domingo, 15 de janeiro de 2017

A Velha e a Nova Cruz



Por A. W. Tozer

Sem fazer-se anunciar e quase despercebida uma nova cruz introduziu-se nos círculos evangélicos dos tempos modernos. Ela se parece com a velha cruz, mas é diferente; as semelhanças são superficiais; as diferenças, fundamentais. 

Uma nova filosofia brotou desta nova cruz com respeito à vida cristã, e dessa nova filosofia surgiu uma nova técnica evangélica — um novo tipo de reunião e uma nova espécie de pregação. Este novo evangelismo emprega a mesma linguagem que o velho, mas o seu conteúdo não é o mesmo e sua ênfase difere da anterior. 

A velha cruz não fazia aliança com o mundo. Para a carne orgulhosa de Adão ela significava o fim da jornada, executando a sentença imposta pela lei do Sinai. A nova cruz não se opõe à raça humana; pelo contrário, é sua amiga íntima e, se compreendemos bem. considera-a uma fonte de divertimento e gozo inocente. Ela deixa Adão viver sem qualquer interferência. Sua motivação na vida não se modifica; ele continua vivendo para seu próprio prazer, só que agora se deleita cm entoar coros e a assistir filmes religiosos em lu-gar de cantar canções obscenas e tomar bebidas fortes. A ênfase continua sendo o prazer, embora a diversão se situe agora num plano moral mais elevado, caso não o seja intelectualmente. 

A nova cruz encoraja uma abordagem evangelística nova e por completo diferente. O evangelista não exige a renúncia da velha vida antes que a nova possa ser recebida. Ele não prega contrastes mas semelhanças. Busca a chave para o interesse do público, mostrando que o cristianismo não faz exigências desagradáveis; mas, pelo contrário, oferece a mesma coisa que o mundo, somente num plano superior. O que quer que o mundo pecador esteja idolizando no momento e mostrado como sendo exatamente aquilo que o evangelho oferece, sendo que o produto religioso é melhor. 

A nova cruz não mata o pecador, mas dá-lhe nova direção. Ela o faz engrenar num modo de vida mais limpo e agradável, resguardando o seu respeito próprio. Para o arrogante ela diz: "Venha e mostre-se arrogante a favor de Cristo"; e declara ao egoísta: "Venha e vanglorie-se no Senhor". Para o que busca emoções, chama: "Venha e goze da emoção da fraternidade cristã". A mensagem de Cristo é manipulada na direção da moda corrente a fim de torná-la aceitável ao público. 

A filosofia por trás disto pode ser sincera, mas sua sinceridade não impede que seja falsa. É falsa por ser cega, interpretando erradamente todo o significado da cruz. 

A velha cruz é um símbolo da morte. Ela representa o fim repentino e violento de um ser humano. O homem, na época romana, que tomou a sua cruz e seguiu pela estrada já se despedira de seus amigos. Ele não mais voltaria. Estava indo para o seu fim. A cruz não fazia acordos, não modificava nem poupava nada; ela acabava completamente com o homem, de uma vez por todas. Não tentava manter bons termos com sua vítima. Golpeava-a cruel e duramente e quando terminava seu trabalho o homem já não existia. 

A raça de Adão está sob sentença de morte. Não existe comutação de pena nem fuga. Deus não pode aprovar qualquer dos frutos do pecado, por mais inocentes ou belos que pareçam aos olhos humanos. Deus resgata o indivíduo, liquidando-o e depois ressuscitando-o em novidade de vida. 

O evangelismo que traça paralelos amigáveis entre os caminhos de Deus e os do homem é falso em relação à Bíblia e cruel para a alma de seus ouvintes. A fé manifestada por Cristo não tem paralelo humano, ela divide o mundo. Ao nos aproximarmos de Cristo não elevamos nossa vida a um plano mais alto; mas a deixamos na cruz. A semente de trigo deve cair no solo e morrer. 

Nós, os que pregamos o evangelho, não devemos julgar-nos agentes ou relações públicas enviados para estabelecer boa vontade entre Cristo e o mundo. Não devemos imaginar que fomos comissionados para tornar Cristo aceitável aos homens de negócios, à imprensa, ao mundo dos esportes ou à educação moderna. Não somos diplomatas mas profetas, e nossa mensagem não é um acordo mas um ultimato. 

Deus oferece vida, embora não se trate de um aperfeiçoamento da velha vida. A vida por Ele oferecida é um resultado da morte. Ela permanece sempre do outro lado da cruz. Quem quiser possuí-la deve passar pelo castigo. É preciso que repudie a si mesmo e concorde com a justa sentença de Deus contra ele. 

O que isto significa para o indivíduo, o homem condenado que quer encontrar vida em Cristo Jesus? Como esta teologia pode ser traduzida em termos de vida? É muito simples, ele deve arrepender-se e crer. Deve esquecer-se de seus pecados e depois esquecer-se de si mesmo. Ele não deve encobrir nada, defender nada, nem perdoar nada. Não deve procurar fazer acordos com Deus, mas inclinar a cabeça diante do golpe do desagrado severo de Deus e reconhecer que merece a morte. 

Feito isto, ele deve contemplar com sincera confiança o Salvador ressurreto e receber dEle vida, novo nascimento, purificação e poder. A cruz que terminou a vida terrena de Jesus põe agora um fim no pecador; e o poder que levantou Cristo dentre os mortos agora o levanta para uma nova vida com Cristo. 

Para quem quer que deseje fazer objeções a este conceito ou considerá-lo apenas como um aspecto estreito e particular da verdade, quero afirmar que Deus colocou o seu selo de aprovação sobre esta mensagem desde os dias de Paulo até hoje. Quer declarado ou não nessas exatas palavras, este foi o conteúdo de toda a pregação que trouxe vida e poder ao mundo através dos séculos, Os místicos, os reformadores, os revivalistas, colocaram aqui a sua ênfase, e sinais, prodígios e poderosas operações do Espírito Santo deram testemunho da aprovação divina. 

Ousaremos nós, os herdeiros de tal legado de poder, manipular a verdade? Ousaremos nós com nossos lápis grossos apagar as linhas do desenho ou alterar o padrão que nos foi mostrado no Monte? Que Deus não permita! Vamos pregar a velha cruz e conhecermos o velho poder.

Fonte: Livro O melhor de A. W. Tozer (Pg 71,72)

sábado, 14 de janeiro de 2017

ENTENDENDO O PROPÓSITO DO MEU CHAMADO


Por Pr. Silas Figueira

Texto Base: Mateus 5.13-16

INTRODUÇÃO

A história que vou contar eu ouvi há muito tempo pelo Pastor Renato Cordeiro da Primeira Igreja Batista em Teresópolis.

Conta à história que um assessor do evangelista Billy Graham fez um excelente trabalho em uma de suas campanhas evangelísticas. Na época o presidente dos Estados Unidos Bill Clinton ficou impressionado com o trabalho e, principalmente, com a organização. Bill Clinton esteve com o Pastor Billy Graham e perguntou quem foi o responsável por aquele excelente trabalho. Então Billy Graham disse que foi um de seus assessores, que ele era realmente excelente e muito capaz. Bill Clinton então disse que gostaria de conhecê-lo e se ele, juntamente com Billy Graham, não gostaria de tomar um café da manhã com ele na Casa Branca. Billy Graham falou com seu assessor e ambos foram tomar café na data marcada com o Presidente.

Conta-nos a história que o assessor de Billy Graham ficou tão emocionado e orgulhoso por ter tido tal honra que saiu dali nas nuvens; dizendo para si mesmo que ele era uma pessoa muito importante, afinal de contas até o Presidente dos Estados Unidos quis conhecê-lo.

Depois do café o assessor foi para o aeroporto pegar um avião para preparar outra cruzada evangelística. Quando ele entra no avião e vai tomar o seu acento ele observa que havia uma pessoa em seu lugar. Ele, muito calmamente, diz para a pessoa que aquele lugar era dele. A pessoa então lhe pede desculpas, mas lhe pede se pode ficar ali, pois ele era cadeirante e era mais fácil para ele se sentar naquele lugar. O assessor não viu dificuldades nisso e se sentou então ao seu lado, na cadeira que era do cadeirante. No decorrer da viagem eles foram conversando, até que chegou uma hora em que o cadeirante perguntou se o assessor poderia ajudá-lo a ir ao banheiro. O assessor lhe ajudou a sentar-se em sua cadeira e o levou até o banheiro. O cadeirante entra e ele fica do lado de fora esperando para trazê-lo de volta, mas nada do homem sair do banheiro. Devido à demora, o assessor bate na porta e pergunta se estava tudo bem, o homem abre a porta e pergunta se o assessor podia entrar e ajudá-lo, pois ele não conseguia fazer a sua higiene pessoal. O assessor meio constrangido com a situação entra e o ajuda, depois o coloca em sua cadeira e o leva para o seu lugar.

No momento em que o assessor se senta, o Espírito Santo lhe diz assim: “Por melhor que seja o seu trabalho, por mais que as pessoas lhe elogiem, se você não for humilde a ponto de ajudar um desconhecido, seu trabalho não tem valor para mim”.

Hoje vocês estão aqui agradecendo a Deus nesse culto em ação de graças por terem se formado, e é muito importante esse reconhecimento, mas se vocês com seus devidos diplomas não forem canal de bênçãos para outros, o diploma de vocês não tem valor nenhum. Podemos ser reconhecidos em vários lugares, podemos ficar famosos e até mesmo ricos, mas se a nossa vida não serve para abençoar outros, então estamos longe de entendermos o propósito da nossa existência, e para que que o Senhor nos colocou em lugares altos. Se nós não servimos para servir, nós não servimos para nada.

O texto que lemos de Mateus 5.13-16 nos fala exatamente isso. Há um propósito da parte do Senhor em relação a nossa vida nesta terra. A nossa salvação não é o fim em si mesmo; quem pensa assim está longe de entender o porquê da sua salvação. O texto de Mateus 5.13-16 na versão NVI nos diz assim:

“Vocês são o sal da terra. Mas se o sal perder o seu sabor, como restaurá-lo? Não servirá para nada, exceto para ser jogado fora e pisado pelos homens. Vocês são a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte. E, também, ninguém acende uma candeia e a coloca debaixo de uma vasilha. Ao contrário, coloca-a no lugar apropriado, e assim ilumina a todos os que estão na casa. Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus”.

Jesus depois que falou a respeito das bem-aventuranças começa a descrever como deve ser a nossa vida numa sociedade sem Deus. Ele diz que devemos fazer a diferença nesse mundo que anda em trevas sendo nós luz e sendo sal em um mundo que está apodrecido devido ao pecado.

Ser é diferente de Ter. A diferença entre Ser e Ter é que o Ser é o que você é, é o que você acredita, são suas crenças. As crenças formam sua identidade e tem caráter altamente subjetivo. Já o Ter são ideias, o Ter é exterior a nós, é algo desejado, ou não. Jesus nos diz que somos sal e luz e isso envolve o nosso caráter cristão.

Por isso pensando nesse texto vamos ver quais as lições podemos tirar dele?

A PRIMEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE O CRISTÃO NÃO É UMA PESSOA QUE VIVE ISOLADA DO MUNDO (Mt 5.13a, 14a).

John Stott diz que as bem-aventuranças descrevem o caráter essencial dos discípulos de Jesus; o sal e a luz são metáforas que denotam a sua influência para o bem do mundo [1]. Nós estamos no mundo com várias pessoas ao nosso redor e não em uma ilha isolados. Nós estamos no mundo, embora não pertençamos ao mundo. Aliás, o Senhor nos disse que nos enviaria de volta ao mundo “como ovelhas entre lobos” (Mt 10.16a).

1º - O que o Senhor quis dizer com a palavra mundo? Ele se refere à humanidade caída, a humanidade sem Deus. Foi esse mundo que o Senhor veio salvar (Jo 3.16). E é nesse mundo que a Igreja está e dela foi tirada. Estamos no mundo, mas não pertencemos mais ao mundo (Jo 17.14). E este mundo da qual fomos tirados, assim com é inimigo do Senhor Jesus também é nosso inimigo. Jesus disse que se o perseguiram, nós também seríamos perseguidos (Jo 15.18-20). Mas é nesse mundo em trevas e inimiga de Deus que o Senhor disse que seríamos luz e sal.

O mundo, muitas vezes é associado à ignorância espiritual, a cegueira da falta de conhecimento de Deus (2Co 4.4). Tanto que o Senhor Jesus disse que a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas porque suas obras eram más (Jo 3.19). Por isso, que sem a Luz do Evangelho esse mundo seria tenebroso. 

2º - É neste mundo sem Deus que o Senhor nos fez sal e luz. É nesse mundo de gente cega e insossa que seremos usados por Deus para iluminar as suas mentes e temperar suas vidas. E fazemos isso não dentro da igreja, mas fora dela. É na rua, em casa, no trabalho, na escola, na faculdade, no laser, nas horas tristes que a vida oferece. Como diz a música do Hyldon: “Na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê”.

Ser sal e luz é ser discípulo de Cristo sem ter dia de folga, e sem perder a doçura. Para isso nós fomos chamados, para isso nós estamos aqui. 
 
A SEGUNDA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE NÓS TEMOS UMA NATUREZA CONTRÁRIA DO MUNDO.

Se o cristão é sal e luz, o mundo é insípido e está em densas trevas. Essa é a lógica e a grande realidade que vivemos.

1º - O Senhor Jesus nos diz que somos sal da terra. O sal no tempo bíblico era algo extremamente importante, pois ele era usado para salgar carnes e peixes para evitar a sua putrefação. E, como até hoje, para temperar os alimentos. Mas também era usado para esfregar no recém-nascido. A criança, segundo os costumes antigos, era friccionada com sal misturado a água e óleo, e embrulhada em faixas de pano, por sete dias (Ez 16.4) [2]. E também era utilizado para misturar no alimento dos animais (Is 30.24). 

O sal era um item comercial no Oriente, obtido de lagos de sal, especialmente do Mar Morto e da mineração. Por ter o sal a finalidade principal de salgar e temperar, ele tem uma simbologia espiritual profunda.

Quando o Senhor nos disse que nós somos o sal da terra, essas palavras claramente subentendem a podridão deste mundo; subentendem à poluição e à imundícia mais ofensiva. O mundo caído é pecaminoso e mau. Inclina-se para a maldade e para o conflito armado. Assemelha-se à carne que tende por putrefazer-se e ficar poluída de germes. Em resultado do pecado e da queda do homem, a vida, no mundo em geral, tende por piorar até ficar pútrida [3].

Esse é o quadro que se encontra o mundo, mas nós como igreja devemos ser diferentes dos homens desta terra. Assim como o sal é diferente do material ao qual é aplicado, e, em certo sentido, exerce todas as virtudes exatamente por causa dessa diferença.

Seu poder está precisamente nesta diferença. Isso acontece também, diz Jesus, com os seus discípulos. Seu poder no mundo está na diferença que existe entre ambos. O cristão é tão diferente dos outros homens como o sal num prato difere do alimento em que é colocado. Os discípulos, do mesmo modo, são chamados a ser como um purificador moral em um mundo onde os padrões morais são baixos, instáveis, ou mesmo inexistente [4]. 

Outra função do sal é dar sabor. Você pode colocar todos os ingredientes para temperar o alimento, mas se faltar sal na medida certa ele fica insosso. A vida sem o cristianismo bíblico é uma vida insípida. Mas só se chega a essa conclusão quando se experimenta o verdadeiro cristianismo. Por isso que a tarefa primária da igreja consiste em evangelizar e pregar o Evangelho. 

2º - O Senhor Jesus nos diz que somos luz do mundo. Jesus mesmo afirmou: “Vós sois a luz do mundo”. E também disse: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8.12). Essas duas declarações sempre precisam ser consideradas conjuntamente, porque o crente só funciona como “luz do mundo” por causa dessa relação vital de que goza com Aquele que é, Ele mesmo, “a luz do mundo”. Nosso Senhor assegurou que viera ao mundo para trazer-nos a luz. E a promessa que Ele fez foi: “... quem me segue, não andará em trevas, pelo contrário terá a luz da vida” (Jo 8.12) [5].

Mas para poder brilhar nos lugares escuros do mundo, esta luz deve estar em uma posição estratégica, livre de qualquer bloqueio. É a cidade sobre o monte, visível a quem vive em terrenos mais baixos. Do mesmo modo, seria absurdo, diz Jesus, colocar-se uma candeia debaixo de um alqueire (modios, no grego, significa barril, uma medida para cereais) ao invés do velador, esperando assim iluminar a casa para seus moradores! Os discípulos não devem então esconder-se, mas viver e trabalhar em lugares onde sua influência seja sentida e a luz que neles há sejam mais plenamente manifesta a outros – não para glorificação própria, mas para que outros possam ver a luz da verdadeira bondade cristã, expressando-se em atos reais de gentileza e serviço, não é uma luz deste mundo, mas vem de Deus, e possam consequentemente ser levados a dar honra e louvor ao Doador da mesma [6].

Temos como exemplo a menina que Naamã levou cativa de Israel (2Rs 5.1-3). Através dessa menina, Naamã não só foi curado, mas encontrou a luz da verdade quando se converteu ao Deus de Israel.

A TERCEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE PARA SERMOS O QUE O SENHOR DESEJA DE NÓS EXISTE UMA CONDICIONAL.

Primeira coisa que observamos é que existe uma condicional na vida do cristão. A condicional é “MAS” = no entanto, contudo, todavia. Se eu não salgo e não ilumino, eu não estou exercendo minha função como cristão. Se a igreja se torna insípida e sem luz ela não é Igreja. Ela pode ter outros nomes, como por exemplo: clube, reunião de amigos, boate gospel... Menos Igreja.

1º - Se o sal não exercer a sua função de salgar ele perdeu sua verdadeira função (Mt 5.13b). Se o sal não permanecer puro perde o seu poder de salgar. Ele se torna inútil para ser usado. O sal nunca pode perder sua salinidade. Entendo que o cloreto de sódio é um produto químico muito estável, resistente a quase todos os ataques. Não obstante, pode ser contaminado por impurezas, tornado-se, então, inútil e até perigoso. A salinidade do cristão é o seu caráter conforme descrito nas bem-aventuranças, é discipulado cristão verdadeiro, visível em atos e palavras [7].

Como disse Jesus em Lucas 14.34,35:

O sal é bom, mas se ele perder o sabor, como restaurá-lo? Não serve nem para o solo nem para adubo; é jogado fora. "Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça" (NVI).

E o que contamina o sal na vida do cristão é o pecado; é a vida sem compromisso com Senhor da Vida; é viver dentro do padrão do mundo e não segundo o padrão bíblico; é seguir o fluxo do mundo e não glorificar a Deus sendo diferente.

2º - Se a luz que está em nós estiver oculta ela se torna treva (Mt 6.22,23). Jesus deixou isso de forma muito clara:

Os olhos são a candeia do corpo. Se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo será cheio de luz. Mas se os seus olhos forem maus, todo o seu corpo será cheio de trevas. Portanto, se a luz que está dentro de você são trevas, que tremendas trevas são! (NVI).

O Senhor deixou claro que a luz que está em nós deve brilhar de forma que todos vejam, ela não pode ficar oculta e não exercer a função que ela deve exercer. A luz brilha no escuro onde ela tem sua verdadeira utilidade, assim somos nós, devemos brilhar em um mundo em trevas, em um mundo que jaz no maligno.

Mas você tem brilhado? Ou anda com sua luz oculta?  

A QUARTA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE QUANDO SOMOS SAL E LUZ O NOME DO PAI SERÁ GLORIFICADO (Mt 5.16).

“Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus” (NVI).

Quem será glorificado é o Senhor e não nós. Quem deseja ser adorado no lugar de Deus é Satanás. Ele é quem busca adoração que não lhe é devida, aliás, nenhuma criatura deve ser adorada no lugar do criador. No entanto, o que mais temos visto hoje são líderes recebendo adoração como se fossem Deus. A última é o sangue de um determinado "apóstolo" que foi vítima de um atentado, dizer que está curando as pessoas. E as pessoas que frequentam aquele lugar acreditam nisso. 

Cuidado para não cair nessa armadilha! O bem que fazemos deve glorificar ao Senhor e não a nós mesmos.  

Por isso, ocultar a nossa natureza regenerada é tornar-nos completamente inúteis. O verdadeiro crente não se oculta, e nem pode deixar de ser notado. O homem que verdadeiramente esteja vivendo e funcionando como crente sempre assume posição saliente. Assemelha-se ao sal; assemelha-se à cidade edificada sobre um monte, a uma candeia posta no velador [8]. Todos sentem o seu sabor e todos veem a sua luz, e isso se demonstra em atos, em testemunho diário, em vida santa, em viver diário o Evangelho de Cristo. É não se envergonhar de Jesus, mas honrá-lo em meio a uma sociedade que o repudia. Como disse o apóstolo Paulo em Rm 1.16:

“Não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê: primeiro do judeu, depois do grego” (NVI).

John Stott nos diz que as metáforas usadas por Jesus têm muito a nos ensinar sobre nossas responsabilidades cristãs no mundo, três lições se destacam [9].

a) Há uma diferença fundamental entre os cristãos e os não cristãos, entre a igreja e o mundo. A maior de todas as tragédias da Igreja através de sua longa história, cheia de altos e baixos, tem a sua constância de conformar-se à cultura prevalecente, em lugar de desenvolver uma contracultura cristã.

b) Temos de aceitar a responsabilidade que esta diferença coloca sobre nós. Vocês têm que ser o que são. Vocês são sal e, por isso, têm de conservar a sua salinidade e não perder o seu sabor cristão. Vocês são a luz e, por isso, devem deixar que sua luz brilhe e não devem escondê-la de modo algum, quer seja através do pecado ou da transigência, pela preguiça ou pelo medo. 

c) Temos de considerar a nossa responsabilidade cristã como sendo dupla. A função do sal é principalmente negativa: evitar a deterioração. A função da luz é positiva: iluminar as trevas.

Mas para eu ser sal e luz nesse mundo eu tenho que viver as bem-aventuranças! Testemunhar é mais que falar, é viver de forma que todos vejam as nossas boas obras e o Pai será glorificado através de nossos atos.  

CONCLUSÃO

Eu quero concluir com uma palavra que ouvi em um vídeo postado no youtube. A palavra do Pastor Paulo Borges Jr revela a igreja brasileira.

Diz ele: Eu acho que hoje a comunidade evangélica no Brasil, ela não está com dificuldade de fazer política, ela está com dificuldade de fazer tudo. Ela está com dificuldade de fazer casamento; ela está com dificuldade de fazer empresa; ela está com dificuldade de fazer louvor; ela está com dificuldade de fazer culto; ela está com dificuldade de fazer oração.

O que está em cima dos nossos montes hoje, nas campanhas de oração é vergonhoso. O que o povo está procurando em cima do monte hoje só Satanás pode satisfazer. Porque ninguém está procurando subir no monte para fazer sacrifício, mas para ser abençoado. Quem prometeu bens nessa vida para quem subir no monte foi Satanás, não foi o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Quem prometeu favores e benefícios para quem cantasse muito, e louvasse muito, e orasse muito foi Satanás e não foi o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Quem falou que culto é forma de ser beneficiado foi Satanás. Quem falou que anjo ia proteger a gente das mancadas que a gente faz, porque não buscou a direção de Deus foi Satanás, não foi o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Então nós estamos com dificuldade de tudo. Nós estamos com dificuldade de escolher qual a faculdade que nossos filhos vão fazer e ajudá-los a entender isso. Porque hoje os nossos jovens estão sendo ensinados a procurar profissões que dão dinheiro e não que contempla com as suas vocações.

Nós estamos com dificuldade de sustentar um casamento difícil. Nós estamos com dificuldade de vender um produto honestamente sem locupletar de lucro exagerado, porque o nosso conceito de riqueza é como nós vamos tomar a riqueza do bolso do outro e passar para o nosso bolso. E ainda estamos achando que Deus abençoa as pessoas quando elas oram, porque fica mais fácil ela tomar dinheiro dos outros e fazer negócio vantajoso.

Então não é só com a política que nós estamos tendo dificuldade. A dificuldade que nós estamos tendo com a política é porque está indo para lá as nossas piores crianças. Porque nós estamos insistindo em viver um evangelho de menino. Porque o tipo de pregação que estamos ouvindo está nos infantilizando. Nós estamos nos tornando um povo infantilizado. Não é só no Planalto Central, não é só a Câmara dos Deputados e não é só o Senado que está sofrendo. As famílias estão sofrendo; o comércio está sofrendo; as escolas estão sofrendo. Os hospitais estão sofrendo. Estão sofrendo a presença de médicos crentes; tem muito médico crente no Brasil praticando medicina ruim. Tem muito comerciante crente no Brasil praticando comércio ruim. Tem muito marido e mulher no Brasil praticando um casamento ruim. E nós estamos achando que a nossa fé vai nos dar um país bom. Uma igreja que lamenta o país que tem, faz esse país sofrer a igreja que tem. Nós estamos obrigando as nossas famílias, o nosso comércio, as nossas prefeituras, os nossos hospitais e as nossas escolas, nós estamos obrigando essa gente a sofrer a igreja ruim que nós estamos oferecendo. E nós estamos oferecendo uma igreja ruim porque nós estamos insistindo em permanecer criança. Nosso louvor está ruim porque é louvor de criança. O que nós estamos chamando de avivamento hoje no Brasil que é encher um estádio com vinte mil pessoas que entra em êxtase espiritual ouvindo boa música; se isso for avivamento então Luan Santana é avivamento, porque todo mundo sai de lá de dentro do mesmo jeito, sai de lá cheio de fotografia para postar no instagram e no facebook e doido para comprar o CD e o DVD. Mas a multidão que deixou o estádio depois daquele culto, e a multidão que deixou o estádio depois do show é a mesma. Com as mesmas necessidades, com as mesmas prioridades, com os mesmos apetites. E tentando se satisfazer da mesma forma.

A coisa é muito mais rasa. Passa pelo seu namoro, e não pelo prefeito da sua cidade. Passa pela escolha da sua profissão e não pelo vereador corrupto da sua cidade. Passa pelos seus motivos de você fazer comércio e não pelo presidente desse país. Esse país está sofrendo a falta de referências, e as referências não estão lá estão aqui. Nós temos que sair daqui gente adulta, que para de pensar como menino, agir como menino e querer como menino. Nós estamos com problemas em todas as áreas desse país, todas elas. É um engano a gente pensar que políticos melhores vão nos entregar um país melhor. Uma igreja melhor pode fazer esse país melhor. Em nome de Jesus, pelo sangue do Cordeiro temos que deixar de ser menino [10].

Que o Senhor tenha misericórdia de nós e nos ajude a sermos sal e luz do mundo.

Pense nisso! 
     
Notas: 

1 – Stott, John. A Mensagem do Sermão do Monte. ABU Editora, São Paulo, SP, 1986: p. 48.
2 – Champlin, R. N. O Antigo Testamento Interpretado, versículo por versículo, Vol. 5. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2001: p. 3225.
3 – Lloyd-Jones, D. Matyn. Estudos no Sermão do Monte. Ed. Fiel, São Paulo, SP, 1984: p. 140.
4 – Tasker, R. V. G. Mateus, Introdução e Comentário. Editora Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1985: p. 50.
5 – Lloyd-Jones, D. Matyn. Estudos no Sermão do Monte. Ed. Fiel, São Paulo, SP, 1984: p. 152.
6 – Tasker, R. V. G. Mateus, Introdução e Comentário. Editora Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1985: p. 51.
7 – Stott, John. A Mensagem do Sermão do Monte. ABU Editora, São Paulo, SP, 1986: p. 51.
8 – Lloyd-Jones, D. Matyn. Estudos no Sermão do Monte. Ed. Fiel, São Paulo, SP, 1984: p. 163.
9 – Stott, John. A Mensagem do Sermão do Monte. ABU Editora, São Paulo, SP, 1986: p. 54-56.
10 – https://www.youtube.com/watch?v=lk9PBemcMgo, acessado em 13/01/2017.

domingo, 8 de janeiro de 2017

JOÃO BATISTA – UM HOMEM QUE SABIA QUEM ELE ERA



Por Pr. Silas Figueira

Texto base: João 1.19-28 

INTRODUÇÃO

Estamos vivendo a época das celebridades “gospel”. E essas celebridades vão do pastor a apóstolo, do cantor a ex-famosos com seus testemunhos marcantes... Muitas vezes o pastor é o pop star; os cantores são verdadeiros astros sendo idolatrados e tendo até fã clube. O negócio é SER, TER e APARECER! Essa é a tônica do momento do mundo gospel; algo totalmente diferente na vida e ministério de João Batista.  

João Batista foi o precursor de Jesus. O próprio Senhor Jesus disse que entre os nascidos de mulher não houve ninguém maior que João (Mt 11.11). De todos os homens (incluindo, evidentemente, grandes servos de Deus como Abraão, Moisés e Elias) João Batista era o maior. Ele era maior porque abriu o caminho para o Ungido de Deus. Ele era maior porque teve o privilégio de ver o próprio Messias. João Batista foi o último profeta do Antigo Testamento (Lc 16.16). Ele não só foi o último profeta, mas foi o profeta citado por Isaías (Is 40.3); aquele que viria preparar o caminho para o Messias. E, no entanto, ele disse a respeito de Jesus:

“Ele é aquele que vem depois de mim, e não sou digno de desamarrar as correias de suas sandálias” (Jo 1.27 – NVI).

O Reverendo Rodolfo Góis disse que João Batista era um “produto exportação” do seu tempo. Tinha até estilo exclusivo (“usava uma roupa feita de pelos de camelo e um cinto de couro e comia gafanhotos e mel do mato” – Mc 1.6). Hoje em dia isso aumentaria o seu sucesso e alavancaria os multiprodutos com a sua marca: Grife JB, Snacks em forma de grilo com gostinho de mel, artigos de couro do João, além da família de bonecos. Pelo menos quatro linhas de produtos de sucesso, sem contar os milhões de acessos garantidos nos reprodutores de mídia online que lhe dariam bons retornos financeiros com os patrocínios no seu canal exclusivo. No “auge da sua carreira”, entretanto, João faz uma declaração que poderia deixar todos perplexos. Ele diz que havia alguém “mais importante do que ele”. Isso não é uma coisa que uma celebridade pode dizer a qualquer um e a qualquer momento. No auge do sucesso João se coloca na mais baixa condição. Mas ele não se importa, nem treme, nem sua a frio, nem titubeia. Declara de boca cheia e com imensa convicção. Este antimarketing poderia causar um grande prejuízo nos empreendimentos com a sua marca e sua imagem. Mas ele não se importava, porque sabia que maior que o seu discurso era aquele a quem ele estava preparando o caminho. João sabia que mais valiosa que a sua popularidade era a integridade da sua missão. Sabia que o melhor lugar era estar aos pés de Jesus, mas que isso não dependia dos seus méritos, e sim da graça divina. [1].

Hoje em dia nós não temos visto muito disso por aí, muito pelo contrário, o que temos visto são pessoas que se dizem ser servas do Senhor Jesus, mas querendo honras e glórias que a Ele pertencem. Gente que busca os holofotes. Como falamos no início, são pessoas que querem ser, ter e aparecer. Gente que busca glória para si e não para Deus, mas falam em nome dEle. Gente que anda na contramão da humildade de João Batista.

E é sobre isso que eu quero pensar com você através desse texto. Analisando-o nós encontramos um homem que sabia quem ele era, onde estava e para que veio – isto é, ele sabia que ele era apenas um precursor daquele que era maior que ele.

Vamos analisar o texto.

A PRIMEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE JOÃO SABIA QUEM ELE NÃO ERA (Jo 1.19-22)
  
A primeira parte do capítulo 1 do Evangelho de João nos é mostrado quem é Jesus e qual foi sua missão, nessa segunda parte, João nos apresenta quem foi João Batista. Um homem no mínimo peculiar, uma vez que vivia no deserto (Mc 1.4), usava vestimenta ímpar (Mc 1.6) e, com um discurso de arrependimento (Mc 1.4), batizava multidões (Mc 1.5) – hábitos completamente semelhantes aos dos profetas antigos. Sem contar os agravantes de que aquela era uma época de silêncio (não havia nenhum enviado de Deus há mais de 400 anos) e de dominação externa sobre Israel (dos Romanos).

Quando João começou sua carreira pública de pregador de arrependimento, no vale do Jordão, existia um clima generalizado de expectativa, especialmente entre os israelitas piedosos que “esperavam a redenção de Jerusalém” (Lc 2.38). A aparição repentina deste estranho pregador e batizador, que trazia os sinais que autenticavam os profetas antigos, causou uma impressão profunda sobre eles. Menos de um século antes (63 a.C.), a dinastia nativa dos Hasmoneus (a dinastia dos hasmoneus foi fundada sob a liderança de Simão Macabeu, duas décadas depois de seu irmão, Judas Macabeu derrotar o exército selêucida durante a Revolta Macabeia, em 165 a.C.), tinha caído e a terra de Israel fora incorporada ao Império Romano. Esta perda de independência e o fracasso das esperanças que se tinham concentrado nos reis-sacerdotes Hasmoneus causou um renascimento de um Messias da linhagem de Davi. No entanto, João era da linhagem de Levi, embora seja possível que a massa da população não conhecesse a sua origem [2].

Em meio a esse cenário, era natural as autoridades religiosas se preocuparem com tal homem. Afinal, seria ele um legítimo profeta? Ou, quem sabe, até mesmo o Cristo? Ou seria apenas mais um farsante (At 5.36)? Assim, João Batista era, no mínimo, digno de observação, pois, na pior das hipóteses, poderia ter um discurso que causaria problemas e, na melhor delas, poderia ser uma nova autoridade enviada por Deus que libertaria o povo judeu.

E é nesse contexto que o evangelista tenta nos responder quem foi João – num inquérito organizado pelas próprias autoridades religiosas da época (Jo 1.19). Essas autoridades eram sacerdotes, levitas e fariseus. Essa delegação fora enviada pelo Sinédrio, que funcionavam como juízes em Israel – uma espécie de corte suprema.

E quando os seus inquisidores lhe perguntam quem ele era, as respostas foram negativas. O interessante desse trecho é que o evangelista nos responde a essa pergunta sobre a própria ótica do entrevistado. E, com isso, vemos que João Batista demonstra grande conhecimento de si mesmo. Ele sabia quem ele não era. E ele disse três coisas: que ele não era o Cristo, que ele não era Elias e que não era o Profeta.

1º - Ele disse que não era o Cristo (Jo 1.20). Essas eram as ideias mais comuns no tocante à identidade de João Batista, cujo ministério era tão grande que muitos pensavam que Deus, sem a menor dúvida, havia visitado novamente o seu povo, enviando um dos antigos profetas, a fim de encarregar-se de uma atividade renovada na terra de Israel. João Batista, em seu ardor político, em seu zelo por derrubar as existentes autoridades políticas e religiosas, e em sua insistência de que o Reino de Deus estava próximo, e que o próprio Messias estava prestes a expurgar sua eira, separando a palha do trigo, era uma figura muito melhor a esse quadro messiânico do que o perene politicamente indiferente Jesus, conforme a conceito comum, popular, de como viria o Messias [3].

João em momento algum colocou-se maior do que era, como é o costume de alguns – muito pelo contrário, ele se anulou. Diferentemente de muitos, ele apontava para outro e não para si próprio. Ele sabia exatamente seu lugar e sua missão.

As pessoas até poderiam pensar que ele era o Messias, mas João não quis tomar para si esse título que não lhe pertencia. No entanto, o que temos visto hoje de pessoas que se pudessem davam um golpe de estado até no diabo.

2º - Ele disse que não era Elias (Jo 1.21a). Em Malaquias 4.5 nos diz que Elias viria antes do fim de todas as coisas:

"Vejam, eu enviarei a vocês o profeta Elias antes do grande e terrível dia do Senhor” (NVI).

E isso é corroborado pelo próprio Senhor Jesus em Mt 17.10-13:

Os discípulos lhe perguntaram: “Então, por que os mestres da lei dizem que é necessário que Elias venha primeiro?” Jesus respondeu: "De fato, Elias vem e restaurará todas as coisas. Mas eu lhes digo: Elias já veio, e eles não o reconheceram, mas fizeram com ele tudo o que quiseram. Da mesma forma o Filho do homem será maltratado por eles". Então os discípulos entenderam que era de João Batista que ele tinha falado (NVI).

Então porque João negou tal coisa? Simples, porque os judeus, na época de Jesus, criam que Elias, o profeta do Antigo Testamento, viria em carne e osso, ou seja, que ele iria nascer de novo. Naquela época se acreditava na reencarnação, mas é bom lembrar que essa doutrina da reencarnação é para os que já morreram e Elias do Antigo Testamento não morreu (2Rs 2.11); então cai por terra aqui essa ideia também.

João Batista veio no mesmo espírito e vigor do Elias do Antigo Testamento (Lc 1.17), até suas roupas eram semelhantes (2Rs 1.8; Mc 1.6), mas não era a mesma pessoa.  Tanto não era a mesma pessoa que o Elias do Antigo Testamento operava milagres, já o Elias do Novo Testamento não se ouve falar em nenhum milagre que ele tenha operado. No entanto, João Batista veio para dar continuidade ao ministério profético de Elias.

A negativa de João tinha uma boa justificativa.

3º - Ele disse que não era o Profeta (Jo 1.21b). Mais uma vez João diz não, dessa vez em relação a ser o Profeta. Eles estavam perguntando se João era o Profeta que Moisés disse que viria. Eles estavam fazendo uma alusão à passagem de Dt 18.15 que diz:

“O Senhor, o seu Deus, levantará do meio de seus próprios irmãos um profeta como eu; ouçam-no” (NVI).

Esse profeta referido por Moisés é o Messias que Israel esperava, ou seja, esse profeta já estava entre eles e era o Senhor Jesus; por isso que João disse que não era o Profeta. Mas se estivessem perguntado se ele era um profeta, provavelmente ele responderia que sim, pois ele era profeta, aliás, o último profeta do Antigo Testamento.

João Batista declarou categoricamente que não era o Cristo (Jo 1.19,20). Não era o Elias (Jo 1.21) nem o Profeta apontado por Moisés (Jo 1.21). João Batista era o precursor do Messias, mas não o Messias. Era o amigo do Noivo, mas não era o Noivo. João Batista veio no espírito de Elias, mas não era Elias. João Batista não era o profeta apontado por Moisés, mas era o precursor desse profeta. Embora os interrogadores estivessem confusos acerca de sua identidade, João Batista tinha plena consciência de quem era e do que viera fazer [4].

Quantas pessoas, mesmo com anos de cristianismo nas costas, não sabem quem são e nem para que existem? Quantos não se colocam no nosso lugar de pecador, mas só se veem como quem tem autoridade apenas para apontar e rebaixar os outros?

Quando temos noção real de quem somos – servos do Senhor Jesus – passamos olhar o mundo com outros olhos e deixamos de achar que somos melhores que os outros, e, acima de tudo, não buscamos títulos que não nos pertence. Que possamos aprender isso com João Batista.

Como disse A. W. Tozer: “Nunca preguei a grandes multidões, pelo menos na minha própria igreja. Mas preguei um Cristo coerente. Esse desejo de obter seguidores, de ser reconhecido, de ter reputação, não é para os que estão vivendo a vida crucificada” [5].

A SEGUNDA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE JOÃO SABIA QUEM ELE ERA (Jo 1.22,23).

Os interlocutores de João Batista tinham que prestar contas às autoridades judaicas, por isso eles insistiram em saber, afinal de contas, quem ele era. E a resposta de João Batista foi extremamente inusitada, pois ele responde citando a profecia do profeta Isaías que falava a respeito da volta do povo judeu do exílio (Is 40.3).

Mas na aplicação do Novo Testamento faz do oráculo, o deserto passa a ser o deserto da Judéia, onde João pregou a mensagem de arrependimento. A linha profética dupla que vai de Isaías 40 a 66 começa anunciando boas notícias a Sião porque os filhos exilados voltarão, mas vai mais longe, falando de uma redenção mais ampla, não operada por Ciro, mas pela paixão e vitória do obediente Servo do Senhor, concluindo com a promessa de novo céu e nova terra [6]. 
  
A profecia de Isaías falava do retorno do povo judeu do exílio, mas também fazia referencia aquilo que o Senhor iria realizar pelo seu povo, de todos os povos (Ap 7.9,10) que nos diz:

“Depois disso olhei, e diante de mim estava uma grande multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, de pé, diante do trono e do Cordeiro, com vestes brancas e segurando palmas. E clamavam em alta voz: "A salvação pertence ao nosso Deus, que se assenta no trono, e ao Cordeiro"” (NVI).

Saber quem eu sou depende muito também de uma boa interpretação teológica. Por que digo isso? Porque há muitas pessoas que estão tão perdidas teologicamente que pensam que sabe quem são, mas estão totalmente enganadas.

João Batista não só sabia quem ele era como também sabia que era um cumprimento profético.

1º - João Batista sabia que era profeta. Para isso ele veio. Para isso ele estava no deserto pregando a mensagem de arrependimento (Mc 1.4,5). João não tinha dúvidas de qual era o seu lugar na história de Israel, e isso não é presunção, mas convicção.

Podemos exercer vários papéis nesta vida. Podemos ser profissional liberal, professor ou aluno; ser casado ou solteiro... Nada disso importa, mas de uma coisa todos nós crentes em Jesus devemos saber que fomos chamados para ser testemunha do Senhor Jesus (At 1.8). Somos profetas no sentido de compartilhar a Sua Palavra através do nosso testemunho e da palavra pregada. Nunca se esqueça disso!

2º - João Batista sabia que era consagrado ao Senhor desde o ventre (Lc 1.8-17). João Batista era filho de um sacerdote, ou seja, João Batista era levita, sacerdote e profeta. Mas foi escolhido desde antes de nascer para ser profeta, assim como o Senhor escolheu Jeremias (Jr 1.4,5). João era fruto de um milagre, pois seus pais eram velhos quando ele nasceu (Lc 1.18). 

Mas a questão é: “Quem é você?” E ai? O que me diz? Pare e pense um pouco. Difícil responder, não?

Essa é uma questão existencial, não uma mera filosofia – essa é uma pergunta que influencia totalmente nosso viver. Afinal, se não sabemos quem somos o mundo determinará quem você será. Sem saber de onde você veio, para onde você irá, qual a sua missão, não há outra escolha senão seguir o fluxo. E, seguindo o fluxo, vivemos deixando de viver com Deus, nos assemelhando ao mundo e o que ele nos leva a fazer.

No momento que o Senhor nos chamou, seja em qual idade for, somos consagrados ao Senhor. Somos seus servos e devemos honrá-Lo através da nossa vida, pois somos morada do Espírito Santo (1Co 3.16). Não devemos negligenciar o nome de cristão que carregamos; como disse Paulo em Gl 2.20:

“Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim”.

Não seguimos o fluxo desta vida, mas nos consagramos ao Senhor.

TERCEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE JOÃO BATISTA SABIA POR QUE VIERA (Jo 1.23-28).

Os interlocutores de João Batista estavam inquietos em saber quem ele não era, mas parece que eles não o ouviram dizer quem ele era. Observe o que eles dizem: “Alguns fariseus que tinham sido enviados interrogaram-no: "Então, por que você batiza, se não é o Cristo, nem Elias, nem o Profeta?” (Jo 1.24,25 – NVI).

Já que você não é nada, porque faz isso? É isso que eles estavam falando com João Batista. Eles estavam desmerecendo o seu chamado e o seu ministério. Estavam o reputando a nada. Mas João Batista não se deixa levar por seus comentários.

Isso não é diferente hoje. Quantas pessoas nos olham de cima para baixo como se nós não fôssemos nada, ou na melhor das hipóteses, bem menos que eles. E isso acontece em todos os lugares (no trabalho, na escola, entre pastores...).

João Batista responde de forma clara e objetiva porque viera.

1º - Ele veio como o precursor do Messias (Jo 1.23). Eu vim como cumprimento profético. Eu vim para aplainar o caminho que o Messias irá passar. Eu vim lhe preparar o caminho de forma que o Messias possa ser apresentado à nação de Israel. Eu sou profeta, porta voz de Deus.

João Batista não era um eco; era uma voz. Não era a voz que ecoava no templo, nos lugares sagrados, mas a voz que ecoava no deserto. Ele veio preparar o caminho para o Messias, aterrando os vales, nivelando os montes, endireitando os caminhos tortos e aplainando os caminhos escabrosos (cheio de altos e baixos, obstáculo) [7]. Toda vez que um rei ia visitar uma província ele enviava alguém para endireitar o caminho para ele passar.

João Batista endireitou o caminho pregando o arrependimento (Lc 3.7-18). Esse texto mostra João Batista aplainado o caminho das almas das pessoas. Desde os mais simples até os religiosos.

João dizia às multidões que saíam para serem batizadas por ele: "Raça de víboras! Quem lhes deu a ideia de fugir da ira que se aproxima? Deem frutos que mostrem o arrependimento. E não comecem a dizer a si mesmos: ‘Abraão é nosso pai’. Pois eu lhes digo que destas pedras Deus pode fazer surgir filhos a Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores, e toda árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo". "O que devemos fazer então?", perguntavam as multidões. João respondia: "Quem tem duas túnicas reparta-as com quem não tem nenhuma; e quem tem comida faça o mesmo". Alguns publicanos também vieram para serem batizados. Eles perguntaram: "Mestre, o que devemos fazer?" Ele respondeu: "Não cobrem nada além do que lhes foi estipulado". Então alguns soldados lhe perguntaram: "E nós, o que devemos fazer?" Ele respondeu: "Não pratiquem extorsão nem acusem ninguém falsamente; contentem-se com o seu salário". O povo estava em grande expectativa, questionando em seus corações se acaso João não seria o Cristo. João respondeu a todos: "Eu os batizo com água. Mas virá alguém mais poderoso do que eu, tanto que não sou digno nem de curvar-me e desamarrar as correias das suas sandálias. Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo. Ele traz a pá em sua mão, a fim de limpar sua eira e juntar o trigo em seu celeiro; mas queimará a palha com fogo que nunca se apaga". E com muitas outras palavras João exortava o povo e lhe pregava as boas novas.

Esse texto por si só já nos diz tudo!

2º - João Batista veio para batizar o batismo de arrependimento (Jo 1.26; Lc 3.3). Ao dizer eu batizo com água, João aponta para o fato de que existe uma grande diferença entre o que ele está fazendo e o que o Messias fará. Tudo o que João pode fazer é administrar o sinal (água). Somente o Messias pode conceder aquilo que a água simboliza (o poder purificador do Espírito Santo) [8].

João deixou bem claro que não estava fundando uma nova religião nem procurando exaltar a si mesmo. Voltava o olhar das pessoas para o Salvador, o Filho de Deus (Jo 1.34).

3º - João veio para apresentar Aquele de quem ele não era digno de desatar as sandálias (Jo 1.26-27). O que vemos na vida de João Batista é o que está faltando na vida de muitos líderes por aí, humildade. João destaca a sua irrelevância relativa em comparação com Aquele que vem, ao dizer que é indigno até de prestar um serviço tão baixo como desatar-lhe as correias das sandálias. João considerava-se indigno até desta atitude tão serviu diante dAquele que vem [9].

Humildade não é ser o menor, mas saber qual é o nosso lugar no Reino. Até Jesus nos ensinou o que é humildade e nos disse que deveríamos aprender isso com Ele (Mt 11.29). Humildade não é um sinal de fraqueza, mas um sinal de reconhecimento do valor do outro (Fl 2.3-7).

Humildade não é para qualquer um; só os fortes são humildes. Geralmente os fracos é que são arrogantes e presunçosos, pois vivem de aparência.

Devemos olhar para a vida de João o Batista e nos espelharmos nele.

CONCLUSÃO

Se houve um homem que podia se engrandecer do seu chamado era João Batista, no entanto ele se mostra de forma humilde reconhecendo quem ele era porque o Senhor o levantara. Essa lição que João nos dá está faltando em muitas pessoas hoje. Muitos pensam que estão aqui para serem servido e não para servir. Muitos pensam que por terem um título são melhores que os outros.

O próprio Senhor Jesus nos disse que aquele que se humilha seria exaltado, mas aquele que se exaltasse seria humilhado (Mt 23.12). João sabia quem ele não era, quem ele era e para que veio. E você?

É o Senhor quem nos exalta, você não precisa exaltar-se a si mesmo. Por isso eu quero encerrar lhe contando uma pequena história:

Houve fome na Alemanha. Um homem chamou vinte crianças disse: Nesta cesta há um pão para cada um de vocês. Voltem todos os dias. Vou lhes dar um pão por dia. As crianças brigaram pelos maiores pães. Nem agradeceu. Foram embora, cada um com seu pão, exceto uma menininha chamada Maria. Então, sorrindo, ela pegou menor pão, e agradeceu de coração. No dia seguinte, as crianças se comportaram pior. Maria, que não entrava nos empurrões, ficou só com um pãozinho bem fininho. Quando chegou a casa e a mãe foi cortar o pãozinho, caíram de dentro 6 moedas de prata. Oh, Maria! Exclamou a mãe. Esse dinheiro não é nosso. Devolva-o ao dono! E Maria foi devolver. O senhor lhe disse - Não foi engano; eu coloquei as moedas no menor pão, para te recompensar. E lhe deu mais 6 moedas. Se o teu pão tem sido o menor, continue fiel e grato; Deus é justo.

Pense nisso!

Fonte:

1 – Góis, Rodolfo. Se João Batista fosse famoso. http://ministeriobbereia.blogspot.com.br/2013/05/se-joao-batista-fosse-famoso.html, acessado em 06/01/17.
2 – Bruce, F. F. João: introdução e comentário. Edições Vida Nova e Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1987: p. 51.
3 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado Vol. 2, versículo por versículo. Editora Candeia, São Paulo, SP, 10ª Reimpressão, 1998: p. 280.
4 – Lopes, Hernandes Dias. João, As glórias do Filho de Deus. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2015: p. 44.
5 – Tozer, A. W. A vida crucificada. Editora Vida, São Paulo, SP, 2013: p. 91.
6 – Bruce, F. F. João: introdução e comentário. Edições Vida Nova e Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1987: p. 54.
7 – Lopes, Hernandes Dias. João, As glórias do Filho de Deus. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2015: p. 45.
8 – Ibid, p. 46.
9 – Bruce, F. F. João: introdução e comentário. Edições Vida Nova e Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1987: p. 56.