domingo, 15 de outubro de 2017

IGREJA É LUGAR DE GENTE DOENTE


Por Fabio Campos

Muito dos nossos problemas fraternais dentro das igrejas seriam mais facilmente resolvidos se soubéssemos (não romanticamente) que igreja é lugar de gente doente.

Alguém pode indagar e repudiar o título deste artigo, pois vende o evangelho do mesmo modo como a Brahma vende suas cervejas: sol, praia e bastante gente bonita e sarada.

Se você aderiu o evangelho por conta de uma propaganda parecida com esta, por favor, entre em contato com o PROCON celestial, pois o que foi vendido para você não se trata do evangelho de Cristo, mas do “evangelho” dos homens – criado conforme os seus desejos e cobiças. O Evangelho não veio chamar sãos, mas doentes: “Jesus lhes respondeu: ‘Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes’” (Lc 5.31).

Grande parte das pessoas que rejeitam a mensagem da cruz, como, por exemplo, a grande mídia, leva uma vida de fazer inveja até mesmo o mais piedoso samaritano. São prósperos; não tem problemas; possui um corpo saudável. Não passam por ferrenhas tribulações e nem são afligidos como os demais homens. É ou não é de fazer inveja?

A teologia da prosperidade, por sua vez, adotou este estereótipo e o “cristianizou” dizendo que o homem bem-aventurado é aquele que possui todas essas coisas (basta assistir aos testemunhos de vitórias contados por seus adeptos). Mas o que eles dizem ser bênção (o amor e a ambição por todas essas coisas), a Bíblia chama de iniquidade e estrada para o inferno (Sl 73. 3-12).

Pois bem, voltando para a realidade do verdadeiro evangelho.

Igreja é lugar de gente doente e com vários problemas. Como eu sei disto? Eu faço parte dela e sou um deles. Quando fiz um auto-exame sincero do meu próprio coração, esta verdade se tornou tão clara como o sol do meio dia: tudo veio à luz. Como disse C. S. Lewis, encontrei em mim mesmo um bestiário de luxurias, um hospício de ambições, um canteiro de medos, um harém de ódios mimados. Malditos homens e mulheres que somos!!!

Ao perceber que meu diagnóstico era um caso irreversível, imediatamente fui procurar, depois de buscar outros, o médico que poderia reverter a situação (e ao chegar lá descobri que ele havia me procurado primeiro). Do pior, Ele me curou; mas ainda estou (e sempre estarei) em tratamento.

Outros moribundos, porém, estão aguardando o remédio fazer efeito. O fato é que todos não estão, mas são doentes. No meu pior estágio – aqueles que já se encontravam melhores – tiveram paciência e cuidaram de mim. Ou seja, sendo Jesus o médico, a igreja o hospital – os membros são os doentes que cuidam um dos outros (isso exige muita paciência, principalmente com as falhas agudas).

Agora há algo que sempre me inquietou: por que será que a igreja é o lugar que mais tememos de ter as nossas doenças expostas? Não estamos falando de um hospital? Por lá, há alguém são, que nunca pecou?

Eu acho muito patético (para não dizer maligno) como nós nos apartamos da simplicidade devida a Cristo e idealizamos a igreja uma SMART FIT, lugar de gente forte e saudável. É importante salientar que, mesmo nas academias, há pessoas pobres, feias e gordinhas (eu sou a prova viva disto... risos...). 

Infelizmente, há uma neurose triunfalista (e o Senhor te porá por cabeça, e não por cauda; e só estarás em cima, e não debaixo... blá... blá... blá...) no meio de grande parte das comunidades evangélicas. Mostram apenas os músculos espirituais, mas mudam de papo quando o assunto é o próprio coração que está adoecido, quando se trata de sua alma enferma.

Jesus não construiu uma academia; Jesus preferiu edificar um hospital. O médico não cuida (do ponto de vista espiritual) de gente bombada, marombada, mas de raquíticos e magrelos. Ele conhece todas as nossas mazelas. Cristo usa justamente aqueles que não são sábios e nem poderosos segundo o critério humano.

Sabe aquele irmãozinho meio estranho, que sempre fica na marginalidade ministerial; sim, aquele que é taxado por todos de excêntrico, que não se veste com roupas de marcas e que nem usa perfume ou desodorante? Do ponto de vista do homem natural (e de crentes carnais) ele seja insignificante, mas Deus o escolheu para reduzir a nada aqueles que pensam que são alguma coisa.

Portanto, pessoas doentes carecem de atenção e paciência. A igreja é lugar de gente doente. Talvez você já tenha sido curado das piores lepras, mas ainda sim é um doente em tratamento. Alguém que foi tirado da UTI para cuidar dos que ainda por lá estão. Afinal, amanhã eu e você poderemos estar na maca expirando cuidados (1 Co 10.12), e a medida com que tivermos medido nos medirão igualmente a nós.

Há, todavia, uma doença que não é encontrada nos corredores deste hospital.

A submissão ao tratamento evidencia a cura da pior das lepras, o orgulho (outros ainda poderão estar por lá, mas o pior já foi removido). O orgulho, que infectou a todos, se espalhou por toda a terra. O principal órgão que ele atacou foi o entendimento dos incrédulos, ao ponto de cometerem a tolice de rejeitar tratamento julgando eles ser sãos.

Com efeito, na igreja há muitas doenças, mas fora dela tem a pior de todas, e sem o especialista na área o diagnostico é incurável. Você vai morrer doente pensando que é são.

Igreja é lugar de gente doente; o mundo é lugar de gente morta.

Em Cristo Jesus, considere esta reflexão e arrazoe isto em seu coração.

Soli Deo Gloria!

Fonte: Fabio Campos

sábado, 30 de setembro de 2017

A ORAÇÃO DO PAI NOSSO: UM MODELO DE ORAÇÃO E NÃO UMA REZA


Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Mateus 6.9-15

INTRODUÇÃO

Após Jesus ensinar aos seus discípulos como eles deveriam orar, agora Ele lhes dá um modelo de oração. Essa oração conhecida como “Pai Nosso”, foi dada aos discípulos, não para ser memorizada ou recitada determinadas vezes. Pelo contrário, Jesus lhes deu essa oração para evitar que eles usassem de vãs repetições como os pagãos o faziam. Jesus não disse para eles orarem usando aquelas palavras, mas como uma oração modelo. Em outras palavras o Senhor estava dizendo assim: “orem dessa forma” e não “orem com essas palavras”.

Ainda a nível de introdução devemos entender porque existe uma diferença entre a oração do “Pai Nosso” aqui em Mateus com a ensinada em Lucas (11.1-4). Primeiro, a oração ensinada por Jesus em Mateus é anterior a de Lucas. A de Mateus foi ensinada antes dele escolher os seus apóstolos, já a de Lucas ela é proferida depois que Ele escolhe os apóstolos. Ela ocorre depois da volta dos setenta que Ele havia enviado a ir por todas as aldeias pregar o Evangelho do Reino (Lc 10.1-12, 17-20). Segundo, a de Mateus é ensinada no chamado “Sermão do Monte”, já em Lucas ela é ensinada depois que Jesus havia acabado de orar e os seus discípulos então lhe pedem para os ensinarem a orar também, assim como João havia ensinado aos seus discípulos. E há uma terceira razão, todo ensinamento é uma repetição, ainda que não seja com as mesmas palavras a oração ensinada em Lucas, mas a essência a mesma.

Há um outro detalhe a ser observado antes de analisarmos o texto. Há seis petições que nos foram apresentadas. As três primeiras – “santificado seja o teu nome; venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu” – dizem respeito a Deus e à Sua glória. E as demais petições referem-se a nós mesmos. Pode-se notar que essas três primeiras petições giram em torno das palavras “teu” ou “tua” e todas se referem a Deus [1].

Quais as lições que o Senhor quer nos ensinar através dessa bendita oração?

A PRIMEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE O SENHOR TEM A PRIMAZIA NA ORAÇÃO (MT 6.9). “Pai nosso que estás nos céus”.

Antes de nós começarmos a pensar em nós mesmos e em nossas próprias necessidades, antes de nossa preocupação com o próximo, devemos começar engrandecendo aquele que tem todo poder e autoridade. Devemos exaltar ao Senhor que é o criador de todas as coisas. Devemos começar honrando ao Senhor em primeiro lugar.  

Entenda uma coisa, não importa quais sejam as condições e circunstâncias, não importa qual é o nosso trabalho; não importa de maneira alguma, quais sejam os nossos desejos, o fato é que jamais devemos começar pensando e nós mesmos, nunca devemos começar apresentando as petições que nos dizem respeito [2].

Além de desrespeito é falta de educação. Perante um juiz ou outra autoridade qualquer não nos portamos assim; por que fazê-lo perante o Senhor nosso Deus?

Quando nos apresentarmos perante o Senhor em oração o Senhor Jesus nos dá três orientações básicas:

1º - Antes de reconhecemos a deidade de Deus, devemos reconhecer a Sua paternidade. Por que isso? Porque eu devo vê-lo como na verdade ele é, um Pai Amoroso. Jesus começa mostrando para os seus discípulos que há um Pai que nos ouve, ainda que este esteja no céu. Como disse John Stott, ele não é um bicho-papão que nos deixa aterrorizados com sua crueldade hedionda [...], mas ele preenche o ideal da paternidade em seu cuidado amoroso por seus filhos [3].

No entanto, muitas pessoas têm dificuldade de se relacionar com Deus como Pai, pois tem como referencial um pai terreno que é ou foi, totalmente diferente do Pai que o Senhor Jesus nos apresenta na Bíblia. Infelizmente, muitas pessoas conhecem somente pais severos, cruéis, rudes, egocêntricos, cuidando muito pouco do bem-estar dos filhos. Quem sabe ele fosse negligente, um bêbado, um toxicômano ou algum outro tipo de pessoa corrompida que destruiu sua personalidade.

Casos assim, infelizmente, são mais comuns que pensamos. E não estamos falando de pais somente ímpios, mas de lares de pais crentes. Devido a isso, o nome pai, em vez de apresentar uma riqueza de calor humano e recordações felizes, é frequentemente associado com temor e repulsa, cólera e hostilidade e, às vezes, até ódio e desprezo [4].

No entanto, não devemos fazer essa associação com um pai terreno e falho, mas com o Pai criador que nos ama, e que nunca nos deixará, ainda que muitas vezes nos parece que estar distante de nós.

Isaías 49.15 nos mostra como é grande amor de Deus por nós:

“Acaso, pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti”.

A opinião que Jesus tinha de Deus como seu Pai não estava condicionada pelo seu relacionamento com José, o carpinteiro de Nazaré, mas pela sua identidade pessoal com Deus Pai, desde as eras da eternidade. Por isso, para que você seja curado dessa má impressão que este termo pai traz ao seu coração, peça que o Senhor se revele a você como Ele é, um Deus amoroso que enche o nosso coração de paz.

 2º - Devemos entender que Ele é pessoal – Pai nosso. Há, no entanto, um problema. Conforme João explica, somente aqueles que recebem Jesus e creem em seu nome, têm o direito de se referir a Ele como “Pai nosso” (Jo 1.12). Na verdade, Jesus deixou claro que havia apenas dois tipos de pessoas no mundo: aqueles que se referiam a Satanás como “nosso pai”, e aqueles que chamavam a Deus de “Pai nosso” (Jo 8.44-47). Não há outras opções [5].

3º - Em terceiro lugar devemos reconhecer a sua grandeza. Ele não é somente bom, Ele também é grande. As palavras “nos céus” indicam não tanto o lugar de sua habitação como a autoridade e o poder que tem na qualidade de criador e governador de todas as coisas. Assim ele combina amor paternal com poder celestial; e o que o seu amor ordena, o seu poder é capaz de realizar [6].

A SEGUNDA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE AS TRÊS PRIMEIRAS PETIÇÕES DIZEM RESPEITO A DEUS E A SUA GLÓRIA (Mt 6.9,10).

“Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu”.

Como já falamos, o Senhor sempre terá a primazia na vida do cristão. Os que são servos sempre se preocupam em glorificar ao Senhor em todo tempo, principalmente na oração. Antes de lhe apresentarmos os nossos pedidos lhe glorificamos o nome.

O propósito da oração é em primeiro lugar glorificar o nome do nosso Deus. Se tal coisa não ocorre, nós estamos orando errado e estamos glorificando o nosso nome. Se a primazia não for o Senhor estamos sendo idólatras. Em outras palavras, devemos buscar em primeiro lugar as coisas espirituais e depois as coisas materiais.

Vejamos as três petições em relação a Deus.

1º - Santificado seja o teu nome. Santificado quer dizer venerado ou honrado, considerado santo. Está em foco a honra de Deus entre os homens e entre os seres angelicais. Veja por exemplo Isaías 6.1-5.

Na presença de Deus Todo-Poderoso, Isaías ficou completamente cônscio das suas imperfeiçoes. A pessoa, o poder e a pureza do Santo o tornaram inteiramente ciente da sua própria corrupção. É na pureza intensa e brilhante da pessoa de Deus que as nossas fraquezas e imperfeições aparecem da pior maneira possível. Quanto mais nos aproximamos dele, tanto mais claramente sentimos os nossos próprios pecados. E é somente assim que descobriremos quanto necessitamos de nos purificar das nossas imperfeições [7].

O Nome significa tudo quanto está envolvido na Pessoa de Deus, tudo quanto nos foi revelado a Seu respeito.

Por isso que o Senhor se revelou aos filhos de Israel sob diversos nomes. Ele usou certos vocábulos para indicar a sua pessoa (El ou Elohim), que apontam para o seu poder, para sua força.

O Nome – o nome de Deus – significa o título, a pessoa, o poder, a autoridade, o caráter e a própria reputação de Deus. Entenda uma coisa, tão grande era o respeito do antigo povo hebreu pelo nome de Deus que nem mesmo ousavam pronunciá-lo nem tentavam pô-lo em língua humana. Era representado pelas letras Y H W H. Mais tarde, foram aumentadas para YAWEH, que em nossas traduções é SENHOR.

O nome YAWEH quer dizer “Auto Existente”. No Antigo Testamento, o Senhor se descreveu a Si mesmo através do seu nome: Yahweh-jireh – o Senhor proverá; Yahweh-rapha – o Senhor cura; Yahweh-nissi – o Senhor é a nossa bandeira; Yahweh-shalom – o Senhor é a nossa paz; Yahweh-ra-ah – o Senhor é o nosso pastor; Yahweh-tsidkenu – o Senhor é a nossa justiça; e ainda Yahweh-shammah – o Senhor está presente. Ao lermos a antigo Testamento no original, vemos que todos esses nomes de Deus foram usados com certa frequência [8].

O Nome do Senhor deve ser honrado em todo tempo, mas infelizmente, este tem sido tripudiado em muitos lugares, inclusive dentro de lugares que Seu Nome deveria ser honrado – dentro de muitas igrejas.

Por isso que o Senhor Jesus disse que nós deveríamos brilhar neste mundo de tal maneira que o Nome do Pai seria glorificado através de nosso testemunho. Veja:

“Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus” (Mt 5.16).

2º - Venha o teu reino. Foi exatamente o Reino de Deus que o Senhor Jesus veio implantar na terra, não de forma literal, mas no coração dos seus discípulos. A Igreja Católica a interpreta fazendo da Igreja Romana um reino particular. Jesus em momento algum veio para inaugurar uma instituição religiosa. Longe disso.

Veja o que o Senhor Jesus falou para os fariseus sobre a vinda do Reino de Deus:

“Interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, Jesus lhes respondeu: Não vem o reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17.20,21 – ARA).

Quando o Jesus veio a este mundo Ele veio para inaugurar este Reino, que é o Evangelho sendo amplamente espalhado em toda a terra. É este Reino sendo instalado dentro dos corações das pessoas; gente que antes era serva de Satanás, mas agora convertidas ao Senhor. Como disse Paulo aos Colossenses 1.13,14:

“Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados”.

E podemos ir um pouco além. Quando eu oro “venha o teu Reino”, estou desejoso de renunciar ao governo da minha própria vontade, abstenho-me de tomar as minhas próprias decisões, a fim de permitir que o Senhor, pelo Seu Espírito decida o que eu deva fazer.

É o Senhor reinando de forma plena no meio da Sua Igreja.

3º - Faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu. Quando eu oro dizendo para Deus que seja feita a Sua vontade tanto na terra quanto no céu, eu estou abrindo mão da minha vontade em detrimento da dEle. Ou seja, a minha vontade não prevalece, mas a do Pai, e esta é, pura, perfeita e agradável (Rm12.2).

E temos como exemplo o próprio Senhor Jesus que disse que veio ao mundo não para fazer a Sua vontade, mas a vontade do Pai (Jo 6.38):

“Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, e sim a vontade daquele que me enviou”.

Mas sozinhos não conseguimos colocar em prática o que o Senhor deseja de nós. Não podemos viver um Evangelho só de palavras, mas, acima de tudo, de ação. Por isso que no final do Sermão do Monte o Senhor Jesus disse para os seus discípulos:

“Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mt 7.21 – ARA).

Por isso que o apóstolo Paulo em Filipenses 2.13:

“Porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade”.

Como disse John Stott: “Na contracultura cristã nossa prioridade máxima não está no nosso nome, no nosso reino ou na nossa vontade, mas em Deus” [9].

A TERCEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE AS ÚLTIMAS TRÊS PETIÇÕES SE REFEREM A NÓS MESMOS (Mt 6.11-13).

Nesta segunda metade da oração do Pai-Nosso, o adjetivo possessivo passa de “teu” para “nosso”, quando passamos das coisas divinas para as nossas próprias. Tendo expressado nossa ardente preocupação com a Sua glória, expressamos agora nossa humilde dependência da sua graça [10].

Vejamos as três petições em relação a nós:

1º - Primeiro, o Senhor aborda uma necessidade presente - O pão nosso de cada dia dá-nos hoje (Mt 6.11). Nosso Senhor passa agora a considerar as nossas necessidades, e, como é evidente, a primeira coisa que se faz mister é que sejamos capazes de continuar a nossa existência física neste mundo.

Agora, devemos pedir que o Senhor supra as nossas necessidades diárias e não a nossa ganância insaciável [11]. E o que mais tem ocorrido hoje é que as pessoas vão para as igrejas não para pedirem o pão diário, mas para que os seus caprichos sejam saciados. Que as suas ganâncias sejam supridas e que as suas vontades prevaleçam.

Muitas pessoas vão para determinadas igrejas pedirem, pois esse é o ensinamento de tais igrejas também, que a vontade delas seja feita na terra dando ordens aos céus.

Quando Jesus falou do pão diário, provavelmente estava em sua mente o maná que descia todos os dias no deserto para suprir a fome do povo. Em outras palavras, tudo quando devemos pedir é aquilo que é o suficiente ou necessário para cada dia. Essa é uma oração que alude às nossas necessidades. O pão é o sustento da vida; mas não devemos limitar essa petição somente às questões alimentares. Ela tem o propósito de abarcar todas as nossas necessidades materiais, tudo quanto se faz mister para a vida do ser humano neste mundo [12].

Mas entenda uma coisa, o pão diário procede de Deus para as nossas vidas, mas ele vem do fruto do nosso trabalho. Tanto que o apóstolo Paulo escrevendo aos Tessalonicenses diz que “se alguém não quer trabalhar, também não coma” (2Ts 3.10).

No Salmo 128.2 nos diz: “Do trabalho de tuas mãos comerás”.

Repetindo: “O pão é o sustento da vida; mas não devemos limitar essa petição somente às questões alimentares. Ela tem o propósito de abarcar todas as nossas necessidades materiais, tudo quanto se faz mister para a vida do ser humano neste mundo”.

2º - Segundo, o Senhor aborda um pecado passado - e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores (Mt 6.12,14,15). O perdão é tão indispensável à vida e à saúde da alma como o alimento para o corpo. O pecado é comparado a uma “dívida”, porque merece castigo. Mas quando Deus perdoa o pecado, Ele cancela a penalidade e anula a acusação que há contra nós. No entanto, o Senhor perdoa somente o arrependido, e uma das principais evidências do verdadeiro arrependimento é um espírito perdoador. Quando nossos olhos são abertos para vermos a enormidade de nossa ofensa cometida contra Deus, as injúrias dos outros contra nós parecem, comparativamente, muitíssimo insignificantes. Se, por outro lado, temos uma visão exagerada das ofensas dos outros, é uma prova de que diminuímos muito a nossa própria [13].

Veja por exemplo a parábola do credor incompassivo em Mateus 18.23-35.

Apenas para colocar as coisas em perspectiva e entendermos o que Jesus estava querendo dizer: O valor total de impostos que o império Romano esperava arrecadar todos os anos de Herodes era de 900 talentos. Isto incluía os impostos coletados nas províncias da Judéia, Samaria, Idumeia, Galileia, Peréia, Batanéia, Traconites e Auranitis.

Dez mil talentos equivalem a 350.000 quilos de prata. O que o Senhor quer dizer é que: essa dívida seria impossível de ser paga. No entanto ela foi perdoada, mas esse credor perdoado não perdoou uma pequena dívida que alguém tinha para com ele. Ou seja, ele era uma pessoa ingrata e que não alcançou o que o Rei fez por ele. Há muitas pessoas assim hoje em nossas igrejas.

Sem perdão não há como manter o relacionamento nem com Deus e nem com as pessoas ao nosso redor. 

3º - Terceiro, o Senhor aborda os pecados futuros - e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal (Mt 6.13). Uma pessoa que entende o que é o perdão recebido por Deus pede ao Senhor que o livre das tentações futuras.

O Senhor Jesus nos orienta a pedirmos proteção moral e espiritual, rogando ao Pai que nos livre das ciladas do diabo, do laço do passarinheiro e dos ardis da tentação do maligno. O cristão reconhece a sua fraqueza, sabedor da facilidade com que cede diante das tentações do mundo, da carne e do diabo. O cristão ora, portanto, para ser liberto de todas elas [14].

Assim como o tentador agiu com os nossos primeiros pais, devemos ter em mente que com cada um de nós não será diferente. Se ele teve a ousadia de tentar o nosso Senhor no deserto, quanto mais a cada um de nós.

Preste bem atenção no que nos diz Tiago a respeito da tentação:

“Bem-aventurado o homem que suporta, com perseverança, a provação; porque, depois de ter sido aprovado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor prometeu aos que o amam. Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte” (Tg 1.12-15 – ARA).

A tentação é uma oportunidade de fazer algo bom de maneira errada, fora da vontade de Deus. Por isso precisamos pedir ao Senhor que nos ajude a vencer as tentações.

CONCLUSÃO

Como vimos, a oração do “Pai Nosso” não é uma reza, mas um modelo de como devemos orar todos os dias. Reconhecendo em primeiro lugar a soberania do nosso Deus e engrandecendo o Seu Nome. Reconhecendo que Ele é o nosso Pai, que a Sua vontade deve prevalecer e que a nossa deve estar atrelada a dEle. Só assim, poderemos colocar os nossos pedidos diante do Senhor, reconhecendo o Seu terno cuidado para com cada um de nós.

Mas não podemos nos esquecer de que devemos estar com o nosso coração perdoador, pois se não, fica inviável o Senhor nos ouvir. Como podemos pedir perdão, se nós mesmos não queremos lutar para perdoar os nossos devedores? Por isso eu entendo que orar é mais que falar com Deus, orar é se abrir para que o Senhor contemple o nosso coração e nos ajude a vencer os nossos desejos e pecados que nos afastam de sua presença.

Orar é saber que podemos entrar na sala do trono de Deus e sermos atendidos por Ele. É entrar em Sua presença e recebermos a devida orientação para vivermos de forma a glorificar o seu Nome em nossas vidas em todo o tempo. Por isso ore. Mas ore como o Senhor nos ensinou aqui.

Pense nisso!

Fonte:

1 – Lloyd-Jones, D. Martyn. Estudos no Sermão do Monte. Editora Fiel, São Paulo, SP, 1984: p. 343.
2 – Ibid, p: 344.
3 – Sttot, John. A Mensagem do Sermão do Monte. Editora ABU, São Paulo, SP; 1986: p. 149.
4 – Keller, W. Phillip. Orando Diariamente o Pai-Nosso. Editora Vida, São Paulo, SP; p. 14.
5 – Hanegraaff, Hank. A Oração de Jesus. Editora CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2002; p: 42.
6 – Sttot, John. A Mensagem do Sermão do Monte. Editora ABU, São Paulo, SP, 1986: p. 149.
7 – Keller, W. Phillip. Orando Diariamente o Pai-Nosso. Editora Vida, São Paulo, SP; p. 67.
8 – Lloyd-Jones, D. Martyn. Estudos no Sermão do Monte. Editora Fiel, São Paulo, SP, 1984: p. 345. 
9 – Sttot, John. A Mensagem do Sermão do Monte. Editora ABU, São Paulo, SP, 1986: p. 152.
10 – Ibid, p. 152.
11 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017; p. 355.
12 – Lloyd-Jones, D. Martyn. Estudos no Sermão do Monte. Editora Fiel, São Paulo, SP, 1984: p. 355.
13 – Sttot, John. A Mensagem do Sermão do Monte. Editora ABU, São Paulo, SP, 1986: p. 155. 
14 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário. Edições Vida Nova e Ed. Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1986: p. 184.

sábado, 23 de setembro de 2017

COMO SE DEVE ORAR


Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Mateus 6.5-8

INTRODUÇÃO

Orar, jejuar e dar esmolas faziam parte do ritual de todo judeu na época de Jesus. Tanto que Ele fala a respeito dessas três coisas aqui no Sermão do Monte e, além disso, Ele ensina aos seus discípulos como eles deveriam fazer isso, não como os hipócritas que faziam para serem vistos pelos homens (Mt.6.2,5,16).

No texto de Mateus 6.5-8 o Senhor Jesus mostra aos seus discípulos algumas atitudes que eles não deveriam ter na oração e quais as atitudes corretas que eles deveriam ter. Orar é mais que falar com o Pai, é falar, mas de forma que sejamos ouvidos. Por isso que o Senhor nos alerta para termos cuidado como fazemos as nossas orações.

A oração é a bússola na vida na vida do crente, e os discípulos entenderam isso. Eles também observaram que a oração para Jesus era como o oxigênio da alma. Por isso Ele estava em constante oração. 
  
Como disse alguém: “a oração é um grito universal da alma”. Tanto e que até os ateus acham um jeito de orar. Durante os severos tempos do comunismo na Rússia, gente que acreditava no regime comunista mantinha num “cantinho vermelho” um retrato de Lênin, no lugar em que os cristãos costumavam colocar seus ícones. Tomado desse fervor, o que o Pravda (o principal jornal da União Soviética), publicou, em 1950, a seguinte orientação aos seus leitores:

Se você encontra dificuldade no trabalho ou de repente duvida da sua capacidade, pense nele – em Stalin – e encontrará a confiança de que precisa. Se você se encontra cansado numa hora em que não deveria se sentir assim, pense nele – em Stalin –, e seu trabalho correrá bem. Se você está querendo tomar uma decisão correta, pense nele – em Stalin – e chegará a essa decisão [1].

A oração é importante. Todos os que querem seguir o Senhor sabem que a oração é parte essencial da vida do discípulo. Entretanto, poucos oram e muitas vezes, quando oramos, parece que lutamos para nos expressarmos a Deus. Embora possa parecer que a oração deveria vir a nossa boca como uma expressão confortável de nossa fé e confiança em Deus, ela frequentemente parece difícil, talvez ineficaz.

Aliás, para muitos, orar é como um peso, uma luta que é travada e a pessoa se sente sempre derrotada, da mesma forma é ler a Bíblia. Por ser a oração primordial na vida do cristão ela sempre será uma luta diária. E o diabo fará de tudo para tentar nos impedir de orar. Mas nem por isso devemos deixar de orar.

Ao longo da história há relatos de muitas pessoas que tinham uma vida de oração. George Müller começava cada dia com várias horas de oração, implorando a Deus que cuidasse das necessidades práticas de seu orfanato. O bispo Lancelot Andrewes dedicava cinco horas por dia à oração e Charles Simeon levantava-se às quatro da manhã para começar o seu regime de oração [...]. Susannah Wesley, mãe ocupadíssima sem nenhuma privacidade, costumava sentar-se numa cadeira de balanço, cobrir a cabeça com um avental e orar por John e Charles e pelo resto da ninhada (ela deu à luz 19 filhos). Martinho Lutero, que dedicava duas a três horas diárias à oração, dizia que devemos orar com a mesma naturalidade com que o sapateiro faz sapatos e o alfaiate faz casacos. Jonathan Edwards escreveu sobre as “doces horas” às margens do rio Hudson, “arrebatado e perdido em Deus” [2]. No século dezenove Charles Haddon Spurgeon disse que em muitas igrejas a reunião de oração era apenas o esqueleto de uma reunião, onde as pessoas não mais compareciam. Ele concluiu que “se a igreja não ora, ela está morta” [3]. Você tem uma vida de oração?

No texto que lemos o Senhor nos dá algumas diretrizes de como deve ser a nossa oração. Ele nos dá algumas lições que são extremamente importantes para que as nossas orações possam chegar ao trono do Pai.  

PRIMEIRA LIÇÃO QUE O SENHOR NOS DÁ É QUE EXISTE UMA FORMA ERRADA DE ORAR (Mt 6.5,7).

A dificuldade com a maneira errada de orar é que sua própria abordagem é errada. Sua falha essencial é que ela se volta para dentro de si mesma. Trata-se da concentração da atenção naquele que está orando, ao invés de concentra-se nAquele para quem a oração está sendo dirigida [4].

Quando o Senhor começa a ensinar a respeito da oração Ele aponta três erros graves que estava ocorrendo com muitas pessoas de sua época, erros esses que, infelizmente, existem até hoje.

1º - O primeiro erro é a hipocrisia (Mt 6.5). A palavra hipócrita quer dizer ator. A palavra vem do grego hypokrinein, que designava, na antiga Grécia, os atores de teatro, pois durante as apresentações eles fingiam ser outras pessoas.
No caso aqui, são pessoas que fingem ser devotas e piedosas, mas na verdade são falsas. São verdadeiros atores que representam um papel no meio religioso. É aquela pessoa que não serve a Deus de coração, mas só da boca para fora. Veja como o Senhor chama tais pessoas que agem assim em Mateus 23.27,28:

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia! Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e de iniquidade”

O contexto dessa palavra nos diz que tais pessoas agem assim quando dão esmolas, oram e jejuam. Em todas essas ocasiões eles querem ser vistos pelos homens, em momento algum eles querem ser vistos por Deus. Em outras palavras, a motivação delas está nelas mesmas e receberem “aplausos” dos homens, mas estão longe de Deus.

D. Martyn Lloyd-Jones diz que o hipócrita descrito aqui é “um homem, a caminho do templo, onde ia orar, ansiava por dar a impressão que a sua alma era tão devota que não podia esperar até chegar no templo. Por esse motivo, começava a orar, postando-se de pé na esquina da rua. Pela mesma razão, ao chegar ao templo, esse homem colocava-se na posição mais destacada possível” [5].

O que tais pessoas recebem? A única recompensa que esses hipócritas recebem é serem vistos pelos homens. Tanto que a palavra traduzida por receber é apechousi, que era usada para descrever que o pagamento havia sido totalmente realizado, esta palavra era usada em recibos.

Para o hipócrita isso é o suficiente já que ele não tem compromisso com Deus! Aliás, ele não conhece a Deus.

2º - O segundo erro é a vã repetição (Mt 6.7). O que o Senhor Jesus está abordando aqui não é a repetição das orações cotidianas. Por exemplo: orar pela família, pela nossa Pátria, pela saúde. Tanto que Jesus quanto Paulo repetiam suas orações (Mt 26.36-46; 2Co 12.7,8). Uma oração é vã repetição quando as palavras não refletem um desejo sincero de buscar a vontade de Deus. É quando a pessoa ora por orar.

3º - O terceiro erro abordado por Jesus aqui que é o engano de acharem que estão sendo ouvidos por muito falarem. Fazem belas e longas orações, mas completamente vazias, falam, falam, mas não estão sendo ouvidas por Deus porque não é para Ele que tais orações estão sendo dirigidas.

Oram para que as pessoas os ouçam. Oram usando palavras e mais palavras, todas elas bem-postas para chamarem a atenção para si. E o que conseguem com isso é chamar dos homens, mas não de Deus. Tem os holofotes humanos, mas não a luz do Pai.

A SEGUNDA LIÇÃO QUE O SENHOR NOS DÁ É QUE EXISTE UMA FORMA CERTA DE ORAR (6.6,8).

C. S. Lewis disse: A oração que precede todas as orações é: “Que seja o meu verdadeiro eu quem fala. Que seja ao verdadeiro tu que me dirijo”.

Antes de nós falarmos a respeito de como se deve orar, eu só gostaria de lembrar que não é errado orar em público na igreja e muito menos de participar das reuniões de oração da igreja. Só falta agora alguém dizer que não frequenta as reuniões de oração da igreja porque ora em “secreto” em casa. O que é errado é orar para mostrar para as outras pessoas que você é uma pessoa de oração. O Senhor está condenando a atitude de espetáculo teatral que envolviam essas orações em público. E há um outro detalhe, muitas pessoas oram em público, mas não oram em particular. É gente que gosta dos holofotes, mas não da luz de Cristo.

Jesus fala a respeito do erro que os hipócritas estavam cometendo, no entanto, Ele agora se volta para os seus discípulos e os orienta de como eles deveriam orar. E Ele dá três orientações básicas em relação a oração.

1º - Devemos procurar um lugar privativo para orar – entra no teu quarto. A ideia que se tem é que a palavra quarto se refere ao aposento de dormir, mas não é. No grego a ideia que se tem é de um depósito, tanto que a palavra aqui é tameion designava uma sala-depósito ou um lugar que se guardava o tesouro. O “quarto” é um lugar onde ninguém vai nos incomodar nessa hora sublime. 

Jesus está dizendo que devemos procurar um lugar onde possamos ter privacidade para excluir certas coisas do meu campo de interesse. Entrar no quarto é acima de tudo entrar na presença de Deus e nos esquecermos das coisas ao redor. E isso pode acontecer na rua, junto de outras pessoas, na igreja... é você se fechar para tudo, inclusive para você mesmo, e orar ao Pai.

Por isso que o Senhor nos diz que devemos fechar a porta. Isto é, não estar num lugar onde as pessoas passem e possam nos ver orando. Não que não possam saber que estamos ali, mas que estamos em um lugar de oração; não é um lugar para sermos vistos orando para chamar a atenção das pessoas.

No filme “Quarto de Guerra” um dos lugares de oração era dentro de um closet.

2º - Entrar na presença de Deus. “Tu, porém... Fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto”. Se os hipócritas estavam orando na presença dos homens e para os homens verem, nós, discípulos de Jesus, devemos agir de forma contrária. Devemos entrar na presença do Pai que vê em secreto.

Observe que o Senhor falou “Tu, porém”, ou seja, a oração é pessoal. Podemos estar na presença de Deus de forma coletiva, mas a oração é pessoal. Porque o Senhor esquadrinha cada coração, cada necessidade de forma particular.

Orarás a teu Pai, que está em secreto. Devemos ter a percepção de quem Deus é, e do que Deus é. Antes de começarmos a proferir palavras, sempre deveríamos relembrar essa realidade. Deveríamos dizer para nós mesmos: “Agora estou entrando no salão do trono de Deus, o Todo-Poderoso, o absoluto, o grande e eterno Deus que brande todo poder, força e majestade, aquele Deus que é fogo consumidor, aquele Deus que é luz e em Quem não há trevas nenhuma, aquele Deus total e absolutamente santo”. E apesar de tudo isso, esse é um relacionamento entre Pai e filho [6].

Como disse o autor de Hebreus:

“De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam” (Hb 11.6).

3º - Não sermos como os hipócritas (Mt 6.8). O Senhor nos diz para não sermos semelhantes a estas pessoas que não tinham intimidade com o Pai, pelo contrário, devemos estar longe de tal atitude e de tais pessoas.

A hipocrisia é prima-irmã do orgulho. Tem gente que começa bem em sua vida de oração, no entanto, por não vigiarem acabaram caindo no laço do orgulho e da hipocrisia. Tais pessoas começam a se ver melhores que as outras, ou, muitas vezes, por serem elogiadas como pessoas de oração, passam a querer demonstrar isso diante das pessoas. Aí caem no farisaísmo hipócrita que o Senhor tanto condenou em seu ministério. Por isso vigiemos!

A TERCEIRA LIÇÃO QUE O SENHOR NOS DÁ É QUE QUEM ORA CERTO É RECOMPENSADO (6.6b,8b).

Ao nos posicionarmos de forma correta na oração duas coisas tremendas ocorrerão: Em primeiro lugar seremos recompensados pelo Senhor, e em segundo lugar, podemos descansar em seus cuidados, pois Ele sabe do que necessitamos.

1º - A recompensa dos hipócritas é serem vistos pelos homens, a recompensa do cristão que ora em secreto é que ele é visto por Deus. O Senhor está contemplando o nosso coração. E mais, quando oramos o próprio Senhor nos auxilia na nossa oração. Veja o que o apóstolo Paulo nos fala em Romanos 8.26,27:

“Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos”.

A palavra traduzida por “assistir” significa mais que “assistir”. O sentido é que o Espírito toma sobre si nossa carga não somente para nos ajudar e socorrer, mas sobretudo para nos aliviar, carregando todo o peso por nós. Nossa fraqueza nos levaria ao desfalecimento e ao desespero, não fosse a assistência do Espírito Santo [7].

Veja esse exemplo: Com a voz clara, embora trêmula, uma jovem começou sua oração com as seguintes palavras: “Deus, eu te odiei depois do estupro! Como pudeste deixar que aquilo acontecesse comigo?”. A congregação de súbito fez silêncio. Não mais se ouvia ruídos de folhas de papel ou gente se mexendo nos bancos. “Odiei as pessoas desta igreja que tentaram me confortar. Eu não queria conforto. Queria vingança. Queria retribuir a ferida. Eu te agradeço, ó Deus, por não teres desistido de mim, como também não desistiram algumas pessoas aqui. Tu continuaste a me procurar, e agora volto a ti e peço que me cures as cicatrizes da alma” [8].

Será que queremos melhor recompensa que esta? Creio que não!

 2º - “O vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais”. Quem tem vida de oração de forma correta tem todas as suas necessidades supridas. Necessidades não são os nossos caprichos. Há uma grande diferença aqui. Um pai antes de realizar o capricho de um filho, ele, em primeiro lugar, supre as suas necessidades. O nosso Pai celestial faz isso de uma forma plenamente perfeita. Por isso podemos descansar nEle.

A oração não é para fazer com que o Senhor faça a nossa vontade, mas para que a vontade do Pai seja entendida e aceita por nós. Veja o que Paulo falou em 2Co 12.7-10:

“E, para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte. Por causa disto, três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte”.

Paulo ora pedindo livramento do problema que ele estava passando, mas o Senhor o revela que o problema que ele estava enfrentando era para o seu próprio bem, “para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações”. Mas ele só recebeu essa revelação através da oração. E tem mais, ele não só a recebeu como a aceitou.

Entenda uma coisa, oração não é um ópio, um calmante para a alma, um refrigério; mas o despertamento para uma nova ação. Jesus quando esteve no Jardim do Getsêmani lutou em oração, mas quando se levantou Ele encarou com ousadia e coragem a cruz que Ele iria enfrentar.

CONCLUSÃO

Há muitas pessoas que oram, mas oram errado. São arrogantes, presunçosas; oram, mas não com humildade e dependência de Deus.

Orar, é antes de mais nada, reconhecer a nossa total dependência do Senhor. É busca-lo para termos comunhão com Ele, antes de obtermos respostas para as nossas mazelas. Orar é entrar na sala do trono e buscar do Senhor forças para enfrentarmos os perigos que nos aguardam e enfrenta-los honrando o Seu Nome.

Orar é buscar a direção certa a seguir, é pedir intrepidez para enfrentar as lutas do dia a dia louvando o Seu Nome em todo o tempo. Mas tudo isso, sem hipocrisia.

Pense nisso!

Fonte:

1 – Yancey, Philip. Oração, ela faz alguma diferença? Rd. Vida, São Paulo, SP, 2007: p. 12.
2 – Ibid, p: 14.
3 – Lopes, Hernandes Dias. Piedade e Paixão. Arte Editorial e Ed. Candeia, São Paulo, SP, 2007: p. 36.
4 – Lloyd-Jones, D. Martyn. Estudos no Sermão do Monte. Editora Fiel, São Paulo, SP, 1984: p. 312.
5 – Ibid, p: 313.
6 – Ibid, p: 318.
7 – Lopes, Hernandes Dias. Romanos, o Evangelho segundo Paulo. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2010: p. 306.
8 – Yancey, Philip. Oração, ela faz alguma diferença? Editora Vida, São Paulo, SP, 2007: p. 107.

domingo, 17 de setembro de 2017

A PARÁBOLA DA VINHA: UMA MOTIVAÇÃO ERRADA NO SERVIÇO


Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Mateus 20.1-16

INTRODUÇÃO

Somente Mateus narrou essa parábola dos trabalhadores da vinha, e esta parábola é uma continuidade do assunto anterior. Na verdade, ela é uma resposta ao que Pedro havia falado. Após a conclusão do que o Senhor Jesus havia falado sobre ser impossível uma pessoa que confia em suas boas obras ou riquezas herdar o Reino de Deus, Pedro então disse: “Eis que nós tudo deixamos e te seguimos; que será, pois, de nós?” (Mt 19.27).

Pedro estava falando como porta-voz dos doze. Eles observaram que o jovem rico havia rejeitado o discipulado do reino por ter preferido preservar as suas riquezas materiais. No entanto, os discípulos haviam deixado tudo a fim de cumprir o chamado de Cristo. Então, respondendo a esta pergunta o Senhor lhe diz que em virtude de tal atitude, eles seriam recompensados tanto nesta vida quanto na vida futura. Em outras palavras, os discípulos não estavam fazendo um sacrifício, mas sim um investimento [1].

Mas esta parábola tem como finalidade dar algumas lições importantes aos seus discípulos. Pois, até eles, corriam o risco de caírem no mesmo “buraco” que caíram os religiosos da época. A grande dificuldade dos religiosos da época de Jesus era pensar que por Israel servir ao Senhor durante tanto tempo, era merecedora de maiores privilégios. Por isso que os fariseus e outros religiosos entraram em atrito com Jesus, pois Ele, Jesus, dava tanta atenção a pecadores e até mesmo aos gentios mais que a eles. E para esses religiosos isso era inaceitável.

Quais as lições que podemos tirar desta parábola?

A PRIMEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE ESTA PARÁBOLA NÃO TEM RELAÇÃO ALGUMA COM A SALVAÇÃO.

Quando Jesus inicia esta parábola ele está respondendo a Pedro e aos demais apóstolos a respeito de servir a Deus e não sobre como se deve fazer para ser salvo.

1º - Porque a salvação não se compra. Observe que os trabalhadores que trabalharam o dia todo e os que trabalharam menos horas receberam a mesma quantia. A salvação é assim. É mediante a graça. No Reino de Deus toda recompensa depende de Sua graça e não a conquistamos por méritos humanos.

Ninguém será mais salvo se trabalhar mais, ou será menos salvo se trabalhar menos. Isso não existe no Reino de Deus. Nem mesmo perderá sua salvação como pensam alguns. Tal coisa não existe.

2º - Porque o legalismo é uma falsa virtude para se alcançar a salvação. Assim como os religiosos da época de Jesus eram extremamente legalistas, assim os discípulos poderiam se tornar também.

Definir legalismo de uma forma bíblica seria dizer “alguém que toma a Lei e a usa de uma forma que mereça a salvação”. Legalismo é uma tentativa de salvação. Este foi o problema com os judaizantes. Eles pensavam que guardar a Lei mais crer na obra de Cristo fazia uma pessoa salva. Em Gálatas 5.4, Paulo diz: “De Cristo vos desligastes, vós que procurais justificar-vos na lei; da graça decaístes”. Existiam alguns que pensavam que ser circuncidado ajudava na salvação. Mas Paulo diz que no momento que você adiciona alguma coisa à obra de Cristo, então você caiu da graça. A obra de Cristo somente justifica o ímpio (Gl 2.16; 3.11-13, 24; 6.13-14).

Isso não quer dizer que o cristão não deva dar bom testemunho, pelo contrário, o cristão dá bom testemunho porque é salvo e não para ser salvo. É o que Paulo nos fala em 1 Coríntios 6.12,13; 10.23:

“Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas. Os alimentos são para o estômago, e o estômago, para os alimentos; mas Deus destruirá tanto estes como aquele. Porém o corpo não é para a impureza, mas, para o Senhor, e o Senhor, para o corpo.  Todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm; todas são lícitas, mas nem todas edificam”.

3º - Porque Cristo requer de nós é a obediência. Nós não nos tornamos antinomianos. E aqueles que dizem que devemos nos livrar da Lei não são nada além de antinomianos heréticos. Um antinomiano é alguém que é “anti”, “contra” ou “contrário”, ao “nomos” ou “lei”. Ele diz que uma pessoa pode ser salva e nunca ter de preocupar-se em viver uma vida de obediência porque estamos debaixo da graça de Cristo. Mas Paulo rapidamente dispensa esta ideia em Romanos 5.20,21; 6.1,2, quando ele diz:

“Sobreveio a lei para que avultasse a ofensa; mas onde abundou o pecado, superabundou a graça, a fim de que, como o pecado reinou pela morte, assim também reinasse a graça pela justiça para a vida eterna, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor. Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos?”

A graça não nos isenta da obediência. Aliás, a graça nos leva a ter uma vida de obediência.

A SEGUNDA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE ESTA PARÁBOLA NOS ENSINA A RESPEITO DA GENEROSIDADE DE DEUS (Mt 20.8-15).

Observe bem o texto. O dono da vinha havia saído de madrugada para contratar trabalhadores para sua vinha. Veja que no verso 2 ele disse que pagaria um denário pelos serviços prestados. Subentende-se que foi feito um contrato de trabalho e o dono da vinha o cumpriu cabalmente.

Tanto foi que no final do dia ele foi para fazer o pagamento. O pagamento tinha de ser feito, de acordo com a lei judaica, ao pôr-do-sol, isto é, às 18 horas, no fim do dia (Lv 19.13). 
 
Todos pareciam satisfeitos até a hora do pagamento, quando aqueles que trabalharam o dia todo viram que os que trabalharam somente por uma hora receberam o mesmo que eles. É interessante que eles não reclamaram dos outros que receberam a mesma coisa.

1º - Esse texto nos ensina que a graça de Deus tem uma estridente nota de injustiça. Digo isso porque é assim que me sinto também ao ler esse texto. A graça, muitas vezes, não tem graça. Observe que os trabalhadores das primeiras horas trabalharam 1.200% a mais que os trabalhadores que trabalharam somente uma hora.

De maneira significativa, muitos cristãos que estudam esta parábola se identificam com os empregados que trabalharam o dia todo, em vez dos que trabalharam somente uma hora. Mas sabe o que isso nos ensina: que Deus nos concede dons, e não salários. Nenhum de nós recebe pagamento de acordo com o mérito, pois não somos capazes de satisfazer as exigências de Deus para uma vida perfeita. Se fôssemos pagos com base na justiça, todos iríamos para o inferno.

Só um detalhe: Jesus não estava ensinando uma norma a ser aplicada, mas estava fazendo uma aplicação espiritual.

2º - Esse texto nos ensina que a graça é igual para todos. Por isso é graça. Entenda que o Senhor nos ama pelo que Ele é, e não pelo que somos; e, infelizmente, nós somos muito egoístas. Por que nos identificamos tanto com os primeiros trabalhadores murmuradores? Porque nós não aceitamos a graça sobre a vida dos outros muitas vezes. Queremos para nós, mas não para os outros. Principalmente para quem nós não gostamos.

3º - Esse texto nos ensina que a graça vem para todos de forma igual porque o Senhor pagou um alto preço por nós (Rm 5.6-8).

“Porque Cristo, quando nós ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios. Dificilmente, alguém morreria por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém se anime a morrer. Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores”.

Por isso que não há nada que possamos fazer para Deus nos amar mais e que não há nada que possamos fazer para que Deus nos ame menos. Preste atenção no que a Bíblia nos fala: “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores”.

Por isso a graça é gratuita. Não há nada que possamos fazer para tê-la em maior proporção e nem tem como diminuí-la em nossas vidas.

No filme “O Último Imperador”, a criança ungida como o último imperador da China vive uma vida mágica de luxo com mil eunucos à sua disposição para servi-lo. “O que acontece quando você faz alguma coisa errada?”, pergunta o irmão. “Quando eu faço alguma coisa errada, outra pessoa é castigada”, o imperador-menino responde. Para demonstrar o que estava falando, ele quebra um jarro e um dos servos é espancado. Na teologia cristã, Jesus inverteu esse padrão antigo: quando os servos erram, o Rei que é punido. A graça é gratuita apenas porque o próprio doador assumiu o preço.

A lição para os discípulos fica clara. Não devemos servi-lo por esperar recompensas nem em insistir em saber o que receberemos. Deus é infinitamente generoso e bondoso e sempre nos dará mais do que merecemos. É isso que Paulo nos diz em Efésios 3.20,21:

“Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!”

A TERCEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE CORREMOS PERIGO DE SERMOS COMO OS PRIMEIROS LAVRADORES (Mt 19.27; 20.10-15).

Foi devido à pergunta de Pedro é que esta parábola foi contada. A intenção de Jesus foi reforçar o seu ensino a respeito da graça salvadora de Deus. Esta graça é igual para todos. No entanto, assim como Pedro, nós corremos alguns perigos.

1º - O primeiro perigo que corremos é supormos que merecemos receber mais quando, na verdade, não merecemos (Mt 20.10). A parábola passa em branco a respeito dos trabalhadores das outras horas e só foca nos primeiros e nos últimos. Na cabeça dos primeiros trabalhadores eles iriam receber ao menos o dobro dos demais, mas não foi isso que ocorreu.

É possível alguém fazer a obra de Deus, no entanto, com a motivação errada como nos fala Paulo em Efésios 6.5,6:

“Quanto a vós outros, servos, obedecei a vosso senhor segundo a carne com temor e tremor, na sinceridade do vosso coração, como a Cristo, não servindo à vista, como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo, de coração, a vontade de Deus”.

Veja também o que Paulo nos fala em 1 Coríntios 15.9-11:

“Porque eu sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo, pois persegui a igreja de Deus. Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo. Portanto, seja eu ou sejam eles, assim pregamos e assim crestes”.

Vemos essa verdade em 2 Coríntios 11.22-33, e no capítulo 12 ele começa a contar da sua ida ao terceiro céu.

Servir ao Senhor em função de recebermos benefícios é perder as melhores bênçãos que Ele tem para nós. E esta bênção é a Sua presença conosco todos os dias.

2º - O segundo perigo que corremos é nos tornarmos orgulhosos. Pedro disse para Jesus que eles haviam deixado tudo por Ele e seu Reino, que será de nós?, pergunta ele. Pedro está fazendo um paralelo entre a atitude do jovem rico e a dos discípulos.

Aqui é que mora o perigo. É deixarmos tudo por Cristo e nos sentirmos orgulhosos devido a nossa decisão, quando na verdade foi o Senhor quem nos chamou (Jo 15.16).

O problema é pensar que por sermos seus discípulos somos melhores que as outras pessoas, quando na verdade deveríamos ser como Jesus, mansos e humildes de coração (Mt 11.29).

3º - O terceiro perigo é de observarmos os outros trabalhadores e comparar resultados (Mt 20.11,12). Muitas pessoas correm esse perigo de se verem melhores que os outros por “fazerem” mais em prol do Reino. Devemos tomar muito cuidado, pois afinal de contas o que o Senhor vê não são os resultados ou até mesmo o nosso desempenho, mas qual é a nossa motivação. Há uma diferença entre fazer para aparecer e aparecer para fazer.

4º - O quarto perigo é acharmos que o Senhor foi injusto conosco (Mt 20.13-15). Observe que o senhor da vinha havia dado aos trabalhadores o que havia combinado com eles. Em momento algum eles foram prejudicados. O problema é que eles ficaram achando que receberiam mais por terem trabalhado mais. É o que falamos anteriormente, há pessoas que veem a graça de Deus como injusta, pois acham que Deus não deveria dar as outras pessoas a mesma graça por eles recebida.

Entenda uma coisa: nenhum de nós merecíamos coisa alguma. Tudo que vem de Deus para nós é lucro, até a morte, como disse Paulo (Fl 1.21).

Cuidado para que a inveja não o domine e você se torne uma pessoa amarga e mau agradecida. Observe que o versículo 11 diz: “Mas, tendo-o recebido, murmuravam contra o dono da casa”.

Eles murmuravam por terem trabalhado mais que os outros e terem recebido a mesma coisa. Quem não entende a graça sempre irá ver o Senhor como um injusto. É só olharmos para a parábola do filho pródigo e vermos a reação do irmão mais velho. Ali está o retrato exato do que estamos falando aqui.

A graça revela o caráter!

CONCLUSÃO 

Os benefícios do reino de Deus, Jesus deixa isso aqui de forma clara, são os mesmos para todos quantos se sujeitarem ao governo do seu rei, sempre que se colocarem sob seu domínio. Nesta questão os judeus não têm precedência sobre os gentios; e o homem que se converte cedo em sua vida não está por isso credenciado a obter de Deus melhor tratamento do que o homem que é muito mais velho quando passa pela experiência do novo nascimento, pois todos receberam igualmente o melhor tratamento [2].

Fonte:

1 – Wiersbe, Warren W. Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, v.5. Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2012: p. 95.
2 – Tasker, R. V. G. Mateus, introdução e comentário. Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1985: p. 151.