terça-feira, 5 de julho de 2011

A ideologia da ostentação: “se eu tenho status, riqueza ou beleza, eu sou alguém”


Por Tharsis Kedsonni

O mundo de hoje vive de aparência e de níveis exorbitantes de desigualdade. Chega a ser cômico notar muita gente cantar os belos (e utópicos) versos “somos corpos e assim bem ajustados, totalmente ligados, unidos, vivendo em amor [...] uma família sem qualquer falsidade”. Tais versos viraram símbolo da grande hipocrisia presente em muitos cristãos nos últimos tempos.

Hoje em dia, vamos à igreja e, às vezes, questionamos se, de fato, estamos numa ajuntamento de irmãos. Os abraços, saudações e sorrisos maquiam o falso olhar, a palavra depreciadora, o sentimento de desprezo e o pensamento julgador usados por quem tem status, alto poder aquisitivo ou uma aparência agradável contra os ‘normais’. Posso até fazer uma análise de cada um destes pontos.

Status

Político no Brasil tem um diferencial quando o assunto é julgamento de crimes: a imunidade parlamentar. Para muitos, o diferencial é ser alguém. Ser filho de alguém, como se o poder e a influência fossem hereditários, tem tornado muitas pessoas arrogantes. É assim que os possuidores de status julgam. Há casos, por exemplo, de algumas famílias que listam esse item como pré-requisito na hora de escolher os pares para os filhos.

Não menos absurdo é ver estes filhos agirem da mesma forma, olhando para o status antes de olhar para o caráter. O incrível também é ver que basta alguém subir na vida, virar alguém com muito suor e muito sacrifício, e logo aparecem as ‘hienas’ ferozes querendo se alimentar do bem-bom dos prestigiados.

Tenho visto a história de muita gente que não tinha nada, e hoje é honrada por Deus pela fidelidade a Ele. Mas alguns, querendo se aproveitar desses servos de Deus, se aproximam deles, fazem amizades, agem como garçons e congraçam-se com os tais. A pergunta é: se estes irmãos agraciados por Deus com novas posições não tivesse tal status, a quantidade e o apreço de gente cercando seriam a mesma coisa?

O mais horrível mesmo é ver gente grande querendo ser “mais grande” através do status, abusando de sua condição e pisando nos seus diferentes. Se o próprio Jesus desconsertou os seus discípulos que disputavam posição entre si dizendo que o maior deveria ser o menor, por que os possuidores de status hoje, em vez de darem glória a Deus pela posição, têm que se achar acima dos demais?

A igreja não é um ajuntamento de poderosos, muito menos uma capitania hereditária de honrarias. Se o próprio Deus não faz acepção de pessoas, por que nós, meros humanos, temos que privilegiar um em detrimento de outro qualquer? Mas para muitos, o status vale mais na ideologia da ostentação. Eles batem no peito e berram: “eu tenho status, eu sou alguém”.

Riqueza

As melhores grifes, os melhores carros, as melhores bolsas, os melhores paletós, os maiores cargos, enfim, transformam as pessoas normais em pessoas melhores. É assim que pensam os possuidores de riquezas. Para muitos, o diferencial é ter algo. Claro que isso ocorre na sociedade em geral. Mas é inaceitável num lugar onde todos cantam que são “um corpo, e assim bem ajustados” (Veja que eu vou falar dos crentes ricos, e não dos abençoados. Isso eu explico na sequência).

Os crentes ricos de hoje nem de longe se parecem com a igreja primitiva nesse quesito. Quem tem carrão não para para falar com quem anda de bicicleta. Quem tem as melhores roupas não saúda quem está mal vestido. Pode causar mal estar entre os seus compadres ricos.

Assim como no caso do status, há famílias que também olham para o poder aquisitivo dos filhos alheios, e esse item pesa bem mais do que status ou beleza. Não importa quem seja, desde que tenha algo para oferecer, será tratado como um grande. Um exemplo bem aleatório: quem chega às 16h para conseguir um bom lugar num grande e concorrido evento evangélico que vai começar três horas depois, fica revoltado quando ver algum abastado chegar tempos antes de iniciar os trabalhos e tomar o seu lugar pelo simples fato de ser o tal ‘alguém’.

É lógico que não podemos crucificar todo mundo que tem dinheiro. Eis o porquê de eu chamar os citados aqui de ricos, e não de abençoados. Estes ricos são aqueles sobre os quais Paulo falou:"Manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus, que abundantemente nos dá todas as coisas para delas gozarmos" (I Tm 6.17). Infelizmente, está cheio de gente desse tipo dentro da igreja.

E não são poucos os que acham que suas riquezas os tornam melhores que os demais. E muitos também são os que, se rebaixando a súdito e séquito, tratam tais ricos como se fossem subdeuses. Para ambos, a riqueza vale mais na ideologia da ostentação. Eles batem no peito: “eu tenho riqueza, eu sou alguém”.

Beleza

Chega a ser hipocrisia ver certas pessoas farisaicas se alegrando com a história da consagração de Davi como rei. Mas muita gente também tem a “síndrome da aparência” que afetou o profeta Samuel. Lembram? Bastou o profeta ver os irmãos de Davi, com uma impressionante forma física e uma aparência aceitável, que o coração gritou “é este!”.

É a mesma coisa que acontece hoje. Para muitos, o diferencial é ter aparência. Se é pra escolher alguém para se apresentar em público, é necessário optar um entre os mais belos. O requisito da beleza influencia nas escolhas da sociedade. Em algumas repartições, não é a competência ou o profissionalismo que importam, mas sim a aparência.

Na igreja, alguns chegam a fazer a mesma coisa. Mesmo que a vida cristã não seja a mais reta esperada, só em ter algo aparentemente vistoso é o suficiente para agradar a uns e a outros não. Tem alguns que chegam ao ápice da discriminação e do preconceito ao escolher suas companhias ou seus namorados pela beleza apenas (são os que dizem, “ele/a é crente, direito/a, mas não é bonito/a”). Outros se aproveitam da boniteza que Deus deu para suplantar os demais não tão bonitos.

Fico pensando que Samuel pensou que Deus iria escolher um soldado forte e bonitão para governar Israel. Da mesma forma, penso que os interesseiros imaginam que só os bonitos são os que o Senhor escolhe para fazer Sua vontade. Ledo engano. Deus fala para os tais o mesmo que falou a Samuel: “Não atentes para a sua aparência, nem para a grandeza da sua estatura, porque o tenho rejeitado; porque o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração” (I Sm 16.7).

Infelizmente, a “síndrome da aparência” contamina muitos corações de alguns crentes dentro da Igreja. São os que acham que a beleza vale mais na ideologia da ostentação. Eles batem no peito: “eu tenho beleza, eu sou alguém”.

Do que adianta?

Veja como é perfeito este versículo: “[...] porque não há no SENHOR nosso Deus iniquidade nem acepção de pessoas, nem aceitação de suborno” (II Cr 19.7b). Deus não olha para aparência, não dá vantagens a quem tem status e não valoriza mais quem tem dinheiro. Alguns crentes ricos, influentes e/ou bonitos acham que, por se considerarem uma casta superior, não têm que estar “perdendo tempo” com quem não tem posição, afeição ou condição de se coadunar com eles.

Sabe o que é pior? Você sempre conhece alguém que está enquadrado nestes pontos supracitados. E mais: gente desse tipo sempre continuará existindo, até mesmo dentro da igreja, no meio dos crentes. Mas graças a Deus que no céu não tem divisão de classes.Deus, na sua natureza, não tem prediletos nem trata A melhor que B, C ou o restante do alfabeto.

E olhe que eu nem falei dos que se acham mais santos ou mais dignos. Eu citei apenas coisas terrenas, passageiras. Coisas vãs. Coisas da ideologia da sustentação.

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