terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O lado negro do calvinismo

Por Helder Nozima

Em 2009, a revista norte-americana Time listou o novo calvinismo como uma das dez forças capazes de mudar o mundo. Jovens norte-americanos redescobriram a força da teologia bíblica como exposta por João Calvino e levam esse ensino adiante, por meio da música e de uma nova forma de dialogar com a cultura. Liderados por homens como John Piper, Mark Driscoll e Albert Mohler, os novos calvinistas encaram de frente o desafio de tentar mudar o mundo.

Contudo, não é exatamente este o novo calvinismo que parece ganhar força na blogosfera brasileira. Enquanto nos EUA há um esforço para viver entre dois mundos, no Brasil o que ganha popularidade
é um outro calvinismo.

Para eles, os cultos devem ignorar a cultura local: bom mesmo são os Salmos, a produção musical contemporânea não serve para adorar a Deus! Debater? Sim, eu te indico um livro de teologia e, se você não aceitá-lo e ainda quiser discutir...bem...é porque você é um ignorante que não merece atenção. Os demais cristãos? São uns apóstatas, especialmente os pentecostais (incluindo aí desde aqueles que creem na contemporaneidade de certos dons do Espírito até o mais extremado neopentecostalismo). Ah sim...uma teocracia também está nos nossos planos...

Mal vivido, o calvinismo também tem sua face feia

E aí, será que essa versão brasileira de calvinismo vai mudar o mundo? Creio que o próprio Jesus pode dar essa resposta, já que há muitos pontos de contato entre os apóstolos de Cristo e os calvinistas extremados tupiniquins:
Levantou-se entre eles uma discussão sobre qual deles seria o maior. Mas Jesus, sabendo o que se lhes passava no coração, tomou uma criança, colocou-a junto a si e lhes disse: Quem receber esta criança em meu nome a mim me recebe; e quem receber a mim recebe aquele que me enviou; porque aquele que entre vós for o menor de todos, esse é que é grande.

Falou João e disse: Mestre, vimos certo homem que, em teu nome, expelia demônios e lho proibimos, porque não segue conosco. Mas Jesus lhe disse: Não proibais; pois quem não é contra vós outros é por vós.

E aconteceu que, ao se completarem os dias em que devia ele ser assunto ao céu, manifestou, no semblante, a intrépida resolução de ir para Jerusalém e enviou mensageiros que o antecedessem. Indo eles, entraram numa aldeia de samaritanos para lhe preparar pousada. Mas não o receberam, porque o aspecto dele era de quem, decisivamente, ia para Jerusalém.

Vendo isto, os discípulos Tiago e João perguntaram: Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para os consumir?

Jesus, porém, voltando-se os repreendeu e disse: Vós não sabeis de que espírito sois. Pois o Filho do Homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las. E seguiram para outra aldeia. (Lucas 9:46-56)
A ilusão de ser o maior
O texto começa com uma discussão corriqueira entre os Doze: quem é o maior de nós, o mais santo, o mais importante? Para a maioria de nós, ser um deles já seria uma honra e um privilégio enormes. Mas os apóstolos não se contentavam e queriam saber qual deles seria mais honrado no reino de Jesus.

O mais irônico dessa história é que os discípulos tinham acabado de fracassar na simples tentativa de expulsar um demônio. Enquanto Jesus estava sendo transfigurado, um homem pediu a ajuda dos discípulos para libertar seu filho de uma possessão demoníaca, mas eles não conseguiram. Por outro lado, no monte Deus ensinara a Pedro, Tiago e João que a glória deveria ser somente de Cristo, e não de homens como Moisés e Elias.

Mas andar com Jesus não era um atestado de superioridade. O próprio Senhor mostrou isso quando colocou uma criança no meio de seus discípulos, como um modelo para mostrar quem é o maior. Aquele que quer ser grande não deve ser arrogante...mas deve ser como o menor, o que serve. Enquanto os Doze fossem arrogantes, uma criança seria maior do que eles.

Da mesma forma, ter a melhor teologia não torna os calvinistas superiores aos demais seres humanos. Se o conhecimento é acompanhado da arrogância e da soberba, do sentimento de superioridade, se dizemos aos outros que somos melhores...então uma criança que nunca leu a Bíblia serve de exemplo para nós.

Sim, arrogantes...elas são maiores do que vocês. E um doutorado não muda isso.

A ilusão de saber quem é de Jesus

Só que quando nos consideramos os maiores, não basta apenas discutir com os outros para provar a nossa superioridade. Os arrogantes chegam ao ponto de se colocarem no lugar do próprio Jesus e de determinarem que é ou não discípulo dele.

E a soberba é um pecado que pode atingir a qualquer um, inclusive João, o apóstolo mais próximo de Jesus. Quando João viu alguém expulsando demônios em nome de Jesus e que não fazia parte da turma dos Doze...ah...ele não teve dúvidas! Foi lá e usou sua autoridade apostólica para proibir aquele absurdo! Ora, quem ele achava que era para fazer qualquer coisa em nome de Jesus sem o conhecimento dos Doze?

Não satisfeito, João foi todo alegre contar a Jesus o que fez. E aí Jesus, mais uma vez, surpreende: "Não o proíba. Quem não é contra você, é por você". Dito de outra maneira...aquele "alguém" não tinha a aprovação dos apóstolos, mas tinha a de Jesus. Mais do que isso, era alguém que lutava do lado de João. Não devia ser proibido.

Hoje muitos calvinistas se acham no direito de dizer quem é e quem não é discípulo de Jesus. E ai do pregador se ele não tiver a chancela reformada! Deve ser proibido, é herege, talvez apóstata! No entanto, muitos desses pregadores e ministérios têm sido aceitos por Jesus e fazem a obra d'Ele.

Aqui cabe um parêntese. Não quero dizer aqui que a teologia não conta ou importa. Quem prega, expulsa demônios ou faz qualquer coisa em nome de Jesus têm o dever de fazê-lo corretamente, seguindo a doutrina certa. Mas isso não quer dizer que Jesus não use pessoas com erros teológicos para levar salvação e libertação ao mundo. Quem escolhe os obreiros é Jesus, e não os calvinistas.

E o Brasil é um bom exemplo disso. Os assembleianos chegaram ao país em 1910, os presbiterianos em 1859. Mas enquanto os presbiterianos comemoraram o centenário dizendo que era a primeira vez que um presidente da República entrava em um templo protestante, os assembleianos estavam em campanha para atingir o primeiro milhão de convertidos. Foram pregadores pentecostais (sim, pentecostais) que na sua humildade captaram o espírito do brasileiro e tornaram os evangélicos uma força reconhecida na sociedade brasileira.

Foi em igrejas não-calvinistas que a maioria dos evangélicos conheceu a Cristo, como é o caso do escritor deste artigo.

Sim, os frutos poderiam ser melhores, mas nem quero imaginar em como o Brasil seria pior sem a pregação e o ministério pentecostal ou arminiano, com todos os erros teológicos que eu julgo que eles possuem. E se a tarefa de evangelizar o Brasil fosse apenas de reformados, nem eu estaria aqui. Já estudei com uma presbiteriana que nunca falou de Jesus comigo, mas graças a insistência de um assembleiano Cristo me alcançou.

A ilusão de condenar os descrentes

Bom, depois de duas repreensões de Jesus, João deve ter se acalmado, certo? Errado. Pouco tempo depois, mais uma vez ele mostrou seu lado negro, desta vez contra incrédulos.

Quando Jesus se dirigia para Jerusalém ele passou por uma aldeia de samaritanos, um povo que não tinha boas relações com os judeus. Jesus era um judeu que ia para Jerusalém...não é de se estranhar que os samaritanos tenham se recusado a hospedá-lo.

Não foi assim que pensaram os irmãos Tiago e João. Cheios de zelo por seu Mestre, perguntaram se não podiam mandar descer fogo do céu para consumir logo aqueles pecadores!

Jesus acabou imediatamente com esse pensamento. O Espírito de Cristo não veio destruir, veio salvar os homens. Se aquela cidade não podia recebê-los, Jesus podia ir para outra. Embora os samaritanos tivessem rejeitado o Filho de Deus, o Juízo não seria naquele momento.

Hoje parece ser assim que os calvinistas extremados querem tratar os que não aceitam a Jesus ou as suas ideias teológicas. Parece que alguns estão mais preocupados em dizer que Deus odeia os pecadores ao invés de anunciar que os santos que Deus ama são pessoas que...vejam só...eram pecadoras! Uma verdade não anula a outra, mas o espírito que deve marcar os discípulos de Jesus não é o de destruição, e sim o de salvação. Quem diz isso não sou eu, mas sim o próprio Cristo.

A necessidade de um novo calvinismo

Por todas essas razões, penso que o Brasil precisa sim de um novo calvinismo, diferente do que apresentei acima. E isso não é só uma necessidade do Brasil, mas dos próprios calvinistas! Enquanto a teologia reformada for associada à soberba, ao julgamento e à condenação, os outros grupos sequer vão querer dialogar conosco. Enquanto os reformados se isolarem em sua tentativa de voltar ao puritanismo do século XVIII ou à Genebra de Calvino o mundo não nos dará ouvidos. Mais do que isso: estaremos traindo o espírito do próprio Calvino, que fez o possível para aproximar o povo de sua época do Deus vivo.

Enquanto os católicos queriam uma missa em latim, Calvino defendia que a Palavra devia ser pregada na linguagem do povo. Seus Salmos foram compostos para tentar aproximar os adoradores da Bíblia e do Senhor. Enquanto os católicos queriam tirar a Bíblia das pessoas, Calvino e outros reformadores se esforçaram em popularizá-la e encontrar formas de aproximá-la do homem comum. As Institutas, mais do que uma obra de erudição, são uma tentativa de sistematizar e explicar melhor os ensinos da Bíblia.

Hoje precisamos de herdeiros de Calvino que não sejam orgulhosos ou arrogantes, mas sim humildes para reconhecer que Deus é maior que Genebra, a Nova Inglaterra e a Reforma Protestante. De reformados que reconheçam que Jesus salva e usa pessoas que não enxergam a Bíblia da mesma forma que nós. De puritanos que entendam que não são melhores do que ninguém...e que percebam que só são amados por Deus porque Cristo morreu por eles...e que queiram, apaixonadamente, levar esse amor a todos os eleitos. De calvinistas que se esforcem para aproximar a Bíblia das pessoas, mas acima de tudo, que estejam dispostos a deixarem a Bíblia mudar a sua própria vida.

É desse novo calvinismo que eu e você precisamos. Graças a Deus, já vejo vários neste caminho. De homens que tenham o amor e o fogo de John Knox, William Carey, George Whitefield, John Piper e Mark Driscoll. Espero que eles consigam falar mais alto do que os calvinistas que permanecem presos ao seu lado negro.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

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