Por Magno Paganelli
Já faz um tempo que tenho refletido sobre a questão do
ateísmo. Claro, todos pensamos nisso em algum momento. Como pode alguém “chegar
à conclusão” de que não há Deus? (Sl 42.3,10) Isso, sim, é que não existe, ou
seja, a conclusão de que Ele não existe. Até Antony Flew, um dos pais do
moderno “ateísmo”, concluiu, pouco antes de sua morte, que a pesquisa sobre o
DNA “mostrou, em vista da complexidade quase inacreditável dos arranjos
necessários para a produção de vida, que inteligência foi envolvida no processo”
(Um ateu garante: Deus existe, Ediouro, ênfase acrescentada). E como ele,
sabemos de muitos outros “ex-ateus” que à beira do precipício, renderam-se.
Mas a minha descrença no ateísmo não parte da religiosidade
inata – nos humanos também. Não parte das minhas reflexões e racionalizações.
Já publiquei um livro que lida com a questão “religião versus” ou “religião
& ciência” (Ciência e Fatos Bíblicos, Dynamus, 2ª ed., 2004), onde
demonstro as leis, os fatos e as descobertas da própria ciência que atestam,
com as ferramentas da ciência, a veracidade do relato bíblico. Ditos ateus e
religiosos, ambos têm fortes argumentos “irrefutáveis” em causa própria.
Mas o caso não é esse, já que a questão não são os fatos e
as narrativas primordialmente, mas o próprio Deus. O dito ateu não deve ter
dificuldade em crer no Jesus histórico, ou no movimento dos hebreus rumo à
palestina, nem na existência da arca da aliança. O dito ateu é aquele que não
crê na existência de Deus, mas pode admitir que relatos bíblicos são
verificáveis. Do contrário, seria irracionalidade sua, pois a Bíblia lida com
lugares, nomes, posições geográficas, datas históricas, além da documentação
arqueológica, histórica, linguística, antropológica e muitas outras. Há ditos
ateus escavando sítios arqueológicos orientados pelos relatos das Escrituras
judaico cristãs. Ponto.
A questão do ateísmo é outra. Ele refuta a existência de
Deus. Mas não há provas daexistência de Deus, como igualmente não há provas da
sua inexistência! Todo dito ateu que seja razoável concorda aqui como nós
religiosos também. Verificam-se, então, as evidências. A discussão toda se
mantém no campo das evidências e na refutação das mesmas, de ambos os lados.
Uma campanha da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos
(ATEA), que seria veiculada em ônibus de Porto Alegre e Salvador – e que foi
suspensa – traria a discussão para o campo errado. Os cartazes continham frases
como “Religião não define caráter” e “A fé não dá respostas. Ela só impede
perguntas”. Note que as próprias frases não são um ataque a Deus e sua
existência, mas claramente uma manifestação preconceituosa e discriminatória
contra a religião e a fé. Essa campanha existe em países da Europa, como
Inglaterra e Espanha, e também nos Estados Unidos.
As frases, a meu ver, são medíocres, não têm sentido lógico.
Do ponto de vista dito ateu, ou mesmo da perspectiva científica, não são
passíveis de comprovação. Do ponto de vista teológico elas são uma farsa.
Religião não define caráter, mas Deus define; e mais, a féfaz perguntas, sim,
por um sujeito com o qual dialoga por meio de sua Palavra. Qualquer cristão com
conhecimento básico em teologia poderia refutá-las.
Além do mais, as frases demonstrariam, caso viessem à
público, um imperdoável desconhecimento da história. Dizer que Johannes Kepler
não fazia perguntas porque tinha fé! Foi ele quem disse que o cientista que
estuda a natureza “está pensando os pensamentos de Deus depois dele”. Blaise
Pascal não fazia perguntas porque tinha fé! Ele afirmou que “a fé nos diz o que
os sentidos não percebem, mas em contradizer suas percepções. Ela apenas
transcende, sem contradizer”. E Isaac Newton? Sobre a incredulidade, saiu-se
com essa: “O ateísmo é completamente sem sentido. Quando olho para o sistema
solar, vejo a terra na distância correta do sol para receber a quantidade de
luz e calor apropriadas. Isso não aconteceu por acaso.” Sorte dos ditos ateus
que a campanha foi rejeitada a tempo.
Então, não preciso discorrer sobre o conteúdo das frases,
mas quero evocar o texto de Eclesiastes, que diz: “Também pôs no coração do
homem o anseio pela eternidade...” (Ec 3.11). Esse texto da versão NVI traz
“eternidade”, tradução de um termo hebraico que significa “para sempre”.
Algumas versões trazem “mundo”, mas literalmente a tradução é “para sempre”. O
texto diz que há, inato no ser humano, o desejo, o anseio, a vocação para o
tempo futuro, eterno, para sempre.
O homem é um ser que vive o presente, movido pelas
experiências do passado procurando resolver os enigmas do futuro. Sempre foi
assim. Nossa preocupação tem sido o amanhã. A ansiedade, patologia que afeta a
milhões no mundo, resulta incerteza sobre o amanhã, sobre o futuro. O passado,
tendo sido bom ou mal, influencia as nossas decisões hoje, quando procuramos a
melhoria nas próximas ações e decisões a serem tomadas – no futuro. O homem é
um ser voltado para o futuro. Assim, negar a existência de Deus pode ser
reflexo de um trauma ou frustração passada que desemboca em uma rejeição e
negação do futuro e de tudo o que ele reserva. E, se o futuro é estar com Deus
(ou separado dele), o reflexo do passado implica na rejeição de qualquer
compromisso com o “estar com Ele” (ou “para sempre” separado dele).
Sartre, Camus e outros ateístas humanistas ensinavam que
somos fruto do acaso, diziam que a humanidade foi empurrada para dentro da
existência sem qualquer conhecimento de suas origens: empurrados por quem?
Diziam viver a tragédia humana, oabsurdo, e que o suicídio como solução final
era a questão a ser considerada. Assim, penso, o suicídio para eles e seus
seguidores era uma tentativa de rompimento com um futuro admitidamente “sem
Deus”, uma manobra para driblar Deus vindo ao seu encontro no futuro. Era um
atalho para não entrar no Caminho.
Se, como escreveu o sábio Salomão, Deus colocou “no coração
do homem o anseio pela eternidade”, então como fugir dessa condição e destino?
A eternidade é, então, uma metonímia que pode ser substituída por Deus. O homem
veio de Deus e Deus colocou em seu coração o desejo de retornar para Ele. Se
“fomos empurrados” para dentro da existência – como queria Sartre – ao sairmos
dela voltamos para a origem, voltamos para Deus. Como livrar-se dessa condição
inata? Não há como! Rejeitar a existência de Deus – diga-se de passagem, um
Deus eterno e que Ele mesmo se encontra na eternidade – é um paliativo
simplista demais, equivocado certamente, reducionismo.
Dizer “não creio em Deus” é puro discurso, palavrório de
quem anda na contramão porque quer chamar a atenção. Não creio nisso. É
polemização, tão somente, que leva a pessoa a construir um estilo de vida e uma
maneira de pensar que com o tempo aparenta – a ela e aos outros – que realmente
crê naquilo que prega. Em psicologia isso é chamado sublimação.
Não posso crer em ateus dessa forma. Ateus não existem.
Fonte: Neoprotestante
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