terça-feira, 12 de junho de 2012

Por que há tantos pastores ruins?

 

Por Walter McAlister

De uns tempos para cá tenho visto, com uma incredulidade cada vez maior, um fenômeno que me força a fazer esta reflexão. Minha incredulidade se resume a isto: será que há tantos pastores ruins e tão poucos bons pastores neste nosso Brasil, meu Deus?!

Pergunto isso (primeiro a mim mesmo e, em segundo lugar, de modo mais temático) porque na blogsfera-internet-facebook-twitter-cultura (neologismo meu, confesso) o consenso parece ser o de uma condenação generalizada da categoria. Anteontem foi o Dia do Pastor. Mas, será que resta o que celebrar? Pelo que leio por aqui, poderíamos muito bem chamar a data de O Dia do Farsante.

O clero anda em baixíssimo conceito com os internautas. Será que é o caso entre os que não navegam pelos fios óticos e wi-fis deste mundo virtual? Não sei. Sinceramente, não sei. Mas, já que estou aqui na blogsfera, lá vai a minha reflexão para quem compartilha do universo virtual.

Primeiro, quero afirmar que conheço muitos pastores. Muitos dos que conheço são bons pastores. São pessoas movidas por um desejo de servir a Deus (pelo menos é como eles começaram). Há um desnível de preparo e oportunidade entre eles, claro. Mas há uma motivação inicial que me parece uma regra. Cada um se sentiu chamado por Deus para servi-lo e, consequentemente, alimentar as suas ovelhas.

Há maus pastores, confesso. Creio que nem todos têm um pastor em quem podem confiar, a quem recorrer ou de quem sequer têm orgulho de ter como o seu pastor. E, sabendo desse fato, creio ser importante pontuar algumas razões para isso.

Há muitos pastores no Brasil, hoje, que não foram bem preparados para o ministério. Alguns foram criados em situações que sequer exigia um ensino ou treinamento (teológico, bíblico ou ministerial). Bastava “levar jeito” pra esse “negócio” e logo foram promovidos para ocupar lugares para os quais não têm a menor noção do que se trata. Sem preparo teológico, bíblico ou ético, acabaram lançando mão de qualquer maluquice que parece “dar certo”. Fizeram correntes de toda sorte. Suas mensagens não passam de capítulos de livros que leram ou que estão na moda, como: prosperidade, guerra espiritual, conquista de cidades ou coisa parecida.

Vivem de campanha em campanha e querem criar uma “grande obra” para a glória de Deus. Essa “grande obra” (geralmente um prédio ou um programa de TV, rádio ou algo parecido) não passa de uma fonte de enorme despesa que vai sacrificar o povo, que é visto como fonte de muito lucro. Para tanto, precisam de cada vez mais povo. E para que tenham isso, vão ter que lançar mão de mensagens e promessas que atraem esse povo (se chamarem um dos cantores “gospel” ou o coral das crianças for posto para cantar, também funciona).

O balcão de ofertas abre, a birosca fica aberta e o povo vem. Com as músicas da hora, os jovens berram ao microfone, de olhos fechados (claro, porque precisam demonstrar que estão no enlevo), e todos assistem atônitos às versões locais e genéricas dos superastros da música gospel. É quase cómico, se não fosse tão trágico.

Por sua vez o pastor tem que assumir ares de “Grande Servo do Senhor”, chegando a ter que se autodenominar “Apóstolo”, “Profeta”, e só falta alguém se declarar o “Quarto Membro da Santíssima Trindade”. É uma igreja em agonia. Seus gritos e gemidos (que muitos acham serem sinais de “poder”) só denunciam a falta de vida real íntima com Deus, e conhecimento profundo das Escrituras (que é a obrigação de qualquer um que se propõe a ser um obreiro aprovado).

Por outro lado (e agora me remeto ao extremo oposto), há homens extremamente bem preparados nas Sagradas Letras. Mas sua vida ministerial é sujeita a um regime massacrante de comitês, relatórios e avaliações. Se lançaram no serviço do Senhor, mas se acham hoje como serviçais de leigos que nunca deveriam ter o poder sobre eles que têm.

Compaixão é uma das vítimas dessas estruturas. O pastor teme pelo bem-estar da sua família: sua esposa, que é duramente cobrada pelas irmãs da igreja; seus filhos, que são maltratados na escola por serem os filhos do pastor, mas que são cobrados pelos seus pais na igreja (pois, se pisarem fora da linha, o comitê talvez não renove o contrato e aí fazer o quê? Vai botar comida na mesa como?) Mesmo empregados, os pastores são mal, mas muito mal remunerados – pois, afinal, existem tantos “marajás” no ministério, mas “aqui não!”. Entre os oportunistas marajás e os bons servos que são reduzidos ao medo e mendicância para poderem pastorear, não me admiro que haja tão poucos bons pastores. Os poucos que vencem o sistema são os vitoriosos e poderosos, que acabam sentando em comitês denominacionais, envergando um poder político além da sua igreja local, e que acaba redundando num prestígio cada vez maior, para assegurar a sua longevidade no púlpito local. É a morte.

Os sistemas, as estruturas e as políticas eclesiásticas não permitem que haja bons pastores. Não comportam líderes de verdade. Os maus se dão bem em sistemas que não exigem política. Com o seu talento de convencimento, o povo vem, sofre, mas apanha por achar que tem que ser assim. Enquanto há bons pastores que são esmagados por sistemas vítimas da nefasta politicagem eclesiástica.

O povo dessas igrejas fica sem pastor, que de fato está na mão de leigos. Ou o povo fica nas mãos de lobos e anticristos que, com charme, lábia e encenações de “unção” lideram para o seu próprio enriquecimento. E os bons pastores ficam sem púlpito e seus filhos abandonam a igreja (pois viram como ela esmagou os seus pais), deixando pai e mãe de coração partido, pois o eles que mais queriam era ver seu filhos seguindo nos caminhos de Deus.

O coração dói. Os anjos choram. O Corpo de Cristo sangra. Pastores fogem do ministério e vendem seguros ou recorrem a uma capelania. E a blogosfera registra o fel dos que queriam algo mais. Queriam líderes que manifestassem devocionalidade sem afetação, liderança sem abuso, compaixão sem politicagem, ensino das Escrituras sem modismos. E os pastores queriam apenas um lugar onde pudessem alimentar as ovelhas, pois, como Pedro, confessam o seu amor pelo Mestre.

Conheço bons homens assim. Tenho o privilégio de liderar muitos deles. Vejo o povo que pastoreiam feliz, com prazer em se reunir para louvar a Deus, e alimentados pela Bíblia. Mas o coração pesa. Ouço o choro de muitos, o lamento dos desigrejados (os que fugiram para não morrer) e já vi pastores de joelhos aos prantos pelos filhos perdidos no mundo. Não bastasse o dano, vejo que ainda muitos lobos patrulham a blogosfera e os escombros da Igreja de Cristo, tentando abocanhar os que vivem desgarrados do rebanho, com palavras suaves e antigas heresias requentadas e vendidas como algo novo e relevante. Se tão somente tivessem um bom pastor, que desse a sua vida pelo rebanho! Se tão somente os bons pastores achassem um lugar para servir com pureza de coração!

Ah, Senhor da seara, vivifica a Tua Igreja – Noiva do Cordeiro e Corpo de Cristo – “a plenitude daquele que enche todas as coisas, em toda e qualquer circunstância” (Ef 1.23). Tem misericórdia de nós e vivifica-nos, Pai.

Na paz,
+W
 

4 comentários:

  1. Caro pr. Silas Figueira,

    A paz amado!

    É lamentável a situação atual de vários líderes que se entregaram a criação de ovelhas.

    A palavra de Deus é explícita quando diz: Ide e fazei discípulos. Se assim fosse obedecido, teríamos uma igreja mais capaz e grandemente responsável.

    Infelizmente, muitos dos chamados pastores de ovelhas, mesmo com cursos em diversos de seminários, possuem em suas cabeças, proveniente do coração, a pausada idéia e petulante observação, já tão convencional e simplificada, pelos últimos anos de frouxidão evangélica, produzirão o que não conduzisse aos pecados que emanciparam situações de comodismo e socialização festejante da igreja durante anos e com esta sequência admitiam a necessidade em produzir ovelhas, o que tornou-se o ECO da disparidade emocional, que se multiplica, a cada dia, em uma velocidade LUZ, a grandeza deste mercado agropecuário e a facilidade transformada em riquezas por "especialistas" na ovinicultura,

    É comum vermos pastores esquecidos, pregarem que o pastor pastoreia e as ovelhas reproduzem. Muito bonito, mas nunca prático o suficiente para prover resultados desejáveis. Paga-se por esta frase com a abertura de novas fazendas-igrejas.

    As igrejas se tornaram estruturas profissionais com grandes possibilidades de sucesso financeiro e doa a quem doer, a culpa é de cada pastor, bom, mais ou menos, bom demais, ou péssimo.

    O pastor se entregou à administração e a consagração de quem fala menos ou não contradiz. Foi criado um feitiço que virou-se contra o feiticeiro.

    Afinal, desobediência ou rebelião, é como o pecado da feitiçaria.

    Muitos estão consagrando para o seu deleite, quem convém. Triste!

    Bem, a armadilha está formada, inclusive com uma grande maioria, se deixando levar, pela consagração de mulheres ao pastorados.

    O Senhor seja contigo, nobre pastor,

    O menor de todos os menores. Um Tradicional Pentecostal.

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    1. Graça e paz Pr. Newton.
      Nesses trinta anos que estou servindo ao Senhor já vi muita coisa ruim entre os pastores, mas posso contar coisas muito boas do pastor que me enviou para o seminário e que foi meu pastor por quatorze anos. O seu exemplo até hoje eu sigo. Foi um homem simples, mas muito sábio. Foi chamado por Deus e o serviu fielmente até o se último dia de vida, morreu aos 53 anos. Eu sei que existem muitos pastores ruins, mas se temos um bom exemplo a seguir devemos focar neste, assim como Paulo disse: "O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso fazei; e o Deus de paz será convosco." Devemos ser como Paulo. Se existem pastores ruins que nós não sejamos.
      Fique na Paz!
      Pr. Silas Figueira

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  2. Caro pr. Silas Figueira,

    Retorno para deixar marcado o nome de dois pastores sem citar as denominações, em que servir como diácono há muitos anos:

    Pastores Arlindo Pimentel e Samuel da Matta, já no descanso eterno.

    Se eu pudesse ter aproveitado mais o meu tempo no passado, escolheria estar pelo menos, mais algumas horas, ouvindo deles, o que me faria muito bem aos ouvidos e ao coração.

    que a nossa llembrança alimente o nosso coração em deixarmos um rastro de Servos de Deus e que possamos estar como cartas que podem ser lidas por todos ao nosso redor.

    Graça e Paz!

    O menor de sempre.

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    1. Graça e paz Pr. Newton.
      É muito bom saber que sempre haverá pessoas em quem nos espelharmos.
      Fique na Paz!
      Pr. Silas Figueira

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