segunda-feira, 8 de agosto de 2016

A NOIVA EMBRIAGADA

Por Pr. Silas Figueira

Recentemente eu estive na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) aqui de minha cidade por volta das 23h30min, na véspera de domingo. Chegando lá, duas coisas me chamaram a atenção, a primeira é que não havia quase ninguém lá, e olha que a UPA vive cheia de pacientes. A segunda coisa que me chamou a atenção é que estava sendo atendida uma noiva completamente bêbada. Após o casamento os noivos foram para a festa e, chegando lá, ela bebeu até passar mal.

Quando eu cheguei, ela ainda estava vomitando muito, mas logo depois lhe aplicaram uma injeção com uma medicação e ela dormiu de roncar. O triste da história é que o noivo estava do lado dela tentando acordá-la.

- Querida acorda! Acorda!

E ela simplesmente não se dava conta de que o noivo estava ali do lado dela. Ele vestido de fraque e ela toda de branco com o vestido vomitado. Simplesmente uma cena deprimente.

Ao olhar para aquela cena eu me lembrei da noiva de Cristo, a Igreja. Esta também, pelo que temos visto, está completamente embriagada, não com o Espírito Santo (Ef 5.18), mas embriagada com as coisas deste mundo; com a bebida que o diabo oferece.

Com que a igreja tem se embriagado? Talvez você pergunte.

1º - A igreja tem estado embriagada com as falsas promessas de uma vida sem problemas neste mundo. Quando lemos a Bíblia nós nunca nos deparamos com tais promessas, temos sim a promessa de que o Senhor estaria conosco todos os dias até a consumação dos séculos (Mt 28.20b). Quanto às dificuldades neste mundo sempre as teremos, isso é inevitável. 

Observe o que o Jesus falou para os seus discípulos em João 16.33:

“Eu lhes disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo” (NVI).

Já o apóstolo Paulo nos fala em Atos 14.22:

Fortalecendo os discípulos e encorajando-os a permanecer na fé, dizendo: “É necessário que passemos por muitas tribulações para entrarmos no Reino de Deus” (NVI).

Esta embriaguês leva as pessoas acharem que a vida é uma colônia de férias como nos fala o Reverendo Hernandes Dias Lopes. É uma visão distorcida achando que o céu é aqui na terra.

Os jovens, principalmente, vêm para a igreja para se divertir. Jovens que desconhecem o que é a vida dos primeiros mártires da Igreja Primitiva. Jovens que desconhecem o que é viver para Cristo. Jovens que pensam que o Evangelho é diversão sem compromisso com o testemunho de vida. Jovens que honram seus líderes, mas não honram a Deus e nem seus pais. Jovens fracos, frouxos, sem varonilidade, parecendo mais homossexuais no jeito de se vestir e de falar. Jovens que pensam que a igreja é clube de dança. Profanam o sagrado com suas danças sensuais, com Hip Hop, funk... e os líderes dizem que é uma forma de atrair os jovens. Gente que quer fazer da igreja um lugar de diversão e não um lugar de adoração. 
     
2º - A igreja está embriagada com o pecado. Não há temor em muitas pessoas dentro de nossas igrejas. Temos visto uma igreja inchada de pessoas sem compromisso com a verdade. Gente que quer trazer o mundo para dentro do ambiente religioso.

Líderes que deixaram há muito tempo de pregar sobre pecado para não ofender os ouvintes, que na verdade não passam de fregueses dessas tais igrejas. Por isso predomina o pecado nesses ambientes religiosos. Uma religiosidade sem temor, uma religiosidade onde o que predomina é o que o as pessoas gostam de ouvir e não o que elas têm necessidade de ouvir. Quem não é confrontado com a verdade será confrontado com a falsidade. Só que a verdade liberta a mentira escraviza. A verdade mostra o verdadeiro caminho para o céu, a mentira mostra um caminho que não o leva a ele, mas mantém as pessoas presas no inferno.

Igrejas que não falam em cruz, vida santa, vida de oração... Igrejas onde o homossexualismo é algo natural, onde o adultério é tido como corriqueiro, a começar pelo pastor. Igrejas que lutam pelo o que dá certo e não pelo que é certo. Onde os líderes se preocupam em manter o local empilhado de gente sem se preocupar com o destino de suas almas.

O texto de Paulo aos Colossenses 3.1-7 passa longe dos púlpitos dessas igrejas:

“Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a sua vida, for manifestado, então vocês também serão manifestados com ele em glória. Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria. É por causa dessas coisas que vem a ira de Deus sobre os que vivem na desobediência, as quais vocês praticaram no passado, quando costumavam viver nelas” (NVI).
   
3º - A igreja está embriagada com a heresia. A verdade há muito tempo deixou de ser referência na boca de muitos pastores. As heresias têm tomado os púlpitos e as pessoas não se dão conta disso. É tanta aberração em nome de Deus que não sei onde nós vamos parar. Vai de vassoura ungida a cigarro ungido. Na verdade isso não é bem heresia, está mais para idolatria, pois no momento em que se deposita a fé no objeto “consagrado” virou uma idolatria.

As verdades absolutas do Evangelho têm sido deixadas de lado, sendo substituídas por uma nova releitura. Afinal de contas, dizem eles, temos que ter uma nova mensagem para esse novo século. Para tais pessoas a Bíblia deixou de ser boca de Deus para ser boca do apóstolo que escreveu para aquela época. O relativismo teológico está na boca e na mente de muitos líderes. A verdade da bíblica não é absoluta, mas relativa. Ela não é inerrante para esses líderes, por isso distorcem o texto sagrado a seu bel prazer.

Sinceramente, eu não sei onde isso vai parar. Mas de uma coisa eu sei, se o Senhor não intervir a próxima geração estará completamente perdida.  Por isso nós não podemos parar de falar a verdade, ainda que as igrejas que pastoreamos fiquem vazias. É melhor pregar a verdade para o remanescente fiel que entreter as pessoas para manter a igreja cheia.

Muitas vezes me dá uma tristeza tremenda ao ver o que tem ocorrido com a igreja de Cristo. Olhando para aquela noiva lá na UPA eu vi o quando o Noivo – Jesus – tem estado ao ver sua noiva embriagada com as coisas desse mundo.

Que o Senhor nos ajude a permanecermos fiéis a Ele até a Sua volta.

Pense nisso!   

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A AUTÊNTICA MENSAGEM CRISTÃ


Por Pr. Silas Figueira

INTRODUÇÃO

Texto base: Atos 3.11-26

A cura do coxo mendigo fez com que a multidão ajuntasse ao redor deles. Essa cura foi realizada em uma das portas do templo chamada Porta Formosa, e nos diz o texto que quando o coxo se viu curado entrou saltando e louvando a Deus para dentro do templo (v. 8). A multidão ficou atônita, pois conheciam o mendigo que esmolava ali há muitos anos. Este homem tinha mais de quarenta anos (At 4.22); acredito que ele esmolava ali desde criança, por isso era bem conhecido de todos.

O homem curado ainda estava junto de Pedro e João quando eles foram abordados pela multidão no Pórtico de Salomão; este era um corredor coberto que ficava do lado leste do templo. Neste pórtico Jesus havia ministrado (Jo 10.23), e a igreja posteriormente passou a adorar ali (At 5.12).

Pelo menos umas dez mil pessoas havia ali, pois era a hora da oração [1]. Aproveitando a oportunidade, Pedro toma da palavra para pregar o Evangelho. O milagre, porém, não é o Evangelho, mas abre portas para a pregação do Evangelho [2]. Pedro começa o seu sermão explicando que o fato ocorrido não procedia de algum poder pessoal deles. Eles não eram a fonte do milagre, eles eram somente o canal.

Quanta diferença nos dias de hoje, onde muitos pregadores passam a ser adorados como se eles fossem a fonte do milagre, ou quando muito, a igreja que pastoreiam é que é a fonte. É só olhar para certos programas na TV que veremos como isso é comum. “Venha para a nossa igreja, aqui o milagre acontece” dizem eles, como se Deus não estivesse em outros lugares e se limitando àquele espaço físico, ou somente agisse naquela denominação. Pedro e João repudiam para longe de si a ideia de que eles eram milagreiros (v. 12). Pedro corrigiu a multidão e não aceitou glória para si mesmo. Pedro era um pregador fiel. O poder para curar não estava nele, mas no nome de Jesus, o Nazareno [...]. Aqueles que hoje fazem propaganda de pretensos milagres, como se fossem homens poderosos, estão na contramão do ensino bíblico. Os que acendem holofotes e buscam glória para si estão em total desacordo com o ensino das Escrituras [3].

Essa adoração a esses milagreiros ocorre porque uma vez que os homens não podem ver a Deus, e usualmente também não se mostram capazes de discernir claramente as obras de suas mãos ou de apreciar devidamente o desígnio, e o poder divino por detrás dessas coisas, habitualmente prestam aos homens a adoração e o respeito que pertence exclusivamente a Deus [4]. 

D. Martyn Lloyd-Jones nos diz que “algumas pessoas poderiam dizer que essa era a oportunidade maravilhosa para Pedro pregar sobre milagres, para oferecer cura a outros. Um homem tinha acabado de ser curado. ‘Alguém mais quer ser curado? Venha à frente’. Ele não fez isso, embora isso hoje passe por cristianismo [...]. O cristianismo faz coisas desse tipo, porém não as prega; é isso que as seitas fazem [...] Pedro aproveitou a oportunidade para explicar o milagre, falando a respeito de Jesus como a fonte do milagre. Pedro mostra para a multidão que eles estavam concentrados no milagre em si, e não na fonte do milagre. O que é vital é para onde o milagre aponta, não é o milagre, como milagre que é importante” [5]. Quanta diferença nos dias de hoje!

Diante dessa multidão Pedro aproveita para pregar o Evangelho, não cura divina.

Quais lições nós podemos aprender com a mensagem de Pedro?

EM PRIMEIRO LUGAR, PEDRO MOSTRA QUE O OCORRIDO NÃO ERA ALGO NOVO (At 3.13).

Pedro não inicia o seu sermão a partir de Jesus, mas começa falando “o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o Deus de nossos pais...”.

1º - Pedro mostra que o Senhor não mudou. Ele mostra um Deus pessoal que agiu na vida dos patriarcas e que continua agindo hoje no meio do seu povo. Ele é o Deus que diz: “Eu Sou o que Sou” (Êx 3.14), se revelando a Moisés no monte Horebe. Ele é o Deus vivo.

O Deus da Bíblia é o Deus que criou o universo. “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). Ele é o Deus que age, um Deus que faz todas as coisas, um Deus que planeja, que pensa e que ordena. Este é o Deus que ouviu o clamor de Seu povo no Egito e enviou um libertador. Ele é o Senhor dos senhores que age com graça e misericórdia da mesma forma que agiu no passado, mas agora no meio e por meio da Sua Igreja através do Espírito Santo no meio dela.

2º - Pedro mostra também que assim como Deus agiu no passado está agindo agora, só que na pessoa de Seu Filho Jesus. Como nos fala Hebreus 1.1-3:

“Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas”.

Através de Jesus não estava se iniciando uma nova religião como muitos judeus estavam pensando. A vinda de Jesus era uma continuidade do que o Senhor havia começado na eternidade passada quando havia planejado todas as coisas.

Esse Deus dos pais é quem glorificou a seu Servo Jesus. Com essa referência a Deus, Pedro expressou a convicção de que o que era novo em Jesus gozava de uma continuidade direta com o Antigo Testamento [6]. Logo, a história de Jesus é a obra desse único Deus vivo, que é o Deus dos patriarcas. Pedro usou vários nomes e títulos para descrever Jesus, como: Jesus Cristo, o Nazareno (3.6), o Servo de Deus (3.13), o Santo e Justo (3.14), o Autor da vida (3.15), o profeta prometido por Moisés (3.22), a pedra rejeitada que se tornou a pedra angular (4.11) [7].

Enfim, o Senhor é o mesmo ontem, hoje e eternamente. Amem!

EM SEGUNDO LUGAR, PEDRO FAZ UMA ACUSAÇÃO ESMAGADORA (At 3.13b-15).

Pedro depois de falar que o Senhor havia glorificado a Jesus o ressuscitado dentre os mortos não deixou de mostrar que eles eram culpados de um crime hediondo. Mesmo quando Pilatos quis soltá-lo, pois havia observado que Jesus era inocente e que as autoridades judaicas estavam o acusando por inveja (Mt 27.18).

1º - A mensagem de Pedro foi esmagadora, pois eles tinham que ter consciência do que haviam feito. Pedro é extremamente direto ao descrever a desonra quádrupla com que os habitantes de Jerusalém trataram o Mestre:

1) vós (o) traístes e 2) negastes perante Pilatos (assim como Pedro o havia “negado” diante de uma criada e de outros), quando este havia decidido soltá-lo. 3) Vós, porém, negastes o Santo e o Justo e pedistes que vos concedessem um homicida, exigindo assim “a condenação do inocente” e “o perdão do culpado”. 4) matastes o Autor da vida, um paradoxo perturbador, em que o próprio pioneiro ou doador da vida (archegos, tem os dois significados), é privado da vida [8].

Mas isso não é diferente nos dias de hoje. Quantas pessoas estão negando Aquele que é o Autor da vida escolhendo para si caminhos de morte (Pv 14.12). Outros estão inocentando os homicidas e condenando Jesus, e como isso tem ocorrido? No momento que achamos que a Palavra de Deus não é a verdade e escolhemos ouvir pessoas que a tripudiam, que a ridicularizam; como por exemplo, o deputado Jean Wyllys. Este ao falar sobre a Bíblia ressalta que nenhum texto bíblico deve ser levado ao pé da letra, “mas deve ser interpretado como um mito”, “como textos alegóricos, e não textos que dão conta de uma verdade”.

Triste não é ver uma pessoa como esta falar isso a respeito da Bíblia, triste é ver homens que se dizem pastores que desacreditam da Palavra de Deus, são os teólogos liberais que consideram que os relatos bíblicos dos milagres são invenções piedosas do povo judeu e dos primeiros cristãos, mitos e lendas oriundas de uma época pré-científica, quando ainda não havia explicação racional e lógica para o sobrenatural.

E esse ensinamento está sendo ensinado em muitos seminários teológicos de nosso país. Estão formando pastores incrédulos que pregarão mensagens filosóficas que não levam as pessoas ao arrependimento, mas a viver uma vida moldada em conceitos humanistas.

Hoje, em muitos púlpitos, já não se fala em pecado, arrependimento, vida santa e cruz, nem pensar!

A. W. Tozer deixou isso bem claro quando escreveu a respeito da Velha e Nova Cruz. Diz ele: Sem fazer-se anunciar e quase despercebida uma nova cruz introduziu-se nos círculos evangélicos dos tempos modernos. Ela se parece com a velha cruz, mas é diferente; as semelhanças são superficiais; as diferenças, fundamentais. 

A nova cruz encoraja uma abordagem evangelística nova e por completo diferente. O evangelista não exige a renúncia da velha vida antes que a nova possa ser recebida. Ele não prega contrastes, mas semelhanças. Busca a chave para o interesse do público, mostrando que o cristianismo não faz exigências desagradáveis; mas, pelo contrário, oferece a mesma coisa que o mundo, somente num plano superior. O que quer que o mundo pecador esteja idolizando no momento é mostrado como sendo exatamente aquilo que o evangelho oferece, sendo que o produto religioso é melhor.

Nós, os que pregamos o evangelho, não devemos julgar-nos agentes ou relações públicas enviados para estabelecer boa vontade entre Cristo e o mundo. Não devemos imaginar que fomos comissionados para tornar Cristo aceitável aos homens de negócio, à imprensa, ao mundo dos esportes ou à educação moderna. Não somos diplomatas, mas profetas, e nossa mensagem não é um acordo, mas um ultimato [9].

2º - A mensagem de Pedro é esmagadora, pois mostra que o Senhor cumpre os seus propósitos eternos independente da ação humana (v. 15b). Essa mensagem esmagou toda a ideia de que o homem tem a palavra final, de que ele é senhor da história.

Warren Wiersbe salienta que o calvário pode ter sido a última palavra do ser humano, mas o sepulcro vazio foi a última palavra de Deus. Ele glorificou seu Filho, ressuscitando-o dentre os mortos e levando-o de volta ao céu. O Cristo entronizado enviara seu Espírito Santo e operava no mundo por meio da igreja. O mendigo curado era uma prova de que Jesus estava vivo [10].

Pedro e João mostram para a multidão que aquele que eles haviam escolhido para morrer estava vivo, pois o Senhor o havia ressuscitado e eles eram testemunhas desse acontecimento. O vocábulo grego aqui para testemunha é “mártires”, ou seja, eles estavam dispostos a darem suas vidas por esse testemunho.

Uma das coisas que mais me tem impressionado é a falta de convicção entre muitos crentes. E por não terem muita convicção também não tem bom testemunho. São levados de um lado para outros como folhas secas por ventos de doutrina (1 Tm 4.1). Quanta diferença dos apóstolos que não abriram mão desse testemunho correndo o risco de até morrerem (At 4.18-20).

EM TERCERO LUGAR, PEDRO PROVA QUE JESUS ESTÁ VIVO ATRAVÉS DA CURA DO COXO (At 3.16).

Dentro deste pano de fundo, a cura do coxo agora podia ser entendida. O que aconteceu com aquele pobre homem era a prova de que o Senhor estava vivo e agindo na autoridade do Seu Nome pela boca de seus apóstolos.

1º Pedro mostra que o agente da cura é a fé em Jesus. A mensagem de Pedro é uma mensagem cristocêntrica. Ele desvia os olhos da multidão do coxo curado e dos apóstolos e os fixou em Cristo, a quem os homens haviam rejeitado, matando-o, mas a quem Deus vindicou, ressuscitando-o dentre os mortos, e cujo nome, uma vez adotado pela fé, era poderoso o bastante para curar completamente o homem [11].

O mesmo ele já havia feito em relação ao próprio coxo quando havia lhes pedido esmola. Observe que Pedro lhe disse: “Olha para nós. Ele os olhava atentamente, esperando receber alguma coisa. Pedro, porém, lhe disse: Não possuo nem prata nem ouro, mas o que tenho, isso te dou: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, anda!” (At 3.4-6).

Pedro mostra a todos ali presentes que ele e nem João eram a fonte do poder que trouxe cura ao coxo. A fonte era Jesus. O milagre ocorreu na autoridade do Nome de Jesus, este nome que está acima de todo nome como nos fala Paulo em Filipenses 2.9-11.

2º - Pedro mostra que o homem não é o agente da ação divina, mas apenas instrumento. Como disse o Reverendo Hernandes Dias Lopes, “não há homens poderosos; há homens cheios do Espírito Santo, usados pelo Deus Todo-poderoso [...]. O Jesus exaltado é quem realiza os milagres na vida da igreja, pelo poder do Espírito Santo, por intermédio de seus servos” [12].

No entanto hoje há muitos homens reivindicando para si essa autoridade. Há muitas pessoas que estão idolatrando certos líderes achando que eles têm poder para operar sinais e maravilhas. Fazem coisas por esses líderes que Deus nunca exigiu que se fizesse por Ele. Há coisas que ultrapassam o ridículo, mas as pessoas parecem que gostam. 
  
Recentemente eu vi um vídeo em que um “pastor” mandava as pessoas comerem grama para serem mais abençoadas, e as pessoas saíam correndo de dentro da tal igreja para fazer isso. Em outro vídeo que assisti um líder ficava em pé nas costas das pessoas e elas o carregavam como se fossem animais.

Perdoem-me, mas não estou querendo rotular ninguém, mas essas tais “igrejas” eram pentecostais ou neopentecostais. Embora o abuso de poder esteja em todas as denominações.

EM QUARTO LUGAR, PEDRO MOSTRA QUE A IGNORÂNCIA NÃO OS ISENTAVA DA CULPA (At 3.17).

Pedro depois de fazer essa séria acusação ele agora mostra que eles fizeram isso na total ignorância, ou seja, um total desconhecimento de quem era Jesus. O seu propósito, ao dizer isso, não era desculpá-los do pecado, nem dar a entender que o perdão era desnecessário, mas mostrar a razão pela qual ele era possível [13]. Como nos fala Paulo em 1Co 2.8: “porque, se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória”.

1º - A ignorância não os isentava de seus pecados. O desconhecimento de quem era Jesus não os tornava inocentes. É como alguém tomar veneno por engano e querer que nada aconteça por causa disso. Isso é ignorância em cima de ignorância.

O Apóstolo Paulo, judeu praticante das Leis judaicas, antes de sua conversão se confessou ignorante com relação a Jesus. Ele blasfemou, perseguiu, foi insolente, torturou os cristãos (At 26.9-11; 1Co 15.9). A partir do momento em que Jesus apareceu a ele no caminho para Damasco, sua ignorância e incredulidade desapareceram e ele deixou de ser perseguidor, transformando-se no Apóstolo dos gentios, ou seja, ele desejava acabar com a ignorância de muitos que não conheciam Jesus.

A misericórdia do Senhor o alcançou de tal maneira que houve uma genuína conversão em seu modo de agir com os cristãos. O Senhor o designou e o convocou para o ministério, “a ele, que em tempos passados foi, blasfemo, perseguidor e insolente; contudo, Jesus foi misericordioso com ele, porquanto fez o que fez por ignorância e incredulidade” 1Tm 1.12-14. Mas ao mesmo tempo ele se considerava o maior dos pecadores, pois perseguiu a Igreja de Cristo (1Tm 1.15,16). Ele era inocente na sua ignorância, mas culpado de seus atos. 

2º - O mundo hoje continua ignorante em relação a Jesus. O problema do mundo hoje continua sendo a ignorância em relação à pessoa de Cristo. Anos se passaram, mas o homem continua na total cegueira espiritual (2Co 4.4). O problema da ignorância do homem não está na cabeça, mas no estado do coração.

D. Martyn Lloyd-Jones nos dá alguns motivos para a ignorância do homem.

Primeiro, o mundo é ignorante de Deus. O mundo por desconhecer a Deus age como age na total contra mão da Sua vontade. Homens e mulheres pensam que Deus está contra eles. O problema é que eles não conhecem o único Deus vivo e verdadeiro.

Segundo, os homens não só são ignorantes de Deus, os homens e as mulheres nem a si mesmos se conhecem. Eles não conhecem o estado e as condições em que se encontram. Não entendem o seu problema essencial. Eles não se dão conta do seu pecado.

Terceiro, as pessoas também são ignorantes do fato de que haverá um juízo final e que estamos indo nessa direção (Hb 9.27). Os homens e as mulheres são seres responsáveis para com Deus. Deus os observa e os julgará. Todos nós teremos que prestar contas dos atos praticados no corpo, bons ou maus. Mas as pessoas são ignorantes disso; vivem para o momento.

Quarto, o mundo não sabe que precisa de um salvador. Por isso o mundo rejeitou Cristo quando Ele veio na carne, e é por isso que continua a rejeitá-lo. Em geral as pessoas pensam que podem reformar-se e que podem reformar o mundo. Todavia não se apercebem da sua fraqueza, da completa desesperança e inutilidade de todas as suas obras.

Quinto, o mundo também é ignorante das bênçãos da salvação, ignora justamente as bênçãos que ele tanto necessita. Quais são as suas maiores necessidades? Ei-las: o perdão dos pecados. Cristo morreu para que você fosse perdoado, para que os seus pecados fossem apagados. E o mundo é ignorante disso.

Sexto, o mundo é ignorante quanto ao novo nascimento, da nova vida. Veja o exemplo de Nicodemos (Jo 3) [14].

EM QUINTO LUGAR, PEDRO MOSTRA QUE O OCORRIDO FOI UM CUMPRIMENTO PROFÉTICO (At 3.18).

Deus traçou um plano desde a eternidade; no entanto, dentro desse plano, não forçou ninguém a agir contra a própria vontade. Os profetas haviam prenunciado os sofrimentos e a morte do Messias, e, sem se dar conta do que estava fazendo, a nação cumpriu essas profecias. Mesmo quando não permitimos que Deus governe, ainda assim ele prevalece e sempre cumpre seus propósitos e desígnios [15].

1º - Pedro mostra que Deus é o Senhor da história. Por mais que o homem se negue a pensar o contrário não é isso que vemos através dos relatos bíblicos. De Gênesis a Apocalipse nós vemos o Senhor no controle da história da humanidade. Como disse o Senhor por boca do profeta Isaías 43.13: “Ainda antes que houvesse dia, eu era; e nenhum há que possa livrar alguém das minhas mãos; agindo eu, quem o impedirá?”

2º - Pedro mostra que o Teísmo Aberto é uma teologia diabólica. Essa teologia nega a onipresença, a onipotência e a onisciência de Deus. Seus defensores apresentam outra definição onde afirmam pretender uma reavaliação do conceito da onisciência de Deus, na qual se afirma que Deus não conhece o futuro completamente, e pode mudar de ideia conforme as circunstâncias.

O Teísmo Aberto diz: “A soberania de Deus tem sido autolimitada em virtude da criação de agentes livres” no caso em questão, o homem.

No entanto a Bíblia nos mostra que Deus é soberano e controla todas as coisas no mundo criado, incluindo as ações dos agentes responsáveis. Por isso Ele é Deus. Os planos de Deus não podem ser frustrados (Jó 42.2).

EM SEXTO LUGAR, PEDRO DÁ UMA ORDEM IMPORTANTE (At 3.19).

Pedro endereçou esse sermão a um povo religioso, não a um povo pagão; mas a um público que acreditava na lei de Deus e observava atentamente seus rituais sagrados. Porém, a religiosidade deles não era suficiente para salvá-los. Era preciso que se arrependessem e se convertessem [16].

Eles precisavam de arrependimento e conversão.

1º - Arrependimento. Arrependimento indica uma mudança de direção na vida da pessoa mais do que uma alteração mental de atitude, ou um sentimento de remorso; significa o repúdio do modo de vida pecaminoso e ímpio. É o ato de voltar-se do modo de vida antigo, especialmente da adoração dos ídolos, para um novo modo de vida, baseado na fé e na obediência a Deus (At 9.35; 11.21; 14.15; 15.19) [17].

Arrependimento é muito mais do que se lamentar pelos pecados. O verdadeiro arrependimento implica reconhecer que as palavras de Deus são verdadeiras e, por esse motivo, transformam nossa maneira de encarar nossos pecados e o Salvador. O arrependimento é uma dádiva de Deus (At 11.18); por outro lado, é uma resposta do coração ao ministério do Espírito de Deus que nos convence do pecado (At 26.20) [18].

2º - Conversão. O termo conversão significa “Mudança de vida operada por Deus”. Essa mudança tem dois aspectos. O primeiro, relacionado com o pecado, chama-se arrependimento. O segundo, relacionado com Cristo, é a fé.  É mudar de rumo e exercitar a fé salvadora em Jesus Cristo. A conversão é o que acontece quando Deus desperta aqueles que estão espiritualmente mortos e os capacita a se arrependerem de seus pecados e a terem fé em Cristo (Ef 2.1-10).

Desta forma, a conversão está intimamente ligada com a mudança de rumo na vida de alguém. Quando uma pessoa se arrepende de seus erros, confessa a Jesus como Único Senhor e Salvador, demonstrando fé e decide direcionar seus passos de acordo com os ensinos da Palavra, está principiando um processo chamado conversão.

EM SÉTIMO LUGAR, PEDRO FAZ UMA PROMESSA MARAVILHOSA (At 3.19b-21).

Pedro continua o seu sermão mostrando as consequências do arrependimento e da conversão a Cristo. Ele mostra três bênçãos que eles iriam receber.

1º - A bênção de serem cancelados os seus pecados. Mesmo depois de eles terem matado o Autor da vida esse terrível pecado seria cancelado caso se arrependessem desse ato.

2º - Viriam tempos de refrigério. A palavra refrigério de acordo com o dicionário significa alívio ou consolo. Esse tempo de refrigério começou com a descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes. É a consequência do arrependimento e da conversão a Cristo. É o alívio da alma que procede do Senhor para cada um de nós, independente das circunstâncias ao nosso redor.

3º - O Senhor viria para buscá-los. E por fim, o Senhor viria para buscar os seus para estarem com Ele para todo o sempre. Aqui ele fala da restauração de todas as coisas quando teremos novo céu e nova terra (Ap 21.1-7).

EM OITAVO LUGAR, PEDRO FAZ UM ALERTA DO QUE OS PROFETAS FALARAM A RESPEITO DE JESUS (At 22-26).

Pedro conclui o seu sermão abordando três correntes proféticas associadas a Moisés, a Samuel (e seus sucessores) e a Abraão. Ele mostra que o Senhor veio como prova do cumprimento profético, começando por Abraão, Moisés, Samuel e os demais profetas, conf. Lc 24.44,45.

Veja o texto de Lucas 24.44,45 que diz:

“São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então, lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras”.

O sermão de Pedro é a aplicação desse entendimento das Escrituras. O Espírito Santo abriu o seu entendimento para que ele entendesse e soubesse aplicá-la para àquele momento.

1º - Pedro cita Moisés. Pedro está citando Dt 18.15-19 e Lv 23.29, 26.12. Nesta passagem, Moisés advertia o povo de Israel contra o emprego das praxes mágicas para descobrir a vontade do Senhor. Deus haveria de suscitar entre eles um profeta com a mesma capacidade de Moisés para conhecer e declarar a vontade de Deus, e o povo deveria obedecer àquilo que o profeta dizia [19].

De que modo foi Jesus semelhante a Moisés? Deus usou Moisés para apresentar o Antigo Pacto; Jesus apresentou o Novo Pacto. Moisés guiou a nação de Israel para fora do Egito e conduziu os israelitas ao Sinai onde Deus os chamou a si mesmo (para uma relação de pacto consigo mesmo – Êx 19.4). Jesus tornou-se no novo e vivo caminho pela qual entramos na santíssima presença de Deus. Moisés deu ordem a Israel para sacrificar um cordeiro; Jesus é o Cordeiro de Deus. Moisés foi usado por Deus para operar grandes milagres e sinais; Jesus operou muitos milagres e sinais.

Moises advertiu as pessoas de que seriam excluídas se não recebessem e obedecessem a este Profeta. Assim, embora Deus seja bom, há uma penalidade para os que não se arrependem. Pedro enfatizou o significado da advertência de Moisés. Serão destruídos dentre o povo. Isto é, Deus não destruirá seu povo como um todo, mas indivíduos podem perder-se.

2º - Pedro cita Samuel e os outros profetas. Samuel foi o grande profeta que veio logo depois de Moisés (1Sm 3.20). Daquele tempo em diante, todos os profetas predisseram acerca destes dias, que são os dias da obra de Deus através de Cristo. Alguns podem não ter apresentado profecias específicas em seus escritos, mas todos eles apresentaram profecias que conduziram ou prepararam para estes dias.

3º - Pedro cita Abraão. Os judeus aos quais Pedro estava falando eram descendentes legítimos dos profetas, também herdeiros do pacto abraâmico com sua promessa de que na semente de Abraão (Cristo) todas as famílias da terra seriam abençoadas (Gn 22.18; Gl 3.16).

Essa bênção prometida a todas as famílias da terra veio primeiro aos judeus de Jerusalém. Todavia, isto não era um favoritismo da parte de Deus. Era a oportunidade dada a eles de receber a bênção pelo arrependimento e pela renúncia de seus pecados [20].

Assim como Pedro, nós também podemos ter o entendimento das Escrituras, pois o mesmo Espírito está sobre a Sua Igreja hoje. Como disse Tiago 1.5: “Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes impropera; e ser-lhe-á concedida”. Peça a Deus sabedoria para entender as Escrituras e o Senhor lhe dará.

CONCLUSÃO

Vemos que esse sermão dirigido à multidão começou com a bênção sobre um indivíduo, o mendigo coxo. Primeiro foi esse pobre homem e, por fim, a multidão. Devemos valorizar todas as pessoas e aproveitar todas as oportunidades que o Senhor nos dá para falarmos dEle. Muitos pregadores hoje visam as multidões e não valorizam o indivíduo. Quem assim procede não entendeu o sacrifício de Cristo na cruz.

Através da cura do mendigo coxo ficou provado, diante dele e da multidão posteriormente, que Jesus havia ressuscitado. A cura daquele pobre homem era a prova cabal desse fato. Porém, Pedro não fez da cura do coxo um culto de cura divina, mas aproveitou a oportunidade para pregar sobre o pecado do povo e os chamou ao arrependimento, esse sim foi o maior milagre que poderia ocorre ali, a salvação dos ouvintes.

O verdadeiro testemunho inclui as “mas notícias” do pecado e da culpa, bem como as “boas notícias” da salvação pela fé em Jesus Cristo. Não pode haver fé em Cristo sem antes haver arrependimento do pecado. É ministério de o Espírito Santo convencer os pecadores da sua culpa (Jo 16.7-11), e o Espírito realizará essa obra quando dermos testemunho fiel e usarmos a Palavra de Deus [21].

Pense nisso!

Notas
1 – Horton, Stanley M. O Livro de Atos. Editora Vida, Miami, Florida, E. U. A. 1983: p. 47.
2 – Lopes, Hernandes Dias. Atos, a ação do Espírito Santo na vida da igreja. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2012: p. 82.
3 – Lopes, Hernandes Dias. Atos, a ação do Espírito Santo na vida da igreja. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2012: p. 82.
4 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo. Editora Candeia, São Paulo, SP, 10ª Reimpressão, 1998: p. 81.
5 – Lloyd-Jones, D. Martyn. Cristianismo Autêntico, volume 1. Editora PES, São Paulo, SP, 2005: p. 310, 14.
6 – Stott, John. A Mensagem de Atos, até os confins da terra. Editora ABU, São Paulo, SP, 2010: p. 101.
7 – Lopes, Hernandes Dias. Atos, a ação do Espírito Santo na vida da igreja. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2012: p. 83.
8 – Stott, John. A Mensagem de Atos, até os confins da terra. Editora ABU, São Paulo, SP, 2010: p. 101.
9 – Tozer, A. W. A Velha e Nova Cruz, http://www.monergismo.com/textos/cruz/cruz_tozer.htm, acessado em 02/08/2016.
10 – Wiersbe, Warren W. Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Editora Geográfica, Santo André, SP, 2012: p. 533.
11 – Stott, John. A Mensagem de Atos, até os confins da terra. Editora ABU, São Paulo, SP, 2010: p. 102.
12 – Lopes, Hernandes Dias. Atos, a ação do Espírito Santo na vida da igreja. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2012: p. 84.
13 – Stott, John. A Mensagem de Atos, até os confins da terra. Editora ABU, São Paulo, SP, 2010: p. 102.
14 – Lloyd-Jones, D. Martyn. Cristianismo Autêntico, volume 1. Editora PES, São Paulo, SP, 2005: p. 372, 80.
15 – Wiersbe, Warren W. Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Editora Geográfica, Santo André, SP, 2012: p. 534.
16 – Lopes, Hernandes Dias. Atos, a ação do Espírito Santo na vida da igreja. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2012: p. 86.
17 – Marshall, I. Howard. Atos, introdução e comentário, Edições Vida Nova e Editora Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1988: p. 80.
18 – Wiersbe, Warren W. Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Editora Geográfica, Santo André, SP, 2012: p. 535.
19 – Marshall, I. Howard. Atos, introdução e comentário, Edições Vida Nova e Editora Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1988: p. 94.
20 – Horton, Stanley M. O Livro de Atos. Editora Vida, Miami, Florida, E. U. A. 1983: p. 50.

21 – Wiersbe, Warren W. Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Editora Geográfica, Santo André, SP, 2012: p. 536.

sábado, 23 de julho de 2016

UMA IGREJA CHEIA DO ESPÍRITO SANTO

Por Pr. Silas Figueira

Texto Base: Atos 2.42-47; 4.32-37

INTRODUÇÃO

O livro de Atos não é um livro doutrinário, mas é um livro repleto de informações doutrinárias. As ênfases sobre a doutrina da Igreja são feitas a partir da história, e consequentemente pela prática, e através das epístolas. Lucas não intenciona em seu relato julgar se a prática da Igreja de Deus é correta ou não, mas coloca a prática da igreja primitiva como padrão a ser seguido.

A leitura de Atos 2.42-47 e 4.32-37 nos proporciona um relato completo e apaixonado da experiência da gênese da igreja [...]. Diante desses textos, não há como não ficarmos emocionados e, ao mesmo tempo, perturbados. Nessas passagens, e em outros capítulos de Atos, vemos o cristianismo real em ação pela primeira vez na história humana [1]. Isso não quer dizer que não havia problema dentro dela, muito pelo contrário, onde há gente sempre haverá problemas. Vemos isso em Atos 5.1-11 quando nos fala da hipocrisia de Ananias e Safira. Em seu livro A Mensagem de Atos, John Stott, falando a respeito da Igreja Primitiva, nos chama a atenção à forma como temos olhado para aquela Igreja. Ele diz que “existe o perigo de romantizarmos a igreja primitiva, falando dela em tom solene, como se não tivesse falhas. Isso significa fechar os olhos diante das rivalidades, hipocrisias, imoralidades e heresias que atormentavam a igreja, como acontece ainda agora” [2]. Quantos de nós temos visto a Igreja Primitiva como o maior exemplo a ser seguido, mas não devemos fechar os olhos para suas crises que eram reais dentro dela assim como hoje ocorre.

A impressão que alguns teólogos nos passam é que não havia problemas entre eles, principalmente quando lemos Atos 2.42-47, mas estudando mais a fundo o livro de Atos, as cartas Paulinas tanto quanto as cartas universais, encontramos uma igreja lutando contra o pecado (Cl 3.5-11), contra falsos mestres (Gl 3.1-3; Tt 1.10,11), heresias das mais diversas (1Tm 6.3-5), lutas internas (1Co 1.11-13), apostasia (1Tm 4.1) e por fim as cartas que foram dirigidas as sete igrejas da Ásia em Apocalipse 2 e 3.

Creio que assim como a Igreja Primitiva enfrentou os seus problemas, e não eram poucos, nós também enfrentamos os mesmos hoje. Isso porque dentro de nossos arraiais há pessoas não convertidas. Não quero dizer com isso que cristão convertido não crie problemas, seria muita ingenuidade de minha parte falar isso. O Reverendo Augustus Nicodemos diz que determinados problemas que aflige a igreja é porque há muitas pessoas – no púlpito e nos bancos – que não nasceram de novo, essa é a grande questão a ser observada. Veja o que ele diz: “considero difícil compreender como uma pessoa supostamente iluminada pelo Espírito, conhecedora da graça de Deus em Cristo, que tenha experimentado o perdão de pecados e chegado ao trono da graça mediante Jesus seja capaz de espalhar mentiras, agredir irmãos, levantar calúnias, falsear a verdade, espalhar a discórdia, viver na prática da imoralidade, deixar-se mover pelo ódio e pelo amor ao dinheiro e ao poder, tudo isso sem jamais demonstrar o mínimo de arrependimento ou mesmo tristeza por seus atos. E mais: ser capaz de manter esse comportamento por anos a fio [...] Infelizmente, tenho a impressão de que os bancos e, também, os púlpitos de nossas igrejas acolhem mais gente não convertida do que imaginamos” [3].

Essa é a dura realidade da igreja local, não há como fingir que isso não exista. Franklin Ferreira disse que “vale a pena refletir sobre o fato importante de que Jesus enviou o Espírito para chamar pecadores a viver em santa comunidade. No entanto, existem pessoas que não gostam da igreja e se acham boas demais para ela. Essa postura é lamentável, pois mesmo com todas as dificuldades encontradas na igreja, é muito pior estar fora dela. Como dizia um manuscrito medieval: a Igreja é como a arca de Noé; se fosse não fosse a tempestade lá fora, não seria possível suportar o cheiro dentro dela” [4].

Porém, uma coisa nós devemos entender e admitir: A Igreja – Corpo de Cristo – esta age de forma diferente por ser cheia do Espírito Santo. O texto que lemos nos mostra pessoas cheias do Espírito Santo agindo de forma diferente porque a graça do Senhor repousava sobre elas; e é sobre está Igreja que eu quero pensar com você. Uma Igreja Cheia do Espírito Santo.

EM PRIMEIRO LUGAR, UMA IGREJA CHEIA DO ESPÍRITO SANTO TEM UMA TEOLOGIA SADIA (At 2.42a).

O primeiro ponto a ser ressaltado é a Doutrina dos Apóstolos. O que Lucas quer dizer com “perseveravam na doutrina dos apóstolos” é que a Igreja Primitiva mantinha-se firmada na instrução dos apóstolos. A ideia expressa pelo verbete “perseverar” é dar constante atenção a alguma coisa. Ou seja, a Igreja Primitiva mantinha-se constantemente alicerçada pelo ensino apostólico. É importante ressaltar que até este ponto da história a doutrina da igreja primitiva podia ser resumida pelo v.36 do mesmo capítulo:

“Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo”.

Em favor desta ideia vamos nos lembrar daquilo que Paulo nos informa em 1Co15.3,4:

Antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras”.

A intenção de Paulo era de deixar aos Coríntios aquilo que é essencial para sua vida. Essa é a doutrina deixada que deve ser ensinada na Igreja hoje. Tudo o que não é concernente a doutrina dos apóstolos deve ser deixada de lado [5].

A doutrina dos apóstolos estava levando a igreja a abandonar a Lei de Moisés e se apoderando das doutrinas da graça (Rm 6.14), e se afastando também das doutrinas dos fariseus e dos doutores da lei, que na verdade não eram observadores da Lei, mas do Talmude.

O que seria essa doutrina da graça?

É bom destacar que havia duas correntes antibíblicas no período apostólico que procuravam contestar a doutrina da graça: o legalismo e o antinomismo.

1 – Legalismo. Segundo este, só se adquire a salvação e a excelência moral mediante a lei mosaica. Este sistema, defendido por certos judeus cristãos em Roma, ensinava que a justificação era decorrente das obras da lei. Paulo os exorta: “Nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei” (Rm 3.20).

2 – Antinomismo. O termo significa “contrário à lei”. Os antinomianos acreditavam que podiam viver no pecado e, ainda assim, estarem livres da condenação eterna. Segundo os adeptos dessa teoria, uma vez que o homem foi justificado pela fé em Cristo, nenhuma obrigação moral é necessária agora. O apóstolo os persuade: “Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não useis, então, da liberdade para dar ocasião à carne” (Gl 5.13).

 OS RELACIONAMENTOS DA GRAÇA

1 – Graça e justificação (Rm 3.24; 5.18). A graça de Deus garante gratuitamente a justificação em Cristo Jesus. Através da morte expiatória de Cristo, a graça manifestou-se aos homens, garantindo-lhes a justificação e a vida eterna.

2 – Graça e redenção (Tt 2.11,14; Ef 1.7). Segundo as Escrituras: “A graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens”. Cristo trouxe-nos completa redenção: comprou a todos com o seu sangue (Ap 5.9); redimiu-nos da maldição da lei e de nossos pecados (Cl 1.14); e, por meio do Espírito, selou-nos para o dia da redenção, segundo as riquezas da graça.

3 – Graça e purificação (Tt 2.11-14). A graça salvadora não apenas ensina os homens a renunciarem a vil concupiscência, a impiedade e as mazelas morais da sociedade rebelada contra Deus, mas também capacita o crente a viver sóbria, justa e piamente, no presente século. Vejamos o que se deve esperar de alguém cheio da graça de Deus.

a) Evitar a impiedade. A impiedade é uma categoria de pecado que se opõe à piedade (Jd v4). Logo, inclui tudo o que a pessoa faz sem considerar a Deus a as suas leis morais (Rm1.18). O ímpio não reconhece nem admite sua dependência de Deus. Os pecados de impiedade incluem: a blasfêmia contra Deus(Sl 10.13); a malícia (Sl 34.21); a violência (Sl 140.4) e as iniquidades (Pv 5.22). O cristão deve rejeitar a impiedade, pois os que negligenciam a piedade serão condenados (Jd vv. 14,16).

b) Evitar as paixões mundanas. Ser ímpio constitui não apenas uma maneira de pensar, mas um estilo de vida específico. Os ímpios são materialistas e sensuais (2 Pe 2.12-14) e buscam as coisas que conduzem aos apetites carnais. Em lugar do Reino e da justiça de Deus, procuram tudo o que satisfaça seus desejos pecaminosos desregrados.

c) Viver vida sensata. A palavra sensata, no original (sophronco), quer dizer “de mente sã”, “mente sóbria” ou “temperante”. Este termo se refere à prudência e ao autocontrole proveniente de uma reflexão criteriosa. O temperante é alguém que não se deixa dominar pela ansiedade; é alguém que pondera seus atos e suas respectivas consequências de acordo com a Palavra de Deus (1Tm 3.2).

d) Viver justa e piedosamente. A graça de Deus possibilita ao crente uma vida justa e piedosa diante de Deus e dos homens. O termo “piedoso” refere-se ao cristão que é reverente a Deus e pratica o bem em todos os seus relacionamentos. Uma pessoa piedosa tem como centro a vontade de Deus em todos os seus caminhos (Pv 3.5,6; 1Co 10.31).

Ao longo da história houve muitos desvios da verdade: as heresias da Idade Média; a ortodoxia sem piedade; o Pietismo – piedade sem ortodoxia; os quacres – o importante é a luz interior; o movimento liberal – a razão acima da revelação; e o neopentecostalismo – a experiência acima da revelação. Deus tem um compromisso com a Palavra. Ele tem zelo pela palavra. Uma igreja fiel não pode mercadejar a Palavra [6].

Atualmente em muitos púlpitos há uma heresia que tem se tornado muito popular nos lábios de alguns líderes. É a heresia do UNIVERSALISMO.

O universalismo é um erro teológico grave, é uma perigosa heresia. Além de não pertencer ao mundo teológico dos autores do Antigo e do Novo Testamento, a ideia da salvação universal implica diversos riscos.

Em primeiro, enfraquece e, finalmente, extingue todo espírito missionário e evangelístico. Os universalistas transformam o chamado ao arrependimento da Igreja num simples anúncio auspicioso de que todos já estão salvos em Cristo, e transvestem sua missão em mera ação social.

Em segundo lugar, essa doutrina é falsa, quando levada às últimas consequências, implica necessariamente o ecumenismo. Se todos serão salvos, as religiões que professam não podem mais ser consideradas certas ou erradas, e se tornam uma questão indiferente.

Por fim, o universalismo é um forte incentivo a uma vida imoral. A tendência natural do pecador que está seguro de que não sofrerá as consequências de seus pecados é mergulhar ainda mais neles. Assim, o universalismo retira os freios da consciência e abre as portas para uma vida sem preocupações com Deus [7].

A Igreja Primitiva perseverava na Doutrina dos Apóstolos e nós devemos fazer o mesmo hoje.

EM SEGUNDO LUGAR, UMA IGREJA CHEIA DO ESPÍRITO SANTO TEM UMA PROFUNDA COMUNHÃO (At 2.42, 44-46).

A palavra Comunhão no grego é koinonia, que significa um “compartilhar de amizade” e uma permanência no convívio dos outros (At 2.42; 2Co 6.14). É muito interessante notar que essa amizade é baseada num conhecimento cristão mútuo (1Jo 1.3). Somente aqueles que têm amizade com Cristo pode ser verdadeiros amigos uns dos outros [8].

Tal verdade é bem colocada por João em sua primeira epístola, observe: “Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros” (1Jo.1.7a). Aqui está o segredo da Comunhão entre os participantes da Igreja de Cristo. Não há separação entre os que estão na Luz, como Deus é: “Deus é luz e nele não existe trevas nenhuma” (1Jo.1.5). Todo o que participa de uma vida de intimidade com Deus, desfruta da intimidade dos que procuram intimidade com Deus. Quanto mais perto de Deus os participantes da igreja estão, mas próximos uns dos outros.

Koinonia, em seu uso comum na vida diária do século I, não se refere apenas a um sentimento bom ou irmandade entre amigos. Ela também tinha o sentido de “corporação”, “empreendimento comum”, ou “companhia”, semelhante à forma como hoje podemos dizer que Pedro e João possuíam uma “companhia”, são “sócios” ou têm uma “corporação”. Sem dúvida, essa koinonia é comunhão, mas também é solidariedade e o compartilhamento de sentimentos, de bens e de atos. Assim, os versículos 44 e 45 são uma explicação dessa koinonia [9].

Em Atos 4.32-37 vemos outro exemplo fantástico e marcante de comunhão:

“Da multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum...”.

Os cristãos estavam tão próximos uns dos outros que não ousavam considerar seu o que possuía, mas estava pronto a dividir com seus irmãos conforme havia necessidade. Isto é a demonstração da Comunhão que a Igreja deveria ter hoje. Isso se chama auxílio social. Eles tinham desapego dos bens e apego às pessoas. Eles tinham prazer na distribuição, no auxílio aos mais carentes. Socorriam os irmãos em Cristo. Quanta diferença dos dias de hoje onde muitos pastores não quer o bem das ovelhas, mas os bens das ovelhas.

A comunhão tem papel fundamental na vitalidade da Igreja, e isso é claramente percebido na experiência da Igreja Primitiva. Esta é a ideia é exposta pelo termo “estavam juntos” que literalmente significa “eram próximos uns dos outros”. Ou seja, vivia uma vida comunitária em unidade. Veja essa descrição: “Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração”.

Mas é importante dizer que a Igreja Primitiva vivia em unidade e não em uniformidade.

EM TERCEIRO LUGAR, UMA IGREJA CHEIA DO ESPÍRITO SANTO TEM PRAZER NA ORAÇÃO E NA ADORAÇÃO (At 2.42,46).

“E perseveravam... no partir do pão e nas orações”.

A perseverança não era somente em aprender a doutrina apostólica e ter comunhão, mas também tinham prazer em estarem juntos no partir do pão e nas orações. A igreja tinha prazer em adorar juntos e orar juntos.

John Stott diz que há dois aspectos do culto da igreja primitiva que exemplificam seu equilíbrio.

Em primeiro lugar, era formal e informal, pois era realizado tanto no templo como de casa em casa (v. 46), o que é uma combinação interessante.

O segundo exemplo de equilíbrio no culto da igreja primitiva está no fato de ele ser alegre e reverente. Não se pode duvidar da alegria deles; está escrito que tinham alegria e singeleza de coração (v. 46), que significa literalmente “em exultação e sinceridade de coração”. Deus havia enviado Seu Filho ao mundo, e agora lhes enviava o Seu Espírito. Eles tinham muitos motivos para se alegrarem. Além disso, “o fruto do Espírito é... alegria” (Gl 5.22). O culto público pode ser majestoso, mas é imperdoável que seja enfadonho [10].

Partir do pão – Este termo que Lucas emprega para aquilo que Paulo chama de “Ceia do Senhor” (1Co 11.23-33). Refere-se ao ato de que dava início a uma refeição judaica, e que passara a ter significado especial para os cristãos, tendo em vista a ação de Jesus na Última Ceia [11]. É perfeitamente possível que a observância da Ceia de Senhor tivesse lugar todas as noites, juntamente com as refeições da tarde (v. 46), pois isso é um tipo de partir do pão, provavelmente envolvia as memórias sobre como Jesus partira o pão em companhia de seus discípulos, relembrando-lhes que Cristo é o Pão da Vida, que haverá de retornar para buscar a Sua Igreja [12].

E nas orações – Uma igreja cheia do Espírito Santo ora com fervor e constância. A Igreja Primitiva vivia em constante oração quer comunitária como individual. As orações tinham um papel fundamental na vida da Igreja Primitiva. Isso pode ser claramente percebido pelo relado deixado por Lucas, que diversas vezes considera as orações dos primeiros cristãos.  Em Atos podemos ver que a oração foi:

● a atitude dos cristãos diante das decisões a serem tomadas (1.14);
● a atitude da liderança da igreja em situação de crescimento (6.4);
● a prática da igreja quando os apóstolos foram libertos da prisão (4.24-30);
● a prática da igreja quando estava em situação de perigo e perseguição (12.5).

Como podemos notar, a Igreja orava junto diante de situações positivas e negativas. Lucas nos mostra que em situações diferentes das habituais, “havia incessante” oração por parte da Igreja. A prática do Corpo de Cristo exige a oração, ela é a respiração de sua fé. A oração deve ser a genuína expressão do nosso coração e reflexo de nossa autêntica fé. A comunidade que se isenta dessa prática pública pode deixar de participar efetivamente. Apenas um ponto merece nosso destaque aqui: “quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra” (At 6.5). O ministério do líder da Igreja deve ser cheio de oração. Sua vida deve ser uma vida de oração (cf. O exemplo de Paulo nos seguintes versos: Rm 1.10; Ef 1.16; Cl 4.12; 1Ts 1.2; Fm 14), e nas tribulações, sua oração deve ser perseverante (Rm 12.12; Cl 4.2) [13].

EM QUARTO LUGAR, UMA IGREJA CHEIA DO ESPÍRITO SANTO TEM TEMOR DIANTE DE DEUS E SINAIS ACONTECEM (At 2.43).

Uma igreja cheia do Espírito Santo é formada por um povo cheio de reverência. Ela tem compreensão da santidade de Deus. Ela se curva diante da majestade de Deus. Hoje as pessoas estão acostumadas com o sagrado. Há uma saturação, comercialização e paganização das coisas de Deus. Quem conhece a santidade de Deus não brinca com as coisas dEle [14]. O melhor sinônimo para temor a Deus é entusiasmo, que significa literalmente ser tomado por Deus. Temer a Deus é estar cheio de Deus. Quando estamos cheios de Deus, nós experimentamos a sua graça, e as pessoas veem em nós essa mesma graça. 

Na Igreja Primitiva os líderes não eram os “milagreiros”, mas homens que nas mãos de Deus eram instrumentos de sua graça. Na Igreja Primitiva os milagres eram reais e não inventados como temos visto muitos por aí. Vemos na Igreja Primitiva desde coxos andando (At 3), a ressurreição (At 9.26-33). Vemos Pedro sendo liberto da prisão (At 12) e Saulo de Tarso sendo liberto da prisão da ignorância em relação a Jesus (At 9). Pelas mãos de Paulo milagres ocorriam, prisões tremiam, vidas eram alcançadas (At 16).

John Stott diz que “o Deus revelado na Bíblia não é um mágico nem um curandeiro que só realiza milagres. Ele normalmente trabalha de acordo com a ordem natural que ele mesmo estabeleceu. Ao mesmo tempo, ele não está limitado pela natureza e suas leis. Seria ridículo imaginar que a criação agora controla o criador” [15]. O Jesus que operou no passado é o mesmo ontem, hoje e eternamente (Hb 13.8). Como disse Stott: “seria ridículo imaginar que a criação agora controla o criador”, mas bem sabemos que infelizmente há hoje dois extremos na igreja: aqueles que negam os milagres e aqueles que os inventam [16].

EM QUINTO LUGAR, UMA IGREJA CHEIA DO ESPÍRITO SANTO LOUVA A DEUS COM ALEGRIA (At 2.46a).

Esta é uma das poucas referências encontradas em Atos que descreve essa atitude dos cristãos. Isso, no entanto, não quer dizer que os primeiros cristãos não adoravam a Deus, mas que suas reuniões estavam mais voltadas para a instrução, a oração e a comunhão. Contudo, devemos notar que todos os outros fatos ocorriam enquanto os cristãos louvavam a Deus. Ou seja, embora sejam poucas as referências era uma atividade que estava intimamente ligada a expressão de adoração da igreja.

Uma igreja cheia do Espírito Santo canta com fervor e louva a Deus com entusiasmo. O culto é um deleite. Uma igreja viva tem alegria de estar na casa de Deus para adorar. Os muçulmanos têm mais de um bilhão de adeptos no mundo, mas eles não cantam. Uma igreja viva tem um louvor fervoroso, contagiante, restaurador, sincero, verdadeiro [17].

David Martyn Lloud-Jones comentando esse texto nos dá três razões porque as pessoas que faziam parte da Igreja Primitiva louvavam a Deus:

A primeira razão que encontro é está: elas louvavam a Deus por causa da grande mudança que tinha sido operada nelas. Ali estavam pessoas que bem podiam estar tendo um tipo desesperado de vida, de qualquer forma uma vida miserável. Tinham procurado tirar algum proveito de alguns dos prazeres do mundo, mas sempre estavam em desassossego, inquietas e inseguras. No entanto, depois passaram a encontrar-se dia após dia num grupo cujo centro era o Filho de Deus. Essas pessoas estavam louvando a Deus porque tinham sido salvas.

Em segundo lugar, eles louvavam ainda mais conforme percebiam, crescentemente, que esta mudança maravilhosa neles constatada devia-se inteiramente à graça e à misericórdia de Deus. Esta é a prova crucial entre religião e cristianismo, entre um pseudocristianismo e o cristianismo real. As pessoas que acreditam que são cristãs porque vivem vida moralmente boa, não louvam a Deus, louvam a si mesmas [...] Assim estes primeiros cristãos louvavam a Deus pela mesma razão pela qual todo cristão verdadeiro louva a Deus. Os cristãos se dão conta da verdade sobre si mesmos. São pobres de espírito. Têm fome e sede de justiça. São pecadores, e não há neles nenhum bem. Não somente isso, eles se dão conta de que não podem fazer nada quanto salvar-se. Isso é básico em referência a toda a posição cristã.

E em terceiro lugar, eles louvavam a Deus por causa da estupenda maneira pela qual Ele  providenciou esta grandiosa salvação para eles. Eles tinham ouvido isso da pregação do apóstolo Pedro e dos outros, que eles tinham ouvido falar em suas respectivas línguas. Eles discerniram o caráter maravilhoso das obras de Deus [18].

Creio que esta é a base que todo cristão verdadeiro está firmado hoje também. Sem esse reconhecimento de que o Senhor fez em nós, sem esse reconhecimento de como o Senhor providenciou a nossa salvação é impossível ser um verdadeiro cristão. 
   
EM SEXTO LUGAR, UMA IGREJA CHEIA DO ESPÍRITO SANTO TEM A SIMPATIA DAS PESSOAS DE FORA E TEM CRESCIMENTO NUMÉRICO POR PARTE DE DEUS (At 2.47).

O texto nos diz que a Igreja caia na simpatia de todo o povo. Era uma igreja que atraia as pessoas através da pregação da Palavra, mas também pela simpatia dos cristãos. As pessoas que compunham a igreja eram pessoas que davam bom testemunho dentro (comunhão) e também do lado de fora (caia na simpatia do povo).

A alegria da salvação transbordava na vida da igreja. Eram pessoas transformadas pelo poder do Evangelho e não se envergonhavam disso (Rm 1.16).

John Stott nos diz que podemos aprender três lições vitais sobre evangelização da igreja local com esses primeiros crentes de Jerusalém.

Primeiro, foi o Senhor (ou seja, Jesus) quem fez: acrescentava-lhes o Senhor. Sem dúvida, ele o fez através da pregação dos apóstolos, do testemunho dos membros da igreja, do amor impressionante na vida comunitária deles e do exemplo de todos, pois estavam louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo (v. 47).

Segundo, Jesus fez duas coisas ao mesmo tempo: Ele acrescentava... os que iam sendo salvos. Ele não os acrescentou à igreja sem salvá-los (no começo, não havia cristãos nominais), nem os salvos sem acrescentá-los à igreja (também não havia cristãos solitários). Salvação e participação na igreja andavam juntas; e continuam andando.

Terceiro, o Senhor acrescentava pessoas dia a dia. O verbo está no imperfeito (“continuava acrescentando”), e o advérbio (“diariamente”) não deixa nenhuma dúvida. A evangelização não era uma atividade ocasional ou esporádica da Igreja Primitiva. O culto deles era diário, e assim também o testemunho. O louvor e a proclamação eram o transbordamento natural de corações cheiros do Espírito Santo [19].

CONCLUSÃO

Como vimos, uma igreja cheia do Espírito Santo faz toda a diferença na sociedade. Ela não só tem uma maravilhosa comunhão entre si como também é canal de bênção na vida das pessoas fora dela. Primeiro porque ela tem uma teologia sadia, e isso faz com que a vida cristã seja segundo a vontade de Deus e não segundo os achismos que temos visto por aí. Ela também tem comunhão, adoração e vida de oração. Diante disso, o Senhor opera sinais e maravilhas, não como um milagreiro, mas como aquele que tem poder e domínio sobre a sua criação. Uma igreja cheia do Espírito Santo adora o Senhor com alegria contagiante e há crescimento sadio dado pelo Senhor, e não um inchaço numérico como temos visto em muitos lugares por aí.

Que o Senhor nos abençoe para sermos uma igreja assim. Uma igreja segundo a Sua vontade, cheia do Espírito Santo para fazermos a diferença na sociedade que vivemos.

Pense nisso!   

Notas

1 – Azevedo, Israel Belo de. A Igreja Acabou? Editora Hagnos. São Paulo, SP, 2011: p. 17.
2 –  Stott, John R. W. A Mensagem de Atos. ABU Editora. São Paulo, SP, 2º-reimpressão 2010: p. 10.
3 – Nicodemus, Augustus. Polêmicas na Igreja. Editora Mundo Cristão, São Paulo, SP, 2015: p. 87, 90.
4 – Ferreira, Franklin. Avivamento Para a Igreja. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 2015: p. 44.
5 – Berti, Marcelo. A vida da Igreja de Cristo em Atos (At.2.42-47). https://marceloberti.wordpress.com/2009/02/10/a-vida-da-igreja-de-cristo-em-atos-at242-47/, acessado em 22/07/2016.
6 – Lopes, Hernandes Dias. Atos, a ação do Espírito Santo na vida da igreja. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2012: p. 66.
7 – Nicodemus, Augustus. Polêmicas na Igreja. Editora Mundo Cristão, São Paulo, SP, 2015: p. 66.
8 – Barclay, William. Palavras Chaves do Novo Testamento. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1985: p. 123.
9 – González, Justo L. Atos, o evangelho do Espírito Santo. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2014: p. 71.
10 – Stott, John R. W. A Mensagem de Atos. ABU Editora. São Paulo, SP, 2º-reimpressão 2010: p. 90.
11 – Marshall, I. Howard. Atos, introdução e comentário. Edições Vida Nova e Editora Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1988: p. 83.
12 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo. Editora Candeia, São Paulo, SP, 1995: p. 71.
13 – Berti, Marcelo. A vida da Igreja de Cristo em Atos (At.2.42-47). https://marceloberti.wordpress.com/2009/02/10/a-vida-da-igreja-de-cristo-em-atos-at242-47/, acessado em 22/07/2016.
14 – Lopes, Hernandes Dias. Atos, a ação do Espírito Santo na vida da igreja. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2012: p. 68.
15 – Stott, John. As Controvérsias de Jesus. Editora Ultimato, Viçosa, MG, 2015: p. 52.
16 – Lopes, Hernandes Dias. Atos, a ação do Espírito Santo na vida da igreja. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2012: p. 69.
17 – Lopes, Hernandes Dias. Atos, a ação do Espírito Santo na vida da igreja. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2012: p. 68.
18 –  Loyde-Jones, D. Martyn. Cristianismo Autêntico. Editora PES, São Paulo, SP, 2005: p. 276,81.
19 – Stott, John R. W. A Mensagem de Atos. ABU Editora. São Paulo, SP, 2º-reimpressão 2010: p. 91, 92.