domingo, 10 de julho de 2022

O PODER DE JESUS SOBRE OS DEMÔNIOS - Lucas 11.14-19

Pr Silas Figueira

Texto básicio: Lucas 11.14-19

INTRODUÇÃO

Nesse texto encontramos Jesus expulsando um demônio de um homem que o impedia de falar. Após a sua libertação o homem passou a falar normalmente. Devido a isso, os fariseus passaram acusar de Jesus de expulsar demônios pelo poder de Belzebu, príncipe dos demônios. “Belzebu” era um dos nomes do deus filisteu Baal (2Rs 1.1-3) e significa “senhor das moscas”. Uma variação desse nome é “Belzebul”, que significa “senhor da habita­ção” e se encaixa com as ilustrações em Lucas 11.18-26. Os judeus costumavam usar essa designação para se referir a Satanás [1].

Esse episódio se encontra em todos os Evangelhos sinóticos. Lucas, no entanto é o mais sucinto dos evangelistas. Tanto Mateus como Marcos trata da blasfêmia contra o Espírito Santo neste episódio em que Jesus confronta seus acusadores. Aqui no texto de Lucas esse episódio não é descrito. Mateus também relata que o possesso tinha perdido a faculdade não só da fala, mas também da visão (Mt 12.22). Lucas é indefinido sobre a identidade dos atacantes de Cristo (“algumas pessoas”); Mateus os denomina de fariseus; Marcos, de escribas [2].

Quais as lições que podemos tirar desse texto para nossas vidas?

1 - NÃO PODEMOS IGNORAR OS ARDIS DE SATANÁS (2Co 2.10,11).

O apóstolo Paulo em 2 Coríntios  nos diz: “para que não sejamos vencidos por Satanás; porque não ignoramos os seus ardis” (2Co 2.10,11). Existem dois grandes perigos que Satanás tenta implantar na mente das pessoas, o primeiro é que ele não existe e o outro que tudo de ruim que ocorre conosco procede dele. Esses dois extremos têm causado muita confusão no meio evangélico. Enquanto que em algumas igrejas dizem que tudo que ocorre conosco é físico ou emocional, em outras igrejas, no entanto, dizem que tudo procede do diabo. Quem joga toda a culpa no diabo se esquece, ou não sabe que existe a responsabilidade humana. Que somos responsáveis por nossos atos e por eles responderemos. E quem diz que tudo é emocional ou físico desconhece os ardis do diabo.

Não podemos nos esquecer de que Satanás é um ser ardiloso e que em todo o tempo quer gerar confusão em nosso meio, por isso devemos procurar entender como ele age.

Ao lermos as Escrituras nós vemos que o diabo é um ser real e ativo na terra. Por isso que o apóstolo Paulo disse que não posemos ignorar os seus ardis. Devemos ter consciência de que estamos em guerra contra principados e potestades (Ef 6.12).

1º - Podemos destacar dez estratégias de Satanás contra o povo de Deus.

1 – Satanás mente, e é o pai da mentira. “Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8.44).

2 – Ele cega as mentes dos incrédulos. “O deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo” (2Co 4.4).

3 – Ele se apresenta como um anjo de luz e justiça. “O próprio Satanás se transforma em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus próprios ministros se transformem em ministros de justiça” (2Co 11.14,15).

4 – Satanás faz sinais e maravilhas. Em 2 Tessalonicenses 2.9, os últimos dias são descritos assim: “Ora, o aparecimento do iníquo é segundo a eficácia de Satanás, com todo poder, e sinais, e prodígios da mentira”.

5 – Satanás tenta as pessoas a pecar. Em 2Co 11.3, Paulo adverte todos os crentes contra isso: “Mas receio que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia, assim também seja corrompida a vossa mente e se aparte da simplicidade e pureza devidas a Cristo”.

6 – Satanás arranca a palavra de Deus dos corações das pessoas e sufoca a fé. Jesus contou a parábola dos quatro solos em Marcos 4.1-9. Nela, a semente da palavra de Deus é semeada, e algumas caem no caminho e os pássaros rapidamente as tiram. Ele explica no versículo 15, “logo vem Satanás e tira a palavra semeada neles”.

7 – Satanás causa algumas enfermidades e doenças. Certa vez, Jesus curou uma mulher que estava encurvada e não conseguia endireitar-se. Quando alguns o criticaram por fazer isto no sábado, ele disse: “Por que motivo não se devia livrar deste cativeiro, em dia de sábado, esta filha de Abraão, a quem Satanás trazia presa há dezoito anos?” (Lucas 13.16). Jesus viu a Satanás como aquele que havia causado esta doença.

8 – Satanás é um assassino. Jesus disse daqueles que estavam planejando matá-lo: “Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade” (João 8.44). João diz: “não [seja] segundo Caim, que era do Maligno e assassinou a seu irmão” (1João 3.12).

9 – Satanás luta contra os planos de missionários. Paulo conta como seus planos missionários foram frustrados em 1 Tessalonicenses 2.17,18: “Ora, nós, irmãos..., com tanto mais empenho diligenciamos, com grande desejo, ir ver-vos pessoalmente. Por isso, quisemos ir até vós . . . ; contudo, Satanás nos barrou o caminho”. Satanás odeia o evangelismo e o discipulado, e lançará todos os obstáculos que puder no caminho dos missionários e das pessoas com um zelo pelo evangelismo.

10 – Satanás acusa os cristãos diante de Deus. Apocalipse 12.10 diz: “Então, ouvi grande voz do céu, proclamando: Agora, veio a salvação, o poder, o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo, pois foi expulso o acusador de nossos irmãos, o mesmo que os acusa de dia e de noite, diante do nosso Deus”. A derrota de Satanás é certa. Mas suas acusações não cessaram [3].

Duas coisas que não podemos fazer em relação a Satanás, primeiro é subestimá-lo e segundo, é superestimá-lo. Devemos entender os seus ardis, mas conscientes de que ele já foi vencido na cruz do Calvário.

2ª – Jesus liberta um homem cativo de Satanás (Lc 11.14). Lucas nos diz que este homem estava possesso, e devido a isso ele não podia falar. Mateus é mais específico nos diz que ele também estava cego (Mt 12.22).

Podemos destacar aqui que Satanás tem “poder” para colocar doenças nas pessoas. É o que podemos chamar de doenças espirituais. Satanás pode atacar tanto o campo físico, mental (emocional) e espiritual. Vemos no capítulo 13 de Lucas uma mulher que tinha um espírito de enfermidade, havia já dezoito anos; e andava encurvada, e não podia de modo nenhum endireitar-se. Mas Jesus a libertou e esclareceu que Satanás a mantivera presa durante todos aqueles anos. Jesus mostra que aquela enfermidade não era algo natural, mas uma ação orquestrada de Satanás contra a vida daquela pobre mulher.

A libertação desse homem cego e mudo também era uma ação deliberada de Satanás contra a vida dele. Aqui tanto a cegueira quando a mudez que Satanás colocou era física, mas é comum vermos isso ocorrendo nas áreas emocionais e mentais.

Não quero com isso dizer que toda doença emocional seja uma ação de Satanás e nem mesmo mental. Existem várias doenças que são causadas por problemas emocionais e mentais que podem ser tratadas com profissionais qualificados – psicólogos e psiquiatras. Aliás, boa parte dos profissionais de saúde afirma que a maioria das doenças é psicossomática. Como diziam os gregos “mente sã, corpo são”.

3ª – A multidão glorificou a Deus (Mt 12.23). As pessoas ali presentes estavam presenciando o que está escrito em Isaías 29.18: “E naquele dia os surdos ouvirão as palavras do livro, e dentre a escuridão e dentre as trevas os olhos dos cegos as verão”.

Em Mateus 12.23 a multidão começou a questionar se Jesus não seria o Filho de Davi, uma alusão ao Messias prometido. Essa libertação fez com que o povo visse e falasse das maravilhas de Deus, reconhecendo que Jesus era o Messias de Deus. A ação de Satanás na vida daquele homem era um reflexo da multidão ali presente. Observe que a multidão glorificou a Deus, os líderes judeus não, pelo contrário, falaram que Jesus expulsava demônios pelo poder de Belzebu.  

2 – A ACUSAÇÃO DOS ADVERSÁRIOS DE JESUS (Lc 11.15,16).

Visto que era impossível para os inimigos de Jesus negar que os milagres que Ele realizava eram algo notório (cf. Jo 11.47), eles procuraram atribuir que tais sinais eram operados por poderes demoníacos. Não contente apenas em afirmar que Jesus recebeu o Seu poder de um demônio comum (cf. João 7.20; 8.48, 52; 10.20), eles o acusam de ser capacitado por Belzebu, um nome judeu para o governante dos demônios, Satanás.

Em vez de os líderes religiosos se alegrarem por ter Deus enviado o Redentor, rebelaram-se contra o Cristo de Deus e difamaram sua obra, atribuindo-a a Satanás [4]. Na sua incredulidade essas pessoas chamaram o Filho de Deus de servo do diabo.

Com isso em mente, podemos destacar quatro coisas:

1º - Em primeiro lugar, muitas pessoas hoje desacreditam do poder de Jesus. Eu não estou falando de ateus, eu estou falando de pessoas dentro de nossas igrejas que acham que o poder de Jesus ficou limitado ao seu tempo, ou quando no máximo, na era apostólica. Temos que entender que muitos milagres passados foram necessários devido à falta de recursos médicos que temos hoje, mas dizer que o Senhor deixou de operar milagres é muita falta de fé. Mesmo com todo o avanço da ciência hoje, vivemos ainda na total dependência de Deus; se o Senhor não agir e abençoar o profissional de saúde, tanto quanto a medicação, o tratamento aplicado, nada adiantará.

Assim como desacreditam do milagre hoje, assim também desacreditam da ação de Satanás sobre as pessoas. Seja uma doença causada por ele, seja uma possessão demoníaca.

2º - Em segundo lugar, muitas pessoas acham que não precisamos dos profissionais da saúde e nem de medicação. É outro extremo que precisamos evitar. Muitos líderes eclesiásticos que pregam a cura divina e o pensamento positivo insistem nessa loucura. Segundo eles, quem é crente em Jesus não fica doente e nem pode passar por crise financeira. Leiam os livros desses pregadores e vocês ficarão surpresos com o que dizem. Sendo assim, esses líderes levam os seus seguidores a acreditarem que tudo é espiritual e que basta orar e crer que tudo irá passar. Que tudo é obra do diabo ou falta de fé.

Philip Yancey no seu livro “Decepcionado com Deus” conta a respeito de uma igreja nos Estados Unidos que cria que a fé pura podia curar qualquer doença e que buscar ajuda em qualquer outro lugar ou pessoa – por exemplo, de médicos – demonstrava falta de fé em Deus. Muitas pessoas ligadas a essa igreja haviam morrido depois de recusarem tratamento médico, em obediência ao ensino da igreja. Muitas mulheres morriam ao dar à luz, a taxa de mortalidade infantil era enorme. Muitos pais ficavam sentados à beira da cama dos filhos os vendo morrer, sem fazer nada. O pastor persuadia os pais a não chamarem o médico [5]. Devido a um erro teológico aquela igreja estava matando os seus membros. E o pior, a igreja estava expandindo e chegando a outros estados.

3º - Em terceiro lugar, devemos buscar um ponto de equilíbrio em nossa fé. Eu tenho plena convicção de que Jesus cura hoje assim como curou no passado, mas eu também sei que o Senhor usa os médicos e os profissionais da saúde como instrumento dele para nos abençoar. Mas em momento algum eu desacredito da ação de Satanás contra nossas vidas, seja nos oprimindo, adoecendo ou causando confusão em nossas vidas. Devemos entender que estamos em guerra (Ef 6.1-18).

4º - Em quarto lugar, o milagre não gera fé (Lc 11.16). As obras poderosas que Jesus já havia feito já era a prova conclusiva de que Ele era o Messias e Filho de Deus (Jo 10.25), por isso Jesus recusou seu pedido. Como Ele disse a eles, em Lucas 11.29: “Maligna é esta geração; ela pede um sinal; e não lhe será dado sinal, senão o sinal do profeta Jonas”.

Muitas pessoas, mesmo diante dos milagres do Senhor, continuam na incredulidade. Outros agem de forma ainda pior, não só duvidam de Jesus como também blasfemam o seu nome.

Se os incrédulos estavam blasfemando o nome do Senhor diante de Seus milagres, nós devemos vigiar para não blasfemarmos o nome do Senhor em meio às crises que vida nos proporciona. Que tenhamos a maturidade de Paulo: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza [disse o Senhor a Paulo]. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo. Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte” (2Co 12.9,10).

3 – O ARGUMENTO DE JESUS CONTRA SEUS ADVERSÁRIOS (Lc 11.17-19).

Seus sussurros poderiam ter sido “escondidos” dos ouvidos do Senhor, mas não de Sua onisciência, pois Ele sabia os seus pensamentos (cf. Lc 5.22; 6.8; Jo 2.25). Seus propósitos e intenções eram transparentes para Jesus, e Ele sabia que esses pensamentos eram blasfemos e condenáveis.

O Senhor defende-se de seus adversários com uma brandura digna de admiração. Jesus não se defende com a Escritura, mas faz uso do bom senso. Mostra a tolice nas reflexões pecaminosas dos acusadores [6].

Com isso em mente podemos tirar algumas lições.

1º - Em primeiro lugar, o reino das trevas é um reino organizado (Lc 11.17,18). Jesus refutou o argumento dos escribas contando-lhes, a parábola do reino dividido. Jesus mostra quanto o argumento dos escribas era ridículo e absurdo. Satanás estaria destruindo sua própria obra e derrubando seu próprio império. Estaria havendo uma guerra civil no reino do maligno. Nenhum demônio pode ser expulso por outro demônio. O reino satânico sucumbiria se Satanás guerreasse contra si mesmo e lutasse contra seus próprios ajudantes [7].

2º - Em segundo lugar, Satanás tenta nos dividir. Se o seu reino é organizado, Satanás fará de tudo para tumultuar a Igreja de Cristo. E como ele faz isso?

1º - Levantando falsos profetas (Mt 7.15). Os falsos profetas têm enganado muitas pessoas porque eles se apresentam de forma inofensiva, apesar de serem lobos, eles se apresentam como ovelhas.

2º - Disseminando heresias (1Tm 4.1,2). “Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios; pela hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a sua própria consciência”.

3º - Apresentando falsos cristos (Mt 24.4,5,23,24). Esses falsos cristos são pessoas que se passarão por Jesus, como foi o Reverendo Moon que disse que ele era o terceiro Adão. O primeiro Adão fracassou, o segundo Adão, que foi Jesus também fracassou, pois não constituiu família e não teve filhos. Mas ele era o terceiro Adão o Messias prometido, pois ele constituiu família.

Mas os falsos cristos podem ser identificados mediante a apresentação de uma teologia que não revela toda a doutrina do Evangelho. Apresenta um cristo que não está na Bíblia. Um cristo que não é nem mesmo genérico, é placebo mesmo. Um cristo que ama a todos e que não se importa com a vida que a pessoa leva. Um cristo que não se importa com o pecado e nem condena o pecador. Um cristo que levará todos para o céu e viveremos felizes para sempre. Um cristo que desconhece o futuro e que se surpreende com os homens.

O diabo não brinca de ser diabo, mas tem muito crente brincando de ser cristão.

3º - Jesus encurrala os seus acusadores (Lc 11.19). Os filhos dos acusadores faziam o que Jesus estava fazendo, expelindo demônios. Se Jesus estava fazendo no poder de Belzebu, eles também estavam. Assim, seus filhos seriam os próprios juízes para condenar sua acusação blasfema e leviana [8].

A pergunta do Senhor deixava exposta sua inconsistência, a hipocrisia de seus corações e a falta de integridade deles. Se expulsar demônios provava que alguém estava em aliança com Satanás, então por que eles não suspeitavam de seus próprios exorcistas, ou seja, rabinos, escribas, fariseus e seus associados? Como eles poderiam não aplicar os mesmos padrões para os seus fracassos como eles fizeram para o sucesso de Jesus?

CONCLUSÃO

Em todo o tempo Jesus foi atacado por seus inimigos, pessoas que estavam cegas para verem a glória de Deus diante deles e mudas em não glorificar o nome do Senhor diante deles. Hoje não tem sido diferente. Muitas pessoas agem da mesma maneira, blasfemam o Seu nome, mas exaltam a Satanás. São inimigos da cruz e rejeitam a mensagem do Evangelho. Mas a nossa luta não é contra carne e nem sangue, mas contra principados e potestades nas regiões celestiais (Ef 6.12).

Bibliografia:

1 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 280.

2 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, Ed. Cultura Cristã, São Paulo, SP, 2003, p. 120.

3 – Piper, John. As Dez Estratégias de Satanás Contra Nós, https://www.thegospelcoalition.org/pt/article/dez-estrategias-de-satanas-contra-nos/, acessado em 04/07/2022.

4 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 360.

5 – Yancey Philip. Decepcionado com Deus, Ed. Cultura Cristã, São Paulo, SP, 2004, p. 24.

6 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 167.

7 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 360.

8 – Ibidem, p. 361. 

sábado, 9 de julho de 2022

Pastor ressignifica a Bíblia em vídeos sobre a homossexualidade

Pastor e diretor de seminário de denominação histórica ressignifica a Bíblia em série de vídeos sobre a homossexualidade

Por Pr. Cleber Montes Moreira

“Mas a palavra do Senhor permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada.” (1 Pedro 1:25)

Um pastor, professor e diretor de um Seminário Teológico de uma denominação evangélica histórica, publicou uma série de vídeos com a intenção de apresentar a homossexualidade como sendo normal e aceitável à luz das Escrituras. Em suas publicações, no Facebook e no YouTube, o dito teólogo disponibilizou diversos títulos sobre o tema para o aconselhamento de famílias, nos quais trata o assunto sob sua ótica interpretativa.1 Em especial, no vídeo intitulado “Bíblia e homossexualidade”2, ao lado de uma terapeuta, o líder religioso destaca uma série de textos bíblicos que considera mal interpretados e sobre os quais lança “luz” para melhor entendimento dos internautas, sempre em oposição à interpretação bíblica tradicional e ao que ensina a própria denominação da qual ele faz parte.

Recente, outro pastor, da mesma denominação, relatou em seu perfil no Facebook sua experiência em realizar um “casamento homoafetivo”3. Um dos versos bíblicos citados no final da postagem é este: “A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei” (Romanos 13:8).

Um outro conhecido pregador, pastor de uma grande igreja filiada à mesma denominação, se tornou alvo de críticas por afirmar que a Bíblia é insuficiente, e que precisa ser atualizada, para em seguida, defender a recepção de pessoas LGBTQIA+ nas igrejas.4 Vários outros líderes, alinhados à Teologia Progressista, sempre sob o mesmo argumento do “amor”, têm defendido a mesma pauta de “inclusão” nas redes sociais, em eventos, livros, revistas para EBDs, a partir dos púlpitos, das salas de seminários etc.

Quando a Igreja Batista do Pinheiro, de Maceió (AL), foi desligada da Convenção Batista Brasileira por receber em sua membresia pessoas LGBTQIA+, seu pastor, Wellington Santos, ao se manifestar publicamente sobre a decisão da igreja, explicou: “O que a Igreja Batista do Pinheiro fez revela que, mesmo não tendo todas as respostas para a questão da homossexualidade na Bíblia ou na doutrina histórica, decidimos seguir o caminho do amor. O que afirmamos é que cremos no amor e na misericórdia divina”. Observem que tal afirmação coloca de lado a Bíblia como suficiente e como normativa para a vida cristã, e em lugar dela se estabelece a fé no “amor e na misericórdia divina” como critério. Ora, sendo o “amor” e a “misericórdia” atributos de Deus revelados nas Escrituras, há nesta afirmação explícita relativização da Palavra que tem valor apenas quando serve a determinados propósitos: Ela é evocada para validar certas práticas, mas rejeitada quando denuncia estas mesmas práticas como pecaminosas; é usada para declarar o “amor” e a “misericórdia divina”, mas descartada quando o assunto é juízo e condenação. Assim negam seus ensinos e princípios norteadores para a conduta humana.

Os adeptos do chamado “cristianismo progressista”, ao escolherem “seguir o caminho do amor”, rejeitam a Palavra que nos ensina que permanecer no amor de Deus é guardar os Seus mandamentos, é obedecer, e que, portanto, a comunhão com o Senhor implica certas condições, bem como desencadeia o ódio do mundo (João 15:9,10, 18-20). Permanecer neste amor é estar ligado à Videira Verdadeira e, por meio dela, ter comunhão com Deus e uns com os outros. Na Videira há vida, fora dela só há morte! Assim, aquele que não permanece no amor, ou seja, na Videira que é Cristo, em cujo coração não está a Sua Palavra e, por conseguinte, é desobediente, “será lançado fora, como a vara, e secará; e os colhem e lançam no fogo, e ardem” (João 15:6).

Ardilosamente os falsos mestres, não podendo suportar a Palavra de Deus, atentam contra ela; trabalham engenhosamente para ressignificá-la. Mais fácil que negar deliberadamente a verdade é mentir dizendo algumas verdades — verdades convenientes, e/ou meias verdades —, e nisso alguns “homens de Deus” se tornaram especialistas. Para a mente natural, nada melhor que encontrar na Escritura reinterpretada, desidratada da justiça e salpicada de “amor”, justificativas para a vida pecaminosa. Isto é um incentivo — “bíblico” — para “aproveitar a vida” e estar em paz com Deus.

O texto bíblico inicial traz uma revelação atemporal: “a palavra do Senhor permanece para sempre.” E mais: “E esta é a palavra que nos foi evangelizada” no início. Em outras palavras, a Palavra não mudou, e não mudará. Todo esforço para reinterpretá-la como estratégia para autorizar práticas pecaminosas e aplacar as consciências dos pecadores é inútil, pois a Bíblia continua a mesma, e ela declara qual é o “salário do pecado”: a morte! (Romanos 6:23). Ao omitir esta verdade, a “religião do amor” se faz estrada larga e aprazível que conduz multidões ao inferno: “porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela” (Mateus 7:13).

Pense nisso!

domingo, 5 de junho de 2022

A PERSEVERANÇA NA ORAÇÃO - Lucas 11.5-13

Pr Silas Figuiera

Texto básico: Lucas 11.5-13

INTRODUÇÃO

Jesus mostrou a seus discípulos o “Pai Nosso” como modelo de oração, que traz todas as coisas essenciais que devem ser pedidas a Deus. Depois desse ensinamento ele assegura o atendimento da oração. Essa confiança é fundamentada pelo Senhor: 1) através de um exemplo do dia-a-dia (v. 5-8); 2) com vistas à experiência diária (v. 9-10); 3) sobretudo considerando a misericórdia do Pai no céu (v. 11-13) [1].

A oração do “Pai Nosso” é um modelo de oração, não uma reza a ser recitada. Longe disso. Através da oração que Jesus deixou como modelo podemos ver que nela consiste a maturidade de como devemos orar. Nela lemos que o que prevalece na oração é a vontade do Pai: “Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (v. 2). Entendendo que a vontade do Pai é pura, perfeita e agradável (Rm 12.2), que Sua vontade soberana sempre irá prevalecer e nós nos sujeitamos à ela.

Entender que Sua vontade irá prevalecer é entender que Ele é eterno, onipotente, santo e imutável, onisciente, onipresente, que levará a efeito o plano perfeito que Ele ordenou desde o início. Isso mostra maturidade espiritual. Como disse Jó: “Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido” (Jó 42.2). Assim, entendemos que a oração não muda os planos de Deus, a oração confirma em nosso coração a Sua vontade, que como já sabemos é pura, perfeita e agradável.

Mas se a oração não muda a mente ou os planos de Deus, que proposito ela serve? Talvez você pergunte! A oração é um meio que Deus ordenou para cumprir Seus propósitos: “A oração feita por um justo pode muito em seus efeitos” (Tg 5.16), ou seja, Deus move o coração do crente a orar. Deus muda as circunstâncias pela oração. A oração remove o sofrimento, mas também nos dá poder para enfrentar os problemas e usá-los para cumprir os propósitos de Deus.

É o próprio Deus que nos leva a buscar a Sua face em meio as diversas ocasiões e crises que enfrentamos. Vemos isso na história de Israel. Veja por exemplo Jr 29.11-13, onde o Senhor diz para seu povo que estava no cativeiro babilônico que eles deveriam crescer nessa cidade e depois de setenta anos eles iram orar, e o Senhor iria lhes ouvir a oração e lhes libertar do cativeiro e leva-los de volta para Jerusalém. O mesmo vemos em Dn 9 quando Daniel lê o profeta Jeremias e descobre que o fim do cativeiro estava chegando. Devido a isso, ele ora confessando o pecado do povo. Vemos o mesmo em Neemias capítulo primeiro, quando ele soube da situação de miséria que se encontrava os judeus em Jerusalém, ele busca a face do Senhor em oração e confissão de pecados e se propõe a ir a Jerusalém para restaurar os seus muros. Esses são alguns exemplos de como o Senhor move o coração do Seu povo a orar, interceder e agir.

No texto que lemos vemos o Senhor Jesus ensinando os seus discípulos a serem perseverantes na oração. Essa confiança está fundamentada em três pilares:

1 – ESSA CONFIANÇA ESTÁ FUNDAMENTADA NA INTEGRIDADE DE DEUS (Lc 11.5-8).   

Para ilustrar sobre a importância da perseverança na oração, Jesus lhes conta uma parábola. Mas para entendermos essa parábola, devemos entender o contexto histórico da época.

O contexto histórico – Viajar à noite na Palestina era comum por causa do intenso calor do dia, e assim a chegada deste amigo à meia-noite não é de forma alguma algo incomum [2]. Kenneth Bailey diz que o elemento essencial desta parte da parábola é que o hospedeiro é hospedeiro da comunidade e não apenas do indivíduo. Este fato se reflete até como que se cumprimentavam o hóspede. É-lhe dito: “você honrou a nossa aldeia”, e nunca: “você me honrou”. Dessa forma a comunidade é responsável por hospedá-lo. O hóspede deve sair da aldeia sentindo-se bem com a hospedagem da mesma como comunidade [3]. Devido a isso, o hospedeiro poderia ir de casa em casa pedindo emprestado, caso não tenha, a melhor toalha, jarro, talheres, alimentos. E todos cederiam de bom grado. Se algum vizinho não socorresse o amigo, ele ficaria mal visto da aldeia. Por isso que, mesmo contragosto, este homem se levanta para socorrer o vizinho importuno. E não só lhe dá três pães, mas muito mais do que necessitava (v. 8).

Com isso em mente, podemos destacar três coisas importantes:  

1º - O Pai não dorme. O Pai não é um homem que se casa e procura dormir cedo. O salmista diz que “não tosquenejará nem dormirá o guarda de Israel” (Sl 121.4). Por isso que a qualquer hora da noite ou do dia o Senhor está pronto a nos atender.

2º - O Pai não é um vizinho incomodado. O Senhor não se sente incomodado com as nossos pedidos. Muito pelo contrário, Ele nos ensina que devemos ser perseverantes na oração. Em Lucas 18.1 nos diz: “E contou-lhes também uma parábola sobre o dever de orar sempre, e nunca desfalecer”.

3º - O Pai nos atende de bom grado. Leon Morris diz não devemos brincar de orar, mas, sim, devemos mostrar persistência se não recebemos a resposta imediatamente. Não é que Deus não deseje atender e precisa ser pressionado para dar uma resposta. O contexto inteiro deixa claro que está ansioso por dar. Mas se não quisermos aquilo que estamos pedindo, suficientemente para sermos persistentes, então não fazemos muita questão dele [4].

Wiersbe diz que a persistência na oração não é uma tentativa de fazer Deus mudar de ideia (“Seja feita a tua vontade”), mas sim de nos colocar numa posição em que ele nos confie a resposta [5]. A oração nos prepara para recebermos a resposta de Deus.

Esta parábola nos revela a natureza de Deus. Se um vizinho que põe tantos obstáculos para socorrer o seu vizinho inoportuno, mas por ser um homem íntegro, lhe socorrerá, muito mais o Pai que você busca em oração, por sua mais alta integridade e por lhe amar, lhe responderá a qualquer hora. Este é o ensinamento desta parábola. Deus é um Deus de honra, e por isso, seus filhos podem ter certeza absoluta de que suas orações serão atendidas em tempo oportuno.

2 – ESSA CONFIANÇA ESTÁ FUNDAMENTADA NA PRONTIDÃO DE DEUS EM NOS OUVIR (Lc 11.9,10).

Jesus faz agora a aplicação da parábola. Ele mostra que para recebermos algo da parte de Deus devemos orar.  Devemos agir como o homem da parábola, que, mesmo sabendo que estava incomodando e recebendo um não à princípio do seu vizinho, não deixou de insistir na busca do que necessitava. Com isso, ele recebeu até mais do que buscava (v. 8, conf. Ef 3.20).

Podemos destacar algumas lições importantes em relação a oração.

1º - Em primeiro lugar, a ordem de Jesus para orarmos (Lc 11.9). Há uma tríplice ordem aqui: pedi, buscai e batei. A oração tem a ver com humildade, perseverança e ousadia. Os imperativos presentes “continue a pedir”, “continue a buscar” e “continue a bater” indicam que a oração não é um ritual semipassivo em que de vez em quando partilhamos nossos interesses com Deus. A oração exige vigor e persistência [6].

John Stott diz que na oração há muita coisa por detrás dela. Primeiro, oração pressupõe conhecimento. Considerando que Deus só concede dádivas de acordo com a sua vontade, temos de esmerar-nos em descobri-la – pela meditação nas Escrituras e pelo exercício da mente cristã disciplinada nessa meditação. Segundo, oração pressupõe fé. Uma coisa é conhecer a vontade de Deus; outra é nos humilharmos diante dele e expressarmos a nossa confiança em que ele é capaz de executar a sua vontade. Terceiro, oração pressupõe desejo. Podemos conhecer a vontade de Deus e crer que ele pode executá-la, e ainda assim não desejá-la. A oração é o principal meio ordenado por Deus para a expressão de nossos mais profundos desejos. Assim, antes de pedir, precisamos saber o que pedir e se está de acordo com a vontade de Deus; temos de crer que Deus pode concedê-lo; e precisamos genuinamente desejar recebê-lo. Então, as graciosas promessas de Jesus se realizarão [7].

2º - Em segundo lugar, a promessa a quem ora (Lc 11.9,10). Os tempos verbais desta passagem são importantes: “Pedi (continuem pedindo), buscai (continuem buscando), batei (continuem batendo)”. Em outras palavras, não procurem Deus só quando surgem emergências no meio da noite, mantenham-se constantemente em comunhão com o seu Pai [8]. Entendendo que não receberemos tudo o que pedirmos, mas receberemos o que precisamos, e o que iremos receber é o melhor para nossas vidas.

3 – ESSA CONFIANÇA ESTÁ FUNDAMENTADA NA MISERICÓRDIA DO PAI NO CÉU (Lc 11.11-13).

Jesus conclui esse assunto mostrando o quanto o Pai é misericordioso. Ele faz uma comparação com o pai humano, que é falho e mal, mas que entretanto, procura dar o melhor para os filhos. Por isso devemos confiar que o Pai do céu nos dará sempre o melhor para nós.

Observe que esta parábola eleva o nível da discussão de amizade à paternidade; se uma pessoa iria responder a um pedido ousado de um amigo, quanto mais seria um pai responder aos seus filhos?

D. M. Lloyd-Jones diz que em nossa insensatez, inclinamo-nos por pensar que Deus está contra nós, quando algo de desagradável nos acontece. Entretanto, Deus é o nosso Pai; e, na qualidade de nosso Pai, Ele jamais nos dará qualquer coisa que nos seja prejudicial. Nunca; isso é simplesmente impossível [9].

Com isso em mente, podemos destacar algumas lições importantes.

1º - Deus nunca erra (Lc 11.11,12). Qual o pai que se um filho lhe pedir um pão lhe dará uma pedra? E se lhe pedir um peixe lhe dará uma serpente? Ou se lhe pedir um ovo lhe dará um escorpião? Isso é totalmente ilógico. Ora, se mesmo um pai terreno, ainda que mau por natureza (SI 51.1-5; 130.3; Is 1.6; Jr 17.9; Jo 3.3, 5; Rm 3.10; Ef 2.1), providencia para seus filhos somente coisas boas, e não coisas que venham a causar-lhes dano, quanto mais razão tem o Pai celestial – literalmente, o Pai do céu –, que é isento de toda maldade e é, de fato, a fonte de toda bondade, de dar ... o quê? [10]. Se aqui na terra o pedido dos filhos já exerce grande poder sobre os pais, a oração dos filhos de Deus move o coração do Pai no céu com muito mais intensidade [11].

Mas pode ser que por uma distração o pai dê algo ao filho algo que lhe prejudique. Quantas vezes já ouvimos de pais que esqueceram os filhos pequenos dentro do carro e foram trabalhar? Vi um vídeo de uma mãe que foi levar o filho para a aula de violão e esqueceu o filho em casa. Isso prova que somos falhos. Outras vezes procuramos fazer o melhor para os nossos filhos e no entanto estamos lhes prejudicando... somos falhos.

No entanto, Deus nunca erra. Deus conhece a diferença que entre o bem e o mal, com uma profundidade desconhecida por qualquer outro ser. O Pai jamais incorre em equívocos. Ele jamais nos dará alguma coisa que possa a vir a prejudicar-nos [12].

2º - Deus sempre tem o melhor para nós (Lc 11.13). Se, porém, os homens maus não fazem danos aos seus filhos, mas, pelo contrário, lhes fazem bem, quanto mais Deus fará bem aos Seus filhos? O bem que Deus fará não é deixado em termos gerais: Dará o Espírito Santo. Lucas está interessado na obra do Espírito Santo, e aqui vê o dom do Espírito como o sumo bem para o homem [13].

Esse é o único caso no Evangelho de Lucas no qual a presença do Espírito Santo é descrita como comum para a vida espiritual dos cristãos. A referência no contexto da história do amigo importuno é uma exortação para a persistência na busca de uma vida cheia do Espírito. E uma passagem na qual a busca pela santificação encontra uma particular garantia das Escrituras. Somente aqui, nas tradições do Evangelho, somos encorajados a buscar persistentemente o legado do Espírito Santo [14].

Para aqueles que pedem um presente, Ele dá o doador; para aqueles que procuram a verdade Ele dá o Espírito da verdade (Jo 16.13); para aqueles que procuram “amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gl 5.22-23) Ele dá o produtor de todas essas coisas. Somos a habitação do Espírito Santo (Rm 8.9,11; 1Cor 6.19; 2Tm 1.14), Ele é a fonte de todo o bem na vida do cristão (Ef 3.20).

CONCLUSÃO

Ousemos entrar confiantemente na presença do Senhor, pois teremos bons resultados em nossa oração. O Senhor tem prazer em ter comunhão com Seus filhos. Ele é o bom Pai que nos dá boas dádivas. Em Sua presença desfrutaremos as ricas bênçãos de Sua bondade e experimentaremos a realidade de que Ele “é capaz de fazer muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que opera em nós” (Ef. 3.20).

Ele não é um vizinho insensível as nossas necessidades, mas um Pai amoroso pronto a nos socorrer em tempo oportuno!

Pense nisso!

Bibliografia:

1 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 164.

2 – Childers Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 417.

3 – Bailey, Kenneth E. As Parábolas de Lucas, Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1985, p. 106.

4 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 185.

5 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 279.  

6 – Lopes, Hernandes Dias. Mateus, Jesus, o Rei dos reis, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2019, p. 239.

7 – Stott, John R. W. Contracultura Cristã, A mensagem do Sermão do Monte, Ed. ABU, São Paulo, SP, 1981, p. 88.

8 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 280.

9 – Lloyd-Jones, D. M. Estudo no Sermão do Monte, Ed. Fiel, São Paulo, SP, 1984, p. 481.

10 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 116.

11 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 166.

12 – Lloyd-Jones, D. M. Estudo no Sermão do Monte, Ed. Fiel, São Paulo, SP, 1984, p. 481.

13 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 185.

14 – Neale, David A. Lucas, 9 – 24, Novo Comentário Beacon, Ed. Central Gospel, Rio de Janeiro, RJ, 2015, p. 100. 

quarta-feira, 1 de junho de 2022

SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR - Lucas 11.1-4

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 11.1-4

INTRODUÇÃO

O texto que lemos nos mostra Jesus mais uma vez em oração. Após Jesus terminar de orar, um de seus discípulos lhe pede para que os ensine a orar assim como João Batista ensinou os seus discípulos. Costumamos pensar em João Batista como profeta e mártir, mas os discípulos de Jesus lembravam-se dele como homem de oração [1]. Apesar de João ser cheio do Espírito Santo desde o ventre, ele foi um homem que se mostrou na dependência de Deus através de sua vida de oração.

Alguém falou que “a oração é o fôlego da alma”. Assim como João ensinou os seus discípulos a respeito da oração o Senhor Jesus também ensinou aos seus discípulos. Jesus não só ensinou a respeito da oração como Ele também foi um homem de oração. Lucas falou mais sobre oração do que qualquer outro evangelista. Por descrever Jesus como o Homem perfeito, é o Evangelho que enfatiza a vida de oração de Jesus (3.21; 5.15-17; 6.12,13; 9.18,28; 11.1; 22.31,32; 22.39,40; 23.34). Sete destas orações de Jesus constam somente em Lucas e mostram Jesus orando antes de cada grande crise de sua vida. Somente este Evangelho registra que Jesus orou por Pedro (22.31,32). Jesus orou por seus inimigos (23.34) e por si mesmo (22.41,42). Os discípulos aprenderam a orar com Jesus, e a igreja primitiva aprendeu a orar com os discípulos [2].

Diante do pedido desse discípulo Jesus então lhes dá um modelo de oração. A oração aqui registrada tem um paralelo com Mt 6.9-13, onde no Sermão do Monte o Senhor lhes fala como os seus discípulos deveriam orar. Leon Morris diz que Jesus ensinou sobre esse modelo de oração mais de uma vez [3]. Em Mateus Jesus estava no início de seu ministério, aqui em Lucas Ele está a caminho de Jerusalém para ser crucificado. A oração registrada em Lucas é mais breve do que a incluída no Sermão do Monte, mas a centralidade de Seu ensino é o mesmo.

Vejamos o que esse texto tem a nos ensinar.

1 – A ORAÇÃO É PRIORIDADE DA VIDA DO CRENTE (Lc 11.1).

Lucas registra aqui nesse texto que estando Jesus a orar... isso despertou nos discípulos o desejo não só de orar, mas de orar de maneira certa. A orar não como os fariseus oravam, mas orar como Jesus orava. A ideia que temos é que os discípulos viam como o fariseus oravam, depois viram como João Batista orava e por fim, como Jesus orava. A oração que ouviram de Jesus era radicalmente diferente das tradicionais orações que estavam acostumados a ouvir nas sinagogas pelos escribas, fariseus e rabinos.

Jesus viveu uma vida intensa de oração. Orou antes de tomar grandes decisões em seu ministério. Orou na hora da tentação. Orou na hora mais amarga do Getsêmani. Orou suspenso na cruz. Orou às madrugadas. Passou noites inteiras em oração. Ensinou-nos a orar sempre e nunca esmorecer. Jesus ainda continua intercedendo pelas suas ovelhas junto ao trono da graça [4]. Se Jesus Cristo, o Filho perfeito de Deus, dependeu da oração “nos dias da carne” (Hb 5.7), nós dependemos muito mais! A oração eficaz é a provisão para todas as necessidades e a solução para todos os problemas [5].

Com isso em mente, podemos destacar duas coisas aqui:

1º - Existe o jeito certo de orar. Ensina-nos a orar... Jesus no Sermão do Monte disse para os seus discípulos: “E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios, que pensam que por muito falarem serão ouvidos” (Mt 6.7). Para sermos ouvido por Deus não precisamos falar muito, mas no falar de forma correta. É orar segundo a Sua vontade e não segundo a nossa vontade, como nos fala João em sua primeira carta: “E esta é a confiança que temos nele, que, se pedirmos alguma coisa, segundo a sua vontade, ele nos ouve” (1Jo 5.14).

A questão é: se existe um jeito certo de orar e esse jeito é segundo a vontade de Deus, como eu posso saber qual é a vontade de Deus? A Sua vontade está revelada em Sua Palavra. E com certeza nós oramos de acordo com a sua vontade, quando oramos de acordo com o padrão de oração que Ele nos deu. Muitos estão errando quando oram porque não oram segundo as Escrituras, mas segundo as suas vontades. Tiago em sua carta diz: “Pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites” (Tg 4.3). Por isso, antes de oramos “O pão nosso de cada dia nos dá hoje” (Mt 6.11), devemos orar “Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.10).

2º - A oração é prioridade na vida do crente (Lc 11.1). Observe que em meio a tantos milagres, tantos prodígios, autoridade sobre os demônios, autoridade no ensino... os discípulos pedem que o Senhor lhes ensinasse a orar. Isso nos mostra que a autoridade do crente vem mediante uma vida de oração e não de ação. Isso nos ensina que devemos orar para agir e não agir para orar.

Eles não pedem: “ensina-nos a pregar”, mas, “ensina-nos a orar”. Jesus deixou o exemplo de orar antes de tomarmos qualquer decisão. Antes de darmos o primeiro passo. Isso devemos observar e colocar como prioridade em nossas vidas também. A oração é mais do que meramente um dever ocasional; é um modo de vida.

Talvez você diga que não é uma pessoa de oração, ou pelo menos como dizem que devemos ser. Vou lhe dar um exemplo de uma pessoa que era um excelente escritor, excelente crente, mas um homem modesto na sua vida devocional. Esse homem era C. S. Lewis. Ele gostava de dizer: “Não sou como os místicos, aqueles que sobem a montanha para orar. Sou alguém que está no sopé da montanha. Eu não estou muito alto, nem lá embaixo. Vivo no meio da montanha, como um cristão normal” [6]. Ou seja, se você não pode ser um Moisés no alto do monte Sinai recebendo as tábuas da lei, seja pelo menos como Josué que acompanha Moisés (Êx 24.13).

2 – UM MODELO DE ORAÇÃO – PRIORIDADE NA VONTADE DE DEUS (Lc 11.2).

Os discípulos não haviam solicitado que Jesus lhes ensinasse uma oração para recitar, mas como orar. Jesus respondeu dando-lhes uma oração que, infelizmente, no decorrer dos anos passou a ser recitada e até mesmo cantada. Entre os católicos este modelo de oração que Jesus ensinou é chamada de “Oração do Pai Nosso”. No entanto, Jesus alertou contra a repetição sem sentido na oração (Mt 6.7). Jesus não teria dado aos Seus seguidores uma oração para recitar mecanicamente. Também não há qualquer registro no Novo Testamento de ninguém posteriormente recitando esta oração. Longe de ser apenas mais um ritual de oração, esta oração é um esqueleto ou estrutura para toda a oração.

No entanto, é bom lembrarmos que o conteúdo dessa oração é um tesouro de lições espirituais. Por isso, expô-las em uma mensagem é algo impossível. Esta oração modelo sobre a qual muitos livros já foram escritos não admite ser considerada adequadamente em apenas uma mensagem.    

O que podemos aprender com este modelo de oração dado por Jesus?

1º - A oração deve ser uma prática diária (Lc 11.2a). Jesus não disse: “Se orardes”, mas “Quando orardes”. Ele pressupõe que seus discípulos vão orar. A oração é uma necessidade vital na vida espiritual [7]. Há momentos em nossas vidas que a oração é tudo que nos resta. A oração não nos impede de agir, mas há certos momentos que já não temos mais nada a fazer a não ser orar. E é nessa hora que a nossa fé é colocada à prova.

2º - A oração revela nossa intimidade com o Pai (Lc 11.2b). “Pai nosso...” Jesus começa com o simples trato: Pai, o que corresponde ao aramaico abba, o modo de uma criança se dirigir ao seu pai humano. Jesus ensinou Seus seguidores a pensarem em Deus como sendo Pai deles (que aprenderam a lição é visto em Rm 8.15; G1 4.6) [8].

Abba era muitas vezes uma das primeiras palavras que uma criança aprendia a dizer. Jesus enfatiza que a oração envolve intimidade com Deus. Os crentes têm o privilégio de entrar na presença do Criador e Rei soberano do universo e se dirigindo a ele em termos íntimos. Dirigindo-se a Deus como Pai, isso mostra que os crentes vivem em família eterna com Deus. Embora sejamos pecadores (1Jo 1.8), o Senhor não deixa Suas amadas crianças a quem Ele concedeu a vida eterna (Jo 3.15,16,36).

Pai nosso – devemos entender que Ele é pessoal. Há, no entanto, um problema. Conforme João explica, somente aqueles que recebem Jesus e creem em seu nome, têm o direito de se referir a Ele como “Pai nosso” (Jo 1.12). Na verdade, Jesus deixou claro que havia apenas dois tipos de pessoas no mundo: aqueles que se referiam a Satanás como “nosso pai”, e aqueles que chamavam a Deus de “Pai nosso” (Jo 8.44-47). Não há outras opções [8].

3º - A oração revela a grandeza de Deus (Lc 11.2c). “Que estás nos céus”. Ele não é somente bom, Ele também é grande. As palavras “nos céus” indicam não tanto o lugar de sua habitação, mas também sua autoridade e o poder que tem na qualidade de criador e governador de todas as coisas. Assim ele combina amor paternal com poder celestial; e o que o seu amor ordena, o seu poder é capaz de realizar [9].

4º - A oração revela a santidade de Deus (Lc 11.2d). “Santificado seja o teu nome”. Santificado quer dizer “tornado santo”, “reverenciado”. O nome na antiguidade significava muito mais do que significa para nós. Resumia a totalidade do caráter de uma pessoa, tudo quanto era conhecido ou revelado acerca dela [10].

Santificado quer dizer venerado ou honrado, considerado santo. Está em foco a honra de Deus entre os homens e entre os seres angelicais. Veja por exemplo Isaías 6.1-5.

Na presença de Deus Todo-Poderoso, Isaías ficou completamente cônscio das suas imperfeições. A pessoa, o poder e a pureza do Santo o tornaram inteiramente ciente da sua própria corrupção. É na pureza intensa e brilhante da pessoa de Deus que as nossas fraquezas e imperfeições aparecem da pior maneira possível. Quanto mais nos aproximamos dele, tanto mais claramente sentimos os nossos próprios pecados. E é somente assim que descobriremos quanto necessitamos de nos purificar das nossas imperfeições [11].

O Nome significa tudo quanto está envolvido na Pessoa de Deus, tudo quanto nos foi revelado a Seu respeito. Por isso que o Senhor se revelou aos filhos de Israel sob diversos nomes. Ele usou certos vocábulos para indicar a sua pessoa (El ou Elohim), que apontam para o seu poder, para sua força.

O Nome – o nome de Deus – significa o título, a pessoa, o poder, a autoridade, o caráter e a própria reputação de Deus. Entenda uma coisa, tão grande era o respeito do antigo povo hebreu pelo nome de Deus que nem mesmo ousavam pronunciá-lo nem tentavam pô-lo em língua humana. Era representado pelas letras Y H W H. Mais tarde, foram aumentadas para YAWEH, que em nossas traduções é SENHOR.

O nome YAWEH quer dizer “Auto Existente”. No Antigo Testamento, o Senhor se descreveu a Si mesmo através do seu nome: Yahweh-jireh – o Senhor proverá; Yahweh-rapha – o Senhor cura; Yahweh-nissi – o Senhor é a nossa bandeira; Yahweh-shalom – o Senhor é a nossa paz; Yahweh-ra-ah – o Senhor é o nosso pastor; Yahweh-tsidkenu – o Senhor é a nossa justiça; e ainda Yahweh-shammah – o Senhor está presente. Ao lermos a antigo Testamento no original, vemos que todos esses nomes de Deus foram usados com certa frequência [12].

5º - A oração desperta o desejo do reino de Deus na terra (Lc 11.2e). “Venha o teu reino”. Desde que o homem pecou tem havido um grande número de impérios e nações ao longo da história humana, mas espiritualmente há apenas dois reinos: o reino de Deus e o reino de Satanás (cf. Cl 1.13). Todos os reinos deste mundo atualmente fazem parte do domínio das trevas de Satanás. Desde a queda a raça humana está em rebelião contra Deus. A maioria das pessoas, desde a infância, acreditam erroneamente que eles podem definir o rumo para suas vidas, determinar seu próprio destino, decidir o seu próprio futuro, e traçar seu próprio curso da vida. Agem como se o Senhor não reinasse. Como se Ele nada visse. Ledo engano.

Foi exatamente o Reino de Deus que o Senhor Jesus veio implantar na terra, não de forma literal, mas no coração dos seus discípulos. A Igreja Católica a interpreta fazendo da Igreja Romana um reino particular. Jesus em momento algum veio para inaugurar uma instituição religiosa. Longe disso.

Veja o que o Senhor Jesus falou para os fariseus sobre a vinda do Reino de Deus:

“Interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, Jesus lhes respondeu: Não vem o reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17.20,21 – ARA).

Quando o Jesus veio a este mundo Ele veio para inaugurar este Reino, que é o Evangelho sendo amplamente espalhado em toda a terra. É este Reino sendo instalado dentro dos corações das pessoas; gente que antes era serva de Satanás, mas agora convertidas ao Senhor. Como disse Paulo aos Colossenses 1.13,14: “Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados”.

E podemos ir um pouco além. Quando eu oro “venha o teu Reino”, estou desejoso de renunciar ao governo da minha própria vontade, abstenho-me de tomar as minhas próprias decisões, a fim de permitir que o Senhor, pelo Seu Espírito decida o que eu deva fazer.

É o Senhor reinando de forma plena no meio da Sua Igreja.

6º - A oração nos dá maturidade em nossos desejos (Lc 11.2f). “Seja feita a tua vontade, assim na terra, como no céu”. Alguém disse bem que o propósito da oração não é garantir que a vontade do homem seja feita no céu, mas sim que a vontade de Deus seja feita aqui na Terra. Orar não é dizer o que desejamos e depois desfrutar disso egoisticamente. Orar é pedir que Deus nos use para realizar aquilo que Ele deseja, de modo que seu nome seja glorificado, seu reino seja expandido e fortalecido e sua vontade seja feita [13].

Quando eu oro dizendo para Deus que seja feita a Sua vontade tanto na terra quanto no céu, eu estou abrindo mão da minha vontade em detrimento da dEle. Ou seja, a minha vontade não prevalece, mas a do Pai, e esta é, pura, perfeita e agradável (Rm12.2).

E temos como exemplo o próprio Senhor Jesus que disse que veio ao mundo não para fazer a Sua vontade, mas a vontade do Pai (Jo 6.38): “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, e sim a vontade daquele que me enviou”.

Mas sozinhos não conseguimos colocar em prática o que o Senhor deseja de nós. Não podemos viver um Evangelho só de palavras, mas, acima de tudo, de ação. Por isso que no final do Sermão do Monte o Senhor Jesus disse para os seus discípulos: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mt 7.21 – ARA).

Por isso que o apóstolo Paulo em Filipenses 2.13: “Porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade”.

Como disse John Stott: “Na contracultura cristã nossa prioridade máxima não está no nosso nome, no nosso reino ou na nossa vontade, mas em Deus” [14].

3 – UM MODELO DE ORAÇÃO – APRESENTANDO OS NOSSOS PEDIDOS (Lc 11.3,4).

Uma vez que estamos firmes em nosso relacionamento com Deus e em sua vontade, é possível apresentar nossos pedidos (Lc 11.3,4). Podemos pedir-lhe que supra nossas necessidades (não nossa ganância!) no dia de hoje, que nos perdoe pelo que fizemos ontem e que nos dirija para o futuro. Esses três pedidos abrangem todas as nossas necessidades: provisão material e física, perfeição moral e espiritual e proteção e orientação. Se orarmos dessa maneira, teremos certeza de orar dentro da vontade Deus [15].

1º - Provisão material e física (Lc 11.3). “Dá-nos cada dia o nosso pão cotidiano”. Devemos pedir que Deus supra nossas necessidades diárias, e não nossa ganância insaciável [16]. Aqui “pão” indica tudo o que é necessário para o sustento da vida física [17]. Podemos dizer que a substância deste pedido, pão, abrange todos os requisitos temporais básicas da vida, como a alimentação, habitação, vestuário, cuidados de saúde, e talvez até mesmo governo que oferece paz e ordem na sociedade (cf. Rm 13.1-4).

Leon Morris destaca que o presente continuo, “continua dando” e o de dia em dia tornam claro que devemos confiar em Deus constantemente, e não pedir suprimentos por um período longo e então esquecer-nos dEle [18]. Esse alerta tem base no que está escrito em Dt 8.10-17 conf. Ap 3.17-19.

2º - Perfeição moral (Lc 11.4a). “E perdoa-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos a qualquer que nos deve”. Aqui, diferentemente de Mateus, o Senhor diz que devemos pedir perdão pelos nossos pecados, enquanto que em Mateus o Senhor ensina a pedir perdão pelas nossas dívidas.

Este pedido vai além da necessidade de coisas que sustentam a vida física para a necessidade muito mais significativa, para o que proporciona vida espiritual. O perdão dos pecados é a maior necessidade de cada pessoa (Lc 5.17-20), uma vez que os pecados perdoados nos dá a garantia de que não passaremos pelo julgamento divino e que alcançamos a vida eterna (Rm 8.1).

Leon Morris diz que o Novo Testamento deixa claro que o perdão brota da graça de Deus e não de qualquer mérito humano. Pelo contrário, o pensamento avança do menor para o maior: visto que até mesmo homens pecaminosos como nós podem perdoar, podemos aproximar-nos confiantemente de um Deus misericordioso [19].

3º - Proteção espiritual (Lc 11.4b). “E não nos conduzas à tentação, mas livra-nos do mal”. A primeira vista, este pedido parece intrigante. Esta palavra, fora do contexto da Escrituras, dá a entender que Deus às vezes faz com que um homem seja tentado, no entanto, Tiago 1.13 nos assegura que Ele nunca faz assim (Tg 1.13). Pelo contrário, Jesus está encorajando a fugir da tentação (cf. 1Co 6.18; 10.14; 1Tm 6.11; 2Tm 2.22). O cristão reconhece sua fraqueza, reconhecendo a facilidade com que cede diante das tentações do mundo, da carne e do diabo. Portanto ele ora para que seja liberto de todas elas.

Devemos reconhece com humildade que somos fracos. Reconhecer que o mundo é mal, caído e, inevitavelmente, é um ambiente hostil e perigoso. Nós enfrentamos perigos físicos, perigos mentais e intelectuais e perigos espirituais. O apóstolo Paulo nos lembra muito bem em Ef 6.1-18 que estamos em guerra. Que o mundo jaz no maligno (1Jo 5.19). Por isso devemos pedir proteção moral e espiritual, rogando ao Pai que nos livre das ciladas do diabo, do laço do passarinheiro e dos ardis da tentação do maligno [20].  

CONCLUSÃO

Vemos nesse texto que a prática da oração nos leva a ter consciência da nossa total dependência de Deus. Que a oração correta nos leva a termos também consciência dos nossos pecados e que precisamos da misericórdia de Deus para alcançarmos o Seu perdão.

Vemos que os discípulos estavam interessados em aprender a orar e não em aprender a pregar ou a operar milagres. A vida devocional de Jesus despertou nos seus discípulos esse mesmo interesse. Vimos também que a oração dada por Jesus nos mostra como devemos orar, orar de forma coerente e de acordo com a Sua vontade.

Que possamos seguir os passos de Jesus e aprendermos a orar como convém, para que em tempo oportuno sejamos ouvidos.

Pense nisso!   

Bibliografia:

1 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 278.

2 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 23.

3 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 182.

4 – Lopes, Hernandes Dias, Casimiro, Arival Dias. Aprendendo a Orar Com Quem Ora, Ed. United Press, São Paulo, SP, 2015, p. 7.

5 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 278.

6 – Ferreira, Franklin. Servos de Deus, espiritualidade e teologia na História da Igreja, Ed. FIEL, São José dos Campos, SP, 2013, p. 401.  

7 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 183.

8 – Hanegraaff, Hank. A Oração de Jesus. Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2002; p. 42.

9 – Sttot, John. A Mensagem do Sermão do Monte. Editora ABU, São Paulo, SP, 1986: p. 149.

10 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 183.

11 – Keller, W. Phillip. Orando Diariamente o Pai-Nosso. Editora Vida, São Paulo, SP; p. 67.

12 – Lloyd-Jones, D. Martyn. Estudos no Sermão do Monte. Editora Fiel, São Paulo, SP, 1984: p. 345.

13 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 279.

14 – Sttot, John. A Mensagem do Sermão do Monte. Editora ABU, São Paulo, SP, 1986: p. 152.

15 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 279.

16 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 355.

17 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 111.

18 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 183.

19 – Ibidem, p. 184.

20 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 355.