sexta-feira, 21 de abril de 2017

Suicídio: um velho novo capítulo



Por Maurício Montagnero

Nessa última semana eu assisti uma série no NetFlix chamada 13 Reasons Why. Não só eu, mas muitas pessoas a tem assistido, especialmente os adolescentes. Essa série é uma espada de dois gumes, pois pode prevenir alguém do suicídio o mostrando o quão desnecessário é, ou pode incentivar a isso. Dependerá muito do estado existencial e de maturidade que o indivíduo, especialmente o adolescente, estará no momento ao assisti-la. Mas afinal, do que se trata? Segue a sinopse: 

“A série gira em torno de Clay Jensen, um estudante tímido do ensino médio, que encontra uma caixa na porta de sua casa. Ao abri-la, ele descobre que a caixa contém sete fitas cassete gravadas pela falecida Hannah Baker, sua colega que cometeu suicídio recentemente. Inicialmente, as fitas foram enviadas para um colega, com instruções para passá-las de um estudante para outro. Nas fitas, Hannah explica para treze pessoas como eles desempenharam um papel na sua morte, apresentando treze motivos que explicam porque ela se matou. Hannah deu uma cópia das fitas para Tony, um de seus colegas da escola, que avisa para as pessoas que, se elas não passarem as fitas, as cópias vazarão para todo mundo, o que poderia levar ao constrangimento público e vergonha de algumas pessoas, enquanto outros poderiam ser ridicularizados ou presos”.

Para quem assisti esta série, especialmente aos adolescentes que sentem predisposição para o suicídio, é importantíssimo que veja o quarto trailer que está anexo com ela – além dos porquês –, onde há um bate-papo entre o elenco e profissionais da saúde falando sobre o tema e a série. Além de visitar o próprio site deles para buscar ajuda (tem os telefones para as regiões) e conhecer mais sobre: http://www.13reasonswhy.info/#bra.

Infelizmente, na mesma época em que a série está em alta, apareceu uma “brincadeira” ou “desafio” nas redes sociais, a saber: Baleia Azul. Essa brincadeira que começou na Rússia em 2015, já faz sucesso no Brasil em 2017. A mensagem deste jogo está baseada em 50 desafios, dentre eles há: o de desenhar uma baleia no papel e depois no braço, fazer cortes no corpo, ver filmes de terror e assim por diante; mas o último desafio (quinquagésimo) é o SUICÍDIO. E sim, já existem histórias de adolescentes que comentem tal barbárie. Sem vacilar eu creio que esses adolescentes passam por um perturbado momento existencial ou de maturidade, logo, são facilmente influenciados ou conquistados pela brincadeira. Em contraponto, há algumas manifestações nas redes sociais que ocorrem e dentre elas eu deixo como recomendação:

Por favor, ao menos três dos meus amigos do Facebook, poderiam copiar e colar essa informação? Linha de prevenção ao suicídio: 0800-273-8255 #NaoABaleiaAzul.

Ou ainda pesquisar e aplicar o desafio da baleia rosa que é uma resistência ao da baleia azul, propondo 50 desafios saudáveis para a pessoa.

PROBLEMA X SOLUÇÃO:

Com essas duas citações acima nós vemos de uma maneira inusitada um velho inimigo existencial, male da alma ou conflito da vida, voltar com tudo – se um dia deixou de ser tão ativo. Existem já várias estatísticas sobre o tema, várias conclusões em cima dele, vários motivos articulados do porque ocorre tal e assim por diante. O problema é visível, infelizmente. Porém, qual a solução para ele?

Já foram passadas três fontes que buscam ajudar a resolver o problema para que as pessoas não cometam o suicido. Vários estudos bíblicos já existem para tratar do tema. Contudo, aqui nesse espaço, quero destacar um principio que se completa em três partes que tenho por certeza que soluciona definitivamente este problema, ou os problemas que originam o tal. Esse princípio se encontra no verso, o qual eu tenho como meu favorito, que Paulo escreveu para uma igreja localizada na Europa, muitos séculos atrás, na cidade de Filipos: Quero conhecer Cristo, o poder da sua ressurreição e a participação em seus sofrimentos (Fl 3.10a).

Mas porque um princípio que se completa em três partes? Bem, o princípio eu vou chamá-lo de Intimidade com Cristo, é este que vemos no versículo. Em três partes, pois este verso só tem um artigo definido – no grego –, portanto, sugere que todas as ideias serão expressas em uma só. É uma completude! Exemplificando, podemos dizer que é um tipo de trilogia – termos usado em artes gerais que diz que uma arte quando é dividida em três obras e, só poderá ser compreendida quando essas três forem vistas. O princípio visto só pode ser compreendido quando as três partes forem conhecidas, compreendidas e vividas. Destarte, só conheço a Cristo se conhecer o poder de ressureição e a participação nos sofrimentos dEle. Vamos entender cada uma dessas partes:

1. Quero conhecer a Cristo: Essa palavra conhecer que já se encontra no verso 8 como conhecimento é de uma raiz que não fala sobre conhecimento teórico ou racional, mas, sim, de um conhecimento adquirido pela experiência, de relacionamento. Neste caso o texto afirma um relacionamento pessoal com a pessoa de Cristo, de intimidade como dois amigos que se conhecem profundamente depois da amizade ter se firmado e permanecido. Augusto Cury, o escritor, era ateu e acabou crendo em Jesus depois que se dedicou aos estudos dos evangelhos para examinar quem era Jesus e escrever sobre Ele. Interessante que um ateu se converte quando conheceu Jesus de Nazaré, revelado nos evangelhos. Melhor forma de conhecer a Cristo é lendo sobre Ele, mas, também, O buscando em oração e na tentativa de ser semelhante a Ele no dia após dia.

Mas o que isso tem haver com o tema? Paulo quando expressa esse desejo na carta que escreveu a igreja de Filipos, ele escreve em um tempo de “crise” na sua vida. Paulo estava preso, provavelmente em Roma, e com a grande possibilidade de ser condenado a morte. Contudo, nesse momento da sua vida de pressão e dificuldade o que ele quer é ser intimo da pessoa de Cristo. Da mesma maneira você, lendo esse artigo, talvez esteja passando por algum conflito interno ou externo, alguma tempestade em sua vida, saiba que não é a automutilação ou o suicídio que trará a solução, no entanto, será o se aproximar de Jesus, conhecê-lo, ser intimo dEle. Para isso é bom vermos as outras duas partes que completarão esse princípio.

Obs.: A bíblia fala de vários homens de Deus que desejaram a morte ou amaldiçoaram o momento que nasceram, porém Deus concedeu as providências que necessitavam e suas histórias foram transformadas (Moisés – Nm 11.10 – 15; Elias – 1Rs 19; Jó – Jó 3). Todos esses tiveram um principio igual, que foi: Conhecer intimamente ao Senhor!

2. O poder da Sua ressurreição: Aqui Paulo, no original grego, coloca um pronome pessoal genitivo que se refere a Cristo – o da sua ressurreição –, transmitindo o sentido acerca dos efeitos que essa ressurreição traz, e, também, a qualifica e a defini. A ressurreição de Cristo é causa de sermos cotidianamente regenerados e salvos, além de nos produzir esperança (Jo 16.7 – 9; Rm 4.25; 1Co 15.13 – 17; 42 – 44; Hb 4.14 – 16); 1Jo 2.1). Os textos citados nos indicam que pela ressurreição o Espírito Santo foi enviado para nos convencer e conduzir a obra da salvação e do livramento; que fomos justificados; que a nossa fé seria útil e levaria a esperança; que temos um Sumo Sacerdote e Advogado que intercede por nós para sermos restaurados sempre – alguns entendem que o poder da ressurreição seria o fato da própria ressurreição final, mas não é, a ressurreição final se refere o verso 11, logo, a ressurreição deste versículo (com o conhecer a Cristo e a participação dos seus sofrimentos) serve para nos levar a ressurreição final. Então, o de fato é de se tornar nova criatura (Rm 6.4; Ef 2.5; Cl 2.12), porém não se limita a tal, mas, também, ao renovar constantes da vida da pessoa (Rm 8.11; Cl 3.1), pois Paulo que já era salvo nEle ainda desejava o prosseguimento deste conhecimento. Tal definição é admitida conforme segue um dos sentidos de ressurreição (anastaseos) no original – ser sarado e ter seu altar. 

Então, amado leitor, se a situação está difícil e a desesperança se faz presente em sua vida o levando a desejar a morte, eu digo a você: conheça o poder da ressurreição, pois essa lhe possibilitará dia após dia ser renascido, começar de novo, dar novo sentido em cada amanhecer – RENOVAR! Como Leonardo Gonçalves canta em sua música (Ele Vive): E hoje sou livre, pois Ele vive… E eu sou livre, eu sou livre enfim, de mim… Da água renasci e faz sentido servir Alguém melhor que eu… Todo dia de manhã quero renascer…

3. A participação em Seus sofrimentos: Interessante destacar essa palavra sofrimento. Os jovens que se cortam/se mutilam têm buscado evidenciar um sofrimento interno, um tipo de comunicação que não é verbal. E assim, consequentemente, participa de algum sofrimento proposto (pela baleia azul).

Em contraste com isso podemos participar dos sofrimentos de Cristo. Isso não se refere a mutilação, a penitências físicas ou a estigmas. Refere-se à renúncia diária, as aflições externas constantes por causa do evangelho (que traz a paz interna), como também a possível perseguição. Isso é visível quando o apóstolo escreve, pois estava preso, além da verdade que ele deixa no capítulo 4.11 e 12, como também outros textos: 1Co 9.1 – 15; 2Co 11.25 – 27. Aqui vale deixar para a reflexão: Bem-aventurados serão vocês quando, por minha causa, os insultarem, os perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês (Mt 5.11). Essa palavra participação refere-se e se unir, associar-se com os sofrimentos de Cristo, de renúncia e consequências de tais, já que uma vez estamos unidos ao seu corpo. Acompanha a essa palavra o artigo “tw/n/ton” que é um dativo que transmite o sentido de proveito/dano recaído, ou seja, tal participação é um dano, a principio, que recai sobre quem deseja isso, porém é um proveito para quem vive tal.

Contudo, vale constar, que a participação deste sofrimento traz paz e satisfação ao coração de quem participa. Não é cruel! Não gera desesperança! É maravilhoso! Traz paz!

Jesus certa vez disse: Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve – (Mt 11.28 – 30).

FINALIZANDO

Existe um vazio em nosso coração que só pode ser preenchido pela cruz de Cristo, através da compreensão dela. Há uma falta de sentido em nossa vida que só pode ser satisfeita quando Ele se torna o centro de nossas vidas. É como um jogo de quebra cabeça que só terá sentido quando todas as peças estiveram definidamente em seus devidos lugares. Para muitos, Jesus é a peça que falta para trazer sentido a esse jogo chamado vida!

“Dá-me Jesus, Ele é tudo que preciso para continuar!”

(Gregório Mcnutt).

“Não há um único centímetro quadrado, em todos os domínios de nossa existência, sobre os quais Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: ‘É meu!’”

(Abraham Kuyper)

Fonte: NAPEC

sábado, 15 de abril de 2017

POR QUE JESUS MORREU NA CRUZ?



Por Pr. Silas Figueira

Antes de respondermos esse questionamento gostaria de compartilhar com você quatro pontos que definem que a morte de Cristo na cruz foi algo singular, passo a transcrever quatro pontos que parecem resumir bem esse acontecimento. Esse argumento se encontra no livro de Arthur W. Pink, Os Sete Brados do Salvador na Cruz. Ele nos fala assim:

A MORTE DO SENHOR JESUS CRISTO é um assunto de interesse inexaurível para todos os que estudam em oração a escritura da verdade. Tal é assim não somente porque tudo do crente — tanto no tempo como na eternidade — dela dependa, mas também devido à sua singularidade transcendente. Quatro palavras parecem resumir as características salientes desse mistério dos mistérios: a morte de Cristo foi natural, não natural, preternatural e sobrenatural. Uns poucos comentários parecem ser necessários à guisa de definição e amplificação.

Primeiro: a morte de Cristo foi natural. Com isso queremos dizer que ela foi uma morte real. É porque estamos tão familiarizados com o fato dela que a declaração acima parece simples, corriqueira; todavia, o que abordamos aqui é um dos principais elementos de admiração para a mente espiritual. Aquele que foi “tomado, e pelas mãos de injustos” crucificado e assassinado não era outro senão o “Companheiro” de Jeová. O sangue que foi derramado sobre o madeiro maldito era divino — “A igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue” (Atos 20.28). Como diz o apóstolo: “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (2Co 5.19).

Mas como o “Companheiro” de Jeová poderia sofrer? Como o eterno poderia morrer? Ah, aquele que no princípio era o Verbo, que estava com Deus, e que era Deus, “se fez carne”.   Aquele que era em forma de Deus tomou sobre si a forma de um servo e foi feito semelhante aos homens; “e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2.8). Dessa forma, tendo se encarnado, o Senhor da glória foi capaz de sofrer a morte, e assim foi que ele “provou” a própria morte. Em suas palavras, “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”, vemos quão natural foi sua morte, e a realidade dela se torna ainda mais aparente quando ele foi posto na sepultura, onde permaneceu por três dias.

Segundo: a morte de Cristo foi não natural. Por isso queremos dizer que ela foi anormal. Acima dissemos que, ao se encarnar, o Filho de Deus tornou-se capaz de sofrer a morte, todavia, não deve ser inferido daí que a morte tinha, portanto, um direito a reclamar sobre ele; longe disso, o contrário mesmo era a verdade. A morte é o salário do pecado, e ele não tinha nenhum. Antes de seu nascimento foi dito a Maria: “[que] o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus” (Lc 1.35). Não somente o Senhor Jesus entrou neste mundo sem contrair a contaminação da natureza humana caída, mas ele “não cometeu pecado” (1Pe 2.22), “não [tinha] pecado” (1Jo 3.5) e “não conheceu pecado” (2Co 5.21). Em sua pessoa e em sua conduta ele foi o Santo de Deus “imaculado e incontaminado” (1Pe 1.19). Como tal, a morte não tinha nenhum direito a reclamar sobre ele. Até mesmo Pilatos teve que reconhecer que não pôde encontrar “nenhuma culpa” nele. Por conseguinte, dizemos que o Santo de Deus morrer foi não natural.

Terceiro: a morte de Cristo foi preternatural. Por meio disso queremos dizer que ela foi marcada e determinada para ele de antemão. Ele era o Cordeiro morto antes da fundação do mundo (Ap13.8). Antes que Adão fosse criado, a Queda foi antecipada. Antes de o pecado entrar no mundo, a salvação dele havia sido planejada por Deus. Nos eternos conselhos da Deidade, foi ordenado de antemão que haveria um Salvador para os pecadores, um Salvador que sofreria, o justo pelos injustos, um Salvador que morreria para que pudéssemos viver. E “porque não havia nenhum outro suficientemente bom para pagar o preço do pecado”, o Unigênito do Pai se ofereceu como o resgate.

O caráter preternatural da morte de Cristo leva o bom termo de o “sustentáculo da Cruz”. Foi em vista da aproximação dessa morte que Deus “justamente ignorou os pecados anteriormente cometidos” (Rm 3.25). Não tivesse sido Cristo, no conceito de Deus, o Cordeiro morto desde antes da fundação do mundo, toda pessoa pecadora nos tempos do Antigo Testamento teria sido lançada no abismo no momento em que ela pecasse!

Quarto: a morte de Cristo foi sobrenatural. Por isso queremos dizer que ela foi diferente de qualquer outra morte. Em todas as coisas ele tem a preeminência. Seu nascimento foi diferente de todos os outros nascimentos. Sua vida foi diferente de todas as outras vidas. E sua morte foi diferente de todas as outras mortes. Isso foi claramente anunciado em sua própria declaração sobre o assunto: Por isso, o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la. Este mandato recebi de meu Pai (Jo 10.17, 18) [1].

Com isso vemos que a cruz de Cristo não foi um acidente, mas um apontamento de Deus desde a eternidade. Cristo veio para morrer. Ele foi morto desde a fundação do mundo. Ele nasceu para ser o nosso substituto, representante e fiador. A cruz sempre esteve incrustada no coração de Deus, sempre esteve diante dos olhos de Cristo. Ele jamais recuou da cruz. Ele marchou para ela como um rei caminha para a coroação. O amor de Deus por nós é eterno. A causa do amor de Deus está nele mesmo.

Em sua mensagem no dia de Pentecostes, Pedro afirmou esta verdade quando disse que Jesus fora “entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus” (At 2.23). Pedro se achava presente quando tudo aconteceu; ele sabia que o Calvário não foi uma surpresa para Jesus. Anos mais tarde, quando escreveu a sua primeira epístola, Pedro chamou Jesus de Cordeiro que foi “conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo” (1Pe 1.20). Pode alguma coisa ser mais clara? [2].

Apesar de Jesus ter se dado em nosso lugar, e isso é claro como temos visto até aqui, no entanto nós somos culpados por sua morte na cruz. É muito fácil culpar o povo judeu, Herodes, Pilatos e até os soldados romanos, mas saiba de uma coisa, se nós estivéssemos no lugar deles teríamos feito a mesma coisa. Deveras, nós o fizemos. Pois sempre que nos desviamos de Cristo, estamos “crucificando” para nós mesmos o Filho de Deus, e o “expondo à ignomínia” (Hb 6.6). Nós também sacrificamos Jesus à nossa ganância como Judas, à nossa inveja como os sacerdotes, à nossa ambição como Pilatos. Estávamos lá quando crucificaram o meu Senhor. Não apenas como espectadores, mas também como participantes, participantes culpados, tramando, traindo, pechinchando e entregando-o para ser crucificado. Como Pilatos, podemos tentar tirar de nossas mãos a responsabilidade por meio da água. Mas nossa tentativa será inútil quanto foi a dele [3]. 

A pergunta persiste, por que Cristo morreu na cruz?

Em primeiro lugar Cristo morreu na cruz do Calvário para nos dar vida. Jesus no Evangelho de João 10.10 nos diz que Ele veio para nos dar vida e vida em abundância. Só necessita de vida quem está morto e o apóstolo Paulo nos fala em Ef 2.1: “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados”. A condição do homem sem Deus é desesperadora. O diagnóstico que Paulo faz se refere ao homem caído em uma sociedade caída em todos os tempos e em todos os lugares. Esse é um retrato da condição humana universal. O pecado não é uma dessas enfermidades que alguns homens contraem e outros não. É algo em que todo ser humano está envolvido e de que todo ser humano é culpado [4]. A Bíblia nos fala que “o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23a), e não há graus de morte, só graus de decomposição. O pecador perdido que diz: “Não sou tão mau quanto outras pessoas”, não está captando a mensagem. A questão não é decadência, é morte [5].

Jesus morreu para que tivéssemos vida! Mas se o salário do pecado é a morte, nos diz Rm 6.23b que “o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor”. O pecado paga salários a seus escravos – e o salário é a morte. Deus nos dá, não salário, mas algo melhor e muito mais generoso: por sua graça, ele nos dá a vida eterna como dom – a vida eterna que nos pertence por nossa união com Cristo [6]. A palavra grega Charisma, por sua vez, é uma dádiva da graça de Deus. Portanto, se estamos prontos a receber aquilo que merecemos, só pode ser a morte; já a vida eterna é uma dádiva de Deus, inteiramente gratuita e absolutamente imerecida. Ela se alicerça unicamente na morte expiatória de Cristo, e a única condição para recebê-la é que nós estejamos em Cristo Jesus nosso Senhor, isto é, unidos pessoalmente a Ele pela fé [7].

Em segundo lugar Cristo morreu na cruz do Calvário para vivermos para Ele. No momento em que me uno a Cristo eu estou me rendendo a Sua vontade, como disse o apóstolo Paulo em Gl 2.19,20:

“Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim”.

Uma coisa é ter Cristo como Salvador outra é tê-lo como Senhor. Um bom exemplo disso nós também encontramos em 2Co 5.14,15:

“Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos; logo, todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou”.

Porque Cristo morreu por nós, agora devemos viver para Ele. Isso é serviço. O Salvador não morreu por nós para vivermos uma vida egoísta e centrada em nós mesmos, mas morreu para vivermos para Ele. Obviamente, não servimos a Cristo para sermos salvos, mas porque já fomos salvos. As nossas boas obras não são a causa da nossa salvação, mas sua consequência [8].

Em terceiro lugar Cristo morreu na cruz do Calvário para que pudéssemos viver com Ele. O céu sempre foi real para Jesus, “o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus” (Hb 12.2). Foi a sua visão do céu que o sustentou quando a caminhada se tornou árdua. Séculos antes, a garantia do céu encorajou Abraão, Isaque e Jacó. Eles mantiveram os olhos fixos na cidade e país que Deus estava preparando para eles (Hb 11.13-16) [9]. Jesus em seu ministério sempre procurou renovar no coração de seus discípulos essa viva esperança.

A esperança do céu para os cristãos repousa sobre três pilares inabaláveis, o primeiro dos quais é a promessa feita por Jesus: “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também”.

O segundo pilar é a oração feita por Jesus: “Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo” (Jo 17.24).

O terceiro pilar é o preço que Jesus pagou. Paulo consolou os crentes perturbados de Tessalônica, ainda jovens na fé, dizendo-lhes que, quer vivessem ou morressem, Jesus os levaria para céu. Foi por isso que Ele morreu e ressuscitou. Quando os crentes morrem, eles vão estar com Cristo; “estar ausente do corpo” significa “estar presente com o Senhor” (2Co 5.6-8). Se Jesus voltar quando ainda estivermos vivos, Ele irá então nos arrebatar para nós o encontrarmos nos ares, e ficarmos com Ele para sempre (1Ts 4.14-18) [10]. Essa viva esperança é que manteve firme a Igreja no seu início, mesmo diante de tanta perseguição, pois para o cristão primitivo o viver era Cristo e o morrer era lucro, como deixou bem claro o Apóstolo Paulo em Fl 1.21.

Jesus morreu para que pudéssemos viver por meio dEle, que é salvação; para que pudéssemos viver por Ele, que é dedicação; e para podermos viver com Ele, que glorificação. Não importa quão difícil seja nosso caminho como peregrinos na terra, pois sabemos que iremos “habitar na Casa do Senhor para todo o sempre” (Sl 23.6). Como disse o apóstolo Paulo em 1Co 15.19: “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens.” Mas a nossa esperança está enraizada nas palavras do Nosso Salvador que deixou bem claro para a Sua Igreja que em breve voltaria para estarmos com Ele para todo e sempre.

Em conclusão, a cruz reforça três verdades: acerca de nós mesmos, a cerca de Deus e acerca de Jesus Cristo.

Primeiro, nosso pecado deve ser extremamente horrível. Nada revela a gravidade do pecado como a cruz. Pois, em última instância, o que enviou Cristo ali não foi a ambição de Judas, nem a inveja dos sacerdotes, nem a covardia vacilante de Pilatos, mas a nossa própria ganância, inveja, covardia e outros pecados, e a resolução de Cristo em amor e misericórdia de levar o juízo desses pecados e desfazê-los. É impossível que encaremos a cruz de Cristo com integridade e não sintamos vergonha de nós mesmos. Apatia, egoísmo e complacência vicejam em todos os lugares do mundo, exceto junto à cruz. Aí, essas ervas nocivas secam-se e morrem. São vistas como as coisas mais horríveis e venenosas que realmente são. Pois se não havia outro modo pelo qual o Deus justo pudesse justamente perdoar a nossa injustiça, a não ser que a levasse em Cristo, deve ela, deveras, ser séria. Só quando vemos essa seriedade é que, desnudados da nossa autojustiça e autossatisfação, estamos prontos para colocar nossa confiança em Jesus Cristo como o Salvador de quem urgentemente necessita.

Segundo, a maravilha do amor de Deus deve ir além da compreensão. Deus podia, com justiça, ter-nos abandonado ao nosso próprio destino. Ele podia ter-nos deixado sozinhos para colhermos o fruto de nossos erros e perecermos em nossos pecados. É isso que merecíamos. Mas Ele não nos condenou. Por causa do seu amor por nós, Ele veio procurar-nos em Cristo. Ele nos foi ao encalço até na desolada cruz, onde levou o nosso pecado, a nossa culpa, o nosso juízo e a nossa morte. É preciso que o coração seja duro e de pedra para não se comover face a um amor como esse. É preciso mais do que amor. Seu nome correto é “graça”, que é amor aos que não merecem.

Terceira, a salvação de Cristo deve ser um dom gratuito. Ele a “comprou” para nós com o alto preço de seu próprio sangue. De modo o que nos resta a pagar? Nada! Visto que Ele reivindicou que tudo estava “consulado”, nada há com que possamos contribuir [11].

Todos nós estávamos sob a lei, que diz: "Faça isto, e viva". Éramos escravos dela; Cristo pagou o preço do resgate e a lei não é mais o nosso mestre tirano. Estamos completamente livres dela. A lei tem uma terrível maldição: qualquer que violar um de seus preceitos deve morrer. "Cristo nos redimiu da maldição da lei, tendo sido feito maldição em nosso lugar" (Gl. 3.13). Pelo temor de sua maldição, a lei infligia um contínuo pavor àqueles que estavam debaixo dela; eles sabiam que a tinham desobedecido, e permaneciam todo o tempo de suas vidas sujeitos à escravidão, temendo que a morte e a destruição viessem sobre eles a qualquer momento. Nós, porém, não estamos sob a lei, mas sob a graça, e consequentemente "não recebemos o espírito da servidão novamente para temer, mas recebemos o espírito de adoção pelo qual clamamos: Aba, Pai" (Rm. 8.15).

Nós não tememos a lei agora; seus piores trovões não podem nos atingir porque não são proferidos contra nós! Seus mais tremendos raios não podem nos tocar, porque estamos protegidos sob a cruz de Cristo, onde o trovão perde seu terror e o raio sua fúria. Agora lemos a lei de Deus com prazer; nós a vemos como na arca, coberta com o propiciatório, e não trovejando tempestuosamente como se procedesse do monte Sinai.

Feliz é o homem que conhece a completa redenção da escravidão à lei, de sua maldição, de sua penalidade e do seu terror. Meus irmãos, a vida de um judeu poderia ser considerada feliz se comparada à dos gentios, porém era a perfeita escravidão quando a comparamos com a sua vida e a minha. Ele estava cercado por centenas de mandamentos e proibições, suas formalidades e cerimônias eram muitas, e seus detalhes minuciosamente arranjados. Ele estava sempre em perigo de se tornar impuro. Se se sentasse numa cama ou num banco poderia se contaminar, se bebesse água de uma vasilha ou mesmo se tocasse as paredes de uma casa, onde antes um homem leproso tivesse também tocado, ele Ficaria contaminado.

Milhares de pecados por ignorância eram como muitas armadilhas preparadas em seu caminho; ele deveria viver perpetuamente temendo, se não quisesse ser cortado do povo de Deus. Quando ele fazia o melhor no seu dia-a-dia, sabia que ainda não terminara; nenhum judeu poderia considerar sua obra terminada. O novilho fora oferecido, mas ele deveria trazer outro; o cordeiro fora imolado pela manhã, mas outro deveria ser oferecido à tarde e outro amanhã, e ainda outro no dia seguinte. A Páscoa é celebrada com ritos sagrados, isto deveria se repetir da mesma maneira a cada ano. O sumo sacerdote havia entrado além do véu uma vez, mas deveria entrar lá novamente; a coisa nunca terminava, pelo contrário, estava sempre recomeçando. Ele nunca estava próximo de um fim. "A lei nunca jamais pode tornar perfeitos os ofertantes, com os mesmos sacrifícios que, ano após ano, perpetuamente, eles oferecem". (Hb. 10.1).

Mas, vejamos nossa posição. Somos livres dessas coisas. Nossa lei está cumprida, pois Cristo é o fim da lei para a justiça; nosso cordeiro pascal foi imolado, pois Jesus morreu: nossa justiça está terminada, pois somos completos nEle; nossa vítima está morta, nosso sacerdote entrou além do véu, o sangue foi aspergido, estamos limpos e livres de qualquer contaminação, "Porque (Ele) aperfeiçoou para sempre os que são santificados" (Hb. 10.14). Valorize este precioso sangue, meus amados, porque foi assim que Ele os redimiu da escravidão e de cativeiro que a lei impôs sobre Seus seguidores [12].

Pense nisso!

Fonte:

1 – Pink, Arthur W. Os Sete Brados do Salvador na Cruz. Modo de Compatibilidade, Semeadores da Palavra e-books evangélicos, 2006: p. 3 a 5.
2 – Wiersbe, W. Warren. O Que As Palavras da Cruz Significam Para Nós, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2001: p. 11.
3 - Stott, John R. W. A Cruz de Cristo. Ed. Vida, São Paulo, SP, 9ª impressão 2002: p. 51.
4 – Lopes, Hernandes Dias. Efésios, Igreja, a noiva gloriosa de Cristo. Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2010: p. 48.
5 - Wiersbe, W. Warren. O Que As Palavras da Cruz Significam Para Nós, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2001: p. 25.
6 – Lopes, Hernandes Dias. Romanos, o evangelho segundo Paulo. Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2010: p. 254.
7 – Stott, John R. W. Romanos. Ed. ABU, São Paulo, SP, 2007: p. 222.
8 - Lopes, Hernandes Dias. 2 Coríntios, O triunfo de um homem de Deus diante das dificuldades. Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2008: p. 134.
9 - Wiersbe, W. Warren. O Que As Palavras da Cruz Significam Para Nós, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2001: p. 40.
10 – Ibid, p. 40,41.
11 - Stott, John R. W. A Cruz de Cristo. Ed. Vida, São Paulo, SP, 9ª impressão 2002: p. 72.
12 – Spurgeon, C. H. O Precioso Sangue de Cristo. http://www.ebooksgospel.com.br/, p. 7-10.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Podemos chamar Deus de mãe?



Por Franklin Ferreira e Alan Myatt

A influência do feminismo na teologia e na filosofia secular apresentou um desafio sério à interpretação tradicional da paternidade de Deus. Segundo a corrente feminista, a visão de Deus como Pai reflete uma ideologia patriarcal. Essa corrente entende a ideologia patriarcal como a dominação das mulheres pelos homens, através das estruturas familiar, econômica e em outros aspectos da sociedade.[1] Um tema recorrente no discurso da teologia feminista é o fato do predomínio da violência praticada por homens contra as mulheres, em todas as culturas. Supostamente, a noção de um Deus masculino, todo-poderoso, apoia este tipo de dominação e violência, especialmente na doutrina da expiação, que é vista como um exemplo de um pai irado esmagando sua vítima com o peso de sua raiva.[2] Além disso, a teoria feminista entende que a noção da divindade equivalente do Pai, Filho e Espírito dá ainda mais força à ideia de autoridade patriarcal. O ser masculino é vinculado ao divino, e a opressão à mulher é justificada à luz da teologia ortodoxa.[3] A resposta das feministas foi no sentido de modificar os elementos da teologia considerados ofensivos. Várias estudiosas feministas optaram por conceitos femininos do divino, como o conceito de deusa presente nas religiões antigas.

A variedade de interpretações e a escassez de estudos sobre a paternidade de Deus exigem que atenção seja prestada a este assunto, para a construção de uma teologia para o século XXI. Não queremos apenas depender de modelos antigos, mas muito menos queremos apenas adotar as atuais ondas da filosofia e da teologia pós-moderna. É necessário voltar ao texto bíblico tendo em vista a realidade em todas as camadas da sociedade contemporânea. Portanto, mais do que nunca, uma teologia da paternidade de Deus é necessária para o bem-estar da igreja e da sociedade.

As feministas liberais acreditam que as imagens masculinas de Deus são opressivas. Portanto, teólogas como Rosemary Radford Ruether propõem a substituição do Deus Pai da Bíblia por uma deusa, muitas vezes segundo o modelo das religiões pagãs da Antiguidade:

“Deus/a é a Matriz primitiva, o fundamento do ser do novo-ser, que nem é imanência sufocante nem transcendência sem alicerce. Espírito e matéria não são dicotomizados, mas são o lado interno e externo da mesma coisa.”[4]

Segundo Reuther, Fiorenza e outras, imagens masculinas, como a de Deus Pai, devem ser abandonadas, para que se ponha um fim aos valores patriarcais. De fato, essa teologia exige uma nova imagem de Deus, que, no final, dificilmente poderia ser reconhecida como o Deus confessado pela fé evangélica e ortodoxa.

Ao responder às feministas, notamos que tanto o Antigo Testamento quanto o Novo Testamento usam o gênero masculino quando se referem a Deus. Uma das analogias usadas é a analogia paterna. Isto seria um indício de que Deus é do gênero masculino? Alister McGrath escreve:

“Falar em Deus como pai é dizer que o papel do pai no antigo Israel permite que compreendemos melhor a natureza de Deus. Isso não significa dizer que Deus seja do gênero masculino. Nem a sexualidade masculina, nem a sexualidade feminina devem ser atribuídas a Deus. Pois a sexualidade é um atributo que pertence à ordem da criação, sendo inadmissível aceitar uma correspondência direta entre esse tipo de polaridade (homem/mulher), conforme se observa na criação, e o Deus criador.

Na verdade, o Antigo Testamento evita atribuir funções sexuais a Deus, devido à ocorrência de fortes traços pagãos nesses tipos de associações. Os cultos à fertilidade dos cananeus davam ênfase às funções sexuais tanto dos deuses quanto das deusas; portanto, o Antigo Testamento recusa-se a endossar a ideia de que o gênero ou a sexualidade de Deus seja uma questão importante.”

Assim, para McGrath, qualquer tentativa de atribuir sexualidade a Deus representa uma volta ao paganismo. Ele continua: “Não há a menor necessidade de trazer de volta as ideias pagãs dos deuses e deusas para resgatar a noção de que Deus não é nem masculino nem feminino; essas ideias já estão potencialmente presentes, se não forem negligenciadas, na teologia cristã.”[5]

Na verdade, existem imagens maternais de Deus na Escritura. Deus é revelado como uma mãe-pássaro (Rt 2.12; Sl 17.8; Mt 23.37), uma mãe-ursa que luta para proteger seus ursinhos (Os 13.8) e como uma mãe que consola seus filhos (Is 66.13). A presença de imagens paternais e maternais é evidência que apoia a conclusão de McGrath. Deus transcende as categorias do gênero humano. Não obstante, em lugar nenhum a Bíblia chama Deus de “mãe”. Portanto o título “mãe” não deve ser próprio para se falar da pessoa de Deus. Podemos reconhecer a plenitude da riqueza das imagens bíblicas de Deus, sem ir além da linguagem que a própria Bíblia emprega ao descrevê-lo.

Nosso resumo mostra como a doutrina da paternidade é um elemento central da teologia cristã. Ela determina a natureza de nossa experiência de Deus. Sem ela, as demais doutrinas essenciais para nossa salvação não podem ser mantidas. A defesa desta doutrina é a afirmação da realidade da nossa experiência de intimidade com Deus. Assim, crescer cada vez mais no conhecimento pessoal de nosso Deus é a melhor maneira de refutar as doutrinas falsas. Como crentes em Jesus Cristo nos é revelado um Deus que é Pai, que nos ama. Não devemos nos contentar com nada menos do que isto.
________________

[1] Elisabeth Schüssler Fiorenza, Wisdom ways; introducing feminist biblical interpretation, p. 116-117.

[2] Para uma discussão da questão, com um resumo da literatura feminista, cf. J. Denny Weaver, The nonviolent atonement.

[3] Rita Nakashima Brock, “Pacific, Asian and North American Asian Women’s Theologies”. In: Rosemary Radford Ruether (org.), Feminist theologies; legacy and prospect, p. 50.

[4] Sexism and God Talk, p. 61.

[5] Teologia sistemática, histórica e filosófica, p. 315-316. Vale a pena ler toda a argumentação de McGrath nesta obra, com especial atenção para a citação final da mística medieval Juliana de Norwich.

Trecho extraído e adaptado da obra “Teologia sistemática: Uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual”, de Franklin Ferreira e Alan Myatt, publicada por Vida Nova: São Paulo, 2007, pp. 237, 248-249. Publicado com permissão.

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Fonte: Tu Porém

domingo, 9 de abril de 2017

O PERIGO DA JANELA


Por Pr. Silas Figueira

INTRODUÇÃO

Texto base: Atos 20.7-12 

O apóstolo Paulo chegou a Trôade depois de cinco dias de viagem vindo de Filipos; ali ele ficou uma semana (At 20.6). No primeiro dia da semana os crentes da cidade se reuniram para ouvir o apóstolo Paulo. John Sttot diz que provavelmente esta reunião começou ao pôr do sol, com o povo se congregando depois de um dia de trabalho [1].

A igreja estava reunida no domingo, pois esse dia, a partir da ressurreição de Jesus, passou a ser observado pela igreja e não o sábado como ensinam os adventistas. Não foi Constantino quem estabeleceu esse dia, mas sim a igreja desde o princípio. 

Esta reunião aconteceu em uma casa, provavelmente de algum dos crentes da igreja local. Como o navio em que os amigos de Paulo iria zarpar no outro dia, eles se reuniram na véspera para celebrarem a ceia do Senhor. Nessa reunião o apóstolo Paulo faz um longo discurso até a meia-noite. É no meio dessa reunião, por causa da extensão da pregação de Paulo e, talvez, também por causa do calor e do ar viciado produzido pelas muitas luzes das candeias, que o jovem Êutico cai no sono enquanto está sentado em uma janela do terceiro andar [2], na rua e morre. Paulo sai para a rua, pega o jovem, proclama que ele viva e, simplesmente, retorna ao terceiro andar, onde os cristãos partem o pão, e Paulo continua sua extensa pregação [3].

O texto em Atos 20.9 nos diz que Êutico era um jovem, mas quantos anos ele tinha? O termo grego neanias usado aqui se refere a um homem entre 24 e 40 anos. O termo paida, em Atos 20.12, é usado para uma criança ou adolescente. Então podemos concluir que Êutico “era um jovem de 8 a 14 anos de idade”[4].

O nome Êutico significa felizardo e literalmente ele foi um, pois morreu e voltou à vida.

Algumas lições que podemos aprender aqui:

A PRIMEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE A JANELA PODE SER UM LUGAR PERIGOSO PARA SE ESTAR.

Se existe algo que muitas pessoas gostam é de sentar-se à janela. No carro, no ônibus, no avião; ou seja, a janela é um lugar onde podemos observar as coisas de forma melhor, sem ter ninguém nos atrapalhando. No caso de Êutico, ele se sentou na janela e ela se tornou um lugar perigoso e de morte para ele. A janela pode ser um lugar perigoso por algumas razões.

Porque que a janela pode se tornar um lugar perigoso?

1º - Por que ela pode nos distrair. A janela nos tira a atenção das coisas que estão ocorrendo do lado de dentro. Começamos a prestar atenção para as coisas externas e nos esquecemos das coisas internas. A pessoa está dentro, mas com os olhos para as coisas de fora.

Há muitas pessoas distraídas dentro de nossas igrejas porque vivem olhando para fora da igreja. Ficam distraídas e acabam se esquecendo de prestar atenção no que é realmente importante o que está ocorrendo do lado de dentro da igreja.

Quando eu me refiro “Igreja” estou falando das coisas espirituais. Das coisas de Deus. De prestar atenção no que o Senhor está falando. No que o Senhor quer de nós.

Infelizmente há muitas pessoas totalmente dispersas em nosso meio. Gente que antes era comprometida, focada, tinha compromisso com as coisas do Senhor, mas hoje, de tanto olhar para fora, perderam o foco. 
  
2º - Por que ela pode nos levar à morte (At 20.9). Geralmente, quem cai da janela, cai para trás e não para frente. Foi o que aconteceu com Êutico. Ele caiu no sono e acabou despencando do terceiro andar e morreu com a queda.

Há hoje em dia muitas janelas que tem levado muitos crentes – jovens e velhos – para a queda e morte. Veja alguns exemplos:

Janelas da internet – Windows é janela em inglês e essa janela tem levado muitos crentes a olharem para fora da igreja, para as coisas que a Bíblia condena. Janelas que deveriam permanecer sem serem olhadas, mas que têm sido muito visitadas. Infelizmente tem muito crente sentado nessas janelas. Olhando para fora e se deliciando com o que vê. E isso tem gerado a queda e morte de muitos.

Mas há um outro perigo em relação a internet, é olharmos pela janela das novidades gospel. Tem muita gente observando e perdendo tempo com essas novidades que gera mais confusão que saúde espiritual. Um outro problema, é perdermos tempo com os "teólogos da internet"; gente que se conhecedora da Palavra de Deus, mas no entanto a destorce completamente. 

Recentemente eu vi um vídeo de um desses "doutores" que se dizia conhecedor do hebraico bíblico. E em um de seus estudos ele disse que Daniel era homossexual e que inclusive era amante do rei. E tem gente que dá ouvidos a esse tipo de gente e se arrebenta espiritualmente. 

Um outro "doutor" estava ridicularizando a ceia que realizamos em nossas igrejas, e assim por diante. Meu irmão e minha irmã cuidado com essas janelas, pois são extremamente perigosas. 

Janela do mundo. O mundo tem atraído muitas pessoas, principalmente os jovens. E há muitos deles completamente fascinado com ele. Mas a Bíblia nos avisa: “Não ameis o mundo, nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele” (1Jo 2.15). O mundo oferece morte e não vida. Desilusão e não esperança. Angústia e tristeza e não alegria no Senhor.

Isso me lembra da história de Diná que saiu para conhecer (fazer amizade) com as mulheres daquela terra e foi violentada (Gn 34.1,2). 

Lembre-se que a Igreja tem três inimigos terríveis: o mundo, a carne e o diabo. Com esses três não se brinca, mas todo cuidado é pouco. Diná foi dar uma volta no mundo e voltou para casa desonrada. 

Janela do sono do descaso. Êutico dormiu um sono profundo e caiu do terceiro andar e morreu. Há muitas pessoas dentro de nossas igrejas dormindo o sono do descaso com as coisas espirituais. Estão dormindo o sono da falda de compromisso. O sono da morte.

O apóstolo Paulo escrevendo aos Efésios nos diz: “Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará” (Ef 2.15).

Davi ficou olhando para a janela de Bete-Seba e caiu. Mesmo depois de ser avisado quem era aquela mulher, de que ela era casada, ele a chamou e se deitou com ela. Ele estava dormindo o sono do descaso. Por isso não deu ouvidos ao que lhe falaram e colheu frutos amargos desse ato impensado. 

Quem está dormindo esse sono profundo está correndo o risco de cair a qualquer momento e não se dá conta disso, pois está dormindo o sono do descaso. Veja por exemplo Sansão que dormiu no colo de Dalila depois de lhe contar o segredo de sua força (Jz 16.18-21). Quando acordou estava sem cabelo, sem força e se tornou preza fácil de seus inimigos. 

SEGUNDA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE DEVEMOS TOMAR CUIDADO COM A JANELA.

Como vimos, a janela nos faz distrair e nos leva à morte. Por isso devemos ter muito cuidado com ela. Quantas pessoas estão sentadas “na janela” em nossas igrejas. Quando vermos alguém sentado nela nós devemos observá-las com muito cuidado e avisá-las do perigo que estão correndo. Não podemos nos calar, fingir que nada irá acontecer. Por ser um lugar perigoso, devemos nos preocupar com quem está sentado ali.

1º - Devemos avisar as pessoas para não se sentarem na janela. O Senhor nos chamou para sermos suas atalaias (Atalaia é um termo de origem árabe e significa torre de observação. Designa qualquer lugar mais elevado ou ponto alto de onde se vigia. O termo também designa a pessoa que está encarregada de vigiar determinada área. Neste caso, é sinônimo de sentinela ou vigia). Veja o sentido bíblico desta palavra:

“A ti, pois, ó filho do homem, te constituí por atalaia sobre a casa de Israel; tu, pois, ouvirás a palavra da minha boca e lhe darás aviso da minha parte. Se eu disser ao perverso: Ó perverso, certamente, morrerás; e tu não falares, para avisar o perverso do seu caminho, morrerá esse perverso na sua iniquidade, mas o seu sangue eu o demandarei de ti. Mas, se falares ao perverso, para o avisar do seu caminho, para que dele se converta, e ele não se converter do seu caminho, morrerá ele na sua iniquidade, mas tu livraste a tua alma” (Ez 33.7-9).

Atalaia é alguém usado por Deus para levar a palavra de salvação aos que estão a caminho da morte espiritual.

2º - Ás pessoas que estão na janela dormindo nós devemos tentar despertá-las do sono. Acordar uma pessoa que está sentada na janela pode ser perigoso, pois ela pode se assustar e cair. Na vida espiritual é a mesma coisa, mas nem por isso devemos deixar pra lá. Pelo contrário, devemos tentar despertar essa pessoa e lhe mostrar o perigo que corre antes que caia. 
  
Depois que cair pode ser tarde demais, por isso nós somos responsáveis por essas pessoas. Entenda, nós somos responsáveis pela vida do nosso irmão. Se estamos vendo que ele está em perigo cabe a cada um de nós avisá-lo. Se ele irá nos ouvir e sair da "janela" aí é outra coisa; mas não podemos é nos calar diante de tais circunstâncias. 

A TERCEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE DEVEMOS SOCORRER AOS QUE CAEM DA JANELA (At 20.10,11).

Se existe um ministério que faz muita falta na igreja é o "ministério de Barnabé". Todo mundo quer ser um Paulo, mas são poucos que querem ser um Barnabé. Muitos livros já foram escritos a respeito de Paulo, mas eu não me lembro de ter ligo algum sobre Barnabé.

Saiba de uma coisa: se existiu um Paulo é porque existiu um Barnabé. Enquanto todos duvidaram da conversão de Saulo de Tarso, Barnabé acreditou e lhe estendeu a mão o ajudando. Se existe o Evangelho de Marcos hoje é porque Barnabé brigou com Paulo e lutou pela vida espiritual e emocional de João Marcos. Barnabé é sinônimo de gente que vê como Deus vê por isso investe em vidas. Barnabé é um exemplo de dedicação e fé. Devemos buscar de Deus esse mesmo coração para podermos ser úteis na igreja socorrendo os que caem da "janela". 

Através do ministério de Barnabé e da atitude de Paulo em relação a esse jovem que cai da janela eu entende que as pessoas não são descartáveis. Devemos sim nos preocuparmos com elas e, acima de tudo, buscá-las onde estiverem. Não podemos fazer como a música popular de João Bosco: De Frente Pro Crime; que diz assim: 

Tá lá o corpo
Estendido no chão
Em vez de rosto uma foto
De um gol
Em vez de reza
Uma praga de alguém
E um silêncio
Servindo de amém...

O bar mais perto
Depressa lotou
Malandro junto
Com trabalhador
Um homem subiu
Na mesa do bar
E fez discurso
Prá vereador...

Veio o camelô
Vender!
Anel, cordão
Perfume barato
Baiana
Prá fazer
Pastel
E um bom churrasco
De gato
Quatro horas da manhã
Baixou o santo
Na porta bandeira
E a moçada resolveu
Parar, e então...

Tá lá o corpo
Estendido no chão
Em vez de rosto uma foto
De um gol
Em vez de reza
Uma praga de alguém
E um silêncio
Servindo de amém...

Sem pressa foi cada um
Pro seu lado
Pensando numa mulher
Ou no time
Olhei o corpo no chão
E fechei
Minha janela

De frente pro crime...

As pessoas não são descartáveis, e muito menos a morte de alguém deve servir de pretexto para para se beneficiar, embora haja muitas pessoas se beneficiando da desgraça alheia. Mas isso não foi o que Paulo fez.

Aconteceu algo que não devia ter acontecido, a queda de um jovem. Olhando para esse ocorrido nós aprendemos quatro coisas importantes:

1º - Se alguém cair não podemos fazer de conta que nada aconteceu, muito pelo contrário, devemos buscar o caído e procurar socorrê-lo. Foi isso que Paulo fez imediatamente. Ele parou o sermão e foi socorrer o jovem que havia despencado da janela.

Alguém uma vez falou que a igreja é o único exército que quando cai um soldado ferido o deixa à sua própria sorte. Misericórdia irmãos! Que este não seja o nosso caso, pelo contrário, que possamos buscar o caído e fazer de tudo para tentar restaurá-lo.

2º - Devemos interromper por um momento nossa vida interior em favor do ferido. Foi isso que a igreja fez, parou por um momento o culto para socorrer o jovem morto.

Com isso aprendo que há coisas mais importantes que as nossas reuniões, que é prestar auxílio ao ferido. Muitas vezes as nossas atividades não passam ativismo e por causa desse ativismo deixamos de lado quem precisa de socorro. Vida é mais importante que reunião.

3º - Devemos tomar cuidado para não deixarmos de fazer o que é importante (At 20.11). Explico. Quando Paulo desce até onde Êutico está e ora e ele ressuscita, imediatamente eles voltaram para o culto e Paulo pregou até de manhã.

Devemos tomar cuidado para não deixamos de cultuar a Deus e vivermos corendo atrás de mortos. De gente que não quer compromisso com Deus. De gente que quer ser paparicada, mas não quer deixar a vida de pecado. Gente que não quer ressuscitar.

Isso é muito sério, pois o que mais vemos por aí são pessoas assim. Por isso não podemos de deixar de lado o que na verdade é apenas um intervalo em meio a algo mais importante [5].

Paulo e os cristãos retornam e continuam sua adoração. O milagre da ressurreição de Êutico, sem dúvida, causa-lhes grande conforto (v. 12), mas não é motivo para se vangloriar nem para abandonar a adoração de Deus e sair às ruas gritando e anunciando o grande milagre que Deus realizou. Por quê? Certamente, não porque o milagre é pequeno, mas, antes, por haver um milagre maior: a própria vida da igreja e a presença de Deus em sua vida comum e no partir do pão. Não é que eles não percebam o milagre da ressurreição de Êutico; antes, é que estão ouvindo a Palavra de Deus, e a atividade dessa palavra é mais milagrosa, mais poderosa, mais surpreendente, mais inspiradora, que a ressurreição de uma pessoa [6].
  
4º - Devemos deixar de vez a janela. Se a janela é um lugar que já te prejudicou saia de perto dela; se você já viu alguém cair dela preste atenção para não acontecer o mesmo com você, ou seja, não sente nela.

CONCLUSÃO 

Este é um assunto extremamente importante para todos nós, pois existem muitas janelas em nossas vidas que precisam ser fechadas. Como vimos, a janela é sinônimo de falta de compromisso, de descaso, de distração. Com isso devemos tomar muito cuidado para não sermos surpreendidos com o sono e pior ainda, com a queda.

Tome cuidado com as janelas, pois elas existem e tem atraído muitas pessoas e o resultado tem sido desastroso. Por isso cuidado!

Pense nisso!

Fonte:  
      
1 – Sttot, John. A Mensagem de Atos – Até os confins da terra. ABU Editora, São Paulo, SP, 2ª Edição 2010: p. 361.
2 – Gonzáles, Justo L. Atos, O Evangelho do Espírito Santo. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2014: p. 280.
3 – Ibid; p. 280.
4 – Wiersbe, Warren W. Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Editora Geográfica, Santo André, SP, 2012: p. 629.
5 – Gonzáles, Justo L. Atos, O Evangelho do Espírito Santo. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2014: p. 281. 
6 – Ibid; p. 282.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Autofilia


Por Jorge Fernandes Isah

Tornou-se comum entre os crentes frases do tipo: “Não olhe para mim, olhe para Jesus”. Mas seria ela e suas corruptelas uma verdade? Digamos que… parcialmente, pois contém apenas uma fração da verdade.

Devemos olhar sempre para o nosso Senhor, pois é Ele quem nos dirigirá, revelando-nos, segundo a Escritura, a Sua vontade [para nós e nossos semelhantes] como Aquele que é o autor e consumador da nossa fé [Hb 12.2]. Contudo, isso não quer dizer que não devamos olhar para os homens, nem aprender com seus exemplos, seja imitando o que fazem de bom, e rejeitando prontamente seus erros, não incorrendo neles, tudo segundo e sob a luz das Escrituras Sagradas.

Muitos se utilizam daquela frase com o nítido intuito de justificar seus erros; alguns até mesmo para encobri-los, quando devíamos seguir o exemplo de Paulo: “Admoesto-vos, portanto, a que sejais meus imitadores” [1Co 4.16].

Estaria o apóstolo tão cheio de si mesmo que proclamaria uma blasfêmia? Comparar-se a Cristo? Estaria envolvido pela vaidade e o orgulho a ponto de afirmar a necessidade dos coríntios serem como ele? Qual o fundamento de Paulo para tal afirmação? Não estaria o homem louco e dominado pela auto-exaltação?

Vejamos algumas características do apóstolo:

1) Paulo estava crucificado com Cristo [Rm 6.6, Gl 2.20a].

2) Paulo tinha a mente de Cristo [1Co 2.16].

3) Paulo tinha o Espírito de Cristo [Rm 8.9].

4) Paulo era imitador de Cristo [1Co 11.1].

No mundo atual, todos se querem originais, mas são exatamente os que se dizem originais que descambam para as esparrelas do diabo, os velhos ardis com que sempre os pegou; na pretensão de serem, digamos, únicos, singulares, acabam por repetir vulgarmente o que tornou satanás em pai da mentira e homicida desde o princípio, o qual “não se firmou na verdade, porque não há verdade nele” [Jo 8.44].

A mesma originalidade que fez Adão e Eva cairem; Caim matar seu irmão Abel; os homens contruírem a Torre de Babel; desprezarem os alertas de Nóe quanto ao julgamento divino; matar os profetas que proclamavam a Palavra de Deus; convencer Davi a assassinar covardemente um soldado a fim de adulterar com sua esposa; a crucificar Cristo; perseguir a igreja e matar os santos; implementar heresias, corrupções e formatar os antievangelhos com o nítido objetivo de dispersar o rebanho do Senhor, como se fosse possível espalhar aquilo que Cristo juntou pelo poder do Seu sangue na cruz [At 20.29].

Paulo não se envergonhava de ser como Cristo, pelo contrário, ele desejava ardentemente sê-lo, “esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”[Fl 3.13-14]. E o alvo era viver para e pelo Evangelho, o qual chamou apropriadamente de “meu evangelho” [Rm 2.16]. 

Novamente, parece que o apóstolo está envolto em soberba e arrogância, buscando uma autopromoção, porém, creio que para cada um de nós, os crucificados com Cristo, o Evangelho é nosso também, pois por ele fomos salvos, vivemos e seremos glorificados eternamente.

Antes de jactar-se em si mesmo, Paulo estava a glorificar Cristo, arraigado ao desejo de se parecer e ser semelhante ao seu Senhor. Ao invés de orgulho e vaidade, temos submissão e obediência, ao ponto de o termo “imitador”, algo tão desprezível em nossos dias, ser apontado por Paulo como uma virtude, uma qualidade dos que estão em Cristo, e são guiados por Ele.

Então, quando o apóstolo exorta a igreja a imitá-lo, o faz pelo privilégio de pertencer a Deus, mas não somente por isso, mas porque vivia não mais ele, mas Cristo nele; e a vida vivida na carne, vivia-a pela fé do Filho de Deus, o qual o amou, e se entregou a si mesmo por ele [Gl 2.20b]. O apóstolo tinha o legítimo direito de admoestar os crentes a serem seus imitadores, assim como ele era de Deus, pelo amor com que Cristo o amou em oferta e sacríficio a Deus [Ef 5.1-2].

E nós? Podemos pedir para que os irmãos nos imitem assim como imitamos Cristo? Ou nossa consciência nos diz para eles não fazerem isso? Por quê? Não será que nos esquecemos de seguir o exemplo de Paulo e imitar o Senhor? Ou estamos preocupados demais em imitarmos a nós mesmos, em nossas mentiras, orgulhos, vaidades, pretensões e objetivos nitidamente antibíblicos?

Se Paulo não vivesse a verdade seria facilmente confrontado. Não teria a autoridade apostólica reconhecida. Nem teria suas epístolas citadas por Pedro como parte das Escrituras. Se Paulo tivesse uma falsa vida cristã seria rejeitado pela igreja, a mesma igreja que o acolheu e reconheceu a regeneração operada pelo Espírito Santo naquele que antes a perseguia.

Na verdade, quando alguém afirma: “Não olhe para mim, olhe para Cristo”, está rejeitando em seu coração o próprio Evangelho; está se colocando vergonhosamente como alguém que não precisa seguir exemplos, e nem mesmo pode ser um; que se considera autosuficiente em si mesmo, e pode recusar qualquer conselho, exortação ou ensinamento, pois não se deve olhar para mais ninguém; e nisso, muitos acabam erroneamente por segui-lo… Contudo, Deus é um desconhecido para essa espécie de crente, o que nos levará inevitalmente à seguinte pergunta: como esse “super-homem” pode olhar exclusivamente para o Senhor, conhece-lO e a Sua vontade, se não se enquadra nas características de Paulo?

Ele:

1) Não está crucificado com Cristo.

2) Não tem a mente de Cristo.

3) Não tem o Espírito de Cristo.

4) Não é um imitador de Cristo.

É possível?

Como está escrito: “haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos… Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te” [2Tm 3.1-2,5].

Assim se constrói uma mentira, a de que não devemos seguir os homens, nem ouvi-los, nem lê-los, nem espelharmos naquilo que de bíblico fazem. Ao contrário dos irmãos de Beréia que ouviam Paulo atentamente, mas confirmavam se tudo o que dizia estava nas Escrituras, a maioria está mais preocupada em viver uma vida à margem da Bíblia. Como bandoleiros e usurpadores da palavra; como se o testemunho cristão fosse algo irrelevante, descartável, inalcansável. E, nisso, tentam fazer de Deus mentiroso, para a própria condenação.

É uma via de mão-dupla:

1) Não se segue ninguém, porque assim pode-se viver a vida que quiser, à revelia da Escritura, sem que nada ou alguém o leve a imitar Cristo;

2) E não se corre o risco de ser imitado, e assim não é necessário aprimorar-se na palavra e no conhecimento de Deus. Pode-se ser o que sempre foi sem medo de ser importunado.

Sendo ainda possível:

1) Se considerarem em tão grande conta no seu orgulho que desprezam a igreja. Dizem: “Ela não é perfeita… ninguém é perfeito… então, por que devo olhar para os homens?“

Esquecem-se de que a igreja julgará o mundo juntamente com o Senhor, e de que, se não olharmos para ela, com seus erros e acertos, sendo capazes de apreender o bem e rejeitar o mal, não haverá purificação, porque Deus utilizará exatamente os meios humanos para torná-la santa e perfeita. De tal maneira que a multiforme sabedoria divina seja agora conhecida dos principados e potestades nos céus, através da igreja, “segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” [Ef. 3.10-11].

A falácia do não seguir os homens está em acordo com o individualismo, o egoísmo e o humanismo que têm permeado a igreja nos últimos tempos. Já imaginou se os discípulos do Senhor tivessem esse pensamento, visto ser Jesus homem (sem se esquecer da sua deidade)? Já imaginou se os discípulos, pelo fato dEle ser também humano, desprezassem seus ensinamentos e mandamentos? E como a igreja se iniciaria, progrediria, sendo pastoreada por homens simples e incultos como Pedro, Tiago e João? Mas, que tinham a sabedoria que vinha do céu? Haveria uma Igreja de Cristo? Haveria proclamação do Evangelho? Haveria salvação? Santificação? E Cristo teria um corpo? E o Noivo, a Noiva?

O Evangelho foi pregado por homens divinamente inspirados e guiados. Hoje, o Evangelho progride por homens igualmente inspirados e guiados pelo Espírito Santo. Assim como devemos orar e clamar a Deus para que Ele nos capacite e aperfeiçoe ao ponto em que outros sentirão o desejo de nos imitar. Não para a nossa glória pessoal, mas para a glória de Deus, que a cada dia nos faz mais semelhantes ao Seu Filho Amado, Jesus Cristo. Se você não crê nisto, a sua fé está posta em outro deus, não no Deus Vivo e Todo-Poderoso.

Não seguir os homens naquilo em que são bíblicos, fará seguir os que não são bíblicos. E esta não é a vontade de Deus, mas somente outra forma do maligno aprisioná-lo.

Nota: Autofilia = estima exagerada por si próprio; egolatria (Do gr. autós, «próprio» +philía, «amor; amizade»)

Fonte: NAPEC