sábado, 4 de janeiro de 2020

CUMPRE-SE EM JESUS AS ORDENANÇAS DA LEI (UM EXEMPLO A SER SEGUIDO)



Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 2.21-24

INTRODUÇÃO

A primeira coisa que gostaria de destacar a nível de introdução é em relação ao termo Lei que é usado cinco vezes em Lucas 2.21-40. Apesar de ter vindo para livrar o mundo do jugo da Lei, Jesus nasceu “sob a lei” e obedeceu a seus preceitos (Gl 4.1-7). Ele não veio para destruir a Lei, mas para cumpri-la (Mt 5.17,18). Aliás, é bom destacar que Jesus foi o único que a cumpriu cabalmente. Tudo isso Ele fez para nos resgatar da maldição da Lei (Gl 3.13).

Em segundo lugar, nada é relatado da primeira infância de João Batista, porém no caso de Jesus três importantes acontecimentos são narrados.

1) Primeiro acontecimento: quando o bebê tinha 8 dias de idade, ele é circuncidado em casa, em Belém, e recebe seu nome. É isso que relata o v. 21.

2) Segundo acontecimento: quando o bebê está com 40 dias de idade, acontece o sacrifício de purificação de Maria no templo de Jerusalém. Ao mesmo tempo é oferecido também o sacrifício da apresentação pelo menino Jesus. Disso nos falam os v. 22-24.

3) Terceiro acontecimento: imediatamente após o sacrifício de purificação e apresentação acontecem os louvores de Simeão e de Ana. Sobre isso informam os v. 25-38.

Todos os três acontecimentos têm em comum o aspecto de revelar o menino Jesus em sua humildade e glória.

Diante desse quadro, quais as lições que podemos tirar dos versículos 21-24 do capítulo 2 de Lucas?

1 – VEMOS AQUI UM COMPROMISSO COM A PALAVRA DE DEUS NA CIRCUNCISÃO (Lc 2.21).

José e Maria são mais que pessoas religiosas, são pessoas compromissadas com Deus e com Sua Palavra. Eles procuram observar todos os preceitos da Lei segundo o Senhor lhes havia ordenado que guardassem. Como nos diz Tiago 1.22-25:

Sejam praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando a vocês mesmos. Porque, se alguém é ouvinte da palavra e não praticante, assemelha-se àquele que contempla o seu rosto natural num espelho; pois contempla a si mesmo, se retira e logo esquece como era a sua aparência. Mas aquele que atenta bem para a lei perfeita, lei da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte que logo se esquece, mas operoso praticante, esse será bem-aventurado no que realizar” (NAA).

Podemos destacar três coisas aqui:

1o – Os oito dias prescritos pela lei para a circuncisão são rigorosamente observados (Gn 1710-12; Lv 12.3; Lc 2.21). Quem realizava a circuncisão era o pai. Ela aconteceu na casa em Belém. Precisamos supor que logo depois do recenseamento, tendo cumprido seu dever, as pessoas retornaram novamente às suas terras. Com a partida desses numerosos viajantes havia novamente lugares disponíveis nos albergues.

O que significa a circuncisão?

1) Ela é uma confissão: Sou um pecador. Sou culpado de morte.

2) A circuncisão significa acolhida no povo eleito. Embora eu seja culpado de morte, Deus me permite viver e até mesmo me acolhe em seu povo escolhido, Israel. Estabelece uma aliança comigo. Ele o faz retardando a punição pelos pecados do povo até o dia em que colocará a punição pelos pecados sobre aquele que nunca cometeu um pecado, Jesus Cristo. Leia Rm 3.25.

3) A circuncisão representa um compromisso. O israelita se desprende da vontade própria, separa-se da vida autônoma e passam a servir somente a Deus.

A circuncisão simboliza pureza, compromisso com Deus, com Sua Palavra e o reconhecimento de pecado, tudo o que a igreja atual anda despregando.

Muitas pessoas alegam que não há mais necessidade de circuncisão como prescrito na Lei, uma vez que Jesus já cumpriu toda a Lei por nós (At 15.22-29, Rm 4.9-12, 1Co 7.7, Gl 5.6), no entanto, isso não nos isenta de termos uma vida santa e irrepreensível, que é a circuncisão do coração como diz Paulo (Rm 2.28,29). Para a santidade foi que Cristo nos chamou, como está escrito em 1Pe 1.15,16:“Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver; porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo”.

Hoje, infelizmente, a igreja está tão parecida com o mundo que não conseguimos mais diferenciá-la do mundo. Como nos fala uma antiga frase: “Procurei a igreja e encontrei-a no mundo; procurei o mundo e encontrei-o na igreja”.

A sociedade humana, sua cultura, o mundo e o poder por trás dele, nunca nos indicará o caminho que nos leva a Deus e a santidade. O grande Puritano Thomas Brooks dizia: “Seria mais fácil fazer os dois polos se encontrarem do que unir o amor a Cristo e o amor ao mundo”. Como nos fala João em sua primeira epístola:

Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo. E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre” (1 João 2.15-17).

O mundo nunca será parceiro da verdadeira igreja, pois o mundo é incircunciso (1Sm 17.26). O mundo está em luta contra a igreja pois está em luta contra Deus. Isso porque santidade é exatamente o oposto da direção que esse mundo se lança com avidez. Por isso não pode haver acordo da igreja com o mundo. No entanto, o que mais temos visto é a igreja se mundanizando para atrair as pessoas do mundo. A igreja que age assim perdeu sua identidade do que deve ser a Igreja do Senhor.

Como disse Paul Washer: “Se utilizarmos métodos carnais para atrair pessoas carnais, teremos de continuar a usar meios carnais para mantê-los. Não conseguiremos, como alguns supõem, mudar o cardápio para uma dieta mais espiritual na metade da refeição. Sem uma obra sobrenatural do Espírito, mediate uma pregação correta do Evangelho, as pessoas jamais terão gosto pelo Pão que desceu do céu”.

Infelizmente, há muitas igrejas servindo comida requentada de Satanás em vez de servirem o Pão da Vida. Deixam de seguirem os preceitos da Palavra de Deus e aplicam métodos mundanos. Bem diferente de José e Maria que obedeceram a Palavra que o Senhor havia lhes confiado. Eles foram um grande exemplo de consagração e obediência à Palavra.

Eles foram com o menino Jesus cumprir o que ordenava nas Escrituras. Em momento algum eles agiram contrários a ela, mas em tudo foram obedientes. Hoje o que mais vemos é a frase: “Temos que fazer uma releitura da Bíblia”, ou, “Temos que aplicar a Bíblia na visão da sociedade atual”. Tudo isso não passa do desejo de muitos líderes “cristãos” implantar outro evangelho (Gl 1.8) na igreja atual.

2o – Para Jesus, a circuncisão foi o começo de Sua trajetória de sacrifício rumo ao Calvário. Em tudo o Senhor Jesus se identificou com o pecador. Como disse o apóstolo Paulo: “Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2Co 5.21 – NAA).

1) Jesus sendo sem pecado é declarado aqui culpado de morte culminando no Calvário.

2) Jesus, desde a eternidade passada se propôs a sofrer a punição do nosso pecado.

3) O compromisso contido na circuncisão, a saber, abrir mão da vontade própria, foi cumprido de modo perfeito pelo santo Filho de Deus, como lemos em Jo 5.19: “Em verdade, em verdade lhes digo que o Filho nada pode fazer por si mesmo, senão somente aquilo que vê o Pai fazer; porque tudo o que este fizer, o Filho também faz” (João 5:19). E 1Pe 1.18-22 relata a paixão e morte de um cordeiro inocente.

Jesus não só se identifica com o pecador, mas Ele pagou pelos nossos pecados morrendo em nosso lugar na cruz. No entanto, a Bíblia nos diz que devemos ser imitadores de Cristo, não morrendo na cruz novamente, mas nos identificando em sua obediência ao Pai (1Jo 2.3-6).

3o – A circuncisão estava ligada à atribuição do nome. Lemos: “deram-lhe o nome Jesus, que fora citado pelo anjo”. O nome de Jesus é o equivalente grego do nome hebraico “Josué” que significa, “Yahweh salva”. É um nome apropriado para aquele que nasceu para “salvar o seu povo dos seus pecados” (Ma 1.21). A escolha do Pai do nome “Jesus” para o Seu Filho é apropriado, refletindo a realidade que Ele é “um Deus justo e Salvador” (Is. 45.21).

O nome Jesus, portanto, lhe foi dado por Deus, por meio do anjo. Isso é importante. Quando pessoas dão nomes, este nome expressa um desejo. Por exemplo, quem dá ao filho o nome Frederico deseja que este se torne uma pessoa pacífica (literalmente: rica em paz). Quando Deus concede um nome, ele não contém meramente um desejo, mas a realidade. O nome Jesus expressa uma realidade: Deus ajuda poderosamente, no tempo e na eternidade.

No entanto, devemos tomar cuidado para não acharmos que, de acordo com o nome que a pessoa tem, esta será bem ou mal sucedida na vida. Já vem de longe a superstição de que o nome pode exercer influência no caráter e no destino da pessoa, ou seja, do seu portador. Segundo os apologistas dessa “superstição”, existem nomes próprios que trazem prognósticos negativos pelo fato de estarem carregados de maldição. Nomes como Jacó, Mara, Cláudia e Adriana são comumente citados pelos supersticiosos como sinônimo de mau presságio. Creem que os mesmos trazem consigo um prognóstico negativo para o seu portador, por conta da carga de maldição que carregam. Jacó, justificam, significa “enganador”; Mara, “amarga, amargura”; Cláudia, “coxa, manca”; e Adriana, “deusa das trevas”.

Essas declarações iniciais são bastante significativas para conhecermos melhor essa prática antibíblica, cujas raízes estão nos cultos e crenças do paganismo. É bem verdade que existem alguns nomes que, por causa de sua conotação ridícula, devem ser evitados, a fim de que o seu portador não seja exposto a situações vexatórias, irônicas, depreciativas. Mas evitar um nome por atribuir-lhe um poder misterioso, que lhe anda anexo, capaz de prever o futuro do seu portador, é cair no engano da superstição e mergulhar num mar de conceitos antibíblicos.


2 – VEMOS AQUI UM COMPROMISSO COM A PALAVRA DE DEUS NA PURIFICAÇÃO DE MARIA E NA CONSAGRAÇÃO DE JESUS (Lc 2.22-24).

A lei previa a realização de dois atos: primeiramente o sacrifício de purificação, que devia ser ofertado em prol da mãe, v. 22 e v. 24, depois a apresentação da criança como primogênito, v. 23.

Com isso em mente, podemos destacar duas coisas aqui:

1o – Maria reconhece que é pecadora. Durante sua peregrinação para a purificação, Maria poderia ter pensado: “Será que de fato fiquei impura quando aconteceu o milagre do nascimento de Jesus?” Contudo, cremos que Maria não acalentou esse tipo de pensamento. Como serva do Senhor, ela percorre com modéstia e obediência o caminho prescrito a toda parturiente: o caminho até o ofertório de purificação.

De acordo com a lei, uma mãe que desse à luz um menino, era considerada impura por 40 dias depois do parto se fosse menina seria por oitenta dias (Lv 12.1-8). Durante esse tempo ela precisava permanecer em casa e não podia entrar no templo. Essa impureza ritual testemunhava que todas as pessoas são nascidas em pecado. Visava manter viva a consciência da pecaminosidade (Gn 3.10,16).

A oferenda dos pobres era um par de pombas, uma para a oferta queimada e outra como sacrifício pelos pecados. Os ricos deviam acrescentar um cordeiro ao holocausto pela purificação, sendo que a pomba era suficiente para o sacrifício pelos pecados mesmo para os ricos (Lv 12.8).

Maria se via pecadora, quem enalteceu Maria a condição de corredentora foram os homens, tal coisa não partiu dela, nem da igreja primitiva e muito menos do próprio Jesus (Lc 11.27,28). Deus não divide a Sua glória com ninguém. Quem quer glória dividida é Satanás e os homens, influenciados por ele.

Jesus era santo, Maria era pecadora. Jesus foi gerado pelo Espírito Santo no ventre de Maria, no entanto, o ventre de Maria era de uma mulher pecadora.

2o – A consagração de Jesus (Lc 2.22b,23). O Senhor demandava a santificação dos meninos nascidos em Israel como gratidão pelo fato de que ele os havia poupado quando feriu os primogênitos dos egípcios. Através da morte dos primogênitos todos os egípcios foram golpeados, e Israel fora poupado (embora também fosse culpado de morte). Israel deveria permanecer consciente de que era povo de Deus unicamente em virtude da soberana graça. Por essa razão os primogênitos deviam ser consagrados ao Senhor e, nos primogênitos, Israel se consagrava a ele como povo. Essa consagração era chamada de “apresentação” e indicava que o menino fora consagrado ao Senhor e entregue para servir ao templo.

Mas o primogênito era eximido desse serviço no templo porque o Senhor havia aceitado os levitas para que exercessem o serviço sacerdotal em lugar dos primogênitos (Nm 3.12,13,41-45). Contudo, a fim de manter viva no coração do povo a consciência do direito de Deus sobre a primogenitura, Deus instituíra o pagamento de um resgate para cada primogênito. O preço do resgate era 5 siclos de prata que equivale a 12 gramas de prata ou ouro (Nm 3.47 e 18.16). Uma pessoa pobre como José tinha de trabalhar cerca de quarenta dias para juntar esse valor.

Embora aqui Jesus fosse resgatado de seu serviço sacerdotal como qualquer menino israelita, na verdade ele se apresentava a Deus como se não tivesse sido eximido.

CONCLUSÃO

O exemplo de José e Maria em seguir a Palavra é muito importante para nós, principalmente em nossos dias onde ela tem sido negligenciada e quando lida, mal interpretada gerando assim em nosso meio cristãos sem compromisso com a verdade, pois não a conhecem. E aqueles que vivem o verdadeiro Evangelho são vistos como fundamentalistas, retrógrados, fanáticos e outros adjetivos similares.

Devido ao analfabetismo bíblico essa geração está alienada da verdade que liberta. Por isso, temos visto tantos crentes sem compromisso com Deus. Tem até compromisso com a igreja que frequentam, com o líder que seguem, com o manual que estudam, mas estão longe de Deus e dos ensinos da Palavra. Hoje, a maioria dos que se dizem cristãos vivem um evangelho sem cruz, doutrina bíblica sem Bíblia e são zelosos fora da doutrina. Creio que essa geração está igual a Davi que quis levar a arca da aliança para Jerusalém num carro novo; teve até muita festa e muita alegria, mas totalmente fora dos princípios da Palavra. Com isso gerou a morte de Uzá.

José e Maria seguiram o que a Lei determinava, não porque era lei, mas porque era a Palavra de Deus. Esse exemplo que eles nos deixaram precisa ser seguido de perto.

Pense nisso!

Bibliografia:

1 – Barclay, William. Comentário do Novo Testamento, Lucas.
2 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, volume 2, Lucas e João. Editora Candeia, São Paulo, SP, 1995.
3 – Davidson, F. O Novo Comentário da Bíblia, volume 2. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1987.
4 – Hale, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento, Editora Juerp, Rio de Janeiro, RJ, 1986.
5 – Keener, Craig S. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia, Novo Testamento. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 2017.
6 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus, o homem perfeito. Comentário Expositivo Hagnos. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017.
7 – MacArthur, John. Comentário do Novo Testamento, Lucas.
8 – Manual Bíblico SBB. Barueri, SP, 3a edição, 2018.
9 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário. Edições Vida Nova e Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1986.
10 – Rienecker, Fritz. Evangelho de Lucas, Comentário Esperança. Editora Esperança, Curitiba, PR, 2005.
11 – Washer, Paul. O Chamado ao Evangelho e a Verdadeira Conversão. Editora FIEL, São José dos Campos, SP, 1a Reimpressão 2017.

sábado, 28 de dezembro de 2019

OS CÉUS MANIFESTAM A GLÓRIA DE DEUS



Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 2.13-20

INTRODUÇÃO

Após o anjo anunciar o nascimento do Salvador,“apareceu com o anjo uma multidão dos exércitos celestiais, louvando a Deus”. Como já falamos, quando um menino nascia nos tempos bíblicos havia música e grande celebração, no entanto, quando Jesus nasceu não houve músicas como era de costume entre os judeus, mas os céus celebraram o Seu nascimento.

Quero pensar com você sobre o que os anjos cantaram e o como reagiram os pastores logo após esse anúncio. À primeira mensagem de Natal, proclamada por um anjo do Senhor, é acrescentado com o primeiro hino de Natal, cantado pelas multidões de anjos celestiais, um hino que nunca mais silenciará, mas que repercute por todos os séculos, por todos os cultos da igreja celebrante e adoradora, de eternidade a eternidade. Sua letra é: “Glória a Deus nas alturas, Paz na terra, boa vontade para com os homens” (ACF). “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem” (ARA).

Os pastores desprezados, principalmente pelos religiosos, são tidos em tão alta consideração por Deus que se tornam testemunhas de uma grande festa dos anjos, celebrada nas alturas por causa do nascimento do menino Jesus na manjedoura.

Mas quais as lições que podemos tirar desse texto:

1 – ENQUANTO A TERRA SE CALA, OS CÉUS LOUVAM (Lc 2.13,14).

Os anjos conheciam a glória de Jesus antes de Sua encarnação. Eles entendiam que a queda do homem havia transformado a raça humana em rebeldes pecadores contra Deus, também sabiam que Deus havia fornecido um caminho de salvação para o homem, na Pessoa de Seu próprio Filho. A profunda preocupação dos anjos com a salvação dos pecadores nos é revelado através das palavras de Jesus quando disse: “há alegria diante dos anjos de Deus por um só pecador que se arrepende” (Lc 15.10), por isso que os anjos louvam a Deus pelo nascimento de Jesus. Isso mostra que os anjos são seres dotados de emoção e alegria pelo agir de Deus em favor de Seu povo.

Com isso em mente, podemos destacar duas coisas importantes:

1o – Quem os anjos louvam (Lc 2.13,14). O anjos aparecem louvando a Deus e não aos homens. A mensagem é para os homens, mas a glória é de Deus. A glória é dada Àquele que é de eternidade a eternidade. Observe que em algumas versões, a Almeida Revista e Atualizada por exemplo, traz a palavra “multidão da milícia celestial”, outras versões trazem “multidão dos exércitos celestiais”. O termo milícia é o mesmo que exército. Infelizmente essa palavra milícia virou um termo pejorativo devido ser usada para bandidos hoje em dia. No entanto, esses “milicianos angelicais” estão louvando a Deus pelo fato de Jesus ter nascido.

Eles estão dando glória a Deus, pôs a glória que antes habitava no tabernáculo (Êx 40.34) e se manifestou no templo de Salomão quando foi inaugurado (2Cr 7.1-3), mas partiu por causa do pecado de Israel (Ez 8.4), agora estava de volta na Pessoa de Jesus (Jo 1.14). A manjedoura humilde se transformou no Santo dos Santos, pois Jesus estava lá!

Hoje, em muitas igrejas, as pessoas perderam a ideia do que seja a verdadeira adoração a Deus (Jo 4.24). Os cultos que deveriam ser Cristocêntricos estão totalmente antropocêntricos. O culto é para agradar as pessoas e não a Deus. Muitos líderes pregam o que dá certo e não o que é certo. O que predomina é o pragmatismo. Essa inversão de valores tomou conta de muitas igrejas. A adoração que deveria ser a Deus têm sido direcionada aos homens. Mas por que isso tem ocorrido? Talvez você pergunte!

Isso tem ocorrido porque muitos líderes estão tomando para si o reconhecimento e o louvor que deveria ser dado a Deus. Observe o que o Senhor Jesus nos alertou em Lucas 6.26: “Ai de vós, quando todos vos louvarem! Porque assim procederam seus pais com os falsos profetas”. Assim como existe o falso profeta, da mesma forma existe a falsa adoração. No entanto, os anjos estavam dando a Deus o perfeito louvor que lhe é devido. Essa mesma adoração o Senhor espera de nós.

O pastor Leonard Ravenhill em seu livro “Por que Tarda o Avivamento” diz que “o avivamento tarda porque os pregadores e evangelistas estão mais preocupados com dinheiro, fama e aceitação pessoal, do que em levar os perdidos ao arrependimento […]. O avivamento tarda porque roubamos a glória que pertence a Deus”. Essas palavras foram escritas em 1959, de lá para cá só vem piorando a situação nas igrejas.

Hoje existem quatro ídolos que se encontram em muitas igrejas. São eles:

1) O ídolo dos pregadores famosos: Há crentes que percorre todo o país participando de cultos com pregadores de renome. Alguns ministros conhecidos não pode sequer sair em público sem serem abordados por admiradores para tirar uma “selfie” com eles. Embora eu seja um defensor da cultura de honra e respeito pelos líderes que trabalham entre nós, algumas pessoas pisaram na borda da idolatria. Eles seguem tudo o que os pregadores dizem sem questionamentos, e sem ao menos procurar ver se o que é pregado está alinhado com a própria Palavra de Deus (At 17.10,11). Hoje há uma cultura tão difundida dos “pregadores celebridade” no corpo de Cristo, que algumas grandes igrejas praticamente fecharam depois que seu “pregador celebridade” deixou o cargo (isso ocorre com músicos também). Se os ministérios agissem de acordo com o padrão do Novo Testamento, em que cada membro do corpo existe para edificar uns aos outros, então não dependeríamos de apenas um líder para uma igreja funcionar.

2) O ídolo da adoração e entretenimento: Anos atrás, muitas igrejas não tinham sequer instrumentos musicais e ainda assim as pessoas iam às igrejas, cantando as canções do hinário na adoração. Agora, é muito comum para os pastores separar um alto valor do orçamento da igreja para pagar por cantores e músicos profissionais, a fim de preencher seus cultos. O que as igrejas devem buscar é uma adoração feita em espírito e verdade (Jo 4.24), que é o único tipo de adoração que Deus procura.

3) O ídolo da prosperidade financeira: Para alguns crentes, a motivação principal de sua fé são os ganhos pessoais. Embora Deus tenha prazer em abençoar todos os seus filhos, Jesus nos disse para buscar em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça, e todos os nossos bens materiais nos seriam acrescentados. Eu acredito que o uso da nossa fé para colocar as nossas próprias necessidades em primeiro lugar é uma forma de idolatria. O “seja feita a Sua vontade assim na terra como no céu” vem antes do “pão nosso de cada dia nos dá hoje”. Nunca se esqueça disso!

4) O ídolo da prosperidade pessoal: Embora este ponto seja semelhante ao ponto anterior, existe uma distinção que os separa. Através dos anos, tenho visto muitas igrejas promoverem a cultura do “eu” e do “meu”. Grande parte da pregação se trata da autorrealização ao invés do chamado que os crentes têm para a obra. Muitas vezes, pastores alimentam a igreja com este tipo de “culto motivacional”, ou, como é mais conhecido “Pregadores Coaching”, a fim de atrair pessoas para a igreja, algo que desagrada a Deus. Muitos dos discípulos da autorrealização vêm à igreja para sentir a presença de Deus, mas não estão comprometidos em conhecer e amar a pessoa de Deus. Muitos vêm para “receber uma palavra”, só que do homem e não de Deus. Muitos vêm para gritar “amém”, acreditando que porque gritaram, obedeceram. O crescimento de igrejas nem sempre tem resultado na transformação pessoal e social. Embora muitos tenham ido à igreja por décadas, nunca amadureceram e ainda estão bebendo o “leitinho”, sem nunca terem digerido a carne da Palavra (1Co 3.1-3).

2o – O nascimento de Jesus trouxe paz na terra (Lc 2.14). Os anjos em seu cântico dizem que Deus trará paz para os homens sobre os quais repousa Seu favor. Esses homens são aqueles que Deus escolheu, são os seus eleitos, não é uma paz universal. Essa paz que nos é dada não se trata de paz nas guerras, mas paz entre Deus e os homens. O que o apóstolo Paulo nos fala em 2Co 5.18-21:

E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação; isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamo-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus. Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus”.

Essa paz que vem da reconciliação com Deus só existe entre os que nasceram de novo. O homem natural está debaixo da ira de Deus (Ef 2.1-7). Muitas pessoas confundem graça comum com graça salvífica. A graça comum gera um homem religioso, mas a fé salvífica gera vida eterna. Por isso que na cruz, Cristo vestiu os nossos trapos de imundícia (Is 64.6), para vestir-nos com suas vestes de justiça (Ef 6.14); vestiu a nossa ofensa (Is 53.5; 2Co 5.21), para revestir-nos de sua glória (Ap 3.21); suas vestes estão manchadas de sangue (Ap 19.13), para que nossas vestes estejam sempre brancas (Ap 3.5; 7.9).

Mas haverá um tempo em que haverá uma grande paz mundial, não através da mensagem do Evangelho, mas por ele ter sido calado. O livro de Apocalipse nos fala das duas testemunhas que pregarão, mas não serão ouvidas e quando forem mortas haverá regozijo em toda a terra (Ap 11.7-10). Até o fim dos tempos o Evangelho será negligenciado. Só os eleitos se regozijam com a verdade e na verdade.

2 – A CONFIRMAÇÃO DA REVELAÇÃO (Lc 2.15-20).

Diante da revelação do anjo e da glória manifesta vista pelos pastores, eles partem para Belém para confirmar o que lhes fora revelado. Provavelmente eles providenciaram pessoas para substituí-los no cuidado do rebanho e partiram a toda pressa.

Com isso podemos destacar quatro coisas:

1o – A urgência para confirmar a mensagem recebida (Lc 2.15,16a). O texto nos diz que assim que os anjos se ausentaram eles partiram a toda pressa para Belém. Eles não negligenciaram as Boas Novas que lhe foram anunciadas. Eles não fizeram ouvidos de mercador. Eles não se fizeram de surdos. Eles deram importância ao que lhes fora revelado. Ouviram e se interessaram pelo que lhes fora dito.

Há um certo ceticismo em nosso meio hoje. As pessoas ouvem a Palavra, mas não se importam com o que foi falado. Escutam, mas não ouvem. Escutam, mas não dão a devida atenção. No livro de Apocalipse o Senhor diz para João escrever sete cartas as sete igrejas da Ásia e no final de cada uma delas o Senhor encerra dizendo: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas”. Em outras palavras o Senhor estava dizendo: “Ouçam com atenção, não se façam de desentendidos, vocês foram avisados”.

O mesmo Espírito tem falado hoje. Deus não tem estado calado. O problema não está em Deus, mas nas pessoas que desdenham da mensagem recebida. Como nos fala em Jeremias 44.16: “Quanto à palavra que nos anunciaste em nome do Senhor, não obedeceremos a ti”. O homem não mudou!

2o – Procuraram diligentemente até encontrar o sinal revelado (Lc 2.16)O local tradicional do campo onde os pastores estavam assistindo suas ovelhas era cerca de dois quilômetros de Belém. Lucas não descreve como os pastores encontraram Maria, José e o menino Jesus. No entanto, creio que não teria nascidos muitos bebês em uma pequena vila como Belém naquela noite. Certamente notícias de qualquer nascimento teria se espalhado rapidamente de boca em boca, especialmente desde que Maria deu à luz em um lugar semipúblico. Quando os pastores viram o menino enquanto ele estava deitado na manjedoura, a profecia do anjo foi confirmada. 

O verbo “acharam” significa que encontraram depois de investigar. Os pastores sabiam quem deveriam procurar: um bebê recém-nascido envolto em faixas e deitado numa manjedoura. Foi exatamente isso que o que encontraram! Através da Bíblia o Senhor nos dá todas as diretrizes de como tem que ser o nosso culto e como devemos nos posicionar como cristãos nesse mundo, o problema é que a Bíblia tem ficado de fora da vida de muitas pessoas e, inclusive, dos púlpitos, por isso que cada um faz o que quer. Parece que estamos vivendo o tempo dos Juízes: “Naquela época, não havia rei em Israel; cada pessoa fazia o que lhe parecia certo” (Jz 17.6). Naqueles dias não havia rei em toda a terra de Israel, e cada pessoa fazia o que lhe parecia direito” (Jz 21.25).

Se não há o Rei Jesus reinando não há também direcionamento correto para as pessoas. O Rei Jesus está fora de muitos púlpitos por isso cada um faz o que quer.

3o – Deus havia preparado o coração desses pastores para crer na mensagem. Como observado anteriormente, esses pastores eram, provavelmente, devotos adoradores do Deus verdadeiro e esperavam a redenção de Israel. Seus corações foram preparados para que, quando eles ouvissem a revelação do nascimento do Salvador eles cressem. O Espírito Santo vinha preparando o coração desses homens no decorrer dos anos. É provável que por serem impedidos de estarem no templo adorando a Deus, eles fizeram daqueles campos o seu local de adoração. Assim é confirmada a Palavra do Senhor que diz que “O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens” (At 17.24). O Senhor está onde há verdadeira adoração!

O sinal dado aos pastores – a estrebaria e manjedoura – era para eles um teste de fé tão extraordinário que temos a impressão de que o recém-nascido Cristo exclama aos seus primeiros visitantes aquilo que mais tarde manda dizer solenemente a João Batista: “Bem-aventurado é aquele que não achar em mim motivo de tropeço!”

4o – Os pastores assumem o lugar dos anjos (Lc 2.17-19,20). O anjo lhes transmite as boas novas, outros anjos aparecem louvando a Deus e os pastores procuram diligentemente a confirmação do que lhes fora anunciado. Uma vez confirmada a profecia do anjo, eles saem contando a todos o que haviam presenciado. Esses pastores servem de exemplo para nós, depois de encontrarem o Salvador ele transmitem as boas novas a outros. É impossível para quem teve um encontro real com o Salvador e não contar a outros do que lhes aconteceu (Jo 1.40-45; At 9.20-22, 26.19,20)).

Observe que quando o Senhor Jesus nasce, a revelação foi dada aos pastores que estavam cuidando de seu rebanho durante a calada da noite. Só que esses homens eram mal vistos pelos religiosos, eram considerados mentirosos a tal ponto de se não aceitar o testemunho deles no tribunal. Mas foi a esses homens que a mensagem do anjo foi dada. Quando Jesus se apresenta como a Água da Vida é para uma samaritana desprezada, inclusive pelos seus. Quando Jesus ressuscita, quem tem a revelação de um anjo que Jesus estava vivo foram as mulheres. Quem viu Jesus ressuscitado, inclusive, foi Maria Madalena de quem Ele havia expulsado sete demônios (Lc 8.2; Jo 20.11-18). Jesus sempre manifestará Sua glória aos humildes e não aos arrogantes desta terra.

3 – A PRUDÊNCIA DA FÉ (Lc 2.19).

Esta é a única coisa que lemos sobre Maria em toda a narrativa do nascimento. Não foi a ela que o anjo se manifestou na glória de Deus. Ela não ouviu o louvor das multidões de anjos, ela está rodeada tão somente de humildade. Maria não obtém mais revelações, exceto por meio da palavra dos pastores e da palavra profética de Simeão e Ana, bem como por meio da posterior visita dos “magos do oriente”. Ouvimos unicamente uma frase acerca de Maria, e essa frase nos proporciona uma visão de seu íntimo, do que se passava em seu coração. Não era apenas admiração, como nos demais, mas um “guardar” e “elaborar” no coração.

Podemos destacar duas coisas aqui:

1o – O Evangelho demanda de refletir e meditar sobre um grande conteúdo eterno. Maria guardou as promessas que haviam sido feitas sobre seu Filho e “as ponderava”. A palavra grega para ponderar significa “colocar junto para comparação”. Maria tinha ouvido anjos e pastores anunciarem grandes coisas sobre o seu Filho (Lc 1.32; 2.17,18). Conforme os acontecimentos de Sua vida desdobravam-se, ela comparava estas promessas com a maneira de seu Filho agir para cumpri-las.

A nossa fé será fortalecida e nós seremos encorajados ao meditarmos no que as Escrituras dizem sobre Deus e comparar com a maneira como Ele trabalha em nossas vidas (Jo 14.21). Ele é um Deus que responde orações (1Jo 5.14,15), nos consola em nosso sofrimento (2Co 1.3,4) e provê o que precisamos (Fl 4.19). Quando investirmos tempo em ponderar, veremos a fidelidade de nosso grande Deus.

Os pensamentos de salvação de nosso de Deus são tão grandes, profundos e ricos que um ser humano não consegue captar e absorvê-los de uma só vez. Eles precisam ser elaborados. Como disse Lutero: “Deus quer que sua palavra seja impressa em nosso coração e permaneça como uma marca que ninguém consegue lavar, como se fosse inata e natural”.

2o – Muitos estão vivendo um Evangelho de mente vazia (Rm 10.2). Maria quando disse para o anjo Gabriel que se cumprisse nela a vontade do Seu Senhor (Lc 1.38), ela havia ponderado todas as consequências de sua escolha. Ela não agiu por impulso, por emoção e muito menos por aventura. Ela sabia das dificuldades e mesmo assim ela se posicionou de forma positiva ao chamado Divino.

Creio que a parábola do semeador seja uma grande realidade em nossos dias. Há em nossas igrejas muitas pessoas com o coração que não é boa terra. Seus corações até recebem a Palavra que é a semente, mas não germinam devido as atividades e problemas desse mundo. Abraçam a fé, mas não querem se aprofundar e criar raiz (Mc 4.14-20).

Em seu livro “Crer é Também Pensar”, John Stott diz que a entrega sem reflexão é fanatismo em ação, mas a reflexão sem ação é a paralisia de toda ação.

Muitas pessoas pensam que culto a Deus é emoção, motivação, sentir, se arrepiar, ver sinais e maravilhas, barulho santo. Em um culto a Deus tudo isso pode acontecer, mas onde isso ocorre nem sempre é culto a Deus. Maria via tudo que estava acontecendo, mas ponderava cada palavra, cada situação que falava a respeito de Jesus.

CONCLUSÃO

Que possamos reavaliar a nossa fé diante de tudo que ouvimos. Que sejamos diligentes como os pastores e que sejamos ponderados como Maria. Que não sejamos negligentes com a Palavra de Deus, mas que estejamos prontos a obedecer imediatamente. Que sejamos cautelosos como Maria, tomando decisões não por impulso, mas conscientes das consequências das nossas decisões. Não agindo por impulso, mas conscientes das nossas escolhas e louvando a Deus sendo guiados pelos Espírito Santo.

Pense nisso!

Bibliografia:

1 – Barclay, William. Comentário do Novo Testamento, Lucas.

2 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, volume 2, Lucas e João. Editora Candeia, São Paulo, SP, 1995.

3 – Davidson, F. O Novo Comentário da Bíblia, volume 2. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1987.

4 – Hale, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento, Editora Juerp, Rio de Janeiro, RJ, 1986.

5 – Keener, Craig S. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia, Novo Testamento. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 2017.

6 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus, o homem perfeito. Comentário Expositivo Hagnos. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017.

7 – MacArthur, John. Comentário do Novo Testamento, Lucas.

8 – Manual Bíblico SBB. Barueri, SP, 3a edição, 2018.

9 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário. Edições Vida Nova e Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1986.

10 – Rienecker, Fritz. Evangelho de Lucas, Comentário Esperança. Editora Esperança, Curitiba, PR, 2005.

11 – Stott, John. Crer é Também Pensar. ABU Editora, São Paulo, SP, 12a Reimpressão, 2010.

12 – Conheça 4 sinais de que há idolatria em sua igreja https://guiame.com.br/gospel/mundo-cristao/conheca-4-sinais-de-que-ha-idolatria-em-sua-igreja.html

domingo, 22 de dezembro de 2019

UMA ANUNCIAÇÃO ESPLENDOROSA




Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 2.8-12

INTRODUÇÃO

A Bíblia nos fala que o primeiro Adão havia sido criado conforme a imagem de Deus, e o Senhor disse que essa criação era “muito boa”, no entanto, esse Adão era da terra, foi colocado em um jardim quando foi criado, no entanto, a Bíblia nos fala de outro Adão, porém este que é o Senhor do céu (1Co 15.47) – para este havia somente uma estrebaria e uma manjedoura. Enquanto o primeiro Adão teve um jardim, o segundo Adão que é Jesus, quando nasceu, não teve lugar para Ele na hospedaria.

A Escritura também nos diz que em sua encarnação o Senhor da glória (1Co 2.8) “se esvaziou, assumindo a forma de servo, e [foi] feito à semelhança de homens” (Fl 2.7). Jesus nasceu da descendência de Abraão e foi vestido no corpo de um infante. Todos os adjetivos e exclamações em nossa língua nunca poderiam dizer o suficiente sobre essa realidade. O nascimento mais notável da história aconteceu sob as mais obscuras e indescritíveis circunstâncias humildes que se possa imaginar, Jesus nasceu no local onde os animais daqueles que ficam em um abrigo público foram mantidos. Ninguém naquela sonolenta aldeia de Belém percebeu o significado do que tinha acontecido, a não ser, até certo ponto, os pais da criança. Quando um menino nascia os músicos da região se reuniam para celebrar esse nascimento, no entanto, quando Jesus nasceu em um estábulo em Belém essa cerimônia não teve lugar. Mas isso estava prestes a mudar; O silêncio sobre o nascimento do Salvador seria quebrado em uma forma mais sobrenaturalmente dramática. Se não houve música aqui da terra é bom pensar que os coros celestiais substituíram os músicos terrestres, que os anjos cantaram para Jesus canções que teria sido impossível entoar por bocas humanas.

Os céus desceram à terra para anunciar o nascimento do Salvador, no entanto, essa anunciação não foi dada aos religiosos de sua época, mas a pobres pastores que guardavam o seu rebanho durante a noite.

Por que a notícia do nascimento de Jesus foi aos pastores e não aos religiosos da época?

1 – DESDE O SEU NASCIMENTO JESUS SE IDENTIFICOU COM OS HUMILDES DESTE MUNDO (Lc 2.8-11).

Se o anúncio do nascimento de Jesus tivesse sido parte de uma campanha de relações-públicas humanamente planejado, ele teria sido tratado de forma muito diferente. O anúncio teria como alvo os poderosos e influentes em Israel: o Sumo Sacerdote, os membros do Sinédrio, os sacerdotes, os levitas, escribas, saduceus e fariseus. Em vez disso, Deus escolheu revelar essa gloriosa verdade em primeiro lugar, aos pastores que cuidavam do seu rebanho na calada da noite.

É desses pastores, que cuidavam do rebanho nas cercanias de Belém, que a história do Natal fala agora. Sobre os mesmos campos em que no passado Davi pastoreava os rebanhos do pai, e sob o mesmo céu estrelado, sob o qual Davi se edificava (Sl 8), os pastores talvez entoassem os salmos de Davi, fortalecendo assim o seu anseio pelo Filho de Davi. Deve ser plausível a suposição de que aqui em Belém aquela expectativa estava particularmente viva, pelo menos entre aqueles que esperavam pela redenção.

Diante disso, podemos destacar algumas considerações importantes:

1o – Os pastores eram uma classe desprezada. Todos os dias no templo, pela manhã e à tarde, oferecia-se um cordeiro sem mancha como sacrifício a Deus. Para assegurar-se de que não houvesse a falta destes cordeiros perfeitos, as autoridades do templo tinham seus próprios rebanhos, e sabemos que estes pastavam perto de Belém. Provavelmente estes pastores eram funcionários do templo. No entanto, os pastores eram desprezados pelos bons ortodoxos de seus dias. Virtualmente não podiam cumprir com todos os detalhes da Lei cerimonial; não podiam observar todas as meticulosas lavagens de mãos, as normas e as regulamentações. O cuidado de seus rebanhos os absorvia e os ortodoxos os consideravam como pessoas inferiores. Não desfrutavam de boa reputação naqueles dias. Não eram considerados fidedignos e não lhes era permitido dar testemunho nos tribunais. Eles eram considerados plebe que desconhece a lei. Eram, inclusive, privados da honra dos direitos civis.

No entanto, eles eram úteis para sua religião, mas inúteis para servi-la no templo. Eram usados pelos religiosos, mas negligenciados pelos mesmos. Eram úteis para os religiosos mas inúteis e não podiam estar no templo. Essa é a incoerência da religião formal; dos observadores de preceitos, dos teólogos nominais, dos que desconhecem o Deus que se revela nas Escrituras.

Isso aponta para uma grande incoerência que ainda se vê nas igrejas de forma geral. Exigem-se certas práticas e compromissos que acabam sendo impraticáveis por vários tipos de pessoas. Não necessariamente por estes serem relaxados religiosamente, mas pelas próprias exigências de suas vidas, trabalhos e contexto em geral. Quando a religião torna-se complicada demais, excluem-se automaticamente muitas pessoas; embora ainda precisando delas. Leia Colossenses 2.16-23. Nesse texto Paulo deixa claro o que estamos falando aqui.

2o – As Boas Novas a respeito do Cordeiro de Deus é dada aos pastores. Apesar dos religiosos os desprezarem, Deus não os desprezou, pelo contrário, foram eles que receberam a mais bela visita angelical anunciando o nascimento do Cordeiro de Deus.

É belo pensar que os pastores que cuidavam dos cordeiros do templo foram os primeiros a ver o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1.29). Já vimos que quando nascia um menino os músicos da região se congregavam para saudá-lo com música singela, agora a música para Este Menino não é entoada pelos homens, mas é entoada pelos anjos, pois este que nascera era o Cordeiro de Deus. O Salvador do mundo. É algo maravilhoso que a história nos conte que o primeiro anúncio de Deus foi aos pastores considerados inúteis para os religiosos, mas honrados por Deus para receberem tais notícias.

O Senhor não se revela aos poderosos, mas aos humildes. Ele não se revela aos que são religiosos, mas aos que temem a Deus. Deus pode até falar pela boca de um líder sem compromisso com Ele, como lemos em Mateus 7.22,23:

Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade”.

O mesmo vemos em João 11.49-51:

Depois os principais dos sacerdotes e os fariseus formaram conselho, e diziam: Que faremos? Porquanto este homem faz muitos sinais. Se o deixamos assim, todos crerão nele, e virão os romanos, e tirar-nos-ão o nosso lugar e a nação. E Caifás, um deles que era sumo sacerdote naquele ano, lhes disse: Vós nada sabeis, nem considerais que nos convém que um homem morra pelo povo, e que não pereça toda a nação. Ora ele não disse isto de si mesmo, mas, sendo o sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus devia morrer pela nação”.

Assim como falou pela boca de uma jumenta com Balaão (Nm 22.27-30), assim como usou a própria boca de Balaão, mas Deus não tem compromisso com esse tipo de pessoa. É melhor sermos irracionais como a jumenta de Balaão do que ser profeta cego que não contempla a glória de Deus. É melhor sermos pastores que cuidam com diligência do rebanho do Senhor do que ser um líder religioso preconceituoso que anda longe das ovelhas do Senhor.

A escolha de Deus de pastores para receber o anúncio do nascimento de seu Filho está de acordo com a profecia do Antigo Testamento sobre o ministério do Messias. Isaías 61.1 profeticamente se cumpriu pela boca do próprio Messias:

O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres; enviou-me a curar os quebrantados do coração, a proclamar liberdade aos cativos e a liberdade aos prisioneiros”.

Depois de ler essa passagem na sinagoga de Nazaré, Jesus declarou: “Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos (Lc 4.21). O ministério do Messias não seria o farisaico (Lc 5.32) - especialmente os líderes religiosos (Jo 7.48), ou o autossuficiente rico (Lc 18.24). Em vez disso, Ele buscaria os pobres, os humildes, os aflitos, os excluídos da sociedade (cf. Lucas 1.52; 1Co 1.26). Ao longo de seu ministério Jesus atraiu essas pessoas que foram quebradas pelos seus pecados e se humilharam em arrependimento (cf. Lc 7.37,38;18.13,14,19.8-10).

3o – Jesus nasceu em um mundo em trevas (Lc 2.8,9). Observe algo interessante, não foi sobre o Jesus menino e nem mesmo diante de Maria e José que resplandeceu a luz celestial. A estrebaria continuou escura e em sua constituição normal. Contudo lá fora, no campo, na direção do deserto, onde os pastores de ovelhas estavam acampados junto aos rebanhos, um dos mensageiros angelicais cumpriu um alto mandato de arauto. O céu está repleto daquilo que a terra deixa de lhe oferecer! A terra se cala. Como nos fala João: “Ele veio para os seus, mas os seus não o receberam” (Jo 1.11). Todos dormem na noite profunda. O céu, porém, celebra um grandioso e eterno dia!

A luz raia e rasga a noite! O anúncio da vinda do Cordeiro de Deus não foi de dia, mas a noite. Não foi enquanto todos andavam de um lado para outro, mas enquanto todos dormiam. A luz só é necessária nas trevas, em densa escuridão, no sono do descaso, foi isso que vimos aqui nesse texto.

A luz brilhou para os desprezados dos religiosos. A luz brilhou para os que guardavam as ovelhas do Senhor – eram ovelhas para o sacrifício diário. A luz brilhou para aqueles que estavam proibidos de estarem no templo. O sumo sacerdote não viu, os sacerdotes não perceberam, os levitas não se deram conta do ocorrido, os fariseus e os doutores da lei ficaram em densas trevas. Mas a luz brilhou para os que estavam cuidando do rebanho do Senhor.

4o – O Supremo Pastor veio cuidar das Suas ovelhas (Jo 10.11-14; 1Pe 5.4). Apesar de os pastores estarem perto do fundo da escada social; serem considerados ignorantes e não qualificados, cada vez mais visto como pessoas não confiáveis, personagens desagradáveis e desonestas, tanto que eles não foram autorizados a testemunhar em tribunal; apesar de tudo isso, Jesus se identifica como Pastor de nossas almas. É interessante observar que os dois personagens mais importantes para os judeus, Moisés e Davi, foram pastores em algum momento de suas vidas ((Êx 3.1; 1Sm 16.11, 17.34,35). Além disso, o Antigo Testamento refere-se metaforicamente a Deus como o “pastor de Israel” (Sl 80.1 cf. 23.1; Is 40.11), Enquanto Jesus descreveu-se como o “Bom Pastor” (João 10.11, 14; cf. Hb 13.20; 1Pe 2.25; 5.4).

Um dos salmos mais lidos e conhecidos da Bíblia, creio que seja o Salmo 23. Este Salmo nos mostra o relato de uma ovelha a respeito do cuidado do Bom Pastor para com ela. Quando identificamos essas características em Deus é que podemos compreender o que o apóstolo Paulo quis dizer em 1Co 1.27-31:

Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes; e Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são; para que nenhuma carne se glorie perante ele. Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção; para que, como está escrito: Aquele que se gloria glorie-se no Senhor”.

2 – O CONTEÚDO DA MENSAGEM DOS ANJOS (Lc 2.10-12).

O resplendor da glória de Deus através do anjo foi algo que trouxe grande temor aos pastores. O anjo se apresenta de forma completamente diferente da que se apresentou a Zacarias no templo e a Maria em Nazaré, mesmo assim eles ficaram temerosos, imagine os pastores que nem no templo podiam entrar? O esplendor do Senhor, a doxa = glória, que envolvia esse anjo iluminou também os pastores. A glória do Senhor resplandeceu sobre esses homens simples e rejeitados. O medo que eles sentiram era a resposta normal sempre que alguém na Escritura que encontrou um anjo (cf. Dn 8.15-18; 10.7-9,16,17; Mt 28.2-4; Lc 1.12, 26-30) ou viu a glória de Deus manifestado (Is 6.1-5; Ez 1.28; 3.23; Mt 17.5,6; Mc 4.41; 5.33; At 9.4; Ap 1.17). Creio que não seria diferente com nenhum de nós.

Vamos analisar o teor da mensagem do anjo.

1o – O anjo acalma o coração dos pastores (Lc 2.9,10). O medo tomou seus corações, mas imediatamente o anjo lhes acalma. O anjo diz que lhes trazia boa notícia. A boa notícia (Evangelho) que o anjo proclamou é para todas as pessoas. Laos (pessoas no grego) refere-se primeiro a Israel (1.68; 7.16; 19.47; 21.23; 22.66; 23.5, 14), pois “a salvação vem dos judeus” (Jo 4.22; cf. Rm 1.16). Mas a promessa da salvação não é somente para eles. Depois de louvar a Deus ao ver o menino Jesus no templo, Simeão disse: “Porque os meus olhos viram a tua salvação, que preparaste na presença de todos os povos: luz para revelação aos gentios, e para glória do teu povo Israel” (Lc 2.30-32). Significativamente, laos no versículo 31 é plural, ao mesmo tempo que é singular no versículo 32. As palavras de Simeão refletir a verdade expressa na profecia de Isaías: (Is 60.1-3; cf. Is 9.2; 42.6; 49.6-9; 51.4).

2o – Nasceu o Salvador que é Cristo o Senhor (Lc 2.11). Como disse João: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1.14). Estava se cumprindo naquela noite o que o profeta Isaías havia profetizado cerca de setecentos anos antes: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Is 9.6).

1) Ele nasceu. O nascimento é sempre a primeira realidade de um ser humano. Esse Redentor “nasceu”. Ele nasceu, Ele não apareceu como esse anjo que o anuncia com as vestimentas de luz da glória de Deus. Não, esse Salvador tornou-se nosso irmão de sangue, osso dos nossos ossos, carne de nossa carne, para que soubesse como nos sentimos neste pobre corpo carnal, e viesse a ser nosso misericordioso sumo sacerdote, para expiar nosso pecado e nos atrair para o alto como membros de seu corpo, de sua carne e seus ossos (Ef 5.30).

2) Para vós, diz o anjo. Essa é a mais gloriosa palavra em toda a primeira pregação de Natal. “Para vós”, diz o anjo, “para vós”, para os humanos, não foi para os anjos que Ele nasceu, o Supremo Senhor se tornou ser humano. Como disse Lutero: “Os anjos não precisam do Redentor, e os demônios não o querem. Ele veio por nossa causa, nós é que precisamos dele”.

3) Hoje! O Redentor, que é de eternidade a eternidade, entrou no tempo. A palavra “hoje” define seu nascimento como fato histórico. A encarnação do Filho de Deus não é um pensamento, uma ideia, um produto da fantasia que se construiu em personalidades ansiosas e esperançosas, mas um fato histórico que provocou um efeito imenso.

Desde aquele “hoje” passaram-se séculos, mas será que a palavra do anjo não continua sempre ressoando em nosso coração, como se fosse hoje? A história de nosso Redentor, por mais verdadeira e real que tenha sido no tempo, não é como a história de outras pessoas, pertencente apenas ao tempo. Aqui o passado se torna presente, porque essa história pertence à eternidade e se renova incessantemente, prolongando-se todas as vezes que seu poder animador é experimentado por um coração humano.

A tríplice descrição desse menino dada pelo anjo:

1) Ele é o Salvador – O anjo prefaciou sua descrição tríplice do Menino recém-nascido dizendo aos pastores que Aquele de quem ele falava tinha nascido para eles. Jesus é o Salvador de os judeus e gentios; individualmente, Ele é o Salvador de todos os que creem nEle (João 3.16). O anjo não deu nome terreno da Criança; Salvador, Cristo e Senhor são todos os títulos. Mas desde que o nome “Jesus” significa “o Senhor é salvação”, seu significado é abarcado pelo termo Salvador.

2) Ele é o Cristo – é um título exaltado para um bebê nascido em tais circunstâncias humildes. Ele é o Cristo, i. é, o Ungido, em hebraico o “Messias” (Dn 9.25,26), também significa “ungido”; uma pessoa colocada em um alto cargo e digno de exaltação e honra. Jesus foi ungido pela primeira vez no sentido de que Ele é o Rei designado por Deus, o “Rei dos reis” (Ap 17.14; 19.16), que vai sentar-se no trono de Davi e reinará para sempre, como Gabriel disse à Maria (Lc 1.32,33). Ele também foi ungido para ser o grande Sumo Sacerdote (Hb 3.1) para o seu povo; o mediador entre eles e Deus (1Tm. 2.5), que intercede por eles (Hb 7.25.). Finalmente, Jesus foi ungido como um profeta, porta-voz do final dos tempos (Hb1.1,2).

3) Ele é o Senhor – no sentido humano é um termo de respeito e estima, dado a alguém em uma posição de liderança e autoridade. Este título era dado aos proprietários de escravos; kurios (Senhor) e doulos (escravos) foram conectados. Mas, neste contexto, Senhor não é uma mera designação humana elevada; é um título divino. Dizer que esta criança é o Senhor quer dizer que Ele é Deus. Quando usado em referência a Jesus Cristo, kurios (Senhor) transmite tudo o que está implícito no tetragrama YHWH (Yahweh que a Septuaginta traduz kurios) - o nome de Deus (cf. Ex. 3.14,15). A confissão mais fundamental e básico do cristianismo é, “Jesus é o Senhor” (1Co 12.3). Ninguém que não afirma plena divindade de Cristo e sua igualdade com Deus, o Pai pode ser salvo, pois, como Ele advertiu os judeus, porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados (Jo 8.24).

3o – Um sinal de humildade (Lc 2.12). Os pastores recebem a notícia de que nascera o Salvador do mundo, isso por si só já era algo esplêndido, mas que esse Salvador estava em uma manjedoura? Isso sim era surpreendente. Uma admirável troca: o servo (no caso, o anjo do Senhor) vem na “glória de seu Senhor”, a saber, em esplendor de luz sobrenatural, a ponto de as pessoas se atemorizarem (v. 9), mas o Senhor em si vem como um bebê de fraldas na manjedoura. De fato, se o anjo do Senhor não o tivesse dito pessoalmente – como os pobres pastores poderiam ter crido e acolhido essa mensagem?!

O Salvador do mundo não está em um palácio, mas em uma manjedoura. O herdeiro do trono de Davi possuía uma estrebaria como salão real, uma manjedoura como trono, feno e palha como lugar de repouso e duas pessoas desabrigadas como séquito.

CONCLUSÃO

É preciso ler a narrativa de Natal sem o brilho poético e aconchegante, a fim de captar o realismo rude, terreno, com que aqui se apresenta a narrativa. O evangelista não fala do doce menino de cabelo cacheado, da estrebaria limpinha e dos probos pastores, mas de um casal exausto, da miséria de uma jovem mãe que tem de dar à luz seu filho em lugar estranho e precário sem qualquer ajuda, de uma criança que enxerga a luz do mundo em uma estrebaria suja, e de cuja chegada inicialmente ninguém, exceto alguns pastores proletários, tomou conhecimento. Isso sim é o verdadeiro sentido do Natal!

Pense nisso!

Bibliografia:

1 – Barclay, William. Comentário do Novo Testamento, Lucas.

2 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, volume 2, Lucas e João. Editora Candeia, São Paulo, SP, 1995.

3 – Davidson, F. O Novo Comentário da Bíblia, volume 2. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1987.

4 – Hale, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento, Editora Juerp, Rio de Janeiro, RJ, 1986.

5 – Keener, Craig S. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia, Novo Testamento. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 2017.

6 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus, o homem perfeito. Comentário Expositivo Hagnos. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017.

7 – MacArthur, John. Comentário do Novo Testamento, Lucas.

8 – Manual Bíblico SBB. Barueri, SP, 3a edição, 2018.

9 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário. Edições Vida Nova e Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1986.

10 – Rienecker, Fritz. Evangelho de Lucas, Comentário Esperança. Editora Esperança, Curitiba, PR, 2005.