INTRODUÇÃO
Quando lemos a história de Naamã, encontramos um homem respeitado e temido em toda a Síria. Contudo, mesmo com toda autoridade e prestígio como comandante do exército do rei Ben-Hadade II — sendo, por esse cargo, o segundo em poder no reino —, Naamã era um homem condenado, pois debaixo de seu uniforme escondia-se o corpo de um leproso. Como diz o versículo primeiro, havia um "porém" em sua história de sucesso.
Naamã enfrentava um inimigo pessoal mais poderoso que todos os exércitos que já havia vencido: a lepra. Por causa dessa doença, vivia isolado dentro de sua própria casa.
A hanseníase (lepra, morfeia ou mal de Hansen) é uma doença infecciosa causada pelo bacilo Mycobacterium leprae, que provoca lesões severas em nervos e pele. O nome "hanseníase" homenageia o Dr. Gerhard Hansen, descobridor do micro-organismo; o termo "lepra" está em desuso por sua carga histórica negativa.
Trata-se de doença contagiosa, transmitida por pessoa doente sem tratamento. Os primeiros sintomas costumam levar de dois a cinco anos para aparecer, manifestando-se por sinais dermatológicos e neurológicos. Pode afetar qualquer pessoa que tenha contato intenso e prolongado com o bacilo, independentemente de idade ou classe social. Sem tratamento adequado, pode causar deformidades — mas tem cura
A escrava israelita levada para a casa de Naamã temia a Deus e se compadeceu da situação de seu senhor. Ousou testemunhar à sua senhora que havia um profeta em Samaria capaz de curá-lo. Deus usou uma escrava como profetisa e missionária em terra estrangeira, testemunhando do Deus de Israel — pois ainda hoje o Senhor usa as coisas "loucas" para confundir as sábias (1Co 1.26-29). Ele se serve de todos os que temem o Seu nome para que, em qualquer lugar, testemunhem a fé e exaltem o Seu nome.
Por onde você tem passado, tem testemunhado do Senhor? As pessoas têm ouvido de seus lábios a Palavra, ou você se cala quando poderia testemunhar? Essa menina, apesar de escrava, não deixou de ser serva e boca do Deus Altíssimo em terra estranha. Assim como Daniel e seus amigos testemunhariam mais tarde na Babilônia, encontramos aqui essa jovem testemunhando na Síria. Muitas vezes é justamente nos momentos de maior adversidade que o Senhor será exaltado por meio do nosso testemunho.
Deus a levou até ali para alcançar Naamã e sua família. O Senhor tem os Seus escolhidos e vai buscá-los onde estiverem. Mas, para alcançar Naamã, permitiu que uma doença extremamente humilhante o atingisse.
Como disse Jó: "Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado" (Jó 42.2).
Este texto não fala apenas de um homem curado de sua enfermidade; mostra os caminhos que o Senhor traçou para que Naamã alcançasse também a salvação.
1ª LIÇÃO: O SENHOR REVELOU A NAAMÃ CINCO IDEIAS ERRADAS SOBRE COMO ALCANÇAR A BÊNÇÃO
Ao ouvir de sua esposa o testemunho da criada, Naamã imediatamente crê na possibilidade do milagre. Vai então ao seu rei e relata sua doença e a esperança de cura em Israel. Mas o general cometeu cinco erros que muitos ainda cometem hoje.
1º erro: achar que influência e autoridade garantem a bênção do Senhor (2Rs 5.5). Naamã viaja para Israel com carta do rei da Síria, que servia de intermediário diante do rei de Israel para providenciar o encontro com o profeta Eliseu.
Para Naamã, não haveria como o profeta recusar recebê-lo — afinal, vinha em nome do rei da Síria e por intermédio do próprio rei de Israel. Não havia meio-termo: quem estava ali era o General Naamã.
Mas o Senhor não olha para patentes e títulos pendurados em nossas paredes. Ele age por sua graça e misericórdia, não pelo que somos diante dos homens. Como escreveu Paulo:
"Pois ele diz a Moisés: 'Terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia e terei compaixão de quem eu quiser ter compaixão'. Portanto, isso não depende do desejo ou do esforço humano, mas da misericórdia de Deus... Portanto, Deus tem misericórdia de quem ele quer, e endurece a quem ele quer" (Romanos 9.15-18).
Naamã podia ser general, portar carta do rei, ser enviado por intermédio do rei de Israel — nada disso valia diante do Rei dos Reis e Senhor dos Senhores. Como disse Isaías:
"Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades como um vento nos arrebatam" (Isaías 64.6 – NVI).
2º erro: achar que o dinheiro compra tudo, até as bênçãos de Deus (2Rs 5.5). O rei respondeu: "Vá. Eu lhe darei uma carta que você entregará ao rei de Israel". Naamã partiu levando trezentos e cinquenta quilos de prata, setenta e dois quilos de ouro e dez mudas de roupas finas (NVI).
Naamã pensava poder pagar pela bênção de Deus, como fazia com os deuses sírios — o dinheiro era destinado aos falsos profetas que se diziam portadores de bênçãos.
Hoje isso ainda é comum: pastores que ensinam que uma oferta de sacrifício "garante" a bênção. Basta ligar a TV para ver esse sincretismo religioso nefasto disseminado em muitas ditas igrejas.
A palavra "sincretismo" origina-se em Creta: as cidades cretenses, avessas à unidade, só se aliavam ("syn-cretenses") diante de um inimigo comum. Naquela ilha conviviam cultos e filosofias diversas.
Jesus, porém, deixou claro o que muitos parecem ter arrancado de suas Bíblias:
"À medida que seguirdes, pregai que está próximo o reino dos céus. Curai enfermos, ressuscitai mortos, purificai leprosos, expeli demônios; de graça recebestes, de graça dai" (Mateus 10.7,8 – ARA).
3º erro: achar que Deus deve agir conforme minha maneira (2Rs 5.9-11). Naamã tinha em mente os profetas dos deuses sírios e esperava que Eliseu agisse do mesmo modo.
Esse é o problema de muitos de nós: pensar que o Senhor deve agir sempre da mesma forma. Mas Deus trata cada pessoa de maneira única, considerando questões emocionais, espirituais e psicológicas que muitas vezes desconhecemos — embora nunca escapem ao conhecimento de Deus.
Ele não operará um milagre sempre do mesmo jeito. Observando os milagres bíblicos, vemos formas variadas de atuação divina. É importante testemunhar a bênção recebida, mas sem transformá-la em referência fixa para como Deus agirá com você ou com outros.
Assim como as pessoas questionaram a morte de Lázaro:
"Mas alguns objetaram: Não podia ele, que abriu os olhos ao cego, fazer que este não morresse?" (João 11.37 – ARA).
Não pensamos assim também, muitas vezes? Mas o Senhor age segundo o Seu querer, não conforme nossa expectativa.
4º erro: recusar-se a obedecer à ordem de Deus (2Rs 5.12). Naamã queria o milagre, mas não aceitava se sujeitar à ordem do profeta. "Assim eu não quero. Desse jeito não vou fazer."
Esse é o grande problema de muitos: querem a cura, mas não praticam a obediência às Escrituras. Querem a bênção, mas não o Senhor da bênção — pois obedecer significa submeter-se à vontade d’Ele, algo que muitos resistem a fazer.
Os anos passam, mas o homem permanece o mesmo: quer ser agraciado por Deus sem se sujeitar à Sua vontade.
5º erro: achar que a bênção está nas mudanças sociais (2Rs 5.7). "Por acaso sou Deus, capaz de conceder vida ou morte?" Em outras palavras: "Não espere que eu faça o que só Deus pode fazer!"
A cura de Naamã não dependia do rei de Israel, da política ou dos melhores médicos da época.
O mundo ocidental precisa ouvir essa exclamação. Diante do sofrimento, costumamos crer que a solução está em mudanças políticas, técnicas terapêuticas ou avanços tecnológicos. Mas a escuridão do mundo é profunda demais para ser dissipada por essas coisas. Em nossa arrogância, cometemos o erro de crer que podemos controlar e vencer a escuridão apenas pelo conhecimento [1].
O rei de Israel reconheceu não ter tal autoridade — mas muitos ainda acreditam que a solução de seus problemas está nas mãos das autoridades constituídas.
Não desmereço médicos, hospitais e avanços — reconheço sua importância. Mas nossa vida está, em última instância, nas mãos do Senhor.
Depois de ver os erros que Naamã cometia em sua busca pela bênção, é preciso reconhecer algo maior: por trás de cada tropeço humano, havia uma mão divina silenciosamente conduzindo os fatos. É o que vemos na segunda lição.
2ª LIÇÃO: O PRÓPRIO SENHOR TRAÇA O CAMINHO DO MILAGRE NA VIDA DE NAAMÃ
1º - Levando uma serva sua para dentro da casa de Naamã. Quando Naamã invadiu Israel e levou aquela menina cativa, não podia imaginar que o Deus de Israel já providenciava aquele episódio. Não foi coincidência, mas providência — o cuidado de Deus por Naamã, mesmo antes de ele O conhecer.
Vejamos a história de José, vendido e levado ao Egito:
"Cheguem mais perto... Eu sou José, seu irmão, aquele que vocês venderam ao Egito! Agora, não se aflijam nem se recriminem... pois foi para salvar vidas que Deus me enviou adiante de vocês... Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem, para que hoje fosse preservada a vida de muitos" (Gênesis 45.4-8; 50.19-21 – NVI).
A história de José, assim como a dessa menina, prova que o Senhor governa a história segundo Seus propósitos. Por isso, na vida do crente, não existe coincidência — apenas providência.
2º - Fazendo com que o próprio Naamã desse crédito ao testemunho. A esposa de Naamã transmite ao marido o relato da menina, e ele busca confirmação. Ao descobrir a existência do profeta, parte em busca da cura. Essa jovem poderia ter se calado, mas foi dirigida por Deus a trazer palavra de esperança àquela família.
3º - Fazendo com que Naamã se prontificasse a buscar a cura. Imediatamente ele parte para Israel ao encontro de Eliseu. Quando Deus move os corações, as pessoas não questionam — apressam-se a agir conforme Sua orientação.
Mas o Senhor não apenas abre o caminho — Ele também espera que caminhemos por ele. Não basta que Deus trace a rota; é preciso que o homem se posicione para percorrê-la. É isso que a terceira lição nos revela.
3ª LIÇÃO: O CAMINHO DO MILAGRE EXIGIU DE NAAMÃ POSICIONAMENTO
Uma coisa é Deus querer abençoar; outra é nos posicionarmos para receber a bênção. Há muitos anos, eu e minha esposa orávamos pedindo um carro, pois era difícil levar nossa filha à escola e minha esposa ao trabalho. De repente, ela me disse para pararmos de orar — o motivo era simples: nenhum de nós dois sabia dirigir! Passamos então a orar por condições de tirar a carteira de habilitação. Antes mesmo de ela chegar, já havíamos comprado um belo fusca 69 verde.
É preciso posicionamento para recebermos o que o Senhor tem para cada um de nós. Para Naamã, o Senhor exigiu quatro coisas:
1º - Naamã teve que se humilhar (2Rs 5.10-12). Acostumado a dar ordens e ser obedecido, encontra no profeta uma resposta totalmente diferente: sem cerimônia, Eliseu apenas o manda mergulhar sete vezes no Jordão. Ponto final.
Naamã não aceitou. Quem o profeta pensava que era, para falar assim com ele?
A Bíblia é clara: "embora esteja nas alturas, o Senhor olha para os humildes, e de longe reconhece os arrogantes" (Salmos 138.6). E Tiago acrescenta: "Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes" (Tiago 4.6 – NVI).
Ele teria que se despir diante de seus servos, expor sua enfermidade a todos — algo profundamente humilhante, mas exatamente o que o Senhor precisava quebrar nele antes de curá-lo.
2º - Naamã teve que ouvir conselhos (2Rs 5.13,14). Seus próprios soldados foram usados por Deus para fazê-lo refletir sobre a ordem de Eliseu.
Como diz o ditado: quem não ouve conselhos, ouve "ah, coitado!". Há quem pense que conselho, se fosse bom, não se dava — mas quem assim pensa só quebra a cara na vida.
"Não havendo sábios conselhos, o povo cai, mas na multidão de conselhos há segurança" (Provérbios 11.14 – ACF).
"Ouve o conselho, e recebe a correção, para que no fim sejas sábio" (Provérbios 19.20 – ACF).
Naamã ouviu o conselho de seus servos — e por isso alcançou a cura.
3º - Naamã teve que obedecer. Ouvir é uma coisa; praticar, outra bem diferente. Há grande distância entre ouvir e obedecer. A instrução de Eliseu parecia simples, mas não era o que Naamã desejava ouvir.
Obedecer é, muitas vezes, ir contra o que não queremos fazer — lutar contra a própria vontade em prol de um bem maior. No caso de Naamã, sua cura.
Muitos perdem a bênção por se negarem a obedecer à Palavra. Ser cristão é mais do que frequentar a igreja — é praticar a Palavra. Como diz Tiago:
"Sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes, enganando-se a si mesmos... Mas o homem que observa atentamente a lei perfeita que traz a liberdade, e persevera na prática dessa lei... será feliz naquilo que fizer" (Tiago 1.22-25 – NVI).
4º - Naamã teve que entender que o Senhor abençoa onde, quando e se Ele quiser. Precisou sujeitar-se à vontade de Deus, não aos seus próprios caprichos — caso contrário, deixaria escapar a bênção que buscava.
Naamã não é tão diferente de muitos de nós hoje — gente que pensa que Deus está à sua disposição, devendo abençoar conforme sua vontade e conveniência.
Depois de humilhar-se, ouvir e obedecer, Naamã finalmente mergulha no Jordão — mas o que ele recebe ali vai muito além da pele restaurada. É essa a quarta e mais profunda lição.
4ª LIÇÃO: O SENHOR CUROU MUITO MAIS QUE A DOENÇA FÍSICA DE NAAMÃ
O Senhor não curou apenas a lepra — Ele sempre vai além da cura física, tratando enfermidades que muitas vezes nem percebemos em nós mesmos. Todo milagre que não gera transformação, quebrantamento e uma nova postura diante do Senhor é questionável. A cura não é um fim em si mesma; deve conduzir a algo maior — temor, reverência, crescimento espiritual.
1º - O Senhor transformou sua postura diante de Deus (2Rs 5.15,16). Aquele que chegou cheio de si à casa do profeta, agora está diante dele, suplicando humildemente. Que diferença! O homem que antes exigia ser servido agora pede, por favor. Alguns aprendem como Naamã — outros, infelizmente, não, mesmo passando por experiências semelhantes.
2º - O Senhor o curou de sua cegueira espiritual (2Rs 5.15-17). Naamã passou a ver o que antes não conseguia enxergar: que só o Senhor é Deus, e fora d’Ele não há salvação. Abandonou os deuses que servia e passou a adorar o único Deus criador dos céus e da terra.
3º - O Senhor lhe deu a vida eterna (2Rs 5.18,19). "Vá em paz!" Muitas vezes somos levados a situações que não agradam ao Senhor — como Naamã, que ainda teria que entrar no templo de Rimom —, mas ele justificou sua atitude diante do profeta.
Naamã saiu da Síria em busca de cura e voltou transformado pelo Senhor. Saiu perdido, mas retornou pelo caminho da graça. Saiu morto, mas voltou de posse da vida eterna. Saiu em trevas, mas voltou em luz.
Ninguém que tenha um encontro real com o Senhor pode continuar andando como antes. Assim como os magos, advertidos por revelação divina, retornaram por outro caminho após visitar Jesus (Mateus 2.12), quem verdadeiramente encontra o Senhor não volta ao que era. Como escreveu Paulo:
"Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo" (2 Coríntios 5.17).
CONCLUSÃO
Alguém já disse que, no sofrimento, não há lugar para o ego. Naamã aprendeu isso não no sofrimento, mas na cura — pois, enquanto doente do corpo, estava também doente da alma e do espírito. Ao ver-se curado pela graça do Senhor, voltou com o coração totalmente transformado.
O Senhor operou uma cura completa, não apenas superficial — embora esta última seja, infelizmente, o que muitos pregadores oferecem hoje. Por isso, muitos saem dos cultos tão enfermos quanto entraram: talvez curados do corpo, mas sem alcançar o real sentido da vida — a vida eterna em Cristo Jesus.
Naamã alcançou o pleno milagre em todos os sentidos: a cura física, da alma e do espírito.
E você, já alcançou esse milagre?
Pense nisso!
Fonte:
[1] Keller, Timothy. Caminhando Com Deus em Meio
à Dor e ao Sofrimento. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 2016, p. 96.

Olá, comentário claro e objetivo, de fácil compreensão. Muito bom!
ResponderExcluirmuito bom.
ResponderExcluirÓtimo
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