terça-feira, 10 de março de 2026

Quando a verdade nos transforma em inimigos

Pr. Silas Figueira

Há momentos na caminhada cristã em que a fidelidade à verdade produz consequências dolorosas. Aquilo que deveria conduzir ao arrependimento e à restauração muitas vezes gera resistência, hostilidade e até difamação. A história da revelação bíblica demonstra que proclamar a verdade de Deus nem sempre resulta em aceitação; muitas vezes resulta em oposição.

Na Bíblia encontramos um exemplo claro disso nas palavras do apóstolo Paulo aos cristãos da Galácia: “Tornei-me, porventura, vosso inimigo por vos dizer a verdade?” (Gl 4.16). Essa pergunta revela um drama espiritual profundo. Aqueles que antes haviam recebido Paulo com alegria agora o viam com desconfiança e até animosidade, simplesmente porque ele os confrontara com a verdade do evangelho. O problema não estava na mensagem, mas na resistência do coração humano à confrontação divina. 

Essa reação revela uma realidade teológica fundamental: o pecado gera aversão à verdade. Desde a queda, o ser humano carrega uma disposição interior que o inclina a resistir à luz de Deus. A verdade expõe aquilo que o orgulho humano tenta esconder. Por isso, quando a Palavra de Deus é proclamada fielmente, ela inevitavelmente confronta, corrige e chama ao arrependimento.

O ministério de Jesus Cristo revela essa realidade de forma suprema. Cristo não apenas ensinou a verdade — Ele declarou ser a própria verdade. Contudo, justamente por denunciar a hipocrisia religiosa e revelar a necessidade de arrependimento, foi rejeitado pelos líderes de seu tempo. A cruz, nesse sentido, não foi apenas um evento histórico, mas a manifestação da profunda hostilidade do coração humano contra a verdade de Deus.

Os profetas do Antigo Testamento também experimentaram essa mesma realidade. Quando denunciaram a idolatria, a injustiça e a infidelidade espiritual de Israel, foram perseguidos, rejeitados e, em muitos casos, mortos. A fidelidade à Palavra colocou frequentemente os mensageiros de Deus em confronto direto com a cultura e com o coração endurecido do povo.

Teologicamente, isso nos lembra que a Palavra de Deus possui um caráter confrontador. Ela não apenas consola, mas também corrige; não apenas encoraja, mas também expõe o pecado. A Escritura afirma que a Palavra é viva e eficaz, penetrando profundamente no coração humano e discernindo as intenções mais ocultas. Por isso, sua proclamação nunca é neutra: ela sempre provoca reação.

Nesse contexto, torna-se compreensível por que aqueles que anunciam a verdade muitas vezes se tornam alvo de críticas e acusações. A rejeição, em muitos casos, não é resultado de falta de amor no mensageiro, mas da resistência natural do coração humano à autoridade de Deus.

Pastoralmente, essa realidade traz importantes lições para aqueles que servem no ministério da Palavra.

Primeiro, a oposição não deve surpreender o servo de Deus. Aqueles que anunciam o evangelho estão seguindo o mesmo caminho percorrido pelos profetas, pelos apóstolos e pelo próprio Cristo. A fidelidade à verdade frequentemente traz incompreensão e rejeição.

Segundo, a verdade deve ser proclamada com amor e humildade. O pregador não deve usar a verdade como arma para ferir, mas como instrumento de graça para restaurar. A firmeza doutrinária precisa caminhar junto com a compaixão pastoral. O próprio apóstolo Paulo, mesmo sendo firme na defesa do evangelho, demonstrava profundo amor e preocupação espiritual por aqueles a quem exortava.

Terceiro, o servo de Deus precisa lembrar a quem ele serve. O objetivo do ministério não é conquistar aprovação humana, mas permanecer fiel ao Senhor. Quando a verdade gera oposição, o cristão encontra consolo ao lembrar que sua fidelidade é, antes de tudo, um ato de obediência a Deus.

A história da igreja confirma essa realidade. Ao longo dos séculos, homens e mulheres que permaneceram fiéis às Escrituras frequentemente enfrentaram perseguição, difamação e sofrimento. No entanto, foi justamente por meio dessa fidelidade que a verdade do evangelho continuou sendo preservada e proclamada. 

Assim, quando dizer a verdade nos transforma em inimigos aos olhos de alguns, devemos lembrar que estamos participando de uma longa tradição de fidelidade. O caminho pode ser difícil, mas é o caminho trilhado por Cristo.

A verdade pode ser rejeitada, distorcida ou combatida, mas nunca deixa de ser verdade. E é por meio dessa verdade que Deus continua chamando pecadores ao arrependimento, edificando sua igreja e glorificando o seu nome.

Quando um olhar nos paralisa

Por Pr. Silas Figueira

A narrativa da mulher de Ló, registrada no Livro de Gênesis 19.26, é breve, mas profundamente solene: “E a mulher de Ló olhou para trás e converteu-se numa estátua de sal.” Esse episódio ocorre no contexto da destruição de Sodoma e Gomorra, cidades marcadas pela perversidade e pela rebelião contra Deus. Na sua misericórdia, o Senhor envia mensageiros para retirar Ló e sua família daquele lugar antes que o juízo caísse. A ordem foi clara e urgente: fugir sem olhar para trás.

À primeira vista, o gesto da mulher de Ló pode parecer simples, quase instintivo. No entanto, à luz de toda a narrativa bíblica, percebemos que aquele olhar não foi apenas um movimento dos olhos, mas a revelação de um coração dividido. Enquanto seus pés caminhavam para longe da cidade condenada, seu coração ainda permanecia ali. O olhar para trás denunciou apego, saudade e talvez até relutância em abandonar o que Deus havia determinado que fosse deixado.

Há momentos na vida espiritual em que Deus, em sua graça, nos chama para sair de certos lugares, abandonar certos caminhos e romper com práticas ou ambientes que nos afastam dele. A ordem divina muitas vezes é clara: seguir adiante, sem hesitar. Contudo, o coração humano tem uma tendência perigosa de cultivar afetos por aquilo que deveria ter sido deixado definitivamente para trás. Assim, enquanto o Senhor abre um caminho de libertação diante de nós, a alma pode permanecer presa às lembranças, aos confortos antigos ou aos pecados que pareciam familiares.

O olhar da mulher de Ló simboliza exatamente isso: o perigo de um coração dividido. Não basta apenas sair fisicamente de um lugar de pecado; é necessário que o coração também seja desprendido dele. Quando isso não acontece, o passado exerce uma força silenciosa que paralisa a caminhada. O texto bíblico descreve que ela se tornou uma estátua de sal — uma imagem poderosa de imobilidade, de alguém que interrompeu a jornada no meio do caminho. Aquela que deveria estar avançando para a salvação ficou presa entre o passado que não podia salvar e o futuro que não chegou a alcançar.

Séculos mais tarde, Jesus Cristo resgatou esse episódio em uma advertência extremamente curta, porém carregada de significado: “Lembrai-vos da mulher de Ló” (Evangelho de Lucas 17.32). Em apenas três palavras, Jesus nos chama à reflexão. Ele nos convida a considerar que, na caminhada com Deus, não é suficiente começar bem; é preciso perseverar olhando para frente. A lembrança da mulher de Ló torna-se, portanto, um alerta espiritual para todos os que desejam seguir o Senhor com fidelidade.

Quantas vezes a vida cristã é ameaçada exatamente por esse tipo de olhar? Pessoas que começaram a caminhar com Deus, mas que constantemente voltam seus pensamentos e afetos para aquilo que ficaram para trás. Às vezes é o apego a um estilo de vida antigo, às vezes são práticas que Deus já confrontou, ou mesmo uma nostalgia espiritual por tempos em que a consciência parecia mais livre para viver sem compromisso com o Senhor. Esse olhar para trás enfraquece a fé e impede o avanço. 

A vida cristã, porém, exige outro tipo de postura. O discípulo de Cristo é chamado a caminhar olhando para frente, confiando na direção de Deus. O apóstolo Paulo de Tarso expressa essa atitude de maneira clara quando escreve: “Esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo” (Epístola aos Filipenses 3.13–14). Não se trata de negar o passado, mas de não permitir que ele domine o presente ou impeça o avanço na fé.

Do ponto de vista pastoral, essa narrativa nos convida a examinar o coração. Não basta caminhar com o povo de Deus ou participar da jornada exterior da fé. A pergunta mais profunda é: para onde está voltado o nosso coração? Há olhares que revelam onde realmente estão nossos afetos. Há lembranças que ainda exercem domínio sobre nós. E há saudades que, se não forem tratadas pela graça de Deus, podem se tornar obstáculos à perseverança.

A história da mulher de Ló nos ensina que a libertação oferecida por Deus exige decisão e desprendimento. Quando o Senhor nos chama para sair, é porque ele também nos convida a confiar que o futuro em suas mãos é infinitamente melhor do que qualquer coisa que ficou para trás. A fé olha para frente. A esperança caminha adiante. E a obediência não se detém para contemplar aquilo que Deus já julgou ou ordenou que fosse abandonado.

Por isso, a advertência de Cristo permanece viva para cada geração: lembrai-vos da mulher de Ló. Lembremo-nos de que um olhar aparentemente simples pode revelar um coração ainda preso ao passado. E lembremo-nos também de que a graça de Deus nos chama continuamente a seguir em frente, com os olhos fixos nele e com o coração completamente rendido à sua vontade.

sábado, 7 de março de 2026

A Mulher do Poço: Quando Jesus Encontra Quem Ninguém Quer Ver

Por Pr. Silas Figueira 

Texto base: João 4.1–30 

No calor do meio-dia, uma mulher caminha sozinha até o poço de Jacó para buscar água. Esse detalhe parece simples, mas revela muito. Naquela cultura, as mulheres costumavam ir ao poço pela manhã ou no final da tarde, em grupo. Ir ao meio-dia significava evitar as pessoas. Aquela mulher carregava mais do que um cântaro — carregava vergonha, rejeição e uma história marcada por relacionamentos quebrados.

Mas naquele dia algo extraordinário aconteceu: Jesus estava sentado junto ao poço esperando por ela.

Jesus inicia a conversa com um pedido simples: “Dá-me de beber.” Com isso, Ele quebra várias barreiras ao mesmo tempo. Ele fala com uma mulher, conversa com uma samaritana — algo incomum para um judeu — e se aproxima de alguém que era socialmente desprezada. O que aprendemos aqui é profundo: Jesus não evita pessoas feridas; Ele as procura.

Durante o diálogo, Jesus revela que pode oferecer “água viva”, uma água que sacia a sede da alma. Aquela mulher tinha tentado preencher seu vazio em vários relacionamentos, mas continuava sedenta. Quantas vezes também tentamos saciar o coração com coisas que não podem realmente nos satisfazer?

Somente Cristo pode preencher o vazio interior.

Quando Jesus expõe a história daquela mulher, Ele não faz isso para condená-la, mas para libertá-la. Ele não espera de nós perfeição, mas honestidade. Ele mostra que conhece toda a sua vida e, ainda assim, conversa com ela, oferece graça e revela algo extraordinário: Ele é o Messias.

A transformação é imediata. A mulher que antes evitava as pessoas agora corre para a cidade e anuncia:

“Venham ver um homem que me disse tudo o que tenho feito.” 

Ela deixa o cântaro no poço — símbolo de que algo mais importante aconteceu. Quem foi ao poço buscar água encontrou a Fonte da Vida.

Esse encontro nos ensina verdades poderosas:

Jesus nos encontra mesmo quando estamos isolados.

Ele conhece nossa história completamente.

Ele oferece uma vida nova que satisfaz a alma.

Quem encontra Jesus se torna testemunha do que Ele fez. 

A mulher que era rejeitada se tornou uma mensageira. Aquela que evitava pessoas agora conduzia muitos a Cristo. 

Reflexão:

Talvez existam áreas da sua vida onde você sente vergonha, fracasso ou sede espiritual. A boa notícia é que Jesus ainda se encontra com pessoas junto aos “poços” da vida. Ele continua oferecendo água viva para todos que desejam beber.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

O RICO E LÁZARO, UMA VERDADE MUITAS VEZES ESQUECIDA

Por Pr. Silas Figueira

A parábola do Rico e Lázaro (Lucas 16.19–31) é uma das falas mais penetrantes de Jesus Cristo registradas na Bíblia porque ela não apenas descreve dois destinos após a morte, mas revela como a eternidade ilumina o verdadeiro valor da vida presente. Jesus conta essa história para confrontar uma mentalidade comum: medir sucesso por aparência, conforto e posição social. Ao narrar a vida de um homem riquíssimo e de um pobre invisível aos olhos da sociedade, Ele mostra que aquilo que parece definitivo aqui é, na verdade, provisório — e aquilo que parece insignificante pode ter peso eterno.

O rico vive cercado de luxo, simbolizado por suas roupas de púrpura e linho finíssimo, tecidos caríssimos e associados à elite. Seus dias são marcados por banquetes e abundância contínua. Nada no texto sugere que ele tenha praticado crimes evidentes; o problema é mais profundo e silencioso. À porta de sua casa jazia Lázaro, um homem doente, faminto e vulnerável, desejando apenas as sobras que caíam da mesa. O contraste não é apenas econômico, mas espiritual. O rico possui tudo, mas não enxerga. Lázaro não possui nada, mas é conhecido por Deus. A parábola mostra que o pecado mais perigoso nem sempre é uma ação agressiva, e sim a indiferença confortável que se acostuma ao sofrimento alheio. É fazer da riqueza o seu Deus. 

Quando ambos morrem, a narrativa muda radicalmente de cenário. O que era invisível na terra torna-se visível na eternidade. Lázaro é consolado, e o rico experimenta angústia. Essa inversão não é apresentada como uma surpresa arbitrária, mas como revelação de uma realidade que já existia. A eternidade não cria novos valores; ela apenas torna permanentes os valores que foram escolhidos em vida. O que o rico cultivou foi uma existência centrada em si mesmo. O que Lázaro viveu foi dependência de Deus em meio à dor. Assim, a parábola não glorifica a pobreza nem condena a riqueza em si, mas expõe o coração humano quando confrontado com o próximo.

Um detalhe marcante é que Lázaro é nomeado, enquanto o rico permanece anônimo. Na cultura bíblica, o nome representa identidade e reconhecimento. O homem ignorado na terra é reconhecido na eternidade; o homem celebrado na terra é desconhecido no relato eterno. Essa inversão revela um princípio profundo: a verdadeira identidade não é construída pela posição social, mas pela relação com Deus.

O diálogo entre o rico e Abraão revela outra verdade essencial: há um “grande abismo” fixo entre os destinos. Essa imagem comunica a seriedade das escolhas feitas na vida presente. Não se trata de punição impulsiva, mas de consequência consolidada. A parábola ensina que a vida não é um rascunho que poderá ser reescrito depois; ela é o momento em que o coração se orienta definitivamente para Deus ou para si mesmo. A eternidade não oferece novas oportunidades de transformação porque a vida já foi o espaço da decisão.

Quando o rico pede que alguém volte para alertar seus irmãos, a resposta afirma que já existe revelação suficiente. A Palavra de Deus já aponta o caminho para arrependimento e transformação. O problema humano não é falta de informação espiritual, mas resistência interior. A parábola sugere que quem não se sensibiliza com a verdade revelada dificilmente será transformado por sinais extraordinários. A mudança começa quando o coração se abre para ouvir e obedecer.

A mensagem central emerge com clareza: o valor real da vida não é medido pelo que se possui, mas pelo que se ama; não pelo que se acumula, mas pelo que se torna. A eternidade revela que a vida humana é um tempo de formação do coração. Cada atitude de compaixão, cada escolha de justiça, cada gesto de amor possui peso que ultrapassa o presente. Da mesma forma, a indiferença repetida molda uma existência fechada em si mesma.

Pensando na nossa realidade, a parábola convida a olhar ao redor com sensibilidade espiritual. O ensino não é abstrato. Ele chama para uma vida em que fé e compaixão caminham juntas, em que o relacionamento com Deus se expressa no cuidado com pessoas reais. A eternidade não começa depois da morte; ela começa na direção que o coração assume agora.

No fim, o Rico e Lázaro não é apenas uma história sobre dois homens, mas um espelho para todo leitor. A pergunta silenciosa que permanece é: o que tem definido o valor da nossa vida — aquilo que passa ou aquilo que permanece? A parábola responde que somente a eternidade revela o verdadeiro valor, mas a vida presente é o lugar onde esse valor é formado.

domingo, 4 de janeiro de 2026

A MESA DO SENHOR, OU A MESA DOS DEMÔNIOS?

Pr. Cleber Montes Moreira

“Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios; não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios.” (1 Coríntios 10:21)

Ao navegar pela internet logo no início do ano, deparei-me com inúmeras notícias e postagens mostrando como pessoas e grupos religiosos passaram a virada do ano. Muitos repetiram o ritual de vestir branco e aguardar a chegada de 2026 à beira-mar. O que chama atenção é que, entre eles, estavam também pessoas que se dizem cristãs, conscientes ou não do significado dessa prática. Abandonaram o ajuntamento cristão e o culto ao Deus verdadeiro para iniciar o ano misturados àqueles que seguem outras crenças e adoram outros deuses.

Isso levanta uma pergunta que me inquieta profundamente: por que alguns preferem passar a virada do ano longe do ajuntamento da família de Deus? Essa escolha não é neutra. Ela revela mais do que uma simples preferência de lugar; expõe um afastamento da doutrina bíblica, da comunhão dos santos e, sobretudo, da centralidade de Deus na vida. Quando o cristão troca o culto por um ambiente que contradiz sua fé, ele precisa avaliar seu relacionamento com Deus à luz das Escrituras e arrepender-se urgentemente.

O costume de vestir branco no Réveillon, especialmente em ambientes litorâneos, é uma prática amplamente difundida no Brasil e possui raízes claras nas religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda. Historicamente, o uso do branco está associado à reverência a Oxalá, enquanto a ida à praia relaciona-se ao culto a Iemanjá, com oferendas feitas às águas em busca de proteção, paz e prosperidade. Para o cristão, porém, essa prática exige discernimento espiritual. A purificação, a paz e a esperança para um novo tempo não procedem de cores, roupas, datas ou rituais, mas da obra completa e suficiente de Cristo na cruz. “O sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado” (1 João 1:7). Quando símbolos e práticas religiosas alheias à fé bíblica são incorporados, ainda que sob o pretexto de tradição cultural, abre-se espaço para o perigoso sincretismo, que atribui a elementos da criação e a falsas divindades uma confiança que pertence exclusivamente ao Senhor.

Este texto não é um ataque à liberdade religiosa daqueles que seguem outras doutrinas. É, antes, um chamado à fidelidade dos que afirmam servir ao Deus da Bíblia. O Senhor declara: “Eu sou o SENHOR; este é o meu nome; e a minha glória não darei a outrem” (Isaías 42:8). Ele condena a vida dividida, pois “ninguém pode servir a dois senhores” (Mateus 6:24), e adverte que “a amizade do mundo é inimizade contra Deus” (Tiago 4:4). O Deus santo não aceita um coração dividido entre Ele e os ídolos, sejam eles explícitos ou disfarçados de costumes sociais.

Confesso que ficaria profundamente entristecido se um amigo que se diz cristão, ou mesmo uma ovelha sob cuidado pastoral, fosse visto atravessando a virada do ano praticando rituais que contradizem a fé bíblica. Da mesma forma, entristece-me ver aqueles que trocam o culto por ambientes marcados por embriaguez, linguagem torpe ou shows seculares onde o nome de Deus não é honrado. Essas escolhas não são meramente circunstanciais; elas revelam valores, prioridades e, em última instância, o caráter espiritual de cada um.

O apóstolo Paulo é claro e incisivo ao nos advertir: “Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios; não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios” (1 Coríntios 10:21). Ele afirma que tal postura provoca o Senhor ao ciúme e, em seguida, apela à consciência cristã: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm; todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam” (1 Coríntios 10:23). A pergunta que permanece é inevitável: suas escolhas edificam sua fé e glorificam a Deus?

Suas crenças, suas decisões e seu modo de viver glorificam o Deus verdadeiro ou acabam exaltando outros “deuses”? À luz da Palavra, cada cristão é chamado a examinar a si mesmo e a decidir, com temor e fidelidade, de qual mesa realmente participa. 

sábado, 1 de novembro de 2025

A SAUDAÇÃO DE TIAGO (Tg 1.1)

Por Pr Silas A. Figueira

Tiago, servo de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos que andam dispersas, saúde (Tg 1.1).



A epístola de Tiago pertence à categoria de escritos bíblicos chamados de epístolas gerais. Hebreus, Tiago, 1 Pedro, 2 Pedro, 1 João, 2 João, 3 João e Judas. Algumas dessas epístolas, porém, não têm destinatário; no caso de Hebreus e de 1 João, também falta o nome do autor. Tiago nos dá o seu nome e o nome daqueles a quem se refere e sua saudação.1      

Podemos destacar algumas lições importantes em sua apresentação:

Primeiro, Tiago se apresenta como servo de Deus. Tiago, servo de Deus... (v. 1a).

As cartas no primeiro século iniciavam geralmente com o nome do autor, seguido pelo nome do receptor e uma fórmula de saudação na mesma ordem que aparecem nesta carta. O autor identificou-se simplesmente como Tiago. Provavelmente, nenhuma outra explicação era necessária para os cristãos daquela época. Eles logo compreendiam tratar-se de Tiago de Jerusalém, o reconhecido líder da Igreja.2

Humildemente, Tiago se denomina “servo” (doulos, lit. “escravo”) enquanto Judas, além de se descrever como servo (doulos), acrescenta “irmão de Tiago”.3

Tiago é o único escritor do Novo Testamento que se descreve a si com o termo doulos (escravo) sem acrescentar nenhuma outra qualificação. Paulo se apresenta a si mesmo como servo de Jesus Cristo e como seu apóstolo (Rm 1.1; Fp 1.1). Mas Tiago não vai mais além de se chamar a si mesmo escravo de Deus e do Senhor Jesus Cristo.

Há, pelo menos, quatro implicações neste título.

1) Obediência absoluta. O escravo não reconhece outra lei à parte da palavra de seu amo ou senhor; não tem direitos próprios de nenhuma classe. É possessão absoluta de seu senhor e está ligado a este por uma total e indisputável obediência.

2) Humildade absoluta. É a palavra de um homem que não pensa em seus privilégios, mas em seus deveres; não em seus direitos, mas em suas obrigações. É um homem que perdeu sua própria identidade para servir a Deus. É um homem que literalmente se negou a si mesmo, que disse não a si para dizer sim a Deus.

3) Lealdade absoluta. É a atitude de um homem que não tem interesses próprios porque está plenamente entregue a Deus. O que faz, ele o faz para Deus. As conquistas e as preferências próprias não entram em seus cálculos. Sua lealdade é em relação a Deus.

4) Orgulho por ser escravo de Cristo. Longe de ser algo desonroso, este era o título com o qual eram conhecidos os grandes homens do Antigo Testamento. Ao tomar o título de doulos, Tiago se coloca na grandiosa sucessão daqueles que encontraram sua liberdade, sua paz e sua glória na perfeita submissão à vontade de Deus. A única grandeza a que o cristão pode aspirar é a grandeza de ser escravo de Deus.4

Elizabeth George enfatiza que:

[...] a palavra grega doulos (escravo, servo) refere-se a uma posição de obediência completa, humildade absoluta e lealdade inabalável. A obediência era a tarefa, a humildade, a posição, e a lealdade, o relacionamento que um senhor esperava de um escravo... Não há maior atributo para o crente, que ser conhecido como servo de Jesus, obediente, humilde e leal.5

O termo “escravo” quando era usado em relação a Deus, os leitores judeus compreendiam tratar-se de um adorador.6  

Segundo, Tiago se apresenta também como servo de Jesus Cristo. ...e do Senhor Jesus Cristo... (v. 1b).

Este é o único lugar no Novo Testamento onde um indivíduo é chamado de servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo. Alguns pensam que “Cristo” não é usado aqui como um título, sendo quase um nome próprio. Todavia, é provável que Tiago tenha em mente as duas qualificações de Jesus, para obter força teológica: Jesus é tanto o Messias prometido de Israel como o Senhor a quem se deve servir. É interessante que na única outra oportunidade em que Tiago se refere a Jesus, ele O descreve com os mesmos dois títulos (2.1).7

Fritz Grünzweig destaca que:

[...] Tiago é “servo do Senhor Jesus Cristo”. Não afirma que é o irmão do Senhor. Viu-o como ressuscitado. Conhece-o como Aquele que agora foi glorificado. Portanto, já não tem a mesma posição diante d’Ele como no passado, quando ambos cresceram juntos em Nazaré. Vemos aqui o que significa: “Não conhecemos mais a Cristo segundo a carne” (2Co 5.16). Impede-se a falsa familiaridade. Não devemos esquecer a magnitude e santidade de nosso Senhor em vista da sua proximidade e amor.8

Terceiro, Tiago escreve sua epístola a uma igreja perseguida. ...às doze tribos que andam dispersas, saúde (v. 1c).

Tiago 1.1 diz que “as doze tribos na dispersão” (gr. diáspora) são os destinatários (cf. 1Pe 1.1). Tiago dirige sua epístola ao povo de descendência judaica que vive fora de Israel, entre outras nações. São os judeus da Dispersão (Jo 7.35).9           

A “diáspora” judaica era um fenômeno bem conhecido desde o exílio assírio e babilônico, e no tempo de Tiago já havia comunidades judaicas em várias cidades do Mediterrâneo (Alexandria, Antioquia, Roma, etc.). Esses judeus, agora convertidos a Cristo, enfrentavam desafios específicos: perseguições tanto de autoridades judaicas quanto romanas, dificuldades econômicas e a tentação de se conformar com o mundo ao redor.

Esse termo grego dá a ideia de “espalhar sementes”. Quando os cristãos judeus foram dispersos na primeira onda de perseguição (At 8.1, 4), na verdade, o que ocorreu foi uma semeadura em diversos lugares, e muitas dessas sementes deram frutos (At 11.19ss).10

John MacArthur destaca que:

[...] além de exercer liderança na igreja de Jerusalém, Tiago também desempenhou um ministério mais abrangente. A expressão “doze tribos”, utilizada no Novo Testamento como referência à nação de Israel, remete à divisão ocorrida após o reinado de Salomão: dez tribos formaram o reino do norte e Judá e Benjamim constituíram o reino do sul. Com a queda do reino do norte e a deportação para a Assíria, parte do remanescente das tribos migrou para Judá, mantendo a representatividade das doze tribos. Embora a identidade tribal tenha se perdido após a destruição dos registros durante o domínio babilônico, as Escrituras afirmam que, no futuro, Deus restaurará a nação e confirmará a identidade de cada tribo (Is 11.12,13; Jr 3.18; 50.19; Ez 37; Ap 7.5-8).11

Parece provável que, embora Tiago tivesse como foco da sua atenção os judeus convertidos, estas palavras incluíam todo Israel espiritual, isto é, os cristãos em toda parte.12

Quarto, a saudação de Tiago. ...saúde (v. 1d).

“Saudações” ou “saúde”, traduz a palavra grega chairein que vem da mesma raiz de “alegria” (charan), que aparece logo no versículo seguinte. Ela enfatiza que os cristãos, pertencentes à família remida de Cristo, têm motivos especiais para se alegrar no relacionamento que têm mutualmente por causa dessa redenção.13

Fritz Grünzweig destaca que:

[...] o mensageiro de Jesus conhece e traz a razão da alegria, a grande oferta: o ser humano é aceito por Deus. Recebe a paz d’Ele. Torna-se filho d’Ele. Deus é bom para ele. Servindo a Ele, a vida humana se reveste de sentido. Ele confere participação na grande e convicta esperança. O crente pode participar eternamente daquilo que Deus é, tem e faz. Isso é evangelho, boa notícia, motivo de alegria.14

A palavra final traz um convite para enxergar a vida cristã com esperança, mesmo em meio a provações. Tiago vai desenvolver isso logo a seguir (1.2: “tende por motivo de grande alegria o passardes por várias provações”). Ou seja, a saudação já antecipa o tom da carta: fé viva, perseverança e alegria em Cristo.

Bibliografia:

1 – KISTEMAKER, Simon J. Comentário do Novo Testamento, Tiago e Epístolas de João. 1ª ed., São Paulo, Cultura Cristã, 2006, p. 39.

2 – HARPER, A. F. Comentário Bíblico Beacon, Hebreus a Apocalipse, Vol. 10. 1ª ed., Rio de Janeiro, CPAD, 2006, p. 152.

3 – SHEDD, Russell P., BIZERRA, Edmilson F. Uma Exposição de Tiago, A Sabedoria de Deus. 1ª ed., São Paulo, Shedd, 2010, p. 11.

4 – BARCLAY, William.  The Letter of James. [S.I.: s.n.], 1975, p. 43, 44.

5 – GEORGE, Elizabeth. Tiago: crescendo em sabedoria e fé. 1ª ed., São Paulo, Hagnos, 2004, p. 15.

6 – HARPER, A. F. Comentário Bíblico Beacon, Hebreus a Apocalipse, Vol. 10. 1ª ed., Rio de Janeiro, CPAD, 2006, p. 152.

7 – MOO, Douglas J. Tiago, Introdução e Comentário. 1ª ed., São Paulo, Vida Nova, 2011, p. 57.

8 – GRÜNZWEIG, Fritz. Cartas de Tiago, Pedro, João e Judas, Comentário Esperança. 1ª ed., Curitiba, Esperança, 2008, p. 27.

9 – KISTEMAKER, Simon J. Comentário do Novo Testamento, Tiago e Epístolas de João. 1ª ed., São Paulo, Cultura Cristã, 2006, p. 41.

10 – WIERSBE, Warren W. Novo Testamento 2, Comentário Bíblico Expositivo Vol. 6. Santo André, Geográfica, 2007, p. 431.

11 – MACARTHUR, John. Comentario del Nuevo Testamento, Santiago. 1ª ed., Michigan, Portavoz, 2018, p. 19.

12 – HARPER, A. F. Comentário Bíblico Beacon, Hebreus a Apocalipse, Vol. 10. 1ª ed., Rio de Janeiro, CPAD, 2006, p. 153.

13 – SHEDD, Russell P., BIZERRA, Edmilson F. Uma Exposição de Tiago, A Sabedoria de Deus. 1ª ed., São Paulo, Shedd, 2010, p. 10.

14 – GRÜNZWEIG, Fritz. Cartas de Tiago, Pedro, João e Judas, Comentário Esperança. 1ª ed., Curitiba, Esperança, 2008, p. 27.

            

sábado, 13 de setembro de 2025

A PARÁBOLA DAS DEZ MINAS - Lucas 19.11-27

Por Silas Figueira

Jesus contou Suas histórias a partir das experiências habituais da vida cotidiana do povo. Esta incrível história não é uma exceção. [1] Esta parábola é única entre as que Jesus relatou, porque é a única apoiada em parte num evento histórico. Conta-nos a respeito de um rei que saiu de viagem para receber um reino, e seus súditos fizeram tudo o que puderam para que não o fizesse. Quando Herodes o Grande morreu no ano 4 a.C. deixou seu reino dividido entre Herodes Antipas, Herodes Felipe e Arquelau. Antes de entrar em vigência a divisão tinha que ser ratificada pelos romanos que dominavam a Palestina. [2]

Arquelau, após falecimento de seu pai, Herodes o Grande, partiu em viagem por mar a Roma, tendo iniciado a jornada em Jericó, a fim de solicitar a César Augusto que fosse nomeado rei da Judeia em lugar de seu progenitor. [3] Arquelau recebeu por herança a Judéia, mas o povo o detestava, e enviou representantes para pedir que o reino não fosse dado a ele. No entanto, Arquelau já lhes dera boas razões para odiá-lo. Na primeira Páscoa após a sua ascensão, por exemplo, massacrara cerca de 3.000 dos seus súditos. Era um soberano completamente mau. O imperador, porém, confirmou-o no lugar de autoridade, embora lhe negasse o título de “rei” até que comprovasse ser digno dele (o que nunca fez). [4]

Arquelau criou o caos na Judeia, devido a isso, após dez anos de governo, os romanos o removeram do poder e foi obrigado a se exilar. Eles o substituíram por uma série de governadores, sendo Pilatos o quinto. Esse incidente com o qual todos os ouvintes de Jesus estavam familiarizados proporcionou uma experiência histórica para pavimentar o caminho para esta parábola. [5]

Quais as lições que podemos tirar deste episódio? 

1 – JESUS CORRIGE O CONCEITO EQUIVOCADO ACERCA DA NATUREZA DO SEU REINO (Lc 19.11).

A parábola fala sobre um homem nobre que se ausenta para tomar posse de um reino e depois voltar. Antes de partir, o nobre entrega uma mina, ou seja, cem dracmas (isto é, cerca de ½ quilo de prata, ou seja, o salário de 3 meses de um trabalhador braçal), a dez de seus servos, dando-lhes a ordem de negociar esses valores até sua volta. Na sua volta, ele recompensou os servos fiéis, porém repreendeu severamente o servo negligente, além de ordenar sumariamente a execução dos inimigos. [6] O motivo de nosso Senhor proferir esta parábola foi corrigir as falsas expectativas dos discípulos em referência ao reino de Cristo. Foi um anúncio profético de coisas presentes e futuras que deveriam suscitar pensamentos solenes na mente de todos os que professam ser crentes. [7]

Com isso em mente, podemos tirar algumas lições aqui.

Primeiro, Jesus não alimenta as falsas expectativas do povo (Lc 19.11c). Porquanto estava perto de Jerusalém, e cuidavam que logo se havia de manifestar o Reino de Deus. Este interesse aumentava à medida que Jesus se aproximava de Jerusalém. Havia uma excitação, uma atmosfera de expectativa, que finalmente explodiu em uma glorificação pública e em uma aclamação na entrada triunfal de Cristo. Mas a excitação se devia, quase que de forma generalizada, a uma noção equivocada – a crença universal, por parte daqueles que consideravam Jesus o Messias, de que o reino apareceria imediatamente. Era de se esperar que Jerusalém fosse o lugar onde o Messias estabeleceria o seu reino, e naturalmente muitos criam que a hora havia chegado. Jesus contou esta parábola para corrigir esta noção. [8]

Os apóstolos tinham sonhado com o privilégio de se sentar à direita e à esquerda de Jesus no seu reino, desfrutando de tranquilidade depois do seu trabalho árduo, e de honra depois do desprezo que lhes estava sendo direcionado, e se alegravam com este sonho; mas Cristo lhes diz algo que, se eles entendessem corretamente, os encheria de cuidados, preocupações, e pensamentos graves, em vez destas aspirações com as quais eles enchiam as suas mentes. [9]

Muitas das frustrações de muitos cristãos é esperar de Jesus o que Ele não disse. Muitas pessoas se apoiam em promessas feitas por homens e não consultam as Escrituras para confirmar o que está sendo falado, ou, se o que está foi falado está dentro do contexto bíblico. Como dizem: “texto fora de contexto é pretexto para heresia”.

A alguns anos eu ouvi um pregador ministrar um sermão. Ao término de sua exposição eu o chamei à parte e lhe falei que havia entendido muito bem o que ele havia falado, que a palavra dele era bíblica, mas que os textos que ele havia usado como referência estavam fora de contexto. Ele não gostou da minha correção, mas ele era membro de minha igreja e eu não podia deixar de corrigi-lo.

Segundo, Jesus estava indo para Jerusalém para ser coroado, mas não como rei. Lucas preparou-nos bem para essa história, que nos introduz ao caráter “final” da entrada de Jesus em Jerusalém e à consumação definitiva de sua vida na crucificação, ressurreição e ascensão, diz Eugene Peterson. [10]

Champlin diz que a morte de Jesus sugeria, igualmente, a necessidade da segunda vinda de Cristo, pelo que temos aqui este paralelo, que serve para descrever as condições do período do intervalo até o retorno final do Rei, o qual regressará depois de haver recebido o poder de reinar. [11]

John MacArthur é enfático em afirmar que o Senhor Jesus não veio para derrotar os romanos e estabelecer o reino messiânico terreno como o povo judeu esperava. Também não era seu objetivo realizar uma reforma social como os liberais acreditam erroneamente. Se esse era seu objetivo, ele falhou completamente em alcançá-lo. O Senhor veio para oferecer a salvação a todos os que confessam sua perdição pecaminosa, se arrependem e creem em Jesus Cristo como seu único Salvador. [12] Jesus veio estabelecer um reino espiritual. Como disse Jesus: “porque eis que o reino de Deus está entre vós” (Lc 17.21).

Jesus também ressalta a importância de Jericó como ponto de entrada para “tomar posse da terra prometida”, diz Eugene Peterson. Tanto Josué (como o nome “Jesus” é escrito e pronunciado em hebraico), mil anos antes, quanto Jesus, agora, usam Jericó para fornecer uma demonstração visível da glória de Deus e da iminência da salvação (a queda dos muros no caso de Josué, devolvendo a visão a Bartimeu no caso de Jesus). E cada um deles resgatou uma alma “perdida” em Jericó – Raabe no caso de Josué e Zaqueu no caso de Jesus. [13]

2 – O ACERTO DE CONTAS COM O REI (Lc 19.11-27).  

Enquanto os que estavam no lar de Zaqueu estão ouvindo Jesus apresentar-se como aquele que viera buscar e salvar os perdidos, ele prosseguiu contando uma parábola. Ele fez isso com o fim de corrigir certas ideias danosas que já se difundiam; especialmente a noção de que agora o reino de Deus estava para aparecer de repente, o reino de esplendor externo, terreno e judaico. [14]

Essa parábola tem certa relação com uma parábola semelhante encontrada em Mateus 25.14-30. Na versão de Mateus um homem dá a seus servos cinco talentos, dois talentos e um talento (de ouro ou de prata). Os servos que receberam cinco e dois talentos, respectivamente, dobraram seus investimentos, mas o que recebera um talento escondeu-o no chão. Na versão de Lucas, um homem nobre viaja porque vai tomar para si um reino. Antes de partir, confia a dez servos seus o equivalente a dez minas para que com elas negociassem. Estando esse homem ausente, alguns de seus súditos enviam embaixadores que tentam impedir que ele reine. Mas ele volta depois de ter tomado o reino e convoca os seus servos a fim de verificar o que cada um tinha ganhado, negociando. [15]

Podemos destacar algumas lições aqui.

Primeiro, os servos tinham uma tarefa a cumprir antes da volta do seu senhor (Lc 12,13). O homem nobre fez os planos para seus negócios serem continuados durante sua ausência, ao confiar dinheiros a dez servos seus (não escravos, pois o escravo não teria a autoridade necessária para as transações comerciais em vista). Mina translitera mna, uma moeda grega com o valor de cem dracmas (a dracma era o salário de um trabalhador por um dia de serviço). [16]

A inferência aqui é que Cristo não iria estabelecer um reino imediatamente, mas iria embora para o céu a fim de assegurar um reino. Mais tarde, Ele retornaria para aqueles que estivessem prontos para ser cidadãos do seu Reino. [17] John C. Ryle nesta mesma linha de pensamento destaca que quando nosso Senhor deixou o mundo, ascendeu ao céu como um vencedor, levando “cativo o cativeiro” (Ef 4.8). Agora Ele se encontra no céu, assentado à direita de Deus, realizando a obra de um Sumo Sacerdote em favor de todos os crentes e sempre intercedendo por eles. Mas não ficará ali para sempre; o Senhor Jesus deixará o Santo dos Santos para abençoar seu povo. Virá novamente com poder e glória para sujeitar todos os inimigos debaixo de seus pés e estabelecer seu reino. [18]

Na aplicação, esta é uma chamada para viver uma vida que honre o nobre ausente (Cristo), que irá prestar contas com as pessoas responsáveis por suas ações quando Ele voltar. [19] Por isso, devemos ter em mente que nossos dons e habilidades são diferentes, mas nosso trabalho é o mesmo: compartilhar a Palavra de Deus, de modo que se multiplique e se propague por todo o mundo (1Ts 1.8; 2 Ts 3.1). [20]

Como disse o apóstolo Paulo:

“Porque, se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois me é imposta essa obrigação; e ai de mim, se não anunciar o evangelho!”  (1Co 9.16).

Segundo, Deus nos quer, mas o homem não quer Deus (Lc 19.14). Como falamos anteriormente, este nobre, entretanto, enfrenta a hostilidade de seus concidadãos que o odiavam. Logo que ele partiu, seus inimigos enviaram após ele uma embaixada, dizendo que não queriam se submeter ao seu reinado (Lc 19.14). Essa parábola de Jesus tinha uma estreita conexão com um fato histórico muito conhecido de seus ouvintes, como já comentamos.

Eugene Peterson destaca que:

[...] a linguagem de Jesus é proferida em mundo no qual Deus nos quer. Somos criados por Deus para Deus. Separamo-nos de Deus, e Deus está decidido a nos recuperar. Deus nos quer como o amado quer sua amada. Insistentemente, inflexivelmente, Deus busca um relacionamento restaurado conosco. Deus nos busca. Deus está buscando e esteve nos buscando antes de termos qualquer ideia de buscar a Deus.

Mas – nós não queremos Deus. A prova bem documentada é que queremos ser nossos próprios deuses. As provas vão se empilhando uma sobre as outras em cada continente e civilização, cada século e cada religião. São irrefutáveis. As provas são plenas e convincentemente confirmadas em nossas escrituras e documentadas em cada uma de nossas vidas. Queremos ser nossos próprios deuses. A Serpente prometeu que lograríamos esse tanto – “sereis como Deus” (Gn 3.5) –, e nós acreditamos desde esse momento. No final das contas, mostramos ser muito bons nessa insistência. [21] 

Terceiro, a recompensa dos servos fiéis na volta de seu senhor (Lc 19.15-19). A tentativa de impedir que o nobre recebesse seu reino fracassou. Assim também toda tentativa de frustrar os planos do Filho do homem fracassará. Ele sobe ao céu e recebe seu reino, como já se indicou. O regresso do nobre e sua reunião com seus servos simbolizam a segunda vinda gloriosa de Cristo quando ele demandará de seus servos que os mesmos prestem contas do modo como eles trataram o evangelho; e nesse caso, com os dons e as oportunidades de serviço que foram postos à sua disposição. [22]

Então, o senhor volta e chama os servos para uma prestação de contas. A título de exemplo, chamou dois servos para se apresentarem. Em se tratando de dar testemunho, todos os cristãos começam no mesmo nível, de modo que a recompensa é proporcional à fidelidade e ao que cada um realiza. Os servos fiéis foram recompensados, sendo nomeados governantes de várias cidades. A recompensa pelo trabalho fiel é sempre... mais trabalho! Mas que grande honra o senhor ter confiado a esses servos o governo de tantas cidades! [23]

Matthew Henry destaca que aqueles que fazem o que é bom, receberão elogios da mesma forma. Aja bem, e Cristo irá lhe dizer: Bem está; e, se Ele disser Bem está, não importa se alguém disser outra coisa. [24] Aqui está a diferença quando realizamos a obra de Cristo. Se fazemos para o Senhor, louvamos o Seu nome e seremos exaltados por Ele. Se fazemos para nós mesmos, é puro egocentrismo. Mas se fazemos para os outros verem, queremos a glória que seria de Jesus. Isso é idolatria.

Quarto, a punição dos servos infiéis na volta de seu senhor (Lc 19.20-26). A história relata o acerto de contas com apenas três dos dez servos. Os outros sete não são importantes para o tema da parábola. E no acerto de contas com este terceiro servo que encontramos o verdadeiro significado e propósito da história. [24]

O terceiro servo, sendo infiel, se apresentou e fez um relatório negativo. Aqui a conservação inativa do dinheiro é derivada do temor do servo. As palavras “eis aqui a tua mina” estão no começo de tudo. Com a devolução da propriedade ao patrão ele combina a confissão de que guardou a mina em um lenço. Sua desculpa é hipócrita pelo fato de que, ao invés de admitir sua preguiça, alega o temor diante da dureza de seu patrão. Aquilo que o servo preguiçoso apresenta em sua defesa abre caminho justamente para sua condenação. [25]

Se, de fato, ele fosse coerente com suas palavras, não teria guardado o dinheiro do seu senhor, mas teria, no mínimo, colocado esses valores no banco para render juros. [26]

Diante desta negligência a ordem do nobre foi incisa e imediata: Tirai-lhe a mina e dai-a ao que tem as dez (Lc 19.24). Diante da ponderação de que este já tinha dez minas, o senhor respondeu: “A todo o que tem dar-se-lhe-á; mas o que não tem, até o que tem lhe será tirado” (Lc 19.26). Não há espaço para negligência no reino de Deus. A neutralidade e a omissão são ofensas ao Senhor e prejuízos à sua causa. [27] Na vida cristã não há tal coisa como estar quietos. Ou obtemos mais ou perdemos o que tínhamos. Ou avançamos a maiores alturas ou retrocedemos cada dia. [28]

O patrão – que agora retorna como rei –, elogiou os dois primeiros empregados e, com muita veemência, dispensou o terceiro, o minimalista que não corre riscos, diz Eugene Peterson. [29]

Wiersbe destaca que um princípio fundamental da fé cristã é que as oportunidades perdidas representam recompensas perdidas e, possivelmente, a perda do privilégio de servir. Se não vamos usar os dons dados por Deus de acordo com sua orientação, para que tê-los? Outra pessoa poderia fazer melhor uso dos dons para a glória de Deus (cf. Mt 13.12 e Lc 8.18). E continua, o servo foi infiel porque seu coração não estava em ordem com seu senhor. Ele considerava seu senhor um homem severo, exigente e injusto. Não o amava; antes, tinha medo dele e receava lhe desagradar. [30]

Quinto, a severa punição dos inimigos na volta do senhor (Lc 19.14,27). Na parábola, todos foram julgados, mas somente os inimigos foram efetivamente castigados. A sua execução pode referir-se em análise final à destruição de Jerusalém. Por trás desta história está a ideia solene de que a vinda de Jesus é um teste para todo homem, e força todo homem a tomar uma grave decisão. [31]

John MacArthur destaca que ao contrário do relato histórico de Arquelau, contudo, nada na história indica que o nobre deu aos seus cidadãos qualquer causa para odiá-lo. Isso ilustra o fato de que Jesus era odiado sem causa (Jo 15.25; Sl 69.4). A atitude do povo judeu em direção Arquelau era razoável; sua atitude para com Jesus era uma blasfêmia. [32]

John C. Ryle tem razão quando diz que virá o dia em que o Senhor Jesus julgará todo o seu povo e recompensará a cada um de acordo com suas obras. O curso deste mundo não permanecerá para sempre no estado em que se encontra agora. Desordem, confusão, falsa confissão de fé e pecados impunes não permearão sempre a face da terra. O grande trono branco será estabelecido; e sobre ele se assentará o Juiz de todos. Os mortos ressurgirão de seus sepulcros. Os vivos serão todos convocados ao tribunal. Os livros serão abertos. Grandes e pequenos, ricos e pobres, nobres e simples – todos finalmente prestarão contas a Deus e receberão a sentença eterna. [33]

CONCLUSÃO 

Quero concluir com as palavras de Wiersbe que diz que Jesus estava perto de Jerusalém e, em poucos dias, ouviria a multidão gritar: “Não temos rei, senão César!” (Jo 19.15). Em outras palavras: “Não queremos que este reine sobre nós”.

Deus foi benevolente com Israel e concedeu à nação quase quarenta anos de graça para se arrepender antes de lhe sobrevir o julgamento (Lc 19.41-44). No entanto, devemos ver aqui uma advertência a todos os que rejeitam Jesus Cristo – quer judeus quer gentios –, pois durante esse tempo em que está no céu, Jesus Cristo está chamando as pessoas de toda a Terra para se arrependerem e se sujeitarem a Ele. [34]

Pense nisso!

Bibliografia:

1 – MacArthur, John. Comentário do Novo Testamento, Mateus a Apocalipse, Lucas, p. 2890.

2 – Barclay, William. Comentário do Novo Testamento, Lucas, p. 205.

3 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, Lucas, Vol. 2, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2005, p. 185.

4 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 257.

5 – MacArthur, John. Comentário do Novo Testamento, Mateus a Apocalipse, Lucas, p. 2890.

6 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 558.

7 – Ryle, J. C. Meditações no Evangelho de Lucas, Ed. FIEL, São José dos Campos, SP, 2002, p. 306.

8 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 471.

9 – Henry, Matthew. Comentário Bíblico Novo Testamento Mateus a João, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2008, p. 690.

10 – Peterson, Eugene. A Linguagem de Deus, Ed. Mundo Cristão, São Paulo, SP, 2011, p. 163.

11 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, Lucas, Vol. 2, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2005, p. 185.

12 – MacArthur, John. Comentário do Novo Testamento, Mateus a Apocalipse, Lucas, p. 2891.

13 – Peterson, Eugene. A Linguagem de Deus, Ed. Mundo Cristão, São Paulo, SP, 2011, p. 164.

14 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, Ed. Cultura Cristã, São Paulo, SP, 2003, p. 430.

15 – Evans, Craig A. O Novo Comentário Bíblico Contemporâneo, Lucas, Ed. Vida, São Paulo, SP, 1996, p. 321.

16 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 258.

17 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 472.

18 – Ryle, J. C. Meditações no Evangelho de Lucas, Ed. FIEL, São José dos Campos, SP, 2002, p. 306.

19 – MacArthur, John. Comentário do Novo Testamento, Mateus a Apocalipse, Lucas, p. 2891.

20 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 328.

21 – Peterson, Eugene. A Linguagem de Deus, Ed. Mundo Cristão, São Paulo, SP, 2011, p. 165, 166.

22 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, Ed. Cultura Cristã, São Paulo, SP, 2003, p. 433.

23 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 328.

24 – Henry, Matthew. Comentário Bíblico Novo Testamento Mateus a João, Ed. CPAD, Rio de Janei-ro, RJ, 2008, p. 691.

24 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 472.

25 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005, p. 389.

26 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 560.

27 – Ibidem, 560.

28 – Barclay, William. Comentário do Novo Testamento, Lucas, p. 207.

29 – Peterson, Eugene. A Linguagem de Deus, Ed. Mundo Cristão, São Paulo, SP, 2011, p. 169.

30 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 329.

31 – Ash, Anthony Lee. O Evangelho Segundo Lucas, Ed. Vida Cristã, São Paulo, SP, 1980, p. 273.

32 – MacArthur, John. Comentário do Novo Testamento, Mateus a Apocalipse, Lucas, p. 2892.

33 – Ryle, J. C. Meditações no Evangelho de Lucas, Ed. FIEL, São José dos Campos, SP, 2002, p. 307.

34 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 329.