sábado, 2 de abril de 2016

A GRAÇA DE DEUS E A MULHER ADÚLTERA


Por Pr. Silas Figueira

Texto Base João 8.1-11

INTRODUÇÃO

Para muitos eruditos esse texto não faz parte do Evangelho de João, eles alegam que essa passagem não faz parte dos manuscritos mais antigos, só vindo a aparecer nos manuscritos mais novos, e nos casos em que aparece, nem sempre se encontra nessa parte do Evangelho de João. No entanto, Papias, um discípulo de João, parece ter conhecido e exposto essa história. A maioria dos estudiosos concorda que essa passagem faz parte das Escrituras, e segundo F. F. Bruce, é “um fragmento de material autêntico do Evangelho”, onde quer que seja colocado. Por isso que a versão Almeida Revista e Atualizada trás esse texto entre colchete [Jo 7.53-8.11].

Eu não tenho nenhuma dificuldade de crer nesse episódio, pois eu creio que o Senhor preservou a Sua Palavra e ela é fiel e verdadeira. As aulas que tenho dado no seminário sobre Crítica Textual só aumentam ainda mais as minhas convicções do quanto o Senhor preservou a Sua Palavra. E outro detalhe importante, esse texto é uma ponte que liga o discurso de Jesus no templo e as diversas reações a esse discurso, principalmente a dos principais sacerdotes e fariseus, conf. Jo 7.1-53. Hernandes Dias Lopes citando Hendriksen diz que essa passagem pode ser entendida como preparação e elucidação do discurso do Senhor em João 8.12. Lembrando-nos que essa mulher e seus acusadores estavam numa densa escuridão moral. Assim não nos surpreendemos ao ler: Eu sou a luz do mundo (Jo 8.12).

Voltemos ao texto.

O texto nos diz que era madrugada e Jesus volta do monte das Oliveiras para o templo e logo pela manhã já estava ensinando. Lá estava Ele rodeado de pessoas, alguns são discípulos, outros curiosos. Quer discípulos, quer curiosos, eles o ouvem atentamente. Podemos dizer que aquelas pessoas abriram mão do sono para estarem com Jesus bem cedo para ouvi-Lo. Acordaram cedo para comer de um pão espiritual que somente Ele poderia oferecer. Somente o verdadeiro Pão da Vida pode saciar a fome espiritual das pessoas.

Não sabemos o que o Senhor estava ensinando, mas foi nesse instante da manhã que um bando interrompe o ensino de Jesus. Invadem o pátio, eram líderes religiosos, homens respeitados e importantes. A horda é constituída da mais alta nada da sociedade judaica, eram os escribas e fariseus, eram os pastores e diáconos daquela época.

Esses homens saem de alguma rua estreita com uma mulher. Como diz o Pr. Eduardo Rosa Pedreira: “esses homens são conhecidos como vigilantes morais, policiais do pecado alheio, gente com olhos abertos para detectar como radares humanos a fraqueza do outro”.

Com eles está uma mulher. Como diz Max Lucado: “e lutando para manter o equilíbrio na crista dessa onda bravia encontrava-se uma mulher semidespedida”. Apenas momento antes estava na cama com um homem que não era o seu marido. Esses policiais do pecado alheio não estavam interessados na Lei, nem muito menos na questão do adultério, pois se não teriam levado o homem também. Queriam apenas usar de forma desonesta essa situação para apanhar Jesus em algum erro, em uma armadilha (v. 6).

Se Jesus recomendasse a clemência, Ele se colocaria em oposição à Lei de Moisés. Se Ele recomendasse o apedrejamento, os judeus sabiam que tal julgamento entrava em choque com a jurisdição romana, que reservava para si o direito de aplicar a morte. A malignidade desses homens era notória em suas atitudes. Eles queriam pegar Jesus em algum erro, era isso que lhes interessava. A pobre mulher era só um chamarisco para tal coisa.

Esses homens põem esta mulher na frente de Jesus e lhe dizem:

– Apanhamos esta mulher em flagrante adultério! Brada o líder. A lei diz para apedrejá-la. O que o Senhor diz?

A lei dizia muitas coisas.

● A Lei referente ao adultério era realmente muito severa, porquanto de acordo com as passagens de Lv 20.10 e Dt 22.22 nesse caso, ambos os envolvidos, deveriam ser condenados à morte.

● Em Dt 22.23,24 especifica a morte por apedrejamento para o caso especial de adultério em que a mulher fosse virgem, comprometida com outro homem (noiva).

● Em Lv 21.9 diz que se a filha de um sacerdote viesse a tornar-se prostituta deveria ser queimada.

Em outras palavras, aquela mulher perante a Lei deveria morrer.

É, pois, neste maravilhoso encontro, neste cenário atípico que podemos tirar algumas lições importantes para nossa vida.

A PRIMEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE PRECISAMOS MUDAR A NOSSA VISÃO – Uma pessoa é maior que seus pecados.

Enquanto os fariseus viram uma mulher adúltera, Jesus viu uma pessoa. Jesus viu gente. Para os seus acusadores nada do que ela foi ou poderia ser era mais importante que o adultério por ela cometido. Toda a sua vida estava resumida naquele ato. Um momento apenas, e tudo mais foi ignorado.

O seu pecado era passivo de morte, isso é um fato. Ela havia traído o seu marido. A palavra grega para adultério é moikeia, que descreve uma relação extraconjugal. Ela violou os votos de fidelidade conjugal, quebrou a aliança, feriu a Lei de Deus e transgrediu o sétimo mandamento.

Não estou querendo justificar o pecado desta mulher, mas nós não sabemos o que aconteceu para que esta mulher fizesse isso. Não sabemos se seu marido a maltratava, se ele havia a traído também e por isso com ela estava se vingando dele. Quem sabe ela se aproveitou do fim da festa dos tabernáculos, já que a cidade estava lotada de gente para dar vazão aos seus desejos e pecar. Não sabemos se não foi nos braços de um estranho que ela encontrou o carinho, o afeto que seu coração tanto desejava. Não sabemos. De uma coisa sabemos:

1º Os fariseus usaram de sua autoridade para condenar e não para restaurar (Jo 8.4,5). Os líderes religiosos usaram da sua autoridade tanto para condenar a mulher, quanto para condenar Jesus. Mais uma vez repito, o que havia ali era uma grande malignidade no coração daqueles homens. Passava longe do coração deles a misericórdia.

O Cristo Redentor é uma estátua com vinte e sete metros de altura. Mil trezentas e vinte toneladas de concreto armado. Posicionada numa montanha dois mil e quatrocentos metros acima do nível do mar. Essa estátua do Cristo Redentor é impressionante, mas há uma grande ironia nesse Redentor: ele é cego. A segunda ironia é que no peito da estátua há um coração. Só que é um coração de pedra. A terceira ironia é que abaixo dele há uma cidade envolta no pecado, mas que ele não redime, não tem poder de libertar as pessoas de seus pecados.

A estátua do Cristo Redentor é um símbolo desses fariseus. Homens cegos e com um grande coração de pedra. Não havia nem ternura em seus olhos e nem amor em seus corações. Muitos daqueles homens tinham a idade para ser seu pai, mas eles não a viram como uma filha que precisava de colo, de carinho, de respeito, de disciplina, mas a viam como digna de morte. Eles eram redentores sem vista e sem coração.

2º Vemos a hipocrisia dos religiosos (Jo 8.5,6). Esses religiosos pareciam estar preocupados com a Lei, com a moral e os bons costumes, mas na verdade eram grandes hipócritas. Gente sem nenhum compromisso com Deus e muito menos com a Sua Lei. Eram homens invejosos que não conseguiam conviver com a popularidade de Jesus e nem queriam ouvir os seus ensinamentos. Diziam ser filhos de Deus, mas eram filhos do diabo como bem disse Jesus. A vergonha e os temores da mulher, ao ser exposta publicamente, não lhes significava nada, conquanto alcançassem o objetivo que tinham proposto que era de matar Jesus. Com essa atitude esses líderes se tornaram mais culpados que a acusada.

3º Corremos o risco de nos tornarmos como esses homens (Jo 8.9,10a). Observe que a multidão pega em pedras para apedrejar a mulher. As mesmas pessoas que estavam ouvindo os ensinamentos de Jesus, de repente, passam a dar atenção aos líderes religiosos. Isso serve de alerta para todos nós. Corremos o risco de sermos influenciados a ver os pecados alheios e não repararmos nos nossos. Como disse Jesus em Mt 7.1-5 sobre o julgar o pecado alheio.

SEGUNDA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE SOMOS TODOS IGUAIS DIANTE DE JESUS (Jo 8.7-9).

O que vemos aqui é a igualdade radical de todo ser humano diante de Jesus. Aos olhos de Deus todos nós somos pecadores (Rm 3.23). Para Ele não existe tamanho de pecado, nós sim fazemos distinção, nós sim comparamos tamanho de pecado. Aqui em baixo é que somos diferentes. Aliás, é bom lembrar que há muitas pessoas em nossas igrejas que se alegram, infelizmente, com o pecado dos irmãos, principalmente se seus pecados forem “maiores” que os deles. Assim eles se sentem mais santos que os outros.

1º - Jesus nivelou todos eles ao pecado da adúltera (Jo 8.7). Hernandes Dias Lopes citando William Barclay diz que é interessante notar que “a palavra grega anamartetos, ‘sem pecado’, significa não só sem pecado, mas também sem um desejo pecaminoso. Portanto, Jesus estava dizendo: vocês só podem apedrejá-la se nunca desejaram no coração fazer o mesmo”.

Veja o que o Senhor disse em Mt 5.27,28: “Ouvistes o que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela”.

O certo é que as pedras abandonadas no chão provam que o adúltero e a adúltera são tão pecadores aos olhos de Jesus quanto qualquer um que não haja cometido este pecado, mas esteja envolvido em outros.

2º - Quando somos confrontados com os nossos pecados há quebrantamento (Jo 8.9). O que se ouviu depois da pergunta de Jesus foi o bater de pedras no chão. Felizmente aqueles homens tinham um pouco de senso crítico e consciência sensível, a ponto de perceberem seu próprio pecado e abandonarem a ideia de tentar matar uma pessoa tão pecadora quanto eles.

Quando me considero tão pecador quanto aquele que me feriu, entro num caminho de quebrantamento maravilhoso. Minha ira pode ser quebrada, meu orgulho pode ser quebrado, meu eu pode ser quebrado por esta atitude de não atirar pedras em quem me feriu – conquanto tenha todas as razões do mundo para fazê-lo.

3º - Quando me considero tão pecador quanto aquele que me feriu, então percebo que há perdão para o outro. Isso não é fácil de se ouvir, principalmente quando alguém já foi ferido por outra pessoa através de um adultério. Talvez você diga que eu estou falando isso porque tal coisa não aconteceu comigo, mas eu quero lhe dizer que se eu não pensar assim eu estou dizendo que o sacrifício de Cristo na cruz foi só para perdoar alguns pecados, e, principalmente, não perdoar os que me feriram.   

Não estou dizendo com isso que devemos voltar a conviver com quem nos feriu. Eu estou dizendo que devemos perdoar aquelas pessoas que nos feriram, pois essa é uma necessidade da nossa alma, se não liberamos perdão nós iremos morrer envenenados com o nosso ódio.

TERCEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE A GRAÇA DE DEUS NOS ISENTA DA MORTE (Jo 8.10,11).

O Pr. Eduardo Rosa Pedreira diz que “o ver que todos haviam saído de cena sem condenar a mulher, Jesus também não a condena. Aliás, naquele cenário Ele era o único com condições de atirar a primeira pedra. Contudo não o fez. Ele nem se quer pegou numa pedra. Ele a perdoa, livra-a do peso de seu adultério, liberta-a: ‘Vai, segue teu caminho, constrói vida nova, caminha por jornadas novas, vai livre, vai! No entanto, não peques mais’”.

1º - Jesus não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega (Jo 8.11b). Cana ou caniço era um talo erguido à beira das águas de um rio ou lago ou represa, uma espécie de bambu. Havia muito destas canas nos rios de Israel, as crianças costumavam sentarem-se as margens destes rios, e ali faziam orifícios nestas canas transformando elas em flautas. Era uma tarefa difícil, porque com muita facilidade o bambu podia se danificar, se ficassem tortas ou estragadas as crianças o esmagavam e jogava fora.

O que é um pavio fumegante? É o pavio de uma lâmpada que ainda fumega. Quem já morou na roça sabe muito bem o que é um pavio, isto era muito usado no passado as lamparinas tinham um pavio que era aceso com gasolina. Um pavio fumegante não está mais aceso, não existe mais fogo nele mais ainda esta fumegando. Na antiguidade como não havia ainda luz elétrica e as casas em Israel eram iluminadas por pequenas candeias de azeite. Um pavio feito de linho flutuava no azeite, clareando a cassa, terminando o azeite o mau cheiro do linho ardente se tornava desagradável e dona de casa o jogava fora.

Jesus tirou os olhos do que estava escrevendo no chão somente quando todos os acusadores tinham partido. Diante dele estava somente essa pobre mulher totalmente quebrada moralmente e espiritualmente apagada. Ele a restaura. Não é porque não damos mais som e nem temos mais luz que o Senhor nos descarta. Somos descartáveis para os homens, mas não para Deus. Por isso o Senhor libertou aquela mulher para que ela trilhasse um novo caminho e tivesse uma nova vida.  

2º - O perdão tem suas exigências (Jo 8.11c). Jesus despede a pecadora, mas sem fechar os olhos ao seu pecado. Se Ele tivesse a despedido sem essa recomendação Ele estaria dando aval ao seu pecado, mas não foi isso que Ele fez. Ele a despede em paz, mas com essa ordem: “Vai e não peques mais”.

Esta mulher volta-se e caminha para o anonimato. Ninguém mais a vê ouve falar dela. Há uma antiga lenda que diz que o nome dela era Susana e que se tornou discípula de Tiago, irmão de Jesus. Se isso é verdade nós nunca poderemos descobrir, mas uma coisa é certa: esta mulher nasceu de novo.

3º - Jesus restaura a dignidade desta mulher. Ela vai para o anonimato restaurada pelo Senhor. O Senhor a havia perdoado de seus pecados e lhe dado uma nova oportunidade. Assim o Senhor está fazendo hoje também com cada um que se achega a Ele quebrado e sem brilho. Ele restaura a honra dessa mulher e lhe dá nova vida.

CONCLUSÃO

Muitas pessoas definem o casamento como uma prisão, uma forca, mas eu quero dizer que há liberdade no casamento, mas esta liberdade jamais estará livre de limites. Ela nunca é absoluta; ser totalmente livre é viver uma vida sem amor. Se você é dirigido apenas pelos seus próprios desejos e não tem consideração pelos outros, então logo estará preso aos seus desejos. A ideia do “casamento aberto” – no qual se permite que cada um dos parceiros tenha relações íntimas com outras pessoas – nunca se mostrou ser uma forma funcional de casamento por uma simples razão: viola o amor verdadeiro. Alguém pode alegar que o mundo está mudando, mas nesse ponto a família não pode mudar.

O Pr. Eduardo Rosa Pedreira diz que “não há espaço para amizades coloridas ou as modernas ‘relações abertas’. Na era do ‘ficar junto’; no tempo em que antes de casar se mora junto, como um prelúdio para ver se vai dar certo o casamento; nestes tempos de tanta mudança, ainda é preciso erguer a voz e contestar aquilo que fragmenta e mata uma relação sadia”. 
    
Por isso que na Bíblia o pecado sempre será pecado e será tratado como pecado independentemente de haver uma concessão do parceiro para o pecado, no caso em questão – o adultério.

Pense nisso!

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