sábado, 3 de novembro de 2012

Teocentrismo ou Antropocentrismo? Quando A Igreja Se Torna Como O Mundo


Por Josafá Vasconcelos

Quando A Igreja Se Torna Como O Mundo

Os puritanos viveram uma vida de luta sob a força da Palavra e para a glória de Deus. Estavam preocupados com a sã doutrina e a piedade; com vida de oração, de comunhão com Deus e santidade. O puritanismo foi um período curto, de cem anos, em que homens e mulheres viveram de maneira fiel à Palavra de Deus, o que levou alguém a dizer que nunca se viveu as doutrinas da graça em tal nível de espiritualidade e prática como os puritanos, desde o período apostólico. 

Alguém poderia perguntar: por que nós hoje ainda falamos sobre eles e o que têm a ver conosco? Respondo dizendo que eles são nossa origem. Eu sou pastor presbiteriano e sei que o presbiterianismo nasceu do puritanismo. Um pastor presbiteriano subscreve a Confissão de Fé de Westminster como sua confissão oficial (Igreja Presbiteriana do Brasil). Este documento foi fruto daquela reunião na Abadia de Westminster, Inglaterra, de julho de 1643 a fevereiro 1648, onde renomados teólogos estiveram juntos numa assembléia que durou quase cinco anos, em oração, piedade e subjugados à Palavra de Deus, para redigir esta "fiel exposição das Escrituras". Foram santos que, debruçados sobre a Palavra, extraíram o que hoje temos como nossos Símbolos de Fé (Confissão de Fé, Catecismo Maior e Breve).
 
O "Projeto Os Puritanos", iniciado em 1991, visa trazer de volta as doutrinas da Palavra de Deus que foram esquecidas; busca reaver as antigas doutrinas da graça tão fortemente defendidas pelos puritanos e sucessores. Mais do que isso, o Projeto busca considerar uma ênfase na piedade, consagração e santidade. Os puritanos viveram um grande avivamento espiritual e nós sonhamos com isso para a nossa Igreja. Este é o grande objetivo do "Projeto Os Puritanos", que é ainda muito tímido, e de forma humilde semeia a verdade com oração, aqui e ali, instando com as pessoas para que voltem para o antigo Evangelho, as antigas doutrinas da graça.

O passado vagueei procurando um lugar onde "repousar" e com um desejo imenso de acertar, de ser uma bênção, até que Deus me fez conhecer os puritanos. Foi assim que encontrei um "porto seguro" e agora tenho desejado no meu coração, mais que tudo, ser como eles foram - cheios do Espírito Santo, cheios da verdade e fiéis ao Senhor. Não tenho receio de falar isso, pois foi o que mudou minha vida de forma radical. Na verdade, o que mudou minha vida e ministério foi o conhecer a Deus de forma mais profunda mediante Sua Palavra. Ela, sim, é o nosso referencial maior. O que vamos apresentar aqui tem tudo a ver com o desvio da verdade, com este afastamento da verdadeira doutrina, dos padrões que Deus mesmo tem estabelecido, e no qual lamentavelmente nossa própria Igreja já se encontra altamente envolvida. Que Deus, pela Sua misericórdia, venha nos visitar, pois ninguém mais do que Ele ama a Sua Igreja, comprada com Seu próprio sangue. O Senhor está olhando para a Sua Igreja e pode libertá-la daquilo que não está em Seu coração.
 
Nós sabemos que há uma eterna luta que experimentamos contra a nossa carne e nosso eu; contra nossa natureza pecaminosa. Foi o que disse Paulo: há uma luta do espírito contra a carne e da carne contra o espírito; uma luta contra o inimigo das nossas almas que como um leão ruge ao nosso derredor procurando ocasião para tragar-nos. Temos que resisti-lo firmes na fé. Toda aquela armadura de Deus é para nosso auxílio contra as hostes infernais. Mas temos ainda uma luta contra o mundo. Que mundo? Temos de definir essa palavra que tem múltiplos significados nas Escrituras. Precisamos sempre definir as coisas. Temos que nos firmar no significado da palavra "mundo" dentro deste contexto nestas duas passagens: I Jo 2:15 e Tiago 4:4-5.
  1. "Não ameis o mundo nem as cousas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele" (I Jo 2:15).
  2. "Infiéis," ("adúlteros e adúlteras" — revista e corrigida) não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus. Ou supondes que em vão afirma a Escritura: É com ciúme que por nós anseia o Espírito, que ele fez habitar em nós?" (Tg 4:4-5).
Que "mundo" é este nestes textos? É descrito como algo hostil e inimigo de Deus. Certamente Deus está se referindo aqui à filosofia de vida estabelecida no mundo, ou modos vivendi. Aqueles princípios de vida que o mundo tem estabelecido pela própria impiedade do coração humano e também pela inspiração de Satanás que é o príncipe deste mundo. Percebemos que a Palavra de Deus estabelece claramente um confronto entre princípios do Reino do Senhor Jesus Cristo que Ele mesmo veio estabelecer e estão muito claros nas Escrituras, de um modo bem específico no Sermão do Monte, e os princípios do mundo, onde os homens sem Deus simplesmente estabeleceram como consenso geral do que deve ser. Nós devemos nos guardar e ter cuidado de ter envolvimento com esta filosofia mundana, deste princípio do mundo ou "conselho dos ímpios", ou estratégia de ação conforme o mundo ímpio estabelece. Não devemos nos identificar com estes princípios. Deus coloca isso de uma maneira forte quando lemos nas Escrituras as palavras "adúlteros e adúlteras" para se referir a esta comunhão com estes princípios do mundo. Isto é muito sério para Deus e por isso deve ficar bem vivo em nossa mente. Temos que abominar o "princípio do mundo"; a Igreja precisa sentir nojo dele, sendo para isso necessário identificá-lo a fim de ficar bem longe de sua influência, pois o Senhor nos deu o princípio verdadeiro de vida; deu uma estratégia santa para a Sua Igreja, para os cidadãos do Reino, para nós.
 
Vemos nas Escrituras o Senhor dizendo que devemos estar no mundo, mas não ser do mundo. Isto tudo nos mostra de forma clara que Deus tem estabelecido na Sua Palavra esta distância e separação. Esta é a essência da palavra "santo". Quando somos chamados "santos", significa que somos separados do mundo, não no sentido de não estarmos fisicamente nele, porque temos que ser "sal e luz", mas em termos ontológicos; com ele não podemos nos misturar e estabelecer qualquer tipo de comunhão.
 
Hoje isso tem se diluído, essa linha que foi tão claramente estabelecida pelo Senhor já não se distingue mais; não se pode saber o que é do mundo e o que é da Igreja. Parece que há uma mistura causada pelo afastamento daqueles princípios que foram estabelecidos pelos apóstolos, retomados pelos reformadores e ratificados pelos puritanos: aqueles marcos antigos tão claros e bem definidos. Hoje a Igreja se afastou de tal forma que nós temos uma grande mistura que não nos permite saber o que é mundano e o que não é.
 

Creio que uma forma de distinguir estas coisas é usando dois princípios que nos ajudarão a enxergar o problema. É como se colocássemos lentes para ver nitidamente o que é do mundo e o que é de Deus. São dois princípios que precisamos usar para tomar uma decisão e firmar o nosso coração naquilo que é verdadeiro.

Antropocentrismo e Teocentrismo.
 
O primeiro quer dizer que o homem está no centro. O segundo, Deus é que está no centro. O primeiro busca o favor dos homens e seus interesses, o segundo visa a glória de Deus. O antropocentrismo vai identificar princípios e estratégias que são do mundo (humanismo) e o teocentrismo é o princípio que Jesus vê para sua Igreja: a glória de Deus. Ele veio para glorificar o Pai e o nosso propósito como Igreja é esse também. Com estas duas "lentes" poderemos identificar o que é do mundo é o que é de Deus. Com estas lentes vamos olhar para a Igreja de hoje e ver quais as propostas que estão sendo feitas e identificar o que é e o que não é de Deus; vamos ver o que visa o interesse dos homens e o que visa a glória de Deus.

Antes, quero dizer uma coisa importante. Não podemos fazer confusão de nossa relação com o mundo. Nem separatismo, nem mundanismo. Não podemos cair naquele "buraco" do maniqueísmo, uma forma de gnosticismo que enfatizava a existência do "deus do bem" e o "deus do mal". Mas temos de nos lembrar de que quem governa este mundo é o Deus Todo-poderoso, criador e o sustentador de tudo. Ele é o Soberano do Universo e até o diabo e suas hostes estão sob Seu comando. Podemos muito bem trabalhar no mundo secular fazendo a vontade de Deus e para Sua glória, sem sair do mundo, visto que tudo é dEle e para Ele. Temos de ser cristãos no mundo. Lutero e os reformadores entenderam isso e buscaram viver uma vida piedosa no mundo em vez de separar-se dele. Por isso, em virtude de Soli Deo Gloria, surgiram tantas figuras e entidades famosas nas artes (Albrecht Dürer, Rembrandt, Vermeer de Hootsch); na música (Johann Sebastian Bach e G.F. Händel); na ciência (Newton, Kepler, os puritanos que fundaram a famosa Sociedade Real de Ciências na Inglaterra, Blaise Pascal); na política (Cromwell, Abraão Kuyper); na educação (John Comenius, a academia de Genebra, Universidades de Harvard, Yale, Princeton, Leiden); na literatura (Milton, Calvino, Herbert, Donne). David Livingstone, o grande missionário inglês na África, lutou com todas as forças para acabar com o mercado de escravos e o cristão e membro do Parlamento britânico, William Wilberforce, finalmente levou ao fim este comércio condenável. Cristãos verdadeiros nunca pensam em se retirar do mundo (visto que o mundo é do Senhor), mas cumprir seus deveres com vistas à glória de Deus e ao serviço da família e do próximo.

Mas temos de ver o que é de Deus e o que é do mundo no sentido carnal.

Na Evangelização

Quando falamos dos puritanos, falamos inevitavelmente de calvinismo. Os presbiterianos deveriam saber bem o que é calvinismo, pois a Igreja Presbiteriana é calvinista. O que é calvinismo? O que é arminianismo? Na verdade estas duas expressões também têm os seus comprometimentos: ou com a glória de Deus ou com o favor dos homens. Calvinismo nada mais é do que a expressão do Evangelho da graça do nosso Senhor Jesus Cristo. O grande pregador Spurgeon dizia que calvinismo é um apelido, mas na verdade é uma exposição da Bíblia, uma visão mais apropriada e fiel do que é o Evangelho da graça. Este é um apelido em virtude de João Calvino ter sido usado para sistematizar de modo claro, e, para nosso entendimento, o que a Bíblia ensina sobre a essência e natureza do Evangelho da graça. Na questão da salvação (Sotereologia) temos os cinco pontos do calvinismo, que na verdade é uma resposta aos cinco pontos do arminianismo. Isto foi estabelecido melhor no Sínodo de Dort quando foi examinado o documento arminiano (Remonstrancia). "Arminiano" vem de Armínio (Jacobus) e seus seguidores que haviam proposto a natureza do Evangelho do ponto de vista humano. Este Sínodo (de Dort), baseado nos pensamentos de Calvino, estabeleceu uma resposta ao documento arminiano de forma precisa, mostrando o que era a essência do Evangelho segundo Jesus Cristo e como é apresentado nas Escrituras. Os cinco pontos são: Depravação Total, Eleição Incondicional, Expiação Limitada (ou definida), Chamada Eficaz e Perseverança dos Santos.
 

O primeiro ponto é Depravação Total – o calvinismo diz que o homem está morto em seus delitos e pecados e não pode se levantar por si mesmo, nem sequer compreender o Evangelho e muito menos se decidir por Cristo; o livre-arbítrio foi totalmente escravizado ao pecado após a queda; o homem só virá a Cristo se a graça atingir seu coração. Mas os arminianos dizem: Não! O homem é pecador, é verdade, mas nele sobrou o livre-arbítrio que o capacitará a tomar sua decisão, fazer sua parte, tornar eficaz a obra de Cristo.

O segundo ponto é Eleição Incondicional. A Bíblia é clara nisso, quando afirma que Deus escolheu os Seus de forma incondicional, pela Sua graça soberana. Ele não é injusto fazendo assim, visto que os homens caíram perecendo em condenação; mas Ele, por Sua graça, ainda quis salvar os Seus escolhidos.

O terceiro ponto é Expiação Limitada (ou definida). Ele diz que Cristo morreu só pelos eleitos. Nunca se prega sobre isto e assim o povo evangélico desconhece esta verdade bíblica. Alguns nunca ouviram isto: que a morte de Cristo foi em favor dos eleitos de Deus. A Bíblia afirma assim e eu mesmo quase caí "duro para trás", quando, depois de muitos anos como pregador e evangelista em várias cruzadas, tomei conhecimento desta verdade, de que Cristo morreu por aqueles que o Pai elegeu e entregou-os para serem salvos – os eleitos. Na verdade, todos os versículos que aparentemente defendem uma expiação universal têm uma explicação que fazem com que estes não se choquem com o ensino bíblico de que Jesus morreu só pelos eleitos. Mas não se vê explicação por parte dos arminianos para os textos que claramente dizem que Deus deu ao Filho aqueles que Ele elegeu "desde o princípio" para serem salvos. Quando a Bíblia diz "que Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho" é porque Ele não amou só a judeus, mas porque tem eleitos em todas as nações e raças do mundo. Não podemos aceitar que Deus tenha substituído cada pessoa na cruz, mas só os eleitos, doutra sorte, todos estariam salvos. Por isso, teologicamente, não é certo dizer às pessoas indistintamente que Jesus morreu por elas. O correto é dizer que Jesus morreu por pecadores e os salva completamente. É isso que a Bíblia ensina. Você não encontrará nenhum apóstolo dizendo: "Jesus te ama", mas que os homens se arrependam e creiam no Evangelho. Nós pregamos a todos indistintamente, pois a oferta do Evangelho é para todos, mas é certo que só aqueles que são do Senhor virão. Existem tantos versículos que falam sobre isso e eu antes não conseguia ver.

O quarto ponto é a Graça Irresistível que é a obra do Espírito Santo atingindo os corações e atraindo-os de forma irresistível. Esta graça vai diretamente para os eleitos de Deus e neles opera, infunde arrependimento, fé, dando capacidade ao homem para responder ao Evangelho. Esta é a Graça Irresistível.
 

O quinto ponto é a Perseverança dos Santos que afirma que um eleito não pode jamais se perder e vai viver de modo santo. O eleito vai viver em santidade, pois este é o propósito da eleição: "Sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor" (Ef.1:4). Santidade é sinal de eleição. Este é o Evangelho da graça que visa a glória de Deus porque mostra que Deus salva soberanamente a quem Ele quer; a glória é dEle.

Por que estou afirmando tudo isso? Porque quero mostrar a diferença com o pensamento arminiano. O Evangelho que os calvinistas pregam é duro, pois diz: "Não foram vocês que escolheram a Cristo, mas Cristo é quem os escolheu. Não é você quem decide ou aceita, não! Mas é Deus quem salva por Sua graça, pois é soberano. O que você tem de fazer é buscar esta salvação clamando com toda a força do seu coração; tem de clamar e suplicar pedindo a Deus que lhe dê arrependimento e fé para crer no Senhor Jesus". Isto é o que a Bíblia ensina. A soberania de Deus é vista assim e a glória é toda dEle. Mas a pregação arminiana diz: "Dê uma chance para Jesus, Ele morreu pelo mundo; coitado, lá na cruz Ele sofreu e você não faz nada; abra o seu coração, você precisa vir e terá isto e aquilo...; terá prosperidade e vai melhorar em tudo". Veja que a glória é colocada no homem quando se afirma que ele pode fazer através do seu livre-arbítrio, e que a salvação depende dele, pois a decisão está nas suas mãos. Para o arminiano é você que vai, com sua iniciativa salvar a reputação de Deus. Eles perguntam: "Você não vai fazer nada?".

Perguntamos: Qual das pregações é a teocêntrica e qual é a antropocêntrica? Qual a que visa a glória de Deus? Está claro que o arminianismo é antropocêntrico visando a glória do homem, mas o calvinismo é teocêntrico, visa a glória de Deus. O arminianismo diz que Deus existe para nos ajudar, para nos abençoar; Deus existe para nos satisfazer. Mas é o contrário, nós existimos para a glória de Deus. Infelizmente nossas igrejas, presbitérios e a direção da Igreja não têm visto isso. Não há uma preocupação no sentido de reciclar os pastores (com exceções, isso é óbvio) e restaurar a doutrina da Igreja conforme está expressa na Confissão de Fé de Westminster.

Outro comprometimento grave na evangelização tem chegado aqui no Brasil e muitos pastores estão envolvidos com ele. É o Movimento de Crescimento de Igreja (leia Fazendo A Igreja Crescer - Editora Os Puritanos) que começou com McGravan. Seu discípulo, Peter Wagner, que tem sido muito apreciado hoje por seus livros, "comprou" a ideia e o princípio deste movimento nasceu da dificuldade que encontrou McGravan quando era missionário na Índia, para ver convertidos. Ele pensou que alguma coisa estava errada com a forma de evangelizar e concluiu que precisava fazer alguma coisa para "a coisa funcionar". Por isso, começou a examinar a evangelização pela ótica do pragmatismo. Ou seja, "se funciona, está certo". Então, a pergunta mais importante é: o que temos de fazer para funcionar, para que as pessoas se interessem em vir para a igreja? Ele começou a usar as "ciências" para ajudá-lo: sociologia, psicologia, marketing, ciência da comunicação, gerenciamento de empresa, etc. Ele estabeleceu uma metodologia dentro deste princípio pragmático. Usando estes recursos ele estruturou um sistema para evangelizar. Naturalmente que ele não iria usar o costumeiro método de mandar alguém a qualquer lugar para pregar o Evangelho, mas procurava identificar se aquele local era propício para se semear a Palavra, ou seja, se os resultados poderiam ser imediatos, se funcionariam logo. Se você insistisse em um lugar e não visse resultados estaria desperdiçando tempo e os recursos empregados. A orientação era: vá para um lugar onde é fácil a aceitação e não para um onde seja difícil. Por isso, defendia o chamado "mapeamento". O que é isso? Você deve chegar a uma cidade ou lugar e começar a colher informações sobre a existência de igrejas, o número de habitantes (número pequeno é desaconselhável), a receptividade das pessoas, etc. A isto ele deu o nome de "teste de solo". Se aquele "solo" não é favorável, nem tente! Vá a outro lugar onde o crescimento é mais rápido, quem sabe, depois poderá voltar ali. Essa metodologia está sendo muito utilizada no mundo evangélico. Veja o "marketing" sendo usado na Igreja. Temos de fazer propaganda para atrair, usar fórmulas que façam as pessoas se interessarem e assim venham para Cristo. Hoje, temos igrejas nos Estados Unidos onde não se têm mais púlpito. No seu lugar há um sofá grande onde o pregador senta-se para "bater papo", ou um telão onde aparece um filme ou uma partida de basquetebol; é sempre usado o testemunho de alguém que "encontrou" a Cristo; chegam até a usar o seu cachorrinho para fazer uma aplicação... tudo para tornar o ambiente agradável e propício aos ouvintes. Tudo isso está dentro deste programa pragmático. O plantador de igreja tem que ter um número "x" de pessoas convertidas, dentro de um tempo "x" para ser considerado plantador de igrejas. Deste modo ele terá de utilizar estas coisas para plantar e para "segurar" as pessoas. O mais importante não é a mensagem, mas a audiência. Você deve pregar o que elas querem ouvir. Teologia não é importante, doutrina não é importante e sim a metodologia que faz a igreja crescer mais rapidamente. É a era do pragmatismo na evangelização, onde o que interessa são os números. Hoje há uma pressão em relação aos números. Pobre daquele pastor que quer ser fiel e luta na sua igreja pregando o Evangelho na sua essência, muitas vezes com as verdades duras da graça. Esses serão condenados por este Movimento de Crescimento de Igrejas e pelos pragmáticos.

Mas, se Cristo fosse um pragmático e visse aquela multidão procurando o "pãozinho", Ele faria mais um milagre na intenção de conquistá-la. Porém, Jesus disse que eles estavam enganados. Ele pregou um sermão duro: "Vocês têm de comer minha carne e beber o meu sangue". Ele estava dizendo que para ser cristão, um seguidor dEle, teria de lutar. Jesus foi tão duro com eles que começaram a abandoná-lo. Quando vejo este texto em João 6, visualizo os discípulos atrás de Jesus vendo a multidão e os seguidores indo embora, e então penso que eles comentaram uns com os outros dizendo: "Se o mestre não maneirar não vai ficar ninguém." Mas Jesus se dirige a eles e diz: "Vocês também não querem se retirar?". Mas acho que o mais importante é o versículo 44 e o 65 (João 6) quando Jesus diz que ninguém pode vir a Ele se o Pai não o trouxer, se do Pai não for concedido. É como se Jesus dissesse: "Não vou maneirar de modo algum, o Evangelho é este aí que tenho apresentado; não é fácil, vocês têm de tomar a cruz, entrar pela porta estreita, pelo caminho apertado, e só aqueles que são do Pai virão, seja a mensagem dura quanto for; eles virão!"

No entanto hoje percebemos que há um movimento para você ser "amável", "amigável", na sua maneira de pregar; esconder algumas verdades mais duras e falar só o que é agradável. Estive em um certo país do primeiro mundo e fui visitar uma destas igrejas que estão adequadas ao programa de Crescimento de Igreja. Fiquei preocupado com o pastor daquela igreja. Ele estava nesta "pressão". Se não cumprisse com o programa não seria considerado um "plantador" e perderia seu salário. Eu iria pregar naquela igreja e antes ele conversou comigo e me deu algumas explicações do contexto daquele lugar. Ele disse: "Preste atenção, aqui temos pessoas que saem de seus países e vêm para cá em busca de emprego e dinheiro e não podem logo trazer a família. Esperam alguns anos e por não poderem trazer a família 'arranjam' outra mulher e outra família. Nós temos de ser 'compreensivos' com esta situação. Além do mais, eles ficam no país ilegalmente e conseguem trabalho para sobreviver, muitas vezes escusos e também ilegal; se envolvem com falcatruas e outras coisa ilegais. O que posso fazer, senão ser tolerante?"

Quando você começa a trabalhar basicamente com os resultados como alvo principal, está pecando tremendamente contra Deus. Por quê? Porque os resultados pertencem a Deus, ao Espírito Santo. O resultado é terreno sagrado. Nós abominamos isso. Podemos ter alvos de alcançar pecadores, podemos até programar atingir determinada área da cidade, etc. Mas ter alvos de plantar trezentas igrejas até tal ano é errado, porque igrejas são formadas por convertidos, regenerados. É o mesmo que se estabelecer um alvo de "x" convertidos num determinado espaço de tempo. Quando fazemos alvos de ter um número fixo de convertidos em determinado tempo, extrapolamos nossa capacidade e entramos na área de Deus. O pior é que para isso temos de "ajeitar" a mensagem e baratear a graça até alcançarmos estes alvos.

Devemos sempre lembrar: pragmatismo é antropocentrismo. É usar recursos humanos na evangelização, metodologia humana e isso não é bíblico.

Liturgia x Entretenimento

O propósito hoje é fazer um culto agradável, animado, "vivo". Ouço pessoas dizerem: "Vamos cantar tal música porque é uma maneira gostosa de louvar a Deus. Este é meu estilo". Mas se há preferência por estilo, o que na verdade existe é uma ênfase no que agrada ao homem e não naquilo que agrada a Deus na adoração. O que agrada a Deus é essencial e só encontramos como está explicitado nas Escrituras. O culto pertence a Deus, pertence exclusivamente a Ele; não é nosso. Culto é o encontro de Deus com Seu povo, onde Ele estabelece o que Lhe agrada para sua adoração. Ele tem já estabelecido na sua Palavra como deve ser o culto agradável aos seus olhos. As pessoas ficam muitas vezes tentando fazer uma liturgia para os incrédulos se sentirem bem e saírem satisfeitos. Mas os incrédulos têm de ser quebrantados e evangelizados para que se arrependam e não para serem agradados no culto; nunca foi este o propósito de Deus. Não vemos na Bíblia esta orientação de que se deve evangelizar com os cânticos, como se Deus tivesse dito: "Ide por todo mundo e cantai." Não, este não é o ensino da Palavra de Deus. A fé vem pelo ouvir e ouvir o louvor? Não! A fé vem pela pregação. Louvor é para Deus e devemos usá-lo para adorar ao Senhor. É verdade que Deus pode usar o louvor a fim de, em algumas ocasiões, predispor o coração de alguém para ouvir a exposição da Palavra. Não existe na Bíblia nenhuma orientação para se usar louvor para evangelizar. Precisamos corrigir isto.

Muitas vezes somos tentados a fazer certas coisas pensando que Deus vai gostar porque fazemos com toda sinceridade, devoção e boa intenção, mas não é correto, não serve. A boa intenção que agrada a Deus é ir à Bíblia e perguntar: o que devo fazer para agradar ao Senhor e ganharmos os incrédulos para Cristo? Culto é algo tão sério para Deus que qualquer coisa que não seja o que Ele ordenou é fogo estranho e sabemos que a resposta de Deus foi muito séria contra Nadabe e Abiú; Deus os matou. A conversão vem sempre pela Palavra de Deus, pois a Bíblia diz que nós fomos regenerados mediante semente incorruptível da genuína Palavra de Deus. As pessoas esquecem que na adoração a Palavra de Deus é central. A pregação e o ensino foram o centro do ministério de Cristo e dos apóstolos. Muitos pensam que pregar é só falar aos outros, porque ninguém prega para Deus. Nada mais equivocado, pois na pregação não só falamos às pessoas, mas falamos das grandezas de Deus e nisso Ele é glorificado. Pregação, além de ser adoração e um meio de graça, é o método de Deus para converter pessoas. O jovem e famoso pastor escocês, Robert McCheyne, dizia que os ministros deviam estar sempre lembrados de que as almas são livres do inferno e salvas para Deus através da pregação. Esta é a maior obra do ministro do Evangelho - pregação.

Doutrina

O que temos hoje na igreja é o pluralismo teológico e a tolerância doutrinária. Dizem que ao combatermos isso nós nos tornamos radicais e extremistas. Mas, pluralismo é do diabo, foi maquinado no mais profundo inferno. O pluralismo religioso diz assim: "Você quer ser dono da verdade, é? Ninguém é dono da verdade! Há várias formas de se ver a verdade; você tem o seu jeito de interpretar, mas outros podem pensar diferentemente". Pluralismo é o irmão gêmeo do relativismo. Não há uma posição definida. Hoje há uma ojeriza à verdade absoluta; não existe verdade absoluta, isto não é politicamente correto - dizem. Vivemos uma época em que não damos o menor valor às confissões de fé reformadas - no meio presbiteriano hoje, muitos nem conhecem os padrões de fé de Westminster e as crianças nunca memorizaram nada dos catecismos. Muitos dizem que aceitar as Confissões é radicalizar, pois é dogmatizar a verdade. O pensamento liberal afirma que cada um tem sua interpretação. Isto é antropocentrismo, é filosofia humana introduzida na Igreja. Se você tiver posições definidas será acusado de radical, prejudicará a mensagem e no fim sobrarão poucas pessoas. Acham que se sua mensagem for forte, direta e bíblica, as pessoas ficarão ofendidas, pois devemos respeitar as ideias dos outros. Irmãos, cuidado com pregações que não trazem a verdade absoluta e não nos confrontam com a verdade, na suposição de que, se assim for, as pessoas serão feridas na sua sensibilidade. Temos de pensar como Spurgeon, o qual afirmava que a instrução deve ser ministrada de forma definida e dogmática; que os professores dos seminários não deveriam ensinar de modo vago e liberal, apresentando "diferentes pontos de vista" e deixando para o aluno a escolha daquilo que lhe convier; pelo contrário, devem mostrar de modo convincente e inconfundível a mente de Deus e posicionar-se de forma resoluta pelo "antigo Evangelho", saturar-se com ele e por ele estar dispostos a morrer. 

Temos que jogar fora tudo isso que for mundanismo dentro da Igreja: o pluralismo e tolerância doutrinária. É claro que temos de ser tolerantes, mas não com o erro. Temos que voltar à verdade e a Igreja Presbiteriana, que é confessional (temos uma Confissão de Fé de Westminster), deve louvar a Deus por esta bênção. O diabo tem horror à Confissão de Fé e a igreja está à beira da ruína por desprezá-la. A verdade da Palavra de Deus é infalível. Sei que a Confissão não é infalível e os que a redigiram seriam os primeiros a dizer isto, mas não existe nenhuma expressão doutrinária retirada das Escrituras com mais coerência e exatidão da verdade do que este documento. Este legado tem sido desprezado, "jogado para trás" e por isso a Igreja está cada vez mais parecida com o mundo. Nossa luta é por restaurar a verdade absoluta de Deus. Se nós fizermos assim vamos excomungar o lixo e estabelecer a única unidade proposta nas Sagradas Escrituras: em torno da doutrina, em torno do ensino verdadeiro. Devemos ter um só batismo e uma só fé. Até que cheguemos à unidade da fé. Que fé? A doutrina! Devemos ter unidade na doutrina e aí teremos um só pensamento. Isto é teocentrismo!

Liberalismo ético

Temos que analisar I Co. 9:19-23. Alguém pode dizer: "Está vendo, Paulo usa de estratégia, ele é pragmático, ele fez concessões, cedeu nas suas convicções, se fez de fraco para alcançar os fracos". Isto é desconhecer Paulo. Se Paulo tivesse negado suas convicções ele jamais teria sido apedrejado, não teria sofrido perseguição nenhuma. Paulo não está aqui dizendo que sacrificaria a verdade, a mensagem do Evangelho para ganhar alguém - nunca! Ele diz que pessoalmente se sacrifica, que estaria disposto a sofrer o que fosse necessário, mas não "negociaria" a verdade do Evangelho. Alguns dizem que Paulo falou que não importava que o Evangelho fosse pregado por inveja, porfia, contenda, contanto que o Evangelho seja pregado. Então, concluem que não importa o que é dito ou como é feito. Seria isso? Mas Paulo está dizendo que as pessoas podem ter até desejos e objetivos errados no seu coração, mas se estão pregando a verdade como ela deve ser pregada, até isso Deus usará. Porém, Paulo nunca aceitou negociar o Evangelho. Vejamos em I Co 2.1-5: "...não o fiz (anunciar o Evangelho) com ostentação de linguagem, ou de sabedoria....A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a fé não se apoiasse em sabedoria humana; e, sim, no poder de Deus." Paulo disse ainda em I Ts 2.3-6: "Pois a nossa exortação não procede de engano, nem de impureza, nem se baseia em dolo...assim falamos, não para que agrademos a homens, e, sim, a Deus...nunca usamos linguagem de bajulação...jamais andamos buscando a glória de homens..." Gl 1.10: "Porventura procuro eu agora o favor dos homens, ou de Deus? Ou procuro agradar a homens? Se agradasse ainda a homens, não seria servo de Cristo". Como podemos, diante destes textos, pensar que Paulo fizesse concessões em favor dos homens? Paulo nunca negociou a verdade do Evangelho e nunca abriu mão da sua santidade e da sua ética. Ele falou que, por causa da consciência e da liberdade cristã, você não deveria comer aquilo que pudesse escandalizar um irmão mais fraco.

Não podemos abrir mão da verdade. O que vemos na igreja de hoje é o liberalismo ético. Muitos dizem que não há importância se você burla o fisco, vende produtos sem nota e dá propina, ou se está vivendo maritalmente com alguém, mas está cheio de boa intenção, está desejando o crescimento da Igreja, dá um bom dízimo... Isto é antropocentrismo; é igreja mundanizada.

Como ser teocêntrico?

1. Na evangelização, temos de ser fiéis à Palavra de Deus; é pregarmos o Evangelho da graça do nosso Senhor Jesus Cristo, todo conselho de Deus. Muitas vezes temos um sermão para a igreja e um sermão evangelístico. Muitos dizem: "Pastor, faça um sermão evangelístico, nós temos muitos visitantes". O que é um sermão evangelístico? Eles dizem que é falar do amor de Cristo, que se deve voltar para Ele, e fazer um apelo, etc. A verdade é que nós achamos que a conversão das pessoas só é possível se falarmos o que as pessoas querem ouvir, aquilo que satisfaça seus interesses. Mas Deus converte uma pessoa através da Palavra, pela pregação expositiva da Palavra de Deus e todo conselho de Deus; exatamente através de uma pregação que muitos consideram ofensiva às pessoas. Não temos de escolher coisas mais amenas e pregá-las, mas temos de pregar a Palavra, explicando-a e fazendo a aplicação devida do texto para os crentes, para os incrédulos e para adultos e jovens. Ou seja, para os crentes e descrentes que estiverem ouvindo. Uma mensagem fiel às Escrituras, que mostra o amor de Deus e Sua justiça, mesmo que seja dura muitas vezes. A mensagem pode ser aguda, mas sempre deve trazer o bálsamo da graça. É exatamente através dela que o Espírito de Deus trabalha nos corações e não pelo desempenho do pregador, pelo seu jeito de falar. Isto é teocentrismo: ser fiel na pregação da Palavra de Deus que exalta a pessoa de Deus e abate o homem e o coloca no seu lugar devido: "boca no pó". Temos de crer que o Espírito Santo fará a Sua obra e que a Palavra não volta vazia, mas fará aquilo para a qual Deus a tem designado.

O pregador precisa orar e pregar com autoridade, poder e fidelidade à Palavra do Senhor; as consequências estarão com o Senhor, pois Ele fará a obra.

2. Na liturgia, temos de ter um culto simples que vise a glória de Deus, sabendo que no culto reformado, a prioridade não são os cânticos, não é a oração, mas é a pregação e exposição da Palavra; ela tem de ter lugar central e temos de retomar isto. É ela que exalta a Deus, que exorta e edifica os crentes e que converte pecadores.

3. Na doutrina, temos de ser reformados e usar a Bíblia como toda suficiente, autoritativa e inerrante. Temos de usar a Confissão de Fé, pois é uma arma potente para aferirmos nossos conceitos e identificarmos os erros que hoje adentram no arraial evangélico. Temos de usar os catecismos para as crianças, a fim de criarmos uma mentalidade teocêntrica nas gerações que virão.

4. Vida de santidade. Precisamos de vida santa mais do que de metodologia, de palavreado, de ser amigável para que as pessoas venham; o testemunho de uma vida santa é o que fala alto. Disso, estamos precisando hoje, vida de compromisso, vida pura, irrepreensível diante de Deus. Fomos eleitos para isso, disse o apóstolo Paulo aos efésios.

Mas eu pergunto: devemos nos interessar pelo crescimento da igreja em números ou não? Sim, não devemos nos acomodar com o fato de que só haja cinco pessoas na igreja e o que importa é que estejamos pregando a Palavra de Deus. Não deve ser assim. Devemos pregar sentindo no coração o incômodo por ver pecadores caminhando para perdição e crentes que fraquejam em sua devoção por uma vida de frieza espiritual e na busca de um viver santo. Precisamos chorar aos pés do Senhor em favor dos perdidos, clamando a Deus por um genuíno quebrantamento, arrependimento e um verdadeiro avivamento. No passado, os puritanos derramavam a alma diante de Deus por avivamento. Lembramos de David Brainerd. Foi um moço de vinte e poucos anos que foi trabalhar entre os "pele-vermelhas", nos Estados Unidos. Começou a pregar aos índios, mas era muito difícil, pois ele tinha dificuldades em falar a língua deles. Muitas vezes, David Brainerd tinha de se utilizar de um intérprete completamente bêbado, mas mesmo assim pregou um ano, dois anos, e nada acontecia. Ele conta no seu diário que ficava orando pela alma daqueles índios indiferentes, de tal forma e em tal agonia que mesmo na neve sua camisa ficava molhada de suor ao implorar diante de Deus, diante do Seu trono, em favor daquelas almas. Por que David Brainerd não procurou fazer uma festinha lá entre os índios para atraí-los, mas insistiu em pregar, pregar e pregar a Palavra de Deus? Por que ele insistiu em falar da morte de Cristo que nos faz mais alvos que a neve, se eles não queriam nada com o Evangelho? Mas esta era a palavra que ele tinha de pregar, era a palavra que Deus estabelecera e a qual ele foi enviado a anunciar como fiel ministro. Por isso ele insistiu na pregação até à agonia. Em vista do seu trabalho naquela região fria, David Brainerd adoeceu de tuberculose por perder suas defesas físicas, mas Deus, por fim, fendeu os céus e derramou um grande e poderoso avivamento entre aqueles índios "pele-vermelhas". Numa reunião tão pequena, com algumas mulheres, de repente a onda do Espírito veio e aquelas índias se prostraram em choro e quebrantamento pelos seus pecados diante do Senhor. Outros e outros índios vieram e muitas conversões aconteceram em meio a choro, arrependimento, quebrantamento, rendição aos pés do Senhor; em meio a um grande avivamento que atingiu a todos. A Palavra fez isso!
 
O mesmo aconteceu com Jonathan Edwards, cuja filha era noiva de David Brainerd e que também morreu de tuberculose cuidando do seu noivo. Jonathan viu o grande avivamento acontecer na Nova Inglaterra quando pregou aquele sermão tão rejeitado hoje: Pecadores Nas Mãos De Um Deus Irado. Se há um sermão que o pragmatismo abomina é este. Um pragmático diz: nunca pregarei um sermão assim. Mas foi este sermão, essencialmente teocêntrico, que Deus usou para trazer o grande despertamento, onde milhares se converteram a Cristo, no século XVIII. Temos de crer no avivamento, devemos desejar avivamento, quebrantamento, arrependimento nas nossas vidas e na Igreja. Devemos rejeitar estas práticas mundanas antropocêntricas dentro da Igreja e lutar por um retorno à verdade para a glória de Deus. Eu desejo este arrependimento na nossa Igreja no Brasil; desejo que nela haja choro, lamento e arrependimento genuínos no poder do Espírito Santo atingindo os corações pela pregação fiel da Palavra de Deus.
 
Irmãos, desejo intensamente ver, com meus olhos, esta bênção na minha amada e querida Igreja. Que Deus faça isso! Teocentrismo e não antropocentrismo. Uma Igreja conforme o padrão de Deus e não conforme o mundo.
Amém!
Fonte: Editora Fiel

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A hinologia evangélica e a teologia da vingança

 
Por Renato Vargens
 
A hinologia evangélica brasileira é muito complicada. Lamentavelmente boa parte dos nossos compositores não possuem uma boa teologia, o que contribui para o aparecimento de canções absolutamente antagônicas ao ensino das Escrituras. Um claro exemplo disso são as músicas cujo conteúdo incentivam o ódio e a vingança pessoal.

Veja por exemplo a canção "Sabor de mel" protagonizada pela cantora Damares: “
Quem te viu passar na prova e não te ajudou, quando ver você na benção vão se arrepender. Vai estar entre a platéia e você no palco, Vai olhar e ver Jesus brilhando em você” 

Um outro exemplo é uma música da Rose Nascimento que sistematicamente tem sido entoada em boa parte das igrejas evangélicas do Brasil:

“Não se deixe ser levado pela voz do opressor. Ele só sabe acusar. Não se renda porque ele já perdeu  Agora é a sua vez de humilhar” 

Como é que é? Sua vez de humilhar? É isso mesmo? Quem te viu passar pela prova e não te ajudou vai se arrepender? Será que é isso mesmo que eu li?

Caro leitor, o reformador Martinho Lutero acreditava que a música é um excelente instrumento de divulgação de boa teologia, todavia, o que vemos em nosso país são composições desprovidas de boa doutrina, o que muitas das vezes faz com que a Igreja Tupiniquim cante conceitos completamente apostos a doutrina dos apóstolos.

Pois é, participar de alguns cultos é um verdadeiro desafio, isto porque as canções entoadas em nossos cultos são absolutamente desprovidas de graça. Infelizmente  numa liturgia preponderantemente hedonista, este tipo de evangélico é extravagante, quer de volta o que é seu, necessita de restituição, determina a prosperidade e  anseia por vingança.

Prezado amigo, sem sombra de dúvidas vivemos dias complicadíssimos onde o Todo-poderoso foi transformado em gênio da lâmpada mágica, cuja missão prioritária é promover satisfação aos crentes. Diante disto, precisamos orar ao Senhor pedindo a Ele que nos livre definitivamente desse louvor, filho bastardo da indústria mercantilista gospel, o qual nos tem nos empurrado goela abaixo, conceitos e valores anticristãos cujo objetivo final não é a glória de Deus, mas satisfação dos homens.

Definitivamente a coisa está feia! Minha oração é que o Senhor nosso Deus nos reconduza a uma adoração cristocêntrica extirpando das nossas liturgias esse louvor inconsequente que em nada contribui para o engrandecimento do nome do Senhor.

Soli Deo Gloria!
 

Os grupos judaicos na época de Cristo



Resumo
 O presente artigo versa sobre a origem e características dos grupos judaicos do 1º século, e suas influências na sociedade da época. O autor demonstra que a origem de tais grupos se dá em um contexto de reação contra o misticismo e ameaça da existência do judaísmo e que ora tem motivações políticas, ora religiosas, ora filosóficas. Ainda, se por um lado a sinagoga é criada como instrumento de preservação do judaísmo, por outro é uma das responsáveis pela facilitação do surgimento dos diversos grupos judaicos. Dessa forma, as sinagogas eram utilizadas como plataforma nas quais os grupos propagavam suas opiniões ao discordarem dos dirigentes do Templo. Por último, o autor demonstra que os grupos judaicos do 1º século mudaram a essência da fé judaica, e por isso, se por um lado surgiram com o intuito de preservar a fé judaica, por outro lado foram exatamente os responsáveis por fazer com que a fé judaica original se tornasse diferente desse judaísmo. Por isso, modificaram aquilo que tanto desejavam preservar.

Palavras-chave: Judaísmo; 1º Século; Fariseus, Saduceus; Samaritanos; Essênios; Herodianos; Zelotes; Sicários; Publicanos; João Hircano; Flávio Josefo; Zadoque; Neemias; Gerizim; Sambalate; Mikvah; Mar Morto; Qumran; Herodes; Hipermodernidade; Lectio Divina, Templo, Sinagoga.

Introdução
As hostilidades contra o cristianismo primitivo eram comuns, especialmente por parte da comunidade judaica do primeiro século. Inicialmente por parte dos fariseus, que eram um partido religioso, e dos saduceus, que eram um partido político-religioso. Dessa forma, fica claro a existência de grupos judaicos distintos, entre os quais se vê a representação tanto da opinião e posicionamento Escriturístico de seus integrantes bem como de suas ideologias filosófico-políticas.

Todavia, para prosseguirmos é necessário fazermos uso de algumas fontes primárias, a exemplo de Flávio Josefo [1]. A importância deste historiador é de tal importância que o Dr. Augustus Nicodemus declara que “como historiador judeu, as obras de Josefo são inestimáveis para o nosso conhecimento da história dos judeus debaixo do domínio romano” [2]. Dessa forma, são três os grupos judaicos citados por Flávio Josefo, no aspecto filosófico:

Existem, com efeito, entre os judeus, três escolas filosóficas: os adeptos da primeira são os fariseus; os da segunda, os saduceus; os da terceira, que apreciam justamente praticar uma vida venerável, são denominados essênios: são judeus pela raça, mas, além disso, estão unidos entre si por uma afeição mútua maior que a dos outros. [3]

Quando observamos o aspecto filosófico do judaísmo, encontramos três grupos, como fez Josefo – Fariseus, Saduceus e Essênios. Porém, quando observamos o aspecto étnico encontramos os samaritanos que são uma miscigenação de judeus e gentios, e os herodianos que possuíam um laço consanguíneo com Herodes, o Grande. Ainda, haviam os zelotes que eram um grupo político do século I que buscava promover uma rebelião contra o Império Romano, com o intuito de libertar Israel pela força e que termina por promover a Primeira Guerra Judaico-Romana (66-70).

Ainda, outros grupos são encontrados entre os judeus, a exemplo dos sicários e dos publicanos.

Os Sicários eram um subgrupo oriundo dos zelotes, porém, mais radicais. O termo é originário do latim ‘sicarius’ e significa ‘homem da adaga’. Essa expressão só surge algumas décadas após a destruição de Jerusalém no ano 70 d.C., de acordo com Kippenberg, que afirma, ainda, que o termo “foi a denominação dada ao movimento revolucionário rural da Judéia” [4] e já o termo zelotes se referia a “um movimento sacerdotal” [5], isto é, de cunho mais religioso. Por essa razão, o grupo dos Sicários não será tratado em particular neste artigo, pois são uma subdivisão dos zelotes.

Os Publicanos eram os coletores de impostos nas províncias do Império Romano. De acordo com Buckland [6], haviam dois tipos de Publicanos: os Publicanos Gerais e os Publicanos Delegados. Os Publicanos Gerais respondiam ao imperador romano e eram responsáveis pelos impostos. Os Publicanos Delegados eram aqueles que eram comissionados pelos Gerais para coletar os impostos nas províncias. Estes eram considerados como “ladrões e gatunos”. Muito embora fossem odiados pelos seus compatriotas, os judeus, Buckland afirma que diferentemente dos fariseus, os Publicanos não eram hipócritas. Como os Publicanos são mais uma “profissão” do que um grupo filosófico-político-religioso ele não será tratado em particular neste artigo.

Diante do quadro apresentado é importante se estudar cada um desses grupos de forma separada, para depois se montar o quadro político-religioso geral da nação. Por último, buscar aprender com a história para que não se cometam os mesmos erros outra vez.

1. Os fariseus
Em geral, atribui-se o surgimento do farisaísmo ao período correspondente ao cativeiro babilônico (587-536 a.C.). E, basicamente, toda a informação acerca desse grupo é oriunda das obras do historiador Flávio Josefo [7], dos diversos escritos dos rabinos, por volta do séc. II, e das informações contidas no Novo Testamento.

Muito embora se atribua ao termo ‘fariseu’ o sentido de ‘separado’ este significado não é uma certeza. Porém, sabe-se que era o grupo mais seguro da religião judaica (At 26:5), e que surgiu por volta da guerra dos macabeus, com a finalidade de oferecer resistência ao espírito helênico trazido por Roma e que possuía, em seu interior, a intenção de preservar o judaísmo e suas crenças ortodoxas. Muito embora, Enéas Tognini declare que “há dois grupos terrivelmente antagônicos desses “fariseus”: separatistas e liberais. O primeiro se opunha terminantemente às influências helenísticas na Palestina [8], enquanto o segundo era favorável” [9].

Um dos fatores que mais colaborou para a organização deste partido foi a perseguição promovida por Antíoco Epifânio. Porém, Flávio Josefo declara que foi sob a influência de João Hircano [10] que os fariseus passaram a desfrutar do apoio do povo em geral [11].

Ainda, segundo citação de Tognini [12] sobre Josefo, os fariseus criam no livre-arbítrio do homem, na imortalidade da alma, na ressurreição do corpo, na existência de anjos, na direção divina de todas as coisas, nas recompensas e castigos na vida futura, na preservação da alma humana após a morte e na existência de espíritos bons e maus. Contudo, Jesus denunciou severamente este grupo por causa de sua hipocrisia e orgulho.

Em linhas gerais, podemos afirmar que este grupo surgiu por uma boa razão, mas seus objetivos foram desvirtuados no decorrer do tempo, especialmente porque não se deve apenas adquirir o conhecimento ou defendê-lo, mas colocá-lo em prática. Por essa razão, o termo fariseu tornou-se sinônimo de hipócrita. Tanto que o próprio Jesus afirma: “… tudo o que vos disserem, isso fazei e observai; mas não façais conforme as suas obras; porque dizem e não praticam” (Mt 23:3).

Ao extrairmos os ensinos que a história deste grupo nos traz, podemos iniciar uma maratona de cautela e vigilância, porque a defesa da fé deve ser feita alicerçada no amor bíblico e não em bases religiosas fanáticas e desprovidas do biblicismo necessário. Por outro lado, a prática da Lectio Divina [13] precisa ser reensinada na Igreja, para que assim o sistema educacional eclesiástico na hipermodernidade [14] volte a ensinar para o povo a Teologia Bíblica aliada à vida devocional, o que nos auxiliará a não cair em um neo-farisaísmo.

2. Os saduceus 
Era o grupo que fazia oposição aos fariseus.

O surgimento desse grupo traz alguma controvérsia, pois as suas origens são desconhecidas. Alguns acreditam que deve ter surgido com Zadoque, um sacerdote do período do rei Davi.

Este grupo era mais sacerdotal e aristocrático e, sendo mais fechado, não fazia questão de popularização. Ainda, Schubert [15] afirma que de 539 a.C. (período do domínio persa), até o período de Alexandre, o Grande, as famílias dos sumo sacerdotes se mostravam complacentes com os vizinhos pagãos, vivendo em harmonia com os povos helênicos.

Era um grupo composto por homens educados, ricos e de boa posição social. Em geral, tinham crenças opostas a dos fariseus. De acordo com Schubert, ao citar Josefo, os saduceus negavam a ressurreição e juízo futuro, criam que a alma morria com o corpo, negavam a imortalidade, negavam a existência dos anjos e dos espíritos, criam que Deus não intervinha nas vidas dos homens, não tinham as mesmas crenças que os patriarcas, negavam a existência do Sheol (inferno) e só depositavam a crença naquilo que a razão pura pudesse provar. De forma geral, o Novo Testamento apresenta de forma negativa um resumo da crença dos saduceus: “os saduceus dizem que não há ressurreição, nem anjo nem espírito” (At 23:8).

Com isso, percebemos que este era um grupo que interpretava as Escrituras utilizando como base os mesmos pressupostos que futuramente passaram e ser denominados de ‘humanistas’ [16], desconsiderando o caráter divino, espiritual e sobrenatural. Franklin Ferreira faz a seguinte declaração acerca da crença dos saduceus:

Os saduceus, com o seu repúdio à doutrina da ressurreição e descrença na existência de seres angelicais, podem ser considerados como precursores dessa corrente de interpretação das Escrituras. Pouco se sabe sobre a origem desse partido judaico, mas parece haver adotado uma posição secular-pragmática de interpretação das Escrituras. Ao negarem verdades básicas das Escrituras, os saduceus podem ser considerados, guardadas as devidas proporções, como os modernistas ou liberais da época. [17]

Por isso, conclui-se que enquanto os fariseus eram os conhecedores da Escritura, mas hipócritas, os saduceus eram os líderes, mas mercenários e humanistas, no uso geral do termo. Por causa de suas atitudes venais e suas más práticas começaram a se tornar impopulares. A influência dos saduceus era grande, mas sua fidelidade a Deus mínima. A riqueza dos saduceus era grande, mas sua integridade mínima. A influência política e religiosa dos saduceus era grande, mas seu caráter era mínimo.

Ao extrairmos os ensinos que a história deste grupo nos traz, podemos concluir que há uma profunda semelhança na sociedade hipermoderna com os saduceus, já que presenciamos uma diversidade de líderes religiosos que têm se prostituído por causa de benefícios financeiros, status e vantagens pessoais.

3. Os samaritanos
Atribui-se a origem dos samaritanos a ocasião quando Sargom tomou Samaria para o cativeiro e tentou desnacionalizá-los misturando-os com os babilônios (IIRs 17:24). Talvez esse tenha sido um dos motivos pelos quais os outros judeus abominavam os samaritanos, considerando-os a escória da sociedade. Além disso, os samaritanos eram acusados pelos judeus de serem oportunistas, procurando ficar do lado dos judeus apenas quando estes estavam em ascensão.

Este grupo era frequentemente ridicularizado e desprezado pelo restante dos judeus. Joachim Jeremias [18], ao citar a obra de Levi VII 2, afirma que “a partir de hoje Siquém será chamada a cidade dos idiotas, porque nós zombamos deles como se zomba de um louco”.

Costumeiramente, os samaritanos adoravam no templo, porém, ao voltar do cativeiro os judeus os proibiram de participar da reconstrução de Jerusalém, e o genro de Sambalate, que era sacerdote, foi expulso dali por Neemias. Por não terem ‘sangue puro’, não possuir religião judaica, por serem acusados de oportunismo, porque o sacerdote (genro de Sambalate) foi expulso do convívio social e por serem proibidos de participar da reconstrução, começaram a se empenhar contra a obra que Neemias estava fazendo. Então, Sambalate construiu um templo rival ao de Jerusalém, no monte Gerizim. Ainda, para piorar a situação, desde a construção deste segundo templo, a situação entre judeus e samaritanos se agravou, e o clima de ódio e desprezo se torna cada vez maior, como nos apresenta o livro apócrifo de Eclesiástico ao afirmar que “há dois povos que minha alma abomina, e o terceiro, que aborreço, nem sequer é um povo: aqueles que vivem no monte Seir, os filisteus, e o povo insensato que habita em Siquém” [19]. Sabendo que este denominado “povo insensato que habita em Siquém” são os samaritanos.

Ainda, os samaritanos mantinham crenças semelhantes à dos saduceus.

Apesar de todas as acusações do judaísmo contra os samaritanos, encontramos diversas passagens bíblicas, neotestamentárias, nos mostrando a pregação do Evangelho para os samaritanos (Lc 17:16; Jo 4; At 1:8; At 8:5,14; At 9:31) e até uma conduta destes que é contraposta à conduta do farisaísmo (Lc 10:25-37).

Ao extrairmos os ensinos que a história deste grupo nos traz, podemos concluir que o verdadeiro evangelho não faz acepção de pessoas, e trata a todos de igual para igual, independente dos erros passados.

4. Os essênios
Enquanto os fariseus se tornaram sinônimos de hipócritas e os saduceus de mundanismo, o essênismo se torna sinônimo de isolacionismo, isto é, vida separada e afastada de todos.

Os essênios surgiram na tentativa de manter a instrução Escriturística viva, assim como os fariseus, mas sem a hipocrisia característica desse grupo, e a busca por uma vida de fidelidade e compromisso, diferentemente dos saduceus. Por isso, Charles C. Ryrie afirma que o “essenismo foi uma reação ascética ao externalismo dos fariseus e ao mundanismo dos saduceus” [20]. O problema é que eles pensavam que para se cultivar uma vida de santidade teriam que viver isolados do mundo, em um sistema de ascetismo.

Basicamente, os essênios se dedicavam ao estudo das Escrituras, a oração e as lavagens cerimoniais, conhecidas como banhos Mikvah. Dividiam seus bens com a comunidade e eram conhecidos por seu trabalho e vida piedosa.

Existe, ainda, a teoria da existência de dois grupos distintos de essênios, que é apresentada na Enciclopedia de la Biblia, que apresenta o grupo essênio de Qumran e outro, talvez, no Egito [21].

Nos achados do Mar Morto, os manuscritos de Qumran, encontram-se evidências de que os essênios se isolaram por desejarem abandonar as influências corruptas das cidades judaicas. Eles se dedicaram a preparar o “caminho do Senhor”, crendo que o Messias viria, e consideravam-se o verdadeiro Israel. Segundo Josefo, os essênios, além de enviar suas oferendas ao templo, realizavam seus sacrifícios de forma diferente do restante dos judeus e acentuavam a importância da purificação [22]. Por causa dessa diferenciação ritualística, os judeus os proibiram de sacrificar no templo, que os mesmos essênios afirmavam estar contaminado pela impureza da religiosidade social e judaica.

O historiador Plínio [23], o velho, apresenta algumas características desse grupo:

Na parte ocidental do mar Morto os essênios se afastam das margens por toda a extensão em que estas são perigosas. Trata-se de um povo único em seu gênero e admirável no mundo inteiro, mais que qualquer outro: sem nenhuma mulher e tendo renunciado inteiramente ao amor; sem dinheiro e tendo por única companhia as palmeiras. Dia após dia esse povo renasce em igual número, graças à grande quantidade dos que chegam; com efeito, afluem aqui em grande número aqueles que a vida leva, cansados das oscilações da sorte, a adotar seus costumes (…) Abaixo desses ficava a cidade de Engaddi, cuja importância só era inferior à de Jericó por sua fertilidade e seus palmeirais, mas que se tornou hoje um montão de ruínas. Depois vem a fortaleza de Massada, situada num rochedo, não muito distante do mar Morto. [24]

Ao extrairmos os ensinos que a história deste grupo nos traz, aprendemos que para haver uma vida de santidade e dedicação não é necessário o isolamento. A luz deve brilhar em meio as trevas e o sal deve temperar onde não há tempero.

5. Os herodianos
Era um grupo de judeus que acreditava na cooperação com Herodes, para haver o favorecimento dos judeus, muito embora Herodes considerasse a si mesmo um deus vivo, tentando helenizar Israel, exercendo forte pressão política sobre a nação judaica e buscando corromper os costumes judaicos. Historiadores como Jerônimo, Tertuliano, Epifânio, Crisóstomo e Teófilo revelam que os herodianos criam ser Herodes o Messias, surgindo em defesa de Herodes para adquirir algum tipo de benefício. Tognini [25] declara que “os herodianos eram um partido mais político que religioso. Eram um com os saduceus em religião, divergindo apenas em um ou outro ponto político”. E Hale [26] apresenta os herodianos como um grupo independente e oriundo de uma ala esquerdista dos saduceus.

As informações acerca dos herodianos são poucas, porém, Saulnier e Rolland afirmam que os herodianos possuíam privilégios e regalias concedidas pelo governo de Herodes [27]. Porém, parece que a finalidade política dos herodianos era se fortalecer o suficiente para depois se desligar do poder e dependência romana, pois havia ainda um sentimento de nacionalismo que se opunha a um poder estrangeiro, como afirma Douglas [28].

Esse grupo se colocava à disposição do governo romano, trabalhando como espiões que observavam continuamente possíveis situações que poderiam trazer problemas ao governo, como rebeliões políticas, insurreições ou movimentos messiânicos, a exemplo de Jesus e seus discípulos, como declaram Saulnier e Rolland [29].

Ao passo que os zelotes eram fervorosos defensores de uma rebelião, os herodianos se tornam então seus opositores.

Ao extrairmos os ensinos que a história deste grupo nos traz, perceberemos que existem, em todos os períodos de tempo, aqueles que sempre estarão dispostos a sacrificar as convicções em troca do recebimento de benefícios pessoais. Por isso, esse grupo é caracterizado por aqueles que buscam seus próprios interesses em detrimento do próximo, e o completo desapego das verdadeiras convicções e princípios, a começar pelos princípios éticos e Escriturísticos. Para estes, o que mais importa é estar ao lado daquele que lhes proporciona benefícios, pois assim poderão experimentar os resultados trazidos pela influência e status do poder.

6. Os zelotes
Os zelotes são um grupo que se destaca como sendo o mais radical dentro do judaísmo. Foram os principais responsáveis por produzirem os levantes contra Roma, provocando a Guerra judia (66-70 d.C.), culminando na destruição de Jerusalém e do Templo. Os zelotes tornaram-se sinônimos de ‘fervorosos’, e foram os que uniram o fervor religioso com o compromisso social, assim como os sicários [30].

Este grupo rebelde idealizava a vinda do Messias mediante uma ação revolucionária, que resultaria em sua libertação das mãos opressoras de Roma e do helenismo.

De acordo com Horsley e Hanson o zelo por Deus e pela Lei de Deus não pode ser utilizado como características para se denominar um grupo, pois de certa forma todos os grupos judeus possuíam essa característica [31]. No entanto, o que caracteriza os zelotes não é apenas esse zelo, tão somente, mas a manifestação desse zelo através do desejo de revolução e luta como meio de libertação. Isso é o que o faz diferente de outros grupos.

Conclusão
O Israel do 1º século possuía uma gama de facções e grupos étnico-filosófico-político-religiosos que promoviam uma nação fragmentada. Muito embora alguns desses grupos visassem a libertação do domínio de Roma, outros estavam imbuídos do desejo de reconhecer o governo de Roma e a Herodes como o messias.

Se por um lado a resistência judaica visava a preservação de sua religião e cultura contra a tentativa de helenização e paganização de seu povo, por outro lado essa resistência se formava em frentes que tinham interesses particulares e que se uniam apenas em ocasiões muito especiais em prol de um objetivo comum, como no caso da perseguição contra Jesus e Sua crucificação. Ainda, como no caso da união e geração da Primeira Guerra Judaico-Romana, que termina quando as tropas do general Tito sitiam e destroem a resistência judaica em Jerusalém, resultando em um domínio romano mais acirrado.

Outros elementos foram de fundamental importância para o judaísmo do primeiro século, e que tiveram o seu início desde o exílio babilônico, como a sinagoga e o rabinado. Enquanto a sinagoga tinha a função de acomodar judeus que se reuniam para orar, cantar e discutir a Torah proporcionando assim o ensino teológico, garantindo a sobrevivência do judaísmo (Ne 8), a figura do rabi tinha a responsabilidade de viabilizar para o povo judeu essa transmissão realizada na sinagoga. Packer, Tenney e White Jr. afirmam que “essas mudanças garantiram a sobrevivência do judaísmo, mas também ajudaram a criar novas facções” [32].

O que vemos, então, é um quadro histórico pintado com grupos judeus divididos por pensamentos e ideologias distintas, no exato momento em que surge Jesus Cristo. Porém, para os fariseus é apresentada a mensagem de reprovação quanto a sua hipocrisia. Para os saduceus é apresentada a mensagem de que o amor ao mundo é inimizade contra Deus. Para os samaritanos é apresentada a mensagem de que ninguém podia servir a dois senhores. Para os essênios é apresentada a mensagem de que a luz deve brilhar em meio as trevas. Para os herodianos é apresentada a mensagem de que aquele que amar a sua vida esse perdê-la-á. Para os zelotes é apresentada a mensagem de que aquele que vive pela espada morre por ela.

Posteriormente surge outro grupo. Um grupo formado pela união de judeus e gentios. Povos de todas as raças, tribos, línguas e nações. Povos que foram redimidos pelo Messias e se tornaram seus seguidores em todas as partes do globo, através dos séculos. Esse grupo perdura até os dias de hoje, e o seu fundador, Jesus Cristo, disse: “sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16:18).

NOTAS
[1] Flávio Josefo. Conhecido como Josefo, viveu por volta do ano 100 d.C. Apesar de judeu, tornou-se cidadão romano e foi um importante historiador do 1º século. Suas obras apresentam um importante quadro do judaísmo do século I.
[2] LOPES, Augustus Nicodemus. A Bíblia e Seus Intérpretes. São Paulo: Cultura Cristã, 2007.
[3] JOSEFO, Flávio. Bellum Iudaicum II, VIII, 119.
[4] KIPPENBERG, Hans. Religião e Formação de Classes na Antiga Judéia. São Paulo: Paulus, 1988, p.121.
[5] Idem. p.121
[6] BUCKLAND, A. R. Dicionário Bíblico Universal. São Paulo: Vida, 1981.
[7] Guerra dos Judeus (75 d.C.), Antiguidades Judaicas (94 d.C.), e Autobiografia (101 d.C.)
[8] É importante salientar que o termo ‘Palestina’ só foi cunhado por volta do ano 70 d.C. com a invasão do império romano que destruiu o templo e realizou um genocídio, na tentativa de apagar da história a memória da nação de Israel. Portanto, o termo correto aqui é Israel, e não Palestina, que se refere a uma nação que não existe, uma língua que não existe e uma cultura que não existe, mas que é fruto da tentativa do mundo árabe-islâmico de fundar o seu próprio Estado em detrimento da nação de Israel.
[9] TOGNINI, Enéas. O período Interbíblico. São Paulo: Hagnos, 2009, p.153
[10] João Hircano foi um sumo sacerdote que governou a Judéia entre 135 e 104 a.C.
[11] Josefo. Antiguidades XIII. 10.5-7.
[12] Idem, p.155
[13] A Lectio Divina consiste de: 1) Lectio – Leitura; 2) Meditatio – Meditação; 3) Oratio – Oração; 4) Contemplatio – Contemplação. Traduzindo ao pé da letra, Lectio Divina é: “Leitura Divina”. Mas também é conhecida como “Leitura Orante”. Era uma prática dos cristãos antigos, quando dedicavam um tempo exclusivo para meditar no texto da Escritura Sagrada, acompanhado de oração, meditação e oração, sempre contemplando de forma prática a mensagem do texto.
[14] Hipermodernidade é o termo criado pelo filósofo francês Gilles Lipovetsky para delimitar o momento atual da sociedade humana.
[15] SCHUBERT, Kurt. Os Partidos Religiosos Hebraicos da época Neotestamentária. São Paulo: Paulinas, 1979, p.15,16
[16] O humanismo é uma filosofia moral que apresenta o ser humano como a medida de todas as coisas. Isto é, o homem é o centro de tudo. Portanto, a ideia é contrapor-se a qualquer ser ou coisa de cunho sobrenatural. Surgindo por volta do século XIX é uma das heranças do Iluminismo do século XVIII, e é um dos pressupostos do ateísmo.
[17] FERREIRA, Franklin. Apostila de Hermenêutica. Rio de Janeiro: STBSB, 1999, p.12,13.
[18] Joachim Jeremias foi um teólogo Luterano alemão e professor de Novo Testamento e faleceu em 1979.
[19] Eclesiástico 50:27,28
[20] RYRIE, Charles C. A Bíblia Anotada. São Paulo: Mundo Cristão, 1994, p.1659.
[21] Enciclopedia de la Biblia, v.3, p.143-150.
[22] Antiguidades Judaicas. XVIII, 19.
[23] Gaius Plinius Secundus foi um historiador romano que escreveu Naturalis Historia, um vasto compêndio das ciências antigas composto por 37 volumes e dedicado a Tito Flávio, que viria a ser imperador de Roma.
[24] PLÍNIO, O Velho. Naturalis Historia. v. 73.
[25] Idem, p.167.
[26] HALE, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2001, p.20.
[27] SAULNIER, Christiane & ROLLAND, Bernard. A Palestina nos tempos de Jesus. 7 ed. São Paulo: Paulinas, 1983, p.83.
[28] DOUGLAS, J. D. O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1995, p.712.
[29] Idem, p. 83.
[30] Uma explicação sobre os sicários é realizada na Introdução deste artigo.
[31] HORSLEY, Richard A. & HANSON, John S. Bandidos, profetas e messias: movimentos populares no tempo de Jesus. São Paulo: Paulus, 1995, p.166.
[32] PACKER, J. I.; TENNEY, Merril C.; WHITE, William. O Mundo do Novo Testamento. São Paulo: Vida, 1991, p.82.

Fonte: Napec

Pecado: Desgraça ou crime? Pecador: Vítima ou criminoso?

Por Josemar Bessa

O homem sempre viu o pecado de forma completamente diferente de Deus. A uma síndrome de vitimização nascida desde o Éden que sempre prosperou na mente humana, e que infelizmente em nossos dias, faz parte da base de grande parte do que chamamos “evangelho” hoje.

O homem sempre tratou o pecado como uma desgraça, não como um crime, como uma doença, e não como culpo, como um caso para um médico cuidando de um inocente doente e não um caso para um juiz. Quando suas bases se tornam estas, o que chamamos evangelho se torna o que essencialmente forma todas as religiões e teologias humanas.

Não reconhecendo o aspecto essencial, que é judicial da questão, não reconhece que a verdadeira resposta depende completamente em se reconhecer a completa culpa e indignidade, não havendo nenhuma reivindicação a ser feita pelo homem, sendo, sabendo e sentindo sua completa culpa diante de um Deus santo e justo que em nada está obrigado a não ser exercer sua justiça, sendo Sua misericórdia, como a própria definição da Palavra exige, prerrogativa inteiramente de quem a exerce... só justiça pode ser reivindicada. Ao fugir disso, em nada o “evangelho” se difere de todas as religiões humanas – que não vê o homem na necessidade de sinceramente reconhecer a culpa ou criminalidade como malfeitor, e não vítima ou merecedor de algo.

O pecado é um grande mal, traz infinita culpa... E as tentativas do homem de removê-la apenas a aumenta. Os esforços dos homens em se aproximar de Deus baseado em sua vitimização, ou algo bom que ainda resida neles apenas agrava a culpa ao banalizá-la.

Só Deus pode lidar com o pecado, com o crime, como uma desonra a si mesmo e como empecilho da aproximação do homem a Ele. E jamais, sendo santo, Ele lida com a culpa do homem de forma arbitrária ou sumária por mero exercício da vontade ou poder, mas ao levá-lo para julgamento em Seu próprio tribunal justo, na cruz ou no inferno.

A ira de Deus será totalmente merecida, justa e certa. Mas quão grande é a dificuldade de um “evangelho” centrado no homem sequer mencioná-la. O apóstolo Paulo minuciosamente mostra isso na primeira parte da carta aos Romanos: “A ira de Deus se revela do céu contra toda a impiedade e injustiça dos homens...” ( Romanos 1.18).

É completamente merecida. A verdade de Deus é conhecida: “Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis;” - Romanos 1:19-20. Mas essa verdade é completamente suprimida – isso desperta a ira divina, porque não é uma desgraça... é um crime. E seu fruto é a impiedade e injustiça. Muitos estão dispostos, mesmo nos púlpitos, pregar um outro “evangelho”, sem ira... mas a advertência é: “Ninguém vos engane com palavras vãs; porque por estas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência.” - Efésios 5:6. “Pelas quais coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência” - Colossenses 3:6

Paulo fala não só claramente, mas duramente em Romanos 2.5: “Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus;” – Culpados, não vítimas! Somos responsáveis, estamos acumulando ira com cada ato de indiferença para com Deus – vivendo como definiu Agostinho – incurvatus in si – sendo deus de nós mesmos. Dando preferência para qualquer coisa acima de Deus. Esse não é um planeta de vítimas, mas de rebeldes. Cada batida de nossos corações, cada vez que o pecado é acariciado minuto a minuto neste mundo, cada vez que Deus, o doador de todas as coisas, é tratado como maçante... culpa, culpa, culpa: “...entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus;”

Em Romanos 3.5-6, Paulo reintera: “Mas, se a nossa injustiça ressalta de maneira ainda mais clara a justiça de Deus, que diremos? Que Deus é injusto por aplicar a sua ira? ( Estou usando um argumento humano. ) Claro que não! Se fosse assim, como Deus iria julgar o mundo?”

O que poderia ser mais claro? Como um “evangelho” tão diferente pode ser pregado hoje? Porque é lógico que num mundo onde todos se veem como vítimas e o pecado como desgraça e não crime, o verdadeiro evangelho não seria visto como “relevante” para ele – e como a aceitação e parceria com o mundo é o grande objetivo em nossos dias – jogamos a verdade ofensiva no lixo. Paulo, inspirado pele Espírito, diz que esse Deus justo vai julgar o mundo com uma fúria terrível!

O problema é que o homem  acha que seus pecados não merecem esse tipo de ira – mas achar isso só mostra o quão culpado o homem é.

Um único pecado colocou o mundo inteiro sob o julgamento de Deus e trouxe a morte a todas as pessoas: “...mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, certamente você morrerá". - Gênesis 2:17“Se pela transgressão de um só a morte reinou por meio dele, muito mais aqueles que recebem de Deus a imensa provisão da graça e a dádiva da justiça reinarão em vida por meio de um único homem, Jesus Cristo.” - Romanos 5:17

Um único pecado trouxe tudo isso, e você tem cometido dezena de milhares de pecados contra este Deus. E cada pecado não é algo isolado, em cada pecado toda a lei de Deus é quebrada: “Pois quem obedece a toda a Lei, mas tropeça em apenas um ponto, torna-se culpado de quebrá-la inteiramente.” - Tiago 2:10. Ou seja, cada pecado é na verdade milhares de pecados. Você não só pecou milhares de vezes, mas cada um deles tinha a quebra de toda a lei de Deus.

Considere que uma única ofensa seria eternamente séria quando desonra um Deus infinitamente digno, uma desonra infinita. Portanto, uma punição infinita é merecida.

Só Deus pode resolver tão grande crime sendo perfeitamente justo, na cruz ou no inferno... qualquer solução vista que não essa, aumenta a culpa do desprezo a Deus em quem a propõe, e engana mortalmente quem a ouve: “Ninguém vos engane com palavras vãs; porque por estas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência.” - Efésios 5:6. “Pelas quais coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência” - Colossenses 3:6

Fonte: Josemar Bessa