quinta-feira, 2 de março de 2023

ENTRAI PELA PORTA ESTREITA - Lucas 13.22-30

Por Pr Silas Figueira

Texto base: Lucas 13.22-30

INTRODUÇÃO 

O início dessa viagem para Jerusalém foi indicado em 9.51 e vai até 19.27. É ao viajar por Samaria, indo da Galileia para Jerusalém, que Jesus separa um tempo para contar histórias que preparam seus seguidores a trazer o comum da vida a uma percepção consciente e a uma participação nessa vida do reino.[1] Parecia que Jesus não tinha pressa. Ele se detinha nas cidades e vilas que ficavam em seu caminho. Aliás, ele permaneceu tempo suficiente nesses lugares para poder ensinar neles.[2] E foi durante esse percurso que uma pessoa lhe pergunta “Senhor, são poucos os que se salvam?”. A vaga referência de Lucas a esta pessoa, com a indicação no contexto seguinte de que ele está fora do Reino, indica que não se tratava de um dos apóstolos, mas alguém dentre a multidão que seguia Jesus.[3]

Wiersbe destaca que os escribas costumavam discutir a questão do número de pessoas que seriam salvas, e alguém pediu a Jesus para dar sua opinião sobre o assunto. Da mesma forma que havia feito com a questão a respeito de Pilatos, Jesus passou a discussão imediatamente para o nível pessoal.[4] Jesus não falou com esta pessoa de forma genérica a respeito da salvação, mas tratou a questão de forma muito pessoal, de foro íntimo. Isso mostra que o Senhor não salva por atacado, mas de forma pessoal.

Com isso em mente, podemos destacar algumas lições importantes aqui:

1 – VEMOS AQUI UMA PERGUNTA EXTRAORDINÁRIA (Lc 13.23).

Essa pergunta deveria ser a pergunta de todo cristão, pois ser cristão não nos dá garantia de salvação. A religião cristã envolve Catolicismo Romano, Catolicismo Ortodoxo, Testemunhas de Jeová, Adventistas, Mórmons, Evangélicos. O quadro é um pouco mais amplo, mas por aqui já temos uma ideia. Diante disso já sabemos que religião nenhuma tem o poder de salvar ninguém. Que a salvação é por meio de Jesus Cristo e de uma vida totalmente consagrada a Ele.  

Wiersbe destaca que “a pergunta não é quantos serão salvos, mas se você será salvo ou não! Primeiro resolva isso, depois conversaremos sobre o que fazer para ajudar outros a serem salvos”. [5]

Hendriksen destaca que segundo uma opinião amplamente difundida entre os judeus, endossada pelos rabinos, Israel como um todo seria salvo. Em contrapartida, segundo o ensino de Jesus, a linha de demarcação entre salvos e não-salvos não era de cunho nacionalista, mas distintamente espiritual. Veja Lucas 4.25-27; 6.20-38, 46-49; 7.9; 8.4-15; 11.29-52. Não surpreende que alguém perguntasse a Jesus se os salvos seriam poucos em número. Não é verdade que sempre que Jesus proclamava que somente aqueles cujo coração eram comparáveis à boa terra, somente os que estavam dispostos a negar-se a si mesmos, somente os que não só ouviam seu ensino, mas também o punham em prática, seriam salvos? Isso deixava fora a muitos. [6]

Matthews Henry destaca quatro coisas em relação a pergunta desta pessoa:

1º - Em primeiro lugar, talvez esta fosse uma pergunta capciosa. Alguém lhe fez a pergunta, tentando-o, com o propósito de apanhá-lo em uma armadilha e assim diminuir a sua reputação.

2º - Em segundo lugar, talvez a pergunta tenha sido feita por curiosidade, ou como uma boa especulação. As pessoas geralmente perguntam: “Será que este e aquele podem ser salvos?” Mas é melhor que possamos ser salvos sem saber detalhes a respeito da vida dos outros, detalhes que realmente não nos interessam.

3º - Em terceiro lugar, talvez fosse uma pergunta ocasionada pela admiração. Ele havia notado como a lei de Cristo era rigorosa, e como o mundo era mau. Assim, comparando-as, ele exclama, “Quão poucos serão salvos!” Note que temos motivos para nos admirar por causa de um fato curioso: a palavra de salvação é enviada a muitos, porém ela só é realmente uma palavra salvadora para poucos.

4º - Em quarto lugar, talvez fosse uma pergunta investigadora: “Se há poucos que são salvos, e então? Que influência isto deveria ter sobre mim?” Note que todos nós temos a responsabilidade de entender seriamente a grande verdade de que poucos serão salvos.[7]

É possível que essa pergunta tenha sido feita por um verdadeiro seguidor de Cristo. Mas depois de quase três anos de ministério, inúmeros milagres, ensino incomparável, e multidões segui-lo, no entanto, havia apenas um decepcionante e pequeno número de verdadeiros crentes que criam nele como Salvador. Poucos, em número, foram alcançados pela fé salvadora, tanto que Jesus mesmo se referiu a eles como um “pequeno rebanho” (Lc 12.32).

Apesar de tudo que Jesus realizava os líderes religiosos da nação o haviam rejeitado dizendo que Ele era habilitado por Satanás. Muitas pessoas também viram o poder sobrenatural de Jesus como satânico. Outros o rejeitaram porque Ele não cumpria a expectativa messiânica. Quando uma grande multidão tentou forçá-lo a ser um messias político-militar Jesus recusou-se (Jo 6.14,15). A realidade de ontem é a mesma realidade de hoje, são muito poucos os crentes genuínos que seguem a Cristo. Isso ocorre porque as pessoas querem um Jesus segundo o seu bel-prazer e não o Jesus que se revela nas Escrituras.

Por isso, essa pergunta é de suma importância para todos nós hoje.

2 – NÃO SE ENTRA PELA PORTA ESTREITA DE QUALQUER MANEIRA (Lc 13.24-30).

O fato da resposta de Jesus não ter abordado a questão diretamente, mostra que não é importante quantas pessoas estão sendo salvas; o que importa para cada pessoa é que ela seja uma delas. Em vez de responder à questão de quantidade, Jesus foca na qualidade de fé dos verdadeiros crentes e fez um convite pessoal para um dos presentes para receber a salvação que Ele oferece.

Cinco aspectos desse convite podem ser discernidos: Jesus falou a respeito do esforço espiritual, da oportunidade da porta aberta, da falta de relacionamento com Ele, a rejeição eterna e por fim, a escolha dos gentios.

Vejamos cada um deles:

1º - Em primeiro lugar, um esforço espiritual (Lc 13.24). A palavra grega aqui traduzida como esforçai-vos (porfiai) é a nossa palavra “agonizar” (um termo que vem do grego agonizesthai). A palavra estreita denota aperto. Com uma porta estreita restringindo a entrada, forçando aquele que entra a se livrar de qualquer peso ou bagagem, e com forças opostas bloqueando a sua entrada, as pessoas deverão se esforçar ardentemente (agonizar) para entrar. [8] Por isso que Jesus falou que aquele que “não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc 14.26), ou seja, não pode entrar pela porta estreita.

Champlin destaca que o versículo 24 diz que o número dos eleitos será pequeno. Assim será porque participarão da natureza divina (2Pe 1.4), possuidores da imagem e da natureza de Cristo (Cl 2.10), transformados em sua imagem pelo poder do Espirito (2 Co 3.18; Ro 8.29). Trata-se de algo elevadíssimo, e a maioria dos homens jamais chegará lá. Os eleitos participarão da mesma forma de vida que Deus tem (Jo 5.25,26). Tudo isso transcende infinitamente ao anúncio normal do evangelho, que fala apenas de perdão e de mudança futura para os céus. Essas bênçãos são apenas o início da inquirição eterna em busca da perfeição, da perfeição divina, que é infinita.[9]

2º - Em segundo lugar, uma oportunidade ainda possível (Lc 13.25a). Não é só estreita a porta para o reino, mas também pode ser fechada. Uma vez que Cristo, o chefe da casa, levantar-se e fechar a porta, não haverá admissão; a oportunidade de entrar no reino será permanentemente impossível para os que ficaram do lado de fora (ex. a arca de Noé – Gn 7.16c). Há um sentimento de desespero e urgência neste quadro; pecadores, com um tempo limitado para responder ao convite do evangelho, deixam essa oportunidade passar, e ela será fechada permanentemente.

A porta do reino é estreita, mas é bastante ampla para admitir o principal dos pecadores. A porta do reino é estreita, mas não estará aberta para sempre. O tempo de entrar no reino é agora. Postergar essa decisão é cometer a maior de todas as loucuras. Amanhã pode ser tarde demais. [10]

Dois pecados são provavelmente responsáveis pela chegada dos atrasados: rebeldia e presunção. O amor ao pecado os seguraria, e uma falsa esperança de que o amor e a bondade do Mestre o levariam a abrir uma exceção para eles, os impediriam de agir conforme uma boa consciência.[11]

Usando as mesmas imagens como na parábola das virgens onde encontramos cinco prudentes e cinco insensatas (Mt 25.1-13), Jesus advertiu que aqueles que perdem a oportunidade de salvação vão ficar do lado de fora, e ao baterem à porta dizendo: “Senhor, abre-nos a porta!”, terão a expressa surpresa e horror ao ver fechada permanentemente a porta do reino de Deus. Afinal, eles eram pessoas religiosas, muitos dos quais afirmavam ter ministrado em nome de Jesus (Mt 7.22). Claramente, o inferno será preenchido não só pelos que rejeitam a Deus abertamente, mas também por aqueles que exteriormente foram religiosos e “reverentemente” falavam em nome de Jesus, mas sem nenhum compromisso com Ele.

3º - Em terceiro lugar, a falta de relacionamento com Jesus (Lc 13.25b-27). Os que tinham comido e bebido com ele achavam, erradamente, que isso garantia a sua entrada no banquete messiânico. Mas Ele só reconhece os obedientes,[12] por isso o Senhor responderá: “Não sei donde sois” (cf. Mt 7.23); isso revela aqueles que desperdiçaram sua oportunidade e ficarão de fora do reino. Apesar de sua fachada religiosa externa, eles não tinham nenhuma relação ou união de vida com Cristo.

Como disse Hendriksen “Onde estavam eles quando a porta estava ainda aberta? Estavam sempre ‘em algum lugar’, não onde teriam de estar”. E possível que algumas dessas pessoas tenham comido do pão multiplicado! Como se a presença e o ensino de Jesus em suas ruas fossem suficientes para salvação! Nem ainda se afastaram de seu caminho para ouvir Jesus? Mas se o fizeram, pelo menos não creram nem agiram conforme sua mensagem. O mero contato externo com Jesus nunca salvou alguém. Demanda-se uma mudança interior.[13]

4º - Em quarto lugar, a rejeição eterna (Lc 13.28). Como consequência, serão totalmente rejeitados. O dono da casa diz que não sabe donde são, e os marca como os que praticais iniquidades (cf. Sl 6.8). Eles chorarão (expressando, assim, sua grande aflição) e rangerão os dentes (na sua fúria). Estas expressões marcam o máximo da frustração e da decepção. Mas estes homens não sentirão menos do que isto quando virem os grandes heróis da fé no reino que sempre pensavam que seria deles também, e se acham lançados fora.[14] No inferno não há nenhum arrependido, mas haverá aflição e ódio eterno.

Ali haverá choro e ranger de dentes, o grau máximo de dor e indignação. E aquilo que é a sua causa, e que contribui com ela, é uma visão da felicidade daqueles que são salvos: Quando virdes Abraão, e Isaque, e Jacó, e todos os profetas no Reino de Deus; e vós lançados fora. Observe que os santos do Antigo Testamento estão no Reino de Deus; estes foram beneficiados pelo Messias que morreu e ressuscitou, porque eles viram o seu dia à distância e isto refletiu a consolação sobre eles. A visão da glória dos santos será um grande agravo da infelicidade do pecador; eles então verão o Reino de Deus de longe, e nele contemplarão os profetas a quem odiaram e desprezaram, e eles mesmos, embora estivessem certos de entrarem no reino, serão lançados fora. Esta é a principal razão pela qual rangerão os dentes, Salmos 112.10.[15]

5º - Em quinto lugar, a escolha dos gentios (Lc 13.29,30). Jesus fala sobre aqueles que virão do oriente e do ocidente, do norte e do sul e tomarão lugares à mesa no reino de Deus. Esses são os gentios que vêm de todas as raças, tribos, línguas e nações (Ap 5.9). Sendo eles os últimos, virão a ser primeiros, e os judeus com todos os privilégios que desfrutaram, por terem rejeitado o seu Messias, virão a ser os últimos. A pirâmide está de ponta-cabeça. A ordem está invertida. Jesus está golpeando de morte a presunção dos judeus, especialmente a presunção dos escribas e fariseus![16]

Jesus conclui a resposta que lhe fizeram dizendo: “E eis que derradeiros há que serão os primeiros; e primeiros há que serão derradeiros”. Essa expressão intensifica ainda mais o choque que esses judeus perdidos irão sentir. Não só os gentios estarão no reino, mas também serão iguais com os judeus que estarão lá. No reino da salvação “não há judeu nem grego, não há escravo nem homem livre, não há homem nem mulher; para [os redimidos] todos são um em Cristo Jesus” (Gl 3.28; cf. Ef 2.11-16).

CONCLUSÃO

A lição a ser aprendida com o convite de Cristo para a salvação é dupla. Em primeiro lugar, a verdadeira Igreja de Jesus Cristo deve pregar a mensagem certa; pois uma mensagem corrompida, alterada e falsa é um convite a um evangelho distorcido, fácil e impotente para salvar os pecadores perdidos. Além disso, o falso evangelismo deixa as pessoas não convertidas e, posteriormente, céticos do verdadeiro evangelho e, portanto, mais abertos a um maior engano. O Senhor Jesus Cristo nunca diluiu Sua mensagem para evitar ofender as pessoas; Ele os fez, ou se sentir mal o suficiente para se arrepender, ou furioso o suficiente para rejeitar.

E em segundo lugar, a mensagem para os não-redimidos é que Deus não salva ninguém além do arrependimento genuíno. A batalha para negar a si mesmo e seguir a Cristo é intenso, o tempo é curto e o destino eterno está em jogo.

Pense nisso!

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Bibliografia:

1 – Peterson, Eugene H. A Linguagem de Deus, Ed. Mundo Cristão, São Paulo, SP, 2011, p. 23.

2 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, Ed. Cultura Cristã, São Paulo, SP, 2003, p. 237.

3 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 441.

4 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 294.

5 – Ibidem, p. 294.

6 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, Ed. Cultura Cristã, São Paulo, SP, 2003, p. 237.

7 – Henry, Matthew. Comentário Bíblico Novo Testamento Mateus a João, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2008, p. 637.

8 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 442.

9 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, Lucas, Vol. 2, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2005, p. 140.

10 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 433.

11 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 442.

12 – Ash, Anthony Lee. O Evangelho Segundo Lucas, Ed. Vida Cristã, São Paulo, SP, 1980, p. 226.

13 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, Ed. Cultura Cristã, São Paulo, SP, 2003, p. 239.

14 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 213.

15 – Henry, Matthew. Comentário Bíblico Novo Testamento Mateus a João, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2008, p. 639.

16 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 434.

domingo, 5 de fevereiro de 2023

DUAS PARÁBOLAS SOBRE O REINO DE DEUS - Lucas 13.18-21

Por Pr Silas Figueira

Texto base: Lucas 13.18-21

INTRODUÇÃO

Estas parábolas estão ligadas ao incidente na seção anterior (Lc 13.10-17). O Senhor tinha interrompido seu ensino em uma sinagoga (v. 10) para curar uma mulher que tinha um espírito de enfermidade e estava cativa de Satanás por 18 anos, ou seja, ela tinha uma enfermidade causada pelo maligno (v. 16). Essa demonstração de Seu poder sobre o reino de Satanás, revelou a presença do Reino de Deus (cf. Lc 11.20). O Senhor, então, continuou seu ensino com estas duas parábolas, que ilustram a verdade que o reino de Deus, tanto de forma externa quanto de forma interna, iria expandir a partir de seus pequenos começos.

Jesus havia usado essas parábolas anteriormente, e os discípulos sabiam do que se tratava (Mt 13.31-33, 51). Há quem veja nessas histórias uma imagem do crescimento exterior e visível do reino (a semente de mostarda) bem como de sua influência interior e invisível (o fermento). Ao usar essas parábolas, Jesus estava dizendo: “Vocês, líderes religiosos judeus, podem apegar-se a tradições mortas e se opor à verdade, mas o reino vivo de Deus continuará a crescer. Satanás será derrotado!” [1]

Charles L. Childers destaca que Jesus buscava na natureza analogias para ilustrar a verdade espiritual. As coisas espirituais nunca podem ser totalmente compreendidas e descritas pelo homem nesta vida. A única linguagem que conhecemos é terrena e, como tal, tem seus significados fundamentais no mundo material. Tal linguagem terrena só pode aproximar a verdade espiritual. Por causa da falta de uma linguagem espiritual, as analogias são usadas para ajudar a descrever o indescritível.[2]

Com isso em mente, podemos destacar algumas lições:

1 – O CRESCIMENTO EXTERNO E VISÍVEL DO REINO DE DEUS (Lc 13.18,19).

O que temos no versículo 18 é uma pergunta retórica. Era um artifício para aguçar o interesse do povo. Dessa forma Jesus chamava a atenção dos ouvintes para os seus ensinamentos.

Podemos destacar duas coisas aqui:

1º - Em primeiro lugar, o Reino de Deus começou de forma imperceptível (Lc 13.19). A parábola de Jesus revela o processo de crescimento do reino de Deus. Assim como o semeador deita apenas um minúsculo grão de mostarda em sua horta, assim o reino de Deus também apresenta, pela atuação fundamental de Jesus na terra, uma configuração extremamente insignificante e modesta.[3] Parta muitos o Reino de Deus é insignificante, seu agir não prevalecerá, no entanto, assim como o grão de mostarda (as sementes têm cerca de 2 mm de diâmetro), apesar de sua humilde aparência, ele cresce e aninha pássaros em seus galhos.   

A igreja, agente do reino, começou pequena e fraca em seu berço. A semente da mostarda é um símbolo proverbial daquilo que é pequeno e insignificante. Era a menor semente das hortaliças (Mc 4.31). Foi usada para representar uma fé pequena e fraca (Lc 17.6). O reino chegou com um bebê deitado numa manjedoura. Jesus nasceu em uma família pobre, numa cidade pobre, e cresceu como filho de um carpinteiro pobre. Ele não tinha onde reclinar a cabeça. Seus apóstolos eram homens iletrados. O Messias foi entregue nas mãos dos homens, preso, torturado e crucificado entre dois criminosos. Seus próprios discípulos o abandonaram. A mensagem da cruz era escândalo para os judeus e loucura para os gentios. Em todas as coisas do reino, o mundo vê as marcas da fraqueza. Aos olhos do mundo, o começo da igreja reveste-se de consumada fraqueza.[4] Mas, ao lermos Apocalipse, o quadro que nos é apresentado de Jesus e da Igreja é algo que nos surpreende (Ap 1.9-20).

2º - Em segundo lugar, pequenos começos produzem grandes resultados (Lc 13.19). Embora a mostarda era a menor das sementes, contudo, crescia e se transformava em arbusto tão grande que aves podiam “abrigar-se” sob ele... Assim, Jesus diz-nos aqui que a semente do reino, nele e em seus primeiros seguidores, é plantio de Deus, e que ninguém pode destruí-la.[5]

A árvore da mostarda podia alcançar de três a sete metros de altura, dependendo do tipo e das circunstâncias.[6] Quando Jesus disse que as aves que se aninham nos seus ramos frequentemente são um símbolo para as nações da terra (Ez 17.23;31; Dn 4.12). O reino será universal. Homens de todas as nações se acharão dentro dele. [7] O reino de Deus é como tal semente: seu tamanho atual e sua aparente insignificância não são, de modo algum, indicadores de sua consumação, a qual abrangerá todo o universo.[8]

A Igreja não só nasceu pequena e insignificante, mas ela desde o seu nascimento tem sido perseguida. No entanto, quanto mais a perseguiam mais ela crescia, pois os discípulos se espalhavam para todos os lugares pregando as Boas Novas (At 8.1-4).

Quando os cristãos ao redor do mundo têm os direitos negados, por escolherem seguir a Jesus, eles se tornam vulneráveis a hostilidades em diferentes esferas da vida: na vida privada, na família, comunidade, na nação e na igreja. De acordo com os dados da Lista Mundial da Perseguição 2022, mais de 360 milhões de cristãos no mundo enfrentam algum tipo de oposição como resultado da identificação com Cristo.[9] Mas a Igreja está viva e ativa, pois o Pai é o agricultor que tem preservado e cultivado a Sua vinha (Jo 15.1).

A igreja continua crescendo em todo o mundo. De todos os continentes, aqueles que confessam o Senhor Jesus vão se juntando a essa grande família, a esse imenso rebanho, a essa incontável hoste de santos. Nas palavras do profeta Daniel, o reino de Deus é como uma pedra que quebra todos os outros reinos (Dn 2.44,45), e enche toda a terra como as águas cobrem o mar (Hc 2.14).[10]

2 – O CRESCIMENTO INTERNO E INVISÍVEL DO REINO DE DEUS (Lc 13.20,21).

Se a parábola da semente da mostarda fala sobre a expansão externa do reino, a parábola do fermento fala sobre sua influência invasiva, secreta e interna no coração do crente.

Aqui o fermento não é símbolo do mal, conforme é normal na literatura bíblica (Lc 12.1; Ex 12.14- 20; 1Co 5.7). Seu poder de “crescimento” e “expansão” é que é frisado. Em sua aplicação original, provavelmente ilustrava a mesma verdade que sua gêmea a parábola da semente de mostarda; Deus já está impondo seu senhorio, e as poderosíssimas consequências de tal fato logo se tornarão evidentes. [11]

Com isso em mente podemos destacar duas verdades que o texto nos ensina:

1º - Em primeiro lugar, o progresso do Evangelho no coração do homem crente (Lc 13.21). Uma vez que a obra da graça iniciou-se no coração, ela jamais permanecerá quieta. Crescerá gradualmente, “até ficar levedada”. A semelhança do fermento colocado na massa, a obra da graça não pode ser separada daquilo com que ela foi misturada. Pouco a pouco, ela influenciará a consciência, as afeições, a mente e a vontade, até que todo o homem seja afetado pelo seu poder e ocorra uma completa conversão a Deus. [12]

Como disse Paulo escrevendo à Timóteo em sua primeira carta:

“E dou graças ao que me tem confortado, a Cristo Jesus Senhor nosso, porque me teve por fiel, pondo-me no ministério; a mim, que dantes fui blasfemo, e perseguidor, e injurioso; mas alcancei misericórdia, porque o fiz ignorantemente, na incredulidade. E a graça de nosso Senhor superabundou com a fé e amor que há em Jesus Cristo” (1Tm 1.12-14).

2º - Em segundo lugar, assim como o fermento age de forma invisível na massa, o Reino de Deus age na vida do crente (Lc 13.21). A lição é que uma quantidade pequena de fermento faz sua presença ser sentida na totalidade de uma massa muito maior. Assim acontece com o reino. O fermento trabalha de modo quieto e invisível, e o reino opera através da influência de Cristo sobre os corações humanos, e não em qualquer coisa meramente externa e visível. Talvez valha a pena notar, também, que o fermento trabalha de dentro: não pode transformar a massa enquanto fica do lado de fora. Mas também é importante que o poder para fazer a transformação vem de fora, pois a massa não se transforma a si mesma. [13]

William Hendriksen reforça que o ponto que Jesus está enfatizando nessa parábola é este: o reino de Deus, introduzido nos corações e nas vidas humanos de fora, uma vez dentro exerce uma influência sã, completa e penetrante dentro e de dentro para fora, nos corações e nas vidas. Conduz os homens para diante, para o alvo da perfeição que Deus lhes propôs. Ao agir assim, afeta favoravelmente cada esfera da vida na qual se movem.[14]

Foi pela influência do evangelho que as grandes causas sociais foram promovidas: a libertação da escravidão, a valorização das crianças e das mulheres, o amparo aos idosos, o alívio à pobreza, a valorização do conhecimento, das ciências e das belas artes, a promoção do crescimento econômico e social da sociedade. O evangelho não aliena os seres humanos. Ao contrário, transforma-os e faz deles agentes de transformação.[15]

CONCLUSÃO

Vimos nessas duas parábolas que a ação de Deus no coração do homem é, aos olhos de muitas pessoas, algo insignificante. No entanto, assim como a semente de mostarda que é a menor das sementes, cresce ao ponto de aninhar pássaros em seus ramos, assim é a Igreja, aparentemente pequena em seu começo, mas cresceu aninhou em seus “ramos” pessoas de toadas as tribos, povos, línguas e nações. Do mesmo modo o fermento. Ele age na massa a fazendo crescer, assim é o Reino de Deus, cresce de forma invisível, sem que se perceba, mas quando se nota, já atingiu grande crescimento.

A vida do cristão precisa estar pautada nessas duas analogias, somos, aos olhos do mundo, insignificantes, mas estamos espalhados por todo o mundo influenciando e acolhendo pessoa de todas as nações. E naquele grande dia, seremos uma multidão incontável que João viu na revelação do livro de Apocalipse (Ap 7.9-17).

Pense nisso!

Bibliografia:

1 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 293.

2 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 440.

3 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 295.

4 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 430.

5 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, Lucas, Vol. 2, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2005, p. 139.

6 – Ash, Anthony Lee. O Evangelho Segundo Lucas, Ed. Vida Cristã, São Paulo, SP, 1980, p. 223.

7 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 211.

8 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 430.

9 – A Igreja Perseguida. https://portasabertas.org.br/cristaos-perseguidos/igreja-perseguida, acessado em 31/01/2023.

10 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 431.

11 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, Lucas, Vol. 2, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2005, p. 139.

12 – Ryle, J. C. Meditações no Evangelho de Lucas, Ed. FIEL, São José dos Campos, SP, 2002, p. 241.

13 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 212.

14 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, Ed. Cultura Cristã, São Paulo, SP, 2003, p. 235.

15 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 431.

domingo, 29 de janeiro de 2023

A CURA DE UMA MULHER ENCURVADA - Lc 13.10-17

Por Pr Silas A. Figueira

Texto base: Lucas 13.10-17

INTRODUÇÃO

Lucas registra que Jesus estava no dia de sábado numa sinagoga, quando uma mulher encurvada, com a coluna torta, que passara dezoito anos olhando para o chão, atormentada por um espírito de enfermidade é liberta pelo Senhor. Wiersbe diz que se ele fosse um portador de deficiência por dezoito anos, não saberia se teria se mostrado tão fiel indo adorar a Deus todas as semanas na sinagoga. Por certo, a mulher orava e pedia a ajuda de Deus e, no entanto, não havia sido liberta de sua enfermidade. Porém, o aparente descaso de Deus não a deixou amargurada nem rancorosa. Lá estava ela na sinagoga. [1]

Ensinar nas sinagogas no sábado era um hábito de Jesus durante os primeiros meses de seu ministério, mas há poucos registros desta prática durante o seu ministério na Peréia. Este versículo, portanto, parece indicar que este costume não foi interrompido, embora tivesse a oposição dos líderes judeus.[2]

James R. Edwards destaca que essa é a última aparição de Jesus na sinagoga no sábado em Lucas (4.16,33; 6.6; 13.10), as três últimas delas narram curas. O cenário da sinagoga é crucial, pois Jesus, na sinagoga de Nazaré, anunciou sua missão messiânica de “libertar os oprimidos” (4.18). Agora Jesus, em uma sinagoga no coração da seção central de Lucas, liberta uma “filha de Abraão” da escravidão satânica (v. 16). Contudo, tanto na primeira quanto na última aparição na sinagoga, os líderes judeus estão com o coração endurecido para o ministério de Jesus.[3]

E nesse dia, mas uma vez, Jesus se depara com alguém enfermo. No entanto, Lucas nos informa que esta pessoa era uma mulher e que estava com “espírito de enfermidade”. Não há consenso se esse era um caso de possessão demoníaca ou se era uma doença colocada na mulher por Satanás, ou mesmo se Satanás estava atormentando essa mulher por causa de sua enfermidade. Eu creio que essa mulher não estava possessa, pois o texto nos diz que Jesus a chama de “filha de Abraão”, dando a entender que essa mulher era temente a Deus. Aliás, é bom destacar que creio em possessão demoníaca, mas não creio que um crente em Jesus possa ficar possesso. Opresso sim, possesso não. William Hendriksen diz que se ela não estava possessa, a expressão “tendo um espírito de enfermidade” parece favorecer a sugestão de que ela realmente estava, pelo menos, sob a influência demoníaca.[4] John Charles Ryle seguindo essa mesma linha de pensamento diz que essa mulher era uma verdadeira crente. [5]

Mas, quais as lições que podemos aprender aqui?

1 – VEMOS NA SINAGOGA UMA MULHER PRESA POR SATANÁS (Lc 13.10-13).

Jesus está em uma sinagoga ensinando e estava ali, dentre muitas pessoas, uma mulher enferma. Mas não era uma enfermidade comum. Lucas nos diz que era uma enfermidade espiritual. Observe a maneira precisa e detalhada que Lucas, o médico, descreve a doença da mulher. Parecia que este era um caso extremo de curvatura da espinha, e a história fica mais triste ainda pelo fato de ela sofrer com isso havia dezoito anos.[6]

Podemos destacar três coisas mediante a enfermidade dessa mulher.

1º - Em primeiro lugar, nem todas as enfermidades são naturais. O próprio texto nos fala que esta mulher vinha sofrendo de uma enfermidade “espiritual”. Assim como existem enfermidades espirituais, existem enfermidades naturais, e existem também enfermidades psicossomáticas (as doenças psicossomáticas são desordens emocionais ou psiquiátricas que afetam também o funcionamento dos órgãos do corpo. Esses desajustes provocam múltiplas queixas físicas, e que podem surgir em diferentes partes do corpo).

Com isso, podemos dizer, com toda certeza, que nem toda enfermidade é causada por Satanás. Mas toda enfermidade é causada por causa do pecado (consequência do pecado de Adão). Como disse Fritz Rienecker: “todo o sofrimento e todas as doenças estão, em última instância, relacionadas com o pecado, com a queda no pecado (At 10.38; 2Co 12.7)”.[7]

2º - Em segundo lugar, essa mulher só poderia ficar livre desse mal mediante libertação (Lc 13.16). A enfermidade dessa mulher não poderia ser resolvida com fisioterapia, nem mediante uma cirurgia de coluna. Não havia remédio que a pudesse sarar desse mal. Vemos claramente nesse texto que existem enfermidades que são provocadas pela ação de Satanás. Até sobre nossas vidas, muitas vezes, isso pode ocorrer, com a permissão de Deus. E uma das razões, como dizem os neopentecostais: “é quando damos legalidade ao diabo”. Geralmente essas coisas ocorrem porque o servo do Senhor está fazendo algo que o desagrada. Estão com a vida em pecado, então o Senhor permite que o mal ocorra para tirar o Seu servo do caminho errado que se encontra. Por exemplo, por causa do orgulho de Davi, Deus castigou Israel e com uma peste que matou centenas de pessoas (2Sm 24.15,16; conf. Sl 32).

Com o pecado nós não podemos brincar, pois as suas consequências são extremamente dolorosas. E, infelizmente, inocentes são atingidos também – leia o livro de Lamentações e você entenderá melhor o que estamos dizendo aqui.  

3º - Em terceiro lugar, existem enfermidades que são colocadas por Satanás por permissão de Deus, mesmo a pessoa estando na presença de Deus (Jó 2). Eu creio que este é o caso dessa pobre mulher aqui registrado. Pelo contexto observamos que o Senhor queria desmascarar a hipocrisia dos líderes religiosos ali presentes. Assim como o Senhor desmascarou Satanás em relação a Jó. Assim como Jó que em nada pecou, mesmo sofrendo terrivelmente, assim, esta mulher, mesmo enfrentando esse mal, ela não deixou de estar na presença do Senhor. Esta mulher servia a Deus pelo o que Ele é e não pelo o que Ele podia fazer por ela.

4º - Em quarto lugar, existem pessoas enfermas na alma (Gl 5.19-21). Embora as obras da carne não sejam enfermidades físicas e nem espirituais, mas um problema carnal, de qualquer forma a pessoa está deformada em seu caráter. Está encurvada pelo peso do pecado. Charles Spurgeon comentando sobre esse texto faz a seguinte pergunta: “Imaginem, por um momento, qual seria o resultado para a presente congregação se nossa forma externa exibisse o estado interno. Se alguém com olhos semelhantes aos do Salvador pudesse nos perscrutar agora, e enxergasse dentro de nós, qual seria a aparência de cada um de nós?” [8]

5º - Em quinto lugar, ela não podia endireitar-se (Lc 13.11c). Ela, por mais que tentasse, não podia endireitar-se, estava presa nas garras de Satanás. Só com a intervenção divina isso pode ocorrer.

Tem aquelas pessoas que dizem para as outras que estão enfermas que elas não ficam curadas porque não querem. Acham que isso é uma grande ajuda, mas não é. Isso é um tormento para quem ouve.

Spurgeon diz que conhecemos certas pessoas prudentes, porém um pouco destituídas de sentimentos, que culpam estes enfermos e os repreendem por serem tão desanimados; e isso nos leva a notar, a seguir, que ela não podia levantar-se. Culpá-la de nada aproveitava. É possível ter havido um tempo em que suas irmãs mais velhas dissessem: “Irmã, você deve manter-se mais ereta; não deve ficar com os ombros caídos; você está ficando muito fora de forma; deve tomar cuidado para não ficar deformada”. Oh, quão bons os conselhos dados por algumas pessoas! Os conselhos dados a pessoas que ficam deprimidas de espírito habitualmente são pouco sábios. Às vezes desejo que quem estiver tão pronto a oferecer conselhos tenha sofrido um pouco, pois então terá sabedoria de guardar a língua”.[9]

2 – JESUS DESMASCARA A HIPOCRISIA DOS RELIGIOSOS (Lc 13.14,15).

O líder da sinagoga ficou indignado com a atitude de Jesus. Ao invés de glorificar a Deus, ele tenta justificar que aquele dia não era dia de libertação.

Com isso em mente, podemos destacar três lições importantes:

1º - Em primeiro lugar, há pessoas mais interessadas em liturgia que na libertação dos cativos (Lc 13.14). O chefe da sinagoga, longe de alegrar-se com a libertação e cura dessa filha de Abraão, encheu-se de ira. Estava mais interessado nos preceitos de sua religião legalista do que na libertação dos cativos e na cura dos enfermos. Amava mais o sistema religioso do que as pessoas que vinham para a adoração. [10]

Há pessoas que querem engessar o culto e acham que ele não pode fugir de seus moldes pré-estabelecidos. Na verdade, o culto assim não é para Deus, é para os ouvintes. Não é um culto, é uma apresentação. É um show de talentos.

2º - Em segundo lugar, o Senhor revela a hipocrisia desses líderes (Lc 13.15). O plural usado por Jesus, hipócritas, critica severamente não somente o chefe da sinagoga, como também todos aqueles que concordam com ele.[11] O Talmude (tradição dos judeus) não permitia que se levasse água a um animal no sábado, mas o animal podia ser levado até a água. Os críticos permitiam que fosse feito mais a um animal do que permitiriam que Jesus fizesse a um ser humano.[12] Eram essas atitudes que tanto indignavam o Senhor. Essa hipocrisia deslavada dos líderes religiosos. Literalmente coavam a mosca e engoliam o camelo (Mt 23.24).

3º - Em terceiro lugar, Jesus mostra que os líderes religiosos eram também cativos de Satanás (Lc 13.14). O aprisionamento daquela pobre mulher por Satanás era um reflexo da prisão que Satanás mantinha os líderes religiosos. Seu sistema religioso era baseado em justiça própria, nas boas obras, e o desempenho de vários rituais e cerimônias religiosas. Jesus destruiu a ilusão de que tal observância agradava a Deus.

Quando nos lembramos de que aqueles animais representavam propriedade – riqueza – vemos o completo egoísmo destes hipócritas. Jesus ressaltou que, em vez de serem espiritualmente ricos, eles eram espiritualmente falidos; em vez de serem livres, eles estavam na escravidão de Satanás.

Enquanto Jesus chamou essa mulher de “filha de Abraão”, em outra ocasião Jesus chamou os líderes judeus de filhos do diabo e de fazerem a sua vontade (Jo 8.44).

3 – A MISERICÓRDIA DO SENHOR LIBERTA ESSA PRISIONEIRA DE SATANÁS (Lc 13.12,16).

Aquela mulher, mesmo enferma, foi na sinagoga para o culto público. Ela não ficou em casa se lamentando por sua condição degradante.

Com isso em mente, podemos destacar três coisas:

1º - Em primeiro lugar, essa mulher, apesar de estar enferma, não deixava de estar na sinagoga. Matthew Henry diz que até mesmo as enfermidades do corpo, a menos que sejam realmente graves, não devem nos impedir de participar dos cultos públicos; pois Deus pode nos ajudar, além das nossas expectativas.[13] John Charles Ryle nesta mesma linha de pensamento diz que a enfermidade não era uma desculpa para impedi-la de vir à casa de Deus. Apesar de seu sofrimento e enfermidade, ela se dirigiu ao lugar onde o dia e a Palavra de Deus eram honrados e onde o povo de Deus se reunia.[14]

Spurgeon disse que o diabo às vezes sugere que a você que é inútil continuar escutar a Palavra de Deus. Vá, mesmo assim. Ele sabe que você tem a probabilidade de escapar de suas mãos enquanto escuta a Palavra e, por isso, se ele o conseguir mante longe, procederá desse modo. Enquanto estava na casa de oração essa mulher recebeu a liberdade, e onde você recebe-la; por isso, continue, ainda, subindo à casa do Senhor, aconteça o que acontecer.[15]

John Charles Ryle diz que a conduta dessa judia sofredora pode envergonhar muitos que professam ser cristãos e desfrutam de boa saúde e vigor físico. Quantas pessoas que se encontram em pleno gozo de saúde física permitem que as mais frívolas desculpas as mantenham afastadas da casa de Deus.[16]

Muitas pessoas hoje têm se afastado da casa de Deus por estarem passando por problemas. Onde eles deveriam estar para receberem do Senhor um conforto, consolo e até mesmo a solução para os seus problemas, é o lugar que muitos não desejam estar. Muitos vão “espairecer” no cinema, no shopping, ou ficam em casa mesmo, lambendo as suas feridas.

Eu já perdi a conta de quantas vezes eu obtive respostas para minhas crises durante o culto. Deus ainda fala hoje e liberta o cativo, pois Deus é um Deus de milagres.

2º - Em segundo lugar, a misericórdia do Senhor nos alcança quando menos esperamos (Lc 13.12). Numa época em os judeus acreditavam que o intenso sofrimento estava relacionado com o castigo de Deus por causa do pecado, essa pobre mulher sofria ainda mais. Ela carregava o estigma da culpa. Assim, não só foi ela um pária por causa desse desagrado presumido pelas pessoas, mas na percepção social judaica em relação as mulheres, ela era considerada como uma pessoa de segunda classe. O pior de tudo, sua doença tinha sido causada por um espírito maligno que a afligia (como Satanás fez com Jó - Jó 2.7).

Naquela época esperava-se que as pessoas com deformidades físicas permanecessem socialmente invisíveis, em especial de fossem mulheres. As mulheres raramente se aproximavam dos rabis, se é que se aproximavam, nem os rabis, como regra, falavam com as mulheres. Jesus, todavia, toma a iniciativa com essa mulher desamparada, e o fez de forma enfática: ele a viu, chamou-a e disse-lhe: “Mulher, você está livre da sua doença” (Lc 13.12).[17]

A misericórdia do Senhor a alcançou numa hora que ela menos esperava, ou quem sabe, nem esperava mais. O texto nos diz que o Senhor viu a pobre e idosa mulher, aleijada pelo espaço de dezoito anos. Não aguardou a permissão de quem quer que seja; sua compaixão comoveu-o profundamente.[18]

O próprio Jesus tomou a iniciativa. Jesus fala à enferma e impõe as mãos sobre ela. Usa a voz e o toque. Dirige-se a dois de seus sentidos: a audição e o tato. A cura é imediata e completa. A mulher imediatamente se endireitou. A prisão de Satanás foi destruída. As algemas foram despedaçadas. Ela saiu da masmorra da doença torturante. A mulher ficou livre tanto de sua aflição física como também de Satanás. Essa filha de Abraão voltou a viver.[19]    

3º - Quando Deus quer agir, não depende da vontade dos homens (Lc 13.14). O texto nos fala que o chefe da sinagoga ficou indignado com a atitude de Jesus. O chefe da sinagoga pode ter achado que havia uma invasão da prerrogativa dele, pois ele dirigia o que acontecia na sinagoga, e a cura foi realizada sem referência a ele. Não repreendeu a Jesus [diretamente], mas falou para o povo em geral. Entendia que o quarto mandamento proibia curas tais como esta. As pessoas deviam procurar suas curas durante os seis dias úteis.[20] “Minha sinagoga, minhas regras”.

Entenda uma coisa, Deus não vai lhe pedir permissão para agir, Ele vai agir quando bem lhe aprouver. Quer você goste ou não.

4º - Em quarto lugar, os passos para ela alcançar a libertação. Primeiro, ela estava na sinagoga, ou seja, na presença de Deus. Segundo, por estar na sinagoga o Senhor Jesus a viu e se compadeceu dela. Terceiro, o Senhor a chamou e ela obedeceu. E quarto, ela ficou liberta daquele mal.

5º - Em quinto lugar, todos os presentes glorificaram a Deus (Lc 13.17). A partir daí pode-se compreender a reação diversa de seus ouvintes. Aos adversários foi calada a boca. A vigorosa resposta de Jesus por um lado, bem como o ato de cura, por outro, potencializaram ao máximo a admiração do povo.[21]

CONCLUSÃO

A misericórdia de Deus alcançou essa pobre mulher que vivia cativa de Satanás por dezoito anos. Mas, mesmo enfrentando todo esse sofrimento, ali estava ela na sinagoga buscando a face do Senhor. Ouvindo a Sua Palavra, sábado após sábado. Isso é um grande exemplo para todos nós. Que possamos estar na presença de Deus em todo tempo. Talvez hoje seja o dia da sua libertação!

Pense nisso!

Bibliografia:

1 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 292.

2 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 438.

3 – Edwards, James A. O Comentário de Lucas, Ed. Shedd, Sto Amaro, SP, 2019, p. 504.

4 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, Ed. Cultura Cristã, São Paulo, SP, 2003, p. 229.

5 – Ryle, J. C. Meditações no Evangelho de Lucas, Ed. FIEL, São José dos Campos, SP, 2002, p. 236.

6 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 439.

7 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 293.

8 – Spurgeon, Charles H. Os Milagres de Jesus, Ed. Shedd, São Paulo, SP, 2007, p. 81.

9 – Spurgeon, Charles H. Os Milagres de Jesus, Ed. Shedd, São Paulo, SP, 2007, p. 84.

10 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 426.

11 – Ash, Anthony Lee. O Evangelho Segundo Lucas, Ed. Vida Cristã, São Paulo, SP, 1980, p. 223.

12 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 439.

13 – Henry, Matthew. Comentário Bíblico Novo Testamento Mateus a João, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2008, p. 635.

14 – Ryle, J. C. Meditações no Evangelho de Lucas, Ed. FIEL, São José dos Campos, SP, 2002, p. 236.

15 – Spurgeon, Charles H. Os Milagres de Jesus, Ed. Shedd, São Paulo, SP, 2007, p. 86.

16 – Ryle, J. C. Meditações no Evangelho de Lucas, Ed. FIEL, São José dos Campos, SP, 2002, p. 237.

17 – Edwards, James A. O Comentário de Lucas, Ed. Shedd, Sto Amaro, SP, 2019, p. 505.

18 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, Lucas, Vol. 2, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2005, p. 137.

19 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 426.

20 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 210.

21 - Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 294.

sábado, 17 de dezembro de 2022

A PARÁBOLA DA FIGUEIRA INFRUTÍFERA - Lucas 13.6-9

Por Pr Silas Figueira

Texto base: Lucas 13.9-6

INTRODUÇÂO

Matthew Henry diz que esta parábola tem o propósito de reforçar aquela palavra de advertência que veio imediatamente antes: “Se vos não arrependerdes, todos de igual modo perecereis; a não ser que mudeis o vosso comportamento, sereis destruídos, como uma figueira estéril; a não ser que gereis frutos, sereis cortados”. [1] Podemos dizer que Jesus está concluindo o seu sermão a respeito do arrependimento com esta ilustração. Esta parábola começa com um plantio e termina com uma ameaça de arrancar o que fora plantado. [2] Uma parábola simples, mas que não deixou dúvidas do que Jesus estava falando.

Quais as lições que podemos tirar dessa parábola para as nossas vidas.

1 – A FIGUEIRA SIMBLOLIZA ISRAEL (Lc 13.6,7).

Era um costume na Palestina antiga, assim como hoje, plantar figueiras e outras árvores nas vinhas. Era um meio de utilizar cada pedaço disponível de boa terra. A figueira aqui, como em todo o simbolismo bíblico, refere-se a Israel. [3] Havia em Israel árvores que eram comuns (figueiras e figos são mencionados mais de cinquenta vezes nas Escrituras), em condições favoráveis as figueiras podem atingir uma altura de quase sete metros. Além de fornecer frutas, figueiras foram uma excelente fonte de sombra (cf. Jo 1.48).

Diante desse quadro, podemos tirar três lições aqui:

1º - Em primeiro lugar, Israel recebeu privilégios especiais de Deus. John C. Ryle diz que do coração ao qual Deus outorgou privilégios espirituais Ele espera receber retorno proporcional [4]. Foi o que ocorreu com a nação de Isael. A nação recebeu de Deus o mais alto privilégio entre todas as nações. O comentário de que Deus plantou Israel como “figueira” em sua vinha expressa que Israel não se tornou povo de Deus por via natural, mas que, como uma árvore plantada de maneira especial, foi chamado para um relacionamento extraordinário com Deus por meio de atos singulares de Deus (Dt 7.6-8; Sl 80.9,15). Quando, pois, a figueira foi plantada na vinha de seu proprietário, ela obteve um privilégio especial. Israel desfrutou do privilégio de ser povo de Deus durante todo o curso de sua história.[5] Eles haviam sido separados das outras nações pela lei e ordenanças de Moisés, bem como pela situação de sua própria terra. Haviam recebido revelações que Deus não concedera a nenhum outro povo. É razoável pensar que que haveria em Israel mais fé, arrependimento, devoção e santidade do que entre os pagãos [6]. No entanto, não foi isso que ocorreu. Jesus enfrentou da parte dos líderes judeus a mais dura incredulidade, além de, no fim do seu ministério, a morte por parte deles.

2º - Em segundo lugar, Israel tornou-se uma nação estéril. A figueira na Palestina dá fruto dez meses em cada ano, de forma que quase em qualquer tempo o dono pode encontrar fruto nela [7], no entanto essa figueira da parábola estava estéril. Jesus coloca o cenário com uma figueira numa vinha (e, portanto, em solo fértil). Faz três anos que o dono vem procurando fruto, o que parece indicar uma árvore bem-estabelecida. A falta de dar frutos em três anos parece um mal sinal. Seria improvável que tal árvore desse fruto no futuro. Destarte, o dono dá a ordem: pode cortá-la. Além de não dar frutos, estava ocupando terreno que doutra forma poderia ser produtivo. [8]

3º - Em terceiro lugar, o dono da figueira veio procurar fruto.  Embora a figueira estivesse na vinha, ela não tinha outro propósito a não ser dar fruto. Da mesma forma, Israel só tinha uma razão para ocupar o primeiro ou qualquer outro lugar: cumprir a missão que lhe fora dada por Deus. Visto que a figueira era infrutífera, não teria o direito de existir; e visto que Israel se recusava a cumprir sua missão determinada por Deus, não tinha o direito de continuar.[9] Esta árvore também nos traz à memória a bondade especial de Deus para com Israel (Is 5.1-7; Rm 9.1-5) e sua paciência com eles. Deus esperou três anos durante o ministério de Jesus aqui na Terra, mas a nação não produziu frutos. Assim, esperou mais cerca de quarenta anos antes de permitir que os exércitos romanos destruíssem Jerusalém e o templo; e, durante esses anos, a Igreja testemunhou com poder a mensagem do evangelho. Por fim, a árvore foi cortada. [10]  

Da mesma forma que Israel era a videira de Deus, plantada por Deus, cuidada por Deus, assim nós somos a figueira de Deus, plantada e cultivada por ele. Ocupamos uma posição especialmente favorecida. Deus separou Israel dentre as nações. Protegeu, abençoou e deu sua lei, suas promessas, seus milagres e seus profetas. De igual modo, a nós, ele nos deu sua Palavra, o evangelho, o seu Espírito, a sua presença, o seu poder. Ele espera de nós frutos espirituais. Ele não se contenta com folhas. Ele quer frutos.[11]

A igreja atual não é estéril, muito pelo contrário, alguns ministérios têm dado muito fruto, mas o grande problema que tenho visto é que o fruto que está sendo produzindo é um fruto que não serve para consumo, pelo menos, não para Deus. A figueira (igreja) não está sendo adubada com a Palavra de Deus, mas com outras coisas. Quando olhamos para a igreja vemos que ela tem sido adubada com teologia liberal, teologia inclusiva, teologia da missão integral, evangelho da prosperidade, com o relativismo teológico... adubos esses que fazem com que a igreja gere frutos impróprio para o consumo. São frutos venenosos. São frutos amargos cheio de pecado. Que não servem para Deus e nem para os que amam ao Senhor, mas tem servido de alimento para os que não querem um relacionamento de santidade com Deus e observam com afinco a Sua Palavra. Em muitos ministérios o alimento não tem sido pastagens verdejantes, mas lavagem para porcos.

2 – A INTERCESSÃO DO VINHATEIRO (Lc 13.7-9).

Para entendermos melhor a profundidade dessa intercessão precisamos conhecer o contexto histórico. No livro de Levítico 19.23-25 lemos: “E, quando tiverdes entrado na terra, e plantardes toda a árvore de comer, ser-vos-á incircunciso o seu fruto; três anos vos será incircunciso; dele não se comerá. Porém no quarto ano todo o seu fruto será santo para dar louvores ao Senhor. E no quinto ano comereis o seu fruto, para que vos faça aumentar a sua produção. Eu sou o Senhor vosso Deus”.

Leis da Árvore Frutífera Incircuncisa. Por três anos, o fruto de uma árvore frutífera não podia ser consumido pelos filhos de Israel. Portanto, não podia ser vendido. Se alguém comesse de tal fruto, seria açoitado com quarenta açoites menos um (nos dias do segundo templo). No quarto ano, o fruto era colhido e dedicado a Yahweh, como oferta pacífica (de agradecimento). Somente no quinto ano seu fruto podia ser colhido e comido. Nesse ano, a árvore era desnudada de seu fruto, ficando assim completa a circuncisão da árvore. Dali por diante, o fruto daquela árvore pertencia ao proprietário, para uso próprio ou para comercialização. [12]

O dono da vinha não viria procurar do fruto impuro para consumo, mas provavelmente veio buscar no quarto ano para oferecer a oferta ao Senhor, no entanto, em ano nenhum ela havia produzido fruto. Pelos cálculos já haviam se passado entre sete a oito anos e a figueira continuava improdutiva.

Com isso em mente, podemos destacar algumas lições importantes para nós.

1º - Em primeiro lugar, a figueira aqui um é símbolo de julgamento (Lc 13.7). Os profetas do Antigo Testamento usavam com frequência a figueira como símbolo de julgamento (Is 34.4; Jr 29.17; Os 2.12, 9.10; Jl 1.7; Mq 7.1). A figueira funciona de forma semelhante nessa parábola, na verdade funciona enfaticamente assim, pois Lucas a coloca de forma proeminente no ponto mais importante da sentença e fala três vezes se sua falta de produtividade (vv. 6,7,9). [13]

A sentença que lhe foi dada: Corta-a. Note que nenhuma outra coisa deve ser esperada com relação a árvores estéreis além de serem cortadas. Assim como a vinha infrutífera é derribada, e transformada em pasto (Is 5.5,6), as árvores infrutíferas na vinha são retiradas e se secam, João 15.6. [14] O dono da vinha na parábola simboliza Deus Pai; o vinhateiro simboliza Cristo ou o Espírito Santo – Ele é o homem que poda as videiras e cuida da vinha. [15]

2º - Em segundo lugar a interseção do vinhateiro (Lc 13.8,9). Os pronunciamentos de julgamento são, geralmente, acompanhados de uma segunda chance. [16] Cristo é o grande Intercessor; Ele vive sempre intercedendo. Os ministros são intercessores; aqueles que cuidam da vinha devem interceder por ela. Devemos orar pelas pessoas para as quais pregamos, porque devemos nos entregar à Palavra de Deus e à oração.[17] Por causa da intercessão de Cristo, Deus nos trata com misericórdia e não nos julga consoante os nossos pecados. Ele nos dá mais uma chance. Oferece-nos mais uma oportunidade. Pedro e João Marcos poderiam testemunhar como Deus lhes concedeu uma segunda chance![18]

3º - Em segundo lugar, a paciência do dono da vinha tem um limite (Lc 13.9). Deus é muito paciente. Entretanto, sua paciência não dura para sempre. Um dia – somente Deus sabe quando esse dia chegará – a oportunidade de salvação será tirada. O procrastinador morrerá em seus pecados e se perderá para sempre. [19] Onde falta arrependimento, o juízo é inevitável. Depois do investimento, se a figueira ainda não der frutos, o machado do juízo decepará seu tronco e arrancará suas raízes. Sua morte será inevitável; sua condenação, inexorável. Sua ruína será total. Qual é a nossa condição? Deus está vendo em nós frutos? [20]

CONCLUSÃO

Deus procura frutos. Não aceitará substitutos, e a hora de arrepender-se é agora. Da próxima vez que ficar sabendo de outra tragédia que tirou muitas vidas, pergunte a si mesmo: “Estou só ocupando espaço neste mundo ou produzindo frutos para a glória de Deus?” [21]

A Bíblia exorta os pecadores: “Buscai ao Senhor enquanto se pode achar; invocai-o enquanto está perto” (Is 55.6). Jesus advertiu que a geração, “Por um pouco de tempo estou convosco, e depois vou para aquele que me enviou” (Jo 7.33); “Eu retiro-me, e buscar-me-eis, e morrereis no vosso pecado. Para onde eu vou, não podeis vós vir” (Jo 8.21). Para aqueles que vivem em tempo emprestado “agora é o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação” (2Co 6.2), antes que seu tempo acabe e seu destino eterno seja selado. Hoje é o dia da sua salvação em Cristo Jesus!

Pense nisso!

Bibliografia:

1 – Henry, Matthew. Comentário Bíblico Novo Testamento Mateus a João, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2008, p. 633.

2 – Kenneth Bailey. As Parábolas de Lucas, Edições Vida Nova, São Paulo, SP, p. 154.

3 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 437.

4 – Ryle, J. C. Meditações no Evangelho de Lucas, Ed. FIEL, São José dos Campos, SP, 2002, p. 234.

5 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 291. 

6 – Ryle, J. C. Meditações no Evangelho de Lucas, Ed. FIEL, São José dos Campos, SP, 2002, p. 234.

7 – Kenneth Bailey. As Parábolas de Lucas, Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1985, p. 155.

8 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 209.

9 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 437.

10 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 292.  

11 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 420.

12 – Champin, R. N. O Antigo Testamento Interpretado, versículo por versículo, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2001, p. 554.

13 – Edwards, James R. O Comentário de Lucas, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2019, p. 502.

14 – Henry, Matthew. Comentário Bíblico Novo Testamento Mateus a João, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2008, p. 634.

15 – Childers, Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 438.

16 – Neale, David A. Lucas, 9 – 24, Novo Comentário Beacon, Ed. Central Gospel, Rio de Janeiro, RJ, 2015, p. 139.

17 – Henry, Matthew. Comentário Bíblico Novo Testamento Mateus a João, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2008, p. 634.

18 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 421.

19 – Neale, David A. Lucas, 9 – 24, Novo Comentário Beacon, Ed. Central Gospel, Rio de Janeiro, RJ, 2015, p. 139.

20 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 421.

21 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 292.