sábado, 23 de setembro de 2017

COMO SE DEVE ORAR


Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Mateus 6.5-8

INTRODUÇÃO

Orar, jejuar e dar esmolas faziam parte do ritual de todo judeu na época de Jesus. Tanto que Ele fala a respeito dessas três coisas aqui no Sermão do Monte e, além disso, Ele ensina aos seus discípulos como eles deveriam fazer isso, não como os hipócritas que faziam para serem vistos pelos homens (Mt.6.2,5,16).

No texto de Mateus 6.5-8 o Senhor Jesus mostra aos seus discípulos algumas atitudes que eles não deveriam ter na oração e quais as atitudes corretas que eles deveriam ter. Orar é mais que falar com o Pai, é falar, mas de forma que sejamos ouvidos. Por isso que o Senhor nos alerta para termos cuidado como fazemos as nossas orações.

A oração é a bússola na vida na vida do crente, e os discípulos entenderam isso. Eles também observaram que a oração para Jesus era como o oxigênio da alma. Por isso Ele estava em constante oração. 
  
Como disse alguém: “a oração é um grito universal da alma”. Tanto e que até os ateus acham um jeito de orar. Durante os severos tempos do comunismo na Rússia, gente que acreditava no regime comunista mantinha num “cantinho vermelho” um retrato de Lênin, no lugar em que os cristãos costumavam colocar seus ícones. Tomado desse fervor, o que o Pravda (o principal jornal da União Soviética), publicou, em 1950, a seguinte orientação aos seus leitores:

Se você encontra dificuldade no trabalho ou de repente duvida da sua capacidade, pense nele – em Stalin – e encontrará a confiança de que precisa. Se você se encontra cansado numa hora em que não deveria se sentir assim, pense nele – em Stalin –, e seu trabalho correrá bem. Se você está querendo tomar uma decisão correta, pense nele – em Stalin – e chegará a essa decisão [1].

A oração é importante. Todos os que querem seguir o Senhor sabem que a oração é parte essencial da vida do discípulo. Entretanto, poucos oram e muitas vezes, quando oramos, parece que lutamos para nos expressarmos a Deus. Embora possa parecer que a oração deveria vir a nossa boca como uma expressão confortável de nossa fé e confiança em Deus, ela frequentemente parece difícil, talvez ineficaz.

Aliás, para muitos, orar é como um peso, uma luta que é travada e a pessoa se sente sempre derrotada, da mesma forma é ler a Bíblia. Por ser a oração primordial na vida do cristão ela sempre será uma luta diária. E o diabo fará de tudo para tentar nos impedir de orar. Mas nem por isso devemos deixar de orar.

Ao longo da história há relatos de muitas pessoas que tinham uma vida de oração. George Müller começava cada dia com várias horas de oração, implorando a Deus que cuidasse das necessidades práticas de seu orfanato. O bispo Lancelot Andrewes dedicava cinco horas por dia à oração e Charles Simeon levantava-se às quatro da manhã para começar o seu regime de oração [...]. Susannah Wesley, mãe ocupadíssima sem nenhuma privacidade, costumava sentar-se numa cadeira de balanço, cobrir a cabeça com um avental e orar por John e Charles e pelo resto da ninhada (ela deu à luz 19 filhos). Martinho Lutero, que dedicava duas a três horas diárias à oração, dizia que devemos orar com a mesma naturalidade com que o sapateiro faz sapatos e o alfaiate faz casacos. Jonathan Edwards escreveu sobre as “doces horas” às margens do rio Hudson, “arrebatado e perdido em Deus” [2]. No século dezenove Charles Haddon Spurgeon disse que em muitas igrejas a reunião de oração era apenas o esqueleto de uma reunião, onde as pessoas não mais compareciam. Ele concluiu que “se a igreja não ora, ela está morta” [3]. Você tem uma vida de oração?

No texto que lemos o Senhor nos dá algumas diretrizes de como deve ser a nossa oração. Ele nos dá algumas lições que são extremamente importantes para que as nossas orações possam chegar ao trono do Pai.  

PRIMEIRA LIÇÃO QUE O SENHOR NOS DÁ É QUE EXISTE UMA FORMA ERRADA DE ORAR (Mt 6.5,7).

A dificuldade com a maneira errada de orar é que sua própria abordagem é errada. Sua falha essencial é que ela se volta para dentro de si mesma. Trata-se da concentração da atenção naquele que está orando, ao invés de concentra-se nAquele para quem a oração está sendo dirigida [4].

Quando o Senhor começa a ensinar a respeito da oração Ele aponta três erros graves que estava ocorrendo com muitas pessoas de sua época, erros esses que, infelizmente, existem até hoje.

1º - O primeiro erro é a hipocrisia (Mt 6.5). A palavra hipócrita quer dizer ator. A palavra vem do grego hypokrinein, que designava, na antiga Grécia, os atores de teatro, pois durante as apresentações eles fingiam ser outras pessoas.
No caso aqui, são pessoas que fingem ser devotas e piedosas, mas na verdade são falsas. São verdadeiros atores que representam um papel no meio religioso. É aquela pessoa que não serve a Deus de coração, mas só da boca para fora. Veja como o Senhor chama tais pessoas que agem assim em Mateus 23.27,28:

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia! Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e de iniquidade”

O contexto dessa palavra nos diz que tais pessoas agem assim quando dão esmolas, oram e jejuam. Em todas essas ocasiões eles querem ser vistos pelos homens, em momento algum eles querem ser vistos por Deus. Em outras palavras, a motivação delas está nelas mesmas e receberem “aplausos” dos homens, mas estão longe de Deus.

D. Martyn Lloyd-Jones diz que o hipócrita descrito aqui é “um homem, a caminho do templo, onde ia orar, ansiava por dar a impressão que a sua alma era tão devota que não podia esperar até chegar no templo. Por esse motivo, começava a orar, postando-se de pé na esquina da rua. Pela mesma razão, ao chegar ao templo, esse homem colocava-se na posição mais destacada possível” [5].

O que tais pessoas recebem? A única recompensa que esses hipócritas recebem é serem vistos pelos homens. Tanto que a palavra traduzida por receber é apechousi, que era usada para descrever que o pagamento havia sido totalmente realizado, esta palavra era usada em recibos.

Para o hipócrita isso é o suficiente já que ele não tem compromisso com Deus! Aliás, ele não conhece a Deus.

2º - O segundo erro é a vã repetição (Mt 6.7). O que o Senhor Jesus está abordando aqui não é a repetição das orações cotidianas. Por exemplo: orar pela família, pela nossa Pátria, pela saúde. Tanto que Jesus quanto Paulo repetiam suas orações (Mt 26.36-46; 2Co 12.7,8). Uma oração é vã repetição quando as palavras não refletem um desejo sincero de buscar a vontade de Deus. É quando a pessoa ora por orar.

3º - O terceiro erro abordado por Jesus aqui que é o engano de acharem que estão sendo ouvidos por muito falarem. Fazem belas e longas orações, mas completamente vazias, falam, falam, mas não estão sendo ouvidas por Deus porque não é para Ele que tais orações estão sendo dirigidas.

Oram para que as pessoas os ouçam. Oram usando palavras e mais palavras, todas elas bem-postas para chamarem a atenção para si. E o que conseguem com isso é chamar dos homens, mas não de Deus. Tem os holofotes humanos, mas não a luz do Pai.

A SEGUNDA LIÇÃO QUE O SENHOR NOS DÁ É QUE EXISTE UMA FORMA CERTA DE ORAR (6.6,8).

C. S. Lewis disse: A oração que precede todas as orações é: “Que seja o meu verdadeiro eu quem fala. Que seja ao verdadeiro tu que me dirijo”.

Antes de nós falarmos a respeito de como se deve orar, eu só gostaria de lembrar que não é errado orar em público na igreja e muito menos de participar das reuniões de oração da igreja. Só falta agora alguém dizer que não frequenta as reuniões de oração da igreja porque ora em “secreto” em casa. O que é errado é orar para mostrar para as outras pessoas que você é uma pessoa de oração. O Senhor está condenando a atitude de espetáculo teatral que envolviam essas orações em público. E há um outro detalhe, muitas pessoas oram em público, mas não oram em particular. É gente que gosta dos holofotes, mas não da luz de Cristo.

Jesus fala a respeito do erro que os hipócritas estavam cometendo, no entanto, Ele agora se volta para os seus discípulos e os orienta de como eles deveriam orar. E Ele dá três orientações básicas em relação a oração.

1º - Devemos procurar um lugar privativo para orar – entra no teu quarto. A ideia que se tem é que a palavra quarto se refere ao aposento de dormir, mas não é. No grego a ideia que se tem é de um depósito, tanto que a palavra aqui é tameion designava uma sala-depósito ou um lugar que se guardava o tesouro. O “quarto” é um lugar onde ninguém vai nos incomodar nessa hora sublime. 

Jesus está dizendo que devemos procurar um lugar onde possamos ter privacidade para excluir certas coisas do meu campo de interesse. Entrar no quarto é acima de tudo entrar na presença de Deus e nos esquecermos das coisas ao redor. E isso pode acontecer na rua, junto de outras pessoas, na igreja... é você se fechar para tudo, inclusive para você mesmo, e orar ao Pai.

Por isso que o Senhor nos diz que devemos fechar a porta. Isto é, não estar num lugar onde as pessoas passem e possam nos ver orando. Não que não possam saber que estamos ali, mas que estamos em um lugar de oração; não é um lugar para sermos vistos orando para chamar a atenção das pessoas.

No filme “Quarto de Guerra” um dos lugares de oração era dentro de um closet.

2º - Entrar na presença de Deus. “Tu, porém... Fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto”. Se os hipócritas estavam orando na presença dos homens e para os homens verem, nós, discípulos de Jesus, devemos agir de forma contrária. Devemos entrar na presença do Pai que vê em secreto.

Observe que o Senhor falou “Tu, porém”, ou seja, a oração é pessoal. Podemos estar na presença de Deus de forma coletiva, mas a oração é pessoal. Porque o Senhor esquadrinha cada coração, cada necessidade de forma particular.

Orarás a teu Pai, que está em secreto. Devemos ter a percepção de quem Deus é, e do que Deus é. Antes de começarmos a proferir palavras, sempre deveríamos relembrar essa realidade. Deveríamos dizer para nós mesmos: “Agora estou entrando no salão do trono de Deus, o Todo-Poderoso, o absoluto, o grande e eterno Deus que brande todo poder, força e majestade, aquele Deus que é fogo consumidor, aquele Deus que é luz e em Quem não há trevas nenhuma, aquele Deus total e absolutamente santo”. E apesar de tudo isso, esse é um relacionamento entre Pai e filho [6].

Como disse o autor de Hebreus:

“De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam” (Hb 11.6).

3º - Não sermos como os hipócritas (Mt 6.8). O Senhor nos diz para não sermos semelhantes a estas pessoas que não tinham intimidade com o Pai, pelo contrário, devemos estar longe de tal atitude e de tais pessoas.

A hipocrisia é prima-irmã do orgulho. Tem gente que começa bem em sua vida de oração, no entanto, por não vigiarem acabaram caindo no laço do orgulho e da hipocrisia. Tais pessoas começam a se ver melhores que as outras, ou, muitas vezes, por serem elogiadas como pessoas de oração, passam a querer demonstrar isso diante das pessoas. Aí caem no farisaísmo hipócrita que o Senhor tanto condenou em seu ministério. Por isso vigiemos!

A TERCEIRA LIÇÃO QUE O SENHOR NOS DÁ É QUE QUEM ORA CERTO É RECOMPENSADO (6.6b,8b).

Ao nos posicionarmos de forma correta na oração duas coisas tremendas ocorrerão: Em primeiro lugar seremos recompensados pelo Senhor, e em segundo lugar, podemos descansar em seus cuidados, pois Ele sabe do que necessitamos.

1º - A recompensa dos hipócritas é serem vistos pelos homens, a recompensa do cristão que ora em secreto é que ele é visto por Deus. O Senhor está contemplando o nosso coração. E mais, quando oramos o próprio Senhor nos auxilia na nossa oração. Veja o que o apóstolo Paulo nos fala em Romanos 8.26,27:

“Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos”.

A palavra traduzida por “assistir” significa mais que “assistir”. O sentido é que o Espírito toma sobre si nossa carga não somente para nos ajudar e socorrer, mas sobretudo para nos aliviar, carregando todo o peso por nós. Nossa fraqueza nos levaria ao desfalecimento e ao desespero, não fosse a assistência do Espírito Santo [7].

Veja esse exemplo: Com a voz clara, embora trêmula, uma jovem começou sua oração com as seguintes palavras: “Deus, eu te odiei depois do estupro! Como pudeste deixar que aquilo acontecesse comigo?”. A congregação de súbito fez silêncio. Não mais se ouvia ruídos de folhas de papel ou gente se mexendo nos bancos. “Odiei as pessoas desta igreja que tentaram me confortar. Eu não queria conforto. Queria vingança. Queria retribuir a ferida. Eu te agradeço, ó Deus, por não teres desistido de mim, como também não desistiram algumas pessoas aqui. Tu continuaste a me procurar, e agora volto a ti e peço que me cures as cicatrizes da alma” [8].

Será que queremos melhor recompensa que esta? Creio que não!

 2º - “O vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais”. Quem tem vida de oração de forma correta tem todas as suas necessidades supridas. Necessidades não são os nossos caprichos. Há uma grande diferença aqui. Um pai antes de realizar o capricho de um filho, ele, em primeiro lugar, supre as suas necessidades. O nosso Pai celestial faz isso de uma forma plenamente perfeita. Por isso podemos descansar nEle.

A oração não é para fazer com que o Senhor faça a nossa vontade, mas para que a vontade do Pai seja entendida e aceita por nós. Veja o que Paulo falou em 2Co 12.7-10:

“E, para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte. Por causa disto, três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte”.

Paulo ora pedindo livramento do problema que ele estava passando, mas o Senhor o revela que o problema que ele estava enfrentando era para o seu próprio bem, “para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações”. Mas ele só recebeu essa revelação através da oração. E tem mais, ele não só a recebeu como a aceitou.

Entenda uma coisa, oração não é um ópio, um calmante para a alma, um refrigério; mas o despertamento para uma nova ação. Jesus quando esteve no Jardim do Getsêmani lutou em oração, mas quando se levantou Ele encarou com ousadia e coragem a cruz que Ele iria enfrentar.

CONCLUSÃO

Há muitas pessoas que oram, mas oram errado. São arrogantes, presunçosas; oram, mas não com humildade e dependência de Deus.

Orar, é antes de mais nada, reconhecer a nossa total dependência do Senhor. É busca-lo para termos comunhão com Ele, antes de obtermos respostas para as nossas mazelas. Orar é entrar na sala do trono e buscar do Senhor forças para enfrentarmos os perigos que nos aguardam e enfrenta-los honrando o Seu Nome.

Orar é buscar a direção certa a seguir, é pedir intrepidez para enfrentar as lutas do dia a dia louvando o Seu Nome em todo o tempo. Mas tudo isso, sem hipocrisia.

Pense nisso!

Fonte:

1 – Yancey, Philip. Oração, ela faz alguma diferença? Rd. Vida, São Paulo, SP, 2007: p. 12.
2 – Ibid, p: 14.
3 – Lopes, Hernandes Dias. Piedade e Paixão. Arte Editorial e Ed. Candeia, São Paulo, SP, 2007: p. 36.
4 – Lloyd-Jones, D. Martyn. Estudos no Sermão do Monte. Editora Fiel, São Paulo, SP, 1984: p. 312.
5 – Ibid, p: 313.
6 – Ibid, p: 318.
7 – Lopes, Hernandes Dias. Romanos, o Evangelho segundo Paulo. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2010: p. 306.
8 – Yancey, Philip. Oração, ela faz alguma diferença? Editora Vida, São Paulo, SP, 2007: p. 107.

domingo, 17 de setembro de 2017

A PARÁBOLA DA VINHA: UMA MOTIVAÇÃO ERRADA NO SERVIÇO


Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Mateus 20.1-16

INTRODUÇÃO

Somente Mateus narrou essa parábola dos trabalhadores da vinha, e esta parábola é uma continuidade do assunto anterior. Na verdade, ela é uma resposta ao que Pedro havia falado. Após a conclusão do que o Senhor Jesus havia falado sobre ser impossível uma pessoa que confia em suas boas obras ou riquezas herdar o Reino de Deus, Pedro então disse: “Eis que nós tudo deixamos e te seguimos; que será, pois, de nós?” (Mt 19.27).

Pedro estava falando como porta-voz dos doze. Eles observaram que o jovem rico havia rejeitado o discipulado do reino por ter preferido preservar as suas riquezas materiais. No entanto, os discípulos haviam deixado tudo a fim de cumprir o chamado de Cristo. Então, respondendo a esta pergunta o Senhor lhe diz que em virtude de tal atitude, eles seriam recompensados tanto nesta vida quanto na vida futura. Em outras palavras, os discípulos não estavam fazendo um sacrifício, mas sim um investimento [1].

Mas esta parábola tem como finalidade dar algumas lições importantes aos seus discípulos. Pois, até eles, corriam o risco de caírem no mesmo “buraco” que caíram os religiosos da época. A grande dificuldade dos religiosos da época de Jesus era pensar que por Israel servir ao Senhor durante tanto tempo, era merecedora de maiores privilégios. Por isso que os fariseus e outros religiosos entraram em atrito com Jesus, pois Ele, Jesus, dava tanta atenção a pecadores e até mesmo aos gentios mais que a eles. E para esses religiosos isso era inaceitável.

Quais as lições que podemos tirar desta parábola?

A PRIMEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE ESTA PARÁBOLA NÃO TEM RELAÇÃO ALGUMA COM A SALVAÇÃO.

Quando Jesus inicia esta parábola ele está respondendo a Pedro e aos demais apóstolos a respeito de servir a Deus e não sobre como se deve fazer para ser salvo.

1º - Porque a salvação não se compra. Observe que os trabalhadores que trabalharam o dia todo e os que trabalharam menos horas receberam a mesma quantia. A salvação é assim. É mediante a graça. No Reino de Deus toda recompensa depende de Sua graça e não a conquistamos por méritos humanos.

Ninguém será mais salvo se trabalhar mais, ou será menos salvo se trabalhar menos. Isso não existe no Reino de Deus. Nem mesmo perderá sua salvação como pensam alguns. Tal coisa não existe.

2º - Porque o legalismo é uma falsa virtude para se alcançar a salvação. Assim como os religiosos da época de Jesus eram extremamente legalistas, assim os discípulos poderiam se tornar também.

Definir legalismo de uma forma bíblica seria dizer “alguém que toma a Lei e a usa de uma forma que mereça a salvação”. Legalismo é uma tentativa de salvação. Este foi o problema com os judaizantes. Eles pensavam que guardar a Lei mais crer na obra de Cristo fazia uma pessoa salva. Em Gálatas 5.4, Paulo diz: “De Cristo vos desligastes, vós que procurais justificar-vos na lei; da graça decaístes”. Existiam alguns que pensavam que ser circuncidado ajudava na salvação. Mas Paulo diz que no momento que você adiciona alguma coisa à obra de Cristo, então você caiu da graça. A obra de Cristo somente justifica o ímpio (Gl 2.16; 3.11-13, 24; 6.13-14).

Isso não quer dizer que o cristão não deva dar bom testemunho, pelo contrário, o cristão dá bom testemunho porque é salvo e não para ser salvo. É o que Paulo nos fala em 1 Coríntios 6.12,13; 10.23:

“Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas. Os alimentos são para o estômago, e o estômago, para os alimentos; mas Deus destruirá tanto estes como aquele. Porém o corpo não é para a impureza, mas, para o Senhor, e o Senhor, para o corpo.  Todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm; todas são lícitas, mas nem todas edificam”.

3º - Porque Cristo requer de nós é a obediência. Nós não nos tornamos antinomianos. E aqueles que dizem que devemos nos livrar da Lei não são nada além de antinomianos heréticos. Um antinomiano é alguém que é “anti”, “contra” ou “contrário”, ao “nomos” ou “lei”. Ele diz que uma pessoa pode ser salva e nunca ter de preocupar-se em viver uma vida de obediência porque estamos debaixo da graça de Cristo. Mas Paulo rapidamente dispensa esta ideia em Romanos 5.20,21; 6.1,2, quando ele diz:

“Sobreveio a lei para que avultasse a ofensa; mas onde abundou o pecado, superabundou a graça, a fim de que, como o pecado reinou pela morte, assim também reinasse a graça pela justiça para a vida eterna, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor. Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos?”

A graça não nos isenta da obediência. Aliás, a graça nos leva a ter uma vida de obediência.

A SEGUNDA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE ESTA PARÁBOLA NOS ENSINA A RESPEITO DA GENEROSIDADE DE DEUS (Mt 20.8-15).

Observe bem o texto. O dono da vinha havia saído de madrugada para contratar trabalhadores para sua vinha. Veja que no verso 2 ele disse que pagaria um denário pelos serviços prestados. Subentende-se que foi feito um contrato de trabalho e o dono da vinha o cumpriu cabalmente.

Tanto foi que no final do dia ele foi para fazer o pagamento. O pagamento tinha de ser feito, de acordo com a lei judaica, ao pôr-do-sol, isto é, às 18 horas, no fim do dia (Lv 19.13). 
 
Todos pareciam satisfeitos até a hora do pagamento, quando aqueles que trabalharam o dia todo viram que os que trabalharam somente por uma hora receberam o mesmo que eles. É interessante que eles não reclamaram dos outros que receberam a mesma coisa.

1º - Esse texto nos ensina que a graça de Deus tem uma estridente nota de injustiça. Digo isso porque é assim que me sinto também ao ler esse texto. A graça, muitas vezes, não tem graça. Observe que os trabalhadores das primeiras horas trabalharam 1.200% a mais que os trabalhadores que trabalharam somente uma hora.

De maneira significativa, muitos cristãos que estudam esta parábola se identificam com os empregados que trabalharam o dia todo, em vez dos que trabalharam somente uma hora. Mas sabe o que isso nos ensina: que Deus nos concede dons, e não salários. Nenhum de nós recebe pagamento de acordo com o mérito, pois não somos capazes de satisfazer as exigências de Deus para uma vida perfeita. Se fôssemos pagos com base na justiça, todos iríamos para o inferno.

Só um detalhe: Jesus não estava ensinando uma norma a ser aplicada, mas estava fazendo uma aplicação espiritual.

2º - Esse texto nos ensina que a graça é igual para todos. Por isso é graça. Entenda que o Senhor nos ama pelo que Ele é, e não pelo que somos; e, infelizmente, nós somos muito egoístas. Por que nos identificamos tanto com os primeiros trabalhadores murmuradores? Porque nós não aceitamos a graça sobre a vida dos outros muitas vezes. Queremos para nós, mas não para os outros. Principalmente para quem nós não gostamos.

3º - Esse texto nos ensina que a graça vem para todos de forma igual porque o Senhor pagou um alto preço por nós (Rm 5.6-8).

“Porque Cristo, quando nós ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios. Dificilmente, alguém morreria por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém se anime a morrer. Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores”.

Por isso que não há nada que possamos fazer para Deus nos amar mais e que não há nada que possamos fazer para que Deus nos ame menos. Preste atenção no que a Bíblia nos fala: “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores”.

Por isso a graça é gratuita. Não há nada que possamos fazer para tê-la em maior proporção e nem tem como diminuí-la em nossas vidas.

No filme “O Último Imperador”, a criança ungida como o último imperador da China vive uma vida mágica de luxo com mil eunucos à sua disposição para servi-lo. “O que acontece quando você faz alguma coisa errada?”, pergunta o irmão. “Quando eu faço alguma coisa errada, outra pessoa é castigada”, o imperador-menino responde. Para demonstrar o que estava falando, ele quebra um jarro e um dos servos é espancado. Na teologia cristã, Jesus inverteu esse padrão antigo: quando os servos erram, o Rei que é punido. A graça é gratuita apenas porque o próprio doador assumiu o preço.

A lição para os discípulos fica clara. Não devemos servi-lo por esperar recompensas nem em insistir em saber o que receberemos. Deus é infinitamente generoso e bondoso e sempre nos dará mais do que merecemos. É isso que Paulo nos diz em Efésios 3.20,21:

“Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!”

A TERCEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE CORREMOS PERIGO DE SERMOS COMO OS PRIMEIROS LAVRADORES (Mt 19.27; 20.10-15).

Foi devido à pergunta de Pedro é que esta parábola foi contada. A intenção de Jesus foi reforçar o seu ensino a respeito da graça salvadora de Deus. Esta graça é igual para todos. No entanto, assim como Pedro, nós corremos alguns perigos.

1º - O primeiro perigo que corremos é supormos que merecemos receber mais quando, na verdade, não merecemos (Mt 20.10). A parábola passa em branco a respeito dos trabalhadores das outras horas e só foca nos primeiros e nos últimos. Na cabeça dos primeiros trabalhadores eles iriam receber ao menos o dobro dos demais, mas não foi isso que ocorreu.

É possível alguém fazer a obra de Deus, no entanto, com a motivação errada como nos fala Paulo em Efésios 6.5,6:

“Quanto a vós outros, servos, obedecei a vosso senhor segundo a carne com temor e tremor, na sinceridade do vosso coração, como a Cristo, não servindo à vista, como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo, de coração, a vontade de Deus”.

Veja também o que Paulo nos fala em 1 Coríntios 15.9-11:

“Porque eu sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo, pois persegui a igreja de Deus. Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo. Portanto, seja eu ou sejam eles, assim pregamos e assim crestes”.

Vemos essa verdade em 2 Coríntios 11.22-33, e no capítulo 12 ele começa a contar da sua ida ao terceiro céu.

Servir ao Senhor em função de recebermos benefícios é perder as melhores bênçãos que Ele tem para nós. E esta bênção é a Sua presença conosco todos os dias.

2º - O segundo perigo que corremos é nos tornarmos orgulhosos. Pedro disse para Jesus que eles haviam deixado tudo por Ele e seu Reino, que será de nós?, pergunta ele. Pedro está fazendo um paralelo entre a atitude do jovem rico e a dos discípulos.

Aqui é que mora o perigo. É deixarmos tudo por Cristo e nos sentirmos orgulhosos devido a nossa decisão, quando na verdade foi o Senhor quem nos chamou (Jo 15.16).

O problema é pensar que por sermos seus discípulos somos melhores que as outras pessoas, quando na verdade deveríamos ser como Jesus, mansos e humildes de coração (Mt 11.29).

3º - O terceiro perigo é de observarmos os outros trabalhadores e comparar resultados (Mt 20.11,12). Muitas pessoas correm esse perigo de se verem melhores que os outros por “fazerem” mais em prol do Reino. Devemos tomar muito cuidado, pois afinal de contas o que o Senhor vê não são os resultados ou até mesmo o nosso desempenho, mas qual é a nossa motivação. Há uma diferença entre fazer para aparecer e aparecer para fazer.

4º - O quarto perigo é acharmos que o Senhor foi injusto conosco (Mt 20.13-15). Observe que o senhor da vinha havia dado aos trabalhadores o que havia combinado com eles. Em momento algum eles foram prejudicados. O problema é que eles ficaram achando que receberiam mais por terem trabalhado mais. É o que falamos anteriormente, há pessoas que veem a graça de Deus como injusta, pois acham que Deus não deveria dar as outras pessoas a mesma graça por eles recebida.

Entenda uma coisa: nenhum de nós merecíamos coisa alguma. Tudo que vem de Deus para nós é lucro, até a morte, como disse Paulo (Fl 1.21).

Cuidado para que a inveja não o domine e você se torne uma pessoa amarga e mau agradecida. Observe que o versículo 11 diz: “Mas, tendo-o recebido, murmuravam contra o dono da casa”.

Eles murmuravam por terem trabalhado mais que os outros e terem recebido a mesma coisa. Quem não entende a graça sempre irá ver o Senhor como um injusto. É só olharmos para a parábola do filho pródigo e vermos a reação do irmão mais velho. Ali está o retrato exato do que estamos falando aqui.

A graça revela o caráter!

CONCLUSÃO 

Os benefícios do reino de Deus, Jesus deixa isso aqui de forma clara, são os mesmos para todos quantos se sujeitarem ao governo do seu rei, sempre que se colocarem sob seu domínio. Nesta questão os judeus não têm precedência sobre os gentios; e o homem que se converte cedo em sua vida não está por isso credenciado a obter de Deus melhor tratamento do que o homem que é muito mais velho quando passa pela experiência do novo nascimento, pois todos receberam igualmente o melhor tratamento [2].

Fonte:

1 – Wiersbe, Warren W. Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, v.5. Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2012: p. 95.
2 – Tasker, R. V. G. Mateus, introdução e comentário. Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1985: p. 151.

domingo, 10 de setembro de 2017

QUANDO A IGREJA ORA


Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Atos 12.1-24

INTRODUÇÃO

Depois do martírio de Estêvão quando ele é apedrejado até a morte (At 7.59,60), começa a perseguição à Igreja de Cristo (At 8.1-3). O diabo desde o princípio tentou exterminar a Igreja, pois ela era e é a continuidade do ministério do Senhor Jesus (At 1.1). Não pense você que os dias de refrigério para a Igreja chegaram, muito pelo contrário, continuamos em guerra, principalmente em guerra pela Verdade.

Se em alguns países há uma guerra declarada contra os cristãos, inclusive os levando à morte, nós, aqui em nosso país, travamos uma outra guerra, a guerra por um Evangelho Puro e Simples. Uma guerra contra as heresias que têm assolado a igreja brasileira. A luta da Igreja só irá terminar quando o Senhor voltar para busca-la. Refrigério só encontraremos no Céu. Enquanto estivermos aqui haverá lutas e perseguições.

O texto que lemos é um exemplo de como a Igreja está em guerra, ele nos mostra como as forças das trevas tem feito de tudo para destruí-la. Nesse texto de Atos 12 nós vemos que Satanás atacava a Igreja em duas frentes: através da perseguição religiosa e através da perseguição política.

Entenda uma coisa, a nossa luta não é contra as pessoas, mas contra o diabo e as suas hordas como nos fala Paulo em Efésios 6.10-12:

“Quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo; porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes”.

A primeira foi a perseguição religiosa – os judeus foram os principais inimigos no início do cristianismo. Perseguiram Cristo e o levaram a cruz. Doravante, queriam matar os seus seguidores. Já haviam apedrejado Estêvão e encerrado os apóstolos em prisão duas vezes. E agora, rendidos à bajulação, incentivavam Herodes a agir com mão de ferro para matar os líderes da igreja.

A segunda foi a perseguição política – Herodes Agripa I já havia prendido alguns cristãos para maltratá-los, já havia passado ao fio da espada Tiago, irmão de João, e, agora, encerrara Pedro na prisão até o fim da Festa da Páscoa para, então, sentenciá-lo à morte [1].

Esse Herodes que é citado aqui era neto de Herodes, o Grande, que havia mandado matar as crianças de Belém. Este Herodes não é o mesmo dos Evangelhos. O Herodes dos Evangelhos era Herodes Antipas, que foi um dos filhos de Herodes, o Grande. O que mandou matar João Batista e, posteriormente, participou do julgamento de Jesus. O Herodes aqui aludido era filho de Aristóbulo e irmão de Herodias e sobrinho de Herodes Antipas.

Quando Aristóbulo foi assassinado no ano 7 a.C., ele foi levado a Roma onde manteve íntimos contatos com a família imperial e era amigo íntimo de Gaio (Calígula), o qual, ao subir ao poder, deu-lhe o título de “rei” no ano 37 d.C, a pedido de seu tio, Herodes Antipas. Com o assassinato de Gaio (Calígula) em 41 d.C., Herodes Agripa I ajudou na ascensão de Cláudio ao poder. Devido a isso, ele se volta contra o tio e o com a ajuda do Imperador Cláudio, Antipas é deposto e exilado. Com isso, Herodes Agripa I passa a reinar em lugar do tio e possuindo um território tão grande quanto do seu avô.

Os Herodes eram de descendência iduméia, ou seja, eram descendentes de Esaú. Mas por ser sua avó Mariane, uma princesa judia da família dos macabeus, Herodes Agripa I poderia alegar ascendência judaica. Tanto que diariamente ele oferecia sacrifícios no templo em Jerusalém. Ele era tão bem quisto entre as autoridades judaicas que lhe era permitido ler, em público, uma passagem da lei. Devido a isso, os judeus o aceitavam como um dos seus. No entanto, ele não passava de um político astuto que queria se beneficiar em seu cargo.

Vendo que a perseguição a igreja trouxe alguns benefícios políticos diante das autoridades judaicas, Herodes então manda prender também a Pedro, para, posteriormente, mandar mata-lo. Diante de mais esse ocorrido a igreja então busca o Senhor intercedendo pela vida do apóstolo.

Quais as lições que podemos tirar desse episódio?

A PRIMEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE QUANDO POLÍTICA E RELIGIÃO SE UNEM A IGREJA SOFRE (At 12.1-4).

Observe que o texto nos diz que quando Herodes prende alguns da igreja ele viu que isso agradava aos judeus. O governo romano, na pessoa de Herodes, se une a religião judaica para alcançar um “bem” comum. Devido a isso a igreja do Senhor Jesus passa sofrer maiores perseguições, pois já não era local, mas regional. Houve uma união entre o judaísmo e o Estado Romano com o intuito de destruir a Igreja. No entanto essa perseguição mantinha a igreja saudável em sua essência, pois ser cristão naquela época, pelo menos para a maioria, era sinônimo de fidelidade a Cristo.

A igreja sofre quando a política e a religião se unem por duas razões básicas.

1º - A primeira é por ela ser perseguida pela sua fidelidade a Cristo. A Igreja nos seus primórdios sempre se manteve fiel a Cristo. Mesmo sofrendo grandes perseguições ela não abriu mão da sua fidelidade ao Senhor. Vemos isso ao lermos a carta aos Hebreus onde o autor fortalece a fé dos cristãos que estão sendo perseguidos:

“Lembrai-vos, porém, dos dias anteriores, em que, depois de iluminados, sustentastes grande luta e sofrimentos; ora expostos como em espetáculo, tanto de opróbrio quanto de tribulações, ora tornando-vos coparticipantes com aqueles que desse modo foram tratados. Porque não somente vos compadecestes dos encarcerados, como também aceitastes com alegria o espólio dos vossos bens, tendo ciência de possuirdes vós mesmos patrimônio superior e durável. Não abandoneis, portanto, a vossa confiança; ela tem grande galardão. Com efeito, tendes necessidade de perseverança, para que, havendo feito a vontade de Deus, alcanceis a promessa. Porque, ainda dentro de pouco tempo, aquele que vem virá e não tardará; todavia, o meu justo viverá pela fé; e: Se retroceder, nele não se compraz a minha alma. Nós, porém, não somos dos que retrocedem para a perdição; somos, entretanto, da fé, para a conservação da alma” (Hb 10.32-39 – ARA).

A primeira carta de Pedro também tem como finalidade o fortalecimento da fé dos cristãos que estavam sendo perseguidos também. Veja:

“Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos eleitos que são forasteiros da Dispersão no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia, eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo, graça e paz vos sejam multiplicadas. Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse acontecendo; pelo contrário, alegrai-vos na medida em que sois coparticipantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação de sua glória, vos alegreis exultando. Se, pelo nome de Cristo, sois injuriados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória e de Deus. Não sofra, porém, nenhum de vós como assassino, ou ladrão, ou malfeitor, ou como quem se intromete em negócios de outrem; mas, se sofrer como cristão, não se envergonhe disso; antes, glorifique a Deus com esse nome. Porque a ocasião de começar o juízo pela casa de Deus é chegada; ora, se primeiro vem por nós, qual será o fim daqueles que não obedecem ao evangelho de Deus? E, se é com dificuldade que o justo é salvo, onde vai comparecer o ímpio, sim, o pecador? Por isso, também os que sofrem segundo a vontade de Deus encomendem a sua alma ao fiel Criador, na prática do bem” (1Pe 1.1,2, 4.12-19 – ARA).

Observe o texto que Herodes prende alguns da igreja, mas manda matar a Tiago, irmão de João. Jesus tinha advertido Tiago e João, que lhe haviam pedido os melhores lugares no seu reino, que eles beberiam de seu cálice e compartilhariam o seu batismo, ou seja, participariam de seus sofrimentos. E foi isso o que aconteceu. Tiago é decapitado enquanto que Pedro foi preso para ser morto também posteriormente.

Não sabemos porque o Senhor permitiu a morte de Tiago e soltou Pedro da prisão. Uma coisa nós podemos afirmar: Deus é Deus quando nos livra da morte e quando nos leva para a Sua presença. A uns Deus livra da morte; a outros, Deus livra na morte. Em todo tempo ele é Deus. Como disse Paulo em Filipenses 1.21-23:

“Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro. Entretanto, se o viver na carne traz fruto para o meu trabalho, já não sei o que hei de escolher. Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor”.

2º - A segunda é quando ela se une a política para não ser perseguida.
Charles Swindoll em seu livro A Igreja Desviada faz essa citação:

“No início a igreja era uma comunidade de homens e mulheres centrada em Cristo vivo. Então, a igreja mudou-se para a Grécia, onde se tornou uma filosofia. Em seguida, mudou-se para Roma, onde tornou-se uma instituição. Depois, mudou-se para a Europa, onde se tornou uma cultura. Por fim, mudou-se para o continente americano, onde se tornou uma empresa” [2].

A igreja de Cristo começou a passar por uma grande crise de identidade a partir da conversão do Imperador romano Constantino. Conversão esta que é considerada o fato mais emblemático na história do Cristianismo, depois dos relatos bíblicos. Como decorrência desta "conversão" em 313, ele assinou um decreto, conhecido como "Edito de Milão" ou "Edito da Tolerância", no qual a religião surgida a partir dos ensinamentos de Jesus Cristo deixou para trás os tempos de clandestinidade no Império Romano, (porém o reconhecimento como a religião oficial do Império só viria a acontecer mais tarde, com Teodósio). Além disso, a promulgação do Edito serviu como pontapé inicial para a Igreja de Roma, aos poucos, alcançar a primazia religiosa que sustenta até hoje.

A explicação oficial para esta, suposta, conversão é que na noite anterior à uma das inúmeras batalhas empreendidas pelo exército dirigido por Constantino, este teria sonhado com uma cruz, na qual havia a seguinte inscrição:

“Sob este símbolo vencerás!”

Na manhã seguinte, ele ordenou que fosse pintada uma cruz em todos os escudos da soldadesca e a batalha resultou numa esmagadora vitória do seu exército. A partir daquele momento, Constantino, passou a se confessar cristão. Sendo esta a razão, inclusive, para a cruz ter se tornado o símbolo do cristianismo.

A partir daí a igreja deixou de ser perseguida e passou ser aceita como a religião do imperador. Com isso a igreja passou momentos de refrigério, mas também começou a se unir ao Império e a se afastar da cruz de Cristo e de Seus ensinamentos. Pois em pouco tempo a igreja estava envolta com muitos misticismos, pois muitos pagãos foram para a igreja, mas não abandonaram os seus costumes na adoração de seus deuses. Com isso a igreja virou um sincretismo.

A igreja se afastou tanto dos ensinamentos de Cristo que o Senhor levantou homens para tentar trazer a igreja de volta aos trilhos. Por fim, no ano de 1517 Martinho Lutero escreve as suas 95 teses contra a igreja oficial, pois tal igreja estava totalmente longe das verdades bíblicas. Com isso surge então o que foi chamado de Reforma Protestante. Tudo isso porque a Igreja virou uma instituição política e religiosa. Tanto que o Vaticano é um país e o Papa um chefe de Estado.

A igreja hoje está enfrentando uma grande crise, pelo menos a igreja brasileira, pois ela está envolvida na política; seja na secular, seja na institucional.

Veja o absurdo de uma notícia que circulou na internet que dizia o seguinte: “O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) deve receber em breve o pedido de registro da 36º legenda brasileira. Trata-se de PRC (Partido Republicano Cristão) que está sendo criado com ajuda da Assembleia de Deus, a maior igreja evangélica do Brasil. Eles são 30% dos 42 milhões de fiéis, segundo o Censo 2010. Em um país onde o percentual de evangélicos sobe a cada ano, não será difícil se coletar o número mínimo de assinaturas para formar um novo partido. São necessárias 486 mil, equivalentes a 0,5% dos votos válidos na última eleição para a Câmara” [3].

Não precisamos nos prolongar nisso aqui. Basta olharmos os púlpitos de muitas igrejas por aí na época das eleições. Os púlpitos tornam-se palanques onde candidatos fazem os seus discursos, e o pior, os pastores fazem de suas igrejas curral eleitoral.

A SEGUNDA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE A PERSEGUIÇÃO FAZ COM QUE A IGREJA TENHA A MAIS FERVENTE ORAÇÃO (At 12.5; At 4.23-31).

Diante do ocorrido a igreja ora. Mesmo depois que Tiago havia morrido, a igreja continuou crendo que Pedro poderia ser livre da prisão através da intervenção divina. A fé não pode estar firmada em cima de circunstâncias, a fé deve estar firmada somente em Deus que age além das circunstâncias.

Tanto que o autor da carta aos Hebreus 11.6 nos diz:

“De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam”.

A arma do cristão é a oração. Não há como vencermos o mundo, a carne e o diabo sem oração. John Stott diz que havia duas comunidades, o mundo e a igreja, colocadas uma contra a outra, cada qual fazendo uso de suas armas. De um lado estava a autoridade de Herodes, o poder da espada e segurança da prisão. Do outro lado, a igreja se voltou à oração, a única arma daqueles que não têm poder [4].

A igreja podia não ter poder no sentido bélico, mas tinha o poder do alto. Eles criam no Senhor que intervém.

As palavras “mas havia oração incessante a Deus por parte da igreja a favor dele” constituem o ponto crítico desta história. Não devemos subestimar o poder de uma igreja que ora! [5].

David H. Stern nos fala de cinco pontos a respeito da oração: a oração precisa ser 1) intensa, não casual; 2) contínua (faziam-se; o tempo do verbo grego implica atividade contínua; 3) a Deus – em contato genuíno com o Deus vivo (o que é possível apenas por meio do Senhor Jesus, Jo 14.6), não com repetições vazias (Mt 6.7) e nem com incredulidade (Hb 11.6); 4) específica, não vaga (a favor dele); e 5) comunitária (feita pela comunidade) – o cristão não foi chamado para uma vida de isolamento; nem mesmo as orações particulares devem ser autocentradas, mas devem refletir a participação do Corpo de Cristo [6].

1º - A oração deve ser intensa. A palavra grega usada em Atos 12.5 é ektenos, que significa “incessante, com fervor”. É a mesma palavra usada para descrever a agonia de Jesus no Getsêmani (Lc 22.44). Entenda uma coisa, a única arma que nós crentes temos é a oração, tanto que Tiago em sua carta nos diz que se está alguém entre vós sofrendo? Faça oração (Tg 5.13); e no versículo 17 e 18 ele nos dá o exemplo de Elias, que apesar de ser profeta, era homem como qualquer um de nós, no entanto ele orou com insistência e não choveu por três anos e seis meses e orou, de novo, e o céu deu chuva e a terra fez germinar seus frutos.

2º - A oração deve ser contínua. Eles não desistiram de orar. Certamente que a igreja não havia esquecido as últimas duas prisões de Pedro, decretadas pelo Sinédrio (At 4.3; 5.18). E, principalmente quanto à segunda prisão dos apóstolos, quando um anjo do Senhor havia aberto as portas do cárcere, libertando-os (At 5.19).

3º - A oração deve ser dirigida a Deus. Você certamente vai dizer que isso é o lógico. Mas quando falamos que a nossa oração deve ser dirigida a Deus é no sentido de reconhecermos a Sua soberania e a Sua autoridade diante das autoridades terrenas. Tem gente que pensa que seu problema é tão grande que nem Deus tem poder para resolvê-lo. É saber que Aquele que está assentado no trono é o único que pode intervir pelas nossas vidas (Ap 4.1-11; 5.13,14).

4º - A oração deve ser específica. Os crentes estavam orando por Pedro, para que o Senhor o livrasse. Não era uma oração vaga, mas uma oração a favor dele. Não há causa perdida quando colocada diante de Deus em oração. Deus pode tudo quando Ele quer, pois para Ele nada é impossível. Ele é o Deus que fez, faz e fará maravilhas, quando quiser, onde quiser, com quem quiser, para louvor de sua glória [7].

5º - A oração deve ser comunitária. A igreja se reúne na casa de Maria, mãe de João Marcos para clamar pela vida de Pedro. Provavelmente haviam outros irmãos em outros lugares também fazendo a mesma oração. Mas o que queremos dizer é que devemos orar juntos e não de forma isolada. Devemos, dentro do possível, dividir as nossas dores para que juntos, como igreja unida, buscarmos ao Senhor. Orar é unir-se ao Onipotente!

A TERCEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É O QUE ACONTECE QUANDO A IGREJA ORA (At 12.6-17).

A quantidade de escoltas para manter Pedro preso é incrível. Herodes toma todo tipo de precaução para evitar que Pedro escape. As esquadras que vigiam Pedro eram incomuns no Império Romano, em que um grupo de quatro soldados faz rodízio em cada posto de vigilância, cada grupo ficando de guarda por um período de três horas antes de ser dispensado. Herodes designa quatro dessas escoltas, um total de dezesseis soldados para a tarefa de vigiar Pedro. Talvez ele estivesse com medo de uma fuga ou de um resgate; mas é bem provável que ele havia sabido do que havia acontecido quando os apóstolos foram presos e de como eles haviam sumido de dentro da prisão (At 5.17-25).

Pedro já estava na prisão sete dias. Ele ficou durante o período da Festa da Páscoa. Durante todo esse tempo a igreja permaneceu em oração, e Pedro permaneceu sereno, exatamente naquele que seria a última noite da sua vida. Ele sabia que seria sentenciado à morte no dia seguinte [8].

Diante desse quatro podemos aprender algumas lições.

1ª – Não há cadeias que o Senhor não abra para livrar os seus servos (At 12.6). A situação de Pedro, dentro do natural, parecia sem esperança. Duas cadeias o acorrentavam aos dois soldados que dormiam, um de cada lado dele; guardas em frente a porta guardavam a prisão. No entanto, o que é isso para Aquele que detém todo poder e autoridade?

O Senhor poderia ter tirado Pedro assim que ele foi preso, mas o Senhor permitiu que ele continuasse preso por sete dias. Creio que seja para nos mostrar que o agir é dele e no tempo dele e não no nosso. Por isso que o seu livramento foi na última hora.

2ª – A oração do justo pode muito em seus efeitos (At 12.7-11). De repente aparece um anjo do Senhor – vemos aqui, mais uma vez, o ministério dos anjos (Hb 1.14). Sendo que tudo isso ocorreu porque a igreja estava em oração.

Observe que o anjo quando aparece resplandece uma luz em toda prisão, mas nenhum dos soldados percebeu a presença desse ser angelical ali. Nem mesmo Pedro se deu conta da sua presença. Foi necessário o anjo tocá-lo para que ele acordasse. A palavra empregada aqui nesse texto dá a ideia de que o anjo lhe deu um tapa forte para que ele despertasse do sono profundo que se encontrava. Uma igreja que ora faz toda a diferença na terra, pois uma igreja que ora está ligada ao trono da graça.

Muitos milagres ocorrem em nossas vidas e ficamos como quem sonha tal é a extensão do milagre.

Conta-se a história de uma mulher crente, casada com um descrente. Esta, sempre insistia para que o seu marido fosse à igreja. Ele não queria nem ouvir falar de Deus. Sempre ele dizia: - meu deus é minha arma e meus dois cachorros. Sua esposa sempre antes de dormir orava por ele pedindo ao Senhor que salvasse o seu marido. Ela sempre lia o Salmo 61.1: “Ouve, ó Deus o meu clamor; atende à minha oração”. Um determinado dia, entrou um ladrão em sua casa e ele ao ouvir os latidos dos cachorros, atirou e matou o ladrão. Quando sua esposa apareceu, ele disse: Está vendo? Os cachorros avisaram e minha arma atirou. Meu deus é minha arma e meus cachorros. A mulher permaneceu orando todas as noites, pedindo que o Senhor transformasse o seu marido. Numa certa noite, um ladrão entrou naquela casa, sem que os cachorros percebessem. Ao chegar na sala, ele se deparou com uma Bíblia aberta no Salmo 61. Ele pegou uma grande faca e estava determinado a tirar a vida do casal para depois roubar-lhes os pertences, quando de repente ele houve uma voz em oração que dizia - salva, Senhor, o meu esposo. Quando o ladrão ia entrar no quarto, mais uma vez ele se deteve próximo à Bíblia aberta e com a voz daquela mulher fiel em sua consciência: - salva senhor o meu esposo. Ele ficou uma boa parte da noite com a faca na mão, mas sem forças para entrar no quarto. De repente ele largou a faca em cima da mesinha, ao lado da Bíblia e fugiu daquela casa. Ao amanhecer, ao acordar, o marido descrente observou que sua casa havia sido invadida, pois a janela estava aberta. Foi então que chamou a esposa e disse sobre o ocorrido e ainda viram aquela grande faca em cima da mesinha da Bíblia. Foi então que aquele homem disse: - É verdade, nem meus cachorros, nem minha arma impediram o ladrão de entrar aqui. Sua esposa disse que eles estarem vivos foi uma providência divina, mas ele insistiu que mesmo assim, seu deus era a arma e os cachorros.

Tempos depois, aquele homem descrente, foi participar de uma guerrilha e foi abandonado quase morto à beira de um rio. Apareceu um desconhecido que o levou para sua choupana, cuidou dos seus ferimentos, até que ele ficou melhor. O descrente então deu o endereço da sua esposa e o desconhecido foi chamá-la. Na hora da despedida o descrente perguntou para o homem que havia cuidado dele, como poderia agradecer-lhe pela generosidade em salvar-lhe a vida. O desconhecido disse: - agradeça a sua mulher que orou por você, naquela noite que eu entrei em sua casa para matar vocês. Eu era o ladrão e ouvir sua mulher orando e vi a Bíblia aberta. Não consegui matá-los e hoje eu sou um homem convertido, e você um homem vivo, graças às orações de sua mulher. Naquele momento, o marido descrente, que se dizia ateu, se tornou um crente em Jesus Cristo. Quanto poder tem uma oração sincera e perseverante.

3ª – A oração respondida sempre irá surpreender a igreja (At 12.12-17). Pedro imediatamente foi ao encontro dos seus amigos que estavam em oração por ele. De acordo com a tradição posterior, foi na casa de Maria e seu filho João Marcos que aconteceram a última ceia e o Pentecostes. Parece que era uma casa bem espaçosa não só por causa do número de pessoas que podiam se reunir nela, mas também porque tinha um pátio na frente e um portão externo pelo qual a pessoa tinha aceso à casa [9]. 

Observe que Rode – Roseira em grego, ficou tão surpresa que nem se quer lhe abriu o portão para que ele pudesse entrar. É irônico que o povo que estava orando com fervor e persistência pela libertação de Pedro pudesse considerar louca a pessoa que lhes informava que suas orações haviam sido respondidas! A alegria simples de Rode brilha fortemente contra a escura incredulidade da igreja [10].

Como nos fala o Salmo 126.1: “Quando o SENHOR restaurou a sorte de Sião, ficamos como quem sonha”.

Há momentos que a resposta das nossas orações parece um sonho diante de um grande pesadelo que muitas vezes estamos enfrentando. Por isso não podemos esmorecer em nossas orações. Deus sempre nos surpreende. Como nos fala Paulo em Efésios 3.20,21:

“Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!”

A partir desse episódio, Pedro não é mais citado no livro de Atos. Ele tem uma breve aparição no Concílio de Jerusalém (At 15), mas a partir daí fica completamente ausente do relato do livro de Atos daqui para frente.

QUARTA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE O SENHOR SEMPRE ENVERGONHA OS SEUS INIMIGOS (At 12.18-23).

O apóstolo Pedro, anos mais tarde, escreveu sua primeira carta e, possivelmente, relembrando essa experiência vivida na prisão, registrou:

“Porque os olhos do Senhor repousam sobre os justos, e os seus ouvidos estão abertos às suas súplicas, mas o rosto do Senhor está contra aqueles que praticam males” (1Pe 3.12).

Lutar contra Deus e contra sua igreja é a mais consumada loucura. Ninguém jamais lutou contra o Altíssimo e prevaleceu. Ninguém jamais perseguiu a igreja de Deus e logrou êxito duradouro. Os inimigos de Deus podem parecer fortes, insolentes e vitoriosos, mas eles cairão. Tornar-se-ão pó e serão reduzidos a nada [11].

Podemos tirar duas grandes lições desse texto:

1ª – Deus sempre envergonha os seus inimigos (At 12.18,19). Diante do ocorrido os soldados ficaram confusos e desesperados. O prisioneiro simplesmente desapareceu. Sumiu como fumaça. E segundo a lei romana, se um guarda deixasse um prisioneiro escapar, deveria receber o mesmo castigo que o prisioneiro teria recebido, mesmo que fosse a pena de morte (At 16.27; At 27.42). E foi o que Herodes mandou fazer com esses soldados (At 12.19).

Depois disso, provavelmente zangado, desgostoso e desapontado, Herodes deixou a Judéia (isto é, Jerusalém) e foi para a outra capital provincial (Cesareia) e ficou por lá. Ele achava que tinha sido envergonhado em Jerusalém, por isso nunca lá voltou [12].

A Bíblia é bem clara quando nos diz em Provérbios 11.8:“O justo é libertado da angústia, e o perverso a recebe em seu lugar”.

2ª – A soberba precipita a ruína (At 12.20-23). Herodes tinha uma contenda antiga com o povo de Tiro e Sidom já havia algum tempo. Os habitantes dessas duas cidades portuárias da Fenícia eram rivais da Cesareia no comércio, mas dependiam das colheitas de grãos de Israel para se alimentarem. Como bons políticos, eles subornaram Blasto que era o principal oficial de Herodes para convencer o rei a se encontrar com a delegação estrangeira. Esta era a oportunidade para o rei orgulhoso como era demonstrar sua autoridade e glória e receber lisonjas.

De acordo com o historiador judeu Josejo, a cena ocorreu durante uma festa em homenagem ao imperador Cláudio e, nessa ocasião, Herodes vestia belíssimo traje de prata. Foi no segundo dia da festa que Herodes entrou na arena ao romper do dia. Quando os primeiros raios de sol tocaram seu manto, ele ficou todo iluminado pelo reflexo da luz solar. Herodes começa então fazer o seu discurso, mas seu objetivo era impressionar o povo. E conseguiu! Falaram ao ego do rei e lhe disseram que ele era um deus, deixando-o absolutamente elevado.

Mas o texto nos diz que Herodes não deu glória a Deus, de modo que essa cena toda não passou de idolatria (Is 42.8; 48.11). Herodes que já era moralmente podre, tornou-se fisicamente, tal qual uma madeira podre. Em vez de Pedro ser morto por Herodes, Herodes é que foi morto pelo Deus de Pedro. O anjo que livrou Pedro da prisão foi enviando para matar Herodes, assim como ele mandou matar os inocentes soldados.

Segundo Josefo, Herodes morreu cinco dias depois, no ano 44 d.C. com uma doença que atacou os seus intestinos, sofrendo dores torturantes no ventre.

Nada disso impediu o contínuo crescimento da Igreja ou a propagação do evangelho na Palestina e em outras partes do mundo. Apesar da morte de Tiago, da prisão de Pedro e do sofrimento de alguns irmãos, da atitude e morte de Herodes, a palavra de Deus crescia e se multiplicava.

CONCLUSÃO

Quando a Igreja ora os céus se movem a nosso favor, ainda que não pareça que esteja agindo assim. O nosso Deus é o Justo Juiz, mas nem sempre julga a nossa causa de imediato, mas nem por isso devemos duvidar do seu agir.

A Igreja deve orar em todo tempo, para que no tempo pré-estabelecido pelo próprio Senhor Ele venha agir em prol de seu povo. Como nos fala em Apocalipse 6.9-11:

“Quando ele abriu o quinto selo, vi, debaixo do altar, as almas daqueles que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho que sustentavam. Clamaram em grande voz, dizendo: Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas, nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra? Então, a cada um deles foi dada uma vestidura branca, e lhes disseram que repousassem ainda por pouco tempo, até que também se completasse o número dos seus conservos e seus irmãos que iam ser mortos como igualmente eles foram”.

Orar sem cessar essa é a ordem que o Senhor nos dá.

Pense nisso!

Fonte:

1 – Lopes, Hernandes Dias. Atos, a ação do Espírito Santo na vida da igreja. Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2012: p. 234.
2 – Swindoll, Charles. A Igreja Desviada – uma chamada urgente para uma nova reforma. Ed. Mundo Cristão, São Paulo, SP, 2012: p. 44.
3 – Aragão, Jarbas. Assembleia de Deus irá criar partido político. https://noticias.gospelprime.com.br/assembleia-de-deus-prc-partido-politico/, acessado em 09/09/2017.
4 – Stott, John. A Mensagem de Atos. Ed. ABU, São Paulo, SP, 2ª edição 2003, reimpressão 2010: p. 234
5 – Wiersbe, Warren W. Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, vol 5. Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2012: p. 587.
6 – Stern, David H. Comentário Judaico do Novo Testamento. Ed. Atos, Belo Horizonte, MG, 2008; p. 294.
7 – Lopes, Hernandes Dias. Atos, a ação do Espírito Santo na vida da igreja. Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2012: p. 241.
8 – Ibid. p. 242.
9 – Gonzáles, Justo L. Atos, O Evangelho do Espírito Santo. Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2011: p. 179.
10 – Stott, John. A Mensagem de Atos. Ed. ABU, São Paulo, SP, 2ª edição 2003, reimpressão 2010: p. 237.
11 – Lopes, Hernandes Dias. Atos, a ação do Espírito Santo na vida da igreja. Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2012: p. 245.
12 – Horton, Stanley M. O Livro de Atos. Ed. Vida, Miami, Florida, 1983: p. 132.