domingo, 25 de outubro de 2020

NAZARÉ REJEITA O SALVADOR

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 4.14-30

INTRODUÇÃO

Após ser batizado por João, o Espírito Santo veio sobre Jesus e Ele, cheio do Espírito Santo, foi conduzido ao deserto para ser tentado pelo diabo (Mt 4.1; Lc 4.1,2). Após a tentação, Lucas nos diz que Jesus voltou para a Galileia. No entanto, é importante destacar que Lucas não registra outros fatos que ocorreram nesse período. Por exemplo, entre Lucas 4.13 e 4.14,15 é provável que houve um intervalo de um ano, durante o qual ocorreram os fatos relatados em João 1.19-4.42.

Dentre esses fatos podemos destacar a convocação dos primeiros seis discípulos para o seguirem e quando Jesus foi para Caná na Galileia onde transformou água em vinho (Jo 2.1-11), de lá peregrinou por toda a Galileia, atingindo também Cafarnaum (Lc 4.23). Após esses e outros fatos ocorridos, o Senhor rumou para Nazaré. Podemos destacar que Mateus, Marcos e Lucas começam o ministério de Jesus com a Galileia; João registra um ministério anterior na Judéia.

Este período do ministério de Jesus foi chamado a Primavera Galileia. Tinha chegado como um sopro do próprio vento de Deus. A oposição ainda não se tinha cristalizado. Os corações dos homens estavam famintos de palavras de vida. A fama de Jesus crescia e todos o ouviam com alegria.

Ainda como introdução, devemos destacar que o v. 14 tem uma ligação muito importante com o v. 1. Lucas destaca que Jesus estava “cheio do Espírito Santo” (Lc 4.1), e agora nos diz que Jesus guiado pelo Espírito Santo (Lc 4.14) voltou para a Galileia. Essa visão da atuação de Jesus no contexto da ação do Espírito Santo é particularmente peculiar ao Evangelho de Lucas.

Nos cap. 1-3 observe como Lucas é enfático sobre a ação do Espírito Santo em muitas ocasiões. Em  Lc 1.15,17 (nos diz que João Batista seria cheio do Espírito Santo desde o ventre); em Lc 1.35 (Maria ficaria grávida pela virtude do Espirito Santo); em Lc 1.41 (Isabel ficou cheia do Espírito Santo com a saudação de Maria); em Lc 1.67 (Zacarias profetiza cheio do Espírito Santo); em Lc 1.80 (nos diz que João crescia cheio do Espírito Santo); em Lc 2.25-27 (nos fala de Simeão, homem cheio do Espírito Santo); em Lc 2.40 (nos fala que Jesus crescia cheio do Espírito Santo); Lc 3.16 (Jesus batiza com o Espírito Santo); Lc 3.22 (o Espírito Santo revestiu Jesus de poder); Lc 4.1 (nos diz que Jesus estava cheio do Espírito Santo);  Lc 4.14 (Jesus é guiado pelo Espírito Santo); 4.18 (na Sinagoga, Jesus anuncia a sua missão pela força do Espírito Santo), e em Lc 24.49 (temos a promessa de Jesus sobre a presença do Espírito Santo junto aos discípulos que ocorreu em Atos 2).   

Sem a ação do Espírito Santo não podemos realizar a obra do Senhor e, por mais que façamos, sem o Espírito Santo, nossas obras não passarão de obras mortas e infrutíferas. Como disse Jesus: “Eu sou a videira; vocês são os ramos. Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dará muito fruto; pois sem mim vocês não podem fazer coisa alguma” (Jo 15.5).

Quais as lições que podemos tirar desse texto para nós hoje?

1 – OS NAZARENOS ESTAVAM EMPOLGADOS COM A FAMA DE JESUS (Lc 4.14,15).

Antes de Jesus ir para sua cidade natal, Ele percorreu a Galileia pregando a palavra e operando sinais e prodígios. Ali em Nazaré as pessoas não só conheciam a família de Jesus como também a excelência do caráter de Jesus. Ao sair de Nazaré, Jesus foi morar em Cafarnaum após ter sido batizado por João Batista no rio Jordão, e começou seu ministério pregando o Evangelho do Reino e operando muitas maravilhas.

Os habitantes de Nazaré, por certo, comentavam entre si: “Ele não deixará de vir visitar os seus familiares; quando Ele vier, nós ouviremos o que o filho do carpinteiro tem a dizer”. Provavelmente havia um interesse em escutar um dos jovens da aldeia quando este se tornava pregador, e esse interesse foi aumentando pela esperança de ver maravilhas, do tipo realizado em Cafarnaum. Mas provavelmente havia um interesse ainda maior, a possibilidade de Jesus passar a morar novamente em Nazaré e torná-la uma cidade famosa entre as cidades das tribos; assim atrairia uma multidão de fregueses às lojas locais, ao tornar-se o Grande Médico de Nazaré! [1]

O grande operador de milagres da região! Nazaré, provavelmente, se tornaria um lugar de peregrinação. Quantas vantagens os moradores teriam hospedando os peregrinos, assim como o comércio e os comerciantes teriam com Jesus entre eles. Quanto dinheiro eles ganhariam! Isso não lhes soa familiar?

Não tem sido diferente nos dias de hoje. O Jesus famoso tem sido seguido e querido por muitos. Mas qual Jesus que a multidão quer conhecer na verdade?

a) Muitos querem conhecer o Jesus que ouviram o falar, mas não o Jesus que se revela nas Escrituras. “Jesus respondeu-lhes e disse: Na verdade, na verdade vos digo que me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes” (João 6.26).

b) Muitos querem um Jesus da moda. Um Jesus Pop Star. Um Jesus das multidões, mas não o Jesus que os confronta com a verdade. “Muitos, pois, dos seus discípulos, ouvindo isto, disseram: Duro é este discurso; quem o pode ouvir?” (João 6.60).

c) Muitos querem um Jesus que opera sinais e prodígios, um Jesus milagreiro, mas não o que ensina: “Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.10), onde a primeira e a última palavra é do Senhor e não a do homem.

d) Muitos querem um Jesus que compreende os seus pecados, mas que não os manda deixá-los. “Vai-te, e não peques mais” (Jo 8.11).

e) Muitos querem um Jesus que promete o céu independentemente deles o terem como Senhor de suas vidas. “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1.12,13). 

f) Muitos querem o Jesus da Teologia Liberal. Um Jesus sem dogmas, sem leis, sem Evangelho, sem cruz. “Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me” (Mt 16.24).

Esse Jesus famoso tem atraído muitas pessoas. E não faltam pregadores apresentando esse falso Cristo as multidões. Como disse John Piper: “Existe uma fé fingida que só quer escapar do inferno e que não tem nenhum desejo por Cristo. Essa fé não salva”.    

2 – OS NAZARENOS ESTAVAM FAMILIARIZADOS COM JESUS FILHO DE JOSÉ E MARIA, MAS NÃO COM O MESSIAS (Lc 4.16,22).

O texto que lemos nos diz que Jesus foi para Nazaré onde fora criado. Todos ali o conheciam muito bem, assim como toda a sua família. Vemos isto nas próprias palavras das pessoas dando testemunho desse fato: “Não é este o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos, Tiago, José, Simão e Judas? Não vivem entre nós todas as suas irmãs?” (Mt 13.55,56); “Todos lhe davam testemunho, e se maravilhavam das palavras de graça que lhe saíam dos lábios, e perguntavam: Não é este o filho de José?” (Lc 4.22).

Creio que este tem sido um dos grandes problemas que temos enfrentado nessa geração. As pessoas conhecem tudo a respeito de Jesus. Tem muita intimidade com Ele por terem sido criados na igreja. Mas essa intimidade, muitas vezes, não gera temor, mas afinidade. É como se Jesus fosse de casa. Uma pessoa da família. Assim estavam os moradores de Nazaré.

- Jesus é amigo dos meus filhos. Não saía aqui de casa.

- Saiu daqui da cidade esses dias e já está famoso. Sabia que esse menino ia longe.

- Quem diria que o filho da Maria chegaria onde chegou.

Essas e outras coisas, certamente, os moradores de Nazaré falaram a respeito de Jesus. Os moadores de Nazaré eram as que mais sabiam a respeito de Jesus. Mas saiba de uma coisa, saber coisas a respeito de Jesus não faz de você um de seus discípulos. Podemos saber tudo a respeito de alguém e mesmo assim não ser íntimo dessa pessoa.

É o que temos visto em muitas igrejas hoje. Há uma intimidade grande com Jesus amigo, mas falta temor ao Jesus Senhor. Ao Deus encarnado. Ao justo Juiz. Sabem tudo a respeito dele, mas não o tem como Senhor de suas vidas.

Mais uma vez repito, esse tipo de conhecimento gera, muitas vezes amizade, mas não gera temor. Foi o que aconteceu com os filhos do sacerdote Eli. Em 1 Samuel 2.12 nos diz: “Eram, porém, os filhos de Eli filhos de Belial; não conheciam ao Senhor”. No entanto eles exerciam o sacerdócio. O mesmo aconteceu com os filhos de Samuel (1Sm 8.1-3).

Não basta ser amigo de Jesus, temos que tê-lo como nosso salvador e Senhor.  

Isso ocorreu com John Wesley. Os irmãos John e Charles Wesley, pastores anglicanos, embora muito bem intencionados, fracassaram em sua viagem missionária aos Estados Unidos, que durou apenas 18 meses. Frustrado e deprimido, John Wesley exclamou: “fui à América evangelizar os índios, mas quem me converterá?”.

Durante uma grande tempestade na travessia do Oceano Atlântico, ficou profundamente impressionado com a confiança e tranquilidade demonstradas por um grupo morávio de cristãos pietistas que alegremente cantavam e louvavam ao nome de Jesus diante da perspectiva da morte. Tal atitude contrastava com os sentimentos de medo da morte e do juízo final. Tais experiências são o início de uma crise que o levaria a uma grande descoberta!

Foi somente no dia 24 de maio de 1738, numa pequena reunião, ouvindo a leitura de um antigo comentário escrito pelo reformador Martinho Lutero sobre a Carta aos Romanos, que John Wesley sentiu seu coração aquecer-se de modo sublime, por haver compreendido perfeitamente a essência do Evangelho de Cristo, renunciando toda confiança em suas próprias obras e passando a confiar inteiramente no Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

Esta chama acesa no coração de Wesley não foi fogo de palha! Tal experiência produziu uma verdadeira revolução e mudou sua perspectiva do Evangelho e da missão da Igreja. Wesley tornou-se um pregador fervoroso e incansável da justificação pela fé na cruz de Cristo e do poder do Espírito Santo para transformação e santificação de indivíduos e comunidades inteiras.

3 – OS NAZAREMOS REJEITARAM A MENSAGEM DE JESUS (Lc 4.16-27).

No tempo devido, Jesus veio até a cidade de Nazaré, e num sábado, Jesus vai à sinagoga local e ali lhe é entregue o livro do profeta Isaías. E em pé lê a passagem de Isaías 61.1,2a; após lê-lo, devolveu-o ao chefe da sinagoga, passando a dizer que aquela passagem bíblica havia se cumprido – “Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos” Lc 4.21.

Mas o que me chama a atenção é que o Senhor não leu todo o versículo, mas deixou de ler a passagem que diz respeito ao “dia da vingança do nosso Deus”. Provavelmente porque a porta da graça estava aberta, no entanto, no tempo certo ela será fechada.

Lucas nos diz que todos ficaram maravilhados com as palavras de graça que saiam de seus lábios (Lc 4.22), isto é, ficaram maravilhados com a Sua maneira atraente de falar.

No entanto, a curiosidade e admiração se transformaram em ódio.

a) Quando o Senhor lê o texto e explica o texto, dizendo que o texto de Isaías estava se cumprindo naquele momento. Jesus está dizendo que Ele era o Messias prometido (Lc 4.21,22). Diane dessa revelação o semblante dos seus ouvintes mudou. Mas como poderia ser isso? Ele era o filho do carpinteiro, eles conheciam a sua mãe e irmãos. Ele fora criado entre eles. Isso não poderia ser verdade.

b) Quando Jesus aplica o texto dizendo cita dois provérbios: “Médico, cura a ti mesmo” e “Nenhum profeta é bem recebido na sua pátria”.

Depois de citar os provérbios, Jesus diz que não podia fazer ali os sinais que foram feitos em Cafarnaum por causa da dureza do coração deles (Mt 13.57,58). Jesus diz que eles eram piores que os gentios quando fala a respeito da bênção que a viúva de Sarepta da região de Sidom havia recebido pelo ministério de Elias, uma cananéia, dentre os cananeus malditos. Mas não para por aí. Jesus fala a respeito de Naamã, o sírio, que fora curado de lepra por Eliseu, sucessor de Elias.

Imediatamente eles se colocaram de pé e intentaram matar o pregador. Eles conheciam Jesus, mas era um conhecimento separado da fé. Assim como ocorreu no tempo de Elias e Eliseu estava ocorrendo ali entre os nazarenos. Eram pessoas de coração duro.

Em João 5.43-47 o Senhor falou assim: “Eu vim em nome de meu Pai, e não me recebeis; se outro vier em seu próprio nome, certamente, o recebereis. Como podeis crer, vós os que aceitais glória uns dos outros e, contudo, não procurais a glória que vem do Deus único? Não penseis que eu vos acusarei perante o Pai; quem vos acusa é Moisés, em quem tendes firmado a vossa confiança. Porque, se, de fato, crêsseis em Moisés, também creríeis em mim; porquanto ele escreveu a meu respeito. Se, porém, não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?”

A incredulidade dos nazarenos estava jogando fora a oportunidade que o Senhor lhes estava dando. Tanto que o Senhor não ficou mais ali, foi embora. A oportunidade da salvação fora jogada fora. A oportunidade de verem se abrir as portas do céu para eles.  

Eles jogaram fora a oportunidade de o Senhor operar milagres entre eles. Mateus nos diz que o Senhor não pode realizar muitos milagres ali por causa da incredulidade deles (Mt 13.58). Como é desastroso o pecado da incredulidade. A incredulidade rouba do povo as maiores bênçãos.

Uma das coisas que temos observado hoje em muitas igrejas é que muitas pessoas querem ouvir uma palavra de bênção, mas não querem ouvir a aplicação para suas vidas. Assim como os nazarenos, muitos dão honra aos de fora, mas não dão honra aos seus. O pastor prega todos os domingos e poucos lhe dão ouvidos, mas quando vem alguém de fora e fala a mesma coisa que o pastor local tem falado lhe dão crédito. O tempo passa, mas os homens não mudam!

4 – OS NAZARENOS QUISERAM MATAR JESUS (Lc 4.28-30).

As pessoas de Nazaré ficaram com ódio de Jesus por Ele ter-lhes dito que o Espírito do Senhor estava sobre Ele. Que Ele era o Messias prometido. E quando Ele disse que eles eram inferiores aos gentios, por causa da incredulidade deles. A hostilidade deles não ficou apenas no campo do sentimento. Eles expulsaram Jesus de Nazaré e o levaram até o monte para o precipitarem de lá para baixo.

Imaginar que fossem piores que as viúvas fenícias e leprosos sírios! Sua ira não conhecia limites. A casa de oração e adoração se transformou numa casa de loucos. Precipitam-se sobre o orador. Porventura não é ele um falso profeta? E a lei não exige que esse tipo de enganadores sejam mortos? Veja Deuteronômio 13.1-5. Arrastaram-no até à colina sobre a qual a cidade estava construída – alguns presumem que era o penhasco localizado no canto sudoeste da cidade, o que sobressaía do convento maronita - com a intenção de precipitá-lo de ponta-cabeça nas rochas abaixo.

Os nazarenos não conseguiram matar o Senhor da vida, mas os mantiveram mortos em seus delitos e pecados. A incredulidade é o mais velho pecado do mundo. Ela começou no Jardim do Éden, onde Eva creu nas promessas do diabo, em vez de crer na Palavra de Deus. A incredulidade traz morte ao mundo. A incredulidade manteve Israel afastado da terra prometida por quarenta anos. A incredulidade é o pecado que especialmente enche o inferno: “Quem, porém, não crer será condenado” (Mc 16.16).  

Entenda uma coisa, a Palavra de Deus não é para massagear o ego humano. A Palavra de Deus é como um bisturi que tem por finalidade expor nossa condição espiritual e nos trazer cura ou condenação (Hb 4.12).

No entanto, as pessoas preferem matar Jesus a lhe darem ouvidos. Foi assim no passado e tem sido nos dias de hoje. Os maiores auditórios, em muitas igrejas, tem sido onde a Palavra de Deus tem sido pregada de forma vazia e não de forma plena. Muitos preferem ouvir uma meia verdade e continuarem presas no pecado a ouvir a palavra que liberta.

A verdade implica em responsabilidade e fé. A mentira não implica em nada.

CONCLUSÃO

Ser simplesmente familiarizado com Jesus, certamente, não lhe levará ao céu. Muitas pessoas estão tendo um relacionamento de amizade com o Senhor. Se você está assim convido-o a deixar de ser amigo de Jesus e tornar-se um servo fiel a Ele. Talvez você tenha se acostumado com o sagrado, com os cânticos, com as orações e pregações. Talvez você seja como aquele jovem rico, ou quem sabe como Uzá e Aiô, mas eu lhe convido hoje a ser como Maria, uma pessoa totalmente consagrada a Deus por ser uma verdadeira serva do Senhor.

Pense nisso!    

1 – Spurgeon, C. H. Os Milagres de Jesus, São Paulo, Ed. Shedd, 1ª reimpressão 2011, p. 51

domingo, 18 de outubro de 2020

A TENTAÇÃO DE CRISTO - UMA ANÁLISE EM LUCAS

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 4.1-13

INTRODUÇÃO

Após o batismo Jesus foi conduzido pelo Espírito Santo ao deserto para ser tentado pelo diabo, como lemos em Mateus 4.1: “Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo”. Em Lucas nós lemos: “E Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto; e quarenta dias foi tentado pelo diabo” (Lucas 4.1,2).

Jesus não foi ao deserto por vontade própria. O Espírito Santo que habitava nele com toda a plenitude impelia-o com força irresistível com uma finalidade bem determinada, sofrer toda tentação.

No Jordão, o Pai testificou a seu respeito e ficou provado que ele era o Filho de Deus, mas no deserto, ele foi tentado para provar que era o homem perfeito, o segundo Adão (Rm 5; 1Co 15.45-47).

JESUS PODERIA CEDER A TENTAÇÃO?

Jesus não foi apenas o divino Filho de Deus, mas também o filho plenamente humano de Adão (Lc 3.38). Foi em sua humanidade que Jesus suportou a investida da tentação. Obviamente, Jesus não pecou; Ele “não conheceu pecado” (2Co 5.21), “não cometeu pecado” (1Pe 2.22), e “Nele não há pecado” (1Jo 3.5; Cf. Hb 4.15; 7.26; Jo 8.46). Alguns teólogos, no entanto, acreditam que Ele poderia ter pecado, embora ele não o tenha feito.

Wayne Grudem observa que a união da natureza divina e humana de Cristo exclui a possibilidade de Jesus pecar. Ele observa:

Se a natureza humana de jesus tivesse existido por si só, independentemente de sua natureza divina, teria sido a mesma natureza humana que Deus deu a Adão e a Eva. Estaria isenta de pecado, mas mesmo assim seria capaz de pecar. Mas a natureza humana jamais existiu à parte da união com sua natureza divina. Desde o momento de sua concepção, ele existiu como verdadeiro Deus e também verdadeiro homem. Tanto sua natureza humana como sua natureza divina existiram unidas em uma pessoa. Embora Jesus tivesse experimentado algumas coisas (tais como fome, sede ou fraqueza) só em sua natureza humana e não em sua natureza divina […], um ato pecaminoso seria um ato moral que, aparentemente, teria envolvido toda a pessoa de Cristo. Assim, se tivesse pecado, isso teria envolvido sua natureza divina bem como a humana. Mas se Jesus como pessoa tivesse pecado, implicando tanto a natureza humana como a divina no pecado, então o próprio Deus teria pecado e teria deixado de ser Deus. Mas é claro que isso é impossível por causa da santidade infinita da natureza de Deus. Assim, se perguntarmos se de fato era possível Jesus pecar, parece que precisamos concluir que isso não era possível. A união de sua natureza humana e divina em uma pessoa o impediria de pecar” [1].

Talvez você pergunte: Então por que Jesus foi levado ao deserto para ser tentado?

Em sua tentação, Jesus expôs as táticas do inimigo e revelou-nos como ser vencedores ao sofrer a tentação. Jesus não só venceu Satanás como nos mostrou os meios para vencermos também. 

Jesus era a semelhança de Adão. O nosso primeiro pai caiu no jardim, o segundo Adão venceu Satanás no deserto. Assim que pelo pecado de Adão veio a condenação sobre toda a humanidade, agora, mediante a fé em Cristo, veio salvação para os seus eleitos. Como lemos em Romanos 5.17,18:

“Porque, se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo. Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida”.

Agora, entenda uma coisa, não é porque Jesus não poderia ceder à tentação que ele não tenha sido tentado. A pessoa que resiste à tentação conhece todo o poder da tentação. A impecabilidade de Cristo “aponta para uma tentação muito mais intensa, não menos intensa”. Alguém que cede à tentação não sente todo o seu poder, pois cede enquanto a tentação ainda não chegou à sua força total, não chegou ao seu extremo. Somente o homem que não cede a uma tentação, “no que diz respeito àquela tentação em particular, é impecável, e conhece aquela tentação em toda sua extensão” [2].

Foi isso que ocorreu com Cristo, ele sentiu a tentação, mas não cedeu a ela.

Como lemos em Hb 4.15:

“Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado”.

Quais as lições que podemos tirar desse episódio na vida de Jesus?

1 – O ESPÍRITO SANTO GUIOU JESUS AO DESERTO PARA SER TENTADO (Lc 4.1,2).

A intenção de Deus é que Jesus fosse tentado pelo diabo. Portanto, o próprio Deus está por trás desse episódio da tentação no deserto. E, com base no AT, a pessoa “tentada” sempre é o devoto e justo, e não o ímpio. Cf., por exemplo, Abraão (Gn 22), José, Jó, etc. O objetivo da tentação é a aprovação e o aprofundamento da fé, e não pôr em risco ou até mesmo destruir a fé (cf. José na casa de Potifar – Gn 39). Por essa razão também Tiago escreve: “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta” (Tg 1.13). E, já que é assim e não pode ser de outra forma, o cristão sempre precisa alegrar-se quando é conduzido para diversas tentações (cf. Tg 1.2) [3].

Muitas lutas e adversidades vem sobre nós por permissão de Deus. Se Jesus não foi poupado de tais adversidades nós também não seremos. A questão é se cederemos a tentação ou ficaremos firme na fé. Por isso Paulo diz: “Assim, aquele que julga estar firme, cuide-se para que não caia!” (1Co 10.12).

A tentação de Jesus não procedia de dentro dele, da sua mente, mas totalmente fora, a ação de Satanás. Nós somos tentados por nossa cobiça (Tg 1.14). Quando Satanás sussurra em nossos ouvidos uma tentação, um desejo interior nos aguça a dar ouvidos a essa tentação. A cobiça, dessa forma, nos conduz e nos leva a cair na tentação. Com Cristo não aconteceu assim, pois o incentivo interior ao mal, ou o desejo de cooperar com a voz tentadora, não existia em Jesus [4].

O Espírito havia descido sobre Jesus, capacitando-o para sua tarefa como nosso Grande Profeta, Sumo Sacerdote Compassivo e Rei Eterno. No presente relato, como Sumo Sacerdote ele sofre sendo tentado (Hb 2.17,18); como Profeta ele três vezes apela para as Escrituras (vs. 4, 8, 12); e como Rei ele luta com seu principal oponente e triunfa sobre ele [5].

Existe uma grande diferença entre a tentação de Jesus e a nossa, Jesus foi tentado em tudo e não pecou, nós, por muito menos, pecamos. Jesus em tudo foi tentado, já sobre nós “Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar” (1Co 10.13).

Qual é a nossa desculpa perante o Senhor?

2 – AS TRÊS ÁREAS EM QUE JESUS FOI TENTADO (Lc 4.2-13).

Se nós observarmos a narrativa desse texto em Mateus e compararmos com a de Lucas, nós veremos que a segunda e a terceira tentação em Lucas está diferente da de Mateus. Muitos já especularam a respeito disso, mas não se chegou a um denominador comum. Por exemplo, se compararmos esse texto de Lucas nós teremos um paralelo com o que João escreveu em 1Jo 2.16: a concupiscência da carne (transformar pedras em pão), a concupiscência dos olhos (os reinos do mundo e a sua glória) e a soberba da vida (saltar do pináculo do templo). Mas não podemos afirmar tal paralelo.

A história da tentação do Senhor Jesus pode ser chamada de arrasadora revelação da existência do poder e das leis do reino das trevas. A história da tentação mostra que o diabo é um espírito maligno, um inimigo de Deus. O diabo conhece a Jesus e por isso o odeia. O diabo conhece a Escritura e por isso a odeia. Ele a odeia e distorce. Distorcer e seduzir é seu contexto, mentir é seu ofício. Jesus disse que o diabo é mentiroso e pai da mentira (Jo 8.44), por isso devemos ficar firmes contra as suas investidas.

Jesus aqui é tentado por Satanás em três provas:

1) A primeira tentação foi na área física, saciar a fome (Lc 4.3,4). Provavelmente ele se mostra a Jesus na figura de um anjo da luz (2Co 11.14), de forma intencionalmente hipócrita e ofuscante. Os v. 3 e 4 descrevem uma tentação concebida de forma particularmente sutil. Com comovente empatia se aproxima de Jesus completamente exausto pela fome, sugerindo-lhe que transformasse a pedra em pão, por força de sua filiação divina.

Observe que ele utiliza a expressão no singular, “manda que essa pedra” em Lucas é mais palpável que o plural “manda que essas pedras” em Mateus. Talvez Satanás até mesmo tenha lhe estendido uma pedra cujo formato evocava o pão e despertava o desejo por comida. – Ou seja, o assassino de almas sempre utiliza o momento propício, o lugar apropriado e as circunstâncias oportunas. Ele está a postos quando estamos sós, quando uma aflição nos tortura e dores nos oprimem, ou quando retornamos de um estudo bíblico.

 “Se és Filho de Deus” não expressa uma dúvida, seu sentido é: “Se de fato és Filho de Deus, então nem sequer precisas passar fome, não tens nenhuma necessidade de permanecer em uma situação de tamanho esgotamento. Isso está aquém da tua dignidade”. Assim Satanás alude à interpelação de Deus no batismo, que dizia: “Tu és meu Filho amado”. Seu intuito é confundir Jesus quanto a essa filiação e ao testemunho do Pai celestial, estimulando-o a adequar sua condição exterior de penúria à sua posição de Filho de Deus [6].

Era, naturalmente, uma perversa tentativa de (a) provocar a queda de “o último Adão” (1Co 15.45), ainda quando o primeiro Adão havia fracassado, ambos os casos em conexão com o consumo de alimentos. Além do mais, por parte do tentador este era um sinistro esforço por (b) destruir a confiança do Filho na vontade e poder de seu Pai para sustentá-lo. O que o tentador propunha a Jesus a fazer era desconfiar de seu Pai e tomar os assuntos inteiramente em suas próprias mãos.

Ambos foram tentados por Satanás. Mas a diferença na gravidade da prova se mostra no seguinte tríplice contraste:

a. Em nenhuma parte de Gênesis 3.1-7 lemos que o Adão do Antigo Testamento estivera sem alimento por algum espaço de tempo. Ao contrário, Jesus estivera jejuando por quarenta dias. Estava muito faminto.

b. Ainda quando o pai da raça humana ficasse faminto, poderia ter saciado facilmente essa fome, pois lhe fora dito: “De toda árvore do jardim poderás comer” (Gn 2.16). Tal provisão não foi feita para Cristo.

c. Ao ser tentado, o marido de Eva tinha, por assim dizer, tudo a seu favor, uma vez que vivia no paraíso. Jesus, no momento de sua tentação, permanecia nesse horrível deserto! [7].

A resposta de Jesus ao tentador: “E Jesus lhe respondeu, dizendo: Está escrito que nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra de Deus”. O Senhor cita as Escrituras para rechaçar o tentador. Jesus cita o texto de Dt 8.3 mostrando para o diabo que a fome espiritual é muito maior que a fome física. Pois a fome física pode ser saciada em qualquer lugar, mas a fome de Deus só Ele pode saciar. E mais, assim como o Pai sustentou o seu povo no deserto com maná que caia do céu, da mesma forma o Senhor poderia vir ao seu encontro e saciar a Sua fome.

Assim como o Pai alimentou uma multidão no deserto, da mesma forma o Senhor iria alimentá-lo. O mesmo o Senhor tem feito o mesmo conosco todos os dias. Em Mateus 6.25-30 Jesus nos conforta dizendo que o Senhor nos dá o de comer, beber e vestir. E no verso 11 do capítulo 6 Ele nos ensina a orar dizendo: “O pão nosso de cada dia dá-nos hoje”.

Mas o que está em jogo aqui é algo muito maior, se trata de uma prova ainda mais sutil, pois Satanás pede que Jesus separe o físico do espiritual. Na vida cristã, comer é uma atividade espiritual. Podemos usar nosso alimento diário para glorificar a Deus (Rm 14.20,21; 1Co10.31). Sempre que rotulamos diferentes áreas de nossa vida como “físicas”, “materiais”, “financeiras” ou “espirituais”, corremos o risco de deixar Deus de fora de áreas que, na verdade, lhe pertencem por direito. Cristo deve ser o primeiro em tudo ou não o será em coisa alguma (Mt 6.33). Ê melhor passar fome dentro da vontade de Deus do que estar saciado e fora da vontade de Deus.

Ao citar Deuteronômio 8.3, Jesus enfatiza a palavra homem. Como Filho eterno de Deus, tinha o poder de fazer qualquer coisa, mas como Filho humilde do homem, tinha autoridade para fazer somente o que era da vontade do Pai [8].

Quantas vezes Satanás tenta pôr em dúvida a bondade e a providência de Deus, abrindo-nos outras oportunidades para atender nossas necessidades imediatas. Devemos vigiar para não sermos seduzidos por ele.

2 – A segunda tentação é apostatar da fé (Lc 4.5-8). A tentação que Mateus relata como sendo a terceira é apresentada por Lucas como a segunda tentação. Essa inversão provavelmente se deve ao fato de que Mateus descreve os ataques em ordem cronológica. Lucas, por seu turno, presumivelmente observa uma sequência gradativa dos locais: o deserto, a montanha, a cidade santa [9].

Do topo do lugar muito alto o diabo mostra a Jesus todos os reinos do mundo. Todos estes foram vividamente apresentados a Jesus num único e impressionante momento! Toda essa riqueza é oferecida por Satanás a Cristo, tudo pelo preço de um único ato de adoração a ele. Jesus poderia tê-lo em sua posse e sob sua autoridade.

O diabo, na verdade, é um estelionatário. Usando a arma da mentira, diz para Jesus que essa autoridade havia sido entregue a ele e que ele poderia dá-lo a quem quisesse. O diabo oferece o que não tem, promete o que não pode cumprir [10].

O diabo oferece a Jesus um reino de glória sem cruz!

A resposta de Jesus ao tentador: “Vai-te para trás de mim, Satanás; porque está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás”. O Senhor cita mais uma vez as Escrituras Sagradas com intrepidez (Dt 6.13). Ele não se deixa levar, mais uma vez, pela proposta imoral do diabo. Satanás não disse coisa alguma sobre servir, mas Jesus sabia que servimos àquilo que adoramos. O serviço ao Senhor é liberdade verdadeira, mas o serviço a Satanás é terrível escravidão.

O Pai já havia prometido dar ao Filho todos os reinos do mundo (SI 2.7,8), mas primeiro era necessário que o Filho sofresse e morresse (Jo 12.23-33; Ap 5.8-10). O sofrimento precede a glória (Lc 24.25-27). O adversário ofereceu a Jesus esses mesmos reinos se o adorasse uma única vez, o que eliminaria a necessidade de Jesus sofrer na cruz (observe Mt 16.21-23). Satanás sempre quis tomar o lugar de Deus e ser adorado (Is 14.13,14) [11].

Observe que quem prometeu riquezas se recebesse adoração foi Satanás e não nosso Senhor Jesus Cristo. O evangelho da prosperidade, que é um falso evangelho (Gl 1.8), tem levado muitas pessoas a adorarem Satanás achando que estão servindo a Deus. Mas é importante destacar que tais pessoas são enganadas porque são cativas de suas próprias ganâncias. Essas pessoas servem a “Deus” não pelo o que ele é, mas pelo o que ele dá e faz. Essas pessoas estão servindo a um falso deus e lendo um falso evangelho.

3 – A terceira tentação é a presunção (Lc 4.9-12). É provável que o pináculo fosse um ponto alto na extremidade sudeste do templo, bem acima do vale de Cedrom, numa altura de cerca de 150 metros, altura que provocava vertigem. Satanás pode usar até mesmo a Cidade Santa e a parte mais elevada do templo santo como tentação! O inimigo seguiu o exemplo de Jesus e resolveu citar as Escrituras, escolhendo para isso o Salmo 91.11,12. Claro que citou essa promessa indevidamente e, além disso, deixou de fora a expressão “em todos os teus caminhos”.

O diabo é um péssimo exegeta e um falso intérprete das Escrituras. Com isso aprendemos que texto fora do seu contexto, ou omitindo parte do seu texto, é pretexto para heresia.

Na primeira tentação, o diabo queria levar Jesus a desconfiar do amor de Deus. Agora, quer levar Jesus a uma confiança falsa na proteção. O diabo sempre torce a palavra de Deus. É assim que surgem tantas seitas e heresias com gente de Bíblia na mão, mas guiada pelo diabo.

Quando procuramos as ordens que Deus tem para nós escolhendo um versículo aqui e outro ali, não estamos vivendo pela fé. Antes, vivemos em função do acaso e tentando o Senhor. “Tudo o que não provém de fé é pecado” (Rm 14.23), e “a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (Rm 10.17) [12].

A resposta de Jesus ao tentador: “Dito está: Não tentarás ao Senhor teu Deus” (Dt 6.16). Ao responder, Jesus chama a intenção do diabo de tentar a Deus. Aqui o idioma grego apresenta um termo mais intenso do que simplesmente peirázein = tentar (como no v. 2). Aqui aparece ekpeirázein. Talvez possamos reproduzir a intensificação com “desafiar insolentemente a Deus”. – De acordo com a concepção de Jesus, bem como de toda a Escritura, essa é a maior blasfêmia. 

Isso não passa de provocação a Deus, e até mesmo uma ameaça por parte da criatura, de que, se o Criador não socorrer imediata e instantaneamente a criatura, ela demitirá o Criador. Isso é blasfêmia.

A majestade do onipotente e santo Deus demanda que nossa confiança nele seja irrestrita e nossa obediência, não-dividida! Podemos confiar que ele socorre em qualquer situação, mas jamais podemos proscrever-lhe a intervenção. Temos o privilégio de servir-lhe em obediência total como filhos e com alegria, mas nunca comandar ou ordenar o que ele deve fazer [13].

3 – VENCENDO O TENTADOR COM AS ARMAS QUE JESUS USOU.

Adão caiu na tentação do diabo no jardim do Éden, e devido a isso, precipitando toda a humanidade num estado de pecado e total miséria. No entanto, o segundo Adão – Jesus Cristo – venceu o diabo no deserto e abriu para nós um caminho de vitória. Quais as armas que Jesus usou para vencer Satanás no deserto:

a) A plenitude do Espírito Santo (Lc 3.22, 4.1). É impossível vencermos Satanás na nossa força carnal. Para triunfarmos nessa batalha, precisamos de armas espirituais (Ef 6.1-20). O Espírito Santo que estava sobre Jesus está hoje sobre a Sua igreja.

b) Conscientes de quem nós somos em Cristo. Jesus tinha plena consciência de que Ele era o Filho de Deus. Nós, da mesma maneira, devemos ter essa consciência também. No momento que recebemos Jesus como Senhor de nossas vidas, nos tornamos filhos de Deus (Jo 1.12).

c) Com jejum e oração (Lc 3.21, 4.2 conf. Mt 4.2). A oração e o jejum são armas espirituais poderosas em Deus para vencermos fortalezas espirituais e anular sofismas (2Co 10.3-5).

d) Com a Palavra de Deus (Lc 4.4,8,12) “Está escrito!”. Jesus não citou a Palavra de forma aleatória, mas dentro do seu real contexto. A Palavra de Deus é a espada do Espírito, uma arma não só de defesa, mas também de ataque (Hb 4.12). Por isso que Paulo escrevendo a Timóteo lhe diz: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2Tm 2.15).

e) Jesus resistiu ao diabo firmemente em obediência ao Pai. A própria Palavra nos ensina a fazer a mesma coisa: “Sujeitai-vos, portanto, a Deus; mas resisti ao diabo, e ele fugirá de vós” (Tg 4.7).

CONCLUSÃO

Diante de tudo que foi falado creio que podemos concluir dizendo algo prático e extremamente importante: “Todos nós devemos esperar tempos de provas”. Se Satanás não desistiu de Jesus, ele também não desistirá de nenhum de nós. Por isso devemos vigiar e orar o tempo todo e em todo tempo. Ele é um ser maligno e perseverante. Sempre haverá suas investidas, não pense que ele se afasta e não volta. O apóstolo Paulo nos deixou isso bem claro quando escreveu a sua carta aos Efésios 6.10-13. Veja como ele nos alerta:

“Quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo; porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes. Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mal e, depois de terdes vencido tudo, permanecer inabaláveis”.

Mas nós temos um grande conforto, Deus sempre está ao nosso lado. Ele nunca nos abandona. Aliás, o Senhor nos diz também que “Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar” (1Co 10.13).

O texto de Mateus termina dizendo que “com isso, o deixou o diabo, e eis que vieram anjos e o serviram”. Lute até o fim, não esmoreça. Não ceda à tentação. O Senhor também enviará o sustento para você e para mim também.

Bibliografia:

1 – Grudem, Wayne. Teologia Sistemática, 2ª ed. São Paulo, Edições Vida Nova, 2015, p. 443-44.

1 – Ferreira, Franklin. Myatt Alan. Teologia Sistemática, 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2017, p. 523.

3 –Rienecker Fritz. Lucas, Comentário Bíblico Esperança, Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2005, p. 63.

4 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, São Paulo: Editora Hagnos, 2017, p. 113.

5 – Hendriksen, William. Novo Comentário do Novo Testamento, Lucas, vol. 1, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2003, p. 314.

6 – Rienecker Fritz. Lucas, Comentário Bíblico Esperança, Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2005, p. 64.

7 – Hendriksen, William. Novo Comentário do Novo Testamento, Lucas, vol. 1, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2003, p. 315.

8 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Santo André: Ed. Geográfica, 2012, p. 235.

9 – Rienecker Fritz. Lucas, Comentário Bíblico Esperança, Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2005, p. 65.

10 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, São Paulo: Editora Hagnos, 2017, p. 117.

11 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Santo André: Ed. Geográfica, 2012, p. 235.

12 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Santo André: Ed. Geográfica, 2012, p. 236.

13 – Rienecker Fritz. Lucas, Comentário Bíblico Esperança, Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2005, p. 68.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

O BATISMO DE JESUS, UM EXEMPLO PARA O SERVIÇO

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 3.21-23a

INTRODUÇÃO

O Evangelho de Lucas nos apresenta Jesus quando recém-nascido (Lc 2.11-16), com oito dias vida (Lc 2.21), com quarenta dias de vida (Lc 2.22-24), com doze anos (Lc 2.41-52) e com trinta anos (Lc 3.23). Agora aos trinta anos Jesus se apresenta perante João Batista, no Jordão, para ser batizado por ele. Mateus registra que João se opôs em batizar Jesus pois João não se via digno de tal atitude (Mt 3.13,14), no entanto, Jesus lhe diz que deveria se cumprir toda a justiça, sendo assim o batiza.

Jesus veio “da Galileia” (assim diz Mateus). Marcos é um pouco mais definido ao dizer “de Nazaré da Galileia”. João acrescenta que nesse tempo João Batista batizava “em Betânia, doutro lado do Jordão” (1.28).

A relação entre Jesus e João Batista compara-se à de dois astros, um seguindo o outro em diversas fases de sua trajetória. O anúncio do nascimento de ambos, o nascimento em si, o começo da atuação pública, sua morte, sucedem-se um ao outro em pouco tempo. Apesar disso ocorreu somente um único encontro direto entre esses dois homens, intimamente tão próximos por causa da relevância de sua trajetória de vida, do batismo de Jesus no rio Jordão.

O ministério público de Jesus começa aqui; a expressão “apareceu publicamente” (Mt 3. 13) é a mesma usada em conexão com o princípio da obra de João Batista (Mt 3.1). Jesus veio ao Jordão com o propósito específico de ser batizado por João. 

O batismo de Jesus nos apresenta lições preciosas que precisamos destacar e aplicar em nossas vidas. Vejamos:

1 – NO BATISMO JESUS APROVA O BATISMO DE JOÃO (Lc 3.21).

Quando Jesus vai até o Jordão para ser batizado por João, o Senhor está testificando o seu batismo. Jesus está deixando claro que o batismo que João estava realizando procedia de Deus. Que João Batista era um profeta enviado da parte de Deus para preparar o caminho do Messias (Jo 1.29-34). Apesar de João Batista ter tido uma carreira de pouca duração, foi de grande impacto.

Qual a diferença entre o batismo de João e o batismo de Jesus?

O batismo de João era a preparação para a vinda de Jesus, o Messias prometido. Por isso que no batismo de João, nenhuma fórmula batismal é usada no ato do batismo, João dizia apenas assim: “E eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento” (Mt 3.11). João não invocava algum “nome” sobre a pessoa que estava sendo batizada; o seu foco era o arrependimento.

No batismo que Jesus ordenou há uma fórmula batismal – em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Lembrando que o batismo cristão também inclui o arrependimento, que é o fator principal e necessário, no entanto, também simboliza a nossa união e identificação com Jesus em sua morte, sepultamento e ressurreição.

O que é lamentável hoje é que muitas pessoas estão negligenciando o batismo ordenado por Jesus. Alguns o idolatram, outros o subestimam e outros ainda o desonram.

2 – NO BATISMO JESUS SE IDENTIFICA COM OS PECADORES (Lc 3.21).

O batismo de João atraiu muitos israelitas para ouvi-lo e serem batizados por ele. Mas João quando viu que Jesus havia ido para ser batizado por ele, diz a Jesus: “Eu é que tenho necessidade de ser batizado por ti, e tu vens a mim?” (Mt 3.14). Portanto, João tinha convicção de que Jesus não tinha necessidade do perdão dos pecados, não precisava tornar-se justo, ele já é justo, a saber, justo a partir de si mesmo.

Contudo, Jesus não desiste de assumir o batismo da conversão e do perdão dos pecados, apesar dEle não ter nenhum pecado.

Por que Jesus deixou-se batizar? O batismo de João significava o juízo sobre a pessoa culpada. Jesus tinha necessidade de um tal juízo? Não! No entanto, Ele submeteu-se ao batismo, não somente exteriormente, como a uma cerimônia, ou para nos dar um exemplo de que também precisamos deixar-nos batizar. Jesus sabia que precisava realizar e construir o que esse batismo representava. Por isso responde a João Batista: “Convém cumprir toda a justiça”.

Jesus estava aqui se identificando com os pecadores. Com cada um de nós.

“Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado” (Hb 4.15 ACF)

Quem conviveu com Cristo pôde testemunhar que nenhum pecado se achou nele, nem mesmo no seu falar; ninguém jamais poderia acusá-lo de pecado algum, a não ser sob falsas acusações (1Pe 2.22).

Jesus veio à terra não só para estar ao nosso lado, mas em nosso lugar! Ele foi nosso representante, fiador e substituto; fez-se pecado por nós! (2Co 5.21). Por isso ele desce à mesma água com os pecadores. Iguala-se aos pecadores (Fp 2).

Como lemos em 1Pe 2.22-25:

“O qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano. O qual, quando o injuriavam, não injuriava, e quando padecia não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente; levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados. Porque éreis como ovelhas desgarradas; mas agora tendes voltado ao Pastor e Bispo das vossas almas”.

Assim como Jesus se identificou com os pecadores no batismo de João, nós devemos nos identificar com Ele quando descemos às águas batismais. Como nos fala Paulo em Filipenses 2.5-8:

“De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz”.

3 – NO BATISMO JESUS É IDENTICICADO COMO FILHO DE DEUS (Lc 3.22).

O Pai afirma sua filiação e declara que em Jesus e na sua obra ele tem o seu prazer. A pomba deu o sinal do término do julgamento após o dilúvio na época de Noé. A pomba agora dá o sinal da vinda do Espírito Santo sobre Jesus, abrindo-nos a porta da graça.

Os céus precisaram se abrir não para que Jesus pudesse ouvir a voz do Pai, mas para que João Batista a ouvisse, equipando-o para ser uma testemunha mais idônea das coisas que viu e ouviu (cf. Jo 1.33,34).

Vemos nesse texto a Trindade Santa sendo revelada. Quando o Filho se identifica com seu povo no batismo, o céu se abre, o Espírito Santo desce e o Pai fala. Assim o Pai, o Filho e o Espírito Santo cooperam entre si para levar a efeito a salvação do homem.

“Este é o meu Filho, o Amado, em quem tenho prazer”. Não se pode imaginar um sinal e selo de aprovação mais gloriosos.

Jesus é singular! É único, e é impossível que seja comparado a qualquer anjo, profeta, santo ou falso deus. Ele é a chave para se compreender o real sentido da vida (Jo 14.6). O Pai confirma que Jesus é Seu Filho, no entanto muitas pessoas têm negado a sua divindade, ou, quando não negam a sua divindade, o negam como o único Salvador pessoal. São vários os motivos que levam uma pessoa a negar a Cristo, e podem ser:

- Vergonha - (Mc 8.38)

- Medo - (Jo 18.27)

- Incredulidade - (Jo 6.64)

- Seguir a maioria (ceticismo) - (At 3.14)

- Estar enganado, seguindo falsas doutrinas (Mt 24.11)

- Achar que é duro seguir a Cristo e Seus ensinamentos (Jo 6.66)

- Não querer negar a si mesmo (Lucas 9:23)

- Inconstância (Ef 4.14)

Rejeitar o amor de Jesus é uma decisão pessoal de quem é assertivo nessa escolha ou daqueles que simplesmente são indiferentes a Ele na sua caminhada. Ou seja, ficar em cima do muro, já mostra uma decisão tomada.

Jesus é o Filho de Deus ainda que muitos o neguem, que o maldizem, que blasfemem seu nome. No fim todos terão que reconhecer quem Ele é como nos fala Paulo em Fl 2.9-11: “Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai”.

4 – NO BATISMO JESUS É REVESITIDO DE PODER PARA EXERCER O SEU MINSTÉRIO (Lc 3.22).

A fim de produzir essa redenção vicária, o Espírito Santo, com todo o seu poder que capacita (Is 11.2; 48.16; 61.1-3; Zc 4.6; Lc 4.18,19), desceu sobre Jesus, capacitando-o (em consonância com sua natureza humana) para a tarefa que ele tomara sobre si.

Em Mateus 4.1 nos diz: “Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo”.

Para a execução de sua tarefa infinitamente difícil, era mister que o Mediador fosse ungido pelo Espírito Santo, pois deve-se ter em mente que o Filho de Deus era também o Filho do homem. A segunda pessoa da Trindade, sendo verdadeiramente divina, possui duas naturezas: a divina e a humana. A natureza divina não necessita de fortalecimento, porém a natureza humana, sim. Portanto, todas as qualificações necessárias foram conferidas ao Mediador quando, em seu batismo, o Espírito Santo, simbolizado pela forma de uma pomba, desceu sobre ele em plena medida.

Assim como Jesus foi revestido de poder do alto para exercer o seu ministério, o Espírito foi derramado sobre a igreja para que possamos testemunhar da fé em Seu Nome (Jo 14.15-18; At 1.8, Atos 4.31).

É impossível realizarmos a obra de Deus sem a presença do Espírito Santo em nós. É o Espírito Santo que nos guia (At 16.6-10), é Ele que nos dá intrepidez para pregarmos o Evangelho (At 4.29-31), é através dEle que podemos testemunhar em nosso viver diário (Ef 5.18... casamento, pais e filhos, servos e senhores e armadura espiritual).

5 – NO BATISMO JESUS MOSTRA A NECESSIDADE DA ORAÇÃO (Lc 3.21).

Lucas é o único dos três relatos dos evangelistas que acrescenta uma palavra muito importante à frase “quando Jesus foi batizado: e estando a orar”. Como é extremamente significativo esse orar de Jesus ao sair da água.  Lucas nos dirige a atenção para importantes ocasiões em que Jesus orava (cf. Lc 5.16; 6.12; 9.18,29; 10.21; 11.1; 22.31,32,41,44,45; 23.34,46).

Jesus não só ensinou a respeito da oração, como Ele mesmo foi um homem de oração. Por sete vezes Lucas mostra Jesus em oração antes de cada momento decisivo do seu ministério. Esse destaque à oração faz que Lucas seja chamado por alguns comentaristas de “o evangelho da oração”.

Por que o céu se abriu? É porque Jesus estava orando! Quando Jesus orou, o Espírito desceu. Quando Deus deu o Espírito à igreja? Quando a igreja estava orando! Onde há oração, há demonstração do Espírito Santo.

Os discípulos entenderam o quanto era necessário orar, e orar de forma correta:

“E aconteceu que, estando ele a orar num certo lugar, quando acabou, lhe disse um dos seus discípulos: Senhor, ensina-nos a orar, como também João ensinou aos seus discípulos” (Lc 11.1).

Em Tiago 5.17,18 nos diz: “Elias era homem sujeito às mesmas paixões que nós e, orando, pediu que não chovesse e, por três anos e seis meses, não choveu sobre a terra. E orou outra vez, e o céu deu chuva, e a terra produziu o seu fruto”.

Através da oração nós entramos na sala do trono e falamos com o Rei dos reis e Senhor dos senhores. Na oração nós entendemos que antes de pedirmos o pão de cada dia devemos entender que deve ser feita a vontade de Deus assim na terra como no céu (Mt 6.9-11). A oração nos dá discernimento!

6 – NO BATISMO JESUS MOSTRA MATURIDADE PARA O SERVIÇO (Lc 3.23).

Somente Lucas nos informa que Jesus tinha 30 anos quando iniciou o seu ministério. Essa era a idade que os levitas começavam o seu serviço, como lemos em Nm 4.46,47:

“Todos os que deles foram contados, que contaram Moisés e Arão, e os príncipes de Israel, dos levitas, segundo as suas famílias, segundo a casa de seus pais; da idade de trinta anos para cima, até aos cinquenta, todo aquele que entrava a executar o ministério da administração, e o ministério das cargas na tenda da congregação”.

Foi também com essa idade que José tornou-se o “primeiro ministro” do Egito (Gn 41.46), e que Davi chegou ao posto de rei (2Sm 5.4). Portanto, não causa estranheza que Jesus tenha começado (implícito “seu ministério”) com essa idade. Esta era evidentemente considerada a idade em que um homem era plenamente maduro.

Durante trinta anos, Jesus provavelmente viveu como carpinteiro na cidade de Nazaré. Desde a infância, entretanto, tinha consciência da sua missão. Mas agora era tempo de agir, era tempo de iniciar o seu ministério. Seu batismo foi o selo dessa decisão.

Jesus é um exemplo à aparte de maturidade. Como vimos, Ele, desde a infância, já sabia do seu chamado. Mas o que me incomoda é vermos crentes antigos na igreja que continuam agindo com imaturidade juvenil. Temos visto uma igreja imatura, mundana e inconsequente em relação ao testemunho diário. Uma igreja muito parecida com a igreja de Corinto. Igreja esta que o apóstolo os chama de crianças na fé:

“E eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo. Com leite vos criei, e não com carne, porque ainda não podíeis, nem tampouco ainda agora podeis, porque ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissensões, não sois porventura carnais, e não andais segundo os homens?” (1Co 3.1-3).

A maturidade e imaturidade não têm a ver, necessariamente, com a questão da idade, da origem, da condição social.

Na Bíblia, a maturidade está associada à doutrina da santificação.

A santificação é aquela doutrina que fala da transformação de nossas vidas, de uma nova mentalidade, ligada à Cristo e à vontade de Deus. Trata-se da ideia de nos negarmos a nós mesmos – e isso é altamente contraintuitivo e vai na contramão da ideia de controle que o mundo sugere para maturidade – tomarmos nossa cruz e crucificarmos este mundo com Cristo. Está ligada ao abandono do pecado, à mortificarmos os feitos do corpo, à renúncia dos vícios e hábitos ruins, dos traços de nossa personalidade que nos arrastam para pensamentos e práticas de nossa velha natureza.

A maturidade cristã está associada à ideia de crescimento espiritual, ou crescimento nas coisas da fé, à fome de Deus, ao desejo de desfrutar de mais comunhão com Deus. Está ligada a andar no Espírito, a viver no Espírito, a cogitar das coisas do Espírito, a adorar em Espírito e em verdade, a produzir o fruto do Espírito, está ligada ao desejo de crescimento e desenvolvimento tanto no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo como na obediência.

A maturidade na Bíblia também está ligada também à ideia de peregrinação, de jornada, de caminhada, de boa ventura.  As tribulações, as provas, as lutas, os dramas e até algumas das nossas derrotas podem nos levar à maturidade, ao refinamento da fé, ao crescimento e compreensão melhor das coisas (2Co 12.6-10).

Maturidade está ligada à plenitude e alegria em Deus, ao regozijo, ao louvor e adoração sinceros.

Maturidade está ligada à virtude da humildade, do senso de proporção e lugar; de contentamento, mansidão e sabedoria. Está ligada a serviço. “Quem quer ser grande, sirva” – disse o Senhor Jesus aos seus discípulos. A maturidade está ligada ao amor ao próximo e às boas obras, como diz Tiago em sua epístola.

O alvo do cristão deve ser o de crescer nas coisas da fé. De apropriar-se das coisas da fé e torna-las suas. O alvo do cristão deve ser o de provar e ver que o Senhor é bom, deve ser o de ser transformado, de glória em glória, na própria imagem do Senhor, pelo Espírito.

Você é maduro na fé?

CONCLUSÃO

Através do batismo de Jesus nós podemos tirar lições preciosas para nossas vidas. Por isso devemos olhar para esse texto e pedir ao Senhor que nos capacite a viver de tal forma que o Seu nome seja exaltado em nossas vidas.

Pense nisso!

Bibliografia:

1 – Hendriksen, Wiliam. Comentário do Novo Testamento Mateus, Vol. 1, Editora Cultura Cristã, 2001.

2 – Hendriksen, Wiliam. Comentário do Novo Testamento Lucas, Vol. 1, Editora Cultura Cristã, 2003.

3 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus, o homem perfeito, Ed. Hagnos, 2017.

4 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mindo Cristão e Edições Vida Nova, 1986.

5 – Rienecker, Fritz. Evangelho de Mateus, Comentário Esperança, Ed. Esperança, 1998.

6 – Rienecker, Fritz. Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Esperança, 2005.

7 – Santos, Tiago. Uma chamada à maturidade https://voltemosaoevangelho.com/blog/2016/02/uma-chamada-a-maturidade/, acessado em 10/10/2020.

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