
Por Maurício Zágari
Cada
civilização contém conceitos que são considerados as maiores virtudes
entre as pessoas que a formam. Na Grécia antiga, por exemplo, o poder de
argumentação era tão valorizado que existiam escolas voltadas
especificamente para ensinar a debater. Em certas tribos aborígenes,
trair alguém antes de matá-la dava status, como revela o livro O totem da paz.
Também não são poucas as sociedades ao longo da História em que os mais
fortes fisicamente são e foram os mais louvados. A espiritualidade e a
obediência ao Alcorão são bem vistas em culturas islâmicas. Em certas
sociedades orientais, a honra era vista como o valor principal de um
homem. E na nossa? O que dá destaque a um indivíduo na cultura ocidental
do século 21, em que eu e você estamos imersos? Basicamente o que chamo
de “os três F”: fama, fortuna e físico. Quer ser o maior entre os seus
semelhantes no Brasil de hoje? Então seja famoso: destaque-se, apareça
mais que os outros, seja venerado, que muitos olhos se voltem para você.
Ou então ganhe muito dinheiro, ostente carros caríssimos, more numa
mansão, demonstre como você é bem-sucedido financeiramente. Por fim,
tenha um aspecto físico invejável, seja por uma beleza natural ou por
recursos como malhação, cirurgias plásticas, implante de silicone,
botox, cabelos bem cortados – ou ainda, por roupas e sapatos caríssimos e
da grife que está na moda. Pronto. Você será visto com destaque,
valorizado, bajulado, invejado, amado. Mas… e no Reino de Deus? O que
destaca alguém? Acredite: o exato oposto daquilo que dá destaque a um
indivíduo na cultura ocidental do século 21:
Humildade.
O pecado de Satanás foi a arrogância.
Ele quis ser mais do que era. Deu no que deu. Podemos contrastar sua
atitude com a do grande profeta João Batista, sobre quem o próprio Jesus
disse: “Eu lhes digo que entre os que nasceram de mulher não há ninguém maior do que João” (Lc 7.28). Sendo João isso tudo, ele mesmo afirmou: “Depois
de mim vem alguém mais poderoso do que eu, tanto que não sou digno nem
de curvar-me e desamarrar as correias das suas sandálias” (Mc 1.7).
João sabia quem era. Mas, mesmo sendo o maior de todos os que haviam
nascido em toda a história da humanidade, ele conhecia seu lugar. Sabia
que era pó. Que exemplo para todos nós…
Nossa civilização nos condicionou a
querer sempre um lugar de destaque. Um emprego que nos projete. Títulos.
Nosso nome escrito em letras de neon. Elogios. Um ego muito bem nutrido
por palavras que mostrem como nós somos grandiosos. Mas o que Jesus
ensina contraria de frente essa mentalidade: “Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança. (Mt 5.5). Que diferença! E a afirmação que não deixa dúvida alguma (peço que você leia essas palavras de Jesus com muita atenção): “Quem se faz humilde como esta criança, este é o maior no Reino dos céus” (Mt 18.4). Humildade na terra, grandeza no Céu. Diminuir para crescer.

Permita-me perguntar: qual foi a última vez que você seguiu esse exemplo e “lavou os pés” de alguém menor do que você?

Já parou para pensar por que os cristãos
são tão fascinados por escândalos? Já parou para pensar por que amamos
falar sobre aquele pastor famoso que caiu em adultério? Já parou para
pensar por que comentamos salivando que a cantora gospel famosa rastejou
no palco? Já parou para pensar por que temos um prazer indizível em
comentar o último pecado que fulano cometeu? Em suma, já parou para
pensar por que temos o prazer sádico de tricotar entre nós quando algum
outro cristão incorre em desgraça?
Porque isso faz com que nós nos sintamos superiores.
Pura e simplesmente isso. É um
sentimento mesquinho que, até inconscientemente, nos faz pensar “não sou
tão mau assim, afinal fulano é um tremendo pecador, muito mais do que
eu, que vivo tão corretamente”. É por isso que a maioria prefere
segregar o pecador e não lhe dar um único telefonema para saber como ele
está em vez de se aproximar, amar, dar ombro, dar afeto, ajudar em sua
restauração: porque gostamos demais de nós mesmos para gostarmos dos
outros.

Quando o outro peca isso faz dele
inferior aos olhos dos cristãos. Portanto, um pecado que tornou alguém
um escândalo faz com que eu, que também peco todos os dias mas não virei
escândalo, me sinta melhor, mais feliz comigo mesmo. Superior. Maior.
Sinto orgulho de mim mesmo, essa é a grande verdade. No entanto, as
palavras de Paulo atravessam nosso sentimento de superioridade como uma
espada afiada: “Se devo me orgulhar, que seja nas coisas que mostram a minha fraqueza” (2 Co 11.30).

Prefiro ficar com Paulo, que em Romanos 7.18 confessa com uma humildade que não encontramos em quase ninguém em nossos dias:
“Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne. Porque
tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo”.
Não é à toa que Paulo foi Paulo. Pois, talvez lembrado pelo espinho na
carne, reconhecia que só a graça lhe bastava e que só a graça fazia dele
um vaso de barro com a excelência do fôlego de vida em si.

Sou um pecador, mas se puder fazer algo por você, meu irmão pecador, minha irmã pecadora, tentarei. E não te desprezarei pelo fato de que você pecou um pecado diferente do meu e que ingenuamente considero pior. Pois… quem sou eu? “Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos” (Tg 2.10). Quem sou eu…
Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício.
Maurício.
Fonte: Apenas
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