quarta-feira, 19 de abril de 2023
sábado, 15 de abril de 2023
A CURA DE UM HIDRÓPICO - Lucas 14.1-6
Por Pr Silas Figueira
Texto base: Lucas 14.1-6
INTRODUÇÃO
A frase “aconteceu num sábado”, indica um tempo indeterminado durante a jornada de Jesus a caminho de Jerusalém (Lc em 9.51-19.27). O local exato onde o incidente ocorreu não é certo, embora Jesus provavelmente estivesse na Perea. Estas festas no dia de sábado eram comuns, e Jesus foi convidado para várias delas. A única restrição feita nestas ocasiões era que a comida deveria ser preparada no dia anterior. [1] Esta refeição foi na casa de um dos chefes dos fariseus, possivelmente, o chefe da sinagoga local ou até mesmo um membro do Sinédrio. A refeição foi ao meio-dia de sábado, que teve lugar após a reunião da manhã na sinagoga. A adoração do sábado e a refeição do sábado são um reflexo uma da outra – momentos de receptividade descontraída, alegria, recebendo o que Deus generosamente dá na criação e na salvação, e agora compartilha dessa fartura uns com os outros na hospitalidade de uma refeição e de uma boa conversa. Somos criaturas necessitadas. Precisamos comer e beber, precisamos de abrigo e roupa. E Deus. Nenhum de nós é autossuficiente. [2]
Fritz Rienecker destaca
que para o banquete na casa do fariseu estavam convidados também outros
fariseus, que faziam parte da categoria dos rabinos. A formulação “os mestres
da lei e fariseus” (Lc 14.3) assinala que as pessoas ali presentes não devem
ser divididas em dois grupos, mas que elas eram ao mesmo tempo mestres da lei e
fariseus. Tal unificação de funções obviamente não ocorria sempre (cf. Lc
11.39,45). Os diálogos subsequentes permitem reconhecer que o grupo era
numeroso e formado por pessoas abastadas. [3]
Essa é a terceira e última
cura de Jesus no sábado (Lc 6.6; 13.10), e o último incidente no sábado em
Lucas (Lc 4.16-30,31-37; 6.1.1-5,6-11; 13.10-17). A intensidade com que os
fariseus se opõem a Jesus no sábado torna um convite para uma refeição no
sábado na casa de um fariseu algo um tanto surpreendente. [4]
Vejamos o que esse texto
tem a nos ensinar.
1 – UM CONVITE COM MÁS
INTENÇÕES (Lc 14.1).
Praticar a hospitalidade
no sábado era parte importante da vida dos judeus, de modo que não há nada de
estranho no convite que Jesus recebeu para uma refeição depois do culto semanal
na sinagoga. Com frequência, porém, esses convites eram um pretexto para que os
inimigos de Jesus o pudessem observar e encontrar alguma coisa nele para
criticar e condenar. Foi o que aconteceu na ocasião descrita em Lucas 14,
quando um dos líderes dos fariseus convidou Jesus para jantar. [5]
Com isso em mente,
podemos destacar algumas lições importantes.
1º - Em primeiro lugar, Jesus
não rejeita o convite do fariseu. O Filho do Homem veio
comendo e bebendo, conversando intimamente com todos os tipos de pessoas; não
rejeitando a companhia de publicanos, embora eles fossem de má fama. O Senhor
também não rejeitava os fariseus, embora eles o tratassem com má vontade, mas
aceitava os convites amistosos tanto de uns como dos outros, para que, se
possível, pudesse fazer o bem a ambos. [6] Por isso Jesus aceitou o
convite, para apresentar mais uma vez o evangelho para aqueles pecadores
religiosos que, desesperadamente, necessitavam de salvação. Homens cegos que
precisavam ver e entender a verdade que liberta. Jesus quando aceitou esse
convite demonstrou duas coisas: coragem e amor. Coragem para estar entre seus
inimigos e amor para com eles, levando sempre lições de vida que demonstra amor
aos seus inimigos, para que, de alguma forma, alcançar alguns (Mt 5.43-48).
Muitas vezes nós também
estaremos entre pessoas que são inimigas do Evangelho. Estaremos entre aqueles
que não desejam verdadeiramente a nossa companhia. No entanto, essa poderá ser
uma grande oportunidade de demonstramos o amor de Deus para com elas.
2º - Em segundo lugar, o
convite a Jesus era para observa-lo (Lc 14.1b).
Eles o estavam observando. Esta é a primeira pista que temos de que seu
anfitrião tinha um motivo secreto para convidá-lo, e explica porque um fariseu
de nível elevado convidaria Jesus para comer em sua companhia em tal ocasião. O
preconceito e o ódio dos membros daquele partido em relação a Jesus tinham
chegado a um ponto tão crítico, que procuravam a sua destruição. Esta é uma das
muitas ocasiões em que os fariseus agiam como hipócritas – sempre fingindo ser
amigos de Jesus para alcançar os seus objetivos malignos. Eles até mesmo
colaboraram com inimigos tradicionais durante as suas campanhas contra o
Senhor. [7]
“Observando...”
traduz a forma do verbo grego paratēreō, o que significa “observar
cuidadosamente”, “para estar à procura”, ou “prestar atenção a”. Mas nos
evangelhos a palavra assume um tom sinistro, e poderia ser traduzida, “espreitar”,
“espiar”, “prestar atenção para uma oportunidade com intenção maliciosa” (cf.
Lc 14.1; 20.20; Mc 3.2). Jesus foi convidado na esperança de apanhá-lo na quebra
da lei rabínica, principalmente porque eram rigorosas quanto o sábado.
Nós também temos sido
observados. Principalmente agora com o “novo normal”. As leis que estão sendo estabelecidas,
estão cada vez mais longe da Bíblia e seus princípios. Veja por exemplo a ideia
de que uma pessoa é o que pensa que é. Se um homem se vê como mulher ele é
mulher. Não está mais em discussão a genética, a ciência e outras coisas lógicas
da natureza humana. E dizem, que nós cristãos, temos que aceitar esse tipo de
coisa. O pior de tudo é que tem líderes (pastores) que aceitam tal loucura. Eu conheço
pessoas que se dizem cristãs que apoiam, sem nenhum pudor, o aborto. Acham que
é uma questão de saúde da mulher.
Por isso que estamos
sendo observados, criticados e hostilizados em muitos lugares. Estamos caminhando
para o fim dos tempos.
2 – JESUS CURA UM ENFERMO
NA CASA DO FARISEU (Lc 14.2-4).
Não sabemos se esse homem
hidrópico, estava diante de Jesus fortuitamente ou se havia sido “plantado” ali
pelos escribas e fariseus, como uma armadilha, para acusar Jesus. [8]
Charles L. Childers, no
entanto, é enfático ao dizer que este homem foi obviamente trazido pelo
anfitrião e seus comparsas como uma cilada para o Senhor. Sem qualquer
preparação ou apresentação, ele apareceu perante o Mestre. O fato de a presença
deste homem ser parte de uma trama contra Jesus está fortemente implícito na
“observação” por parte dos fariseus (2). Isto também é evidenciado pela
imediata defesa de Jesus da sua prática de curar no sábado (3-6). [9]
A palavra “hidrópico” só
aparece aqui no Novo Testamento. A hidropisia era caracterizada pelo excesso de
água nas cavidades e tecidos do corpo, sendo sintoma de alguma doença mais
grave, não indicada no texto. [10] Este é um termo médico, derivado do vocábulo
grego hidro que representa água. [11] Esse acúmulo anormal de
líquido não só é por si mesmo algo grave, é um sinal de uma enfermidade dos
rins, do fígado, do sangue e/ou do coração. Além disso, os rabinos tinham a
opinião de que a pessoa assim afetada havia cometido algum pecado muito grave.
[12]
Com isso em emente,
podemos destacar algumas lições.
1º - Em primeiro lugar, Jesus
faz uma pergunta embaraçosa (Lc 14.3). Jesus, conhecendo as
intenções maliciosas dos líderes religiosos postados à mesa, armados até os
dentes para acusá-lo no caso de alguma cura ao enfermo ali postado, antecipa o
problema e sai da posição de acuado para o ataque, perguntando aos seus
críticos: “É ou não é lícito curar no sábado?” Em outras palavras, é ou não é
lícito fazer o bem no sábado? Diante da pergunta contundente de Jesus,
guardaram silêncio e nada disseram. Eles, que pensaram em pegar Jesus na rede
de sua astúcia, foram apanhados pela armadilha de seu legalismo medonho. [13]
Embora,
de modo geral defendia-se que no sábado não era permitido curar caso não
existisse um real risco de vida. Os convidados presentes defendiam essa visão,
mas se negavam a afirmá-la abertamente. A pergunta do Senhor, formulada com
singela simplicidade, veracidade e amor, fez calar todos os adversários. O
silêncio dos hóspedes denota constrangimento ou falsidade odiosa e rancorosa (cf.
Mc 3.5). [14]
Como destaca James R. Edwards,
a regra geral que governava as atividades no sábado pertencia à necessidade:
se algo não pudesse ser adiado, então era permitido fazer no sábado; mas se
pudesse ser adiado até o fim do sábado, era proibido ser feito no sábado. Presumindo
que o inchaço do homem não colocava sua vida em risco, esse caso pertencia à
última categoria e, por isso, a cura no sábado seria proibida. [15]
Aqueles homens não tinham
nenhuma capacidade para diagnosticar a doença do hidrópico para dizer se era
grave ou não, se podia esperar mais algumas horas ou não. A insensibilidade deles
revelava a dureza dos seus corações. No entanto,
a perfeição do comportamento de nosso Senhor se manifestou nessa ocasião, assim
como em todas as outras. Ele sempre dizia a coisa certa, na ocasião oportuna e
da maneira correta. Nunca esquecia, por um momento sequer, quem Ele era e onde
se encontrava. [16]
2º - Em segundo lugar, Jesus
cura o enfermo (Lc 14.4). Diante do silêncio de seus
críticos, sabendo que já estavam derrotados pelo seu silêncio covarde, Jesus
cura o homem hidrópico e demonstra ao mesmo tempo seu poder e sua compaixão. O
sábado foi criado por Deus para o bem do homem, para fazer o bem e não o mal,
para trazer alívio e não fardo. Foi criado para que as obras de Deus sejam
realizadas na terra, e não para que o legalismo mortífero seja colocado como
jugo pesado sobre os homens. [17]
O homem hidrópico não era
um partidário daquela trama, mas um inocente sofredor que estava sendo usado
por aquele ardiloso anfitrião. O Mestre, sábio e bondoso como sempre, o curou e
o despediu. [18] A malignidade do coração daquela turba era tanta que foram
capazes de usar da desgraça de uma pessoa para terem do que acusar Jesus.
3 – JESUS FAZ UMA
PERGUNTA CONSTRANGEDORA (Lc 14.5,6).
Jesus fez duas perguntas
que deixaram seus adversários calados: “É lícito curar no sábado?
Eles,
porém, calaram-se” e “Qual será de vós o que, caindo-lhe
num poço, em dia de sábado, o jumento ou o boi, o não tire logo? E nada lhe podiam
replicar sobre isto”.
Jesus revelou a falsa
piedade dos escribas. Diziam defender as leis divinas do sábado, quando, na
verdade, abusavam do povo e acusavam o Salvador. Há grande diferença entre
guardar a verdade de Deus e promover a tradição dos homens. [19]
Com isso em mente podemos
destacar duas lições aqui.
1º - Em primeiro lugar, a
cura desse homem revelou a hipocrisia dos fariseus (Lc 14.5).
Jesus passou a justificar Sua ação por meio de apelar ao próprio procedimento
deles. [20] Na versão ARA traz “filho” ao invés de “jumento”. Já a versão ACF
traz “jumento” ao invés de “filho”.
O filho ou o jumento?
Encontram-se diferentes textos como variantes desse versículo, na tradição dos
manuscritos. Alguns deles dizem: “jumento e boi” (ou “boi e jumento”) ou
“ovelha e boi”. Tais variantes provavelmente se devem a Lc 13.15 (“boi e
jumento”) e à estranheza de ligar a palavra “filho” à palavra “boi”. Houvesse
Jesus dito “jumento ou boi” seu argumento implícito seria o seguinte: se vocês
estão muito preocupados em resgatar um animal mudo no dia de sábado, certamente
deveriam mostrar a mesma preocupação para com um ser humano, seu próximo.
Entretanto,
ao referir-se a um “filho” (que muito provavelmente é a palavra do original), o
argumento é ligeiramente diferente, expresso mais ou menos como segue: se você
está preocupado em salvar seu próprio filho (e até mesmo um boi) em dia de
sábado, é certo que nada há de errado em salvar uma pessoa. [21]
Fritz Rienecker destaca que
na expressão “filho” Jesus expressa sua profunda compaixão pelo enfermo,
ao contrário da impiedade dos fariseus. Por meio do primeiro exemplo Jesus
pergunta se um ato de amor para com um ser humano no sábado não seria tão
lícito quanto celebrar um banquete no sábado e ser convidado para ele como
hóspede. No entanto, os adversários consideravam justificado trabalhar no
sábado por motivação egoísta, a fim de salvar um dos animais domésticos mais
úteis. [22]
A incoerência deles era
gritante. Eles nem sequer permitiam que seus animais ficassem sem água no
sábado (Lc 13.15), por que, então, eles deveriam se opor a Jesus de chegar no
sábado para salvar um homem se afogando em seus próprios fluidos?
2º - Em segundo lugar, os
acusadores ficaram calados (Lc 14.6). Novamente silenciaram
diante da pergunta do Senhor, não porque se negassem a dar uma resposta, mas
porque não tinham como responder. O feito milagroso de Jesus e sua pergunta
tirada de um exemplo cotidiano deixaram embaraçados os inimigos. [23] Ora,
se a lei permitia socorrer um boi que caiu num buraco, por que a lei proibiria
socorrer um homem, criado à imagem e semelhança de Deus, caído no fosso da
enfermidade? Não valem os homens mais do que os animais? A isto nada puderam
responder (14.6). [24]
Cristo será sempre
justificado quando falar. E toda boca deve se calar diante dele. [25]
CONCLUSÃO
A cura desse homem nos
mostra o quanto o Senhor se preocupa com cada um de nós e sempre está pronto a
nos abençoar. Mesmo sabendo que aquele almoço era uma armadilha, o Senhor não
deixou de ir, para que o que ali foi ocorrido chegasse até nós hoje. Para que pudéssemos
desfrutar do Seu amor e de quanto Ele valoriza a cada um de nós.
Jesus mostra mais uma vez
que tem compromisso e coerência com as Escrituras e não com as tradições dos
homens. Que possamos olhar para esse texto e agir da mesma forma, ver o que é
prioridade no Reino e o que é secundário.
Pense nisso!
Bibliografia:
1 – Childers, Charles L.
Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006,
p. 445.
2 – Peterson, Eugene H. A
Linguagem de Deus, Ed. Mundo Cristão, São Paulo, SP, 2011, p. 91.
3 – Rienecker, Fritz. O
Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba,
PA, 2005. p. 304.
4 – Edwards, James R. O
Comentário de Lucas, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2019, p. 528.
5 – Wiersbe, Warren W.
Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo
André, SP, 2007, p. 297.
7 – Childers, Charles L.
Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006,
p. 445.
8 – Neale, David A.
Lucas, 9 – 24, Novo Comentário Beacon, Ed. Central Gospel, Rio de Janeiro, RJ,
2015, p.151.
9 – Childers, Charles L.
Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006,
p. 445.
10 – Ash, Anthony Lee. O
Evangelho Segundo Lucas, Ed. Vida Cristã, São Paulo, SP, 1980, p. 229.
11 – Champlin, R. N. O
Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, Lucas, Vol. 2, Ed.
Hagnos, São Paulo, SP, 2005, p. 143.
12 – Hendriksen, William.
Lucas, vol. 2, Ed. Cultura Cristã, São Paulo, SP, 2003, p. 254.
13 – Lopes, Hernandes
Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 441.
15 – Edwards, James R. O
Comentário de Lucas, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2019, p. 530.
16 – Ryle, J. C.
Meditações no Evangelho de Lucas, Ed. FIEL, São José dos Campos, SP, 2002, p.
248.
17 – Lopes, Hernandes
Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p.
441.
18 – Childers, Charles L.
Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006,
p. 445.
19 – Wiersbe, Warren W.
Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo
André, SP, 2007, p. 298.
20 – Morris, Leon L.
Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São
Paulo, SP, 1986, p. 217.
21 – Evans, Craig A. Novo
Comentário Bíblico Contemporâneo, Lucas, Ed. Vida, São Paulo, SP, 1996, p. 248.
22 – Rienecker, Fritz. O
Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba,
PA, 2005. p. 305.
23 – Ibidem, p. 305.
24 – Lopes, Hernandes
Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 442.
25 – Henry, Matthew.
Comentário Bíblico Novo Testamento Mateus a João, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ,
2008, p. 642.
terça-feira, 4 de abril de 2023
domingo, 2 de abril de 2023
A AMEAÇA DE HERODES E O LAMENTO SOBRE JERUSALÉM - Lucas 13.31-35
Por Pr Silas Figueira
Texto base: Lucas 13.31-35
INTRODUÇÃO
Os atentados contra a
vida de Jesus começaram muito antes do início do seu ministério público. Quando
ele ainda era um bebê, Herodes, o Grande, patriarca da dinastia herodiana, governador
da Judéia intentou matar Jesus quando Ele ainda era criança. Herodes era um
sociopata cuja paranoia atingiu um clímax horrível quando, no final de seu
reinado, chegaram do oriente uns magos declarando que o rei dos judeus havia
nascido e que eles estavam procurando por Ele (Mt 2.1-12). Temendo um rival
para o seu trono, Herodes informado, a partir dos líderes religiosos judeus que
o Messias havia de nascer em Belém (Mq 5.2), mandou matar todos os meninos de
dois anos para baixo de Belém (Mt 2.16-18). Agora, O filho de Herodes, o
Grande, Herodes Antipas, que havia mandado matar João Batista, está intentando
matar Jesus também. Este era o tetrarca que tinha sob sua jurisdição Galileia e
Pereia, a mesma região por onde Jesus passara e continuava viajando. [1]
O que lemos nos mostra
que o evangelista Lucas diz que naquela mesma hora, alguns fariseus vieram
dizer a Jesus para sair da jurisdição do governo de Herodes, porque este queria
matá-lo. Não sabemos se os fariseus estavam precisamente informando a intenção
de Herodes ou se estavam inventando a história para forçar Jesus a sair daquela
localidade. Duas coisas parecem estar claras na visão do que se sabe sobre
Herodes e os fariseus. Em primeiro lugar, os fariseus eram hostis o bastante
para se utilizar tanto da verdade como da falsidade contra Jesus, e de forma
alguma iriam colaborar com um inimigo. Em segundo lugar, Herodes mostrou, ao
assassinar João Batista, que era capaz de matar um líder religioso. Também era
evidente que Herodes e os fariseus podiam estar esperando se beneficiar com o
resultado de tal informação. [2]
Com isso em mente,
podemos tirar algumas lições importantes para nós.
1 – ALIANÇAS FORAM FEITAS
CONTRA JESUS (Lc 13.31).
Alguns acreditam que os
fariseus estavam tentando alertar Jesus do perigo que corria, pois, assim como
João fora morto por Herodes, Jesus corria risco de morrer também. Mas essa
ideia não se sustenta devido ao ódio que os fariseus tinham de Jesus. Certamente,
os fariseus não tinham nenhum apreço por Herodes. Entretanto, com o propósito
de se oporem a Jesus, os fariseus se uniram a ele e seus seguidores (Mc 3.6).
[3]
Há um ditado que diz: “Se
não pode com ele, junte-se a ele”. Aqui, no entanto, esse ditado é ao inverso,
se não se pode calar Jesus, junte-se aos seus inimigos para calá-lo. Ainda que
esses inimigos sejam também seus inimigos. Como dizem: “inimigo do meu inimigo
é meu amigo”.
Os fariseus tentaram
calar Jesus de duas formas:
1º
- Em primeiro lugar, tentaram intimidar Jesus. Uma vez que os
fariseus não foram motivados pela preocupação com a segurança de Jesus, este
aviso sugere que a sua intenção final era para matar Jesus, no entanto, o seu
objetivo imediato era intimidá-lo e calar o Seu ensino.
Assim como tentaram calar
Jesus muitas vezes, tentaram calar a Igreja no decorrer dos séculos, e estão
tentando calar a igreja hoje. Alguns, para não serem perseguidos, estão
maculando a mensagem da cruz para que ela fique mais palatável ao gosto dos
ouvintes. São os falsos profetas que Jesus falou que viriam em seu nome (Mt
24,23,24).
2º
- Em segundo lugar, estavam tentando levar Jesus para Jerusalém para mata-lo.
O desejo de Herodes de que Jesus saísse de seu território e acelerasse a viagem
para Jerusalém também correspondia ao interesse dos fariseus. Em Jerusalém eles
podiam ter a esperança de que, com auxílio do Sinédrio, seria dado fim à
atuação de Jesus. [4]
Tentaram calar a Igreja
no decorrer dos séculos, mas como não conseguiram, com isso, começaram
perseguir e a matar os cristãos (At 8.1-3, 9.1,2). Hoje, muitos dos nossos
irmãos têm sido perseguidos e mortos em países comunistas como em países
muçulmanos. A liberdade de expressão está cada vez mais restrita até mesmo em
países livres. Expor as Escrituras está virando crime. Ainda podemos falar
dentro de nossas igrejas, mas até quando isso vai durar?
2 – AS AUTORIDADES DESTA
TERRA NÃO PODEM MUDAR A AGENDA DE JESUS (Lc 13.32,33).
Herodes é a única pessoa
da qual há registro a quem Jesus tratou com desprezo. Jesus deixa claro que nem
Herodes nem os fariseus mudariam sua agenda. Ele não estava fazendo sua obra na
dependência dos poderosos deste mundo, mas cumprindo uma agenda eterna do Pai
do céu. [5] David Neale diz que Herodes era uma figura patética e sem poder,
que pensava que podia subverter o propósito divino da marcha de Jesus para
Jerusalém. [6]
Podemos destacar algumas
lições importante aqui.
1º
- Em primeiro lugar, Jesus despreza as autoridades ímpias desta terra (Lc 13.32).
Jesus responde à instrução dos fariseus “Retira-te daqui” com as palavras “Ide”
e “Dizei a essa raposa!”. A raposa é emblema de ardil e de esperteza. [7]
Charles
L. Childers diz que Herodes era cruel e ousado, e seria mais esperado que fosse
representado como um leão do que como uma raposa. Mas ele também era astuto e
vil, e era este aspecto de sua personalidade que Jesus tinha em mente. Se, como
sugerido acima, Herodes estivesse propositalmente enviando os fariseus até
Jesus, com um aviso contra Ele, o motivo para a designação raposa estaria
evidenciado. [8] Champlin destaca também que a raposa era uma metáfora comum
entre os judeus e os gregos para indicar um homem astucioso; mas com frequência,
na literatura rabínica, simplesmente significava um indivíduo destituído de importância,
sendo usado como termo de menosprezo. [9]
O apóstolo Paulo
escrevendo aos Romanos no capítulo 13.1-7 nos diz que devemos nos sujeitar as
autoridades superiores. Com isso, devemos entender que o Senhor instituiu o
governo, e não a anarquia. E este governo foi levantado para governar com justiça.
Em outras palavras, é a autoridade de Deus que se exerce, quando a autoridade
exerce sua autoridade a serviço do bem. Mas quando essa autoridade faz leis que
burlam a Palavra de Deus, esta autoridade está a serviço de Satanás e não do
Senhor.
Nós, como cristãos, não
podemos nos sujeitar a nenhuma autoridade que apoia o aborto, o uso das drogas,
o casamento homo afetivo, ou qualquer outra coisa que fere os princípios
bíblicos. Nenhuma autoridade tem poder para alterar a agenda de Deus, que é a
Sua Palavra. Jesus nos deixou o exemplo e os apóstolos o seguiram (At 5.29).
2º
- Em segundo lugar, Jesus tinha uma agenda imutável (Lc 13.33).
A resposta que Jesus manda transmitir a Herodes por meio dos fariseus atesta
que ele realizará exorcismos e curas enquanto lhe aprouver e pelo tempo que
Deus lhe determinar. Ele não se retiraria hoje, como eles pretendem, mas
prosseguirá sua atividade pelo tempo necessário até que sua incumbência tenha
sido concluída. Jesus cita apenas a atividade de cura, pois o governante não
seria capaz de imaginar nada específico acerca da pregação. Herodes também
deveria admitir por si mesmo que uma atuação tão benéfica não merece a morte ou
o banimento. [10] Nem os fariseus nem Herodes determinam o destino de Jesus,
mas este, em obediência à providência divina, determina o seu destino, seu
objetivo. O verbo grego para “alcançar um objetivo”, teleioun, do qual
deriva a palavra “teologia”, significa “cumprir ou completar um propósito
pretendido”. [11]
Charles J. Ryle destaca que
não havia chegado ainda o tempo para Jesus deixar o mundo. Sua obra ainda não
estava concluída. Até que chegasse o momento específico, Herodes não teria
poder para fazer-lhe qualquer mal. Até que a obra estivesse terminada, nenhuma
arma forjada contra Ele prosperaria. [12] Jesus não vai alterar seus planos,
nem se deixará intimidar. É preciso que prossiga seu caminho (é o sentido de
hoje e amanhã), para que não suceda que morra um profeta – alguém que traz a mensagem
de Deus para o seu povo – fora de Jerusalém. [13]
Assim é a Igreja. Os
homens ímpios só tocam na Igreja se o Senhor permitir, fora isso, nenhuma arma
forjada contra ela prosperará. Quando lemos o livro de Atos, vemos que, por
permissão de Deus, Tiago foi decapitado, no entanto, Pedro foi solto
milagrosamente da prisão (At 12.1-10; Ap 13.7).
3 – O LAMENTO SOBRE
JERUSALÉM (Lc 13.34,35).
Aqui Jesus derrama a
amarga agonia do amor rejeitado. A amargura da sua tristeza mostra que embora
seu amor não tenha sido requisitado e sua oferta de ajuda não tenha sido
aceita, o seu amor não mudou. Jerusalém está sem esperança não porque Cristo
tenha ido embora, mas porque eles literalmente não desejaram, não tiveram
vontade, não quiseram o que Ele oferecia. Deus não forçará ninguém a aceitar as
suas bênçãos. [14]
Podemos destacar algumas verdades
aqui.
1º - Em primeiro lugar,
Jerusalém era uma cidade assassina (Lc 13.34a).
De acordo com a santa ironia acerca de Jerusalém, que se tornou covil de assassinos
de profetas, irrompe em Jesus o tom de lamentação de profunda dor. Sua
consternação interior já fica clara pela duplicação do nome “Jerusalém”. [15] A
Jerusalém que eles chamavam de santa, Jesus chama de assassina de profetas. A
Jerusalém que eles exaltavam, Jesus diz que apedrejava os que a ela foram
enviados. A Jerusalém que Jesus quis, tantas vezes, acolher sob suas asas, como
uma galinha ajunta os seus pintinhos, essa o expulsou para fora de seus muros e
o crucificou no topo do Calvário. [16]
Jesus sempre fará o
diagnóstico correto do coração humano. Jesus não se deixa levar pelas aparências.
Ele não vê como vê o homem. Ele esquadrinha os corações e seu julgamento e
justo (Jr 17.9,10, Ap 3.17,18).
2º - Em segundo lugar, Jesus
trata Jerusalém com ternura (Lc 13.34b). Há ternura na linguagem
figurada da galinha e seus pintinhos. A responsabilidade dos judeus pela sorte
deles é atribuída diretamente a eles mesmos com a expressão final, vós não o
quisestes! [17] O lamento perturbador de Jesus a respeito de Jerusalém é o
resultado de sua compaixão (“eu quis reunir os seus filhos”) sendo oposta por
uma contracorrente obstinada de rejeição humana (“mas vocês não quiseram”). Muitas
vezes Deus é tratado no Antigo Testamento como ave mãe protetora (Sl 17.8, 91.4;
Is 31.5). [18]
O motivo pelo qual os
pecadores não são protegidos e sustentados pelo Senhor Jesus – como os
pintinhos o são pela galinha – é que eles não querem: Eu quis, eu quis frequentemente,
e não quiseste. A boa vontade e a disposição de Cristo agravam a má vontade dos
pecadores, deixando o seu sangue sobre as suas próprias cabeças. [19]
3º - Em terceiro lugar,
uma profecia dramática (Lc 13.35). A partícula idou
(eis) indica que o que se segue é surpreendente e chocante. Casa simboliza não
só o templo, mas também Jerusalém e a nação como um todo. A rejeição do reino
da graça implica a exclusão do reino da glória. Os judeus, tão arrogantes e
soberbos ao rejeitarem a Cristo, o Messias, veriam sua casa ficar deserta. [20]
No entanto, Israel ainda
tem um futuro. Virá o tempo em que o Messias voltará, será reconhecido e
recebido pelo povo, que dirá: “Bendito o que vem em nome do Senhor” (Lc 13.35;
ver também SI 118.26). Algumas pessoas usaram essas palavras na “entrada
triunfal” de Jesus (Lc 19.38), mas elas só se cumprirão quando ele voltar em
glória (ver Zc 12.10; 14:4ss; Mt 24.30,31). [21]
CONCLUSÃO
A agenda de Jesus não foi
alterada mediante as ameaças de Herodes e nem dos líderes religiosos de Israel,
e não será alterada hoje também devido a incredulidade do mundo ímpio e suas
ameaças à Igreja. Assim como tentaram calar Jesus e o levaram a morte de cruz,
o mundo ímpio tem tentado calar a Igreja através da perseguição e morte, mas o
Coliseu não calou a Igreja, as perseguições no decorrer dos séculos não calaram
a Igreja. Não conseguiram, porque a Igreja é a agência de Deus na terra. Nós
não fazemos e falamos o que queremos, mas somos guiados pelo Espírito Santo. Somos
guiados pela Palavra de Deus e caminharemos até o fim. Até a volta do Senhor em
Glória!
Pense nisso!
Bibliografia
1 – Hendriksen, William.
Lucas, vol. 2, Ed. Cultura Cristã, São Paulo, SP, 2003, p. 241.
3 – Lopes, Hernandes
Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p.
434.
4 – Rienecker, Fritz. O
Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba,
PA, 2005. p. 301.
5 – Lopes, Hernandes
Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p.
435.
6 – Neale, David A.
Lucas, 9 – 24, Novo Comentário Beacon, Ed. Central Gospel, Rio de Janeiro, RJ,
2015, p. 147.
7 – Rienecker, Fritz. O
Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba,
PA, 2005. p. 301.
8 – Childers, Charles L.
Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006,
p. 443.
9 – Champlin, R. N. O
Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, Lucas, Vol. 2, Ed.
Hagnos, São Paulo, SP, 2005, p. 140.
10 – Rienecker, Fritz. O
Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba,
PA, 2005. p. 301.
11 – Edwards, James A. O
Comentário de Lucas, Ed. Shedd, Sto Amaro, SP, 2019, p. 518.
12 – Ryle, J. C. Meditações
no Evangelho de Lucas, Ed. FIEL, São José dos Campos, SP, 2002, p. 245.
13 – Evans, Craig A. Novo
Comentário Bíblico Contemporâneo, Lucas, Ed. Vida, São Paulo, SP, 1996, p. 244.
14 – Childers, Charles L.
Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006,
p. 444.
15 – Rienecker, Fritz. O
Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba,
PA, 2005. p. 302.
16 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito,
Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 436.
17 – Morris, Leon L.
Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São
Paulo, SP, 1986, p. 215.
18 – Edwards, James A. O
Comentário de Lucas, Ed. Shedd, Sto Amaro, SP, 2019, p. 519.
19 – Henry, Matthew.
Comentário Bíblico Novo Testamento Mateus a João, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ,
2008, p. 640.
20 – Lopes, Hernandes
Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p.
436.
21 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1,
Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 296.
quinta-feira, 30 de março de 2023
terça-feira, 7 de março de 2023
quinta-feira, 2 de março de 2023
ENTRAI PELA PORTA ESTREITA - Lucas 13.22-30
Por Pr Silas Figueira
Texto base: Lucas 13.22-30
INTRODUÇÃO
O início dessa viagem
para Jerusalém foi indicado em 9.51 e vai até 19.27. É ao viajar por Samaria,
indo da Galileia para Jerusalém, que Jesus separa um tempo para contar histórias
que preparam seus seguidores a trazer o comum da vida a uma percepção consciente
e a uma participação nessa vida do reino.[1] Parecia que Jesus não tinha
pressa. Ele se detinha nas cidades e vilas que ficavam em seu caminho. Aliás,
ele permaneceu tempo suficiente nesses lugares para poder ensinar neles.[2] E
foi durante esse percurso que uma pessoa lhe pergunta “Senhor, são poucos os
que se salvam?”. A vaga referência de Lucas a esta pessoa, com a indicação
no contexto seguinte de que ele está fora do Reino, indica que não se tratava
de um dos apóstolos, mas alguém dentre a multidão que seguia Jesus.[3]
Wiersbe destaca que os
escribas costumavam discutir a questão do número de pessoas que seriam salvas,
e alguém pediu a Jesus para dar sua opinião sobre o assunto. Da mesma forma que
havia feito com a questão a respeito de Pilatos, Jesus passou a discussão
imediatamente para o nível pessoal.[4] Jesus não falou com esta pessoa de forma
genérica a respeito da salvação, mas tratou a questão de forma muito pessoal,
de foro íntimo. Isso mostra que o Senhor não salva por atacado, mas de forma
pessoal.
Com isso em mente,
podemos destacar algumas lições importantes aqui:
1 – VEMOS AQUI UMA
PERGUNTA EXTRAORDINÁRIA (Lc 13.23).
Essa pergunta deveria ser
a pergunta de todo cristão, pois ser cristão não nos dá garantia de salvação. A
religião cristã envolve Catolicismo Romano, Catolicismo Ortodoxo, Testemunhas
de Jeová, Adventistas, Mórmons, Evangélicos. O quadro é um pouco mais amplo,
mas por aqui já temos uma ideia. Diante disso já sabemos que religião nenhuma
tem o poder de salvar ninguém. Que a salvação é por meio de Jesus Cristo e de
uma vida totalmente consagrada a Ele.
Wiersbe destaca que “a
pergunta não é quantos serão salvos, mas se você será salvo ou não! Primeiro
resolva isso, depois conversaremos sobre o que fazer para ajudar outros a serem
salvos”. [5]
Hendriksen destaca que segundo
uma opinião amplamente difundida entre os judeus, endossada pelos rabinos,
Israel como um todo seria salvo. Em contrapartida, segundo o ensino de Jesus, a
linha de demarcação entre salvos e não-salvos não era de cunho nacionalista,
mas distintamente espiritual. Veja Lucas 4.25-27; 6.20-38, 46-49; 7.9; 8.4-15;
11.29-52. Não surpreende que alguém perguntasse a Jesus se os salvos seriam
poucos em número. Não é verdade que sempre que Jesus proclamava que somente aqueles
cujo coração eram comparáveis à boa terra, somente os que estavam dispostos a
negar-se a si mesmos, somente os que não só ouviam seu ensino, mas também o
punham em prática, seriam salvos? Isso deixava fora a muitos. [6]
Matthews Henry destaca
quatro coisas em relação a pergunta desta pessoa:
1º - Em primeiro lugar, talvez
esta fosse uma pergunta capciosa. Alguém lhe fez a
pergunta, tentando-o, com o propósito de apanhá-lo em uma armadilha e assim
diminuir a sua reputação.
2º - Em segundo lugar, talvez
a pergunta tenha sido feita por curiosidade, ou como uma boa especulação.
As pessoas geralmente perguntam: “Será que este e aquele podem ser salvos?” Mas
é melhor que possamos ser salvos sem saber detalhes a respeito da vida dos
outros, detalhes que realmente não nos interessam.
3º - Em terceiro lugar, talvez
fosse uma pergunta ocasionada pela admiração. Ele havia notado
como a lei de Cristo era rigorosa, e como o mundo era mau. Assim, comparando-as,
ele exclama, “Quão poucos serão salvos!” Note que temos motivos para nos
admirar por causa de um fato curioso: a palavra de salvação é enviada a muitos,
porém ela só é realmente uma palavra salvadora para poucos.
4º - Em quarto lugar, talvez
fosse uma pergunta investigadora: “Se há poucos que são
salvos, e então? Que influência isto deveria ter sobre mim?” Note que todos nós
temos a responsabilidade de entender seriamente a grande verdade de que poucos
serão salvos.[7]
É possível que essa
pergunta tenha sido feita por um verdadeiro seguidor de Cristo. Mas depois de
quase três anos de ministério, inúmeros milagres, ensino incomparável, e
multidões segui-lo, no entanto, havia apenas um decepcionante e pequeno número
de verdadeiros crentes que criam nele como Salvador. Poucos, em número, foram
alcançados pela fé salvadora, tanto que Jesus mesmo se referiu a eles como um “pequeno
rebanho” (Lc 12.32).
Apesar de tudo que Jesus
realizava os líderes religiosos da nação o haviam rejeitado dizendo que Ele era
habilitado por Satanás. Muitas pessoas também viram o poder sobrenatural de
Jesus como satânico. Outros o rejeitaram porque Ele não cumpria a expectativa
messiânica. Quando uma grande multidão tentou forçá-lo a ser um messias
político-militar Jesus recusou-se (Jo 6.14,15). A realidade de ontem é a mesma
realidade de hoje, são muito poucos os crentes genuínos que seguem a Cristo. Isso
ocorre porque as pessoas querem um Jesus segundo o seu bel-prazer e não o Jesus
que se revela nas Escrituras.
Por isso, essa pergunta é
de suma importância para todos nós hoje.
2 – NÃO SE ENTRA PELA PORTA
ESTREITA DE QUALQUER MANEIRA (Lc 13.24-30).
O fato da resposta de
Jesus não ter abordado a questão diretamente, mostra que não é importante
quantas pessoas estão sendo salvas; o que importa para cada pessoa é que ela
seja uma delas. Em vez de responder à questão de quantidade, Jesus foca na
qualidade de fé dos verdadeiros crentes e fez um convite pessoal para um dos
presentes para receber a salvação que Ele oferece.
Cinco aspectos desse
convite podem ser discernidos: Jesus falou a respeito do esforço espiritual, da
oportunidade da porta aberta, da falta de relacionamento com Ele, a rejeição
eterna e por fim, a escolha dos gentios.
Vejamos cada um deles:
1º - Em primeiro lugar, um
esforço espiritual (Lc 13.24). A
palavra grega aqui traduzida como esforçai-vos (porfiai) é a nossa
palavra “agonizar” (um termo que vem do grego agonizesthai). A palavra
estreita denota aperto. Com uma porta estreita restringindo a entrada, forçando
aquele que entra a se livrar de qualquer peso ou bagagem, e com forças opostas
bloqueando a sua entrada, as pessoas deverão se esforçar ardentemente
(agonizar) para entrar. [8] Por isso que Jesus falou que aquele que “não
aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda
também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc 14.26), ou seja, não
pode entrar pela porta estreita.
Champlin destaca que o versículo
24 diz que o número dos eleitos será pequeno. Assim será porque participarão da
natureza divina (2Pe 1.4), possuidores da imagem e da natureza de Cristo (Cl 2.10),
transformados em sua imagem pelo poder do Espirito (2 Co 3.18; Ro 8.29).
Trata-se de algo elevadíssimo, e a maioria dos homens jamais chegará lá. Os
eleitos participarão da mesma forma de vida que Deus tem (Jo 5.25,26). Tudo
isso transcende infinitamente ao anúncio normal do evangelho, que fala apenas
de perdão e de mudança futura para os céus. Essas bênçãos são apenas o início
da inquirição eterna em busca da perfeição, da perfeição divina, que é
infinita.[9]
2º - Em segundo lugar, uma
oportunidade ainda possível (Lc 13.25a). Não é só estreita a porta
para o reino, mas também pode ser fechada. Uma vez que Cristo, o chefe da casa,
levantar-se e fechar a porta, não haverá admissão; a oportunidade de entrar no
reino será permanentemente impossível para os que ficaram do lado de fora (ex. a
arca de Noé – Gn 7.16c). Há um sentimento de desespero e urgência neste quadro;
pecadores, com um tempo limitado para responder ao convite do evangelho, deixam
essa oportunidade passar, e ela será fechada permanentemente.
A porta do reino é
estreita, mas é bastante ampla para admitir o principal dos pecadores. A porta
do reino é estreita, mas não estará aberta para sempre. O tempo de entrar no
reino é agora. Postergar essa decisão é cometer a maior de todas as loucuras.
Amanhã pode ser tarde demais. [10]
Dois pecados são
provavelmente responsáveis pela chegada dos atrasados: rebeldia e presunção. O
amor ao pecado os seguraria, e uma falsa esperança de que o amor e a bondade do
Mestre o levariam a abrir uma exceção para eles, os impediriam de agir conforme
uma boa consciência.[11]
Usando as mesmas imagens
como na parábola das virgens onde encontramos cinco prudentes e cinco insensatas
(Mt 25.1-13), Jesus advertiu que aqueles que perdem a oportunidade de salvação
vão ficar do lado de fora, e ao baterem à porta dizendo: “Senhor, abre-nos a porta!”,
terão a expressa surpresa e horror ao ver fechada permanentemente a porta do
reino de Deus. Afinal, eles eram pessoas religiosas, muitos dos quais afirmavam
ter ministrado em nome de Jesus (Mt 7.22). Claramente, o inferno será
preenchido não só pelos que rejeitam a Deus abertamente, mas também por aqueles
que exteriormente foram religiosos e “reverentemente” falavam em nome de Jesus,
mas sem nenhum compromisso com Ele.
3º - Em terceiro lugar, a
falta de relacionamento com Jesus (Lc 13.25b-27).
Os que tinham comido e bebido com ele achavam, erradamente, que isso garantia a
sua entrada no banquete messiânico. Mas Ele só reconhece os obedientes,[12] por
isso o Senhor responderá: “Não sei donde sois” (cf. Mt 7.23); isso
revela aqueles que desperdiçaram sua oportunidade e ficarão de fora do reino.
Apesar de sua fachada religiosa externa, eles não tinham nenhuma relação ou união
de vida com Cristo.
Como disse Hendriksen “Onde
estavam eles quando a porta estava ainda aberta? Estavam sempre ‘em algum lugar’,
não onde teriam de estar”. E possível que algumas dessas pessoas tenham comido
do pão multiplicado! Como se a presença e o ensino de Jesus em suas ruas fossem
suficientes para salvação! Nem ainda se afastaram de seu caminho para ouvir
Jesus? Mas se o fizeram, pelo menos não creram nem agiram conforme sua mensagem.
O mero contato externo com Jesus nunca salvou alguém. Demanda-se uma mudança
interior.[13]
4º - Em quarto lugar, a
rejeição eterna (Lc 13.28). Como consequência, serão totalmente
rejeitados. O dono da casa diz que não sabe donde são, e os marca como os que
praticais iniquidades (cf. Sl 6.8). Eles chorarão (expressando, assim, sua
grande aflição) e rangerão os dentes (na sua fúria). Estas expressões marcam o
máximo da frustração e da decepção. Mas estes homens não sentirão menos do que
isto quando virem os grandes heróis da fé no reino que sempre pensavam que
seria deles também, e se acham lançados fora.[14] No inferno não há nenhum
arrependido, mas haverá aflição e ódio eterno.
Ali haverá choro e ranger
de dentes, o grau máximo de dor e indignação. E aquilo que é a sua causa, e que
contribui com ela, é uma visão da felicidade daqueles que são salvos: Quando
virdes Abraão, e Isaque, e Jacó, e todos os profetas no Reino de Deus; e vós
lançados fora. Observe que os santos do Antigo Testamento estão no Reino de
Deus; estes foram beneficiados pelo Messias que morreu e ressuscitou, porque
eles viram o seu dia à distância e isto refletiu a consolação sobre eles.
A
visão da glória dos santos será um grande agravo da infelicidade do pecador;
eles então verão o Reino de Deus de longe, e nele contemplarão os profetas a
quem odiaram e desprezaram, e eles mesmos, embora estivessem certos de entrarem
no reino, serão lançados fora. Esta é a principal razão pela qual rangerão os
dentes, Salmos 112.10.[15]
5º - Em quinto lugar, a
escolha dos gentios (Lc 13.29,30). Jesus fala sobre aqueles
que virão do oriente e do ocidente, do norte e do sul e tomarão lugares à mesa
no reino de Deus. Esses são os gentios que vêm de todas as raças, tribos,
línguas e nações (Ap 5.9). Sendo eles os últimos, virão a ser primeiros, e os
judeus com todos os privilégios que desfrutaram, por terem rejeitado o seu
Messias, virão a ser os últimos. A pirâmide está de ponta-cabeça. A ordem está
invertida. Jesus está golpeando de morte a presunção dos judeus, especialmente
a presunção dos escribas e fariseus![16]
Jesus conclui a resposta
que lhe fizeram dizendo: “E eis que derradeiros há que serão os primeiros; e
primeiros há que serão derradeiros”. Essa expressão intensifica ainda mais o
choque que esses judeus perdidos irão sentir. Não só os gentios estarão no reino,
mas também serão iguais com os judeus que estarão lá. No reino da salvação “não
há judeu nem grego, não há escravo nem homem livre, não há homem nem mulher;
para [os redimidos] todos são um em Cristo Jesus” (Gl 3.28; cf. Ef 2.11-16).
CONCLUSÃO
A lição a ser aprendida
com o convite de Cristo para a salvação é dupla. Em primeiro lugar, a
verdadeira Igreja de Jesus Cristo deve pregar a mensagem certa; pois uma
mensagem corrompida, alterada e falsa é um convite a um evangelho distorcido,
fácil e impotente para salvar os pecadores perdidos. Além disso, o falso
evangelismo deixa as pessoas não convertidas e, posteriormente, céticos do
verdadeiro evangelho e, portanto, mais abertos a um maior engano. O Senhor
Jesus Cristo nunca diluiu Sua mensagem para evitar ofender as pessoas; Ele os
fez, ou se sentir mal o suficiente para se arrepender, ou furioso o suficiente
para rejeitar.
E em segundo lugar, a
mensagem para os não-redimidos é que Deus não salva ninguém além do
arrependimento genuíno. A batalha para negar a si mesmo e seguir a Cristo é
intenso, o tempo é curto e o destino eterno está em jogo.
Pense nisso!
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Bibliografia:
1 – Peterson, Eugene H. A
Linguagem de Deus, Ed. Mundo Cristão, São Paulo, SP, 2011, p. 23.
2 – Hendriksen, William.
Lucas, vol. 2, Ed. Cultura Cristã, São Paulo, SP, 2003, p. 237.
3 – Childers, Charles L.
Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006,
p. 441.
4 – Wiersbe, Warren W.
Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo
André, SP, 2007, p. 294.
5 – Ibidem, p. 294.
6 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, Ed. Cultura Cristã,
São Paulo, SP, 2003, p. 237.
7 – Henry, Matthew. Comentário
Bíblico Novo Testamento Mateus a João, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2008, p.
637.
8 – Childers, Charles L.
Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006,
p. 442.
9 – Champlin, R. N. O
Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, Lucas, Vol. 2, Ed.
Hagnos, São Paulo, SP, 2005, p. 140.
10 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito,
Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 433.
11 – Childers, Charles L.
Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006,
p. 442.
12 – Ash, Anthony Lee. O
Evangelho Segundo Lucas, Ed. Vida Cristã, São Paulo, SP, 1980, p. 226.
13 – Hendriksen, William.
Lucas, vol. 2, Ed. Cultura Cristã, São Paulo, SP, 2003, p. 239.
14 – Morris, Leon L.
Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São
Paulo, SP, 1986, p. 213.
15 – Henry, Matthew.
Comentário Bíblico Novo Testamento Mateus a João, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ,
2008, p. 639.
16 – Lopes, Hernandes
Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 434.


