quinta-feira, 30 de março de 2023
terça-feira, 7 de março de 2023
quinta-feira, 2 de março de 2023
ENTRAI PELA PORTA ESTREITA - Lucas 13.22-30
Por Pr Silas Figueira
Texto base: Lucas 13.22-30
INTRODUÇÃO
O início dessa viagem
para Jerusalém foi indicado em 9.51 e vai até 19.27. É ao viajar por Samaria,
indo da Galileia para Jerusalém, que Jesus separa um tempo para contar histórias
que preparam seus seguidores a trazer o comum da vida a uma percepção consciente
e a uma participação nessa vida do reino.[1] Parecia que Jesus não tinha
pressa. Ele se detinha nas cidades e vilas que ficavam em seu caminho. Aliás,
ele permaneceu tempo suficiente nesses lugares para poder ensinar neles.[2] E
foi durante esse percurso que uma pessoa lhe pergunta “Senhor, são poucos os
que se salvam?”. A vaga referência de Lucas a esta pessoa, com a indicação
no contexto seguinte de que ele está fora do Reino, indica que não se tratava
de um dos apóstolos, mas alguém dentre a multidão que seguia Jesus.[3]
Wiersbe destaca que os
escribas costumavam discutir a questão do número de pessoas que seriam salvas,
e alguém pediu a Jesus para dar sua opinião sobre o assunto. Da mesma forma que
havia feito com a questão a respeito de Pilatos, Jesus passou a discussão
imediatamente para o nível pessoal.[4] Jesus não falou com esta pessoa de forma
genérica a respeito da salvação, mas tratou a questão de forma muito pessoal,
de foro íntimo. Isso mostra que o Senhor não salva por atacado, mas de forma
pessoal.
Com isso em mente,
podemos destacar algumas lições importantes aqui:
1 – VEMOS AQUI UMA
PERGUNTA EXTRAORDINÁRIA (Lc 13.23).
Essa pergunta deveria ser
a pergunta de todo cristão, pois ser cristão não nos dá garantia de salvação. A
religião cristã envolve Catolicismo Romano, Catolicismo Ortodoxo, Testemunhas
de Jeová, Adventistas, Mórmons, Evangélicos. O quadro é um pouco mais amplo,
mas por aqui já temos uma ideia. Diante disso já sabemos que religião nenhuma
tem o poder de salvar ninguém. Que a salvação é por meio de Jesus Cristo e de
uma vida totalmente consagrada a Ele.
Wiersbe destaca que “a
pergunta não é quantos serão salvos, mas se você será salvo ou não! Primeiro
resolva isso, depois conversaremos sobre o que fazer para ajudar outros a serem
salvos”. [5]
Hendriksen destaca que segundo
uma opinião amplamente difundida entre os judeus, endossada pelos rabinos,
Israel como um todo seria salvo. Em contrapartida, segundo o ensino de Jesus, a
linha de demarcação entre salvos e não-salvos não era de cunho nacionalista,
mas distintamente espiritual. Veja Lucas 4.25-27; 6.20-38, 46-49; 7.9; 8.4-15;
11.29-52. Não surpreende que alguém perguntasse a Jesus se os salvos seriam
poucos em número. Não é verdade que sempre que Jesus proclamava que somente aqueles
cujo coração eram comparáveis à boa terra, somente os que estavam dispostos a
negar-se a si mesmos, somente os que não só ouviam seu ensino, mas também o
punham em prática, seriam salvos? Isso deixava fora a muitos. [6]
Matthews Henry destaca
quatro coisas em relação a pergunta desta pessoa:
1º - Em primeiro lugar, talvez
esta fosse uma pergunta capciosa. Alguém lhe fez a
pergunta, tentando-o, com o propósito de apanhá-lo em uma armadilha e assim
diminuir a sua reputação.
2º - Em segundo lugar, talvez
a pergunta tenha sido feita por curiosidade, ou como uma boa especulação.
As pessoas geralmente perguntam: “Será que este e aquele podem ser salvos?” Mas
é melhor que possamos ser salvos sem saber detalhes a respeito da vida dos
outros, detalhes que realmente não nos interessam.
3º - Em terceiro lugar, talvez
fosse uma pergunta ocasionada pela admiração. Ele havia notado
como a lei de Cristo era rigorosa, e como o mundo era mau. Assim, comparando-as,
ele exclama, “Quão poucos serão salvos!” Note que temos motivos para nos
admirar por causa de um fato curioso: a palavra de salvação é enviada a muitos,
porém ela só é realmente uma palavra salvadora para poucos.
4º - Em quarto lugar, talvez
fosse uma pergunta investigadora: “Se há poucos que são
salvos, e então? Que influência isto deveria ter sobre mim?” Note que todos nós
temos a responsabilidade de entender seriamente a grande verdade de que poucos
serão salvos.[7]
É possível que essa
pergunta tenha sido feita por um verdadeiro seguidor de Cristo. Mas depois de
quase três anos de ministério, inúmeros milagres, ensino incomparável, e
multidões segui-lo, no entanto, havia apenas um decepcionante e pequeno número
de verdadeiros crentes que criam nele como Salvador. Poucos, em número, foram
alcançados pela fé salvadora, tanto que Jesus mesmo se referiu a eles como um “pequeno
rebanho” (Lc 12.32).
Apesar de tudo que Jesus
realizava os líderes religiosos da nação o haviam rejeitado dizendo que Ele era
habilitado por Satanás. Muitas pessoas também viram o poder sobrenatural de
Jesus como satânico. Outros o rejeitaram porque Ele não cumpria a expectativa
messiânica. Quando uma grande multidão tentou forçá-lo a ser um messias
político-militar Jesus recusou-se (Jo 6.14,15). A realidade de ontem é a mesma
realidade de hoje, são muito poucos os crentes genuínos que seguem a Cristo. Isso
ocorre porque as pessoas querem um Jesus segundo o seu bel-prazer e não o Jesus
que se revela nas Escrituras.
Por isso, essa pergunta é
de suma importância para todos nós hoje.
2 – NÃO SE ENTRA PELA PORTA
ESTREITA DE QUALQUER MANEIRA (Lc 13.24-30).
O fato da resposta de
Jesus não ter abordado a questão diretamente, mostra que não é importante
quantas pessoas estão sendo salvas; o que importa para cada pessoa é que ela
seja uma delas. Em vez de responder à questão de quantidade, Jesus foca na
qualidade de fé dos verdadeiros crentes e fez um convite pessoal para um dos
presentes para receber a salvação que Ele oferece.
Cinco aspectos desse
convite podem ser discernidos: Jesus falou a respeito do esforço espiritual, da
oportunidade da porta aberta, da falta de relacionamento com Ele, a rejeição
eterna e por fim, a escolha dos gentios.
Vejamos cada um deles:
1º - Em primeiro lugar, um
esforço espiritual (Lc 13.24). A
palavra grega aqui traduzida como esforçai-vos (porfiai) é a nossa
palavra “agonizar” (um termo que vem do grego agonizesthai). A palavra
estreita denota aperto. Com uma porta estreita restringindo a entrada, forçando
aquele que entra a se livrar de qualquer peso ou bagagem, e com forças opostas
bloqueando a sua entrada, as pessoas deverão se esforçar ardentemente
(agonizar) para entrar. [8] Por isso que Jesus falou que aquele que “não
aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda
também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc 14.26), ou seja, não
pode entrar pela porta estreita.
Champlin destaca que o versículo
24 diz que o número dos eleitos será pequeno. Assim será porque participarão da
natureza divina (2Pe 1.4), possuidores da imagem e da natureza de Cristo (Cl 2.10),
transformados em sua imagem pelo poder do Espirito (2 Co 3.18; Ro 8.29).
Trata-se de algo elevadíssimo, e a maioria dos homens jamais chegará lá. Os
eleitos participarão da mesma forma de vida que Deus tem (Jo 5.25,26). Tudo
isso transcende infinitamente ao anúncio normal do evangelho, que fala apenas
de perdão e de mudança futura para os céus. Essas bênçãos são apenas o início
da inquirição eterna em busca da perfeição, da perfeição divina, que é
infinita.[9]
2º - Em segundo lugar, uma
oportunidade ainda possível (Lc 13.25a). Não é só estreita a porta
para o reino, mas também pode ser fechada. Uma vez que Cristo, o chefe da casa,
levantar-se e fechar a porta, não haverá admissão; a oportunidade de entrar no
reino será permanentemente impossível para os que ficaram do lado de fora (ex. a
arca de Noé – Gn 7.16c). Há um sentimento de desespero e urgência neste quadro;
pecadores, com um tempo limitado para responder ao convite do evangelho, deixam
essa oportunidade passar, e ela será fechada permanentemente.
A porta do reino é
estreita, mas é bastante ampla para admitir o principal dos pecadores. A porta
do reino é estreita, mas não estará aberta para sempre. O tempo de entrar no
reino é agora. Postergar essa decisão é cometer a maior de todas as loucuras.
Amanhã pode ser tarde demais. [10]
Dois pecados são
provavelmente responsáveis pela chegada dos atrasados: rebeldia e presunção. O
amor ao pecado os seguraria, e uma falsa esperança de que o amor e a bondade do
Mestre o levariam a abrir uma exceção para eles, os impediriam de agir conforme
uma boa consciência.[11]
Usando as mesmas imagens
como na parábola das virgens onde encontramos cinco prudentes e cinco insensatas
(Mt 25.1-13), Jesus advertiu que aqueles que perdem a oportunidade de salvação
vão ficar do lado de fora, e ao baterem à porta dizendo: “Senhor, abre-nos a porta!”,
terão a expressa surpresa e horror ao ver fechada permanentemente a porta do
reino de Deus. Afinal, eles eram pessoas religiosas, muitos dos quais afirmavam
ter ministrado em nome de Jesus (Mt 7.22). Claramente, o inferno será
preenchido não só pelos que rejeitam a Deus abertamente, mas também por aqueles
que exteriormente foram religiosos e “reverentemente” falavam em nome de Jesus,
mas sem nenhum compromisso com Ele.
3º - Em terceiro lugar, a
falta de relacionamento com Jesus (Lc 13.25b-27).
Os que tinham comido e bebido com ele achavam, erradamente, que isso garantia a
sua entrada no banquete messiânico. Mas Ele só reconhece os obedientes,[12] por
isso o Senhor responderá: “Não sei donde sois” (cf. Mt 7.23); isso
revela aqueles que desperdiçaram sua oportunidade e ficarão de fora do reino.
Apesar de sua fachada religiosa externa, eles não tinham nenhuma relação ou união
de vida com Cristo.
Como disse Hendriksen “Onde
estavam eles quando a porta estava ainda aberta? Estavam sempre ‘em algum lugar’,
não onde teriam de estar”. E possível que algumas dessas pessoas tenham comido
do pão multiplicado! Como se a presença e o ensino de Jesus em suas ruas fossem
suficientes para salvação! Nem ainda se afastaram de seu caminho para ouvir
Jesus? Mas se o fizeram, pelo menos não creram nem agiram conforme sua mensagem.
O mero contato externo com Jesus nunca salvou alguém. Demanda-se uma mudança
interior.[13]
4º - Em quarto lugar, a
rejeição eterna (Lc 13.28). Como consequência, serão totalmente
rejeitados. O dono da casa diz que não sabe donde são, e os marca como os que
praticais iniquidades (cf. Sl 6.8). Eles chorarão (expressando, assim, sua
grande aflição) e rangerão os dentes (na sua fúria). Estas expressões marcam o
máximo da frustração e da decepção. Mas estes homens não sentirão menos do que
isto quando virem os grandes heróis da fé no reino que sempre pensavam que
seria deles também, e se acham lançados fora.[14] No inferno não há nenhum
arrependido, mas haverá aflição e ódio eterno.
Ali haverá choro e ranger
de dentes, o grau máximo de dor e indignação. E aquilo que é a sua causa, e que
contribui com ela, é uma visão da felicidade daqueles que são salvos: Quando
virdes Abraão, e Isaque, e Jacó, e todos os profetas no Reino de Deus; e vós
lançados fora. Observe que os santos do Antigo Testamento estão no Reino de
Deus; estes foram beneficiados pelo Messias que morreu e ressuscitou, porque
eles viram o seu dia à distância e isto refletiu a consolação sobre eles.
A
visão da glória dos santos será um grande agravo da infelicidade do pecador;
eles então verão o Reino de Deus de longe, e nele contemplarão os profetas a
quem odiaram e desprezaram, e eles mesmos, embora estivessem certos de entrarem
no reino, serão lançados fora. Esta é a principal razão pela qual rangerão os
dentes, Salmos 112.10.[15]
5º - Em quinto lugar, a
escolha dos gentios (Lc 13.29,30). Jesus fala sobre aqueles
que virão do oriente e do ocidente, do norte e do sul e tomarão lugares à mesa
no reino de Deus. Esses são os gentios que vêm de todas as raças, tribos,
línguas e nações (Ap 5.9). Sendo eles os últimos, virão a ser primeiros, e os
judeus com todos os privilégios que desfrutaram, por terem rejeitado o seu
Messias, virão a ser os últimos. A pirâmide está de ponta-cabeça. A ordem está
invertida. Jesus está golpeando de morte a presunção dos judeus, especialmente
a presunção dos escribas e fariseus![16]
Jesus conclui a resposta
que lhe fizeram dizendo: “E eis que derradeiros há que serão os primeiros; e
primeiros há que serão derradeiros”. Essa expressão intensifica ainda mais o
choque que esses judeus perdidos irão sentir. Não só os gentios estarão no reino,
mas também serão iguais com os judeus que estarão lá. No reino da salvação “não
há judeu nem grego, não há escravo nem homem livre, não há homem nem mulher;
para [os redimidos] todos são um em Cristo Jesus” (Gl 3.28; cf. Ef 2.11-16).
CONCLUSÃO
A lição a ser aprendida
com o convite de Cristo para a salvação é dupla. Em primeiro lugar, a
verdadeira Igreja de Jesus Cristo deve pregar a mensagem certa; pois uma
mensagem corrompida, alterada e falsa é um convite a um evangelho distorcido,
fácil e impotente para salvar os pecadores perdidos. Além disso, o falso
evangelismo deixa as pessoas não convertidas e, posteriormente, céticos do
verdadeiro evangelho e, portanto, mais abertos a um maior engano. O Senhor
Jesus Cristo nunca diluiu Sua mensagem para evitar ofender as pessoas; Ele os
fez, ou se sentir mal o suficiente para se arrepender, ou furioso o suficiente
para rejeitar.
E em segundo lugar, a
mensagem para os não-redimidos é que Deus não salva ninguém além do
arrependimento genuíno. A batalha para negar a si mesmo e seguir a Cristo é
intenso, o tempo é curto e o destino eterno está em jogo.
Pense nisso!
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PR SILAS FIGUEIRA:
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Bibliografia:
1 – Peterson, Eugene H. A
Linguagem de Deus, Ed. Mundo Cristão, São Paulo, SP, 2011, p. 23.
2 – Hendriksen, William.
Lucas, vol. 2, Ed. Cultura Cristã, São Paulo, SP, 2003, p. 237.
3 – Childers, Charles L.
Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006,
p. 441.
4 – Wiersbe, Warren W.
Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo
André, SP, 2007, p. 294.
5 – Ibidem, p. 294.
6 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, Ed. Cultura Cristã,
São Paulo, SP, 2003, p. 237.
7 – Henry, Matthew. Comentário
Bíblico Novo Testamento Mateus a João, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2008, p.
637.
8 – Childers, Charles L.
Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006,
p. 442.
9 – Champlin, R. N. O
Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, Lucas, Vol. 2, Ed.
Hagnos, São Paulo, SP, 2005, p. 140.
10 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito,
Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 433.
11 – Childers, Charles L.
Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006,
p. 442.
12 – Ash, Anthony Lee. O
Evangelho Segundo Lucas, Ed. Vida Cristã, São Paulo, SP, 1980, p. 226.
13 – Hendriksen, William.
Lucas, vol. 2, Ed. Cultura Cristã, São Paulo, SP, 2003, p. 239.
14 – Morris, Leon L.
Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São
Paulo, SP, 1986, p. 213.
15 – Henry, Matthew.
Comentário Bíblico Novo Testamento Mateus a João, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ,
2008, p. 639.
16 – Lopes, Hernandes
Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 434.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023
domingo, 5 de fevereiro de 2023
DUAS PARÁBOLAS SOBRE O REINO DE DEUS - Lucas 13.18-21
Por Pr Silas Figueira
Texto base: Lucas 13.18-21
INTRODUÇÃO
Estas parábolas estão
ligadas ao incidente na seção anterior (Lc 13.10-17). O Senhor tinha
interrompido seu ensino em uma sinagoga (v. 10) para curar uma mulher que tinha
um espírito de enfermidade e estava cativa de Satanás por 18 anos, ou seja, ela
tinha uma enfermidade causada pelo maligno (v. 16). Essa demonstração de Seu
poder sobre o reino de Satanás, revelou a presença do Reino de Deus (cf. Lc 11.20).
O Senhor, então, continuou seu ensino com estas duas parábolas, que ilustram a
verdade que o reino de Deus, tanto de forma externa quanto de forma interna, iria
expandir a partir de seus pequenos começos.
Jesus havia usado essas
parábolas anteriormente, e os discípulos sabiam do que se tratava (Mt 13.31-33,
51). Há quem veja nessas histórias uma imagem do crescimento exterior e visível
do reino (a semente de mostarda) bem como de sua influência interior e
invisível (o fermento). Ao usar essas parábolas, Jesus estava dizendo: “Vocês,
líderes religiosos judeus, podem apegar-se a tradições mortas e se opor à verdade,
mas o reino vivo de Deus continuará a crescer. Satanás será derrotado!” [1]
Charles L. Childers
destaca que Jesus buscava na natureza analogias para ilustrar a verdade
espiritual. As coisas espirituais nunca podem ser totalmente compreendidas e
descritas pelo homem nesta vida. A única linguagem que conhecemos é terrena e,
como tal, tem seus significados fundamentais no mundo material. Tal linguagem
terrena só pode aproximar a verdade espiritual. Por causa da falta de uma linguagem
espiritual, as analogias são usadas para ajudar a descrever o indescritível.[2]
Com isso em mente,
podemos destacar algumas lições:
1 – O CRESCIMENTO EXTERNO E VISÍVEL DO REINO DE DEUS (Lc 13.18,19).
O que temos no versículo
18 é uma pergunta retórica. Era um artifício para aguçar o interesse do povo. Dessa
forma Jesus chamava a atenção dos ouvintes para os seus ensinamentos.
Podemos destacar duas
coisas aqui:
1º - Em primeiro lugar, o
Reino de Deus começou de forma imperceptível (Lc 13.19).
A parábola de Jesus revela o processo de crescimento do reino de Deus. Assim
como o semeador deita apenas um minúsculo grão de mostarda em sua horta, assim
o reino de Deus também apresenta, pela atuação fundamental de Jesus na terra,
uma configuração extremamente insignificante e modesta.[3] Parta muitos o Reino
de Deus é insignificante, seu agir não prevalecerá, no entanto, assim como o
grão de mostarda (as sementes têm cerca de 2 mm de diâmetro), apesar de sua humilde
aparência, ele cresce e aninha pássaros em seus galhos.
A igreja, agente do
reino, começou pequena e fraca em seu berço. A semente da mostarda é um símbolo
proverbial daquilo que é pequeno e insignificante. Era a menor semente das
hortaliças (Mc 4.31). Foi usada para representar uma fé pequena e fraca (Lc 17.6).
O reino chegou com um bebê deitado numa manjedoura. Jesus nasceu em uma família
pobre, numa cidade pobre, e cresceu como filho de um carpinteiro pobre. Ele não
tinha onde reclinar a cabeça. Seus apóstolos eram homens iletrados. O
Messias foi entregue nas mãos dos homens, preso, torturado e crucificado entre
dois criminosos. Seus próprios discípulos o abandonaram. A mensagem da cruz era
escândalo para os judeus e loucura para os gentios. Em todas as coisas do
reino, o mundo vê as marcas da fraqueza. Aos olhos do mundo, o começo da igreja
reveste-se de consumada fraqueza.[4] Mas, ao lermos Apocalipse, o quadro que
nos é apresentado de Jesus e da Igreja é algo que nos surpreende (Ap 1.9-20).
2º - Em segundo lugar, pequenos
começos produzem grandes resultados (Lc 13.19).
Embora a mostarda era a menor das sementes, contudo, crescia e se
transformava em arbusto tão grande que aves podiam “abrigar-se” sob ele... Assim,
Jesus diz-nos aqui que a semente do reino, nele e em seus primeiros seguidores,
é plantio de Deus, e que ninguém pode destruí-la.[5]
A árvore da mostarda
podia alcançar de três a sete metros de altura, dependendo do tipo e das
circunstâncias.[6] Quando Jesus disse que as aves que se aninham nos seus ramos
frequentemente são um símbolo para as nações da terra (Ez 17.23;31; Dn 4.12).
O
reino será universal. Homens de todas as nações se acharão dentro dele. [7] O
reino de Deus é como tal semente: seu tamanho atual e sua aparente insignificância
não são, de modo algum, indicadores de sua consumação, a qual abrangerá todo o
universo.[8]
A Igreja não só nasceu
pequena e insignificante, mas ela desde o seu nascimento tem sido perseguida. No
entanto, quanto mais a perseguiam mais ela crescia, pois os discípulos se
espalhavam para todos os lugares pregando as Boas Novas (At 8.1-4).
Quando os cristãos ao
redor do mundo têm os direitos negados, por escolherem seguir a Jesus, eles se
tornam vulneráveis a hostilidades em diferentes esferas da vida: na vida
privada, na família, comunidade, na nação e na igreja. De acordo com os dados
da Lista Mundial da Perseguição 2022, mais de 360 milhões de cristãos no mundo
enfrentam algum tipo de oposição como resultado da identificação com Cristo.[9]
Mas a Igreja está viva e ativa, pois o Pai é o agricultor que tem preservado e
cultivado a Sua vinha (Jo 15.1).
A igreja continua
crescendo em todo o mundo. De todos os continentes, aqueles que confessam o
Senhor Jesus vão se juntando a essa grande família, a esse imenso rebanho, a
essa incontável hoste de santos. Nas palavras do profeta Daniel, o reino de
Deus é como uma pedra que quebra todos os outros reinos (Dn 2.44,45), e enche
toda a terra como as águas cobrem o mar (Hc 2.14).[10]
2 – O CRESCIMENTO INTERNO
E INVISÍVEL DO REINO DE DEUS (Lc 13.20,21).
Se a parábola da semente
da mostarda fala sobre a expansão externa do reino, a parábola do fermento fala
sobre sua influência invasiva, secreta e interna no coração do crente.
Aqui o fermento não é
símbolo do mal, conforme é normal na literatura bíblica (Lc 12.1; Ex 12.14- 20;
1Co 5.7). Seu poder de “crescimento” e “expansão” é que é frisado. Em sua
aplicação original, provavelmente ilustrava a mesma verdade que sua gêmea a
parábola da semente de mostarda; Deus já está impondo seu senhorio, e as
poderosíssimas consequências de tal fato logo se tornarão evidentes. [11]
Com isso em mente podemos
destacar duas verdades que o texto nos ensina:
1º - Em primeiro lugar, o
progresso do Evangelho no coração do homem crente (Lc 13.21).
Uma vez que a obra da graça iniciou-se no coração, ela jamais permanecerá quieta.
Crescerá gradualmente, “até ficar levedada”. A semelhança do fermento colocado na
massa, a obra da graça não pode ser separada daquilo com que ela foi misturada.
Pouco a pouco, ela influenciará a consciência, as afeições, a mente e a
vontade, até que todo o homem seja afetado pelo seu poder e ocorra uma completa
conversão a Deus. [12]
Como disse Paulo
escrevendo à Timóteo em sua primeira carta:
“E dou graças ao que me
tem confortado, a Cristo Jesus Senhor nosso, porque me teve por fiel, pondo-me
no ministério; a mim, que dantes fui blasfemo, e perseguidor, e injurioso; mas
alcancei misericórdia, porque o fiz ignorantemente, na incredulidade. E a graça
de nosso Senhor superabundou com a fé e amor que há em Jesus Cristo” (1Tm
1.12-14).
2º - Em segundo lugar, assim
como o fermento age de forma invisível na massa, o Reino de Deus age na vida do
crente (Lc 13.21). A lição é que uma quantidade pequena de
fermento faz sua presença ser sentida na totalidade de uma massa muito maior.
Assim acontece com o reino. O fermento trabalha de modo quieto e invisível, e o
reino opera através da influência de Cristo sobre os corações humanos, e não em
qualquer coisa meramente externa e visível. Talvez valha a pena notar, também,
que o fermento trabalha de dentro: não pode transformar a massa enquanto fica
do lado de fora. Mas também é importante que o poder para fazer a transformação
vem de fora, pois a massa não se transforma a si mesma. [13]
William Hendriksen
reforça que o ponto que Jesus está enfatizando nessa parábola é este: o reino
de Deus, introduzido nos corações e nas vidas humanos de fora, uma vez dentro
exerce uma influência sã, completa e penetrante dentro e de dentro
para fora, nos corações e nas vidas. Conduz os homens para diante, para o
alvo da perfeição que Deus lhes propôs. Ao agir assim, afeta favoravelmente cada
esfera da vida na qual se movem.[14]
Foi pela influência do
evangelho que as grandes causas sociais foram promovidas: a libertação da
escravidão, a valorização das crianças e das mulheres, o amparo aos idosos, o
alívio à pobreza, a valorização do conhecimento, das ciências e das belas
artes, a promoção do crescimento econômico e social da sociedade. O evangelho
não aliena os seres humanos. Ao contrário, transforma-os e faz deles agentes de
transformação.[15]
CONCLUSÃO
Vimos nessas duas
parábolas que a ação de Deus no coração do homem é, aos olhos de muitas pessoas,
algo insignificante. No entanto, assim como a semente de mostarda que é a menor
das sementes, cresce ao ponto de aninhar pássaros em seus ramos, assim é a
Igreja, aparentemente pequena em seu começo, mas cresceu aninhou em seus “ramos”
pessoas de toadas as tribos, povos, línguas e nações. Do mesmo modo o fermento.
Ele age na massa a fazendo crescer, assim é o Reino de Deus, cresce de forma
invisível, sem que se perceba, mas quando se nota, já atingiu grande
crescimento.
A vida do cristão precisa
estar pautada nessas duas analogias, somos, aos olhos do mundo, insignificantes,
mas estamos espalhados por todo o mundo influenciando e acolhendo pessoa de
todas as nações. E naquele grande dia, seremos uma multidão incontável que João
viu na revelação do livro de Apocalipse (Ap 7.9-17).
Pense nisso!
Bibliografia:
1 – Wiersbe, Warren W.
Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo
André, SP, 2007, p. 293.
2 – Childers, Charles L.
Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006,
p. 440.
3 – Rienecker, Fritz. O
Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba,
PA, 2005. p. 295.
4 – Lopes, Hernandes
Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 430.
6 – Ash, Anthony Lee. O
Evangelho Segundo Lucas, Ed. Vida Cristã, São Paulo, SP, 1980, p. 223.
8 – Lopes, Hernandes
Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p.
430.
9 – A Igreja Perseguida. https://portasabertas.org.br/cristaos-perseguidos/igreja-perseguida,
acessado em 31/01/2023.
10 – Lopes, Hernandes
Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 431.
11 – Champlin, R. N. O
Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, Lucas, Vol. 2, Ed.
Hagnos, São Paulo, SP, 2005, p. 139.
12 – Ryle, J. C.
Meditações no Evangelho de Lucas, Ed. FIEL, São José dos Campos, SP, 2002, p. 241.
13 – Morris, Leon L.
Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São
Paulo, SP, 1986, p. 212.
14 – Hendriksen, William.
Lucas, vol. 2, Ed. Cultura Cristã, São Paulo, SP, 2003, p. 235.
15 – Lopes, Hernandes
Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p.
431.
domingo, 29 de janeiro de 2023
A CURA DE UMA MULHER ENCURVADA - Lc 13.10-17
Por Pr Silas A. Figueira
Texto base: Lucas 13.10-17
INTRODUÇÃO
Lucas registra que Jesus
estava no dia de sábado numa sinagoga, quando uma mulher encurvada, com a
coluna torta, que passara dezoito anos olhando para o chão, atormentada por um
espírito de enfermidade é liberta pelo Senhor. Wiersbe diz que se ele fosse um
portador de deficiência por dezoito anos, não saberia se teria se mostrado tão
fiel indo adorar a Deus todas as semanas na sinagoga. Por certo, a mulher orava
e pedia a ajuda de Deus e, no entanto, não havia sido liberta de sua
enfermidade. Porém, o aparente descaso de Deus não a deixou amargurada nem
rancorosa. Lá estava ela na sinagoga. [1]
Ensinar nas sinagogas no
sábado era um hábito de Jesus durante os primeiros meses de seu ministério, mas
há poucos registros desta prática durante o seu ministério na Peréia. Este versículo,
portanto, parece indicar que este costume não foi interrompido, embora tivesse a
oposição dos líderes judeus.[2]
James R. Edwards destaca
que essa é a última aparição de Jesus na sinagoga no sábado em Lucas (4.16,33;
6.6; 13.10), as três últimas delas narram curas. O cenário da sinagoga é
crucial, pois Jesus, na sinagoga de Nazaré, anunciou sua missão messiânica de “libertar
os oprimidos” (4.18). Agora Jesus, em uma sinagoga no coração da seção central
de Lucas, liberta uma “filha de Abraão” da escravidão satânica (v. 16).
Contudo, tanto na primeira quanto na última aparição na sinagoga, os líderes
judeus estão com o coração endurecido para o ministério de Jesus.[3]
E nesse dia, mas uma vez,
Jesus se depara com alguém enfermo. No entanto, Lucas nos informa que esta
pessoa era uma mulher e que estava com “espírito de enfermidade”. Não há
consenso se esse era um caso de possessão demoníaca ou se era uma doença
colocada na mulher por Satanás, ou mesmo se Satanás estava atormentando essa
mulher por causa de sua enfermidade. Eu creio que essa mulher não estava
possessa, pois o texto nos diz que Jesus a chama de “filha de Abraão”, dando a
entender que essa mulher era temente a Deus. Aliás, é bom destacar que creio em
possessão demoníaca, mas não creio que um crente em Jesus possa ficar possesso.
Opresso sim, possesso não. William Hendriksen diz que se ela não estava possessa,
a expressão “tendo um espírito de enfermidade” parece favorecer a sugestão de
que ela realmente estava, pelo menos, sob a influência demoníaca.[4] John
Charles Ryle seguindo essa mesma linha de pensamento diz que essa mulher era
uma verdadeira crente. [5]
Mas, quais as lições que
podemos aprender aqui?
1 – VEMOS NA SINAGOGA UMA
MULHER PRESA POR SATANÁS (Lc 13.10-13).
Jesus está em uma
sinagoga ensinando e estava ali, dentre muitas pessoas, uma mulher enferma. Mas
não era uma enfermidade comum. Lucas nos diz que era uma enfermidade
espiritual. Observe a maneira precisa e detalhada que Lucas, o médico, descreve
a doença da mulher. Parecia que este era um caso extremo de curvatura da
espinha, e a história fica mais triste ainda pelo fato de ela sofrer com isso
havia dezoito anos.[6]
Podemos destacar três coisas
mediante a enfermidade dessa mulher.
1º - Em primeiro lugar, nem
todas as enfermidades são naturais. O próprio texto nos
fala que esta mulher vinha sofrendo de uma enfermidade “espiritual”. Assim como
existem enfermidades espirituais, existem enfermidades naturais, e existem
também enfermidades psicossomáticas (as doenças psicossomáticas são desordens
emocionais ou psiquiátricas que afetam também o funcionamento dos órgãos do
corpo. Esses desajustes provocam múltiplas queixas físicas, e que podem surgir
em diferentes partes do corpo).
Com isso, podemos dizer,
com toda certeza, que nem toda enfermidade é causada por Satanás. Mas toda
enfermidade é causada por causa do pecado (consequência do pecado de Adão). Como
disse Fritz Rienecker: “todo o sofrimento e todas as doenças estão, em última
instância, relacionadas com o pecado, com a queda no pecado (At 10.38; 2Co
12.7)”.[7]
2º - Em segundo lugar,
essa mulher só poderia ficar livre desse mal mediante libertação (Lc 13.16).
A enfermidade dessa mulher não poderia ser resolvida com fisioterapia, nem
mediante uma cirurgia de coluna. Não havia remédio que a pudesse sarar desse
mal. Vemos claramente nesse texto que existem enfermidades que são provocadas
pela ação de Satanás. Até sobre nossas vidas, muitas vezes, isso pode ocorrer,
com a permissão de Deus. E uma das razões, como dizem os neopentecostais: “é quando
damos legalidade ao diabo”. Geralmente essas coisas ocorrem porque o servo do
Senhor está fazendo algo que o desagrada. Estão com a vida em pecado, então o
Senhor permite que o mal ocorra para tirar o Seu servo do caminho errado que se
encontra. Por exemplo, por causa do orgulho de Davi, Deus castigou Israel e com
uma peste que matou centenas de pessoas (2Sm 24.15,16; conf. Sl 32).
Com o pecado nós não podemos
brincar, pois as suas consequências são extremamente dolorosas. E,
infelizmente, inocentes são atingidos também – leia o livro de Lamentações e você
entenderá melhor o que estamos dizendo aqui.
3º - Em terceiro lugar,
existem enfermidades que são colocadas por Satanás por permissão de Deus, mesmo
a pessoa estando na presença de Deus (Jó 2). Eu creio que
este é o caso dessa pobre mulher aqui registrado. Pelo contexto observamos que
o Senhor queria desmascarar a hipocrisia dos líderes religiosos ali presentes.
Assim como o Senhor desmascarou Satanás em relação a Jó. Assim como Jó que em
nada pecou, mesmo sofrendo terrivelmente, assim, esta mulher, mesmo enfrentando
esse mal, ela não deixou de estar na presença do Senhor. Esta mulher servia a
Deus pelo o que Ele é e não pelo o que Ele podia fazer por ela.
4º - Em quarto lugar,
existem pessoas enfermas na alma (Gl 5.19-21). Embora as obras
da carne não sejam enfermidades físicas e nem espirituais, mas um problema carnal,
de qualquer forma a pessoa está deformada em seu caráter. Está encurvada pelo
peso do pecado. Charles Spurgeon comentando sobre esse texto faz a seguinte
pergunta: “Imaginem, por um momento, qual seria o resultado para a presente
congregação se nossa forma externa exibisse o estado interno. Se alguém com
olhos semelhantes aos do Salvador pudesse nos perscrutar agora, e enxergasse
dentro de nós, qual seria a aparência de cada um de nós?” [8]
5º - Em quinto lugar, ela
não podia endireitar-se (Lc 13.11c). Ela, por mais que
tentasse, não podia endireitar-se, estava presa nas garras de Satanás. Só com a
intervenção divina isso pode ocorrer.
Tem aquelas pessoas que
dizem para as outras que estão enfermas que elas não ficam curadas porque não
querem. Acham que isso é uma grande ajuda, mas não é. Isso é um tormento para
quem ouve.
Spurgeon diz que conhecemos
certas pessoas prudentes, porém um pouco destituídas de sentimentos, que culpam
estes enfermos e os repreendem por serem tão desanimados; e isso nos leva a notar,
a seguir, que ela não podia levantar-se. Culpá-la de nada aproveitava. É
possível ter havido um tempo em que suas irmãs mais velhas dissessem: “Irmã,
você deve manter-se mais ereta; não deve ficar com os ombros caídos; você está
ficando muito fora de forma; deve tomar cuidado para não ficar deformada”. Oh,
quão bons os conselhos dados por algumas pessoas! Os conselhos dados a pessoas
que ficam deprimidas de espírito habitualmente são pouco sábios. Às vezes
desejo que quem estiver tão pronto a oferecer conselhos tenha sofrido um pouco,
pois então terá sabedoria de guardar a língua”.[9]
2 – JESUS DESMASCARA A
HIPOCRISIA DOS RELIGIOSOS (Lc 13.14,15).
O líder da sinagoga ficou
indignado com a atitude de Jesus. Ao invés de glorificar a Deus, ele tenta
justificar que aquele dia não era dia de libertação.
Com isso em mente,
podemos destacar três lições importantes:
1º - Em primeiro lugar, há
pessoas mais interessadas em liturgia que na libertação dos cativos (Lc 13.14).
O chefe da sinagoga, longe de alegrar-se com a libertação e cura dessa filha de
Abraão, encheu-se de ira. Estava mais interessado nos preceitos de sua religião
legalista do que na libertação dos cativos e na cura dos enfermos. Amava mais o
sistema religioso do que as pessoas que vinham para a adoração. [10]
Há pessoas que querem engessar
o culto e acham que ele não pode fugir de seus moldes pré-estabelecidos. Na
verdade, o culto assim não é para Deus, é para os ouvintes. Não é um culto, é
uma apresentação. É um show de talentos.
2º - Em segundo lugar, o Senhor
revela a hipocrisia desses líderes (Lc 13.15). O plural usado
por Jesus, hipócritas, critica severamente não somente o chefe da sinagoga,
como também todos aqueles que concordam com ele.[11] O Talmude (tradição dos
judeus) não permitia que se levasse água a um animal no sábado, mas o animal
podia ser levado até a água. Os críticos permitiam que fosse feito mais a um
animal do que permitiriam que Jesus fizesse a um ser humano.[12] Eram essas
atitudes que tanto indignavam o Senhor. Essa hipocrisia deslavada dos líderes
religiosos. Literalmente coavam a mosca e engoliam o camelo (Mt 23.24).
3º - Em terceiro lugar,
Jesus mostra que os líderes religiosos eram também cativos de Satanás (Lc
13.14). O aprisionamento daquela pobre mulher por Satanás
era um reflexo da prisão que Satanás mantinha os líderes religiosos. Seu
sistema religioso era baseado em justiça própria, nas boas obras, e o desempenho
de vários rituais e cerimônias religiosas. Jesus destruiu a ilusão de que tal observância
agradava a Deus.
Quando nos lembramos de
que aqueles animais representavam propriedade – riqueza – vemos o completo
egoísmo destes hipócritas. Jesus ressaltou que, em vez de serem
espiritualmente ricos, eles eram espiritualmente falidos; em vez de serem livres,
eles estavam na escravidão de Satanás.
Enquanto Jesus chamou
essa mulher de “filha de Abraão”, em outra ocasião Jesus chamou os líderes
judeus de filhos do diabo e de fazerem a sua vontade (Jo 8.44).
3 – A MISERICÓRDIA DO
SENHOR LIBERTA ESSA PRISIONEIRA DE SATANÁS (Lc 13.12,16).
Aquela mulher, mesmo
enferma, foi na sinagoga para o culto público. Ela não ficou em casa se
lamentando por sua condição degradante.
Com isso em mente,
podemos destacar três coisas:
1º - Em primeiro lugar, essa
mulher, apesar de estar enferma, não deixava de estar na sinagoga.
Matthew Henry diz que até mesmo as enfermidades do corpo, a menos que sejam
realmente graves, não devem nos impedir de participar dos cultos públicos; pois
Deus pode nos ajudar, além das nossas expectativas.[13] John Charles Ryle nesta
mesma linha de pensamento diz que a enfermidade não era uma desculpa para
impedi-la de vir à casa de Deus. Apesar de seu sofrimento e enfermidade, ela se
dirigiu ao lugar onde o dia e a Palavra de Deus eram honrados e onde o povo de
Deus se reunia.[14]
Spurgeon disse que o
diabo às vezes sugere que a você que é inútil continuar escutar a Palavra de
Deus. Vá, mesmo assim. Ele sabe que você tem a probabilidade de escapar de suas
mãos enquanto escuta a Palavra e, por isso, se ele o conseguir mante longe, procederá
desse modo. Enquanto estava na casa de oração essa mulher recebeu a liberdade,
e onde você recebe-la; por isso, continue, ainda, subindo à casa do Senhor,
aconteça o que acontecer.[15]
John Charles Ryle diz que
a conduta dessa judia sofredora pode envergonhar muitos que professam ser
cristãos e desfrutam de boa saúde e vigor físico. Quantas pessoas que se
encontram em pleno gozo de saúde física permitem que as mais frívolas desculpas
as mantenham afastadas da casa de Deus.[16]
Muitas pessoas hoje têm
se afastado da casa de Deus por estarem passando por problemas. Onde eles
deveriam estar para receberem do Senhor um conforto, consolo e até mesmo a
solução para os seus problemas, é o lugar que muitos não desejam estar. Muitos vão
“espairecer” no cinema, no shopping, ou ficam em casa mesmo, lambendo as suas
feridas.
Eu já perdi a conta de
quantas vezes eu obtive respostas para minhas crises durante o culto. Deus ainda
fala hoje e liberta o cativo, pois Deus é um Deus de milagres.
2º - Em segundo lugar, a
misericórdia do Senhor nos alcança quando menos esperamos (Lc 13.12).
Numa época em os judeus acreditavam que o intenso sofrimento estava relacionado
com o castigo de Deus por causa do pecado, essa pobre mulher sofria ainda mais.
Ela carregava o estigma da culpa. Assim, não só foi ela um pária por causa
desse desagrado presumido pelas pessoas, mas na percepção social judaica em
relação as mulheres, ela era considerada como uma pessoa de segunda classe. O
pior de tudo, sua doença tinha sido causada por um espírito maligno que a afligia
(como Satanás fez com Jó - Jó 2.7).
Naquela época esperava-se
que as pessoas com deformidades físicas permanecessem socialmente invisíveis, em
especial de fossem mulheres. As mulheres raramente se aproximavam dos rabis, se
é que se aproximavam, nem os rabis, como regra, falavam com as mulheres. Jesus,
todavia, toma a iniciativa com essa mulher desamparada, e o fez de forma enfática:
ele a viu, chamou-a e disse-lhe: “Mulher, você está livre da sua doença” (Lc
13.12).[17]
A misericórdia do Senhor
a alcançou numa hora que ela menos esperava, ou quem sabe, nem esperava mais. O
texto nos diz que o Senhor viu a pobre e idosa mulher, aleijada pelo espaço de
dezoito anos. Não aguardou a permissão de quem quer que seja; sua compaixão
comoveu-o profundamente.[18]
O próprio Jesus tomou a
iniciativa. Jesus fala à enferma e impõe as mãos sobre ela. Usa a voz e o
toque. Dirige-se a dois de seus sentidos: a audição e o tato. A cura é imediata
e completa. A mulher imediatamente se endireitou. A prisão de Satanás foi
destruída. As algemas foram despedaçadas. Ela saiu da masmorra da doença
torturante. A mulher ficou livre tanto de sua aflição física como também de
Satanás. Essa filha de Abraão voltou a viver.[19]
3º - Quando Deus quer
agir, não depende da vontade dos homens (Lc 13.14).
O texto nos fala que o chefe da sinagoga ficou indignado com a atitude de Jesus.
O chefe da sinagoga pode ter achado que havia uma invasão da prerrogativa dele,
pois ele dirigia o que acontecia na sinagoga, e a cura foi realizada sem
referência a ele. Não repreendeu a Jesus [diretamente], mas falou para o povo
em geral. Entendia que o quarto mandamento proibia curas tais como esta. As
pessoas deviam procurar suas curas durante os seis dias úteis.[20] “Minha
sinagoga, minhas regras”.
Entenda uma coisa, Deus
não vai lhe pedir permissão para agir, Ele vai agir quando bem lhe aprouver. Quer
você goste ou não.
4º - Em quarto lugar, os
passos para ela alcançar a libertação. Primeiro, ela estava na
sinagoga, ou seja, na presença de Deus. Segundo, por estar na sinagoga o Senhor
Jesus a viu e se compadeceu dela. Terceiro, o Senhor a chamou e ela obedeceu. E
quarto, ela ficou liberta daquele mal.
5º - Em quinto lugar, todos
os presentes glorificaram a Deus (Lc 13.17). A partir daí
pode-se compreender a reação diversa de seus ouvintes. Aos adversários foi
calada a boca. A vigorosa resposta de Jesus por um lado, bem como o ato de
cura, por outro, potencializaram ao máximo a admiração do povo.[21]
CONCLUSÃO
A misericórdia de Deus
alcançou essa pobre mulher que vivia cativa de Satanás por dezoito anos. Mas,
mesmo enfrentando todo esse sofrimento, ali estava ela na sinagoga buscando a
face do Senhor. Ouvindo a Sua Palavra, sábado após sábado. Isso é um grande
exemplo para todos nós. Que possamos estar na presença de Deus em todo tempo. Talvez
hoje seja o dia da sua libertação!
Pense nisso!
Bibliografia:
1 – Wiersbe, Warren W.
Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo
André, SP, 2007, p. 292.
3 – Edwards, James A. O
Comentário de Lucas, Ed. Shedd, Sto Amaro, SP, 2019, p. 504.
4 – Hendriksen, William.
Lucas, vol. 2, Ed. Cultura Cristã, São Paulo, SP, 2003, p. 229.
5 – Ryle, J. C. Meditações no Evangelho de Lucas, Ed. FIEL,
São José dos Campos, SP, 2002, p. 236.
6 – Childers, Charles L.
Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006,
p. 439.
7 – Rienecker, Fritz. O
Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba,
PA, 2005. p. 293.
8 – Spurgeon, Charles H. Os Milagres de Jesus, Ed. Shedd, São Paulo,
SP, 2007, p. 81.
9 – Spurgeon, Charles H.
Os Milagres de Jesus, Ed. Shedd, São Paulo, SP, 2007, p. 84.
10 – Lopes, Hernandes
Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p.
426.
11 – Ash, Anthony Lee. O
Evangelho Segundo Lucas, Ed. Vida Cristã, São Paulo, SP, 1980, p. 223.
12 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 439.
13 – Henry, Matthew.
Comentário Bíblico Novo Testamento Mateus a João, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ,
2008, p. 635.
14 – Ryle,
J. C. Meditações no Evangelho de Lucas, Ed. FIEL, São José dos Campos, SP,
2002, p. 236.
15 – Spurgeon,
Charles H. Os Milagres de Jesus, Ed. Shedd, São Paulo, SP, 2007, p. 86.
16 – Ryle, J. C.
Meditações no Evangelho de Lucas, Ed. FIEL, São José dos Campos, SP, 2002, p.
237.
17 – Edwards, James A. O Comentário de Lucas, Ed.
Shedd, Sto Amaro, SP, 2019, p. 505.
18 – Champlin, R. N. O
Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, Lucas, Vol. 2, Ed.
Hagnos, São Paulo, SP, 2005, p. 137.
19 – Lopes, Hernandes
Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 426.
20 – Morris, Leon L.
Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São
Paulo, SP, 1986, p. 210.
21 - Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 294.


