Por Silas Figueira
Texto base:Lucas 10.11-24
INRTRODUÇÃO
A
parábola do filho pródigo, como esta narrativa é normalmente chamada, é uma das
histórias mais amadas em todo o mundo. E maior e mais complexa do que as duas parábolas
anteriores, e tem uma aplicação mais ampla. Mas o ponto principal da história é
o mesmo das que a precedem. A parábola completa inclui os versículos 11-32, mas
ela é tratada aqui em duas partes; a primeira cuida do filho pródigo (o mais
novo), e a segunda do filho mais velho. A parábola é encontrada apenas em
Lucas. [1]
Muitos
consideram esta história esplêndida como a melhor de todas as parábolas, diz
Leon Morris. Certamente está entre a mais querida de todas elas. O coração
humano corresponde à mensagem do amor perdoador que Deus tem para os pecadores,
conforme é tão claramente exposto aqui. Jesus não está tratando aqui com a
totalidade da mensagem do evangelho, mas, sim, do único grande fato do amor perdoador
de Deus. [2] Esta última parábola trata de três
personagens: o filho mais novo, o filho mais velho e o Pai amoroso. [3]
John
MacArthur destaca que:
De fato, o contexto de Lucas 15, com seu tema de alegria
celestial pelo arrependimento terreno, revela o sentido de todas as maiores características
da parábola. O filho pródigo representa um típico pecador que se arrepende. A
paciência, o amor, a generosidade e a alegria do pai pelo retorno do filho são
emblemas claros e perfeitos da graça divina. A mudança na atitude do filho
pródigo é um retrato de como deve ser o arrependimento verdadeiro. E a indiferença
fria do irmão mais velho — o verdadeiro foco da história, no fim das contas — é
uma representação vívida da mesma hipocrisia maligna que Jesus estava
confrontando, encontrada no coração dos escribas hostis e dos fariseus a quem
ele primeiro contou a parábola (Lucas 15.2). Eles se ressentiam amargamente dos
pecadores e cobradores de impostos que se aproximaram de Jesus (v. 1), e
tentaram encobrir sua indignação mundana com pretextos religiosos. Mas suas
atitudes traíram sua falta de fé e seu egoísmo. A parábola de Jesus arrancou a
máscara de sua hipocrisia. [4]
Fritz
Rienecker também destaca que na narrativa sobre o filho perdido Jesus passa da defesa
para o ataque. Confronta seus críticos, na pessoa do filho mais velho na
parábola, com a abjeta réplica destes. Por isso essa terceira parábola
constitui um complemento final para as duas primeiras parábolas. [5]
Esta
história mostra a natureza do arrependimento. O mais moço pode representar os
judeus pecadores (vs. 1,7,10) e o mais velho, os que criticavam Jesus. O pai
provavelmente não representa Deus (note que ele é distinguido do “céu” nos vs.
18,21), mas demonstra semelhança com Deus. [6]
Olhemos
com detalhes para esta parábola do filho pródigo.
1
– A PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO (Lc 15.11-24).
Chamamos
essa história de “Parábola do Filho Pródigo” (pródigo quer dizer “esbanjador”),
mas poderia ser chamada também de “A Parábola do Pai Amoroso”, pois sua maior
ênfase não é sobre a pecaminosidade do filho, e sim sobre a benevolência do
pai. Ao contrário do pastor e da mulher nas parábolas anteriores, o pai não
saiu à procura do filho, mas foi a lembrança da bondade do pai que levou o
rapaz ao arrependimento e ao perdão (ver Rm 2.4). [7]
Antes
de analisarmos com detalhes a parábola do filho pródigo, vejamos alguns pontos
a nível de introdução.
Em
primeiro lugar, o Senhor Jesus Cristo era um mestre contador de histórias.
Suas histórias eram analogias inigualáveis esclarecendo verdades espirituais. Tinham
um profundo significado espiritual relativo ao reino de Deus e da salvação, que
eram, em si mesmos, histórias extraídas da experiência da vida cotidiana dos seus
ouvintes. Fritz Rienecker destaca que a parábola do filho perdido foi delineada
de forma muito especial, magistral. – Contudo a tônica dessa terceira parábola
não recai sobre o filho perdido, nem sobre sua perda, nem em seu retorno para
casa, mas sobre o pai. [8]
Em
segundo lugar, esta parábola retrata a inclinação natural do coração do
homem. Nosso Senhor nos mostrou um “filho mais moço” que se apressou em
seguir seu próprio caminho, partiu para uma terra distante, longe da casa de um
pai bondoso, e “lá dissipou todos os seus bens, vivendo dissolutamente”. Temos
aqui um retrato fiel da mentalidade com a qual todos nascemos. Somos
semelhantes a esse rapaz. Por natureza, somos orgulhosos e voluntariosos. Não
temos prazer na comunhão com Deus. Apartamo-nos dEle, indo para bem distante de
sua pessoa. Desperdiçamos nosso tempo, energias, capacidades, afeições em
coisas inúteis. [9]
Em
terceiro lugar, esta parábola retrata a alegria de Deus sobre a salvação dos
perdidos. Enquanto as duas primeiras parábolas enfatizam a busca de Deus
pelos pecadores, esta terceira parábola centra-se mais no aspecto humano da
salvação do homem, sua rebelião, o arrependimento, e a volta para Deus.
2
– OS PASSOS DO FILHO MAIS JOVEM – DA REBELIÃO AO ARREPENDIMENTO (Lc 15.11-24).
A
primeira parte da parábola, a descrição do filho mais novo, contém cinco blocos
que correspondem aos estágios de desenvolvimento na vida de um pecador que se
converte: a partida (v. 11,12); a miséria em terra distante (v. 13-16); a
contrição pelo pecado (v. 17-19); o retorno ao pai (v. 20s); a aceitação do
filho (v. 22-24). Em outras palavras: pecado, castigo, arrependimento,
conversão e justificação. [10]
Em
primeiro lugar, a partida (Lc 15.11-13). O filho vivia na casa do Pai,
tinha comunhão e conforto. Nada lhe faltava: ele tinha abrigo, pão, roupa,
calçado e anel no dedo. Tudo o que pai possuía também lhe pertencia. Ele vivia
cercado de bênçãos. Porém, um dia aquele jovem cavou um poço de insatisfação
dentro do seu próprio coração e começou a sentir-se infeliz dentro da casa do
Pai. Esticou o pescoço, olhou pela janela da cobiça e viu, além do muro, um
mundo colorido, atraente, cheio de emoções. Desejou ardentemente conhecer o
outro lado. Então, pediu ao pai a sua herança e partiu para grandes e intensas
aventuras. [11]
a)
Ele fica enfadado - Hendriksen diz que o mais jovem dos filhos enfadou-se de
ficar em casa. Como tem sido o caso com alguns jovens desde então (e a situação
é ainda mais deplorável hoje), esse jovem queria se ver livre das peias
paternas. Estava convicto de que, ao ficar sozinho, longe dos olhos de seus
pais (embora nessa parábola não se mencione a mãe), poderia fazer o que bem
quisesse, e essa “liberdade” o faria feliz. [12] A. T. Robertson também destaca
que o pai não tinha que abdicar em favor dos filhos, mas “esta parábola muito
humana retrata a impaciência com as limitações do lar, e a ambição otimista da
juventude”. [13]
b)
Ele não mede as consequências de suas ações – Não era totalmente incomum na
história judaica o pai dar a herança ao filho mais novo antes da sua morte.
Abraão deu a herança de Isaque e seus outros filhos, antes da sua própria morte
(Gn 25.5-6). Porém era totalmente irregular que o filho a pedisse. [14]
Diante
de tal desejo, este jovem burla todos os costumes da época. O costume era que
que a propriedade fosse disposta por um testamento executado após a morte do
pai, não por meio de pedido enquanto ele ainda estava vivo (Nm 27.8-11). Era
considerado insensato, embora não exatamente ilegal, dispor da propriedade
durante a vida do dono. O pedido do filho mais moço envergonha tanto o pai
quanto a família. É um certificado de declaração pública que ele não quer mais
viver com a família nem ser identificado com ela. O filho ao pedir o que devia
ser disponibilizado apenas após a morte do pai, está, com efeito, escrevendo o
certificado de morte de seu pai. Na sociedade judaica da Antiguidade, essa era
uma ofensa praticamente imperdoável. [15]
Como
bem relatou John MacArthur:
Esse talvez tenha sido o aspecto mais perturbador do
comportamento do Filho Pródigo. Um filho naquela cultura pedir a herança
antecipada era o mesmo que dizer: “Pai, queria que você estivesse morto, você
está atrapalhando meus planos. Você é uma barreira. Eu quero a minha liberdade.
Eu quero minha realização pessoal. E quero deixar esta família agora. Tenho
outros planos que não envolvem você, esta família, esta propriedade e nem mesmo
esta cidade. Eu não quero me relacionar com nenhum de vocês. Dê-me a minha
herança agora porque vou embora daqui”. [16]
A
insatisfação levou esse jovem a rebelião contra o pai, a família e a cultura da
época. Assim é o pecado no coração do homem. Ele cega a tal ponto que a pessoa
não pensa nas consequências na vida das outras pessoas. Ele age egoisticamente.
Ele só pensa nele e no seu “bem-estar”. Este jovem queria partir para uma terra
que não trouxesse nenhuma lembrança de sua família, dos costumes de sua terra e
que fosse longe dos olhos do pai.
c)
O filho busca mais os seus prazeres do que o pai. Está mais interessado em
curtir a vida do que em agradar ao pai. Prefere o pai morto a adiar seu desejo
de experimentar os prazeres do mundo. Ele mata seu pai no coração e sai de casa
levando todos os seus haveres. Para onde esse filho vai? Para uma terra
distante! Essa terra distante pode ser o seu coração, o seu computador, o seu
bairro, a sua cidade, a sua televisão, o mundo onde você tenta se esconder de
Deus para curtir os prazeres do pecado. A terra distante é todo lugar onde você
pensa que a felicidade estará disponível para você à parte de Deus. A terra
distante no início é cheia de encantos. Há amigos e festas. Há alegrias e
celebrações. Há encontros e reencontros. Mas, no fim, sobra um gosto amargo na
boca, um vazio na alma e uma terrível solidão assolando seu peito. [17]
No versículo 13 lemos que
ele “desperdiçou os seus bens vivendo irresponsavelmente”. Era nessa direção
que a rebelião do Pródigo o estava levando desde o começo. A palavra grega para
“desperdiçar” é diasko pizô. É uma palavra que evoca a ideia de
separação do grão, quando a pessoa joga o grão para o alto e deixa o vento
soprar os resíduos. Significa, literalmente, “espalhar”. Ele simplesmente jogou
tudo fora – “vivendo irresponsavelmente”. Ele desperdiçou uma fortuna
rapidamente, gastando sua herança na busca do mal. [18]
d)
O pai não diz nada ao filho – No começo da parábola o pai é o grande calado. Da
mesma maneira também Deus permite silenciosamente que o ser humano faça o que
quer. Poderia protegê-lo do pecado pelo poder da graça. Mas Deus concede ao ser
humano a liberdade. Isso é surpreendente e difícil de compreender. Mas visto
que de acordo com a vontade de Deus o ser humano foi criado em liberdade e para
a liberdade, Deus permite ao ser humano que tome uma decisão realmente livre. Deus
permite ao ser humano que siga a estrada que ele mesmo escolhe, deixando-o
decidir e proceder de acordo com seus próprios desejos. Curioso é apenas que as
pessoas, enquanto estão bem, não pensam em Deus. Quando, porém, passam a sentir
problemas, culpam a Deus. O filho mais novo na parábola, porém, não age dessa
maneira. É essa a sua salvação. [19]
Em
segundo lugar, a miséria em terra distante (Lc 15.14-16). Leon Morris
destaca que duas desgraças o feriram simultaneamente – esgotaram-se seus recursos,
e sobreveio àquele país uma grande fome. [20] O resultado dessa vida dissoluta
o Senhor nos mostrou depois que o filho mais moço desperdiçou todos os seus
bens. Ele foi reduzido à condição de necessitado e obrigado a assumir o
trabalho de “guardar porcos” e sentindo-se tão faminto, que estava disposto a “fartar-se
das alfarrobas que os porcos comiam; mas ninguém lhe dava nada”. [21]
a) O pecado cega a pessoa
e leva à ruína. O pecado nunca dá o que promete, e os
prazeres da vida que os pecadores pensam que estão buscando sempre acabam por
se tornar exatamente o contrário: uma dura estrada que inevitavelmente leva à
ruína e ao ponto final definitivo. “Pois o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23).
“Pois se vocês viverem de acordo com a carne, morrerão” (Rm 8.13). “O pecado,
após ter se consumado, gera a morte” (Tg 1.15). O Pródigo estava prestes a
descobrir essas verdades de uma forma bem dolorosa e vívida. [22]
b)
O arrogante foi abatido. A fome bateu à sua porta. Ele perdeu tudo. Os amigos
fugiram. Os prazeres tornaram-se um dilúvio de sofrimento. O jovem começou a
passar necessidades. Foi parar num chiqueiro lodacento, coberto de trapos, com
o estômago fuzilado por uma fome estonteante. O diabo é um enganador, o pecado
é uma fraude, e o mundo é ilusório. O colorido do mundo não passa de uma ilusão
ótica. Ele é cinzento como um deserto sem vida. O pecado não compensa. O seu
salário é a morte. [23]
Hendriksen
lembra: Um judeu alimentando porcos, animais imundos (Lv 11.7), quão degradante
era! Quão humilhante era! Não era algo comum entre os judeus este dito: “Que a
maldição caia sobre o homem que cuida de porcos”? [24] O Rabino Mendy Kaminker
diz que provavelmente não existe nenhum animal tão repugnante para as
sensibilidades judaicas quanto o porco. Não é só porque não pode ser comido: há
muitos outros animais que também não são casher, mas nenhum deles causa tanto
nojo quanto o porco. Coloquialmente, o porco é o símbolo máximo de ódio; quando
você diz que alguém “agiu como um chazir [porco]”, isso sugere que ele ou ela
fez algo anormal e abominável. [25]
Jesus
nesta parábola coloca este jovem no mais baixo nível moral que um judeu poderia
chegar. Lembrando que este jovem simbolizava os pecadores e os publicanos que
foram procurar Jesus.
Uma
fome severa é um dos piores desastres que podem acontecer a uma nação. Aqui
está a pequena descrição do autor William Manchester dos casos de fome na
Europa durante a era medieval:
Os anos de fome foram terríveis. Os camponeses podiam ser
obrigados a vender tudo o que possuíam [...] Nos piores momentos, eles
devoravam cascas de árvores, raízes, grama; até mesmo barro branco. O
canibalismo não era desconhecido. Estrangeiros e viajantes eram emboscados e
mortos para serem comidos, e há histórias de forcas sendo derrubadas – até
vinte corpos ficavam pendurados por um único patíbulo – por homens frenéticos
para comer a carne crua fresca. [26]
c)
O mundo degrada. O pecado degrada. Hoje é apenas uma olhadela cheia de
sensualidade. Amanhã é uma vida rendida à impureza. Hoje é apenas um cigarro,
um trago, uma dose, uma cheirada. Amanhã é uma escravidão cruel. Hoje é apenas
uma festa, um show, uma madrugada. Amanhã é uma alma vazia, um coração seco,
uma vida totalmente longe de Deus. [27]
Em
terceiro lugar, a contrição pelo pecado (Lc 15.17-19). Nosso Senhor nos
conta que o filho mais moço, “caindo em si, disse: Quantos trabalhadores de meu
pai têm pão com fartura, e eu aqui morro de fome! Levantar-me-ei, e irei ter
com o meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti”.
a)
E, caindo em si – como se estivesse se levantando de um pesadelo. Ele esteva
moral e espiritualmente cego, não era capaz de enxergar as coisas como elas
realmente eram; seu senso de valores estava desequilibrado. Agora ele via
muitas coisas mais claramente e a partir de uma perspectiva certa. Mas
principalmente via a si mesmo como ele realmente era. Viu que não estava apenas
destituído, mas que aquele pecado - o seu próprio pecado - era a causa. [28]
b)
Nem todos os pecadores caem em si. A persistência de alguns pecadores é
impossível de se explicar de maneira racional. Algumas pessoas são tão
obstinadas a fazer as coisas do seu jeito que, mesmo quando estão sofrendo as
consequências desagradáveis de suas transgressões, não abandonam a busca. Elas
podem adoecer e morrer (literalmente) com as repercussões de seus pecados e,
ainda assim, não os abandonarem. O pecado é uma escravidão que elas não
conseguem vencer. [29]
c)
A história de Jesus permite-nos entrar nos pensamentos particulares do jovem e
ouvir seu raciocínio de arrependimento. A separação do lar e dos bens também o
tinha separado de seu bom senso. Essa separação é revertida por sua
autopercepção. Assim começa o processo do seu retorno, ambos espiritualmente e
fisicamente. [30] James R. Edwards diz que a primeira consequência de “cair em
si” é a clareza de pensamento e a autoavaliação honesta que, na presente
condição dele, é totalmente de “pereço” de fome (v. 17; ARC). A palavra grega
por trás de “pereço” (apollyein), ocorre oito vezes em Lucas 15 com
referência ao “perdido”. É uma admissão essencial, pois o perdido pode ser
encontrado. [31]
d)
Esse jovem se lembra da casa do pai e reconhece seu estado de degradação. Ele
se arrepende e admite seu fracasso. Ele põe um ponto final na escalada da sua
queda e toma a decisão de voltar para a casa do pai. Em seu arrependimento, não
existe exigência, e sim penitência. Ele não se apresenta requerendo nada, mas
suplicando misericórdia. Não pensa mais em direitos, mas apenas em servir. [32]
MacArthur
diz que o egoísmo e o pecado que o tornaram tão cego tinham desaparecido. Ele
finalmente via as coisas de forma clara. Logo depois de todo o desastre que seu
pecado trouxe para ele, tudo o que ele rejeitou e deixou para trás começou a
ficar atraente. Ele sabia que tinha renegado permanentemente seu status como filho,
mas mesmo ser empregado de seu pai certamente seria melhor do que viver
cuidando de porcos. Além disso, qualquer desgraça que ele viesse a enfrentar
voltando para casa não era nada se comparada à vergonha de viver com porcos.
[33]
“...não
sou digno...” Champin diz que o jovem abominou a si mesmo, e então percebe o
quão cego fora antes, vendo sua própria justiça como trapos imundos, reduzido a
uma miséria humana, por causa dos maliciosos resultados do pecado, que havia
degradado o seu corpo e a sua mente. Não obstante, continuava chamando de pai
ao seu pai, a relação filial ainda persistia, embora não fizesse qualquer
reivindicação nesse particular. Antes fora, ‘qualquer lugar, menos o lar’. [34]
Em
quarto lugar, o retorno ao pai (Lc 15.20,21).
Os homens precisam estar cientes de que não devem limitar-se apenas a pensar.
Nutrir bons pensamentos sempre é bom para a alma, mas não resultam no cristianismo
que salva. Se o filho pródigo não tivesse ido além de pensar, teria permanecido
longe de casa até ao dia de sua morte. [35]
a)
Esse jovem fez o que resolvera fazer. Saiu e seguiu seu caminho. Teria sido uma
longa jornada, pois ele fora para um país distante (v. 13). Além disso, em sua debilitada
condição a viagem de regresso teria sido difícil. Ele, porém, perseverou. [36] Há
muitas pessoas que apenas decidem, mas não agem. Desejam, mas não se levantam.
Você não é o que você sente, mas o que você faz. Agora é tempo de se levantar.
E tempo de sair da sua terra distante e correr para os braços do Pai. Muitas
pessoas fracassam porque pensam: Um dia vou mudar minha vida. Um dia vou sair
desse buraco. Um dia eu vou deixar o vício. Levante-se! Aja! [37]
b)
A reação do pai ao ver o filho é algo surpreendente. Sua vigilância indica a
ansiedade pela qual passou. Quando o filho apareceu sua fé foi recompensada.
Ele não sabia com que disposição o filho vinha – apenas que voltara – e correu
ao encontro dele. Sua acolhida foi tão exuberante que o rapaz não teve sequer
oportunidade de pedir a posição de servo. O contraste entre o que o filho
esperava e o que recebeu é surpreendente. A atitude do pai ilustra
perfeitamente o amor de Deus pelos que se arrependem. [38]
Leon
Morris destaca que Jesus não diz que o Pródigo iria voltar para sua própria
aldeia ou até mesmo para seu lar, mas sim, para seu pai. Fica claro que o velho
tinha esperança em tal volta, e que ficava vigiando. Jesus enfatiza as
boas-vindas que o pai deu para seu filho indigno. Viu-o enquanto estava ainda
longe, compadeceu-se dele, e, correndo (coisa notável num oriental de idade), o
abraçou (“lançou-se-lhe ao pescoço”) e o beijou. Este último verbo, katephilesen,
pode significar “beijou-o muitas vezes” ou “beijou-o ternamente”. [39]
c)
A reação do pai foi uma ofensa para os fariseus. A reação do pai não só ofendeu
aos fariseus, mas também a cultura da época. Conforme o Filho Pródigo se
aproximava da casa de seu pai, a realidade e a urgência de sua situação devem
ter sido seu principal pensamento. Sua vida agora dependia completamente da
misericórdia do pai. Sem os recursos da família, ele não teria nenhuma esperança.
Todos no vilarejo agora certamente o desprezariam; as pessoas tinham de fazer
isso para proteger a própria honra. Por isso, o Pródigo estava indefeso no
equilíbrio entre a vida e a morte, e se o pai virasse as costas, ele estaria
condenado. Naquela cultura, ninguém ao menos pensaria em acolhê-lo se o próprio
pai o declarasse um pária. Tudo girava em torno da reação do pai do Pródigo.
[40]
O
filho pródigo corria o risco de ser apedrejado pelos anciãos da aldeia (conf.
Dt 21.18-21), se o pai não o perdoasse. Mas o filho arriscou tudo, pois ele
conhecia o coração do pai. Ainda que não fosse mais tratado como filho, mas como
um simples empregado do pai, mesmo assim seria gratificante ser um funcionário
do pai, pois, até estes, eram muito bem tratados.
Em
quinto lugar, a aceitação do filho (Lc 15.22-24). A ilimitada
misericórdia de nosso Senhor deve ser gravada profundamente em nossa memória e
arraigada em nosso coração. Jamais esqueçamos: Ele “recebe pecadores”. Ao
Senhor Jesus e à sua misericórdia, os pecadores devem recorrer, quando
manifestam seus primeiros desejos de salvação. É em Jesus e em sua misericórdia
que os crentes têm de viver, quando foram ensinados a arrepender-se e creram. O
apóstolo Paulo disse: “Esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no
Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl 2.20). [41]
a)
O perdão do pai é maior que o pecado do filho. Kenneth Bailey diz que o pai
sabe como a aldeia tratará o rapaz por ocasião de sua chegada. O pródigo será
escarnecido por uma multidão que se reunirá espontaneamente quando a notícia
correr a aldeia, falando da sua volta. Ele será sujeito a cantigas zombeteiras
e muitos outros tipos de abuso verbal, e quem sabe até físico. Por isso que o
pai corre ao encontro do filho assim que o avista. Mas há algo muito
interessante nessa atitude do pai. Bailey também diz que um nobre oriental com
roupas esvoaçantes nunca corre para parte alguma. Fazê-lo é humilhante. Aos
olhos do oriental é indigno um homem de idade correr. Aristóteles diz: “Os
grandes homens nunca correm em público” [42] No entanto, o pai do Pródigo corre
para protegê-lo da aldeia. Ele se torna escudo para o filho.
E
antes do filho terminar sua confissão, o pai já havia ordenado que ele seria
honrado com roupas novas, recebido com a autoridade de filho, presenteado com
um anel no dedo e declarado um homem livre, com sandálias nos pés. O novilho
cevado cuidadosamente tratado e preparado para uma ocasião especial de
celebração foi imolado, e eles começaram a festejar a volta do filho que estava
perdido e morto. [43]
MacArthur
diz que o pai ordenou que seus servos o tratassem como se o Pródigo fosse da
realeza: “Você, pegue a roupa e ponha nele; você, ponha o calçado em seus pés e
o anel em sua mão.” A mensagem era clara: o pai estava concedendo ao rapaz não
só perdão total e reconciliação completa, mas também todos os privilégios de um
filho de nobre que atingiu a maioridade e se mostrou digno. [44] Morris destaca
que na festa em que começaram a regozijar-se talvez o filho mais jovem achou
algo do prazer sólido que procurara em vão no país distante. [45]
Willian
Hendriksen destaca:
Observe as ordens enérgicas. Tão ilimitada é a alegria do pai e
tão completo seu perdão que deseja que seu filho seja tratado como uma pessoa
importante. Portanto, que seus servidores tragam a melhor roupa, símbolo de
alto nível social, e que o vistam. Em sua mão deve figurar um anel,
provavelmente um anel com selo (Gn 41.42), indicação de autoridade. Que lhe
sejam calçadas sandálias, porque ele não é escravo, mas um homem livre. Havia
também um bezerro cevado para ser sacrificado em alguma ocasião especial,
quando se esperavam visitas importantes. Ora, poderia haver uma ocasião mais
apropriada para se usar esse bezerro do que precisamente agora? Seguramente,
não. Assim o pai ordena que o bezerro seja morto para que haja uma jubilosa
celebração. [46]
Mas
tudo isso ocorreu na entrada da aldeia. O filho percorreu a aldeia até a casa
do pai não como um mendigo, mas como um príncipe.
b)
O pai efetua uma imediata reversão de cada aspecto da separação do filho. Ele é
reunido à sua propriedade, ao seu país de origem, ao alimento e ao pai. A
declaração do pai é paradigmática para o Evangelho: Pois este meu filho estava
morto e voltou à vida; estava perdido e foi achado (v. 24). [47]
James
R. Edwards diz que a rebelião e partida do filho foi uma morte, para ele mesmo,
para o pai. Sua volta – como a recuperação da ovelha perdida (v. 6) e da moeda
perdida (v. 9) – é o achar do perdido, à própria vida! [48]
CONCLUSÃO
Lembre-se
de que o pai na parábola é uma representação de Cristo. É ele quem carrega a
reprovação do pecador, convida os pecadores arrependidos a buscarem abrigo nele
e abraça todos que o aceitam. Ele disse: “Todo aquele que o Pai me der virá a
mim, e quem vier a mim eu jamais rejeitarei” (Jo 6.37). Existe uma fonte inesgotável
de misericórdia nele. Podemos nos apresentar diante dele sem medo e obter
misericórdia e graça que nos ajude no momento da necessidade (Hb 4.16). Ele
substitui os trapos podres de nosso pecado pela roupa perfeita de sua justiça
(Is 61.10). Ele oferece perdão, honra, autoridade, respeito, responsabilidade,
acesso total a todas as suas riquezas celestiais e todo o direito de orar em
seu nome. [49]
Pense
nisso!
Bibliografia:
1 – Childers,
Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro,
RJ, 2006, p. 453.
2 – Morris, Leon L.
Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São
Paulo, SP, 1986, p. 225.
3 – Lopes,
Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP,
2017, p. 461.
4 – MacArthur,
John. A Parábola do Filho Pródigo, Ed. Thomas Nelson, Rio de Janeiro, RJ, 2016,
p. 16.
5 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas,
Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005, p. 322.
6 – Ash, Anthony Lee. O Evangelho Segundo
Lucas, Ed. Vida Cristã, São Paulo, SP, 1980, p. 239.
7 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo
Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP,
2007, p. 305.
8 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas,
Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curi-tiba, PA, 2005, p. 323.
9 – Ryle, J. C. Meditações no Evangelho de
Lucas, Ed. FIEL, São José dos Campos, SP, 2002, p. 261.
10 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de
Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005, p.
323.
11 – Lopes,
Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP,
2017, p. 461.
12 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, Ed.
Cultura Cristã, São Paulo, SP, 2003, p. 296.
13 – Robertson, A. T. Comentário de Lucas,
Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2013, p. 277.
14 – Childers, Charles L. Comentário
Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 453.
15 – Edwards, James R. O Comentário de Lucas, Ed. Shedd, Sto Amaro, SP, 2019, p. 557.
16 – MacArthur,
John. A Parábola do Filho Pródigo, Ed. Thomas Nelson, Rio de Janeiro, RJ, 2016,
p. 63.
17 – Lopes,
Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP,
2017, p. 464.
18 – MacArthur, John. A Parábola do Filho
Pródigo, Ed. Thomas Nelson, Rio de Janeiro, RJ, 2016, p. 78.
19 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de
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