quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Soberania Divina e Responsabilidade Humana

C.H. Spurgeon

"E a vontade de quem me enviou é esta: que nenhum eu perca de todos os que me deu; pelo contrário, eu o ressuscitarei no último dia. De fato, a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia."

João 6:39-40

sp009.jpg (12K) - Spurgeon

Essas duas frases apresentam o lado divino e o lado humano da salvação.

Vocês sabem, meus caros amigos, que o costume generalizado entre os vários ramos do cristianismo é o de tomar uma parte da Bíblia e pregar aquela parte e então é o dever de todos os teólogos daquele ramo não pregar nada além disso. Ou se eles acharem um texto que aponta em uma direção diferente, é esperado que estes cavalheiros torçam o referido texto de modo a adaptá-lo ao credo deles, partindo do pressuposto de que somente um conjunto de verdades seja possivelmente digno de ser defendido, nunca entrando na cabeça de algumas pessoas que podem haver duas verdades aparentemente irreconciliáveis que, não obstante, são igualmente valiosas.

"... é esperado que estes cavalheiros torçam o referido texto de modo a adaptá-lo ao credo deles, partindo do pressuposto de que somente um conjunto de verdades seja possivelmente digno de ser defendido."

Não pense que eu venho aqui para defender o lado humano da salvação às custas do divino; nem tampouco desejo engrandecer o lado divino às custas do humano. Em vez disso, peço que olhem para os dois textos que estão juntos diante de nós e estejam preparados para receber os dois conjuntos de verdades. Eu creio que é uma coisa muito perigosa dizer que a verdade encontra-se entre os dois extremos. Não. A verdade está nos dois, na compreensão de ambos; não em pegar uma parte disso e uma parte daquilo, reduzindo um e adaptando o outro, como é costumeiro, mas crendo e dando plena expressão a tudo aquilo que Deus revela independentemente de nós podermos reconciliar as coisas ou não, abrindo nossos corações como as crianças abrem seus entendimentos ao ensino de seus pais, sentindo que se o evangelho fosse tal que nós pudéssemos torná-lo um sistema completo, nós poderíamos estar bastante seguros de que não seria o Evangelho de Deus, porque qualquer sistema que vem de Deus deve ser por demais sublime para que o cérebro humano possa compreendê-lo pelo seu esforço. E qualquer caminho que Ele siga deve se alongar até muito distante da linha da nossa visão, não permitindo, portanto, que façamos um belo e pequeno mapa perfeitamente esquadrinhado.

"Assim também ocorre com as doutrinas do Evangelho: elas são muito brilhantes para os nossos olhos fracos, muito sublimes para o esquadrinhamento das nossas mentes finitas."

Este mundo, nós podemos mapear prontamente. Vá e adquira cartas náuticas ou topográficas e você descobrirá que homens de entendimento indicaram quase toda pedra no mar, quase toda vila na terra. Mas eles não podem mapear os céus daquela maneira, porque embora você possa comprar um atlas celestial, contudo você sabe muito bem que nem uma em dez mil estrelas pode ser posta ali; quando elas são exibidas pelo telescópio elas se tornam completamente inumeráveis, e de tal maneira excedem qualquer contagem que é impossível para nós colocá-las em ordem e dizer: este é o nome dessa e aquele é o nome daquela. Nós precisamos abandoná-las: elas estão além de nós. Há profundidades nas quais nós não podemos espreitar; nem mesmo o mais forte telescópio pode nos mostrar mais do que um mero canto dos mundos estrelados.

Assim também ocorre com as doutrinas do Evangelho: elas são muito brilhantes para os nossos olhos fracos, muito sublimes para o esquadrinhamento das nossas mentes finitas, a não ser a uma distância desprezível. A nós só nos cabe aceitar tudo o que pudermos do seu solene propósito, acreditar nelas de todo coração, aceitá-las com gratidão, e então cair aos pés de Deus e derramar nossas almas em adoração.

Fonte: Bom Caminho

Quando a graça sucita a perversidade

Por Caio Fábio

Em Mateus 20, na parábola dos trabalhadores da última hora, há uma questão de natureza essencial acerca da natureza humana quando exposta ao amor de Deus.


“Ou são maus os teus olhos porque eu sou bom?” — é a questão do “dono da vinha” — figura de Deus — aos trabalhadores da “primeira hora” — que aparecem como representação do espírito de “justiça própria”.

De fato nós temos três grandes grupos humanos e psicológicos naquela parábola. Temos no extremo, no pólo da justiça própria, os trabalhadores “contratados” na primeira hora, que receberam a promessa de que “pelo esforço” do trabalho feito ganhariam 1 denário cada um. É uma clara representação da atitude espiritual que deseja receber pelo que produz. Na realidade essa é a esperança da Lei: receber conforme o contrato da Lei. Ora, os que assim vivem são movidos por justiça própria. Naqueles dias, conforme a narrativa dos evangelhos, eram religiosos saduceus e fariseus, na sua maioria. Esses da primeira hora são sempre um grupo minoritário, porém radical e fundamentalista.

O segundo grupo humano aparece na figura dos trabalhadores que foram chamados entre 9 horas da manhã e às 15 horas, na hora nona dos judeus. Ora, conquanto eles façam parte de três grupos distintos de acordo com a hora do “chamado” — 9 da manhã, meio-dia, e 3 da tarde —, de fato eles são um grupo só; e digo isto porque o espírito da parábola os trata do mesmo modo, ou seja, eles são figura desses encontros humanos com a Graça de Deus que assumem o chamado de Deus como algo bom e como boa oportunidade. A mim parece razoável que esse grupo seja feito de muito mais gente, ou de maior diversidade humana — três turmas fazendo 1 único grupo —, pelo simples fato que é condizente com a realidade histórica. Isso porque a maioria da humanidade existe nesse espírito em relação a Deus. Dizem: “Deus é bom. Deus é importante. Deus é justo. Deus é confiável. Deus é fundamental. Deus propõe coisas boas. Deus ajuda a gente. Quem está com Deus está bem!” — esse é o espírito da maioria. Sim, a maior parte das pessoas experimenta o chamado da Graça sem muita hesitação e também sem muito excitamento, e tanto não vivem para usufruir o benefício como também não provocam ninguém por dizerem que crêem, visto que “não cheiram nem fedem”. Experimentam a Graça na mediocridade. Sim, esses são, nos evangelhos, “a multidão do povo”.

E há o terceiro grupo, aparentemente também minoritário, e que é constituído pelos que foram chamados na hora undécima, às 5 da tarde. Os desse grupo são representados nos evangelhos pelos publicanos, pecadores, e todos os aflitos e vadios de esperança, mas, sobretudo, pelos gentios que surpreendem a Jesus com sua fé. Estes são os que se assumem como “cachorrinhos debaixo da mesa de seus donos”, e não “se acham dignos” de que Jesus entre em suas casas. Estes são encontrados na praça, ou mesmo tirados de sobre sicômoros, e apenas ouvem um convite irrecusável, do tipo: “Desce depressa!”. Outras vezes arrombam o descanso de Deus, como fez a mulher siro-fenícia. Esses não discutem o “chamado”, não “teologizam” sobre Deus e correm todos os riscos sem medo. Entre esses ninguém sabe por que foi chamado. Nem discutem o tema, pois olham para si mesmos e não vêem nada que justifique o chamado, o qual, para eles, não foi recebido como proposta de trabalho, nem como algo em virtude da virtude, mas como salvação da falta de significado para a existência, ou como dor, ou apenas a mais fascinante surpresa. Sim, esses não acertaram nada previamente, não perguntaram por condições de trabalho e nem foram esperando nada além da chance de sair de uma existência sem significado ou presa às correntes da angústia. Estes apenas aceitaram o convite como surpresa, pois, eles, não julgavam que tinham nada a perder. Estes estavam vadios de trabalho, mas eram operários da esperança e da fé. Para eles, viver não era um risco. O risco era não viver.

O fato é que o “dono da vinha” manda pagar a cada grupo, a começar pelos últimos. E esses que trabalharam apenas 1 hora — entre 5 e 6 da tarde — ganharam 1 denário cada um. E assim foi com todos. Até que chegaram os da “primeira hora”, os do “contrato”, os da lei, os da atitude do “irmão mais velho do filho pródigo”. E eles alegam acerca da injustiça feita contra eles, que trabalharam de sol a sol, e que vieram a receber a mesma coisa que aqueles que haviam trabalhado apenas 1 hora.

A resposta do “dona da vinha” é simples. Ele diz: “Vocês receberam conforme o contratado. Vocês não foram injustiçados. Peguem o que ganharam e podem ir. Ou não me é licito fazer o que eu quero com o que é meu? E se eu quiser dispor do que é meu, e dar a esses que não trabalharam como vocês o mesmo que dei a vocês, em que lhes fiz injustiça? Ou são maus os olhos de vocês em razão de minha Graça?”

A Graça não cria a maldade interior, mas, diante dela, toda maldade é suscitada. E a razão é que a maldade fica ainda mais perversa quando ela se traveste de justiça própria.

A leitura do Evangelho nos deixa ver que onde Jesus — a Graça e Verdade em pleno beijo — passava, tanto se manifestava a bondade e a fé dos pequeninos e simples de coração para crer como também se manifestava a maldade da virtude dos seres movidos a justiça própria, posto que a Graça é tão injusta aos olhos da justiça própria, que é impossível a alguém tomado pela idéia da auto-virtude conceber que algo tão “injusto e escandaloso” como a Graça de Deus possa ser justiça.

É estranho, mas é a justiça própria aquilo que mais gera maldade no coração humano!

Os que andam em justiça própria — que é andar na carne — não podem agradar a Deus, posto que aquilo que Deus chama de bondade e misericórdia eles chamam de injustiça e auxílio à perversão.

A justiça própria se escandaliza da maior parte das obras da Graça de Deus!

É no chão da justiça própria que a inveja também nasce com força descomunal e com tendência psicológica homicida. Não necessariamente gera assassinos, mas infalivelmente produz milhões de juízes togados que são sem misericórdia nas sentenças que proferem.

Digo isto porque toda inveja carrega uma carga homicida, posto que o invejoso quer o lugar do outro, o que é do outro, ou até ser o outro —ora, tudo isso implica em que o outro deixe de ser ou que então mergulhe no vazio: “Raca!”

Quem diz que crê na Graça mas anda conforme a sua justiça própria ou conforme a fé nos seus próprios processos de “santidade” pessoal e meritória, não pode estar na Graça, posto que na Graça a única justiça que decorre como válida diante de Deus é a que procede da fé, e não do homem e suas virtudes pessoais.

Ora, todo aquele que ao ver Deus ser gracioso e exagerado em Seu amor para com outro ser humano, ao invés de se alegrar, se ira e discorda de Deus, e odeia o que recebeu a dádiva e a ele se compara, e julga Deus injusto por havê-los igualado — este jamais conheceu a Graça de Deus, posto que a primeira coisa que um ser humano que encontrou Graça, de fato, descobre, é a sua total condição de desgraçado em-si-mesmo. “Desventurado homem que sou!” — grita ele. Portanto, ele jamais verá injustiça na Graça de Deus, pois ele mesmo se considera o maior beneficiado por tamanha santa injustiça que justifica injustos pela justiça de um único justo, de tal modo que o injusto se torna justo — não porque tenha feito qualquer coisa que assim o tornasse justo, mas apenas porque creu que a justiça do Único justo pode ser a justiça de nós todos. E ele se alegra que assim seja; do contrário, ele sabe que estaria perdido.

Ele sabe que isso é loucura para a consciência humana cheia de autojustificação, e sabe que é total escândalo para aqueles que crêem que são justos em-si-mesmos. Ele mesmo, porém, a ninguém julga, exceto a si mesmo, pois se julgar a alguém, na mesma hora a si mesmo se condena.

Assim, somente a Graça limpa o olhar. Mas é também por ela que se fica conhecendo a mais dissimulada forma de maldade e perversidade, que é aquela que se faz passar por virtude e justiça própria e que é incapaz de celebrar a Graça de Deus, pois, para tais pessoas, tudo o mais que não decorre do mérito próprio é injustiça. E como Deus é o Deus de toda Graça, e como Graça é, essencialmente, favor imerecido, então, para tais pessoas — mesmo quando falam acerca da palavra “Graça” —, a Graça de Deus é injustiça contra elas, posto que só beneficia a quem não merece, isso porque elas mesmas, lá no fundo, ficaram tão empedradas e insensíveis que crêem que Deus lhes deve alguma coisa, especialmente no caso de Ele querer exagerar em Sua bondade para com algum vagabundo da Terra.

Mas Deus lhes pergunta: “Ou são maus os vossos olhos porque Eu sou Bom?”

Cuidado para que você não odeie Deus, o “dono da vinha”, pela Sua soberania de ser bom para quem desejar e como bem entender, dando a qualquer um o que é Dele, e não devendo explicações a ninguém por assim fazer com o que é Dele.

Isso tornaria você um perverso aos olhos de Deus. Salve-se desse terrível mal. Ame a bondade de Deus.


Fonte: Caio Via: Emeurgência

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Dez acusações contra a igreja moderna 2


Por Paul Washer

Segunda Acusação: um desconhecimento de Deus


Às vezes me perguntam, "Irmão Paul, por favor, venha e faça uma série semanal sobre os atributos de Deus."

E, muitas vezes, tenho que dizer isto: "Bem, irmão, você já pensou muito bem antes de me chamar?"

Ele disse: "O que quer dizer com isso?"

"Bem, é bastante controverso, o tema que você está colocando, que você está me dando para ensinar em sua igreja".

Eles dizem: "Como assim é controverso? Estamos falando de Deus. Nós somos cristãos. Esta é uma igreja. Como assim é controverso?"

Eu disse, "Querido pastor, me ouça. Quando eu começar instruindo seu povo sobre a justiça de Deus, a soberania de Deus, a ira de Deus, a supremacia de Deus, a glória de Deus, você irá ter alguns de seus melhores e mais antigos membros da igreja levantados e dizendo alguma coisa como isto: ‘Esse não é o meu Deus. Eu nunca poderia amar um Deus como este’; porque eles têm um deus que eles fizeram com a sua própria mente e eles amam o que eles fizeram."

Jeremias 9:23-24:

Assim diz o Senhor: "Não se glorie o sábio em sua sabedoria nem o forte em sua força nem o rico em sua riqueza, mas quem se gloriar, glorie-se nisto: em compreender-me e conhecer-me, pois eu sou o Senhor e ajo com lealdade, com justiça e com retidão sobre a terra, pois é dessas coisas que me agrado", declara o Senhor.”

Salmos 50:
“Você pensa que eu sou como você? Mas agora eu o acusarei diretamente, sem omitir coisa alguma. Considerem isto, vocês que se esquecem de Deus; caso contrário os despedaçarei, sem que ninguém os livre.”

Agora, qual é o problema aqui? Há uma falta de conhecimento de Deus. Muitos de vocês, talvez pensem: "Oh, falar sobre os atributos de Deus e teologia, é tudo coisas altas, de torres de marfim, que não tem aplicação prática".

Ouça a você mesmo, dizendo que o conhecimento de Deus não tem aplicação prática. Você sabe por que todas as suas livrarias cristãs estão preenchidas com livros de auto-ajuda e “cinco maneiras de fazer isso” e “seis maneiras de ser piedoso” e “10 maneiras para não cair”? Porque as pessoas não conhecem a Deus. E por isso elas precisam de toda sorte de pequenos dispositivos triviais da carne para mantê-los andando como ovelhas devem andar.

1 Coríntios 15: 34.
"recuperem o bom senso e parem de pecar; pois alguns há que não têm conhecimento de Deus; digo isso para vergonha de vocês.”

Por que há um pecar desenfreado mesmo entre o povo de Deus? A falta de conhecimento do Deus. De Deus.

Agora deixa eu te fazer uma pergunta: Quando foi a última vez que você assistiu a uma conferência sobre os atributos de Deus? Quando foi a última vez que, como um pastor, você ensinou sobre quem é Deus? Quanto de todo o ensinamento que se passa na América toda a semana tem alguma coisa a ver com quem é Deus?

E, ainda ficamos abismados. Não é tão fácil ir com o fluxo, bastando seguir todo mundo e, então, um dia você ouve algo parecido com isto e de repente você diz, "eu não posso sequer lembrar quando alguém ensinou sobre os atributos de Deus"?

Não é de admirar que somos um povo como nós somos.

Para conhecê-Lo, tudo é sobre isto. Essa é a vida eterna. E a vida eterna não começa quando você passa através dos portais da glória. A vida eterna começa com a conversão. A vida eterna consiste em conhecê-Lo. Você sinceramente acha que você vai estar emocionado em se balançar em portões de pérolas e caminhar em ruas de ouro por toda uma eternidade? A razão por que você não vai perder a cabeça na eternidade, é isso: Há Um ali que é infinito em glória e você irá passar uma eternidade de eternidades buscando-O e você nunca vai ter seus braços sequer nos pés de montanha dEle.

Comece agora. Tantas coisas diferentes que vocês querem saber e fazer, e todos os livros. Pegue um livro sobre Deus, uma Bíblia, e estude-a para conhecê-Lo, para conhecê-Lo.

Domingo de manhã, por causa de tudo isso, eu quero dizer-lhes que seria melhor não ter sequer um domingo de manhã. Domingo manhã é a hora de maior idolatria em toda a semana da América, porque as pessoas não estão adorando o único Deus verdadeiro - a grande massa, pelo menos - mas adoram a um deus formado a partir dos seus próprios corações por sua própria carne, artifícios satânicos e inteligência mundana. Eles têm feito um deus, como eles próprios e ele parece mais com Papai Noel do que Jeová.

Não pode haver temor de Deus entre nós porque não há conhecimento de Deus entre nós.

Reconsiderando o Aniquilacionismo Evangélico: Uma Análise do Pensamento de John Stott sobre a Não-Existência do Inferno

Por Dr. James Packer

O evangelicalismo é definido de várias maneiras por diversos tipos de pessoas. Eu o defino como a religião dos crentes da Bíblia Trinitariana que se gloriam na cruz de Cristo como a única fonte de paz com Deus e buscam compartilhar a sua fé com os outros; e eu noto que o evangelicalismo ocidental (para não irmos mais adiante), como o liberalismo protestante, o catolicismo romano de toda espécie, e o ortodoxismo oriental, tem um padrão propriamente seu. Dentre os fatores que formaram esse padrão durante os últimos cinqüenta anos incluem-se o ensinamento dogmático, devocional, apologético e ativista ministrado nas igrejas evangélicas e em movimentos paraeclesiásticos; a literatura (livros, jornais, revistas) produzida pelos evangélicos; a sensação de uma fidelidade superior à Bíblia, seu Deus e seu Cristo, que as instituições evangélicas cultivam; uma sensação de estar sendo ameaçado pelos enormes batalhões do protestantismo liberal, catolicismo romano e instituições seculares, que os leva a vociferar quando esses fundamentos ideológicos são discutidos; a obstinação por um evangelismo atuante; e o costume de transformar estudiosos e líderes em gurus, de onde surge um sentimento de ultraje e traição se percebem que eles estão andando fora da linha. Dentro da distintiva identidade corporativa do evangelicalismo introduziram-se uma consciência de privilégio e vocação, uma mentalidade envolvente e persistente, a discussão de temas irrelevantes, uma certa violência verbal e uma tendência de atingir nossos próprios feridos.

"O que está em questão aqui? A questão é essencialmente exegética, embora com implicações pastorais e teológicas."

Ainda não está claro se o recente restabelecimento da confiança e o crescimento de uma vida intelectual1 do movimento estão ou não amadurecendo esse padrão ainda verde; entretanto, sem dúvida alguma, os fatores citados acima se tornaram evidentes enquanto os evangélicos discutiam o aniquilacionismo entre si nos últimos dez anos.

Idéias aniquilacionistas têm sido debatidas entre os evangélicos por mais de um século2, mas nunca se tornaram parte da corrente principal da fé evangélica3, nem sequer foram largamente discutidas no meio evangélico até recentemente. Em 1987, Clark Pinnock escreveu um artigo bombástico de duas páginas intitulado “O Fogo, e Nada Mais”4, mas que, apesar de amplamente lido, não provocou maiores discussões do que uma exposição de quinhentas páginas sobre o assunto: “O Fogo que Consome” (1982), publicada por Edward William Fudge5, talentoso leigo das Igrejas de Cristo. Entretanto, em 1988, surgiram dois curtos trabalhos de defesa, ambos de veteranos evangélicos anglicanos: oito páginas de John Stott em "Essentials"6, e dez do falecido Philip Edgecumb Hughes em "A Verdadeira Imagem"7, que puseram o gato no meio dos pombos.

Em uma conferência de 350 líderes em Deerfiield, Illinois, no ano de 1989, eu li um documento pomposamente intitulado “Evangélicos e o Caminho da Salvação: Novos Desafios ao Evangelho: Universalismo e a Justificação pela Fé”8. No documento eu ofereci uma linha de pensamento contrária à posição desses dois respeitáveis amigos9. A reação foi tal que a conferência se dividiu ao meio sobre a questão da aniquilação. O relatório da Christianity Today (periódico evangélico) dizia:

"Surgiram fortes desentendimentos sobre a posição do aniquilacionismo, doutrina que afirma que as almas não salvas deixarão de existir após a morte... a conferência foi quase que dividida ao meio ao tratar do assunto em suas declarações, e nenhuma renúncia a essa posição foi incluída na resenha final da conferência."10

Depois disso, a pedido de John White, então presidente da Associação Nacional de Evangélicos, o falecido John Gerstner escreveu uma resposta a Stott, Hughes e Fudge sob o título "Arrependei-vos ou Perecereis" (1990)11; e em 1992 os documentos apresentados na quarta Conferência sobre Dogmas Cristãos de Edinburgo foram publicados com o título "Universalismo e a Doutrina do Inferno”12, juntamente com “O Argumento a Favor da Imortalidade Condicional”, de John W. Wenham e “O Argumento Contra o Condicionalismo: Uma Resposta a Edward William Fudge”, de Kendall S. Harmon.

E isso não foi tudo. Livros reafirmando a realidade e eternidade do inferno começaram a aparecer: "Questões Cruciais Sobre o inferno" (1991)13, de Ajith Fernando; "Um Deus Irado?" (1991)14, de Eryl Davies; "O Outro Lado das Boas Novas" (1992)15, por Larry Dixon; "Quatro Opiniões sobre o Inferno" (1992)16, por William Crocket, John Walvoord, Zachary Hayes e Clark Pinnock; "A Estrada Para o Inferno" (1992)17, de David Pawson; "O Que Aconteceu Com o Inferno?" (1993)18, de John Blanchard; "A Batalha Pelo Inferno: Uma Visão Geral e Avaliação do Crescimento do Interesse Evangélico pela Doutrina da Aniquilação" (1995)19, por David George Moore; "O Inferno Em Julgamento: O Argumento a Favor do Castigo Eterno" (1995)20, de Robert A. Peterson. Todos estes contestando mais ou menos elaboradamente o aniquilacionismo. Continuava assim a discussão.

O que está em questão aqui? A questão é essencialmente exegética, embora com implicações pastorais e teológicas. E se resume a se, quando Jesus disse que aqueles banidos no julgamento final “irão para o castigo eterno” (Mt 25:46), Ele tinha em vista um estado de tormento que não terá fim, ou um irrevogável fim da existência consciente; em outras palavras (pois assim é colocada a questão), um castigo que é eterno em sua extensão ou no seu efeito. A corrente principal da cristandade sempre afirmou o primeiro, e continua a fazê-lo; evangélicos aniquilacionistas, juntos com muitos Testemunhas de Jeová, Adventistas do Sétimo Dia e liberais - na realidade quase todos os que não são universalistas - defendem o último. Entretanto desse ponto em diante os evangélicos aniquilacionistas se dispersam e não há unanimidade21.

"Os argumentos utilizados pelos aniquilacionistas de hoje são essencialmente os mesmos dos seus predecessores do século passado."

Alguns têm asseverado que o aniquilamento ocorrerá imediatamente após a sentença de Jesus no Juízo Final, após um período de tormento no estado intermediário; outros têm pensado que cada pessoa banida da presença de Jesus passará por algum tormento, proporcional em intensidade e extensão ao que cada um merece, até que venha o momento da aniquilação. Alguns baseiam o seu aniquilacionismo em uma antropologia adaptada. Eles argumentam que uma existência eterna não é natural; e que, pelo contrário, desde que nós somos seres pessoais (almas) que vivem por meio de corpos, a separação entre a alma e o corpo extinguirá a consciência. Então, depois da nossa separação inicial (a primeira morte) não há um estado intermediário, apenas uma inconsciência que continuará até a ressurreição, e depois dos descrentes ressuscitados serem banidos da presença de Cristo, as suas consciências finalmente cessarão (segunda morte) quando, e porque, os seus corpos ressurretos deixarão de existir. Entretanto, alguns que raciocinam desta forma, na verdade, afirmam que há um estado intermediário consciente, com alegria para os santos e sofrimento para os ímpios, como sempre foi o consenso geral da Igreja. Todos que adotam essa antropologia denominam a sua posição de imortalidade condicional, expressão cunhada para mostrar que a existência após a morte que as religiões imaginam e que a maioria, se não todas, deseja, é uma dádiva que Deus concede somente aos crentes, enquanto que Ele, cedo ou tarde, simplesmente extingue o resto de nossa raça. A existência eterna está, portanto, condicionada à fé em Jesus Cristo, e a aniquilação é a alternativa para os demais22.

Historicamente, essas são opiniões do século passado. O século dezenove foi uma era de audaciosos desafios a suposições antigas, sonhos audaciosos de fazer as coisas melhores, e empreendimentos audaciosos, tanto intelectuais como tecnológicos, para realizá-los. O ensinamento cristão histórico sobre o inferno era posto em questão à luz da convicção utilitariana e progressista de que a retribuição em si, sem qualquer perspectiva de alguma coisa ou alguém ser melhorado por ela, não é justificativa suficiente para a punição, desconsiderando o castigo eterno. Partindo desse ponto de vista a idéia de que o ato de Deus manter alguém em permanente tormento após a morte era indigno dEle e, portanto, a posição tradicional sobre o castigo eterno deve ser abandonada, devendo-se encontrar outra maneira de explicar os textos que parecem ensiná-la. Revisionistas da Bíblia desenvolveram duas maneiras de fazer isso, ambas essencialmente especulativas, à maneira de Orígenes, que usava a filosofia da época para estabelecer uma estrutura da forma de interpretação dos textos e para preencher as lacunas nos seus ensinamentos. O primeiro método era o universalismo, que diz que todos os seres humanos estarão por fim no céu, e especula em como, através de dolorosas experiências, os que morrem na incredulidade conseguirão isso. A segunda maneira é o aniquilacionismo, o qual afirma que os que estarão no céu serão por fim todos os humanos, e especula sobre quando os incrédulos serão aniquilados. Os argumentos utilizados pelos aniquilacionistas de hoje são essencialmente os mesmos dos seus predecessores do século passado.

Duas advertências pastorais e teológicas devem preceder nossas considerações a esses argumentos.

1) Opiniões sobre o inferno não devem ser discutidas fora das linhas do Evangelho. Por quê? Porque é somente em conexão com o Evangelho que Jesus e os autores do Novo Testamento falam do inferno, e a maneira bíblica de lidar com temas bíblicos é levar-se em consideração tanto as suas conexões bíblicas, quanto a sua substância bíblica. Como diz Peter Toon:

“... a pregação e o ensino de Jesus com relação ao Geena, trevas e condenação estavam relacionados com a Sua proclamação e exposição do reino de Deus, salvação e vida eterna; eles nunca são expostos como assuntos independentes para reflexão e estudo. Renomados teólogos23 têm muito enfatizado este último ponto. ... o inferno é parte integrante do Evangelho e portanto não pode ser deixado de fora ... . Advertir as pessoas para que evitem o inferno significa que ele é uma realidade, ou pode vir a ser uma realidade. Portanto, é inevitável que tentemos oferecer uma descrição do inferno pelo menos em termos de poena damni (dor pela perda da alegria) e possivelmente de poena sensus (dor dos sentidos, ou seja, através dos sentidos) mas ... sempre reconhecemos que falamos figuradamente.”24

A idéia cristã do inferno não é um conceito isolado de sofrimento apenas por sofrimento (a divina “selvageria”, “sadismo”, “crueldade” e “vingança” do qual os aniquilacionistas acusam os crentes que declaram o inferno eterno)25; mas uma noção biblicamente formada por três misérias equivalentes, que são: a exclusão da presença e comunhão graciosa de Deus, em castigo e com destruição sobre aqueles que, ao negarem as misericórdias de Deus, já rejeitaram o Pai e o Filho nos seus corações. A justiça do juízo final de Deus, o qual Jesus administrará, de acordo com o Evangelho, está em duas coisas: primeiro, o fato de que o que as pessoas recebem não é apenas o que elas merecem, mas o que elas na verdade escolheram - isto é, existir para sempre sem Deus e conseqüentemente sem nenhum dos bens que Ele concede; segundo, o fato de que a sentença é proporcional ao conhecimento da Palavra, obra e vontade de Deus, que foram desconsideradas (Cf. Lc. 12:42-48; Rm1:18-20, 32, 2:4,12-15). De acordo com o Evangelho, o inferno não é uma selvageria imoral, mas uma retribuição moral, e discussões sobre a sua extensão para os seus habitantes devem ocorrer dentro desse quadro.

2) Opiniões sobre o inferno não deveriam ser determinadas por considerações do bem-estar. Diz John Wenham: “Acautelai-vos da imensa atração natural por qualquer saída que os livre da idéia de pecado e sofrimento sem fim. A tentação de torcer o que deveriam ser declarações completamente rígidas das Escrituras é intensa. É a situação ideal para uma racionalização inconsciente"26. Diz John Stott:

“Eu acho o conceito de tormento consciente eterno emocionalmente intolerável e não compreendo como as pessoas conseguem conviver com isso sem cauterizar seus sentimentos ou esfacelá-los com a tensão. Mas as nossas emoções são um guia instável, não confiável para nos conduzir à verdade e não devem ser exaltadas ao lugar de suprema autoridade em determiná-la ... minha pergunta deve ser - e é - não o que me diz o meu coração, mas, o que diz a Palavra de Deus?”27

Ambos adotaram o aniquilacionismo, no que estão errados, mas eles o admitem por uma justa razão __ não porque é uma idéia que se ajustou confortavelmente às suas convicções, apesar de tê-lo feito, mas porque eles pensaram tê-lo encontrado na Bíblia. Qualquer que seja nossa posição sobre a questão, nós também devemos ser guiados pelas Escrituras e nada mais.

1) O primeiro argumento é a necessidade de explicar “castigo eterno” de Mateus 25:46, que está diretamente relacionado com “vida eterna”, sem que traga necessariamente a implicação de eternidade. Admitindo-se que, como é corretamente defendido, “eterno” (aionios) no Novo Testamento significa “que pertence à era porvir” em vez de expressar qualquer noção diretamente cronológica, os escritores do Novo Testamento são unânimes em concluir que o tempo porvir será eterno. Então o problema dos aniquilacionistas permanece no mesmo lugar que estava. A afirmação de que, na era por vir, a vida é alguma coisa contínua, enquanto que o castigo é algo com um final, torna a questão evasiva. Basil Atkinson, “um excêntrico bacharel acadêmico”, de acordo com Wenham28, mas um filologista profissional, e mentor de Wenham e Stott nessa matéria, escreveu:

"Quando o adjetivo aionios significando “eterno” é usado no grego juntamente com substantivos de ação, ele se refere ao resultado da ação, não ao processo. Assim a expressão “castigo eterno” é comparável a “redenção eterna” e a “salvação eterna”, todas expressões bíblicas ... os que se perdem não passarão eternamente por um processo de castigo mas serão punidos uma vez por todas com resultados eternos."29

Embora essa declaração seja constantemente feita por aniquilacionistas, que de outra maneira não poderiam erigir sua posição, ela carece de apoio gramatical e em qualquer caso torna a questão evasiva quando assume que o castigo é um evento momentâneo ao invés de contínuo. Embora, porventura, não seja absolutamente impossível, o raciocínio parece artificial, evasivo, e, em uma avaliação final, desamparado.

"Somente aqueles que existem podem chorar e ranger seus dentes, como é dito dos que serão lançados nas trevas."

2) O segundo argumento é que, uma vez que a idéia de imortalidade intrínseca da alma (isto é, do indivíduo consciente) deixa de ser considerada como uma intromissão platônica na exegese do segundo século, parecerá que o único significado natural de morte, destruição, fogo e trevas no Novo Testamento como indicadores do destino dos ímpios é de que tais pessoas deixam de existir. Mas tal afirmação quando submetida à prova mostra estar errada. Para os evangélicos, a analogia das Escrituras, isto é, o axioma da sua coerência e consistência intrínsecas e sua capacidade de elucidar ela mesma os seus ensinos, é uma regra para toda interpretação, e, embora haja textos que, tomando-os isoladamente, podem conter implicações aniquilacionistas, há outros que de forma alguma podem se encaixar nesse esquema. Mas nenhuma teoria que se propõe a explicar o significado da Bíblia e não abrange todas as Suas principais declarações pode ser verdadeira.

Judas 6 e Mateus 8:12; 22:13, 25:30 mostram que as trevas significam um estado de privação e aflição, mas não de destruição no sentido de deixar de existir. Somente aqueles que existem podem chorar e ranger seus dentes, como é dito dos que serão lançados nas trevas.

Em nenhuma parte a morte significa extinção; morte física é a partida para outra forma de existência chamada sheol ou hades, e morte metafórica é uma existência sem Deus e Sua graça; nada na terminologia bíblica garante a idéia, encontrada em Guillebaud30 e outros, de que “a segunda morte” de Apocalipse 21:11, 20:14, 21:8 significa ou refere-se à extinção da existência.

Lucas 16:22-24 nos mostra, como também uma grande quantidade de linguagem apocalíptica extra-bíblica, que fogo significa uma existência continuamente em tormento, e as arrepiantes palavras de Apocalipse 14:10, 19:20, 20:10 e de Mateus 13:42,50 confirmam isso.

Em 2 Tessalonicenses 1:9 Paulo explica, ou amplia, o significado de “sofrerão penalidade de eterna (aionios) destruição” adicionando “banidos da face do Senhor” __ expressão que, por denotar exclusão, joga por terra a idéia de que “destruição” significa extinção. Somente aqueles que existem podem ser excluídos. Tem sido freqüentemente demonstrado que no grego o significado natural das palavras relacionadas a destruição (substantivo, olethros; verbo, apollumi) é arruinar, de forma que o foi destruído fica, a partir de então, inutilizado, ao invés de propriamente aniquilado, de maneira que passa a não mais existir de forma alguma.

Os aniquilacionistas se defendem com especial argumentação. Às vezes, eles argumentam que tais textos que falam de um tormento contínuo fazem referência somente a uma experiência temporária para os que se perdem antes de deixarem de existir, mas isso é tornar a questão evasiva através de uma exegese especulativa e renunciar a sua declaração original de que o Novo Testamento, quando fala de perdição eterna, sugere naturalmente a extinção. Peterson cita John Stott, no que ele chama de “o melhor argumento aniquilacionista”31. O trecho a seguir faz comentários às palavras “A fumaça do seu tormento sobe pelos séculos dos séculos” de Apocalipse 14:11.

O próprio fogo é chamado “eterno” e “inextinguível”, mas seria muito estranho se o que fosse ali atirado provasse ser indestrutível. A nossa expectativa deveria ser o oposto: o que for ali atirado deve ser consumido eternamente, não atormentado eternamente. Por isso existe a fumaça (evidência de que o fogo fez o seu trabalho) que “sobe pelos séculos dos séculos”.

“Pelo contrário”, contra-argumenta Peterson, “nossa expectativa seria de que a fumaça se extinguiria uma vez que o fogo já tivesse terminado o seu serviço ... O restante do verso confirma nossa interpretação: “e não têm descanso algum, nem de dia nem de noite, os adoradores da besta e da sua imagem”32. Para isso parece não haver resposta.

Portanto, o argumento lingüístico fracassa em todos os seus pontos. Dizer que alguns textos, tomados isoladamente, poderiam significar a aniquilação, não prova absolutamente nada quando outros evidentemente não o fazem.

3) O terceiro argumento é o de que o fato de Deus aplicar eternamente um castigo aos perdidos seria algo injusto e desproporcional. Stott escreve: “eu questiono se o ‘tormento eterno e consciente´ é compatível com a revelação bíblica de justiça divina, a menos que talvez (como tem sido argumentado) a impenitência dos ímpios também perdure ao longo da eternidade”33. A incerteza expressa pelo “talvez” de Stott é estranha, por isso não há nenhuma razão para se pensar que a ressurreição dos ímpios mudará o seu caráter, e sim toda a razão para se supor que a sua rebeldia e impenitência continuarão enquanto eles existirem, tornando o eterno exílio da comunhão de Deus plenamente apropriado; mas, deixando isso a parte, é evidente que o argumento, se fosse válido, provaria coisas demais e terminaria solapando a própria causa aniquilacionista.

Mas se, como sugere o argumento, é desnecessariamente cruel para Deus manter os que se perdem existindo para serem atormentados, porque a Sua justiça no caso não requer isso, como os aniquilacionistas podem justificar, em termos da justiça de Deus, o fato dEle os fazer passar por qualquer tipo de tormento após a morte. Por que a justiça, que desse ponto de vista requer a aniquilação de qualquer forma, não se satisfaz com uma aniquilação no momento da morte? Os aniquilacionistas bíblicos, que não podem escapar da expectativa bíblica da ressurreição final de crentes e incrédulos para o julgamento, também admitem que haverá alguma dor imposta após o julgamento e antes da extinção; mas se a justiça de Deus não requer nada além da aniquilação, e portanto não requer essa dor, ela se torna uma crueldade desnecessária, sendo Deus assim, conseqüentemente, acusado de cometer a mesma falta da qual os aniquilacionistas ansiosamente querem provar que Ele é inocente e também condenam a corrente principal do pensamento cristão por sua inferência. Enquanto que, se a justiça de Deus realmente não requer nenhuma punição em adição à aniquilação, e a contínua hostilidade, rebeldia e impenitência dos ímpios para com Deus permanece uma realidade após suas mortes, não haverá momento algum em que seja possível tanto para Deus como para o homem dizer que castigo suficiente já foi aplicado, que já não merecem mais do que já receberam, e qualquer punição a mais além disso seria injusta. Dessa forma o argumento retorna aos seus proponentes como um bumerangue, impelindo-os de volta e deixando-os sem poder escapar das garras do seu dilema. Basil Atkinson foi mais sábio e declarou: “eu tenho evitado ... qualquer argumento sobre o estado final dos ímpios baseado no caráter de Deus, o que eu consideraria uma irreverência tentar avaliá-lo”34. Sem dúvida ele anteviu as dificuldades a que tal argumento conduz.

"É desagradável contestar honrados colegas evangélicos através de uma matéria impressa(...). Portanto, paro por aqui. Meu propósito era apenas reconsiderar o debate e avaliar a força dos argumentos utilizados, e isso eu fiz."

4) O quarto argumento é o de que a alegria dos santos no céu seria arruinada pelo fato de saberem que alguns continuam debaixo de merecida punição. Mas não se pode dizer isso de Deus, como se a manifestação da Sua santidade na punição doesse mais a Ele do que aos ofensores; e desde que no céu os cristãos serão semelhantes a Deus, amando o que Ele ama e se regozijando em toda manifestação Sua, incluindo a manifestação da Sua justiça (na qual os santos, pelas Escrituras, na verdade já se alegram neste mundo), não há razão para imaginar que a sua alegria eterna será prejudicada dessa forma35.

É desagradável contestar honrados colegas evangélicos através de uma matéria impressa, alguns dos quais são bons amigos e outros (eu falo particularmente de Atkinson, Wenham e Hughes) agora já se encontram com Cristo. Portanto, paro por aqui. Meu propósito era apenas reconsiderar o debate e avaliar a força dos argumentos utilizados, e isso eu fiz. Eu não estou certo se concordo com Peter Toon quando diz que “discussão sobre se o inferno significa castigo eterno ou aniquilação após o juízo ... é tanto perda de tempo como uma tentativa de saber daquilo que não podemos saber”36, mas eu estou convencido de que ele está certo em dizer que o inferno “faz parte do Evangelho” e que “advertir as pessoas para que evitem o inferno significa que ele é uma realidade”37. Todo aquele que se decide por advertir as pessoas para que evitem o inferno pode andar em comunhão no seu ministério e legitimamente reivindicar ser um evangélico. Quando John Stott argumenta que “a aniquilação final do ímpio deveria ser aceita como uma alternativa legítima e biblicamente fundamentada para o eterno e consciente tormento”38, ele pede demais, pois os fundamentos bíblicos dessa posição, quando examinados, provam, como vimos, que são inadequados. Seria errado porém, se essas diferenças de opinião quanto ao assunto levassem ao rompimento da comunhão. Entretanto seria uma boa coisa se elas fossem resolvidas.


Dr. James Packer, antigamente Professor de Teologia no Regent College, Vancouver; desde 1979, Editor Senior da Chrishanity Today e um professor muito ocupado. Ele disserta amplamente, escreve extensivamente, e é o distinto autor de numerosos best-sellers. Ele contribuiu para Reformation & Revival Journal.

Notas:
1 No Place for Truth (Nenhum Lugar para Verdade - Grand Rapids: Eerdmans, 1993) de David Wells e Mark Noll, The Scandal of the Evangelical Mind (O Escândalo da Mente Evangélica - Grand Rapids: Eerdmans, 1994), contam só parte da história. Admitindo-se que a teologia evangélica em algumas partes e sobre alguns aspectos tem sido deformada e fragmentada, a energia que atualmente vem sendo dedicada para recuperá-la aqui, é notável.
2 Detalhes podem ser recolhidos de LeRoy Edwin Froom, The Conditionalist Faith of Our Fathers (A Fé Condicional de Nossos Pais - Washington, D. C.: Review and Herald, 2 vols., 1965-66), e de David J. Powys, "The Nineteenth and Twentieth Century Debates about Hell and Universalism," (O Debate sobre Inferno e Universalismo no Século 19 e 20 - Uníversalism, Paternoster Press, e Grand Rapids: Baker, 1992), 93138.
3 Eu declarei isto em "The Problem of Eternal Punishment" (O Problema do Castigo Eterno - Crux XXVI.3 - 23/09/90. John Wenham desafiou fundamentado em que os evangélicos falaram muito sobre o assunto na segunda metade do século 19, que ele chamou "o auge do condicionalismo entre evangélicos" (Universalism. ., 181 e nota 27). Mas conversação e convicção não são a mesma coisa. A evidência para minha afirmação encontra-se no fato de que três dos "quatro melhores livros que defendem o aniquilacionismo" segundo Robert A. Peterson, " (Hell on Trial - Inferno em Julgamento - Phillipsburg: Presbyterian & Reformed Publishing, 1995, 161-62); The Righteous Judge, de Harold E. Guillebaud (O Justo Juiz - publicação independente, 1964); Basil F. C. Atkinson, Life and lmmortality (Vida e Imortalidade - publicação independente, n.d.c. 1968; e Edward William Fudge, The Fire That Consumes (O Fogo Que Consome), não foram publicados por nenhuma publicadora evangélica influente.
4 Christianity Today (Cristianismo Hoje), 20 de março de 1987, 40-41. Pinnock ampliou sua linha de pensamento em "The Destruction of the Finally Impenitent" (A Destruição do Impenitente a Final - Criswell Theological Review 4 (Primavera 1990), 243-59.
5 Houston: Providential Press, (Imprensa providencial), 1982. O livro de Fudge foi notado e respondido de forma breve por Robert UM. Morey, Death and the Afterlife (Morte e a Vida após a morte - Minneapolis: Bethany House, 1984), 124ff., 205. Uma edição revisada e reduzida, com as respostas de Fudge aos críticos, apareceu em 1994 (Carlisle, Reino Unido,: Paternoster Press).
6 David L. Edwards e John Stott, Essenhals (Londres: Hodder & Stoughton, 1988), 313-20.
7 Grand Rapids: Eerdmans, e Leicester, Reino Unido,: Inter-Varsity Press, 1989, 398-407.
8 Kenneth Kantzer e Carl F. H. o Henry, eds., Evangelical Essentials (Grand Rapids: Zondervan, 1990), 107-36.
9 A linha de pensamento foi desenvolvida no artigo de Crux (Ponto Crucial), nota 3.
10 Christianity Today (Cristianismo Hoje), 16 de junho de 1989, 60,; 63.
11 Ligonier, Pennsylvania,: Soli Deo Gloria Publications (Soli Deo Gloria Publicações), 1990.
12 Veja nota 2.
13 Eastbourne, Reino Unido,: Kingsway, 1991.
14 Bridgend, Reino Unido,: Evangelical Press of Wales (Imprensa Evangélica de Gales), 1991.
15 Wheaton: Bridgepoint Books (Victor Books), 1992.
16 Grand Rapids: Zondervan, 1992.
17 Londres: Hodder & Stoughton, 1992.
18 Darlington, Reino Unido,: Evangelical Press (Imprensa Evangélica), 1993.
19 Lanham, Maryland,: United Press of América, 1995.
20 Veja nota 3.
21 Para uma consideração geral, veja David J. Powys, ""The Nineteenth & Twentieth Century Debates about Hell and Universalism," in Universalism. . ., (Debate sobre Inferno do Século 19 e 20 e Universalismo), em Universalism. . ., 93-129.
22 Além de seus expoentes evangélicos modernos, o condicionalismo tem tido o apoio de uma grande parte do protestantismo mundial durante os últimos 150 anos. Veja B. B. Warfield, " Annihilationism" (Aniquilacionismo-Grand Rapids: Baker, 1981), ix., 447-57; Peter Toon, Heaven and Hell (Céu e Inferno - Nashville: o Thomas Nelson, 1986), 17S81;artigos "Annihilationism" (Aniquilacionismo) e Conditional Immortality" (Imortalidade Condicional - Dicionário Evangélico de Teologia - Walter UM. Elwell, ed. Grand Rapids: Baker,1984).
23 Ibid., 199.
24 Ibid., 200-201.
25 "Selvageria" é de Michael Green, Evangelism through the Local Church (Evangelismo pela Igreja Local - Londres: Hodder & Stoughton, 1990); "sadismo" é de J. W. Wenham, Universalism. . . (Universalismo ...), 187; as outras duas palavras são de Clark Pinnock, Criswell Theological Review 4 (1990), 246.
26 Wenham, The Enigma of Evil (O Enigma do Mal - Grand Rapids: Zondervan, 1985), 37-38.
27 Stott, Essentials, 315-16.
28 Wenham, Universalism ... (Universalismo...), 162, note 3.
29 Atkinson, Life and lmmortality (Vida e Imortalidade), 101.
30 H. E. Guillebaud, The Righteous Judge (O Justo Juiz), 14.
31 Peterson, Hell on Trial (Inferno em Julgamento), 162. Wenham descreve as páginas de Stott como um "tratamento leve", (Universalism. . ., 167). O julgamento de Peterson me parece mais perspicaz.
32 Ibid., 168-69; Stott citando, Essentials, 316.
33 Ibid., 319.
34 Ibid., iv.
35 Estas sentenças são principalmente retiradas de Packer, art. cit, 23. 36 Ibid., 201.
37 Ibid., 250.
38 Ibid., 320.39

Dez acusações contra a igreja moderna - 1



Por Paul Washer



Primeira Acusação: uma negação prática da suficiência das Escrituras

. . Primeiro de tudo, a primeira acusação: uma negação prática da suficiência das Escrituras, especialmente na minha denominação, uma negação prática da suficiência das Escrituras.

2 Timóteo 3: 15 em diante diz:

“Porque desde criança você conhece as Sagradas Letras, que são capazes de torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra.” (2 Tm 3:15-17)

Ao longo das últimas décadas tem ocorrido uma grande batalha no que diz respeito à inspiração das Escrituras. Agora, talvez, alguns de vocês não participam dessa batalha, porém muitos de nós, de denominações mais liberais, certamente temos uma batalha pela Bíblia.

Contudo, existe apenas um problema. Quando vocês, como um povo, chegarem a crer que a Bíblia é inspirada vocês terão lutado apenas metade da batalha. Porque a questão não é meramente se a Bíblia é inspirada. É ela inerrante? A grande pergunta que segue e que deve ser respondida: A Bíblia é suficiente ou será que temos que trazer todos os chamados estudos das ciências sociais e culturais, a fim de saber como funciona uma igreja? Essa é uma questão importante.

Ciências sociais, em minha opinião, têm tomado precedência sobre a Palavra de Deus de tal forma que a maioria de nós nem consegue sequer perceber. Elas penetraram de tal forma em nossa igreja, em nosso evangelismo e em nossa missiologia que você dificilmente pode chamar o que estamos fazendo de cristão. Psicologia, antropologia e sociologia se tornaram influencias primárias na igreja.

Vários anos atrás, quando eu estava no seminário lembro-me que um professor entrou na sala e começou a desenhar pegadas no quadro-negro. E enquanto ele as marchava através da lousa, ele se virou para todos nós e disse apenas isto: "Aristóteles está caminhando pelas salas desta instituição. Cuidado, pois eu escuto suas pegadas mais claramente do que as do apóstolo Paulo e da equipe de homens inspirados que estavam com ele e até mesmo do que as do próprio Senhor Jesus Cristo.”

Nós chegamos a acreditar que um homem de Deus pode lidar com determinadas pequenas áreas da vida da Igreja, mas quando as coisas apertam temos que ir para os peritos das áreas sociais. Isso é uma absoluta mentira. Diz aqui, nas Escrituras, que o homem de Deus seja equipado, adequado, equipado para toda boa obra.

O que Jerusalém tem a ver com a Roma? E o que nós temos a ver com todas essas modernas ciências sociais que foram criadas justamente como um protesto contra a Palavra de Deus? E por que razão é que evangelismo e missões e as chamadas “estratégias de crescimento para a igreja” são mais moldados pelos antropólogos, sociólogos e os estudantes de Wall Street que se alinham a cada tendência cultural?

Todas as atividades em nossa Igreja devem estar fundamentadas na Palavra de Deus. Todas as atividades em missões devem estar fundamentadas na Palavra de Deus.

A nossa atividade missionária, nossa atividade eclesiástica, tudo o que fazemos deve fluir de teólogos e exegetas, o homem que abre a sua Bíblia e tem apenas uma pergunta: “Qual é a Tua vontade, oh Deus?”

Nós não devemos enviar questionários para pessoas carnais a fim de descobrir que tipo de igreja eles querem freqüentar. A Igreja deveria ser “sensível ao que busca”, mas a Igreja deve reconhecer que só existe apenas um “buscador”. Seu nome é Deus, e se você quiser ser amigável com alguém, se você quiser acomodar alguém, acomode Ele e Sua glória, mesmo que você seja rejeitado por todas as outras pessoas. Nós não somos chamados para construir impérios. Nós não somos chamados para sermos exagerados. Somos chamados para glorificar a Deus.

E se você quer que a Igreja seja algo diferente do que um povo peculiar, então você quer alguma coisa que Deus não quer.

Eu quero que você escute só por um momento Isaías, capítulo oito. Ouçam o que ele diz: “Quando vos disserem: Consultai os necromantes e os adivinhos, que chilreiam e murmuram...” (Is 8: 19). Esta é uma definição perfeita, ou pelo menos uma ilustração, das ciências sociais e os gurus das “estratégias de crescimento para a igreja” e todo o resto, porque cada dois ou três anos todas as suas principais teorias mudam. Não apenas sobre o que é um homem ou como você o conserta, mas também o que é uma igreja e como você faz para ela crescer. A cada dois ou três anos há outra novidade que vem daquilo que pode fazer a sua igreja "super" aos olhos do mundo.

Recentemente um dos maiores e mais conhecidos especialista das “estratégias de crescimento para a igreja” disse que ele descobriu que ele estava completamente errado em toda a sua teoria. Mas, em vez dele voltar às Escrituras, de joelhos, quebrantado e chorando, ele sai para encontrar outra teoria.

Eles não dão qualquer palavra clara. Diz aqui em Isaías: "acaso, não consultará o povo ao seu Deus? A favor dos vivos se consultarão os mortos?” (Is 8: 19)

Devemos nós, como homens da igreja, como pregadores, como pastores, como cristãos, ir lá fora e consultar os mortos espiritualmente, em nome de todos aqueles que o Espírito Santo vivificou? Absolutamente não. Absolutamente não.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Convocação à batalha pelo Corpo de Moisés*


Guilherme V. R. de Carvalho**

"Mas o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo, e disputava a respeito do corpo de Moisés" (Judas 9).

Porque Satanás desejaria o corpo de Moisés?

Porque tomar aquele corpo envelhecido, cheio de memórias horrendas, de encontros maravilhosos com Deus? Porquê sujeitar-se a ser confundido com ele, repetir seus trejeitos e cheiros, imitar a sua voz? Pior; e se ele era mesmo gago? O que poderia fazer um diabo gago?

Pergunta óbvia. A mera pergunta induz a resposta: toma-se o corpo para se parecer. Há muitas formas de se parecer com alguém, mas qual seria melhor que tomar o seu corpo?

Desceu, pois, o arcanjo Miguel, para contender com o diabo e disputar o corpo do profeta. Também Deus queria aquele corpo, que era seu. Deus não queria só o espírito, mas também o corpo. É claro, Deus não queria apenas impedir que o diabo enganasse a outros por meio daquele corpo - engano possível apenas se não conhecêssemos nada além de Judas nove. Deus queria o que era seu. Mas também, o que era de Moisés; só o diabo quererá negar a identidade de Moisés com o seu corpo, e o ponto é inimaginavelmente importante, a ponto de conferir proporções cósmicas à batalha por ele.

Corpo é expressão temporal e material do ser; superfície na qual o interno se torna visível, o profundo na superfície, o símbolo de mim, que participa do que sou eu. Isso é o que o corpo deveria seria ser; para isso Deus criou o corpo. Mas a queda destruiu a sua finalidade, e colocou o eu contra o eu, o eu interno contra o eu externo. A leitura mais superficial de Romanos sete nos fará lembrar rapidamente a miséria de se achar fraturado, de querer e não querer ao mesmo tempo, de buscar a própria redenção por meio da auto-destruição.

O pecado separa barro e espírito, mata o sentido, afasta corpo de ser. Situação deveras miserável; eu separado de mim e, como se não bastasse, figuras infernais desejam alienar-me ainda mais de mim mesmo, tornar-me em dois e, então, em outro, para usar-me contra mim. O que será que Moisés pensou quando viu, de sua nuvem, o diabo lutando para apossar-se da sua superfície, para conectá-la com uma outra profundidade?

A luta entre Miguel e o diabo pelo corpo de Moisés lembra-me a luta pelo sentido, no campo da interpretação, e da própria teoria hermenêutica; ou melhor, a luta pela forma do sentido; ou a luta pela superfície do sentido que, não deveria mas, miseravelmente, é separada de seu coração, de sua fonte semântica profunda.

Ora, um calvinista, tipicamente, não se entregaria a este tipo de alegoria fantasiosa, inventando sentidos com as imagens bíblicas. Eu, especialmente, que por tantos anos defendi uma interpretação literal (embora não literalista) das Escrituras - que ironia. Mas antes que os amigos torçam seus narizes contra mim, quero desculpar-me de tão insólito uso do corpo de Judas, que não quero roubar, de forma alguma. Meu exercício de imaginação não terá a pretensão de significar o que Judas quis dizer, naturalmente. É claro que não estou fazendo exegese. Ao menos, não exegese bíblica.

Talvez, sim, exegese de um comportamento realmente diabólico, esse, de tentar roubar o corpo dos outros, ora. Isso, de fazer roubo semântico, é outra coisa. Ladrões de corpos, violadores de túmulos! Saqueadores criminosos esses hermeneutas que querem usar a superfície dos outros para ganhar o amor dos homens.

Diabolicamente enfiando-se nos braços, nos olhos e na língua que um dia foi de Moisés, e do Espírito de Deus - de ambos - para dizer algo que não é mais a mentira absoluta, que seria nada (em verdade, que não é), nem a verdade, que disse Moisés, mas para dizer uma síntese perniciosa que tem, corpo de verdade, mas espírito de mentira. É a verdade vazia que tem o cheiro, as rugas, o pêlo e o timbre da verdade, mas que é realmente outra coisa. E é difícil mostrar a mentira; afinal, se parece tanto com a verdade!

Um teólogo "diabólico" fará qualquer coisa para ser amado como Moisés, ou como Jesus, ou como Paulo, ou como os doutores da igreja. Sei o que digo, já o vi antes. Ele se sujeitará a usar aquelas palavras ignóbeis da tradição cristã, e consumirá tempo precioso se esforçando para obter um ponto de contato com o evangelho; aceitará em si as rugas e o fedor de alguns dogmas, e finalmente acreditará ser a própria re-encarnação de Moisés, o novo Moisés, com a mesma cara de antes - "mas com um melhor coração, enfim!" E tudo isso para esmolar a atenção complacente deste mundo podre. Pobres diabos-gagos. Seu último estado tornou-se pior que o primeiro.

"Misticismo semântico": expressão Schaefferiana, para designar a ilusão de que o mero uso da linguagem cristã tornará o nosso discurso cristão, mesmo que sua carga semântica seja fruto de nossa própria imaginação filosófica. Como se as palavras dessem a luz ao sentido, e não o sentido às palavras; como se as meras palavras pudessem criar espírito e realidade, tal qual um "pó de pirlimpimpim" teológico.

"Misticismo Semântico": expressão especialmente desprezada e, até mesmo, odiada, capaz de fazer queimar o ventre de alguns teólogos. Desprezada, como não? Que pode um Schaeffer contra um Schleiermacher, ou um Tillich, ou um Bultmann, ou um Ricoeur, ou um Queiruga, ou um Rubem Alves, ou uma dessas Emílias que infestam os seminários teológicos? Que audácia! Sem dúvida, admito, precisamos submeter essa expressão a um tratamento mais sofisticado. Pobre Schaeffer; era um evangelista, não um filósofo, e muito menos um especialista em filosofia da linguagem religiosa.

Mas vou eu em sua defesa: ele conhecia o diabo o suficiente para enxergar o vazio sem fundo dentro dos olhos de algumas carcaças teológicas contemporâneas. Olhos tão parecidos com a velha tradição, tão brilhosamente evangélicos, tão impressionantemente consistentes mas... tão ocos de significado evangélico. Ou melhor, olhos tão cheios de outros significados, brilhando com luzes infernais, de sentidos infernais, quentes e vermelhos de revolta contra Deus.

Quem tem olhos para ver, veja. Isso não é coisa de somenos. Há crentes que apontam o poder do leão, e respondem tranqüilos: "o evangelho não precisa de defesa; só precisamos mantê-lo livre." Pura inocência. Ainda mais com essa estratégia perversa de roubar o corpo dos outros. Como saber se aquele leão também é oco? Ou se está cheio com o pai da mentira?

Por isso Miguel descerá do céu, de novo, e de novo, e de novo, e contenderá pelos corpos de Deus, mesmo que sejam corpos mortos. E o diabo contenderá também; e os simples ficarão horrorizados: "porque tanta disputa em torno de um corpo? Porque tantas lágrimas e violências para guardar essas formas mortas, se o que importa é o espírito?"

Sim, o que, afinal, se pode fazer com esses ossos secos e empoeirados? Porquê submeter-se a horas, dias, e anos, de análise conceitual e reflexão, para demonstrar que a carga semântica de um certo discurso teológico é, finalmente, uma corrupção enganosa da verdade, do sentido que o evangelho nos trouxe? Porquê defender com unhas, dentes e mentes, o teísmo clássico, ou as duas naturezas de Cristo, ou sua unidade pessoal, ou a universalidade do pecado, ou a ressurreição literal dos mortos, ou a expiação vicária, e todas essas velharias dogmáticas?

Deus sabe o porquê. Deus e seus anjos o sabem, sim, mas principalmente, o diabo.

Convoca pois, o Senhor, anjos, para descerem de suas nuvens de apatia e desembarcar ali, onde um velho corpo é possuído, e dar luta ao pai da mentira. Quando aprouver a Deus, este velho corpo será ressurreto, e seus olhos estarão cheios do Espírito Santo. E seu rosto brilhará, com ainda maior brilho, e não haverá véu que oculte sua luz.

Até lá, - que saudade! - se temos apenas estes corpos inertes de tradição religiosa lançados aí, num canto, que seja. Os anjos chamados, fiéis em busca de compreender, estarão de guarda, esperando pacientemente pela ressurreição. E nossas espadas analíticas estarão prontas contra o diabólico misticismo semântico.


* Texto primeiramente publicado no blog do autor: Idéia Fiksa
** Guilherme V.R. de Carvalho é mestre em Teologia e mestrando em Ciências da Religião, coordenador da Associação Kuyper (AKET).

Deus se Revela


Por Clóvis Gonçalves

“Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis” Rm 1:19-20

Introdução

Deus colocou a eternidade no coração do homem. A idéia de Deus é um fato inescapável a todos, mesmo aqueles que negam sua existência pensam em Deus para poderem negá-lo. Isto acontece porque é impossível ao homem fugir da revelação de Deus que, num certo sentido, é universal.

O que queremos dizer por revelação? É a comunicação por parte de Deus aos homens de fatos que de outra forma ele não poderia conhecer. Revelar é retirar o véu para mostrar algo que estava encoberto, oculto. Quando se trata de fatos a respeito de Deus e de suas obras, revelação é a comunicação que Deus faz de si mesmo, da criação, de seu governo providencial e do destino dos seres morais (homens e anjos), coisas que o homem não pode descobrir apenas com a razão.

É comum a confusão entre revelação, inspiração e iluminação, por estarem relacionadas entre si. Contudo, em seus sentidos teológicos devemos manter a distinção entre elas. Já definimos revelação, como a comunicação divina de uma verdade. A inspiração é a operação sobrenatural pela qual Deus controla os homens no processo de registrar a revelação recebida. Por exemplo, quando Deus avisou José por sonho que Herodes queria matar o menino Jesus foi uma revelação, quando Lucas registrou o fato em seu Evangelho o fez por inspiração. Iluminação, por sua vez, é a operação do Espírito Santo sobre os que lêem a Palavra de Deus, ajudando-os na compreensão. Mais poderia ser dito sobre as relações entre revelação, inspiração e iluminação, mas para os propósitos deste artigo é o bastante.

Soberania de Deus na revelação

Precisamos reconhecer que a revelação é um ato livre de Deus. Se quisesse, Deus poderia deixar a humanidade às cegas acerca de sua existência, de seu poder e de suas obras. Eles jamais poderiam alcançar, por si mesmos, um conhecimento verdadeiro a respeito dEle. Mas aprouve a Deus mostrar-se às suas criaturas.

Ao escolher revelar-se, contudo, Deus não abriu mão de sua soberania e não dá a todos o mesmo tipo e grau de conhecimento acerta dEle. Jesus disse “graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado” (Mt 11:25-26). Embora afirmemos que ninguém há no mundo que não tenha algum tipo de revelação de Deus, não podemos afirmar que Ele se revela pelos mesmos meios e de igual forma a todos.

Além disso, ainda que a revelação seja suficiente para nossa vida na terra e morada no céu, não é exaustiva, mas limitada por Deus. “As coisas encobertas pertencem ao Senhor, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre” (Dt 29:29). Até mesmo esta limitação que Deus impõe em sua revelação denota sua bondade para conosco, pois não poderíamos suportar tanto conhecimento: “Tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora” (Jo 16:12). Creio que nem em toda eternidade conheceremos Deus completamente, posto que é infinito.

Revelação geral e especial

A revelação que Deus dá a todos os homens sem excessão é chamada de revelação comum ou geral. Esta é a revelação de Deus através da natureza (Criação) e da História (Providência), por exemplo.

“Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos confins do mundo. Aí, pôs uma tenda para o sol, o qual, como noivo que sai dos seus aposentos, se regozija como herói, a percorrer o seu caminho. Principia numa extremidade dos céus, e até à outra vai o seu percurso; e nada refoge ao seu calor” (Sl 19:1-6). É a mesma revelação referida por Paulo quando escreveu que “os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas” (Rm 1:19).

Em que pese o fato dessa revelação ser universal, ela é insuficiente para a salvação. Nada diz a respeito da morte de Jesus em nosso favor ou da justificação pela graça mediante a fé. Contudo, ela é suficiente para tornar os homens indesculpáveis perante Deus, como diz o texto: “tais homens são, por isso, indesculpáveis” (Rm 1:20).

Para que o homem seja “sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus” (2Tm 3:15) é necessário uma revelação que vá além da revelação natural, chamada de especial. Esta revelação nos foi dada na pessoa de Jesus Cristo e encontra-se registrada na Bíblia Sagrada.

“Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas” (Hb 1:1-3).

Jesus é a revelação tão perfeita de Deus que podia dizer “quem me vê a mim vê o Pai” (Jo 14:9). E esta revelação de Jesus Cristo encontra-se registrada na Bíblia Sagrada, por isso o Senhor disse “examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim” (Jo 5:39). Tudo o que precisamos saber para nossa vida na terra e para nos preparar para a vida no céu, encontra-se registrada na Escritura que “é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3:16-17).

Nossa atitude diante da revelação

A primeira atitude diante da revelação de Deus é aceitá-la. Paulo afirma que “a ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça” (Rm 1:18). Porém, como a revelação de Deus na Escritura revela a nossa impiedade e perversão, nossa reação natural é suprimir essa verdade. Daí a necessidade da graça de Deus, pois “o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1Co 2:14). Sob a operação da graça de Deus chegamos à fé e mediante esta somos justificados.

Tendo recebido a revelação como vinda de Deus, devemos ser gratos a Deus por se mostrar a nós. Lembremos que Jesus referiu-se à revelação de Deus com expressão de gratidão, dizendo “graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11:25). Com nos era totalmente impossível descobrir Deus sem que se revelasse a nós, devemos agradecer sempre por tê-lo feito. Do contrário, passaríamos a vida inteira tateando no escuro.

Finalmente, devemos adorar a Deus. O grande erro denunciado em Romanos é que os homens “tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças” (Rm 1:21). Contemplar a glória de Deus revelada na natureza e nas Escrituras sempre deve nos levar a adoração. Paulo exulta dizendo “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Rm 11:33-36)

Conclusão

Como acabamos de ver todo homem recebe porção do conhecimento de Deus, suficiente para torná-lo inescusável. No juízo final, os homens serão julgados pelas suas obras, de acordo com a luz que receberam. Ninguém poderá alegar que foi injustiçado ou alegar desconhecer as bases de seu julgamento, pois a sua consciência será testemunha contra si. Entretanto, vimos também que a revelação de Deus como salvador veio através de Jesus Cristo, de quem a Bíblia é testemunha. Crendo nEle você não apenas escapa do juízo, mas é levado com segurança ao céu, podendo contemplar Aquele de quem temos apenas réstias de Sua glória. Leia a Bíblia, creia em Cristo e viva!

Soli Deo Gloria

Fonte:5 Calvinistas