quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Amuletos e Sincretismo na Igreja


Ir. Samuel Balbino

“Visto que andamos por fé e não pelo que vemos” (2ª Coríntios 5.7).


Incrivelmente essas palavras do apóstolo Paulo são negligenciadas pela maioria da cristandade hoje. Aqui o apóstolo nos exorta que a fé está acima de coisas materiais, seja corpo, seja qualquer coisa visível. Sem dúvida o sentido da visão é muito influente na vida humana, mas às vezes ele “cega” os nossos olhos espirituais para enxergar qual é de fato a vontade de Deus.

Toda vez que um cristão se vale de um artifício físico imaginando que através dele irá conseguir alguma aproximação ou benção de Deus, ele vai contra essas palavras do apóstolo, e nega um princípio básico do cristianismo: A fé.

Durante a reforma, Lutero e outros reformadores protestaram contra o abuso do sistema Romano, citamos, por exemplo, as indulgências (espécie de perdão dos pecados em troca de uma quantia em dinheiro). Mas, também, havia outro tipo de excesso, o grande comércio das relíquias sagradas. Como a idolatria é o forte da Igreja Católica, então, muitas lendas, estórias e fantasias eram criadas e repassadas ao povo como sendo verdade. As relíquias eram, segundo eles, objetos sagrados e que teriam poder para servirem como “pontos de contato” entre os cristãos e Deus. As pessoas peregrinavam, exatamente como hoje, para os lugares onde guardavam essas relíquias e para tocá-las e alcançarem “graças”, mas não sem antes depositarem alguma quantia lá. Algumas das relíquias mais famosas eram, recipiente com leite do seio de Maria mãe de Jesus, um espinho da coroa de Cristo, ossos dos apóstolos, fragmentos de vestes de personagens bíblicos e por ai vai. Na verdade tudo era uma grande jogada, pois nenhum desses objetos, por mais que (teoricamente) tenham pertencido a algum integrante das histórias sagradas, isso não lhes confere poder algum, seriam apenas objetos como outro qualquer.

Por acreditarem nessas relíquias as pessoas se distanciavam de Deus, deixavam de colocar a sua fé no criador, para colocá-la em objetos. Alguns argumentam que tais objetos “ajudam” a direcionar a fé, mas pelo contrário, desvia e corrompe.

Vinda a Reforma, vinda a luz, foi anunciado que “SÓ LA FIDIE” (só a fé) e “SOLO CRISTO” (somente Cristo). As relíquias perderam valor e prestígio, e o crente foi ensinado a colocar sua crença unicamente no poder de Deus. 493 anos depois, o protestantismo retrocede violentamente. Ao surgirem os movimentos chamados de “carismáticos”, isto é, que usam os dons (carismas), voltou a se colocar o poder de Deus em objetos. O que nós vemos hoje é um retrato repaginado, modernizado das práticas esdrúxulas do papado medieval. Existem “igrejas” onde você pode adquirir uma rosa ungida para “absolver” as maldiçoes que possam existir em sua casa, ou se preferir você pode pedir ao “pastor” que lhe dê um vidrinho com azeite de Israel para ungir seu comércio a fim de que ele prospere, melhor ainda, receba um pouco do sangue de Jesus (suco de uvas) em celofane e passe nos umbrais da porta da sua casa para que o anjo da morte não passe por ela, também pode-se obter um pouco de enxofre pra colocar nos cantos da casa e assim varrer os encostos que estiverem por lá, leve uma peça de roupa de um ente querido seu que está nas drogas ou no alcoolismo, entregue ao “pastor”, mas um detalhe, as roupas têm que ir dadas sete nós, para que lá o tal “pastor” desate-os. Não, eu estou falando de “igrejas” e não de centros de Umbanda, por mais que pareça, essas práticas estão dentro de “igrejas”.

O que podemos fazer? Precisamos de uma nova Reforma! Precisamos de novos Luteros! A Bíblia não oferece respaldo para nenhuma dessas práticas, ela reivindica pureza e simplicidade em Cristo (2ª Co 11.3).

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A liberdade que não se tem



Por Jorge Fernandes Isah


Não sei porque, cargas d'água, decidi fazer este pequeno texto sobre o determinismo. Espero ainda realizá-lo de forma ampla, explicativa, e que possa eliminar as dúvida dos que questionam essa doutrina. Este é apenas um resumo mal-acabado do que penso e, por isso, caso esqueça-me, reitero que o determinismo bíblico é plena e claramente verdadeiro, lógico e racional. E de que não tem nada a ver com o fatalismo filosófico ou de outras cosmovisões, como alguns insistem e não se cansam de afirmar, tal qual o operador de máquinas aperta porcas e parafusos sem ferramentas, porcas ou parafusos... atarrachando o vento.

Antecipo, primeiramente, o meu conceito de determinismo, como sendo todas as coisas, materiais e espirituais, seja a natureza, atos, vontade, pensamentos, etc, subordinados ao eterno decreto de Deus. Em linhas gerais, toda a criação está sujeita à vontade decretiva e providente de Deus. De tal forma, que se uma folha cair, é porque Deus determinou que caísse. Se não, é porque Deus determinou que não caísse. De tal forma, que se escolher um sorvete de laranja ao invés de um sorvete de coco, é porque Deus determinou até mesmo essa escolha. Seja nos eventos complexos ou nos mais insignificantes, eles somente acontecem pela vontade divina.

Sou o que se pode alcunhar de determinista absoluto ou radical; porque, por mais que leia a Escritura e raciocine sobre inúmeras questões levantadas em suas páginas, não vejo maneiras do homem se desvencilhar do controle divino; não há a menor hipótese do homem ser livre de Deus, ao ponto de fazer qualquer coisa sem que o Todo-Poderoso tivesse pensando e decidido previamente que aconteceria. Para muitos, posso ser taxado de simplista ou reducionista, mas o fato é que o controle absoluto de Deus sobre todas as coisas em nada retira de mim a responsabilidade por minhas decisões, as quais são minhas, realizadas pela minha vontade, de maneira que se não as quisesse, não aconteceriam. Porém [e há um grande porém], se Deus não as tivesse decretado, eu jamais as quereria e realizaria.

No decreto eterno encontramos a descrição de todos os eventos acontecidos, que estão a acontecer, e que acontecerão na história, os quais não podem ser anulados, revogados ou transformados, pois, infalivelmente, Deus não somente os planejou mas também sustenta-os em todas as suas nuances, detalhes, essência e realização; e, inexoravelmente, cumprir-se-ão segundo a sua vontade; como estabeleceu na eternidade, antes da fundação do mundo.

Logo, qualquer conceito de liberdade, livre-agência ou compatibilidade entre Deus e o homem é somente aparente, não existindo de fato.

Como sugestão à reflexão, a história do Faraó e o endurecimento do seu coração por Deus é o exemplo mais emblemático do tipo de determinismo a que me refiro. Ainda mais emblemáticas são as mais de sessenta profecias sobre Cristo, apenas na crucificação. E elas estavam intimimamente ligadas às ações e pensamentos humanos. Todos infalivelmente decretados e pré-ordenados sem que nenhum dos personagens envolvidos pudessem fazer o que não fizeram, ou estivessem em condição de realizar algo à margem ou alheio ao que Deus determinara. Os acontecimentos estão intrisecamente ligados à vontade divina ao ponto em que, se apenas um deles não acontecesse conforme estabelecido eternamente, a vontade divina não se cumpriria, sequer existiria como vontade soberana, e uma cadeia de fatos surpreendentes trariam desordem e caos ao mundo, e teríamos fatos imprevisíveis, acontecendo incontroláveis, significando o que muitos sequer imaginam: a indeterminação das coisas e a quebra da ordem, culminando na não-soberania de Deus. Por isso, as profecias reveladas séculos antes se cumpriram: as suas vontades estavam em completa sujeição à vontade divina, indicando que partiram da mente onisciente de Deus, e se realizaram pelo seu onipotente poder de fazer tudo o que lhe apraz.

Da mesma forma, pergunto: como ficam passagens em que Deus diz cegar o homem? Para que vendo não veja, ouvindo não ouça, e não se arrependa? Como explicar o que o Senhor disse a respeito de Betsaida e Corazim? De que "se em Tiro e em Sidom fossem feitos os prodígios que em vós se fizeram, há muito que se teriam arrependido, com saco e com cinza" [Mt 11.21]? Ora, se em Tiro e Sidom Jesus realizasse os milagres que fizera em Corazim e Betsaida, aqueles se converteriam e, portanto, o que aconteceu é que não houve pregação naquelas regiões, Cristo não fez milagres por lá, e eles não puderam se converter, porque não estava determinado que houvesse conversões entre eles. Cristo não fez milagres mesmo sabendo que, caso vissem, se converteriam; ao passo que preferiu pregar e operar milagres em Betsaida e Corazim, sabendo que não se converteriam ainda que vissem e ouvissem. Isso não pode ser somente presciência, mas o poder de Deus de condenar tanto uma como outra cidade.

O fato é que por onde Cristo não operou milagres capazes de levá-los à conversão, mesmo considerando que eles teriam olhos para ver, nada aconteceu porque esta foi a sua vontade; e nos locais onde operou milagres, cegou-lhes os olhos a fim de não verem, fechou-lhes os ouvidos a fim de não ouvirem, para que não se convertessem. Nenhum homem irá ao inferno sem que Deus queira. Isso é fato. E nenhum homem será salvo, livrando-se do inferno sem que Deus queira. Novamente, fato.

Outro fato, inquestionável, é que somos livres, se assim faz-nos sentir melhor. Contudo, a nossa liberdade está acorrentada à vontade e aos desígnios divinos, aos santos, perfeitos e eternos desígnios divinos, que até mesmo são capazes de levar à crença em... algum tipo de liberdade, ou qualquer outra coisa que Deus queira que acreditemos... e que ele nos dá acreditar que temos.

Fonte: KÁLAMOS

Soldados do Pecado


Por Daniel Clós César

Por que tanta gente defende o pecado? Por que tantos defendem as obras do maligno na igreja? Por que tantos fecham os olhos para Palavra e entregam seus corações a falsos profetas e pastores devoradores de ovelhas?

Não são poucos os leitores deste e de outros blogs apologéticos que militam nas frentes do anjo caído. Não são poucos os que desconhecem a Palavra do Senhor de Toda Glória mas conhecem todas as magias e poções dos feiticeiros do mundo "gospel".

Eu mesmo pretendo responder as perguntas que fiz no início deste post. Não que eu tenha uma resposta definitiva. Não mesmo. Mas a Palavra de Deus me dá uma clara orientação de por onde devo caminhar e de como evitar isso.

Certamente esses mesmos servos das trevas iram afirmar que sou soberbo e que estou me declarando mais santo que eles. Tudo bem... é aceitável isso. Mas a questão poderia ser compreendida da seguinte forma. Estou eu lutando contra aquilo que diz: "louvem a Deus" ou contra aquilo que diz: "Dêem glória a este/a homem/mulher?"

Temo todos os dias por Aquele que pode matar a minha alma. Seu temor em meu coração é a maior prova do Seu amor por mim. Quanto aos que temem os homens que lhe podem tirar a vida, ou menos ainda, a "benção", a dignidade, a oportunidade... a vocês não há nada senão dor e sofrimento eterno. Pois dão glórias aos homens e não glórias a Deus (João 12.43).

Por que tantos defendem o pecado? Entendo que esses ainda não foram libertos (alguma objeção?). Você só irá defender aquilo que crê como verdade. Crê como sendo justo, reto e de boa aparência. Você defenderá a todo custo aquilo que é seu... sua esposa, filhos, pais... ainda que não sejam propriedades suas, você os tem no mais alto valor humano... você dará tudo para defender o pecado se você ainda é escravo dele. Se ele ainda controla suas ações... você dará a vida por ele... e muitos a dão.

Não estou afirmando que o servo de Deus está livre de pecar. Mas ele é livre do pecado. Minha afirmação é pela Palavra e tão somente nela: "...que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos; Quem morreu está justificado do pecado" (Rm 6.6-7). Não renovados pela Palavra vivem sob o domínio de satanás, ainda que freqüentem igrejas, ainda que ofertem e entoem louvores... são servos das trevas e nada compartilham da luz... senão um espaço físico, tão corruptível quanto a própria carne.

Por que tantos defendem as obras do maligno na igreja? Não são capazes de ver que igreja não é sinônimo de Igreja. Entendem "ajuntamento de santos" como sinônimo de "ecumenismo religioso". Esquecem o conselho do salmista: "Não se assente à roda de escarnecedores". Em seus argumentos vazios e em sua teologia pútrida afirmam: Cristo era amigo de prostitutas. Mostre-me pagão, onde um único versículo da Bíblia afirma tal heresia?

Mas ele comia com pecadores! (Mc 2.16) Exclamam. Ora, existe alguém sem pecados? Não pecaram todos e destituídos foram da Glória de Deus? (Rm 3.23) Como então Jesus poderia comer com santos? E a mulher pecadora que ungiu os pés de Jesus? Onde na Bíblia afirma que ela era prostituta. E se fosse, onde afirma que ela continuou a se prostituir e ainda assim era amiga de Cristo.

Esse é o motivo de porque tantos fecham os olhos para a Palavra e ouvem apenas falsos ensinadores, eles pregam aquilo que lhes apraz e não aquilo que realmente alimenta. Eu nunca teria deixado de ser um mentiroso e adúltero se acreditasse que Deus seria amigo de um mentiroso e adúltero... Ele nunca será... isso ofende Sua natureza que é santa... é por isso que ele me transformou. É por este motivo que a todos os quanto o recebem ele os transforma.

Mas poucos desejam serem transformados. A igreja pós-moderna lhes oferece um Deus cambiável. Um Deus que se adapta ao homem.

É por este motivo que tantos enchem as fileiras de satanás dentro de denominações ditas evangélicas. Os maiores inimigos da cruz não estão fora das congregações, mas dentro delas. Como o próprio apóstolo Paulo escreveu aos filipenses "Pois muitos andam entre nós, dos quais, repetidas vezes, eu vos dizia e, agora, vos digo, até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo." (3.18)

Os ímpios olham para o evangelicalismo e vêem uma única massa uniforme. Não distinguem os que servem a Deus dos que cultuam Mamon. Não diferenciam os que aplicam-se à Palavra aos que vivem de magias e fórmulas de salvação e cura... no entanto dentro da igreja trava-se uma grande batalha. Daqueles que desejam servir a Deus daqueles que desejam servir a si mesmos.

Lamentável é saber que esses últimos tem dia após dia ganho terreno. Pastores em troca de algumas moedas de prata preferem esse tipo de seguidor... falsos profetas sabem que é nesse meio que se tornarão proeminentes.

Mas minha esperança é o Senhor. Ele não permitirá que aqueles que buscam a Sua face se cansem e desistam da batalha. Pois ainda que difícil seja o caminhar, a vitória já foi conquistada... Não por mim... nem por nenhum de nós... mas por aquele que viveu sem pecados

"Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no SENHOR, exulto no Deus da minha salvação."

Habacuque 3.17-18

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Esoterismo evangélico ou batalha espiritual?


Por João A. de Souza Filho

Os evangélicos fazem batalha espiritual usando métodos esotéricos quando abandonam os princípios da fé e utilizam elementos da mística do povo. Já ouvi alguém afirmar que os elementos místicos que alguns usam em religiões de ocultismo pertencem a igreja e que foram roubadas de nós. Assim, despejar sal grosso numa esquina, não deveria ser direito deles, mas da igreja. Ungir com óleo uma rua, cidade ou país é direito da igreja que foi roubado por eles. Marcar os cruzamentos como sendo de Jesus nos bairros é direito nosso. Usar certos elementos para “ponto de contato” é direito da igreja e não do ocultismo. Em que baseiam tais suposições? Tomam como base algumas ocorrências do passado, especialmente do AT.

Eliseu não tomou um vaso novo? Não usou sal para purificar as águas de Jericó? Por que não usar uma rosa “ungida”, um copo de água e óleo especial “ungido”? Acredite, mas até os incensos voltaram a fazer parte de alguns grupos pentecostais. Os pentecostais clássicos – entre os quais me incluo – costumam criticar estas práticas, esquecendo que também, por vezes, concedem poder a certos elementos como óleo e o pão e o vinho da ceia. Sim, porque “consagram” o óleo usado para unção e queimam ou enterram o que sobra dos elementos da ceia depois de consagrados. Considerar o pão e o vinho com poderes especiais também é uma prática esotérica.

Por haver no AT testamento uma orientação sobre os ingredientes do óleo da unção e do incenso, alguns crentes passaram a crer que o verdadeiro óleo da unção tem de ser de oliva e, se possível, importado de Israel, como se dele emanasse ainda mais poder. Mas, convém afirmar que esses elementos, especialmente o óleo são apenas figuras ou sombras da verdadeira unção. Assim, quando se unge com óleo o poder não está no óleo, mas no Nome de Jesus e na ação do Espírito Santo. Serve, portanto, qualquer óleo. Alguns irmãos trazem água do rio Jordão quando vão a Israel, como se aquela água tivesse em si mesma algum poder. As águas do Jordão estão tão poluídas como qualquer ribeiro das regiões metropolitanas do Brasil.

Os elementos usados no AT eram sombras do que haveria de vir. O óleo, fala da presença do Espírito Santo. O sal, usado nos sacrifícios, do crente como sacrifício agradável e sal da terra. Os elementos do templo apontavam para a pessoa de Cristo e da igreja. Assim, o candelabro é uma figura da igreja, alumiando. Hoje não se precisa mais de sombra, porque os elementos tiveram seu cumprimento em Cristo e na igreja. Muitos, no entanto, acreditam no poder do sal, do óleo e da água, elementos que apontavam para o futuro.
Vejamos a questão do sal: “Toda oferta dos teus manjares temperarás com sal; à tua oferta de manjares não deixarás faltar o sal da aliança do teu Deus; em todas as tuas ofertas aplicarás sal” (Lv 3.1). Como cessaram as ofertas e sacrifícios, pois Cristo é o sacrifício perfeito, por que usar o sal como fazem alguns grupos neopentecostais? Este sal colocado na oferta falava de quê?


O comentarista Mathew Henry anos atrás já falava sobre a questão dos sacrifícios. Ele diz:

O sal deveria ser colocado em todas as ofertas. Deus, portanto, exige deles que o sacrifício deveria ter sabor. Todo culto deve ser temperado com a graça. O cristianismo é o sal da terra. Óleo e incenso fazem parte dos sacrifícios. Sabedoria e humildade amolecem e adoçam os espíritos. O incenso fala da mediação e intercessão de Cristo através do qual nosso culto se torna aceitável diante de Deus.

Ora, não se faz necessário aqui provar que os elementos presentes no tabernáculo prefiguravam a obra de Cristo, do Espírito Santo e a igreja. No entanto, apesar de tudo haver se cumprido em Cristo, como afirma o escritor aos hebreus, ainda assim a igreja se deixa judaizar trazendo para o culto os mesmos elementos, como pão sem fermento, o candelabro, faltando, obviamente o incenso, que algumas igrejas trazem para o culto sem problema algum. Cristo é nosso pão sem fermento; o Espírito Santo é o óleo e todos os elementos têm alguma relação com a igreja, a palavra de Deus e a obra de Cristo. Ora, como Cristo é a plenitude de todas as coisas, então não haverá necessidade de se apegar a esses elementos no culto a Deus.

Vejamos, então, alguns exemplos bíblicos de atos proféticos. Estes eram acontecimentos ou realizações em forma de eventos e não como regras ou institucionalização.

Vejamos alguns casos da Bíblia que não podem ser tomados como regras de fé.

1. O manto de Elias. Com ele, Elias dividiu as águas do Jordão. Eliseu, depois que Elias foi arrebatado, tomou o mesmo manto e abriu também as águas do Jordão. O poder não estava no manto, mas no Deus Todo-Poderoso. “Onde está o Senhor, Deus de Elias?”, perguntou Eliseu (2 Rs 2.14). Nas outras vezes em que Eliseu precisou atravessar o Jordão não usou do manto para abri-lo de novo. Onde os crentes se tornam esotéricos? Quando acham que o poder está no manto ou no paletó de um servo de Deus, numa peça de roupa, etc.

2. Eliseu e as águas de Jericó. Interessante como os líderes esotéricos de hoje na igreja não usam “vasilhas” novas como fazem os da religião afro em seus rituais. Porque Eliseu, ao orar pelas águas de Jericó que eram estéreis usou uma vasilha nova: “Os homens da cidade disseram a Eliseu: Eis que é bem situada esta cidade, como vê o meu senhor, porém as águas são más, e a terra é estéril. Ele disse: Trazei-me um prato novo e ponde nele sal. E lho trouxeram. Então, saiu ele ao manancial das águas e deitou sal nele; e disse: Assim diz o SENHOR: Tornei saudáveis estas águas; já não procederá daí morte nem esterilidade. Ficaram, pois, saudáveis aquelas águas, até ao dia de hoje, segundo a palavra que Eliseu tinha dito” (2 Rs 2.20-22). Ora, o sal e a vasilha nova foram apenas componentes de um ato profético, o poder, de fato, estava em Deus que Eliseu invocou. “Assim diz o Senhor”. Foram as palavras do Senhor que tornaram as águas saudáveis e a terra fértil e não o sal e a vasilha nova. Sim, porque noutra ocasião o sal foi usado para deixar a terra estéril. Eis o contraste (Jz 9.45 e Sf 2.9). “Obviamente que as águas não foram curadas pelo poder do sal”, afirmam os comentaristas, “como se o sal em si mesmo tivesse poder para curar um ribeiro de águas. Foi um ato simbólico que acompanhou a declaração da palavra do Senhor, por isso as águas ficaram boas” (Brown Commentary). O prato novo e o sal falam da consagração das vidas e do “sal da terra” que tornam saudáveis a terra onde o crente vive. Um contraste, porque o sal deixa a água com gosto horrível.

Noutro episódio, quando os discípulos colocaram na sopa que preparavam ramos de uma trepadeira venenosa, Eliseu usou farinha. Por que não usou sal? Nem óleo? Porque o poder da cura está em Deus e não nos elementos. Interessante como ninguém joga farinha no ar nos cultos esotéricos de algumas igrejas. (Ver 2 Rs 4.38-41).

3. Moisés e o tronco de árvore lançado nas águas de Mara. “Afinal, chegaram a Mara; todavia, não puderam beber as águas de Mara, porque eram amargas; por isso, chamou-se-lhe Mara. E o povo murmurou contra Moisés, dizendo: Que havemos de beber? Então, Moisés clamou ao SENHOR, e o SENHOR lhe mostrou uma árvore; lançou-a Moisés nas águas, e as águas se tornaram doces” (Ex 15.23-25). Novamente aqui foi o Senhor quem ordena a Moisés que jogasse certo tronco de árvore nas águas, não que a árvore tivesse em si o potencial de cura, e sim o Senhor. A árvore aponta profeticamente para a cruz de Cristo. Se isto fosse regra – isto é, usar galhos de árvores para curar águas – Eliseu teria seguido o exemplo de Moisés usando uma árvore para tornar potável as águas de Jericó. No entanto, lá ele usou sal.

Moisés, em duas ocasiões bateu com a vara na Rocha. Na vez primeira, Deus ordenou que batesse na rocha, mas da segunda vez, bastava falar à rocha e ela daria água. Acostumado a bater com seu cajado – batera com ele no Egito trazendo pragas, batera nas águas do mar Vermelho e na rocha – Moisés repetiu a cena, mas foi advertido por Deus e perdeu o direito de entrar na Terra Prometida (Compare Êxodo 17.1-7 c/ Números 20.2-13). A simbologia aqui é clara: a primeira vez que feriu a rocha, era uma simbologia da Rocha, ferida na cruz; da segunda vez, bastava apenas falar. Por isso, no cântico que Deus escreveu para o povo em Deuteronômio 32 várias vezes Deus se refere a Rocha (Dt 32.4, 15, 18, 30, 31).

Foi assim com a serpente levantada no deserto. Quem para ela olhasse era curado das picadas venenosas das serpentes. Devido ao pecado do povo serpentes invadiram o acampamento trazendo dor e morte entre o povo. E o Senhor ordenou a Moisés que fizesse uma serpente de bronze, colocasse-a num lugar alto e todo o que era mordido pelas serpentes olhava para a serpente de bronze e era curado (Nm 21.4-9). Era uma figura da obra expiatória de Cristo, fato citado pelo próprio Jesus em João 3.14: “E do modo porque Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna”.

Mas, a inclinação esotérica do povo levou-o a guardar a serpente – que não mais servia para curar enfermidades – e a adorá-la como se fosse um deus. Até os dias de Ezequias a serpente era usada como objeto de adoração pelo povo de Israel. Ezequias “Removeu os altos, quebrou as colunas e deitou abaixo o poste-ídolo; e fez em pedaços a serpente de bronze que Moisés fizera, porque até àquele dia os filhos de Israel lhe queimavam incenso e lhe chamavam Neustã” (2 Rs 18.4). Imagine, quase 835 anos depois a serpente que Moisés levantara estava sendo adorada pelo povo como sendo um deus de bronze.

É comum que pessoas se agarrem a objetos como forma de adoração. Por isso, até hoje a cruz é adorada em vez de ser adorado aquele que nela morreu. Sabemos de irmãos que acham que, batizando-se nas águas do rio Jordão a salvação tem outro sentido. Que o óleo feito em Israel tem mais efeito; que as águas do Jordão são ainda purificadoras. E dão valor esotérico aos elementos da ceia, como se o pão e o vinho adquirissem valor maior depois de consagrados.

Por que os evangélicos e os pentecostais não queimam mais incenso em suas casas nem nos cultos a Deus? Porque entenderam que o incenso queimado no AT era sombra da oração do povo a Deus. Isto é explicado no texto de Apocalipse 8.1-5.

4. Jesus usou lodo e saliva, mas o poder não estava nem no lodo nem na saliva, mas nele mesmo! Se fosse esotérico, cuspir no chão e fazer lodo seria uma prática que os discípulos perpetuariam em seu serviço a Deus.

5. Paulo, o apóstolo enviava seus objetos pessoais que eram colocados sobre as pessoas enfermas e elas eram curadas. Por que fazia isto? Por duas razões: as pessoas não conseguiam chegar até onde ele estava e ele não conseguia ir onde elas se encontravam. Hoje as pessoas não vão aos cultos e enviam seus objetos pessoais para receberem oração, diferentemente de Paulo que usava lenços de uso pessoal. “E Deus, pelas mãos de Paulo, fazia milagres extraordinários, a ponto de levarem aos enfermos lenços e aventais do seu uso pessoal, diante dos quais as enfermidades fugiam das suas vítimas, e os espíritos malignos se retiravam” (At 19.11-12). Em momento algum Paulo fez disto uma regra para curar enfermos e expulsar os demônios. Ao contrário, várias vezes se deparou diante da impotência de curar a enfermidade de seus trabalhadores mais chegados, como Timóteo e Trófimo. Quantas vezes deve ter orado por Timóteo para que este ficasse livre de sua enfermidade e Timóteo não foi curado? Apelou, portanto, para a medicina e o recomendou tomar vinho para as constantes enfermidades do estômago. “Não continues a beber somente água; usa um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas freqüentes enfermidades” (1 Tm 5.23). E por que não curou a Trófimo se em Éfeso bastava enviar seus lenços pessoais e as pessoas eram curadas? Porque Paulo não era esotérico e não atribuía poderes aos seus objetos pessoais e sim a Deus. No entanto, viu-se impotente de curar seu companheiro de Jornada ministerial. “Quanto a Trófimo, deixei-o doente em Mileto” (2 Tm 4.20).

A crendice de que os elementos têm poder parece fazer parte da vida dos pagãos, pois o comandante Naamã logo que foi curado de sua lepra decidiu levar sacos de terra de Israel para a Síria para com ela construir um altar de adoração ao Deus de Israel.

Não se vê, no entanto, em qualquer outra parte da Bíblia que leprosos sejam orientados a mergulhar no Jordão sete vezes. Se isto fosse uma prática esotérica Jesus teria orientado os leprosos a mergulharem no Jordão. Mas não o fez. O Senhor Jesus não nos legou quaisquer ensinamentos neste sentido.

Não se vê no Novo Testamento os apóstolos incentivando os irmãos a usarem elementos para sua cura e recebimento de poder, porque o poder não era deles, mas de Deus. O próprio Paulo vivia constantemente enfermo, a ponto de ter de parar na Galácia devido a uma enfermidade. “E vós sabeis que vos preguei o evangelho a primeira vez por causa de uma enfermidade física. E, posto que a minha enfermidade na carne vos foi uma tentação, contudo, não me revelastes desprezo nem desgosto; antes, me recebestes como anjo de Deus, como o próprio Cristo Jesus” (Gl 4.13-14). Paulo pregou o evangelho e, certamente curou os gálatas enfermos, quando ele mesmo não conseguia ser curado de sua enfermidade. Não é isto um mistério? E por que não usou de lenços, de óleo, água e de outros elementos? Porque Paulo não era esotérico; dependia unicamente do poder de Deus e não dos poderes de elementos curadores.

Se houvesse poder nos elementos haveria cura para todos; mas o poder é de Deus e ele decide sobre cada pessoa, se deve ou não ser curada. É da misericórdia dele que dependemos. Alguns acreditam que a epístola aos Romanos foi ditada por Paulo a Tércio, porque Paulo estava quase cego (Rm 16.22). “Vede com que letras grandes vos escrevi de meu próprio punho” (Gl 6.11). Que sua enfermidade era nos olhos fica claro no texto: “Pois vos dou testemunho de que, se possível fora, teríeis arrancado os próprios olhos para mos dar” (Gl 4.15).

Paulo não diz como Epafrodito foi curado de uma enfermidade mortal, mas atesta a cura de seu discípulo: “Com efeito, adoeceu mortalmente; Deus, porém, se compadeceu dele e não somente dele, mas também de mim, para que eu não tivesse tristeza sobre tristeza. Por isso, tanto mais me apresso em mandá-lo, para que, vendo-o novamente, vos alegreis, e eu tenha menos tristeza” (Fp 2.27-28). Epafrodito adoeceu e ficou às portas da morte, e foi curado; diferentemente de Paulo que sofria de uma enfermidade nos olhos e não era curado.

Recentemente houve uma campanha de um “apóstolo” latino-americano convocando os irmãos a ungirem o Brasil do Norte ao Sul derramando óleo nas rodovias, campos, etc. Também incentivou a escrever promessas de fé e livramento em pedacinhos de papel enterrando-os às margens das rodovias, como se isto resolvesse a questão no mundo espiritual. Ora, tal prática tem de ser contestada porque o Senhor nos enviou a pregar o evangelho, curar os enfermos e a libertar os oprimidos. Seria mais fácil para os apóstolos derramar óleo e escrever promessas por todo o mundo, mas isto não resolveria a principal questão espiritual: a salvação das pessoas.

O Espírito Santo nada deixou registrado quanto a isto no Novo Testamento para que a igreja não se agarrasse a essas práticas. Ele mandou pregar o evangelho e a fazer discípulos de todas as nações. Viajar de carro com garrafões de óleo pingando lentamente pelas estradas é mais fácil do que parar na praça de uma cidade e anunciar o evangelho de Jesus Cristo. Quando se prega o evangelho confrontam-se as trevas e os poderes demoníacos; mas, quando apenas se unge com óleo, mostra-se apenas a intenção de se possuir a terra. Não seria melhor andar pela terra, cumprindo a ordem de que “onde pisar a planta de teu pé será tua?”. Mesmo assim, a missão não estaria completa sem a pregação do evangelho. Abraão teve que percorrer a terra toda como garantia de que Deus a daria aos seus descendentes (Gn 13.17). A posse da terra só seria definitiva se Josué conquistasse toda a terra, por isso Deus lhe disse: “Todo lugar que pisar a planta do vosso pé, vo-lo tenho dado, como eu prometi a Moisés” (Js 1.3).

Uma cidade só é conquistada quando alguém se dispõe a viver e a pregar o evangelho iniciando ali uma igreja. É a presença da igreja que muda a sociedade e não um frasco de óleo.

O crente esotérico é aquele que coloca um copo de água sobre o rádio ou sobre a televisão esperando ser curado; a pessoa quando é curada, não deve pensar que foi devido a energia da água, mas ao poder de Deus. Alguns defendem o uso destes elementos por acharem que estes operam como estimuladores da fé das pessoas. Para que incentivar as pessoas a crerem nos elementos, desviando a atenção delas do poder de Deus? Agem da mesma maneira daquelas pessoas que oram a Deus, prostradas diante de uma imagem esperando uma graça. Alcançam-na e atribuem o feito ao poder do santo, esquecendo-se, que, muitas vezes a cura não foi alcançada pela mediação do “santo”, ms pela misericórdia de Deus. Além de que, esta é uma prática que pode induzir a operação do erro permitindo que espíritos enganadores levem a pessoa a crer no milagre do “santo” ou do “elemento”, desviando as pessoas da verdadeira adoração a Deus.

O milagre acontece e ele leva as pessoas a crer que o milagre aconteceu por força e graça da santa ou do santo; do óleo santo ou da água ungida, e quando anuncia um milagre em nome do Senhor e nada acontece! Agora, quando ele anuncia o milagre, e este acontece, e a glória é dada a Jesus Cristo, ele é verdadeiramente um profeta de Deus.

Felizmente o Espírito Santo não deixou nenhum modelo de adoração e nenhum objeto a ser adorado, para que a tendência humana de crer em elementos e em objetos não supere o valor da verdadeira adoração e da vida cristã que é feita em espírito e em verdade.

A palavra de Deus serve de equilíbrio da fé e da verdade. Como as pessoas têm a tendência de cair para o lado místico, Deus nos deixou a palavra para nos puxar para o centro. Ocorre o mesmo com as pessoas que desprezam o místico e se apegam à rigidez da letra; o Espírito Santo precisa puxá-los para a mística para que depois encontrem o equilíbrio certo, no centro.

Até que ponto pode-se utilizar elementos e objetos sem que se caia no esoterismo? Os discípulos parecem haver perpetuado a unção com óleo – sem especificar o tipo de óleo – orientando os presbíteros a ungir os enfermos com óleo em Nome do Senhor. “Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor” (Tg 5.14). Em nenhum momento Tiago atribui poder ao óleo, mas ao poder do Senhor, quando afirmou: “E oração da fé salvará o enfermo e o Senhor o levantará; e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados” (v 15). Ainda que a questão da unção com óleo no NT seja um ensinamento obscuro, pois somente Tiago fala do tema, sabe-se que ele ungia os enfermos com óleo, do contrário não recomendaria tal prática aos presbíteros de Jerusalém.

Assim, é possível ungir enfermos ou usar do óleo para consagrar uma casa ou objetos sem incorrer no esoterismo, usando-o como figura profética da ação do Espírito Santo. Fazer disto uma regra é errado. Se houver uma palavra ou orientação do Senhor que se unja com óleo uma casa deve-se fazê-lo, sem fazer da prática um método infalível, pois é possível usar o óleo em outras ocasiões sem que nada se realize. Pode não haver cura nem consagração.

O esoterismo é quando o uso dos elementos torna-se uma prática dando-se a eles poderes que não possuem. O poder sempre é de Deus.

Todas as experiências Espirituais podem ser Falsificadas


Por Jonathan Edwards

- Olhemos isto tendo em vista o ensino de Jonathan Edwards -

Se alguém tem muitos tipos diferentes de inclinações espirituais, isso é outro sinal não confiável, que não pode ser usado para determinar se a sua espiritualidade é verdadeira ou falsa. Existem imitações de todas as afeições verdadeiras. A maioria de nós sabe que o amor, por exemplo, pode ser fingido facilmente. Namorados e namoradas que juraram amar-se de verdade mais tarde mostraram que seu 'amor" era paixão desenfreada ou interesse próprio grosseiro. Talvez nós mesmos tenhamos dito a outras pessoas que as amávamos, e só mais tarde percebemos que não sabíamos nem o mais elementar sobre o amor. A Bíblia está cheia dessas declarações de amor superficiais. Por exemplo, veio um mestre da lei que jurou a Jesus que o seguiria por onde quer que fosse. Mas quando Jesus replicou que nem sempre sabia se teria nem mesmo um quarto à noite, o homem foi embora (Mt 8.20). As multidões apregoaram sua devoção a Jesus, mas o abandonaram quando ele se tornou politicamente incorreto.

Arrependimento religioso do pecado também pode ser fingido. Faraó, por exemplo, parece ter-se arrependido sinceramente depois da sétima praga (granizo). Ele se lamentou diante de Moisés: "Esta vez pequei; o Senhor é justo, porém eu e o meu povo somos ímpios. Orai ao Senhor; pois já bastam estes grandes trovões e a chuva de pedras. Eu vos deixarei ir, e não ficareis mais aqui" (Êx 9.27-28). Assim que o granizo parou, porém, "tornou a pecar, e endureceu o seu coração" (Êx 9.34). Novamente recusou-se a deixar os israelitas sair do Egito.

Há relatos de adoração falsa na Bíblia. Lemos dos samaritanos no século VIII a.C, que "temiam o Senhor e, ao mesmo tempo, serviam aos seus próprios deuses" (2Rs 17.33). Gratidão e alegria também podem ser falsos. Pense nos ouvintes comparados ao solo pedregoso na parábola do semeador e da semente que Jesus contou. São pessoas que ouvem o evangelho e o recebem com gratidão e alegria, mas depois se desviam, quando vêm dificuldades e perseguição (Mt 13.20-21). Podemos dizer a mesma coisa de zelo e esperança. Os judeus do tempo de Paulo tinham "zelo por Deus, porém não com entendimento" (Rm 10.2). Os fariseus tinham a esperança convicta (a palavra expectativa está mais perto do significado do termo grego geralmente traduzido por "esperança") de que estavam indo para o céu, mas, de acordo com Jesus, eles estavam tristemente enganados (Mt 23.13-15).

Também é importante reconhecer que as afeições falsas geralmente andam juntas. Cada afeição falsa quase sempre faz parte de um conjunto. Veja as ações da multidão depois que Jesus ressuscitou Lázaro. Eles estavam cheios de várias afeições falsas. Eles se mostravam atraídos por Jesus, pois viajaram distâncias grandes para ouvi-lo, afirmaram amá-lo ao exclamar hosana, evidenciaram reverência ao colocar suas vestes exteriores no caminho para que ele pudesse pisar macio, cantaram cânticos de gratidão e louvor, e demonstraram ter zelo pelo reino de Deus quando exclamaram: "Bendito o que vem em nome do Senhor e que é Rei de Israel!" (Jo 12.13). O ruído dos seus cânticos e exclamações encheu o ar com o que parecia ser um júbilo santo.

Por que as afeições falsas andam juntas? Porque, assim como o amor verdadeiro inspira várias outras afeições verdadeiras, o amor falso desperta muitas outras afeições falsas. Edwards definiu uma conversão falsa como uma constelação de afeições falsas. Em primeiro lugar, ele escreveu, a pessoa está aterrorizada e desesperada porque ouviu uma mensagem prometendo a condenação aos que não são convertidos. Imaginar os tormentos mentais e físicos do sofrimento eterno no inferno enche-a de horror. Em segundo lugar, Edwards acha que o diabo lhe envia uma visão ou voz prometendo-lhe salvação. "Você é um dos preferidos de Deus", sussurra o diabo. A pessoa imediatamente se enche de alegria e gratidão. Ela fica emocionada com a repentina suspensão da sentença e não consegue parar de falar aos outros sobre a misericórdia de Deus para com ela, insistindo com eles para que louvem a Deus. Ela reconhece que é indigna desse presente glorioso e fala abertamente de seu pecado.

Só que sua humildade recém-encontrada não é mais genuína que a do rei Saul. Ao ouvir que tinha sido escolhido como rei, ele protestou: "Porventura, não sou benjamita, da menor das tribos de Israel? E a minha família a menor de todas as famílias da tribo de Benjamim? Por que, pois, me falas com tais palavras?" (lSm 9.21). A falsa humildade tem uma semelhança esquisita com a humildade genuína que Davi mostrou quando foi escolhido para o trono: "Quem sou eu, Senhor Deus, e qual é a minha casa, para que me tenhas trazido até aqui?" (2Sm 7.18).

O novo "convertido" gosta de passar tempo com os que reconhecem sua conversão e sente o que ele imagina ser indignação justa por aqueles que não o fazem. Ele nega-se a si mesmo para promover sua nova causa e aqueles que o apóiam.

Infelizmente, diz Edwards, essa é uma conversão sem o verdadeiro arrependimento. Por isso ela é falsa. Muitas afeições religiosas são manifestas, mas elas são falsas, porque brotam do amor próprio, disfarçado de amor por Deus. Edwards diz que este padrão de experiência espiritual pode provir ou de influência demoníaca ou da natureza humana (dentro da tendência de aliviar o terror religioso e reforçar a auto-estima). João da Cruz, o grande escritor místico do século XVI, disse a mesma coisa. João escreveu que o diabo muitas vezes aumenta o fervor dos orgulhosos e transforma suas virtudes em vícios. Ao mesmo tempo João alertou que muitos desejos fortes em relação a Deus ou às coisas espirituais são simplesmente o resultado dos desejos humanos e naturais.

Combatendo o relativismo com uma mentalidade bíblica


Por Marcos Sampaio


Nenhuma idéia é mais politicamente incorreta hoje entre muitos evangélicos do que o antigo pensamento protestante de que vale a pena lutar pela verdade absoluta, incluindo as proposições essenciais da doutrina cristã. Na verdade, muitos acreditam que as discussões sobre as crenças religiosas são as mais inúteis e arrogantes de todos os conflitos. Penso que isso pode ser verdade em casos onde as opiniões humanas são a única coisa em jogo. Mas onde a Palavra de Deus fala claramente, temos o dever de obedecer, defender e proclamar a verdade que Ele nos deu, e devemos fazer isso com uma autoridade que reflete a nossa convicção de que Deus falou com clareza e finalidade.

Estou lendo o livro Irmãos, Nós não Somos Profissionais de John Piper e ele faz exatamente esse apelo para que os ministros de Deus tenham de fato um ministério radical diante da existente mentalidade antibíblica pela profissionalização do ministério pastoral. E isto é particularmente crucial em contextos onde as doutrinas fundamentais do cristianismo histórico estão sob sorrateiro ataque.

Aliás, as verdades fundamentais das Escrituras, estão sendo atacadas duramente. Penso que o principal campo de batalha de Satanás hoje é o ideológico. Isso porque o objetivo principal dentro da estratégia de Satanás em nossa época é confundir, negar, distorcer, corromper a verdade, e isso significa que a batalha é muito mais grave do que imaginamos. Com isso, ser capaz de distinguir entre a sã doutrina e o erro deve ser uma das maiores prioridades de cada cristão e da igreja evangélica contemporânea.

Tomar tal posição, entretanto, é desafiador hoje diante de vozes dizendo que pregar a verdade absoluta está fora de moda e que precisamos adaptar a fé às necessidades das pessoas. A metáfora “guerra pela verdade” simplesmente não funciona em uma cultura pós-moderna onde o relativismo é prevalecente. A epistemologia pós-moderna começa e termina com o pressuposto de que qualquer questão sobre o que é verdadeiro ou falso é meramente acadêmica. Nossas diferenças são, em última análise, triviais. Cada sugestão de militância em busca da verdade absoluta é considerada inadequada nestes tempos de sofisticação e progresso.

No entanto, essa posição em defesa da verdade também foi impopular no primeiro século e isso não impediu os apóstolos de confrontarem o erro e ensinar todo o conselho de Deus. O apóstolo Paulo, por exemplo, foi justo com seus adversários no sentido de que ele nunca deturpou o que eles ensinaram, entretanto, ele claramente enxergando os erros em que eles estavam, falou a verdade. Em seu estilo de ensinar todos os dias, Paulo falou a verdade suavemente e com a paciência de um pai amoroso. Mas quando as circunstâncias justificavam um forte tipo de franqueza, Paulo falava muito francamente (1 Coríntios 4:8-10). Ele empregou a verdade de forma eficaz e adequada (Gálatas 5:12).

A verdade é que Paulo não sofria da mesma escrupulosa angústia que faz com que muitas pessoas hoje caiam em erros. A idéia do apóstolo em relação à gentileza não era o tipo de benevolência do falso. Não o vemos convidando os falsos mestres em erro religioso para o diálogo, nem ele aprovaria essa estratégia hoje (Gálatas 2:11-14). O apóstolo compreendeu e estava disposto a lutar pela verdade. Ele defendia a verdade, mesmo quando ela era impopular para fazê-lo ou era até mesmo desprezada pelos homens da cristandade.

E hoje lidar com qualquer indício de certeza a respeito do que as Escrituras significam, mesmo em questões fundamentais da fé cristã, parece trazer um alto nível de desconforto para muitas pessoas também. Para estes, a verdade é admitida como algo inerentemente obscuro, indistinto, incerto e, em última análise, talvez até mesmo incognoscível.

Brian McLaren, um escritor muito popular principalmente entre o movimento da Igreja Emergente, certa vez disse que “ainda não conseguimos entender corretamente o evangelho... acho que os liberais também não conseguiram. Mas acho que nós também não o entendemos de modo certo. Ninguém entre nós chegou à ortodoxia”. E diz ainda o ex-pastor: “capturamos, recheamos e fixamos a verdade”.

E esse tipo de mentalidade traz muita popularidade numa época de tantas meias verdades. Brian MacLaren, por exemplo, foi autor de diversos livros em seu total desprezo pela certeza e fez muito sucesso. E esta tem sido a mensagem até mesmo de muitas congregações cristãs onde se acredita que o evangelho deve ser mantido adaptável e ambíguo para principalmente atrair as pessoas que vivem em harmonia com a cultura e amam o espírito dessa época e não podem suportar que a verdade bíblica autoritária seja aplicada com precisão como um corretivo para estilos de vida mundanos, mentes profanas e comportamento ímpio. Muitos líderes estão obcecados com o estilo e a metodologia; perderam o interesse pela glória de Deus e se tornaram apáticos quanto à verdade e à sã doutrina. E Lamentavelmente esse “veneno... está sendo injetado, cada vez mais, na igreja evangélica”, diz John MacArthur.

Creio firmemente que essa mentalidade não vem do Cristianismo puro e simples das Escrituras. Não saber o que você crê, recusar-se a reconhecer e defender a verdade revelada da parte de Deus e abraçar a ambigüidade, exaltando a incerteza e amenizando a pregação com superficialidades não é o autêntico evangelho deixado por Cristo e pregado com toda certeza pelos Seus apóstolos. Penso que o cristão genuíno conhece e ama a verdade. Os ímpios odeiam a verdade (2 Tess 2:10). O amor à verdade está ligado à fé salvífica. Cristo disse que os que conheceram a verdade, por ela foram libertos (João 8:32).

Portanto, numa época em que a idéia da verdade está sendo desprezada e atacada, até mesmo por aqueles que deveriam defendê-la, precisamos com o nosso coração reverente e voltado para Deus nos apegarmos ao sábio conselho de Salomão que disse “compra a verdade e não a vendas”. Assim sendo, que a igreja de Deus nesse mundo de mentiras e relativismo seja de fato “coluna e baluarte da verdade” mesmo que isso nos custe muitas lutas e até mesmo o próprio desprezo deste século tão confuso.

Pense nisso!

Deus não faz acepção de pessoas
















Por Jorge Fernandes Isah



A Bíblia nos diz que Deus não faz acepção de pessoas. Acontece que muitos distorcem esse ensino, afirmando que, por isso, Deus ama a todos, e Cristo morreu por todos. A lógica é a seguinte: se Deus não faz acepção de pessoas, não escolheu uns e rejeitou outros; e Cristo não pode ter morrido na cruz apenas para salvar uma parte da humanidade, mas o seu caráter expiatório favoreceu a todos os homens indistintamente. Caberia ao homem apossar-se dessa salvação ou não.

A questão é como uma bola de neve: quanto mais se parte de um pressuposto falacioso, e se tenta justificá-lo, mais a mentira ganha corpo, e acaba por se distanciar sobremaneira da verdade. Por fim, não mais como uma pequena bola mas uma avalanche, se volta contra o tolo, a soterrá-lo em meio a uma profusão de equívocos. Resta-nos uma pergunta: então, qual é a verdade?

Os versos que muitos se utilizam para argumentar que Deus ama a todos indistintamente, e por isso não faz acepção de pessoas são: "Porque, para Deus, não há acepção de pessoas" [Rm 2.11]; e, ainda: "Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas" [At 10.34]. Ora, isoladamente, os versos parecem corroborar o pensamento vigente entre os religiosos atuais, ao ponto em que não seria difícil chegar-se à conclusão universalista, a qual assevera que todos serão salvos, até mesmo o diabo e seus anjos, e o inferno é uma simples metáfora das contradições existentes na criação [1]. Esse seria o grand-finale de todo um pensamento confuso, ilusório e não-bíblico, se fosse verdade. Mas, felizmente, não é.

Assim, o que esses versos querem dizer?

No primeiro, Paulo nos mostra a imparcialidade de Deus. Explicando que ninguém pode se considerar inescusável diante dele, e apelar para a inocência por não conhecê-lo e a sua lei; visto a ignorância não ser argumento de defesa para o pecador, "porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados" [Rm 2.12].

Ao perguntar: "Por quê? Somos nós mais excelentes?"; Paulo respondeu: "De maneira alguma", evidenciando que não há distinção entre os homens, e para Deus todos são iguais, pois tanto judeus como gentios estão debaixo do pecado [Rm 3.9]. "Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus" [Rm 3.23]; não há um justo sequer, não há quem entenda ou busque a Deus. Todos se extraviaram, e se fizeram inúteis. "Não há quem faça o bem, não há nem um só" [Rm 3.10-12]. Portanto nenhum de nós merece piedade diante dele; ninguém é melhor aos seus olhos; pelo contrário, todos somos iguais, ímpios, maus, rebeldes, insolentes, escória, indignos até mesmo de existir; e somente não somos consumidos por causa da sua misericórdia, que não tem fim [Lm 3.22].

Nessa multidão de ignorantes, pecadores e desobedientes, Deus, por sua única vontade, exclusivamente pelo seu querer, elegeu alguns para a salvação e o restante para a perdição. O fato é que ninguém merece ser salvo, mas por sua graça, escolheu aqueles que amou por intermédio de seu Filho, Jesus Cristo; "justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus" [Rm 3.24]. Ou seja, Deus escolheu aqueles que amou eternamente, e amou aqueles que escolheu eternamente. Se a eleição fosse pela presciência, ao se antever aqueles que teriam fé, e escolhê-los pela fé que teriam, Deus faria, nesse caso, acepção de pessoas. Ele buscaria uma justificativa na própria pessoa, um mérito nela, e a fé seria esse valor de referência que traria significado a quem a detém, e o fundamento para Deus salvá-la. A eleição não seria pela graça, mas por mérito pessoal, vista ser alcançada pela fé, como fruto do esforço humano e, assim, Deus preferiria-o em detrimento dos que não a têm. Acontece que isso seria justificação por obras, mas nenhuma justiça própria pode dar a salvação, "mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo" [Tt 3.5].

Sendo assim, é complicado e perigoso acreditar que o homem possui a fé antes de se regenerar, pois demandaria uma obra pessoal, numa ação proveniente de uma energia inerente ao homem, alheia à vontade de Deus. Seria o mesmo que alguém ter um fósforo. Ele acenderia o pavio, cujo fogo o percorreria, consumindo-o, a fim de se deflagrar a regeneração. Ele incitaria o Espírito Santo a operar até mesmo contra a sua vontade, de tal forma que, ao menos nesse aspecto, ele se sobreporia a Deus em poder; o qual não poderia fazer nada sem que o pavio fosse acesso, sem que se desse o start para que, somente então, pudesse agir e iniciar a obra de transformação. Deus se tornaria em um agente passivo [com tudo à mão menos o fósforo], enquanto eu e você seriamos quem na verdade ativaria todo o processo. Nós teríamos a chama suficiente, sem a qual Deus seria um mero espectador; com toda a sua graça amontoada pelos cantos, pronto para entrar em ação, mas impotente para fazê-lo por si mesmo. Deus teria quase tudo, mas não teria o principal: o controle sobre toda a cronologia do evento. Sem o fósforo, e alguém para acendê-lo, o arsenal de graça e misericórdia seriam inúteis e lançados no lixo. Se um homem apenas não se decidisse a usar a sua fé, de nada adiantaria Deus ter preparado toda a sua obra. É como uma festa onde o anfitrião encomendaria o melhor para se comer e beber, e ninguém fosse convidado, ninguém aparecesse de surpresa. A festa não teria sentido, nem os preparativos. O anfitrião veria o salão vazio, a comida intocada, o silêncio, e o despropósito de todos os arranjos comemorativos.

Isso colocaria a nossa vontade em preeminência, numa escala superior à divina. E, Deus, talvez impassível, talvez ansioso [dependendo da cosmovisão] não poderia fazer absolutamente nada, a não ser esperar que a sorte trouxesse alguém à festa; ou que acendessem o pavio.

Poderia ainda usar a seguinte ilustração: guardadas as devidas proporções, seria o mesmo que um comerciante ter um grande estoque de um determinado produto, abrisse a loja, e aguardasse os clientes aflorar, se acotovelar, em busca da mercadoria. Caso eles não viessem, o que faria? Provavelmente, uma liquidação. Para esvaziar o depósito. E não é interessante que o Evangelho não seja um produto de fácil aceitação? E que todos o busquem ansiosamente? Ao ponto em que, para aceitá-lo, o corrompem, distorcendo-o de tal forma que se descaracterize e perca o seu caráter exclusivista e seletivo? Tornando-se palatável, digerível, e assim, facilmente acessível a todos? Possível sem a necessidade de arrependimento e perdão? Contudo, esse não é o Evangelho, mas o antievangelho, que simplesmente acomoda as pessoas aos seus próprios pecados, tornando-as ainda mais cegas e tolas do que já são. O Evangelho separa, divide, leva a perseguições, e até mesmo à morte, como nos diz o Senhor: "Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem e quando vos separarem, e vos injuriarem, e rejeitarem o vosso nome como mau, por causa do Filho do homem. Folgai nesse dia, exultai; porque eis que é grande o vosso galardão no céu, pois assim faziam os seus pais aos profetas"[Lc 6.22-23]. O que nos leva à seguinte pergunta: a aceitação do Cristianismo e o seu crescimento numérico reflete-se nessa profecia, que garante o ódio do mundo a Cristo e a conseqüente perseguição, ódio e rejeição tanto à sua palavra quanto aos seus discípulos? Se não, o que estamos a fazer? Por que não somos perseguidos? Por não causarmos divisão no mundo? Por que somos aceitos como se fôssemos iguais a eles? Em algum aspecto, o que se tem é um falso cristianismo, que quer e procura ser aceito e não rejeitado, que está pronto a aliar-se ao mundo, e não sofrer as consequências naturais por amor a Cristo, e em seu nome. Alguém pode imaginar uma coalisão ou aliança entre luz e trevas?[2]

Pois bem, Paulo está dizendo que ninguém pode se autojustificar diante de Deus, logo, Deus não vê nenhuma qualidade no homem para escolhê-lo; e a escolha recai no próprio Deus, que a faz segundo os seus critérios, segundo a sua vontade, sem a ingerência ou mérito algum de quem quer que seja. Como está escrito: "Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece" [Rm 9.15-16]. A eleição é algo que vem do Senhor, não do homem [Jn 2.9]. É garantida por sua santidade, perfeição, sabedoria e justiça. Não será determinada por obras humanas, pois todas as nossas justiças são "como trapos de imundícia" diante de Deus, porque todos somos como imundos em nossas iniquidades [Is 64.6-7]. Em suma, todos somos condenáveis diante de Deus. Por isso, em sua justiça, ele não faz acepção de pessoas.

No segundo caso, Pedro, após ser advertido por Deus em sonho para não preferir os judeus em detrimento dos gentios, na proclamação do Evangelho, reconheceu que ele devia ser apresentado a todas as criaturas, sem exceção. O que ele disse em "Deus não faz acepção de pessoas" foi confessar que as "boas novas" têm de ser levadas também aos gentios, e que não são exclusividade dos judeus, ao ponto dele crer que tanto esses como aqueles seriam salvos pela graça do Senhor [At 15.7-11]. A morte de Cristo na cruz devia ser anunciada entre todos os povos e nações, para que, assim, os eleitos fossem alcançados pela verdade, sem a qual todos estariam irremediavemente condenados e proscritos ao fogo do inferno. Então, o que temos aqui é a proclamação do Evangelho para eleitos e réprobos, judeus e gentios, deixando claro que, nesse aspecto, o da pregação, Deus não faz também acepção de pessoas, e todas estão no mesmo nível de igualdade.

Neste ponto, não é preciso muita explicação, pois o contexto a que Pedro se refere está suficientemente delineado.

Portanto, restam ainda duas questões a esclarecer:

1) Cristo morreu por todos na cruz?

2) No caso da salvação, Deus faria acepção de pessoas?

Esses serão capítulos à parte, que escreverei em breve, se assim Deus quiser.

Nota: [1] Alguns universalistas chegam ao extremo de afirmar que o diabo, demônios e o inferno são meras figuras de linguagem, usadas para revelar o mal como algo metafísico, abstrato, sem forma definida, onde não há sujeitos, mas parte da essência humana e que será derrotado no homem pelo próprio homem, pelo bem que subjaz em si mesmo. Em linhas gerais, para eles, Cristo veio nos dar exemplos morais, não veio salvar um grupo de eleitos, porque todos são filhos de Deus; o qual, por ser amor, não condenará ninguém.
[2] Esta questão está um pouco desfocada do objetivo do texto, mas considerei apropriado incluí-la sem desenvolvê-la suficientemente, o que poderá ocorrer em outro momento, num texto isolado sobre o assunto.

[
3] Interessante que o projeto para escrever esta série estava engavetado há algum tempo, e até achava que não a escreveria mais. Contudo, ao ler o texto do Mizael Reis, "Suponhamos que Deus não fosse soberano", obtive o estímulo necessário para realizá-lo.

Fonte: KÁLAMOS