quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

BUSCANDO UM SUBSTITUTO PARA DEUS


Por A. W. Tozer

INTRODUÇÃO

Às margens dos rios da Babilônia, nós nos assentávamos e chorávamos, lembrando-nos de Sião. Nos salgueiros que lá havia, pendurávamos as nossas harpas, pois aqueles que nos levaram cativos nos pediam canções, e os nossos opressores, que fôssemos alegres, dizendo: Entoai-nos algum dos cânticos de Sião. Como, porém, haveríamos de entoar o canto do SENHOR em terra estranha? (Sl 137.1-4 - ARA).

Moisés - que estava no monte Sinai encontrava-se com o Senhor e recebendo os Dez Mandamentos - não percebera que, lá em baixo, o povo de Deus estava em perigo. Envolto pela presença de Deus, esse líder não tinha outro pensamento, senão o Senhor. No arraial, contudo, a história era diferente.

Enquanto estava no topo da montanha, o seu irmão, Arão, cedeu à ociosidade de Israel. Moisés tinha ficado longe por mais tempo do que haviam previsto, e algo precisava ser feito para saciar o apetite carnal do povo de Deus. A verdade é que eles estavam cansados de esperar por Moisés. 

Quando você olha para os fatos, é fácil ver que um dos grandes perigos que confronta o povo escolhido está relacionado ao ócio religioso. Entendiar-se com a religião é compreensível, mas entendiar-se com Deus, não. Aqueles que um dia tiveram um encontro com o Senhor e com a Sua presença poderosa e majestosa, de maneira alguma se amofinam - o mesmo que: aborrecem, afligem, angustiam, apoquentam, atormentam, torturam, trateiam. A religião, por outro lado, com todas as suas regras enfadonhas, deixa-nos vulneráveis ao tédio. Qualquer um que tente seguir minuciosamente sua crença experimenta muitos momentos de fadiga, diante de todos os seus detalhes triviais. 

Israel havia vivenciado todas as maravilhas do Senhor a seu favor, no entanto ficara entendiado com Deus desses milagres. Ao ser confrontado pela ira de Moisés, Arão disse:

Respondeu-lhe Arão: Não se acenda a ira do meu senhor; tu sabes que o povo é propenso para o mal. Pois me disseram: Faze-nos deuses que vão adiante de nós; pois, quanto a este Moisés, o homem que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que lhe terá acontecido. Então, eu lhes disse: quem tem ouro, tire-o. Deram-mo; e eu o lancei no fogo, e saiu este bezerro (Êx 32.22-24 - ARA).

O ambiente do espírito da Babilônia criou uma situação tal, que a Igreja tem sido dominada pelo que chamo de rituais. Essas práticas têm exercido tamanho domínio sobre a cena cristã atual, que o verdadeiro cristianismo tem dificuldade até de respirar. Permita que eu explique isso melhor e lhe mostre o que quero dizer.

O CULTO À IMITAÇÃO

O primeiro ritual que tem dominado o cristianismo contemporâneo é a imitação daquilo que se vê do lado de fora da Igreja [...]. Houve um tempo em que o Corpo de Cristo estabelecia os padrões da música. Naquela época, o mundo imitava a Igreja. Homens como Beethoven, Mozart e Handel definiam as tendências musicais, e o seu foco estava na música religiosa. Hoje, já não promovemos nossa musicalidade, apenas copiamos aquilo que ouvimos ao redor.

Com nossa leitura, não está diferente. Se há um best-seller mundial, tenha certeza de que, eventualmente, será imitado pela igreja [...]. Parece que alguns escritores sentem prazer em ver quão perto do abismo conseguem chegar sem cair nele. Eu tenho uma notícia importante: eles não correm perigo do precipício. Já caíram, apenas não sabem disso.

Alguns dizem que é uma grande honra e uma marca de sucesso escrever um livro que seja aceitável tanto no mundo quanto na Igreja. Há algo errado nisso. Não consigo encontrar na Bíblia, ou mesmo na história da Igreja, algo que, de algum modo, sugira qualquer compatibilidade entre o secular e o sagrado. O padrão eclesiástico deveria ser muito mais elevado e grandioso do que o mundano. Aquilo que satisfaz a Igreja jamais deveria satisfazer o mundo. O verdadeiro cristão tem um apetite insaciável por Cristo e pelos interesses dEle, enquanto o mundo não possui tal anseio.

Cristo é único e não imita o outro. Tampouco corteja o mundo em uma tentativa patética de ganhá-lo. Muitas igrejas evangélicas estão mais próximas do mundo do que dos padrões do Novo Testamento em quase todos os aspectos.

O CULTO AO ENTRETENIMENTO

Associada ao culto à imitação está a devoção ao entretenimento. Essa é, provavelmente, a heresia mais destrutiva a envenenar o Corpo de Cristo. A ideia de que a religião é uma forma de divertimento está tão longe dos ensinamentos dos Evangelhos, que me admiro em ver que até mesmo igrejas tradicionais têm cedido a esse apelo.

O que esta geração de cristãos precisa não são de distrações religiosas para satisfazer seu apetite carnal, mas de obras literárias com base bíblica, que desafiem e conduzam a alma a um conhecimento mais profundo acerca de Deus, de Cristo e de todo o plano da salvação. É verdade, tudo aquilo que nutrimos cresce. Se nutrirmos a natureza carnal e sua voracidade, isso se tornará o aspecto dominante de nossa vida. Por outro lado, ao saciarmos nossa natureza espiritual, o desejo por Deus crescerá.

O CULTO ÀS CELEBRIDADES

O terceiro rito que domina os evangélicos contemporâneos é a idolatria às celebridades. De certo, eu deveria parar por aqui. Por alguma razão, os líderes da Igreja atual acreditam que, para realizar seus propósitos em Cristo, precisam de alguma celebridade convertida.

Presume-se que essa pessoa ilustre fará pela Igreja o que um servo de Deus não pode fazer. Afinal, esses famosos têm acesso ao mundo. Aqueles que se deixam impressionar por uma celebridade convertida são cristãos carnais, e eles só se impressionam até que chegue uma celebridade ainda maior. Onde está a geração que se prostrava diante de Deus, com o coração quebrantado pelo mundo à sua volta? Onde estão aqueles cristãos que abriram mão de tudo para alcançar homens e mulheres não salvos?

Onde estão os D. L. Moodys da Igreja hoje? E os A. B. Simpsons? Os Adoniram Judsons? Ou os J. Hudson Taylors? Onde estão as Susanas Wesleys? As Lady Julians? Eu poderia citar muitos outros. Contudo, o cristão contemporâneo não é digno de desatar a correia das sandálias destes.

saber da existência desses homens e dessas mulheres, da obra que realizaram para Cristo e depois, sair à procura de alguma celebridade convertida a quem se possa seguir é quase uma blasfêmia. Nós desfalecemos diante das celebridades. Aceitamos o que quer que digam como sendo a palavra importante do momento, mesmo quando se trata de algo contrário ao ensinamento claro das escrituras. Inácio disse: "Não permita que nada o fascine além de Cristo". 

Hoje, vivemos deslumbrados por celebridades. Por alguma razão, presumimos que o entretenimento carnal é um substituto apropriado para a adoração santificada ao Deus Altíssimo. Todo o status desses famosos, com seu talento mundano, é estranho à Nova Jerusalém. Nenhuma emoção barata poderá substituir a alegria inefável de conhecer a Jesus Cristo.

Pense nisso! 

Fonte:

Tozer. A. W. Os Perigos de Uma Fé Superficial. Graça Editorial, Rio de Janeiro, RJ, 2014: p. 37 - 44.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

FAZENDO VOTOS PARA UMA VIDA MAIS SANTA



Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Salmo 116.12-14

INTRODUÇÃO

Ao findar o ano e se iniciar outro devemos olhar para trás e reavaliar a nossa vida em todas as áreas: familiar, secular, financeira e, principalmente, na espiritual. Será que fomos melhores crentes que no ano anterior? Será que atingimos um patamar mais elevado em nosso conhecimento bíblico e prático ou simplesmente continuamos os mesmos crentes de sempre? Não avançamos em nada, isso quando não se regride.

E como em todo início de ano nós fazemos promessas, ainda que ninguém saiba, de que seremos melhores, que nos esforçaremos para estar mais presente junto à família, na igreja, ler a Bíblia toda... Tudo isso faz parte de um recomeço, pois o ano que se inicia nos trás a ideia de um novo recomeço. Por que o ano é novo, apesar de ficarmos mais velhos. Mas de nada adianta planejarmos o novo ano se nós não olharmos para trás e não revermos como foi a nossa vida no ano anterior. O ano novo traz às pessoas a necessidade de balanço do ano que passou e também a reflexão sobre resoluções para o ano que se inicia.

Este salmo nos leva a pensar nisso – embora este salmo não fala de ano novo, mas nos leva a pensar em novas oportunidades, pois o salmista estava à beira da morte, no entanto o Senhor o livrou. O salmista olha para trás e vê o quanto o Senhor foi bom para com ele. Apesar de ter passado por lutas e dificuldades; observe os versos 8 a 11:

Pois tu me livraste da morte, os meus olhos, das lágrimas e os meus pés, de tropeçar, para que eu pudesse andar diante do Senhor na terra dos viventes. Eu cri, ainda que tenha dito: "Estou muito aflito". Em pânico eu disse: "Ninguém merece confiança". (NVI).

O Salmo 116 registra a gratidão do salmista por ter sido liberto de um mal que o estava levando à morte. Ele buscou a face do Senhor e o Senhor ouviu a sua oração (vs. 8,9). O salmista agradeceu, realizando sacrifícios e oferecendo votos, tudo isso em consonância com a lei mosaica. Ele foi grato a Deus pelo bem recebido. Este Salmo tornou-se um modelo de agradecimento para aqueles que tinham se recuperado de enfermidades ou de outras crises pessoais, e tem sido lido com esse propósito até hoje.

Depois de ter sido liberto, o salmista desejava expressar sua gratidão ao Senhor (v. 12), o que fez de quatro maneiras. Em primeiro lugar, levou ao santuário uma oferta de ação de graças (v. 17; Lv 3; 7.11-21). Em segundo lugar, como parte desse sacrifício, o sacerdote derramou uma porção de vinho sobre o altar, simbolizando a vida do adorador sendo derramada para servir ao Senhor. Em terceiro lugar, o sacerdote separou uma parte da oferta a ser usada numa refeição depois do sacrifício, na qual o adorador compartilhava seu alimento e sua alegria com sua família e amigos. Nessa refeição, o salmista invocou o Senhor e agradeceu publicamente a ele por suas misericórdias. Em quarto lugar, depois da cerimônia e da refeição, o salmista começou a cumprir as promessas (votos) que havia feito ao Senhor durante seu tempo de grande sofrimento e perigo (vv. 14, 18) [1].

Diante desse texto eu quero pensar com você sobre fazer votos. É válido fazer os votos hoje? Se a resposta for sim como devo fazê-lo? Para isso devemos entender o que é um voto segundo a Bíblia para depois pensar em fazê-los ou não.

EM PRIMEIRO LUGAR, O QUE A BÍBLIA DIZ SOBRE FAZER VOTOS A DEUS?

No Antigo Testamento era muito comum fazer votos, tanto que muitos deles foram registrados. Alguns inclusive direcionados pelo próprio Deus. Veja por exemplo o voto de nazireu (Nm 6.1-21). A Bíblia nos fala de algumas pessoas que tinham o voto de nazireado: Sansão (Jz 15.5), Samuel (1Sm 1.11) e João Batista (Lc 1.15). Estes foram homens escolhidos por Deus para obras específicas e especiais. No chamamento desses homens, o Senhor requereu que eles cumprissem o voto do nazireado. Só para esclarecer, Jesus não tinha sido consagrado a esse voto. Veja Lc 7.33,34:

Pois veio João Batista, não comendo pão, nem bebendo vinho, e dizeis: Tem demônio! Veio o Filho do Homem, comendo e bebendo, e dizeis: Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores! (ARA).

1º - Nos tempos do Antigo Testamento as pessoas faziam diversos tipos de votos a Deus. Um exemplo disso nós encontramos em Gênesis 28.20-22, onde Jacó promete dizimar se contasse com a presença de Deus em sua jornada. Veja o texto:

Então Jacó fez um voto, dizendo: "Se Deus estiver comigo, cuidar de mim nesta viagem que estou fazendo, prover-me de comida e roupa, e levar-me de volta em segurança à casa de meu pai, então o Senhor será o meu Deus. E esta pedra que hoje coloquei como coluna servirá de santuário de Deus; e de tudo o que me deres certamente te darei o dízimo" (NVI).

Veja que o voto não era impossível de ser cumprido por Jacó e foi feito diretamente com Deus. Os votos eram feitos com frequência nesse período e, por essa razão, encontramos no capítulo 30 de Números várias orientações escritas por Moisés com respeito ao cumprimento de votos feitos a Deus. A pessoa deveria pensar bem antes de fazer um voto, analisando se conseguiria ou não cumpri-lo. Um voto feito a Deus não deveria ser considerado levianamente e, portanto, não deveria ser feito precipitadamente:

“Quando fizeres algum voto ao SENHOR, teu Deus, não tardarás em cumpri-lo; porque o SENHOR, teu Deus, certamente, o requererá de ti, e em ti haverá pecado. Porém, abstendo-te de fazer o voto, não haverá pecado em ti” (Dt 23.21,22).

“Quando a Deus fizeres algum voto, não tardes em cumpri-lo; porque não se agrada de tolos. Cumpre o voto que fazes. Melhor é que não votes do que votes e não cumpras” (Ec 5.4,5).

Observe que o voto não era obrigado, mas no momento que a pessoa fazia deveria não tardar em cumpri-lo.

2º - No Novo Testamento, Jesus ensinou que o ideal é não fazermos juramentos ou promessas. Isso não quer dizer que não possamos fazer, mas que devemos ter o cuidado, acima de tudo, responsabilidade com as nossas palavras.

“Vocês também ouviram o que foi dito aos seus antepassados: ‘Não jure falsamente, mas cumpra os juramentos que você fez diante do Senhor’. Mas eu lhes digo: Não jurem de forma alguma: nem pelo céu, porque é o trono de Deus; nem pela terra, porque é o estrado de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei. E não jure pela sua cabeça, pois você não pode tornar branco ou preto nem um fio de cabelo” (Mateus 5.33-36). Seja o seu ‘sim’, ‘sim’, e o seu ‘não’, ‘não’; o que passar disso vem do Maligno (verso 37).

Hoje em dia, algumas pessoas tentam usar votos e promessas para barganhar com Deus, esquecendo-se do sentido original do voto: a consagração e gratidão a Deus. Por isso que quando fazemos um voto a Deus, não o façamos com a intenção de forçá-lo a nos abençoar mais. Primeiro porque já fomos abençoados com toda sorte de bênçãos. Veja o que Paulo nos fala em Ef 1.3:

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo” (NVI).

E outra coisa, as bênçãos de Deus, inclusive a salvação, vêm pela graça e não por nossos méritos próprios: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2:8-9). Tudo o que fazemos em nossa vida cristã, deve ser como um agradecimento pela salvação recebida.

Warren W. Wiersbe diz que não devemos considerar nossos votos como um “suborno santo”, uma forma de pagarmos Deus por sua ajuda, pois o salmista certamente sabia que a vontade de Deus não pode ser influenciada por dádivas humanas (Jó 41.11; Rm 11.35) [2].

EM SEGUNDO LUGAR, ANTES DE FAZERMOS ALGUM VOTO DEVEMOS OBSERVAR ALGUMAS ORIENTAÇÕES.

No Novo Testamento, principalmente de acordo com as palavras de Jesus o ideal, segundo Mt 5.33-36, é não fazermos juramentos, promessas ou votos (principalmente os impossíveis de serem cumpridos). Nossa palavra deve ser sim, sim; não, não. Devemos ser honestos em nossa vida e não necessitarmos de juramentos (Mt 5.37).

1º - Se você fez algum voto a Deus possível de ser cumprido, cumpra-o sem demora (Ec 5.4-5). Ninguém é obrigado a fazer voto algum, mas em cumpri-lo sim. Jesus deixou bem claro que a palavra do cristão deve ser sim sim e não não, pois o maligno é que age contrário a isso. 

2º - Não faça votos que não possa cumprir. Se você fez um voto a Deus impossível de ser cumprido, por causa de sua natureza humana, ou que viole os princípios divinos, arrependa-se e peça perdão a Deus e não faça isso novamente. E não faça votos para outros cumprirem (filho, marido, esposa...).

Jefté fez um voto tolo, impensado e que lhe causou grande sofrimento. Ele fez um voto para o “outro” realizar – no caso em questão, o voto impensado e precipitado recaiu sobre a sua filha (Jz 11.30,31, 34,35).

E Jefté fez este voto ao Senhor: "Se entregares os amonitas nas minhas mãos, aquele que vier saindo da porta da minha casa ao meu encontro, quando eu retornar da vitória sobre os amonitas, será do Senhor, e eu o oferecerei em holocausto". Quando Jefté chegou à sua casa em Mispá, sua filha saiu ao seu encontro, dançando ao som de tamborins. E ela era filha única. Ele não tinha outro filho ou filha. Quando a viu, rasgou suas vestes e gritou: "Ah, minha filha! Estou angustiado e desesperado por tua causa, pois fiz ao Senhor um voto que não posso quebrar" (NVI).

3º - Não seja precipitado em fazer votos. Se foi feito um voto precipitado que não esteja em harmonia com os propósitos divinos é preciso arrepender-se e confessar o pecado. Um voto é coisa muito séria, e não deve ser tratado de maneira leviana. Pois os votos podem ser mal-empregados. A própria lei adverte contra isso, assim como os ensinamentos de sabedoria e os livros dos profetas (Dt 23.21-23; Pv 20.25; Jr 44.25). Saul propunha-se tanto a fazer votos insensatos como a não cumpri-los (1Sm 14.24-28; 19.6). Votos por impulso podem não ser cumpridos, o que desperta a ira de Deus.

Antes de fazer qualquer voto devemos nos lembrar de quatro coisas básicas:

1 - Todo voto deve agradar a Deus: Lv 22.17-23.
2 - Todo voto deve ser pago a Deus: Dt 12.11; Sl 22.25; 65.1; Ec 5.4.
3 - Todo voto será lembrado por Deus: Gn 31.13.
4 - Todo voto deve ser feito para Deus: Gn 28.20.

Não brinque com o voto feito a Deus. Hernandes Dias Lopes diz Sansão fez pouco caso de seus votos de consagração e perdeu o vigor de seu testemunho. Perdeu sua força e sua visão. Perdeu sua dignidade e sua própria vida. Vocacionado para ser o libertador do seu povo, tornou-se cativo. Porque desprezou os princípios de Deus, o nome de Deus foi insultado num templo pagão por sua causa. Sansão brincou com o pecado e o pecado o arruinou. Sansão não escutou conselhos e fez manobras erradas na vida [3].

EM TERCEIRO LUGAR, CREIO QUE DEVEMOS FAZER VOTOS HOJE PARA UMA VIDA ESPIRITUAL MAIS ELEVADA.

Concordo com A. W. Tozer quando disse que algumas pessoas rejeitam a ideia de fazer votos, mas na Bíblia você encontrará muitos grandes homens de Deus que foram dirigidos por alianças, promessas, votos e compromissos. O salmista não era avesso a fazer votos. "Os votos que fiz, eu os manterei, ó Deus", disse ele. "Render-te-ei ações de graça" (Sl 56.12).

Meu conselho nessa questão é que se você está realmente preocupado com seu avanço espiritual – a obtenção de novo poder, nova vida, nova alegria e novo reavivamento pessoal dentro de seu coração –, será bom fazer certos votos e empenhar-se por cumpri-los. Se você falhar, prostre-se em humilhação, arrependa-se e comece novamente, mas sempre leve em consideração os votos feitos. Eles irão ajudar a harmonizar seu coração com os vastos poderes que fluem do trono onde Cristo está assentado, à destra de Deus [4].

Como já falamos voto não é barganha, muito menos suborno santo como pagamento pelas bênçãos recebidas. Mas antes de qualquer coisa o voto tem o sentido original de consagração e gratidão a Deus, ou seja, o voto tem como ponto central a glória de Deus através de uma vida consagrada a Ele.

A. W. Tozer nos diz que devemos fazer cinco votos para obtermos poder espiritual. São eles: Trate Seriamente com o Pecado. Não Seja Dono de Coisa Alguma. Nunca se Defenda. Nunca Passe Adiante Algo que Prejudique Alguém. Nunca Aceite Qualquer Glória [5].

Votos como estes são bem diferentes do que temos visto por aí em certas igrejas. Estes são votos que nos afastam do pecado e nos aproximam de Deus; são votos que nos levam a refletir sobre nossa vida espiritual e de como devemos vigiar para não sermos canal de maldição e não de bênção na vida das outras pessoas. Tais votos não são fáceis de por em prática, mas são excelentes para nos deixar com uma vida exemplar e mais santa.

Vamos pensar nesses cinco votos.

Primeiro voto: Trate Seriamente com o Pecado. O pecado tem sido disfarçado nestes dias, aparecendo com novos nomes e caras. O pecado é chamado por diversos nomes enfeitados – qualquer nome, menos pelo que ele realmente é. Por exemplo, os homens já não ficam mais sob convicção de pecados; eles têm um complexo de culpa. Em lugar de confessar suas culpas a Deus, para se livrarem delas, deitam-se num divã e tentam relatar o que sentem a um homem que deve conhecer melhor tudo sobre eles. Após algum tempo, a resposta dada é que eles foram profundamente desapontados quando tinham dois anos, ou alguma coisa semelhante. Supõe-se que isso os fará sentirem-se melhor.

A Bíblia é muito clara em relação ao pecado e as suas consequências. Em Romanos 6.23 nos diz que o salário do pecado é a morte, se é a morte não podemos negligenciar esse fato. No entanto, é exatamente isso que em muitas igrejas se tem feito.

Veja o que nos diz Davi no Salmo 32.1-5 nos diz:

“Bem-aventurado aquele cuja iniquidade é perdoada, cujo pecado é coberto. Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não atribui iniquidade e em cujo espírito não há dolo. Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia. Porque a tua mão pesava dia e noite sobre mim, e o meu vigor se tornou em sequidão de estio. Confessei-te o meu pecado e a minha iniquidade não mais ocultei. Disse: confessarei ao SENHOR as minhas transgressões; e tu perdoaste a iniquidade do meu pecado” (ARA).

O pecado é uma fraude. Promete prazer e paga com o desgosto. Faz propaganda de liberdade, mas escraviza. Levanta a bandeira da vida, mas seu salário é a morte. Tem um aroma sedutor, mas ao fim cheira a enxofre. Só os loucos zombam do pecado. O pecado é maligníssimo. Ele é pior do que a pobreza, do que a solidão, do que a doença. Enfim, o pecado é pior do que a própria morte. Esses males todos não podem destruir sua alma nem afastar você de Deus, mas o pecado arruína seu corpo, sua alma e afasta você eternamente de Deus [6].

Por isso eu quero convidá-lo a rever a sua vida e a tomar muito cuidado com o pecado. Ele seduz, mas o seu fim é caminho de morte. Ele pode ser doce em nossa boca, mas amargo como fel em nosso ventre. O pecado é algo tão sério que foi por causa dele que o nosso Senhor morreu na cruz. Veja o que nos diz Pedro em sua primeira carta:

“Ele mesmo levou em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, a fim de que morrêssemos para os pecados e vivêssemos para a justiça; por suas feridas vocês foram curados” (1Pe 2.24 – NVI). 

Veja também Isaías 53.5,6:

“Mas ele foi transpassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniquidades; o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados. Todos nós, tal qual ovelhas, nos desviamos, cada um de nós se voltou para o seu próprio caminho; e o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós” (NVI).

Por isso que a Bíblia nos diz que o pecado deve ser confessado e deixado. Veja o que nos fala 1 João 1.9-10; 2.1,2:

“Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça. Se afirmarmos que não temos cometido pecado, fazemos de Deus um mentiroso, e a sua palavra não está em nós. Meus filhinhos, escrevo-lhes estas coisas para que vocês não pequem. Se, porém, alguém pecar, temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo. Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos pecados de todo o mundo” (NVI).

Precisamos tratar firmemente com o pecado em nossa vida. Lembremo-nos sempre disso. “O reino de Deus não é comida nem bebida”, disse o apóstolo Paulo, “mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). A justiça repousa à porta do reino de Deus. “A alma que pecar, essa morrerá” (Ez 18. 4, 20) [7].

Leve o pecado a sério!

Segundo voto: Não Seja Dono de Coisa Alguma. Com isso, não quero dizer que não possamos possuir coisas. Quero dizer que devemos ser libertos do senso de possuí-las. Esse senso de posse é o que nos embaraça.

Não há dúvidas de que esse apego excessivo às coisas é um dos mais danosos hábitos que alguém pode ter. Como é uma atitude bastante natural no ser humano, raramente reconhecemos a malignidade dela; mas suas consequências são trágicas. Como nos alertou Paulo em sua carta em 1 Timóteo 6.9,19:

“Os que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos descontrolados e nocivos, que levam os homens a mergulharem na ruína e na destruição, pois o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, desviaram-se da fé e se atormentaram com muitos sofrimentos” (1Tm 6.9,10 –NVI).

A avareza é a sede insaciável de uma quantidade cada vez maior de algo que acreditamos ser necessário para nos fazer sentir verdadeiramente satisfeitos. Pode ser a sede de dinheiro ou das coisas que o dinheiro pode comprar, pode também ser a sede de cargos e de poder. Jesus deixou claro que a vida verdadeira não depende da abundância de posses. Não negou que temos certas necessidades básicas (Mt 6.32; 1Tm 6.17). Apenas afirmou que não tornaremos a vida mais rica adquirindo mais coisas [3].

Terceiro voto: Nunca se Defenda. Todos nós nascemos com o desejo de defender-nos. E caso insista em defender a si mesmo, Deus permitirá que você o faça. Porém, se você entregar sua defesa a Deus, então Ele o defenderá. Ele disse a Moisés certa vez: “Serei inimigo dos teus inimigos e adversário dos teus adversários” (Ex 23.22).

Fazer um voto de nunca se defender pode parecer algo plenamente absurdo. Há em nós um mecanismo automático de defesa que nos leva a reagir, por vezes de forma violenta, frente a menor ameaça. Chamamos isso de instinto de defesa. O instinto de defesa, por exemplo, surge como uma ação de preservação frente a uma ameaça. Todas as vezes que uma pessoa se sente ameaçada o instinto de defesa, que também pode ser chamado de instinto de preservação do ego entra em ação. É pela via da proteção que o instinto de defesa surge na vida.

São três tipos de proteção:

Proteção física – quando uma pessoa percebe que a sua integridade física é ameaçada ela tende a se defender desta ameaça até mesmo agredindo o agressor. Essa reação é tão legitima que a lei a reconhece como uma ação em legítima defesa.

Proteção emocional ou psíquica – quando uma pessoa percebe que as suas emoções, os seus sentimentos, a percepção de si mesma é ameaçada ela tende a se defender. Por exemplo: frente a uma fofoca, uma calúnia ou uma acusação à pessoa também busca se defender. A lei também faculta processar uma pessoa frente a uma calúnia ou difamação moral.

Proteção espiritual – o homem é um ser religioso por natureza, e quando ele percebe que existe uma ameaça espiritual que ronda a sua vida ele busca a religião para se proteger dos espíritos malignos.

No Velho Testamento a lei da retribuição era muito bem representada a partir da expressão: “olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferimento por ferimento, golpe por golpe” (Êx. 21.24,25). É a conhecida lei de talião, cujo significado é pena igual à ofensa.

Quando falamos “nunca se defenda” queremos dizer duas coisas básicas:

1º - Não seja uma pessoa vingativa. A vontade muitas vezes é retribuir com a mesma moeda a pessoa que nos prejudicou, mas não é isso que a Bíblia nos ensina. Veja o que o Senhor Jesus nos diz em Mateus 5.38-48:

Vocês ouviram o que foi dito: “Olho por olho e dente por dente”. Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra. E se alguém quiser processá-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa. Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha, vá com ele duas. Dê a quem lhe pede, e não volte as costas àquele que deseja pedir-lhe algo emprestado. Vocês ouviram o que foi dito: “Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo”. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa vocês receberão? Até os publicanos fazem isso! E se saudarem apenas os seus irmãos, o que estarão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso! Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês (NVI).

Veja o que o apóstolo Paulo nos fala também em Romanos 12.19-21:

Amados, nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: “Minha é a vingança; eu retribuirei”, diz o Senhor. Ao contrário: “Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber. Fazendo isso, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele”. Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem (NVI).

“Se vocês ouvirem atentamente o que ele disser e fizerem tudo o que lhes ordeno, serei inimigo dos seus inimigos, e adversário dos seus adversários” (Êx 23.22 – NVI).

A vingança nunca é plena, mata a alma e envenena. Seu Madruga

2º - Não se preocupe em defender a sua reputação. Não existe nada que nos afete mais do que sermos atingidos em nossa reputação. A. W. Tozer diz que: “Sua reputação é o que os outros pensam que você é, e se surgir alguma história sobre você, a grande tentação é tentar correr para acabar com ela”.

Mas a coisa mais difícil é encontrar a pessoa que deu origem a difamação. Chegar ao final de uma história e descobrir quem foi que inventou todo o boato contra a nossa reputação é difícil. O fofoqueiro é além de tudo um covarde. Além de ele usar as pessoas para passar uma inverdade, ele sempre se esconde nas insinuações e se esquiva dizendo: “mas eu não quis dizer isso”.

Se estivermos convictos da nossa relação de compromisso perante Deus não temos o que temer. Pois Deus atuará em nossa defesa, e nós precisamos crer nisso. Mas se o que estão falando a nosso respeito procede temos que mudar a nossa conduta.

Reputação é o que as pessoas pensam ao meu respeito. Caráter é o que eu sou quando ninguém está me olhando. D. L. Moody

Quarto voto: Nunca Passe Adiante Algo que Prejudique Alguém. “O amor cobre multidão de pecados” (1 Pe 4.8). O fofoqueiro não tem lugar no favor de Deus. Se você sabe alguma coisa que possa vir a obstruir ou ferir a reputação de um dos filhos de Deus, enterre-a para sempre.

AS TRÊS PENEIRAS

Um rapaz procurou Sócrates e disse-lhe que precisava contar-lhe algo sobre alguém.
Sócrates ergueu os olhos do livro que estava lendo e perguntou:
- O que você vai me contar já passou pelas três peneiras? 
- Três peneiras? - indagou o rapaz.
- Sim! A primeira peneira é a VERDADE. O que você quer me contar dos outros é um fato? Caso tenha ouvido falar, a coisa deve morrer aqui mesmo. Suponhamos que seja verdade. Deve, então, passar pela segunda peneira: a BONDADE. O que você vai contar é uma coisa boa? Ajuda a construir ou destruir o caminho, a fama do próximo? Se o que você quer contar é verdade e é coisa boa, deverá passar ainda pela terceira peneira: a NECESSIDADE. Convém contar? Resolve alguma coisa? Ajuda a comunidade? Pode melhorar o planeta?
Arremata Sócrates:
- Se passou pelas três peneiras, conte! Tanto eu, como você e seu irmão iremos nos beneficiar.
Caso contrário, esqueça e enterre tudo. Será uma fofoca a menos para envenenar o ambiente e fomentar a discórdia entre irmãos, colegas do planeta.
A fofoca é diferente de compartilhar informações de duas maneiras:

1 - Intenção. Os fofoqueiros muitas vezes têm o objetivo de se elevar ao custo de fazer com que outras pessoas se pareçam más; também exaltam-se como uma espécie de repositórios de conhecimento.

2 - O tipo de informações compartilhadas. Os fofoqueiros falam dos erros e defeitos dos outros, ou revelam detalhes potencialmente embaraçosos ou vergonhosos sobre a vida alheia sem o seu conhecimento ou aprovação. Mesmo se não tiverem má intenção, ainda é fofoca.

Mas o que a Bíblia tem a falar sobre a fofoca? Vejamos:

Tiago nos fala do mau uso da língua – Tg 3.1-12. Vejamos outros textos – 1Tm 5.11-13; Pv 11.13, 20.19, 18.19, 26.22; Lv 19.16; Rm 1.29,30; 2Ts 3.11).
Cuidado com a sua língua.

Quinto voto: Nunca Aceite Qualquer Glória. Deus é zeloso de Sua glória e não a dará a ninguém. Ele não irá nem mesmo compartilhar Sua glória com quem quer que seja. É muito natural, diria eu, que as pessoas esperem que talvez seu serviço cristão lhes dê uma oportunidade de demonstrar seus talentos. Verdadeiramente querem servir ao Senhor, mas também querem que os demais saibam que estão servindo ao Senhor. Elas querem ter reputação entre os santos. Este é um terreno muito perigoso: buscar reputação entre os santos. Já é ruim o bastante procurar reputação no mundo, mas é pior procurar reputação entre o povo de Deus. Nosso Senhor desistiu de Sua reputação, e devemos fazer isso também.

Nós vivemos para glorificar o nome do Senhor e não o nosso próprio nome. Tome cuidado para não querer a glória que pertence ao Senhor, o diabo a quis e foi lançado do céu (Is 14.12-14; Ez 28.12-15).  

Jesus nos alertou a respeito do perigo quando o mundo nos tratar bem:

“Ai de vocês, quando todos falarem bem de vocês, pois assim os antepassados deles trataram os falsos profetas” (Lc 6.26 – NVI).

Paul Washer conta que “John Wesley estava pregando pelo país, montado em seu cavalo, meditando na palavra de Deus. Ele percebeu que em três dias ninguém o tinha perseguido, ninguém o tinha caçado, ninguém o tinha amaldiçoado, ninguém tinha tentado bater em seu corpo com paus e pedras. Então ele desceu de seu cavalo, e começou a orar e indagar em seu coração. Ele disse: “Deus, eu me tornei um homem carnal? Minha mensagem se tornou tão mundana que ninguém mais me persegue?” Exatamente neste momento de sua oração um fazendeiro que odiava John Wesley, o viu orando, pegou um tijolo, e jogou nele, que passou raspando o seu nariz. Então Wesley louvou ao Senhor, dizendo: “Deus, muito obrigado! Agora sei que o Senhor confirmou seu favor por mim”. Então quando você se levanta e pessoas aplaudem é meio assustador, você espera que seja um reflexo de piedade de ambas as partes, mas você nunca tem certeza. Precisamos entender que o cristianismo nunca será amigo deste mundo. O cristianismo sustenta o único caminho para a salvação deste mundo, eles nunca serão amigos. O cristianismo nunca se mistura as exigências do mundo, mas as exigências deste mundo se misturam a ele”.

CONCLUSÃO

Fazer votos, talvez você esteja se perguntando se esse é o caminho certo a percorrer; eu só posso lhe dizer que independentemente de você fazer esses votos ou não, deveria, pelo menos, se abster de não praticá-los. Pois a vida crucificada é uma vida de renúncia, de consagração ao Senhor, por isso que não temos como fugir desses votos. Poderíamos incluir ai: mais tempo de oração, ler a mais a Bíblia e estudá-la com mais dedicação, ler mais livros evangélicos ou livros edificantes, ser mais amigo, mais dedicado à igreja, dar melhor testemunho no trabalho, na escola, na faculdade, ser melhor pai, mãe, filho, marido, esposa...

Esses votos não passam de molhar os pés no Rio da Vida, quando na verdade devemos atravessá-lo à nado (Ez 47.1-5). Mas para atravessá-lo devemos começar molhando os pés.

Faça esses votos e diga para si mesmos: “Com ajuda de Deus irei cumpri-los!”

Pense nisso!

Notas:

1 – Wiersbe, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo vol. 3. Editora Geográfica, Santo André, SP, 2012: p. 286.
2 – Ibid, p: 286.
3 – Lopes, Hernandes Dias. Mel na caveira de um leão morto. http://hernandesdiaslopes.com.br/portal/mel-na-caveira-de-um-leao-morto/ acessado em 20/12/16.
4 – Tozer. A. W. Cinco votos para obter poder espiritual. Editora dos Clássicos, São Paulo, SP, 2004: p. 8.
5 – Ibid, p: 4.
6 – Lopes, Hernandes Dias. Cuidado com o pecado. http://hernandesdiaslopes.com.br/portal/cuidado-com-o-pecado/ acessado em 21/12/16.
7 – Tozer. A. W. Cinco votos para obter poder espiritual. Editora dos Clássicos, São Paulo, SP, 2004: p. 11.
8 – Wiersbe, Warren W. Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo. Editora Geográfica, Santo André, SP, 2012, p. 286.

sábado, 17 de dezembro de 2016

O PÚLPITO EM RUÍNAS PARTE 2


Por Pr. Silas Figueira

INTRODUÇÃO

O maior perigo que a igreja corre hoje não é a perseguição, e sim a perversão. Se Satanás não pode derrotar a igreja, tenta ingressar-se nela. A proposta de Satanás não é substituição, mas mistura. Não é apostasia aberta, mas ecumenismo. A ameaça mortal vem de dentro, das chamadas heresias domésticas.

Durante muito tempo lutamos contra as Testemunhas de Jeová, contra os Mórmons, contra os Adventistas, mas hoje estamos nos deixando seduzir pelo evangelho da prosperidade, pelo pensamento positivo, pelo determinismo. Doutrinas orientais têm invadido as nossas igrejas de forma caudalosa; psicologia ao invés do Evangelho transformador está tomando os púlpitos de nossas igrejas. Líderes que estão na mídia distorcendo as Escrituras com uma teologia louca, levando os incautos a se decepcionarem com Deus, pois eles, em nome de Deus, fazem promessas que distorcem o puro Evangelho.

Algum tempo atrás havia um determinado pastor pregando na televisão dizendo que qualquer líder ou igreja que prega que o crente tem que ficar rico é um enganador. Ele disse assim: “não pense que todo mundo vai ficar rico não, isso é balela, é cascata; qualquer pastor que promete riqueza a todo mundo é um cara de pau safado, um pilantra, ludibriador de fé. Digo aqui rasgado mesmo porque não tem conversa. Quem te falou que todo mundo vai ficar bem financeiramente? Quem te falou que todo mundo vai ficar rico? Onde está isso na Bíblia?”

Meses depois, este mesmo pastor estava na televisão dizendo tudo ao contrário do que havia dito antes (parece até música do Raul Seixas). Ele disse meses depois assim: “você só vai experimentar estas coisas o dia em que você aprender a ser liberal, se não você só vai ouvir e nunca experimentar em sua vida. Agora, Deus tem falado ao meu coração e vou dizer pra vocês, e quero ser profeta de Deus para que algum irmão que está me vendo pela TV e que estão aqui; Deus tem falado ao meu coração, Deus nesta reta final da igreja, Ele quer dar riquezas para crente, mas não quer dar riqueza para miserável... Deus quer dar riquezas para crentes liberais que vão investir na obra de Deus...”. Depois esse pastor pega uma Bíblia de estudos que ensina como alcançar vitória financeira. Quanta contradição!

Essa é mais uma ruína em nossos púlpitos que já andam tão esfacelados, tão cheios de “cupins espirituais” destruindo a sua base. Com isso em mente, vamos enumerar mais alguns fatos que têm levado muitos púlpitos à ruína hoje:

Primeiro, há pastores gananciosos atrás do púlpito. Há pastores mais interessados no dinheiro das ovelhas do que na salvação delas. Há pastores que negociam o ministério, mercadejam a palavra e transformam a igreja em um negócio lucrativo. Há pastores que organizam igrejas como empresa particular, onde prevalece o nepotismo. Transformam o púlpito em balcão, o evangelho e os crentes em consumidores [1].

O Evangelho sofre atualmente grande desgaste no seio da sociedade por causa dos “mercenários”, homens que fazem do ministério fonte de enriquecimento, verdadeiro comércio.

A avareza pode levar o servo de Deus a destruir seu ministério, pois se transforma num sentimento maligno, capaz de apagar os mais nobres anseios do espírito (Pv 15.27; Ec 5.10; Jr 17.11; 1Tm 6.10; Tg 5.3). Eis, o que a avareza pode fazer:

-  Acã apanhou o que era ilícito, mesmo sabendo que se tornaria maldito (Js 7.21).

- Balaão foi capaz de dar perverso conselho para ter os prêmios de Balaque (Nm 31.15,16, 22.5, 23.8; 2Pe 2.15; Jd 11; Ap 2.14).

Judas Iscariotes traiu o Mestre por causa de trinta moedas de prata (Mt 26.14-16).

O pastor, portanto, deve ter cuidado para não se deixar dominar pelo sentimento da avareza. Em busca de bom salário, pode sair do plano de  Deus, e seu ministério naufragar (Nm 16.15; 1Sm 12.4; At 20.33) [2].

Charles Haddon Spurgeon disse:

“Será que um homem que ama mais o seu Senhor estaria disposto a ver Jesus vestindo uma coroa de espinhos, enquanto ele mesmo almeja uma coroa de louros? Haveria Jesus de ascender ao trono por meio da cruz, enquanto nós esperamos ser conduzidos para lá nos ombros das multidões, em meio a aplausos? Não seja tão fútil em sua imaginação. Avalie o preço; e, se você não estiver disposto a carregar a cruz de Cristo, volte à sua fazenda ou a seu negócio e tire deles o máximo que puder, mas permita-me sussurrar em seus ouvidos: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”Citado por John MacArthur [3].

Segundo, há muitos pastores mundanos atrás do púlpito. A igreja contemporânea está passando por uma revolução sem precedentes, desde a Reforma Protestante, em seus estilos de adoração. O ministério das igrejas casou-se com a filosofia de marketing, e o “filhote monstruoso” dessa união é um diligente esforço para mudar a maneira como o mundo enxerga a igreja. O ministério da igreja está sendo completamente renovado, na tentativa de torná-lo mais atraente aos incrédulos.

Os especialistas nos dizem que pastores e líderes de igrejas que desejam ser mais bem-sucedidas precisam concentrar suas energias nesta nova direção. Forneça aos não-cristãos um ambiente inofensivo e agradável. Conceda-lhes liberdade, tolerância e anonimato. Seja sempre positivo e benevolente. Se for necessário pregar um sermão, torne-o breve e recreativo. Não pregue longa e enfaticamente. E, acima de tudo, que todos sejam entretidos. As igrejas que seguirem estas regras experimentarão crescimento numérico, eles nos afirmam; e as que as ignorarem estarão fadadas à estagnação [4].

Este tem sido, há muito tempo, os “cultos” que temos visto por aí. Mas quem se enquadra dentro desse sistema são pastores mundanos que deixaram o caminho da piedade para seguir o caminho do sucesso. Líderes que querem movimento e não vidas transformadas pelo poder do Evangelho. Pastores que utilizam do pragmatismo para ver resultados “positivos” na igreja.

Recentemente um carro de som estava passando pelos bairros da cidade que moro convidando os jovens para um baile funk, só que este baile era em uma igreja evangélica.    
  
Terceiro, há muitos pastores mal intencionados atrás do púlpito. Há muitos pastores que distorcem a Palavra para que ela tenha o resultado esperado nos ouvidos dos ouvintes. Como disse A. W. Tozer: “Qualquer um consegue provar qualquer coisa juntando textos isolados” [5]. E o que mais temos visto são textos fora de contexto sempre com um mau pretexto. Pastores que botam na boca de Deus o que Deus não disse e tiram da boca de Deus o que ele disse. Como certo “apóstolo” que disse num culto: “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”, mas o pior que ele disse que esta palavra está na Bíblia. Sinceramente eu não sabia que Antoine de Saint-Exupéry constava como profeta ou era um dos apóstolos de Cristo.

A igreja de hoje tornou-se indolente, mundana e acomodada. Os líderes da igreja estão obcecados com o estilo e metodologia; perderam o interesse pela glória de Deus e tornaram-se grosseiramente apáticos quanto à verdade e a sã doutrina.

Quando Deus promulgou o Segundo Mandamento, que proibia a idolatria, Ele acrescentou a seguinte advertência: “Eu Sou o SENHOR, teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira geração daqueles que me aborrecem” (Êx 20.5). Outras passagens das Escrituras deixam claro que os filhos nunca são castigados diretamente pela culpa dos pecados de seus pais (Dt 24.16; Ez 18.19-32). Todavia, as consequências naturais daqueles pecados passam realmente de geração à geração. Os filhos aprendem com o exemplo dos pais e imitam o que veem. Os ensinos de determinada geração estabelecem um legado espiritual herdado pelas gerações seguintes. Se os “pais” de hoje abandonarem a verdade, a restauração demandará várias gerações. Os líderes da igreja são os principais responsáveis por estabelecerem o exemplo [6].

Pelo andar da carruagem, creio que a próxima geração, se Deus não intervir, estará perdida dentro das igrejas. Pois o que mais vemos são pastores mal intencionados distorcendo as Escrituras e, por sua vez, crentes que são verdadeiros analfabetos biblicamente falando. Gente que estão longe de seguir o exemplo dos irmãos de Bereia que consultavam as Escrituras diariamente para conferir o ensino de Paulo (At 17.11).

CONCLUSÃO

Que triste realidade a igreja tem enfrentado, mas cabe a cada um de nós, que queremos ver o Reino de Deus estabelecido, lutar com todas as forças para não sucumbirmos diante dessas demandas mundanas.

A luta não tem sido nada fácil, pois o mundo “gospel” tem lutado pera arrebanhar o maior número possível de pessoas e, infelizmente, tem conseguido. Com isso temos visto crentes fracos, mundanos, arrogantes, gente que pensa que são príncipes e princesas de Cristo, e com isso, acham que são melhores do que as outras. Não temos visto crentes a imagem e semelhança de Cristo, mas de seus líderes gananciosos, mundanos e mal intencionados. Gente que reflete a imagem de seus líderes carnais e satânicos.

Eu realmente não sei se vamos vencer está batalha, mas uma coisa eu peço a Deus, que Ele me ajude a continuar pregando a verdade ainda que esta seja pregada a poucos.

Que o Senhor nos ajude.

Pense nisso!     

Fonte:

1 – Lopes, Hernandes Dias. De: Pastor A: Pastor. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2008: p. 17.

2 – Mendes, José Deneval. Teologia Pastoral. Editora CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 12ª Edição 2003: p. 39.

3 – MacArthur, John. Com Vergonha do Evangelho. Editora Fiel, São José dos Campos, SP, 2014: p. 17.

4 – Ibid, p. 45.

5 – Tozer, A. W. A Vida Crucificada. Editora Vida, São Paulo, SP, 2013: p. 20. 

6 – MacArthur, John. Guerra pela verdade. Editora Fiel, São José dos Campos, SP, 2014: p. 18.  

domingo, 11 de dezembro de 2016

O TESTEMUNHO DE JOÃO ACERCA DO VERBO


Pr. Silas Figueira

Texto Base: João 1.15-18

INTRODUÇÃO

Vivemos uma época, embora isso não venha de hoje, onde muitas pessoas dão testemunho acerca do que Deus fez com eles, de como eram antes de terem tido um encontro com o Senhor – de como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo... – parecendo até frase da música “Como os nossos pais” de Belchior. Isso vai dos testemunhos sérios aos mais ridículos, alguns chegando à beira do besteirol, isso para não falar da loucura.

João não age assim. Ele não dá testemunho do que o Senhor fez na vida dele, mas dá testemunho acerca de Jesus. Ele direciona o seu testemunho para revelar quem era aquele que estava entre eles, mas que Israel ainda não tinha consciência disso ainda.

É bom lembrar que João Batista é uma das pessoas mais importantes do Novo Testamento, no qual é mencionado pelo menos 89 vezes. João teve o privilégio especial de apresentar Jesus à nação de Israel. Também foi incumbido da difícil tarefa de preparar a nação para receber o seu Messias. Chamou o povo ao arrependimento dos pecados e a dar testemunho desse arrependimento por meio do batismo e de uma vida transformada [1].

Quando o Evangelho de João foi escrito João Batista já estava morto, no entanto, seu testemunho permanecia e ainda permanece. Apesar de a sua proclamação ser um evento passado, o seu conteúdo é verdade permanente [2]. Muitas pessoas passam pela vida e deixam um legado de bênção; são homens e mulheres que o Senhor usou para proclamar Sua Palavra. Gente que o Senhor levantou em cada época para serem voz profética em meio ao caos que viviam. Desses podemos destacar John Knox, C. H. Spurgen, A. W. Tozer, D. Martyn Lloyd-Jones John Stott... A lista, graças a Deus, é enorme. Nos dias de hoje temos dentre muitos também: Hernandes Dias Lopes, Augustus Nicodemos, Norman Geisler, Kevin DeYoug, Mark Dever... Se formos enumerar perderemos a conta.

Deixar um legado através do testemunho apontando para Cristo e não para si mesmo, essa é a questão. Foi isso que João Batista fez e nos deixou o exemplo.
Diante desse texto quais as lições que podemos aprender através do testemunho de João?

A PRIMEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE O TESTEMUNHO É UM ESTILO DE VIDA (Jo 1.15b).

João dá testemunho dele. Ele exclama: "Este é aquele de quem eu falei”.

Ser testemunha de Jesus é não ter vergonha de mostrar quem Ele é e o que Ele representa para nós. Se nós nos envergonhamos do Senhor, Ele se envergonhará de nós quando regressar na Sua Segunda Vinda. A Bíblia diz em Lucas 9.26:

“Porque, quem se envergonhar de mim e das minhas palavras, dele se envergonhará o Filho do homem, quando vier na sua glória, e na do Pai e dos santos anjos”.

Nunca devemos nos envergonhar do Evangelho, ele é uma fonte de poder. A Bíblia diz em Romanos 1.16:

“Porque não me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego”.

Há três tipos de pessoas: 1) Os que sentem vergonha do Evangelho, 2) Os que são vergonha para o Evangelho e 3) E os que não se envergonham do Evangelho. Quem você é?

1º - Para ser testemunha de Jesus devemos ter consciência de que Ele tem a primazia em nossas vidas (Jo 1.15). João deixa claro que o Senhor tinha a primazia em sua vida. Apesar de João ter nascido seis meses antes de Jesus (Lc 1.36), de modo que essa afirmação refere-se à preexistência de Jesus, não ao dia de seu nascimento. João está se referindo aqui a eternidade do Verbo. João está afirmando que o Verbo era o próprio Deus, que criou e trouxe à existência o próprio tempo, aquele elemento de tempo, do qual João Batista era apenas uma parte integrante [3].

João deixa claro que o Senhor era superior a ele, e que ele não estava em pé de igualdade com o Senhor. Longe disso. João foi um grande profeta, mas isso não fazia dele o Messias.

Há um ditado que diz: “Quer conhecer alguém? Dá-lhe um pouco de poder”. João soube muito bem lidar com o poder.  

- Para ser testemunha de Jesus devemos fazê-lo dentro e fora da igreja (Hb 13.12-16).

 “Assim, Jesus também sofreu fora das portas da cidade, para santificar o povo por meio do seu próprio sangue. Portanto, saiamos até ele, fora do acampamento, suportando a desonra que ele suportou. Pois não temos aqui nenhuma cidade permanente, mas buscamos a que há de vir. Por meio de Jesus, portanto, ofereçamos continuamente a Deus um sacrifício de louvor, que é fruto de lábios que confessam o seu nome. Não se esqueçam de fazer o bem e de repartir com os outros o que vocês têm, pois de tais sacrifícios Deus se agrada” (Hb 13.12-16 – NVI).

O testemunho vai além de contar o que Jesus fez e faz em nossas vidas, é viver o Evangelho de forma plena, não uma vida que se vive dentro da igreja, mas fora dela. Não um Evangelho hipócrita e sem vida, mas um Evangelho que gera vida em outras vidas.

O Evangelho é vivido fora dos portões (Igreja), ou seja, no dia a dia na sociedade em que vivemos. Há muitas pessoas que dentro da igreja são excelentes crentes, mas fora dela ninguém sabe se ele é cristão ou não. E isso vai das vestimentas ao linguajar, gente que compra e não paga, que não gosta de trabalho, mas diz que vive pela fé; todos esses episódios só gera mau testemunho. Só gera escândalo no meio evangélico.

Por isso devemos analisar o nosso discipulado, pois existem três tipos de pessoas que querem ser testemunhas de Cristo (Lc 9. 57-61):
1) Há pessoas que querem seguir a Jesus, mas querem alguma vantagem (Lc 9.57,58).

2) Há pessoas que querem seguir a Jesus, mas não querem ofender os de sua casa (Lc 9.59,60).

3) Há pessoas que querem seguir a Jesus, mas tem saudades do mundo (Lc 9.61,62).

Devemos tomar cuidado com esse pensamento.

Ser testemunha é fazer diferença na sociedade em que vivemos, mostrando ao mundo que o Senhor tem a primazia em nossas vidas.

EU QUERO SER IGUAL AO JOE.

Joe era um bêbado que se converteu milagrosamente, em uma Missão. Antes de sua conversão, ele ganhou a fama de ser um alcoólatra sem recuperação, que passaria sua miserável existência em um gueto. Porém, após sua conversão e uma nova vida com Deus, tudo mudou. Joe tornou-se a pessoa mais zelosa que aqueles que eram ligados à Missão conheceram. Joe passava dias e noites trabalhando na Missão, fazendo tudo o que precisasse ser feito.

Nada do que lhe fosse pedido era considerado por ele uma tarefa humilhante. Quer fosse limpar o vômito de um bêbado que ingeriu violentas doses de álcool, quer os imundos vasos sanitários dos banheiros masculinos, Joe fazia o que lhe pediam com um sorriso no rosto, como se estivesse grato pela oportunidade de ajudar. Diziam que ele alimentava homens fracos que vagueavam pelas ruas e os levava para a Missão, conseguindo roupas limpas e um leito para aqueles que não tinham forças para cuidar de si mesmos.

Certa noite, quando o dirigente da Missão estava proferindo sua mensagem evangelística à costumeira audiência composta de homens mal-humorados e cabisbaixos, houve um que levantou a cabeça,  caminhou pelo corredor em direção ao púlpito e ajoelhou-se para orar, clamando a Deus para ajudá-lo a mudar de vida. O bêbado arrependido gritava repetidas vezes:

— Ó Deus! Quero ser igual ao Joe! Quero ser igual ao Joe! Quero ser igual ao Joe! Quero ser igual ao Joe!

O dirigente da Missão curvou-se e disse ao homem:

— Filho, acho que você deveria orar: “Quero ser igual a Jesus!”

O homem olhou para o dirigente com uma expressão estranha no rosto e perguntou:

— Ele é igual ao Joe?

E sua vida, como tem sido? Será que alguém quer ter você como exemplo?

A SEGUNDA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE A GRAÇA DO SENHOR É DERRAMADA DE FORMA PLENA (Jo 1.16).

“Todos recebemos da sua plenitude, graça sobre graça”.

Essa parte do versículo na verdade é a continuação do verso 14 (o versículo 15 é um parêntese) [4]. Aquele que é a plenitude de Deus veio para oferecer-nos sua plenitude. Nele temos não apenas graça, sobre graça. A graça está encarnada nele, e quem está nele tem graça abundante [5]. Graça resumidamente falando significa: perdão imerecido.

1º - A graça é abundante sobre nós desde os primórdios da humanidade (Jo 1.16). Recebemos da Sua plenitude, ou seja, através da Pessoa de Cristo, o Pai manifestou e derramou sobre nós da Sua infinita graça.

Como nos diz A. W. Tozer, a graça precede tudo – desde o primeiro dia da criação até Maria dando à luz em uma manjedoura em Belém. Foi a graça de Deus em Cristo que salvou a humanidade da extinção, quando os homens pecaram no jardim. Foi a graça divina em Jesus que ainda nasceria que salvou oito pessoas quando o Dilúvio cobriu a Terra (Gn 6.8; 1Pe 3.20; 2Pe 2.5). Foi a graça divina em Cristo, antes da encarnação, que fez Deus estender Suas mãos sobre a humanidade [6].  
     
2º - A graça não nos isenta de lutas, mas nos capacita a testemunhar de Cristo apesar delas (2Co 12.7-10). Esse texto nos mostra o apóstolo Paulo relatando a luta que enfrentava, apesar da graça do Senhor Jesus se renovar sobre a vida dele. Deus não deu o que ele lhe pediu, deu-lhe algo melhor, melhor que a própria vida: a Sua graça. A graça de Deus é melhor que a vida; pois por meio dela enfrentamos o sofrimento vitoriosamente. O que é graça? É a provisão de Deus para cada uma das nossas necessidades. O nosso Deus é o Deus de toda graça (1Pe 5.10) [7].

A TERCEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE O FIM DA LEI É CRISTO (Jo 1.17).

“Pois a Lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por intermédio de Jesus Cristo” (NVI).

A graça consiste no favor e na bondade de Deus, sendo concedida aos que não merecem e que não podem fazer coisa alguma para ser dignos dela. Se Deus nos tratasse de acordo com a verdade, nenhum de nós sobreviveria; mas Ele nos trata de acordo com a Sua graça e verdade. Em Sua vida, morte e ressurreição, Jesus Cristo cumpriu todos os requisitos da Lei; gora, Deus pode compartilhar a plenitude da graça com os que creem em Cristo. A graça sem a verdade seria enganosa, e verdade sem a graça seria condenatória [8].

1º - Jesus não veio rebaixar nem Moisés e nem muito menos a Lei. A Lei é boa, santa e justa, porém nós somos pecadores. Ela é perfeita, mas nós somos imperfeitos. Por isso a Lei não pode justificar. A Lei não tem poder para curar. A Lei pode ferir, mas não fechar a ferida. O papel da Lei, portanto, nunca foi salvar, mas convencer-nos de pecado, tomarmos pela mão e conduzir-nos a Cristo [9]. Até mesmo a Lei foi uma dispensação da graça do Logos, porquanto teve por finalidade especial mostrar aos homens a profunda santidade de Deus, e também que essa santidade precisa ser duplicada nos homens. A Lei simplesmente faltava o poder de produzir essa duplicação moral [...] Cristo é poderoso para produzir tal duplicação por intermédio do Seu Espírito [10].

2º - A função da Lei era nos conduzir a Cristo. O que o Senhor veio fazer foi substituir a Lei de Moisés e se revelar como o ponto central da revelação divina e do novo estilo de vida. Este Evangelho mostra de diversas maneiras que a nova ordem cumpre, ultrapassa e substitui a antiga: o vinho da nova criação é melhor que a água usada na religião judaica (Jo 2.10); o novo templo é mais excelente que o antigo (Jo 2.19); o novo nascimento é a porta de entrada para um nível de vida que não pode ser alcançado pelo nascimento natural, mesmo dentro do povo escolhido (Jo 3.3,5). Moisés foi o mediador da Lei; Jesus Cristo é mais que mediador, é a corporificação da graça e da verdade [11].

QUARTA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE O PAI SE REVELA NO FILHO (Jo 1.18).

“Ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus Unigênito, que está junto do Pai, o tornou conhecido”.

O significado do texto está claro: o Senhor Jesus tem, de uma vez para sempre, revelado o Pai aos homens. Ele é a perfeita exegese de Deus [12]. A palavra conhecer no grego é exegesato, de onde vem a nossa palavra exegese.

Exegese: Exegese é uma análise, interpretação ou explicação detalhada e cuidadosa de uma obra, um texto, uma palavra ou expressão.

Jesus fez conhecido o ser santo de Deus e, acima de tudo, para nós, pobres pecadores, tornou conhecido Seu amor e Sua misericórdia. Ele apresentou Deus. Jesus Cristo conta-nos, de um jeito gentilmente humano, que Deus se importa conosco [13].

1º - Como Deus se revelou no Antigo Testamento. Quando lemos o Antigo Testamento, nós sempre vemos o Senhor se revelando ao homem, ainda que de forma menos abrangente como Ele o fez através de Jesus no Novo Testamento.

No que diz respeito sua essência, Deus é invisível (1Tm 1.17; Hb 11.27). O homem pode ver Deus revelado na natureza (Sl 19.1-6; Rm 1.20) e em seus feitos poderosos na história, mas não pode ver o próprio Deus [14]. O Senhor se revelou aos seus santos no Antigo Testamento muitas vezes através da teofania.

Teofania é uma manifestação de Deus na Bíblia que é tangível aos sentidos humanos. Em seu sentido mais restritivo, é uma aparência visível de Deus no período do Antigo Testamento, muitas vezes, mas não sempre, em forma humana. Algumas das teofanias são encontradas nestas passagens:

1) Gênesis 12.7-9 - O Senhor apareceu a Abraão em sua chegada à terra que Deus prometeu a ele e a seus descendentes.

2) Gênesis 18.1-33 - Um dia, Abraão teve alguns visitantes: dois anjos e o próprio Deus. Ele os convidou para ir à sua casa, e ele e Sara os entretiveram. Muitos comentaristas acreditam que este também poderia ser um exemplo de Cristofania, uma aparência pré-encarnada de Cristo.

3) Gênesis 32.22-30 - Jacó lutou com o que parecia ser um homem, mas era na verdade Deus (versículos 28-30). Isso também pode ter sido um exemplo de Cristofania.

4) Êxodo 3.2 – 4.17 - Deus apareceu a Moisés na forma de uma sarça ardente, dizendo-lhe exatamente o que queria que ele fizesse.

5) Êxodo 24.9-11 - Deus apareceu a Moisés, com Arão e seus filhos e os 70 anciãos.

6) Deuteronômio 31.14-15 - Deus apareceu a Moisés e Josué na transferência de liderança para Josué.

7) Jó 38-42 - Deus respondeu a Jó de um redemoinho e falou longamente em resposta às perguntas de Jó.

Frequentemente, o termo "glória do Senhor" reflete uma teofania, como em Êxodo 24.16-18, a "nuvem" tem uma função similar em Êxodo 33.9. Uma introdução frequente de teofanias pode ser vista nas palavras "o Senhor desceu", como em Gênesis 11.5, Êxodo 34.5, Números 11.5 e 12.5.

Alguns comentaristas da Bíblia acreditam que sempre que alguém recebeu uma visita do "anjo do Senhor", isso era de fato Cristo pré-encarnado. Essas aparições podem ser vistas em Gênesis 16.7-14, Gênesis 22.11-18; Juízes 5.23, 2 Reis 19.35 e outras passagens. Outros comentaristas acreditam que estes eram de fato angelofanias, ou aparições de anjos. Embora não existam Cristofanias indiscutíveis no Antigo Testamento, cada teofania na qual Deus assume forma humana prefigura a encarnação, quando Deus tomou a forma de um homem para viver entre nós como Emanuel, "Deus conosco" (Mateus 1.23) [15].

 2º - Jesus revela a plenitude do Pai. Deus sendo Espírito puro, é invisível à visão física. Nem Abraão, o “amigo de Deus”, nem Moisés, “com quem o Senhor tratava face a face” (Dt 34.10), puderam ver a glória divina em sua plenitude [16]. Jesus Cristo revela Deus a nós, pois Ele é “a imagem do Deus invisível” (Cl 1.15) e “a expressão exata do seu ser” (Hb 1.3). Jesus Cristo explica e interpreta Deus para nós. É simplesmente impossível entender Deus sem seu Filho, Jesus Cristo [17].

Só Jesus pode nos tomar pela mão e nos levar a Deus. Ninguém pode ir ao Pai senão por Ele. Ninguém pode conhecer o Pai senão através de Sua revelação. Deus outrora nos falou muitas vezes, de muitas maneiras, mas agora ele nos fala pelo seu Filho. Em Jesus habita corporalmente toda a plenitude da divindade. Ele é a imagem exata do ser de Deus. Jesus é a exegese de Deus. Quem o vê, vê o Pai, pois ele e o Pai são um [18].

CONCLUSÃO

João Batista é um exemplo de como se deve testemunhar. O testemunho vai além de contar o que fomos e o que o Senhor fez por nós, mas testemunhar é dizer quem é o Senhor Jesus. É falar do Seu amor por nós demonstrado através da sua morte na cruz em nosso lugar. É viver o Evangelho de forma que todos possam ver Cristo em nós, como disse Jesus no Sermão do Monte:

“E, também, ninguém acende uma candeia e a coloca debaixo de uma vasilha. Pelo contrário, coloca-a no lugar apropriado, e assim ilumina a todos os que estão na casa. Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus" (Mt 5.15,16 – NVI).

Testemunhar é viver o Evangelho refletindo a glória de Cristo em tudo que fizermos. É não ter vergonha de dizer de quem somos e porque o amamos.

Que o nosso testemunho seja maduro e não igual de certas crianças e adolescentes que sentem vergonha dos pais quando estão em público.

Pense nisso!

Notas:

1 – Wiersbe, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo vol. 5. Editora Geográfica, Santo André, SP, 2012: p. 368.
2 – Bruce, F. F. João: introdução e comentário. Edições Vida Nova e Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1987: p. 47.
3 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado Vol. 2, versículo por versículo. Editora Candeia, São Paulo, SP, 10ª Reimpressão, 1998: p. 274.
4 – Bruce, F. F. João: introdução e comentário. Edições Vida Nova e Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1987: p. 48.
5 – Lopes, Hernandes Dias. João, As glórias do Filho de Deus. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2015: p. 37.
6 – Tozer, A. W. E Ele Habitou Entre Nós. Graça Editorial, Rio de Janeiro, RJ, 2014, p: 96.
7 – Lopes, Hernandes Dias. 2 Coríntios, o triunfo de um homem de Deus diante das dificuldades. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2008: p. 272.
8 – Wiersbe, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo vol. 5. Editora Geográfica, Santo André, SP, 2012: p. 369.
9 – Lopes, Hernandes Dias. João, As glórias do Filho de Deus. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2015: p. 37.
10 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado Vol. 2, versículo por versículo. Editora Candeia, São Paulo, SP, 10ª Reimpressão, 1998: p. 275.
11 – Bruce, F. F. João: introdução e comentário. Edições Vida Nova e Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1987: p. 49.
12 – Davidson, F. M.A., D.D. O Novo Comentário da Bíblia Vol. II. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1987, p: 1064.
13 – Tozer, A. W. E Ele Habitou Entre Nós. Graça Editorial, Rio de Janeiro, RJ, 2014, p: 99.
14 – Wiersbe, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo vol. 5. Editora Geográfica, Santo André, SP, 2012: p. 369.
15 – O que é teofania? O que é Cristofania? https://gotquestions.org/Portugues/teofania-Christofania.html, acessado em 10/12/2016.
16 – Bruce, F. F. João: introdução e comentário. Edições Vida Nova e Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1987: p. 49.
17 – Wiersbe, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo vol. 5. Editora Geográfica, Santo André, SP, 2012: p. 369. 
18 – Lopes, Hernandes Dias. João, As glórias do Filho de Deus. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2015: p. 39.