quinta-feira, 12 de setembro de 2013

As marcas de uma Igreja verdadeira.


Por João Calvino

Daqui nos desponta, e nitidamente nos emerge aos olhos, a face da Igreja. Pois onde quer que vemos a Palavra de Deus ser sinceramente pregada e ouvida, onde vemos os sacramentos serem administrados segundo a instituição de Cristo, aí de modo algum há de contestar-se que está presente uma igreja de Deus, visto que sua promessa não pode enganar: ”Onde estiver dois ou três congregados em meu nome, aí estou no meio deles” [Mt 18.20]. Mas, para que apanhemos claramente a suma desta matéria, é preciso que avancemos com estes passos: a Igreja Universal é a multidão congregada de todas as nações, a qual, espalhada e dispersa pelos lugares mais remotos, entretanto consente na única verdade da doutrina divinal e é congregada pelo vínculo da mesma religião; sob esta Igreja Universal estão assim compreendidas as igrejas individuais, as quais, em razão da necessidade humana, estão dispostas por cidades e vilas, de sorte que, de direito, cada uma obtenha o nome e a autoridade da Igreja; os indivíduos que, pela profissão de piedade, são desse modo contados entre as igrejas, embora de fato sejam estranhos à Igreja, contudo a ela, de certo modo, pertencem, até que, pelo consenso público, tenham sido eliminados.

Todavia, um pouco diverso é o procedimento no julgar os indivíduos em particular e as igrejas. Ora, é possível que aconteça que, em virtude do consenso comum da Igreja, mercê do qual são introduzidos e tolerados no corpo de Cristo, no entanto devamos tratar como irmãos e tê-los na condição de fiéis quem absolutamente não pensaremos serem dignos do consórcio dos pios. A tais não aprovamos com nosso sufrágio como membros da Igreja, mas lhes deixamos o lugar que têm no povo de Deus, até que seu direito legítimo lhes seja tirado. Mas da própria multidão se sentirá de outra maneira: se ela tem o ministério da Palavra e se honra com a administração dos sacramentos, indubitavelmente longe de merecer ser tida e considerada como igreja, porque essas coisas certamente não são sem fruto. Assim também preservarmos à Igreja Universal sua unidade, a qual espíritos diabólicos têm sempre diligenciado por destruir; tampouco defraudamos as assembleias legítimas de sua autoridade, as quais foram distribuídas conforme a oportunidade dos lugares.

Igreja genuína é toda aquela que proclama a Palavra fielmente e ministra os sacramentos Dignamente. Abandoná-la constitui falta mui grave.

Já estabelecemos a pregação da Palavra e a observância dos sacramentos como sinais para distinguir-se a Igreja, porque estas não podem existir em parte alguma sem que frutifiquem e prosperem pela bênção de Deus. Não estou dizendo que onde quer que a Palavra é pregada aí apareça fruto de imediato; mas, em nenhum lugar é ela recebida e tem seu assento firmado que não ponha à mostra sua eficácia. Seja como for, onde se ouve reverentemente a pregação do evangelho, nem os sacramentos são negligenciados, aí, por todo esse tempo, a face da Igreja aparece não enganosa, nem ambiguamente, da qual a ninguém se permite impunemente a autoridade menosprezar, ou as advertências rejeitar, ou os conselhos resistir, ou das censuras zombar; muito menos a abandonar e cindir sua unidade. Pois o Senhor tem em tão elevada conta a comunhão de sua Igreja, que considera covarde e desertor da religião todo aquele que contumaz se aliena de qualquer comunidade cristã que, ao menos, cultive o verdadeiro ministério da Palavra e dos Sacramentos. Ele estima a tal ponto sua autoridade que, quando é violada, considera como que diminuída sua própria autoridade. Ora, nem é de pouca importância que a Igreja seja chamada “a coluna e fundamento da verdade” e “a casa de Deus” [1Tm 3.15], palavras estas por meio das quais Paulo dá a saber que, para que não pereça a verdade de Deus no mundo, a Igreja é sua fiel depositária; porquanto, por seu ministério e obra, Deus quis fosse conservada pura a pregação de sua Palavra; e, enquanto nos nutre com alimentos espirituais e procura fomentar tudo quanto nos enriqueça a salvação, ele se nos exibe como um pai de família.

Igualmente, não é louvor vulgar dizer que a Igreja é eleita e separada por Cristo para ser sua esposa, que “fosse sem ruga e sem mácula” [Ef 5.27], “seu corpo e sua plenitude” [Ef 1.23]. Do quê se segue que o abandono da Igreja é negação de Deus e de Cristo, razão por que mais se deve guardar de tão celerado dissídio, porque, enquanto nos esforçamos, quanto está em nós, por fomentar a ruína da verdade de Deus, somos dignos de que ele dardeje seus raios com todo o ímpeto de sua ira, a fim de fazer-nos em pedaços. Não se pode imaginar mais atroz qualquer crime do que o de violar com sacrílega perfídia o matrimônio que o Unigênito Filho de Deus se dignou contrair conosco.

Fonte: As Institutas. Livro IV, Capitulo I. IX-XI Via: Teologia e Apologética

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