Por Pr. Silas Figueira
Trecho do Livro: "As Sete Faces do Coração Caído"
Quando o coração abandona o Criador e se volta para as criaturas
Todo livro sobre o pecado corre o risco de começar pelo lugar errado. Pode iniciar pelas proibições, enumerar comportamentos condenáveis, descrever vícios e oferecer conselhos para que as pessoas vivam melhor. Esse caminho parece prático, mas quase sempre permanece na superfície. Tenta podar os galhos sem examinar a raiz. Combate os sintomas enquanto preserva a enfermidade que os produz.
As Escrituras seguem outra direção. Antes de falarem das mãos que praticam o mal, falam do coração que o concebe. Antes de denunciarem os frutos, mostram a árvore. Antes de tratarem das muitas expressões do pecado, revelam a ruptura fundamental da qual todas elas procedem: o ser humano afastou-se de Deus e passou a procurar nas criaturas aquilo que somente o Criador poderia lhe oferecer.
Por essa razão, os sete pecados capitais não devem ser compreendidos como sete problemas independentes. Soberba, avareza, luxúria, inveja, gula, ira e preguiça são faces distintas de uma mesma desordem interior. Mudam os objetos desejados, os comportamentos adotados e as justificativas empregadas; permanece, contudo, o mesmo movimento do coração: Deus deixa de ser reconhecido como o bem supremo, e alguma realidade criada é elevada ao lugar que pertence somente a ele.
Para compreendermos o pecado, portanto, precisamos voltar ao início. Não ao início de nossos erros particulares, mas ao início da história humana. Antes da culpa, houve inocência. Antes da corrupção, houve integridade. Antes da morte, houve vida. Antes do coração caído, houve um coração criado para conhecer, amar, adorar e servir a Deus.
Criados para refletir a glória de Deus
O primeiro capítulo de Gênesis não apresenta o ser humano como um acidente da natureza nem como um animal que, em algum momento de sua evolução cultural, começou a formular perguntas religiosas. O homem e a mulher aparecem como resultado da vontade deliberada de Deus. Foram criados à sua imagem e semelhança e receberam uma posição singular dentro da criação.
Ser imagem de Deus não significa possuir uma parcela da divindade. A criatura permanece criatura; Deus permanece o Criador. Também não significa apenas ter inteligência, linguagem, consciência moral ou liberdade de decisão, embora essas capacidades estejam relacionadas à nossa humanidade. A imagem divina envolve a totalidade da existência humana: fomos criados para conhecer a Deus, viver em comunhão com ele, refletir seu caráter, relacionar-nos com o próximo e exercer domínio responsável sobre a criação.
O ser humano não recebeu sua dignidade da sociedade, do Estado, da cultura nem de suas próprias conquistas. Ela lhe foi concedida por Deus. Antes de realizar qualquer tarefa, demonstrar qualquer capacidade ou oferecer qualquer contribuição, o homem e a mulher já eram portadores de uma dignidade derivada do Criador. Isso significa que o valor humano não depende de produtividade, inteligência, saúde, autonomia, posição social ou reconhecimento público. A criança que ainda não consegue falar, a pessoa idosa que perdeu parte de suas capacidades, o enfermo que depende de cuidados e aquele que jamais ocupará posição de destaque possuem a mesma dignidade fundamental. Não porque sejam autossuficientes, mas porque pertencem a Deus e carregam a marca de sua criação.
A
imagem de Deus também possuía uma dimensão vocacional. O primeiro casal deveria
cultivar e guardar o jardim. O trabalho, portanto, não entrou no mundo como
castigo. Antes que houvesse espinhos, fadiga opressiva, injustiça e exploração,
havia vocação. O ser humano deveria desenvolver as possibilidades da criação,
recebendo-a como dádiva e administrando-a como mordomo.
A
mesma verdade se aplica à vida em comunidade. A distinção entre homem e mulher
não surgiu depois da queda, como se as relações humanas fossem consequência do
pecado. Deus criou a humanidade para a comunhão. A solidão do homem é
apresentada como algo que não correspondia à plenitude do propósito divino, e a
mulher lhe é dada como auxílio correspondente. A vida humana seria marcada por
pertencimento, reciprocidade, fecundidade e serviço.
Nada disso era mau. O corpo não era mau. O trabalho não era mau. O alimento não era mau. O desejo não era mau. A sexualidade não era má. A posse e o uso das coisas criadas não eram maus. A capacidade de descansar, alegrar-se e desfrutar dos dons divinos não era má. Ao contemplar sua obra, Deus declarou que tudo era muito bom.
A bondade original da criação é indispensável para o estudo dos pecados capitais. O pecado não cria uma realidade inteiramente nova; ele corrompe, distorce e desordena aquilo que Deus fez bom. A criação permanece obra de Deus, mas passa a ser utilizada contra o propósito para o qual foi estabelecida.
A gula não nasce porque o alimento seja mau, mas porque um dom legítimo passa a governar o coração. A luxúria não prova que a sexualidade seja impura; revela que o desejo pode ser separado do amor e transformado em consumo. A avareza não significa que os bens materiais sejam pecaminosos; mostra que podem se tornar uma falsa promessa de segurança. A preguiça não torna o descanso condenável; converte a legítima necessidade de repouso em recusa de amar, trabalhar e servir.
A doutrina da criação impede que a santidade cristã se transforme em desprezo pelo mundo material. Deus não salva o pecador porque tenha abandonado sua criação, mas porque permanece fiel ao propósito para o qual a criou. A redenção não é uma fuga da humanidade, mas sua restauração em Cristo.
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