sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

"SUICÍDIO DE PASTORES: Uma análise dos fatores de risco que contribuem para a consumação do suicídio


Por Everton A. P. Lacerda

Oliveira entende que historicamente foi construída por parte das comunidades cristãs uma imagem distorcida da figura do pastor, atribuindo aos pastores praticamente o título de “semideuses”, cuja atribuição de poder imputada à pessoa do pastor elimina a possibilidade de que o mesmo externe suas crises e temores, isto é, qualquer sinal de limitação, desgaste, fragilidade e cansaço seja ele de ordem física, mental ou espiritual na realização de suas atividades pessoais e comunitárias. Isso fará com que ele desenvolva um estilo de vida demasiadamente exaustivo que não se pode viver por não ser autêntico, podendo o pastor “estar de tal forma identificado com o seu papel, que se perde a humanidade em função da profissão”. 

Segundo a psicóloga Dâmaris C. de Araújo Malta, esse estilo de vida, por não ser autêntico, pode desencadear um quadro doentio de depressão uma vez que a Depressão é uma síndrome biopsicossocial, um distúrbio de humor. Atualmente é a doença que mais tem incidência nos consultórios médicos. Em termos biológicos, há uma alteração fisiológica; em termos psicossociais, a depressão pode estar relacionada a algum sofrimento individual ou coletivo. O relacionamento do ser consigo mesmo, com os outros ou com um Ser Superior influencia seu modo de atuação e percepção do mundo. A depressão pode ser um resultado da interação do homem com o mundo, que muitas vezes lhe é inóspito. Pode ser a manifestação da escolha inautêntica do Ser.

Oliveira destaca três patologias citadas pelo teólogo Leonardo Boff que podem ser desencadeadas em função dessa auto desumanização. Trata-se da “negação, a obsessão e o descuido”. 

Na negação, o “ritmo frenético” em que o pastor desenvolve suas funções faz com que o mesmo, consciente ou inconscientemente seja indiferente quanto aos cuidados para consigo mesmo, não respeitando os limites e necessidades sinalizados pelo seu corpo. Sendo assim, aspectos simples e importantes relacionados às suas necessidades básicas como “alimentação, sono, lazer e descanso” são ignorados completamente. Essa negligência tem contribuição relevante para que haja o desenvolvimento desse processo de desumanização.

Na obsessão, o pastor “se perde no enfoque entre cuidado de si mesmo e o do outro, passando a se proteger de tal forma que prejudica o seu exercício profissional e suas próprias relações. A relação de ajuda acontece de forma impessoal, técnica e comercial”.

No descuido, devido à falta de percepção quanto à importância do cuidado de si mesmo, o desempenho do cuidador será totalmente comprometido e prejudicado, tornando sua jornada insustentável mediante o excesso de compromissos e responsabilidades. O produto desse descuido contribuirá para o aumento do número de divórcios, doenças e suicídios que acometem os pastores.

A construção dessa imagem pastoral distorcida desrespeita, deforma e agride a humanidade desse pastor, contribuindo para que os pastores sabotem de forma oculta as suas próprias emoções e “temam ao mostrar determinadas emoções e sentimentos, a dúvida, a fragilidade, os desejos e interesses estritamente pessoais ou tudo quanto puder ser visto por outros como uma falha”. A internalização contínua dessas emoções resultará no desenvolvimento de graves enfermidades de ordem física, mental e emocional. 

Diante dessa realidade, o pastor por sua vez, pressionado a não viver sua humanidade, nega seu cansaço, seus sentimentos de tristeza e fracasso, em seu sofrimento, descuida dos aspectos importantes da sua vida e submete-se em nome da “Obra do Senhor” (e de acordo com a sua visão de ministério) a um ativismo alienante que pode levá-lo a uma vida extremamente solitária. Embora cercado de tantos irmãos, sente-se impedido de expressar seus autênticos sentimentos e sua vida diante deles.

Segundo Camon, psicoterapeuta e Assessor do Serviço de Atendimento aos Casos de Urgência e Suicídio da Secretaria de Saúde de São Paulo, essa condição existencial solitária ao ser vivenciada, consequentemente estabelece uma filosofia de vida insuportável de se viver por causa do isolamento. Esse sofrimento extremo ocasionado pela ausência do outro iniciará um “processo contínuo e doloroso” que desembocará, portanto, no desespero pela opção do suicídio. “A morte se apresenta, então, como única alternativa para a sensação de não suportar o peso da própria vida, da própria condição humana”.

A psicóloga Oliveira não somente concorda com Camon, como deixa sua contribuição esclarecendo que “a solidão é um perigo que ameaça constantemente os cuidadores e tem sido uma das principais queixas de pastores que precisam remover a couraça da solidão. Não se trata de uma solidão física, mas existencial”. 

Sejam as demandas desmedidas estabelecidas por parte da comunidade ou por parte do próprio pastor, a realidade é que No meio eclesial, nós, ministros religiosos, temos sofrido sob fortes pressões na área do trabalho. Algumas são impostas pela comunidade, outras são assumidas por nós mesmos. Nossa tarefa tem sido descobrir e trabalhar necessidades emocionais negadas ou atrofiadas por fatores, tais como: compreensão errônea do papel desempenhado na comunidade (super pastor); sobrecarga de atividades e agenda sempre cheia; expectativas em relação à família pastoral de ser uma família perfeita, etc. 

Pastores se suicidam quando não são cuidados em suas crises.

Dentro desse complexo contexto, é de grande relevância o relato do pastor norte-americano Bill Hybels quando diz que uma das maiores preocupações e foco de grande tensão e conflito pessoal interno demonstrado por pastores, estão diretamente relacionados ao elevado nível de estresse e ao peso das pressões que são exercidas sobre eles. Portanto, nenhum pastor está imune de vivenciar a experiência de sentir que a emoção de servir a Cristo foi “substituída por uma sensação d morte iminente”.

O mesmo autor menciona a insegurança dos mesmos em relação à capacidade de resistência em relação a elas, alguns de maneira desesperadora procuram forças para seguir em frente, outros questionam a si mesmos quanto à possibilidade de continuar no ministério, enquanto outros demonstram estarem a ponto de ter um colapso nervoso. Também outros se indagam se conseguiriam sobreviver ao seu chamado. 

Tais aspectos de comportamentos mencionados por Hybels são alarmantes e dão claras evidências de sinais de depressão, uma vez que Os sinais de depressão incluem tristeza, apatia e inércia, tornando difícil continuar vivendo ou tomar decisões; perda de energia e fadiga, normalmente acompanhadas de insônia; pessimismo e desesperança; medo, autoconceito negativo, quase sempre acompanhado de autocrítica e sentimento de culpa, vergonha, senso de indignidade e desamparo; perda de interesse no trabalho, sexo e atividades usuais, perda de espontaneidade dificuldade de concentração; incapacidade de apreciar acontecimentos ou atividades agradáveis; e, frequentemente perda de apetite.

Segundo Oliveira, como são muitas as limitações e as fraquezas do pastor, assim também são muitas as crises vivenciadas por ele. A incapacidade dos pastores de reagir diante das exigências utópicas e desmedidas que lhes são impostas tem colaborado para o desenvolvimento de graves crises que não são tratadas adequadamente, como crises relacionadas ao seu pastorado, “de identidade, vocacionais, crises de relevância e metodologia, crises diante da queda de um colega, crise diante do desalento e temor, crises familiares, sociais, econômicas e crises espirituais”. Os desdobramentos mediante o não acolhimento de alguém que está passando por essas crises podem originar um quadro de angustia e depressão irreversível, resultando na descontinuidade permanente das atividades pastorais.

Pastores se suicidam quando entram em Burnout.

Oliveira também alerta para uma doença chamada Síndrome de Burnout, sendo considerada como “síndrome da desistência, de exaustão ou de consumição”. Ainda que pouco conhecida, tem sido muito comum diagnosticá-la em pastores devido às demandas desmedidas e metas utópicas as quais se submetem e se frustram por não atingirem. Embora muitas vezes confundida com o “Stress”, a Síndrome de Burnout é provocada pelo excesso ou sobrecarga de trabalho, provocando no pastor não somente esgotamento físico, mas também mental, emocional e espiritual.

Segundo a definição de Maslach e Jackson, essa síndrome “é uma reação à tensão emocional crônica gerada a partir do contato direto e excessivo com outros seres humanos, particularmente quando estes estão preocupados ou com problemas”, seus sintomas produzem “exaustão emocional, despersonalização e redução da realização pessoal”.

Oliveira entende que a exaustão emocional pastoral é “caracterizada por um sentimento muito forte de tensão emocional que produz uma sensação de esgotamento, de falta de energia e de recursos emocionais próprios para lidar com as rotinas de prática profissional”. Essa incapacidade emocional gera a “despersonalização” que fará com que as pessoas compreendidas até então em um vínculo de afetividade sejam negativamente coisificadas e tratadas a partir de então como objeto e não mais como pessoas. Essa desumanização que não entende mais o ser humano como pessoa e sim como coisa ou objeto produzirá inevitavelmente a “falta de realização pessoal”, que comprometerá negativamente o desempenho de suas habilidades.

O doutor Dráuzio Varela, citado pela psicóloga Oliveira, entende que: O sintoma típico de Burnout é a sensação de esgotamento físico e emocional, que se reflete em atitudes negativas, como ausência no trabalho, agressividade, isolamento, mudanças bruscas de humor, irritabilidade, dificuldade de concentração, lapsos de memória, ansiedade, depressão, pessimismo, baixa autoestima. Dor de cabeça, enxaqueca, cansaço, sudorese, palpitação, pressão alta, dores musculares, insônia, crises de asma, distúrbios gastrintestinais são manifestações físicas que podem estar associada à síndrome.

Segundo o pastor Ednilson Correia de Abreu, os pastores não somente têm todo o “perfil” como também estão inclinados a desenvolverem essa doença. Sendo assim, o Burnout é “um mal que parece ter sido feito sob medida para os líderes pastorais”, uma vez que pregar, ensinar, liderar, aconselhar, visitar, consolar, encorajar, corrigir, planejar, mediar e administrar a instituição eclesiástica são tarefas que têm tudo a ver com a possibilidade de sofrer com esta síndrome. A ausência de cuidados específicos desse problema pode trazer grandes riscos à saúde física, mental, emocional e também espiritual, sendo necessária uma intervenção médica psiquiátrica devido o perigo de um possível suicídio no avanço da doença.

Olhando para esse cenário, e a fim de manter robusta a vocação pastoral, destaca o pastor Nelson que, o contexto social em que vivemos tem afetado diretamente o pastor e sua família. Essa temática exige de todos nós um esforço concentrado, visando analisar, sob todos os aspectos, a realidade em que nos encontramos. Se conseguirmos nos despertar para a urgência e a necessidade de levar a sério a questão e tomarmos algumas providencias pessoais, familiares e institucionais, isso nos levará a alcançar condições mais favoráveis e saudáveis para os relacionamentos que envolvem a figura pastoral.

Fonte: Extraído parte do livro "SUICÍDIO DE PASTORES: Uma análise dos fatores de risco que contribuem para a consumação do suicídio. Do pastor Everton A. P. Lacerda

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