terça-feira, 25 de outubro de 2011

Os Cinco Solas Deturpados


Estamos no mês em que a reforma protestante completa 494 anos, e em muitas igrejas históricas essa data não é nem mencionada.

Em contra partida, igrejas que não tem nenhuma ligação direta com a reforma tem dado a sua própria interpretação da reforma protestante e mais particularmente ao que conhecemos como os cinco lemas da reforma.

O SOLA GRATIA DETURPADO

“Somente a Graça” , assim como quase todas as palavras, o termo “graça” teve o seu sentido original deturpado.

Quando essa palavra é pronunciada, as pessoas têm a noção de que a graça de Deus é algo que ele deve a cada um dos seres humanos, geralmente associamos essa palavra com o favor de Deus para com todos (graça comum).

E há quem pense que Deus não é gracioso se não der uma oportunidade de salvação a todos os homens, como se a graça de Deus fosse uma obrigação que ele tem para com todos os homens.

Mas o que os reformadores queriam dizer com “sola gratia”? (somente a graça), a afirmação de que somente um ato da graça de Deus poderia nos tirar de nossa condição terrível de morte espiritual (Ef 2,8) exclui qualquer obrigação de Deus para conosco, pois a graça de Deus no que tange ao seu tratamento para com os homens é um Dom, e no exercício de sua soberania ele os distribui a quem quer :

"Pois, da mesma forma que o Pai ressuscita os mortos e lhes dá vida, o Filho também dá vida a quem ele quer dá-la. (Jo 5,21)

Pois ele diz a Moisés: "Terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia e terei compaixão de quem eu quiser ter compaixão" (Rm 9:15)

O exercício da misericórdia e da bondade de Deus não são obrigatórios para com os homens, até porque, nós merecemos a ira de Deus e a condenação eterna por termos aviltado a glória e a santidade de um Deus eterno.

Quando os reformadores diziam “sola gratia” não estavam dizendo simplesmente que a salvação não é mais conquistada pelas obras, mas estavam dizendo que nós não temos qualquer direito ou reivindicação a fazer diante de Deus, e que mesmo Deus salvando somente quem ele quer, não fará dele menos gracioso do que ele é, pois a graça de Deus é um atributo de Deus.

O SOLA FIDE DETURPADO:

“Somente a fé” essa declaração aponta originalmente para a questão da justificação pela “Fé somente”, que no dizer de Lutero “é a doutrina sobre a qual a igreja está de pé ou cai”.

Recentemente, ao ouvir uma breve exposição sobre o sola fide, vi que nada foi dito a respeito da justificação pela fé, muito pelo contrário, o que ouvi foi uma abordagem tão divorciada do seu sentido original que a fé presente nessa fala apenas substituiu como obra meritória as próprias obras que estavam sendo colocadas como condição de salvação pela igreja romana na idade média.

Precisamos entender que a “Fé” presente nessa declaração, não é algo que o homem já nasce com ela, mas é um dom de Deus (Ef 2, 8-10). Os reformadores não estão defendendo “a fé na fé”, ou declarações contraditórias do tipo: ”Deus não exige nada de você, apenas que você tenha fé”.

Na teologia dos reformadores a fé não era uma moeda de troca pela salvação, o sola fide expressava não somente uma postura contrária a venda de indulgencias e à prática de boas obras como condição para se adquirir a salvação, mas também enfatizava que essa fé que faz o pecador enxergar que os méritos de cristo são transmitidos a ele, é puro dom de Deus:

“Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele”, Filipenses 1:29

“... fé da parte de Deus Pai e da do Senhor Jesus Cristo”. Efésios 6:23

“... da fé que Deus repartiu a cada um”. Romanos 12:3

“De sorte que a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus”. Romanos 10:17

O SOLA SCRIPTURA DETURPADO

“Somente a Escritura” geralmente quando estudamos sobre a reforma entendemos de cara o sola scriptura, pois essa afirmação diz respeito à posição dos reformadores quanto à tradição da igreja católica que naqueles dias era posta em pé de igualdade ou até mesmo superioridade às escrituras.

Os reformadores rejeitaram a tradição como autoridade normativa para a igreja, mas será que o conceito de sola scriptura se resumia a rejeitar a tradição da igreja?

Em nossos dias a doutrina da suficiência das escrituras tem sido abandonada e quase sempre deturpada. Quando os reformadores diziam sola scriptura estavam afirmando a suficiência das escrituras não somente quanto à tradição da igreja, mas acima de tudo quanto a revelação de Deus para a humanidade, as escrituras eram a palavra final de Deus.

Os mesmos que dizem hoje “sola scriptura” são também os que defendem que a escritura não é suficiente para eles, pois ainda estão à procura de uma “palavra” de Deus pra suas vidas ou até mesmo de uma nova revelação “quentinha” da parte de Deus e à parte das escrituras que sirva como guia pra suas vidas.

Os que confessam atualmente os solas da reforma também acreditam que Deus pode falar “extra-scriptura”, algo totalmente novo que ele ainda não tinha revelado em sua palavra.

Pra essas pessoas as escrituras não são suficientes e a confissão sola scriptura não passa de mero reconhecimento de que a bíblia também é a palavra de Deus.

O SOLUS CHRISTUS DETURPADO

A igreja medieval estava cheia de “mediadores”, o culto aos santos e as relíquias eram com certeza a bola da vez.

Quando os reformadores afirmaram a suficiência de Cristo estavam rompendo com toda a gama de intercessores e mediadores que faziam parte do panteão da igreja romana.

A pergunta que se deve fazer é a seguinte: quem era Cristo para os reformadores?
Alguém poderia argumentar da seguinte maneira: eu até concordo com a erosão e deturpação dos outros solas, mas não tem como a igreja evangélica ter pervertido a crença na suficiência de cristo como salvador e mediador (a não se que ela tenha se tornado uma seita).

Se os outros solas estão comprometidos, então não há como o solus christus permanecer intacto.

Se o ensino da graça soberana saiu dos lábios do próprio Cristo, mas o que vemos hoje em dia é na verdade uma espécie de universalismo, o solus christus foi abandonado.

Ainda que as confissões da igreja moderna quanto à divindade de Cristo sejam defendidas, que espécie de Deus não pode fazer valer a sua vontade soberana?

Quando a fé salvadora é reduzida a mero pensamento positivo sobre Deus, ou quando se ensina que todos possuem dentro de si mesmos a capacidade de crer salvadoramente em Deus, então o solus Christus está sendo uma mera confissão subjetiva, pois que necessidade haveria de um sacrifício divino e substitutivo se todos nós já possuíamos a capacidade de exercer a Fé que nos salvaria?

Dizer que acredita na suficiência das escrituras, mas apoiar-se em experiências subjetivas e emocionais como a palavra final de Deus, é negar o solus christus, pois foi o próprio Cristo quem nos ensinou que tudo que precisávamos saber ou crer a respeito dele estava nas Escrituras (Lc 24,27).

Quando se confessa um Cristo que morreu apenas para possibilitar a salvação, e que apesar de ser “soberano” não pode interferir no “livre-arbítrio” dos homens, e que é incapaz de sustentar e fazer perseverar até o fim aquele por quem ele morreu, com certeza esse não era o solus christus da reforma, mas infelizmente é o cristo que é confessado e pregado pela grande maioria dos evangélicos modernos.

O SOLI DEO GLÓRIA DETURPADO

“Somente a Deus a glória” parece até irônico, num tempo em que é tão comum ouvirmos pessoas gritando nos cultos “Glória a Deus!” é justamente o tempo onde Deus tem sido menos glorificado.

Esse brado dos reformadores nos lembra a verdade de que não resta glória alguma para o homem na obra da salvação (e em nenhuma outra obra).

A glória de Deus estava sendo aviltada no período dos reformadores quando o poder aquisitivo era capaz de comprar a salvação (as indulgencias).

Nos nossos dias a glória de Deus também é aviltada quando alguém diz que Deus faz 99% na salvação, mas nós precisamos fazer 1% de modo que o sujeito não é salvo por Deus, mas Deus apenas o ajudou a se salvar.

No evangelho atual, “glória a Deus” se tornou uma resposta por aquilo que ele nos proporcionou de bom nessa vida, ou por alguma promessa de prosperidade que supostamente ele nos fez em alguma reunião.

Só poderemos dizer como os reformadores “soli Deo glória” quando entendermos que a graça é um milagre de Deus que soberana e livremente nos alcançou. Quando confessarmos que a “nossa” Fé não é algo inato, mas que foi o próprio Cristo quem nos deu a graça de crermos nele (Fl 1,29) e que ele mesmo é o “Autor e consumador da nossa fé” (Hb 12, 2).

Deus só será glorificado por nós quando reconhecermos que a sua palavra escrita é suficiente para responder aos anseios do nosso coração corrompido. Quando o cristo for confessado como Deus verdadeiro e salvador nosso, quando não restar nenhuma glória para o homem.

O Pentecostalismo e o Desprezo à Reforma


Por Samuel Balbino

Não me entendam mal. Se o título dessa postagem parece ofensivo não é menos do que a atitude da maioria das denominações pentecostais. Estamos no mês onde se comemora 494 anos da Reforma Protestante e sempre nessa data as denominações de confissão histórica estão promovendo seminários, palestras, congressos, simpósios. Tudo para avivar na mente das pessoas a importância desse acontecimento. Mas e as pentecostais? O que elas fazem para honrar o retorno do Cristianismo à pureza do evangelho de Cristo? Nada!

Estive fazendo uma pesquisa nos sites das principais denominações pentecostais do país e nada encontrei sobre a Reforma. O que podemos concluir com isso? Que há um desprezo sem igual por aquilo que nos possibilitou estarmos aqui hoje. A pergunta é: Por que isso acontece. Tenho algumas respostas.

Não é interessante ficar relembrando um evento que pode desenvolver nas pessoas um senso crítico que as impeça de receber as fortalezas lançadas continuamente nesses lugares. Qualquer cristão sincero e que estude fielmente a Bíblia e a história da Reforma irá encontrar sérias contradições entre o que hoje é chamado de protestantismo e aquilo que foi pejorativamente denominado protestante no século XVI. As diferenças gritantes, ao contrário do que afirmam alguns, não são irrelevantes, pois se tratam da essência e do âmago da Fé que protestou contra o papado e as aberrações deste. Ora se algo perde sua essência, isto significa que perdeu também sua identidade. Já pensou se Deus perdesse sua essência? Simplesmente não seria mais Deus. Assim também se o protestantismo perdeu sua essência e valores, logo deixou de ser protestantismo para ser qualquer outro “ismo” por aí.

Mencionar a Reforma exigiria da parte de certas lideranças o compromisso de assumir o risco de perder membresia para o estudo e meditação de assuntos que realmente são importantes para a Igreja. Na grande maioria das denominações pentecostais, e porque não dizer 99,9 % delas, predomina o antropocentrismo doente, o humanismo sofista que leva as pessoas a procurarem antes de tudo o seu próprio bem-estar. Não vemos essas denominações pregando as doutrinas da Graça de Deus como eleição, justificação, etc. Alguns talvez digam: Ah, isso é calvinismo! Ora então Lutero era calvinista, pois falou reinteiradas vezes sobre esses temas. Não amados, esses temas não são meramente calvinistas, esses eram os temas que se pregavam nos púlpitos comprometidos unicamente com a pureza do evangelho. Os púlpitos que priorizavam o genuíno evangelho. Um pastor que de fato é protestante não importuna a congregação com mensagens que alisam o ego humano, que induz o povo a uma busca por prosperidade e curas nem nada que seja material e temporário, antes os púlpitos protestantes falam de coisas eternas, ensinam como ajuntar tesouros nos céus e apontam aos pecadores qual é o caminho da salvação, ensinando-lhes a baterem na porta dos Céus implorando para serem aceitos por Deus e sua misericórdia!

Quando se faz simpósios e congressos pentecostais quais são os temas que abordam? “Vida Vitoriosa”, “Festival de Maravilhas”, “Fogo para o Brasil”, as palavras que vejo saindo dos lábios de muitos pregadores são: Cresça, conquiste, prospere, determine, profetize, grite, pule, não aceite, apareça, se engrandeça e etc. Ao invés disso deveriam dizer: Se prostre ante a majestade e soberania do Eterno, humilhe-se na presença de Deus para que ele a seu tempo vos exalte. A Igreja hoje têm perdido o sentido do que vem a ser o evangelho da humilhação. As falsas experiências sobrenaturais estão destruindo a pureza do evangelho, as visões, profecias, línguas, curas, idas ao céu e ao inferno, combates contra demônios e toda a sorte de mentiras usando as Escrituras têm prevalecido e construído uma das fortalezas mais difíceis de derrubar. E tais líderes perceberam que sem essas coisas não é possível construir grandes impérios mercantilistas travestidos de congregações e igrejas. Precisamos continuar a Reforma!

A Reforma traz à lume uma visão de Deus muito desagradável. Não pensem que foram bons motivos que levaram alguns apóstatas a abandonarem os princípios da Fé Protestante e criarem os seus próprios. O que acontece é que o pensamento reformado reconheceu a centralidade de Deus em todas as coisas, colocando o homem em último plano. Isso pode ser muito desagradável para alguns. Imaginar que suas vidas estão sendo controladas e convergindo num plano maior do qual eles não têm como saber de que forma irá terminar ao certo, pode parecer muito frustrante. A vontade de possuir o controle de tudo é o dínamo que move o homem em direção a rebeldia contra a soberania de Deus. Falar em Reforma é falar em Deus soberano. Deus soberano é o mesmo que homem incapaz e homem incapaz é o mesmo que ferir o orgulho com qual muitos se exaltam em afirmar que podem frustrar os planos e desígnios de Deus deixado-os a mercê de suas torpes decisões.

Um pentecostal jamais irá admitir plenamente a soberania de Deus, pois sua cosmovisão distorcida da realidade o leva a questionar a justiça e benignidade do Eterno julgando-os por seus próprios conceitos de justiça e retidão. Sendo assim, para muitos este é um assunto que deve permanecer em secreto, e se mencionado que se faça superficialmente para que não se desperte a curiosidade do povo e não os faça pesquisar mais sobre o mesmo e dessa forma questionar as coisas que tem aprendido rotineiramente nos “cultos de fogo”. Vejo todo esse panorama com profunda semelhança à questão dos fariseus e doutores da Lei, os quais impediam as pessoas simples de tomarem conhecimento da verdade surrupiando-lhes a chave do conhecimento. Talvez a história hoje seja a mesma, mudando-se apenas os protagonistas.

“Ai de vós, doutores da lei! porque tomastes a chave da ciência; vós mesmos não entrastes, e impedistes aos que entravam” (Lucas 11.52).

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Espírito de Covardia


Por João Calvino

Porque Deus não nos deu espírito de covardia (2Tm 1.7). Isso confirma sua afirmação anterior, pela qual ele prossegue insistindo com Timóteo a apresentar evidência do poder dos dons que recebera. Ele apela para o fato de que Deus governa seus ministros pelo espírito de poder que é o oposto do espírito de covardia. Daqui se conclui que eles não devem cair na indolência, mas que devem animar-se com profunda segurança e ardorosa atividade, e que exibam com visíveis resultados o poder do Espírito. Há uma passagem em Romanos [8.15] que, à primeira vista, se assemelha muito a esta; o contexto, porém, revela que o sentido é diferente. Ali, ele está tratando da confiança na adoção possuída por todos os crentes; aqui, porém, sua preocupação é especificamente com os ministros, e os exorta na pessoa de Timóteo a animar-se para dinâmicos feitos de bravura; pois o Senhor não quer que exerçam seu ofício com tibieza e langor, senão que avancem com todo vigor, confiando na eficácia do Espírito.

Mas de poder, de amor e de sobriedade. Daqui aprendemos que nenhum de nós possui em si mesmo a excelência de espírito e a inabalável confiança necessárias no exercício de nosso ministério; devemos ser revestidos com o novo poder do alto. Os obstáculos são tantos e tão imensuráveis, que nenhuma coragem humana é suficiente para transpô-los. Portanto, é Deus quem nos equipa com o Espírito de poder. Pois aqueles que, por outro lado, revelam grande força, caem quando não são sustentados pelo poder do Espírito de Deus.

Em segundo lugar, inferimos que os que são tímidos e servis como os escravos, de modo que, quando precisam soerguer-se não ousam tomar qualquer iniciativa em defesa da verdade, esses não são governados pelo Espírito que age sobre os servos de Cristo. Daí se conclui que mui poucos daqueles que se denominam ministros de Cristo, hoje, dão mostras de ser genuínos. Pois dificilmente se encontrará entre eles um que, confiando no poder do Espírito, destemidamente desdenhe de toda altivez que se exalta contra Cristo! Acaso a grande maioria não se preocupa mais com seu próprio interesse e seu próprio lazer? Não se prostram mudos assim que estala algum problema? Como resultado, em seu ministério não resplende nada da majestade de Deus. A palavra espírito é aqui usada figuradamente, como em muitas outras passagens.

Mas, por que depois de poder ele acrescenta amor e sobriedade? Em minha opinião, é para distinguir o poder do Espírito do excessivo zelo dos fanáticos que se precipitam numa desenfreada pressa e se gabam de possuir o Espírito de Deus. Portanto, ele explicitamente declara que a poderosa energia do Espírito é temperada pelo amor e sobriedade, ou seja, por uma serena solicitude pela edificação. Paulo não está negando que o mesmo Espírito fosse comunicado aos profetas e mestres antes da publicação do evangelho, mas insinua que essas duas graças seriam especialmente evidentes e poderosas sob o reino de Cristo.

sábado, 22 de outubro de 2011

2a Epístola de Deus aos hereges e equivocados


Por Mauricio Zágari

Meus queridos filhinhos e outros que pensam que são mas não são,

Hoje escrevo aqui a segunda epístola sobre os desvios e equívocos que tenho visto acontecer no seio da minha Igreja. Antes de mais nada, para que você não perca o contexto, sugiro que leia a recém-publicada “1a Epístola de Deus aos hereges e equivocados”, que meu servo Zágari postou aqui no APENAS. Bem, só pra lembrar, não estou escrevendo esta carta para deixar ninguém chateado nem para ofender quem quer que seja. Mas, como eu disse na 1a Epístola, entenda que estou escrevendo porque amo meus filhos e por isso me sinto na obrigação de protegê-los de tudo aquilo que os afasta de mim.

Então resolvi escrever para os hereges e aqueles que, embora não sejam, me preocupam porque estão quase saindo dos trilhos.

E como fiz na 1a epístola, aviso aqui: esta é uma carta longa. Não é canônica. Mas é uma reflexão sobre as coisas que tenho visto e ouvido.

Pois bem, na minha 1a epístola eu terminei dizendo: “Estou começando a achar esse negócio de Igreja emergente meio esquisito…”. Vamos então falar sobre isso.

Igreja Emergente

Antes de qualquer coisa, deixa eu esclarecer: Igreja emergente não é heresia, preciso ser claro sobre isso. Se você não sabe o que é isso, dá uma lida neste post e vai entender direitinho: “Ozzy Osbourne, a igreja emergente e o futuro“. Só que esse grupo de filhos meus, bem-intencionados, pisa num terreno lodoso. Esse papo de ficar se misturando com a cultura secular pode levar a caminhos perigosos. Os conceitos da Igreja emergente em si não são anticristãos, mas em mãos erradas…ah, pode ter certeza que vão causar muito estrago.

Quer exemplos? Outro dia um pastor meu lá de São Paulo estava pregando e… usou um palavrão no meio da pregação. Será que ele e outros emergentes acham que eu estou de boa com esse uso de palavras torpes e ainda por cima no sagrado momento de exposição da minha Palavra? Eles realmente acham que isso me agrada? Hmmmm… De repente estão mais interessados em atrair gente jovem, falando essa linguagem jovem… mas que ofende muitos. Sei de muitos que saíram ofendidos certo dia da igreja desse meu servo porque ele falou palavrão na pregação. Agora, convenhamos… Palavrão? Tão querendo reinventar a roda? Não sabem que eu pedi que meus filhos falassem somente o que fosse para a edificação, que conversassem entre si com salmos e cânticos espirituais? Ou vocês acham que esse trecho da Bíblia é descartável? Palavrão em púlpito! Fala sério! Vocês estão ficando malucos??? É isso que vocês acham que vai levar a salvação aos jovens???

Durante dois mil anos a minha Palavra foi pregada com seriedade e reverência para jovens, crianças, velhos e adultos. Nunca, em todos esses séculos, houve necessidade de se adaptar à cultura secular, de ser “moderninho”. Acreditem vocês ou não, o MEU ESPÍRITO TEM PODER DE CONVENCER DO PECADO, DA JUSTIÇA E DO JUÍZO SEM PRECISAR DE ESTRATÉGIAS HUMANAS. Basta a proclamação das verdades bíblicas. Aí chegam os emergentes e acham que a Igreja tá velha demais pros jovens. Queridos, nossos jovens não vão se convencer porque você prega de calça jeans, usa gola rolê e faz charmosos vodcasts. Eles vão se converter simplesmente quando o Evangelho for proclamado aos seus ouvidos, for decodificado por seus cérebros, meu Espírito tocar seus corações e fazer aquelas verdades ganharem sentido. Quando eu os regenerar. Os justificar. Todo o resto é balela.

E tem mais uma coisa que eu queria que meus filhos “emergentes”, e “moderninhos” (eu acho tanta graça quando alguém acha que eu quero ser moderno…) soubessem: eu não vejo música secular como pecado. Dependendo da música, fiquem tranquilos, ouçam à vontade. Mas tem uns de vocês, emrgentes, abusando. Indo a shows de grupos e cantores que meu ex-querubim tem na palma da mão. Fala sério, outro dia um pastor de jovens (olha a influência!) disse no twitter que ficou triste porque não foi ao show do Ozzy Osbourne. Logo o Ozzy! Tem servos meus desses que dizem aquela frase ótima pra justificar um pecado: “Nada a ver”, que estão indo a shows dos Rolling Stones! Não aprenderam nada? E pra terminar esse papo de “não tem nada a ver”, eu fiquei estarrecido com a quantidade daqueles que vão domingo à igreja e me dizem “Senhor, Senhor” e no entanto foram ao show daquele grupo que canta “eu gosto de meninos e meninas” e “somos burgueses sem religião” no Rock in Rio. Peraí, passou batido? Deixa eu repetir: eles cantam “eu gosto de meninos e meninas” e “somos burgueses sem religião”. Será que o meu povo não presta atenção na letra daquilo que canta?

Por exemplo: tem uma banda que mistura circo com música e tal e tem umas músicas bem bacaninhas, mas outro dia eu estava ouvindo um grupo dos meus filhos cantando uma canção deles e aos pulos gritava “a fé que você deposita em você e só”. Peraí! Será que pelo menos pararam pra pensar que se você só deposita fé em você não está depositando fé em Jesus? E que sem fé em Cristo é impossível me agradar? Ou vir pra cá depois que partir da Terra? Sei não, tou começando a achar esse negocio de Igreja emergente muito esquisito. Se cuidem, hein?!

Desigrejados (ou adenominacionais, como preferem ser chamados, não quero ofender ninguém)

Também tem outro assunto que eu queria abordar. Por que uns de vocês que decidiram sair das igrejas denominacionais ficam tacando lama nelas? Onde é que eu escrevi que só posso ser adorado fora de templos, em lares e grupos pequenos? Não fui Eu quem deu a Davi a planta do meu templo? Não fui Eu quem fez Salomão erguer o templo a mim? Vocês por acaso leram Esdras e Neemias alguma vez? Ou eu mandei erguer templos para a glória dos homens?

Depois da Cruz, meu Espírito passou a habitar cada um de vocês como Seu templo mas isso não afeta em absoluto o fato de que eu gosto quando vocês se reúnem. Embora alguns de vocês achem que não, fui EU quem vocacionou ao pastoreio do meu rebanho aqueles que vocês chamam de pastores. Deixei isso claro por meio de meu filho Paulo em sua primeira carta aos Coríntios. Muitos deles se desviaram. Muitos estão pensando mais em Mamom do que em mim. Vocês acham que eu não sei disso?

Mas fico irado (apesar de terem inventado que eu sou só amor e não justiça, a minha ira se manifesta SIM, pois sou justiça) quando vocês acusam todos os meus escolhidos de terem dobrado seus joelhos a Baal. Tenho muitos, mas muitos servos fieis no que vocês chamam de “igreja institucionalizada”. Eu os amo. Eles me adoram em espírito e em verdade. E quem vocês pensam que são para julgá-los como fazem?

Muitos de vocês que condenam a Igreja institucional, que sustentei por dois mil anos, têm o coração negro de rancor. São sepulcros caiados, iguaizinhos a muitos membros e pastores desviados que permanecem na Igreja institucionalizada. E eu prefiro olhar para um templo daquilo que vocês chamam de igreja institucional mas onde haja algumas dezenas de corações contritos do que uma igreja sem denominação que se reúne num lar mas tem pessoas de coração rancoroso, acusador, farisaico.

Filhos, acordem! Não é porque alguém me adora num templo que ele não me adora! Não é porque tem um homem (que EU vocacionei) liderando o rebanho que todos estão errados. Errados estão aqueles entre vocês que se julgam os certos, os petulantes que atribuem a si mesmos o título de “os da graça” e acham que conhecem toda a minha igreja, chamando quem pensa diferentemente deles de “os da religião”. Não conhecem! Parem de provocar divisões! Isso me enoja! Parem de esquartejar o Corpo de meu Filho! Parem de seguir homens que largaram suas esposas contra minha vontade (vocês não leram na minha Palavra que eu “odeio o divórcio”?), fundaram suas próprias instituições e estão arrastando vocês junto! Parem com isso! Parem de, em nome de uma apologética que não é apologética e de uma reforma que não é reforma, acusarem milhares de inocentes e destruírem estruturas pelo meio das quais EU abençôo milhares! Essa obra é minha. Não a sabotem!

Nunca se esqueçam de Nestório, Patriarca da Igreja em Constantinopla na metade do quinto século depois de Cristo. O mais curioso é que, como muitos de vocês fazem hoje, seu objetivo era expurgar os erros e tornar a Igreja o que ele achava que era o correto. Como muitos de vocês, que eu sei que acreditam realmente naquilo que pregam, ele acreditava piamente que estava me agradando. E eu aqui, só vendo e ouvindo aquelas barbaridades. Ele viajou. Concordava com a autêntica e própria deidade e a autêntica e própria humanidade de Jesus, mas não de forma a comporem uma verdadeira unidade, nem a constituírem uma única pessoa. As duas naturezas seriam igualmente duas pessoas. Ao invés de mesclar as duas naturezas em uma única autoconsciência, o nestorianismo as situava lado a lado, sem outra ligação além de mera união moral e simpática entre elas. Jesus seria, assim, um hospedeiro de Cristo. Parece absurdo para você? Imagina como muito do que vocês falam soa absurdo a quem vive numa igreja institucionalizada e é altamente abençoado por mim lá. Invenções, invenções, invenções. Humanas, claro. Chega, né?

Marxismo Cristão

E para aqueles dentre vocês que estão pegando o Sagrado Evangelho de meu Filho e misturando com política partidária, com socialismo e com pensamentos até mesmo marxistas, que estão usando ensinos que foram passados a vocês pelos profetas, por Jesus e os apóstolos para apontar para a eternidade e aplicando-os para tentar resolver as coisas deste mundo, deixe-me dizer-lhes uma coisa. Vocês realmente acham que Jesus sofreu e morreu para que vocês fizessem pactos com governos, com a justificativa de “ajudar os pobres” e “fazer justiça social”? Vocês não entendem que quando eu mandei meus servos falarem de caridade na Biblia estava falando de ações individuais? Que cada um de vocês movesse seu coração e estendesse a mão ao necessitado? Jesus criticou aqueles que iam até Ele apenas pelos benefícios materiais que poderia proporcionar. Chegou a dizer: “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará” (Jo 6.27).

Em que momento da Biblia Jesus procurou César para negociar acabar com a pobreza em Israel? Ou que ele foi a Pilatos pedir que ele palestrasse a seus apóstolos pedindo que lhes dissesse o que o povo de Roma e da Judeia esperava deles? Nunca. Jesus pregou sobre a vida eterna. A vida eterna. E a vida eterna. O pão de cada dia? Clame a mim! Não foi isso que meu Filho lhes ensinou na oração do Pai Nosso? Mas esse está longe de ser o centro do Evangelho. O Pão da Vida, esse sim é o centro.

Minha Igreja como Corpo não existe para ser uma cara-pintada que faz manifestações em praça pública, carrega bandeirinhas com meu nome, lança manifestos sobre o governo e convida candidatos ao poder humano para dar palestras a pastores e igrejas… Vocês entenderam tudo errado! Tenho nojo dessa mistura. Na época do Antigo Testamento eu prezei tanto para que meu povo não se misturasse com os pagãos… E agora vocês querem se misturar com eles achando o quê? Que haverá mais justiça social no país? Que o governo federal vai realmente adotar os meus valores e se preocupar com os miseráveis? Tolinhos, vocês. Não sejam ingênuos.

Em vez de perder tempo com isso, façam a sua parte como indivíduos.

Ajudem pessoas que estão em estado de pobreza. O samaritano da parábola não procurou o governo: ele ajudou um único homem que precisava dele. Apadrinhe uma criança pela Visão Mundial (veja o link na barra aí à esquerda). Faça sua parte. Dê o seu exemplo. O Estado será sempre o Estado e o meu Reino não é desse mundo tenebroso e sujo em que vocês vivem. Orem mais. Muitos de vocês só querem saber da agir, lançar manifestos, fazer marchas… ativismo, ativismo e ativismo. Chega! Orem! Ponham o rosto no pó! Ou vocês não aprenderam na escolinha dominical que a oração do justo pode muito em seus efeitos? Muitos de vocês se encontram com autoridades do governo mais vezes por semana do que oram a mim. E se eu não guardo a cidade, queridos, em vão vigia a sentinela.

Palavras finais

Em resumo, caros hereges e equivocados, todos vocês – sejam os da Teologia Relacional, os da Teologia da Prosperidade, os do Universalismo, os que pregam contra a igreja onde eu habito e trabalho, os que estão a um passo de despencar dentro do mundo em nome dessa contextualização da minha Palavra, os que por querer ser moderninhos fazem com que a proclamação da salvação tenha que ser modernizada (quando para mim não há passado, presente e futuro e Eu Sou o mesmo sempre e meu Espírito convence como quer sem precisar das suas estratégias pueris), os que querem misturar a santidade das boas-novas de meu Filho com a imundície da vida política – não se esqueçam que aquele terrível dia esta chegando. E aí não vai adiantar dizer “Senhor, Senhor”. Pois a muitos e vocês eu direi: “Não os conheço”. Espero que não seja esse o seu caso.

Eu criei o mundo com uma intenção e uma intenção somente: a minha glória. Eu criei cada um de vocês com uma intenção e uma intenção somente: a minha glória. Parem de buscar seus próprios interesses. Parem de se vangloriar daquilo em que acreditam, achando que todo o resto está errado. Vaidosos! A sua vaidade está comendo suas entranhas e vocês estão tão anestesiados que nem sentem.

Basta! Todos vocês, os que ainda têm esperança da glória futura, arrependam-se agora de esquartejar, enganar e desviar a minha Igreja de seu rumo. Homens que em nome da minha graça pecam e pecam e pecam. Ainda é tempo de se arrepender. De se unir. De todos dobrarem os joelhos e voltarem às disciplinas espirituais básicas. Oração. Leitura da minha Palavra. Meditação naquilo que eu ensinei. Jejum, seus glutões. Santificação.

Seus lábios estão cheios de palavras belíssimas, como “graça”, “amor”, “prosperidade”, “caridade”… Mas a minha glória está esquecida. E quando este céu e esta terra passarem, o pequeno rebanho que me pertence viverá eternamente para a minha glória e para ela somente. Reconhecendo dia e noite que “Santo, Santo e Santo é o Senhor e que os céus e a terra estão cheios de sua glória”.

Entendam que sei que muitos de vocês carregam boas intenções nos seus corações. Outros não. Fiquem tranquilos, sei quem é quem. Mas boas intenções não bastam. Voltem-se para mim e para mim somente. Voltem aos templos. Orem como comunidade. Renovem o entendimento da Ceia de meu Filho. Clamem a mim. Retomem a centralidade da Palavra. E eu lhes trarei paz, renovo e esperança. Eu sou o Amor. Eu planejei a Cruz para tê-los comigo pela eternidade… Por amor.

Mas entendam a coisa mais importante desta carta: Eu sou o que sou. E não preciso que vocês me reinventem.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

(Eesta é uma obra de ficção, baseada em fatos muito, mas muito reais. Ai de mim pôr palavras na boca de Deus, pois, ao contrário de muitos, não quero me tornar um herege).

Fonte: Apenas

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Pregação simples e honesta

Por Vincent Cheung

Antes, renunciamos aos procedimentos secretos e vergonhosos; não usamos de engano, nem torcemos a palavra de Deus. Ao contrário, mediante a clara exposição da verdade, recomendamo-nos à consciência de todos, diante de Deus. (2 Co 4: 2 – NVI)

O motivo, a mensagem e o método de pregação nunca deveriam estar envoltos em mistério. Existem aqueles que igualam complexidade e ambiguidade à profundidade. Pregar é dizer às pessoas tudo o que Deus tem revelado na fé cristã, ou seja, na Bíblia. E nada sobre isso tem necessidade de ser confuso. Como Paulo lembra aos Coríntios, “pois nada lhes escrevemos que vocês não sejam capazes de ler ou entender” (1.13).

Sem dúvida, Pedro observa que algumas coisas nas cartas de Paulo são difíceis de entender, mas ele diz “algumas coisas”, não a maioria ou todas as coisas, e ele diz “difíceis de entender”, e não impossíveis de entender. Ele escreve que pessoas “ignorantes e inconstantes” as distorcem para a sua própria destruição. Visto que os cristãos não devem ser nem ignorantes e nem inconstantes, e visto que eles receberam o mesmo Espírito Santo que os apóstolos receberam, é possível para o crente, pelo menos em princípio, captar tudo o que a Escritura ensina. E não há razão pela qual a nossa pregação devesse obscurecer a clara verdade da divina revelação.

A verdadeira pregação cristã, portanto, deve ser honesta, clara e fácil de entender. Esse é o fundamento de qualquer teoria homilética. E por essa concepção de pregação, todo crente deveria ser capaz de comunicar o Evangelho aos seus vizinhos. Existem, sem dúvida, táticas que poderiam manipular a audiência ou utilizar das personalidades ou experiências dos ouvintes para que se possa ganhar influência sobre eles. Mas uma vez que haja qualquer elemento de engano, todo o exercício não mais funciona em direção à sua meta apropriada.

Não queremos que as pessoas simplesmente se chamem cristãos – não é atrás disto que estamos, afinal; mais que isso, queremos que as pessoas sejam modificadas em seus corações, que acreditem em alguma coisa nova e maravilhosa, e que se tornem cristãos, e que assim se chamem porque o são. Queremos apresentar ao Senhor Jesus, discípulos genuínos e inteligentes, pessoas que compreendem a fé cristã e creem que ela é a verdade, e esse é o único caminho para a salvação e o único estilo de vida.

Pela mesma razão, rejeitamos a violência como um meio de fazer discípulos ou de silenciar os nossos oponentes. Não que a violência seja errada em si mesma. Existe certa confusão sobre isso que enlameia muitas discussões sobre religião e sociedade. Ocasionalmente os cristãos são desafiados pelos seus oponentes com referência às aparentes atrocidades que os santos do Antigo Testamento cometeram contra outras nações. Por que os cristãos endossam esse comportamento no povo antigo, e se eles realmente endossam, por que dizem que isso é inaceitável para a propagação do Evangelho?

Se os cristãos tomarem a suposição infundada de que a violência é errada em si mesma, ficam abertos a todos os tipos de criticismo contra os santos do Antigo Testamento, contra a pena de morte, a legítima defesa, contra o castigo físico na criação de filhos, e daí por diante. Mas todas das críticas contra a fé cristã são defeituosas, e essa aqui não é uma exceção. Deus mandou os santos do Antigo Testamento os povos para que pudessem se apossar da terra prometida, e não para disseminar a fé. Foi algo realizado por uma nação em guerra com outras nações, e não pela igreja como uma entidade espiritual ou por crentes agindo individualmente por conta própria. Deus tinha decidido expulsar os pagãos adoradores de ídolos – as suas falsas religiões eram as verdadeiras atrocidades – e ele cumpriu a sua promessa com referência à terra ao garantir a vitória de Israel. Depois Deus expulsou os próprios judeus, e agora os cristãos são o povo de Deus, e nós não lutamos por uma terra porque o nosso reino é espiritual.

Nesse sentido, a violência dos santos do Antigo Testamento não tem relação com a agenda cristã. Do mesmo modo, quando executamos um criminoso, não se trata de uma tentativa de converter sua alma por esse alto, como se quiséssemos ameaçá-lo à fé. Trata-se de uma questão distinta da pregação do evangelho. Queremos que as pessoas creiam em seus corações, e não que meramente se vistam de uma aparência. Dessa forma, o uso da violência não é somente contra as ordens de Deus, mas é também impotente para obter o resultado que buscamos. O mesmo se aplica ao uso de truques e artimanhas, bajulação e apelos aos desejos pecaminosos dos homens. Ou você deseja a coisa errada, ou você não vai conseguir o que quer por nenhum outro método a não ser o discurso claro e sincero.

Nós apresentamos a mensagem do evangelho como uma questão de verdade e de erro, de justiça e impiedade. Assim, levamos para dentro da mente dos homens que isso é uma questão de certo e errado. Apelamos à consciência deles, e não às suas carteiras ou aos seus apetites e desejos sensuais. A propagação do Evangelho não é uma questão de sutileza na oratória, de manobra política, de relevância cultural ou social. É expressão clara da verdade que pronunciamos diante de Deus e em direção aos homens – não adulterada pela ambição e livre de filosofia humana. Essa obra está aberta a todos os crentes. Qualquer cristão pode falar a alguém sobre o Senhor Jesus Cristo em linguagem forte e honesta, e esperar que o Espírito Santo venha com grande poder e convicção.

1a Epístola de Deus aos hereges e equivocados


Por Mauricio Zágari

Meus queridos filhinhos e outros que pensam que são mas não são,

Antes de qualquer coisa, quero que vocês saibam que não estou escrevendo esta carta para deixar ninguém chateado nem para ofender ninguém. Mas tem muita coisa que precisa ser dita e talvez você precise ouvir. Talvez não. De qualquer maneira entenda que estou escrevendo porque amo meus filhos e por isso me sinto na obrigação de protegê-los de tudo aquilo que os afasta de mim. Vou falar aqui de Teologia Relacional, Teologia da Prosperidade, Universalismo, Desigrejados (ou adenominacionais, como alguns pedem para ser chamados), os que acham que a proclamação da salvação tenha que ser modernizada, os que querem misturar a santidade das boas-novas de meu Filho com a imundície da vida política…e outras coisas mais.

Então resolvi escrever para os hereges e aqueles que, embora não sejam, me preocupam porque estão quase saindo dos trilhos. Tenho acompanhado vocês. Tenho visto o que têm pregado, escrito em blogs, falado na TV, postado nas mídias sociais e ensinado por aí, em seminários, conferências e igrejas. Também percebo que muitos de vocês há muito tempo nem ao menos pegam na minha Palavra para lembrar das coisas que lhes ensinei. Por isso resolvi escrever essa carta porque, não sei se vocês têm reparado nos sinais, mas o dia da volta do meu Filho à Terra está se aproximando. Sei do que falo, porque a data está marcada há alguns séculos no meu calendário. Junto a isso estou chocado com como vocês têm inventado coisas a meu respeito que absolutamente não são verdade (algumas até me fazem rir, confesso) e sobre o que penso e ensinei, apesar de estarem bem claras no livro que vocês têm aí em mãos. Em outras palavras – e vocês sabem que minha graça é firme e por isso sou direto e posso soar duro às vezes, ao contrário daqueles que me veem como um velhinho bonachão, que passa a mão na cabeça e se comporta passivamente ante o pecado – queria falar sobre as heresias e sobre distorções bíblicas que vocês têm ensinado. Mas vamos por partes.

E aviso aqui: esta é uma carta longa. Não é canônica. E será a primeira de duas sequenciais que enviarei esta semana. Mas é uma reflexão sobre as coisas que tenho visto e ouvido. Se você é daqueles que não têm paciência de ler nem a epístola de Judas não vá adiante, pois eu resolvi abordar muitas e muitas coisas neste texto. E para os que não gostam de ler na internet (ufa, ainda bem que a época do papiro acabou) artigos extensos, não vai gostar de ter de ler muito aqui.

Teologia Relacional

Não achei nada legal, por exemplo, que alguns de vocês tenham resolvido inventar que eu, o Soberano Criador de tudo, abro mão de minha soberania. Não, não abro. Manipular o esvaziamento de meu Filho (Fp 2.7) como argumento para dizer que Eu não sou quem Eu Sou… me perdoem, é uma teologia poética demais mas bíblica de menos. Dizer que eu não controlo as forças da natureza porque isso é coisa de religiões pagãs greco-romanas é no mínimo um argumento pueril de quem lê muitas coisas que não são a minha revelação escrita mas ignora o que eu mesmo revelei. E Teologia Liberal, rs, sobre essa Eu nem vou falar. Seria heresia demais para um post só. E a heresia aqui é outra: Teologia Relacional.

Vocês dizem que Eu não tenho nada a ver com o que chamam de “tragédias”, que se Eu trouxesse pra eternidade muita gente ao mesmo tempo Eu seria mau. Mas, vem cá, a vida de vocês não me pertence? Um de vocês, que tem provocado muitos estragos na Igreja brasileira e inventou essa tal Teologia Relacional (a versão brasileira do Teísmo Aberto) até escreveu no twitter que se Eu fosse o responsável pelo sofrimento de tantas pessoas num tsunami.. eu merecia ir para o inferno. E um MONTE de gente concordou. O que deu em vocês? Piraram de vez? Não leram tudo o que eu quis revelar a meu respeito? Não leram Romanos 9? Deixa eu reproduzir aqui, só pra lembrar vocês de umas realidades sobre mim e daquilo que eu faço ou deixo de fazer:

“Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum! Pois Ele diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão. Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia. Porque a Escritura diz a Faraó: Para isto mesmo te levantei, para mostrar em ti o meu poder e para que o meu nome seja anunciado por toda a terra. Logo, tem ele misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz. Tu, porém, me dirás: De que se queixa ele ainda? Pois quem jamais resistiu à sua vontade? Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra?”.

Meu filho Paulo escreveu isso há dois mil anos e vocês ainda têm a petulância de me julgar e de achar que podem decidir o que faz de mim justo ou não. Desculpem, mas vocês se tornaram hereges ao furtar de mim minha total soberania e autoridade sobre tudo o que criei. Não quero parecer arrogante mas, quer saber? Quem manda aqui sou eu. Vocês nunca leram o que eu disse ao meu queridíssimo Jó no livro dele? Que tal parar de ler tanta poesia que fala sobre amor romântico de contos de fadas (vale a pena ler este post, ”Heresias em nome do amor“, que fala sobre isso) e passar a ler mais a Bíblia, onde eu me revelei? Aliás, por favor, tem até uns de vocês que escrevem no twitter umas poesias tão pobrezinhas que chegam a dar dó. Parem de pensar com a cabecinha poética e comecem a pensar com o conhecimento bíblico, por gentileza. Aqui em cima é o que importa.

Sem querer decepcioná-los, queria dizer que o que vocês fazem e falam não é nenhuma novidade, vocês são apenas mais alguns jogadores no time que um ex-querubim meu selecionou a dedo para inventar coisas muito esquisitas sobre mim, meu Filho e meu Espírito. E não estou falando daqueles que escrachadamente ignoram tudo aquilo que a gente se preocupou em ensinar, como os que dizem que há reencarnação ou que invocam a turma lá de baixo batucando em seus tambores. Estou falando daqueles que se dizem meus filhos mas que…sinceramente? Eu não os conheço. Me chamam de “Senhor” mas eu não entendo por quê, já que não me servem como eu ensinei por meio de meus profetas, de meu Filho ou outros servos fiéis.

Esse time que já no mesmo século em que meu Filho encarnou contava com gente como os tais gnósticos. Os caras viajaram tanto nas suas ideias que misturaram meus ensinamentos com os da turma da filosofia grega. A ponto de eu ter que inspirar meu filho João a escrever epístolas para combatê-los. Ou o Marcião, coitado, que no século II incluiu muitas idéias próprias e conjecturas no que meu Filho ensinou, como rejeitar meu Antigo Testamento, além de afirmar que Jesus não era Deus (e, vamos combinar, essa coisa de “eu acho isso” e “eu acho aquilo” em vez de ver nas Escrituras o que EU penso já fez muitos se afastarem de mim). Marcião ensinou o batismo pelos mortos e que o casamento, embora legal, era aviltante. O que é aviltante.

Teologia da Prosperidade

Outro grupo veio com esse papo de que eu só abençôo alguém se concedo a ele prosperidade material. É a tal da Teologia da Prosperidade. Vocês não sabem que meu Reino não é deste mundo? Que não adianta juntar tesouros na terra? Que é mais fácil o camelo passar pelo buraco da agulha que um rico entrar no meu Reino? Que meu Filho encarnou entre os pobres e passou seus últimos três anos na Terra quase sem nenhum recurso material? Eu me entristeço de ver vocês pegando ensinantos do meu ex-querubim (saiba mais sobre as origens de Nova Era da Teologia da Prosperidade) e ensinando aos meus filhinhos. Amados, essa vida é como um sopro! Ela vai acabar logo e tudo o que vocês juntarem aí de bens vai ficar aí. Aqui nas minhas mansões, queridos, nenhum bem material terreno entra. Então parem com esse papo de que só quem tem grana dispõe do meu favor. Muitos dos meus servos mais queridos moram em comunidades carentes e uns às vezes dependem até da caridade alheia para comer. E eu sempre dou um jeito de mandar comida até eles, podem ter certeza. E os amo do mesmo jeito.

Teve muita gente como vocês, hereges, ao longo desses últimos dois mil anos. Posso citar a turma que criou a heresia que foi chamada de Modalismo (ou Sabelianismo), como Noeto, Epógono, Cleômenes, Calixto, Práxeas e Sabélio. Imaginem como eu me sentia quando os ouvia rejeitar o conceito de Três Pessoas em uma só essência. Tadinhos, não entenderam a realidade da Trindade, que eu esclareci ao meu servo Tertuliano e depois reforcei com os dois Basílios e Gregório, que vocês chamam de “pais capadócios”.

Isso para não falar de outros hereges, como Montano, que, por volta do ano 150 se anunciou portador de uma nova revelação. Viram como vocês não estão inventando nada novo! “Grandes sacadas teológicas” já existem há dois mil anos!!!

Ou mesmo Ário, que nasceu no fim do terceiro século e começou a ensinar que Jesus era um ser criado, sem atributos como eternidade, onisciência, onipotência etc. Interessante, assim como ocorre hoje com vocês, teólogos da prosperidade, que conseguiram enfiar seus ensinos de demônios até em denominações sérias, já naquela época muitos teólogos e sacerdotes aceitaram ensinos que não têm nada a ver comigo. No caso de Ário, diversos bispos da Igreja no Oriente (que eram gente estudada, cheios de mestrados e doutorados, se podemos fazer a analogia) concordaram com os ensinos heréticos dele. E isso vive se repetindo na História.

Universalismo

Não sei se vocês já ouviram falar de um homem chamado Pelágio. No final do século IV, esse teólogo britânico afirmava que o homem poderia viver isento do pecado, que não houve o pecado original e que, por uma vida digna, os homens poderiam atingir o Céu, mesmo desconhecendo o Evangelho. E olha que eu fiz tanta questão de inspirar meus escritores para deixar bem claro na Bíblia que a salvação é pela graça somente, mediante a fé em Jesus – e que ambos procedem de mim, são dons meus!

Aí eu fiz meu servo Agostinho combater fortemente Pelágio por dizer essa coisa totalmente absurda – que qualquer um, por suas boas obras, poderia ser salvo. E agora, 17 séculos depois, um bonitinho lá dos Estados Unidos trouxe à tona recentemente a teoria de que -graças ao meu infinito amor – no final dos tempos toda a humanidade, de todas as religiões , crenças e fés, viria pro Céu. Meninos, acho que alguém precisa limpar aqueles óculos bacaninhas dele, para que leia melhor a Biblia. Esse rapaz faz parte desse negocio engraçado que vocês inventaram chamar de Igreja emergente.

Nada contra, até que as roupas dele são estilosas e os vodcasts dele são muito bem produzidos. Mas…sinceramente, é só o que tem me chamado atenção nele. Porque será que ele não entendeu absolutamente nada sobre por que meu Filho teve de morrer na Cruz e ressuscitar pra que SOMENTE e TÃO SOMENTE aqueles que nele creem não pereçam, mas tenham a vida eterna? Como é que ele lança um vídeo dizendo que um hindu que rejeitou o sacrifício do meu Filho vai morar aqui nas minhas mansões? De onde ele tirou essa ideia? E ainda por cima usando como justificativa a minha essência – que é o amor. O livro dele tergiversa bastante, mas aquele vídeo que ele lançou no Youtube é intragável. Pelagianismo puro. E o que mais me espanta é que tem montes e montes e montes de emergentes concordando com ele e até o defendendo daqueles que criticam esse pensamento absurdo.

Amar é ser justo. Será que esse menino não leu que aquele que guarda os mandamentos de Jesus é o que o ama de verdade (“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” – Jo 14.21)? E desde quando um hindu, um muçulmano ou qualquer adepto de outra fé cumpre os mandamentos do meu Unigênito? Logo, não o ama. E se não o ama e Ele é o ÚNICO caminho e ninguém vem a mim senão por Ele, de onde é que esse garoto tirou essa ideia maluca (chamam isso de universalismo, né?) de que todos serão salvos no final? E tem gente acreditando!

Amor, meninos, é entregar-se cem por cento ao meu Filho. Esse é o amor que vence no final: a Cruz. Estou começando a achar esse negocio de Igreja emergente meio esquisito…

Vamos então falar sobre isso. Mas somente na 2a Epístola, que posto aqui em breve, pois por hoje já escrevi o suficiente.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

(Esta é uma obra de ficção, baseada em fatos muito, mas muito reais. Ai de mim pôr palavras na boca de Deus, pois, ao contrário de muitos, não quero me tornar um herege).

Fonte: Apenas