trevas, e não a luz, porque as suas obras eram más. Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, temendo que as suas obras sejam manifestas Mas quem pratica a verdade vem para a luz, para que se veja claramente que as suas obras são realizadas por intermédio de Deus” (Jo 3.19-21 – NVI).

O homem sem Deus ama as trevas porque ela esconde o seu pecado, mas quem foi alcançado pelo Senhor não só abandona as trevas (pecado), como também passa a viver na luz. Veja o que João nos diz na sua primeira carta:

“Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus” (1Jo 3.9 – ARA).

Aquele que diz que é nascido de Deus e vive na prática do pecado tem que reavaliar a sua vida espiritual, pois tal não condiz com o Evangelho de Cristo.

A QUARTA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE O SENHOR ENVIA SEU ARAUTO PARA TESTEMUNHAR A CERCA DA LUZ (Jo 1.6-9).

Quando João entrou em cena, começou o grande drama do Evangelho de João. Entre os nascidos de mulher não surgiu ninguém maior do que João Batista, declarou Jesus. Ele foi o precursor de Messias [7]. O Verbo é agora contemplado em sua relação com história humana. Sua vinda foi proclamada por João, o qual não é conhecido neste Evangelho como o Batista [8]. O nome “João”, assim como numerosas variantes em muitas linguagens – John, Jean, Juan, Jon, Ivan, Giovanni – vem do Hebraico Yochanan, que significa “YHVH foi gracioso, demonstrou favor” [9]. E uma forma helenizada de Jônatas ou Joanã.

Algumas lições que podemos tirar desses versos:

1º - João é enviado por Deus (Jo 1.6). João não se lança em um projeto por livre e espontânea vontade. Ele não se fez profeta, ou melhor, o último profeta do Antigo Testamento. Ele foi comissionado por Deus para esse momento ímpar na história.

Ele não se consagrou profeta do Deus Altíssimo. João sabia o seu lugar e se posicionou nele. João serve de exemplo para muitas pessoas nos dias de hoje onde muitos se lançam em projetos em nome de Deus, mas pelas suas atitudes e pelas suas palavras questiona-se se tal pessoa se lançou nesse projeto por vontade própria ou foi comissionado pelo diabo.

O próprio Senhor nos alertou para tomarmos cuidado com muitos que viriam em seu nome. Veja o que Ele nos disse em Mt 7.15-23:

“Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores. Vocês os reconhecerão por seus frutos. Pode alguém colher uvas de um espinheiro ou figos de ervas daninhas? Semelhantemente, toda árvore boa dá frutos bons, mas a árvore ruim dá frutos ruins. A árvore boa não pode dar frutos ruins, nem a árvore ruim pode dar frutos bons. Toda árvore que não produz bons frutos é cortada e lançada ao fogo. Assim, pelos seus frutos vocês os reconhecerão! Nem todo aquele que me diz: “Senhor, Senhor”, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: “Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?”Então eu lhes direi claramente: Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês, que praticam o mal!”(NVI).

Como essas palavras tem sido urgentes nos dias de hoje!

2º - João deixa claro que ele veio como testemunha da luz (Jo 1.7). João era apenas uma testemunha da luz, ele não era a luz. No grego esta palavra testemunha é marturian, de onde vem a palavra mártir. Mártir é uma pessoa que morre por sua fé religiosa, pelo simples fato de professar uma determinada religião ou por agir coerentemente com a religião que possui.

João foi morto por Herodes por recriminar o seu pecado. Estevão por se opor aos doutores da lei e testemunhar a respeito de Jesus (At 7). Paulo foi decapitado por Nero. Pedro foi crucificado de cabeça para baixo. A história da Igreja está repleta de histórias de vários mártires. 
    
3º - João não foi além do que ele era (Jo 1.8). João não se divinizou como acontece com algumas pessoas que, ainda que não digam, se divinizam. São líderes que recebem adoração dos seus liderados. Recebem honra que deveria ser dada a Deus. São cultuados como divindades. Desses Jesus nos alertou em Mt 24.4,5:

“Jesus respondeu: Cuidado, que ninguém os engane. Pois muitos virão em meu nome, dizendo: ‘Eu sou o Cristo!’ e enganarão a muitos” (NVI).

João era o arauto da luz, e não a luz; era o amigo do noivo, e não o noivo; era a voz, e não a mensagem; era o servo, e não o senhor. Jesus é a verdadeira luz. As outras que vieram foram apenas sombras da luz verdadeira [10].

4º - João testifica que Jesus era a verdadeira luz (Jo 1.9). Nesse versículo, João emprega um vocábulo para descrever Jesus. No grego, há duas palavras para definir a “verdade”. A primeira delas é alethes, que significa “verdadeiro em oposição ao falso”. A outra palavra é alethinos, que significa “real ou genuíno em oposição ao irreal”. Jesus é a luz genuína que veio alumiar e esclarecer a humanidade. Jesus é a única luz genuína, a luz verdadeira, que guia as pessoas em seu caminho [11].

Jesus não era mais uma verdade. Ele era e é a única verdade que nos leva para o céu. Há muitos atalhos, mas só Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida, e ninguém vai ao Pai a não ser por Ele (Jo 14.6).

CONCLUSÃO

João Batista veio para testificar a respeito do Verbo mostrando que Jesus é a verdadeira luz que ilumina todo homem. João é um exemplo de fidelidade na pregação, ele não se colocou como a fonte, mas como alguém que estava ali para mostrar onde ela estava. Ele foi fiel na mensagem, pois ele era o arauto do Senhor.

João em momento algum buscou a glória para si, muito pelo contrário, ele procurou levar todos a reconhecer o Senhor Jesus como a Luz e ele simplesmente como o portador das boas novas que essa Luz traria.

Enquanto viveu ele procurou ser uma fiel testemunha de Cristo levando as pessoas a reconhecerem Jesus como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

Que possamos nos espelhar em seu testemunho e viver de tal forma que as pessoas possam encontrar Jesus através do nosso bom testemunho.

Pense nisso!

Fonte:

1 – Geisler, Norman e Turek, Frank. Não Tenho Fé Suficiente Para Ser Ateu. Editora Vida, São Paulo, SP, 2001: p. 22.
2 – Wiersbe, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo vol. 5. Editora Geográfica, Santo André, SP, 2012: p. 367.
3 – Bruce, F. F. João: introdução e comentário. Edições Vida Nova e Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1987: p. 38.
4 – Stott, John. As Controvérsias de Jesus. Editor Ultimato, Viçosa, MG, 2015: p. 59.
5 – Bruce, F. F. João: introdução e comentário. Edições Vida Nova e Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1987: p. 39.
6 – Davidson, F. M.A., D.D. O Novo Comentário da Bíblia Vol. II. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1987, p: 1063.
7 – Mears, Henrietta C. Estudo Panorâmico da Bíblia. Editora Vida, São Paulo, SP, 14ª impressão, 2002: p. 361.
8 – Davidson, F. M.A., D.D. O Novo Comentário da Bíblia Vol. II. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1987, p: 1063.
9 – Stern, David H. Comentário Judaico do Novo Testamento. Editora Atos, São Paulo, SP, 2008: p. 40.
10 – Lopes, Hernandes Dias. João, As glórias do Filho de Deus. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2015: p. 29.
11 – Ibid, p. 30.