segunda-feira, 14 de março de 2022

O QUE FAZER PARA HERDAR A VIDA ETERNA? - Lucas 10.25-28


Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 10.25-28

INTRODUÇÃO

De todas as perguntas que poderiam ser feitas, nenhuma é mais importante do esta que foi feita por este doutor da lei: “Que farei para herdar a vida eterna?”. Essa pergunta revela uma inquietação que está enraizada no coração do ser humano, a realidade de que cada alma humana é imortal. Mas a questão não é se as pessoas vão viver para sempre, mas onde elas vão viver para sempre, se no céu ou no inferno.

O que nos chama a atenção nessa passagem é que esta pergunta não foi feita por uma pessoa comum da comunidade, mas foi feita por um doutor da lei, por um membro renomado da sociedade judaica. Ele era um membro de uma instituição religiosa com pessoas altamente educadas, proeminentes, poderosas e influentes; embora fossem duramente hostis a Jesus e aos seus ensinamentos.  

Este escriba, não identificado, teve um raro privilégio de perguntar a respeito da vida eterna para Aquele que é Ele mesmo a vida eterna (1Jo 5.20), no entanto, este homem é um trágico exemplo da oportunidade perdida, o escriba, apesar de fazer a pergunta certa a pessoa certa e receber a resposta certa, ele virou-se para enfrentar a morte eterna.

Por que este escriba perdeu a oportunidade de receber a vida eterna? Para respondermos a esta pergunta devemos analisar estes primeiros versículos.

1 – A PRIMEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE NÃO BASTA FEZER A PERGUNTA CERTA COM A MOTIVAÇÃO ERRADA (Lc 10.25).

Muitas vezes Jesus foi questionado a respeito da salvação, como lemos a respeito do jovem rico em Mt 19.16ss; Mc 10.17ss; Lc 18.18-23. Por isso o diálogo com este escriba toma um curso completamente diferente, apesar do conteúdo idêntico da pergunta.

Podemos destacar três atitudes desse escriba diante de Jesus:

1º - Este escriba se aproxima de Jesus com má intenção (Lc 10.25a). Aparentemente este homem se aproxima de Jesus de forma cordial. Observe que o texto diz que “ele levantou-se”. No Oriente Médio o aluno sempre se levanta para dirigir-se ao professor, por cortesia. Aqui o doutor da lei não apenas se levanta, para dirigir-se a Jesus, mas também o chama de “Mestre”, que é a palavra que Lucas usa para “rabi” [1]. As Escrituras fazem questão de destacar a falta de sinceridade deste homem. Não era a pergunta sincera de uma pessoa que estivesse disposta a aprender; era uma prova – um desafio ou uma pegadinha –, ou uma tentativa de confundi-lo [Jesus] com um dilema moral ou um paradoxo para o qual não existia uma resposta clara, como acreditava o especialista [2].

Como disse A. T. Robertson: “O espírito deste doutor da lei era mau. Ele queria armar uma cilada para Jesus, se fosse possível” [3]. A sua aproximação parecia ser de uma pessoa bem intencionada, mas o seu coração não era de uma pessoa assim. Ele tinha um coração maligno. Assim como Satanás se aproximou de Jesus para tenta-lo no deserto, da mesma forma este homem se aproximou de Jesus. O texto é claro em dizer que ele se aproximou de Jesus para “tenta-lo”.

O mesmo acontece hoje. Muitas pessoas se aproximam da igreja ou de pessoas cristãs para “tentar” com perguntas capciosas, com más intenções, com o desejo de nos pegar em alguma falha, seja em palavra ou no nosso comportamento.

É igual a história de um menino que queria pregar uma peça em um sábio. Ele colocou um pássaro escondido entre as mãos e colocou as mãos para atrás, e perguntou ao sábio: “o pássaro que está nas minhas mãos está vivo ou morto?”. Se o sábio dissesse que estava vivo o menino o mataria, se dissesse que estava morto ele o soltaria. Diante desse dilema o sábio então respondeu: “o pássaro que está em suas mãos o destino dele está em suas mãos”.

Existem muitas pessoas assim que passam pelas nossas vidas, por isso devemos pedir a Deus sabedoria para aprendermos a lidar com essas pessoas e com as situações que elas tentam nos colocar. Façamos o que nos diz Tiago 1.5: “E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada”.   

2º - Este escriba fez a pergunta certa, embora tendo uma motivação errada (Lc 10.25b). A má intenção desse homem nos é descrita no texto. Ele queria “tentar” Jesus. Sua pergunta não era honesta. O homem não queria aprender, mas embaraçar. Queria colocar Jesus numa enrascada para depois se sentir superior [4]. Como já falamos, mas a despeito da motivação vil do especialista, a primeira pergunta que ele fez é uma pergunta boa. Na verdade, é a melhor pergunta já feita ou respondida, e era uma pergunta que mantinha ocupada a mente daqueles que se aproximavam de Jesus para aprender dele [5].  

J. C. Ryle diz que infelizmente, esta é uma pergunta com a qual poucos se importam. Milhares estão constantemente perguntando a si mesmos: “O que comeremos? Com que nos vestiremos? Como podemos satisfazer a nós mesmos? Como podemos prosperar neste mundo?”. Poucos, muito poucos, tomarão algum tempo para meditar a respeito da salvação de suas almas. Os homens odeiam este assunto, visto que os deixam intranquilos. Fogem do assunto e o descartam. Fiéis e verdadeiras são as palavras do Senhor: “Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela” (Mt 7.13) [6].

3º - Este escriba tinha uma teologia distorcida (Lc 10.25c). Pode parecer estranho que um membro de uma instituição religiosa fizesse essa pergunta. Afinal, o povo judeu estava convencido de que, como filhos de Abraão (Mt 3.9; Jo 8.39), a quem pertence “a adoção de filhos, e a glória, e as alianças, e a lei, e o culto, e as promessas; dos quais são os pais” (Rm. 9.4-5a), seria garantida a entrada no reino eterno de Deus. Mas sua herança judaica não iria salvar aqueles cuja religião era rasa, superficial, hipócrita e externa (Lc 3.8; Rm 2.28,29). Este escriba, no entanto, não estava preocupado com sua salvação, pois, para ele, ser judeu era o suficiente para herdar a vida eterna. Na mente desse doutor, a vida eterna era uma conquista das obras, e não uma oferta da graça. Para ele, a salvação era uma questão de merecimento humano, e não uma dádiva divina [7].

Hoje muitas pessoas pensam que herdarão a vida eterna pelos seus méritos, por estarem ou fazerem parte de uma instituição religiosa. Outros acham que basta ser uma boa pessoa que já é o suficiente para herdá-la. Como se a salvação partisse de nossas atitudes e não da graça de Deus.

A questão sobre herdar a vida eterna começou a aparecer, principalmente durante o ministério de Jesus e posteriormente com os apóstolos, por causa das dúvidas e medos causados por uma consciência incômoda e um coração descontente ((Mt 25.46; Mc 10. 29,30, Jo 4.36, 5.24,39; 6.27,40,47,54,68; 10.28; 12.25,50; 17.2,3; cf. At 13.48; Rm 2.7; 5.21; 1Tm 1.16; Tt 1.2; 1Jo 1.2; 2.25; 3.15; 5.11,13,20; Jd 21). Assim como Nicodemos que procurou Jesus à noite (Jo 3), muitos sabiam que eles não eram justos diante de Deus; que o seu verniz de atividades religiosas serviram apenas como cal, cobrindo um túmulo “que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia” (Mt 23.27).

Esse incômodo em relação a vida eterna só ocorre em corações sinceros diante de Deus. Veja por exemplo a mulher samaritana em João 4. Esta mulher apesar de ter uma má reputação tinha sede de saber onde era o verdadeiro lugar para se adorar a Deus. Ela tinha sede de Deus, e devido a isso, o Senhor, por misericórdia, se revelou a ela como o Messias prometido. O Senhor não quer de nós perfeição, mas Ele quer de cada um honestidade. A mulher samaritana foi honesta na resposta a respeito de sua vida conjugal, o doutor da lei foi desonesto na sua pergunta.

2 – A SEGUNDA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE JESUS REVERTE A ARMADILHA (Lc 10.26-28).

Já que este escriba era um intérprete da lei ele deveria saber interpretá-la de forma correta. Por isso a pergunta de Jesus: “Que está escrito na lei? Como lês?” (Lc 10.26). A pergunta de Jesus era uma forma de desarmar o escriba da sua arrogância, ou seja, o escriba cai na sua própria armadilha. E isso ocorreu de duas maneiras:

1º - O escriba dá uma resposta comprometedora (Lc 10.27). Jesus estava se referindo ao Keri’at Shema, a leitura diária em voz alta de Deuteronômio 6,4,5: “Ouça, ó Israel: O SENHOR, o nosso Deus, é o único Senhor. Ame o SENHOR, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todas as suas forças”. Ao responder, o perito na lei citou a primeira metade da mesma passagem, acrescentando a segunda metade de Levítico 19.18: “Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todas as suas forças e de todo o seu entendimento” e “Ame o seu próximo como a si mesmo” (Lc 10.27). Era um resumo perfeito das exigências morais da lei [8]. 

Quando lemos Mt 22.37-40 observamos que esta foi exatamente a mesma resposta que Jesus havia dado em outra ocasião quando outro perito na lei lhe perguntou: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?” (Mt 22.36). E Jesus respondeu: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas”.

O escriba sabia interpretar a lei, mas não a sua aplicabilidade – A combinação das duas passagens da lei como síntese de toda a lei era nova em sua característica, ou pelo menos não era familiar. Não há nenhum relato acerca de como o mestre da lei encontrou essa resposta. De qualquer maneira, sua resposta evidencia que ele havia compreendido o cerne da lei. Na passagem do AT (Dt 6.5) fala-se de três órgãos fundamentais do ser humano: o coração, a alma e a força. Lucas acrescenta, conforme a Septuaginta, ainda “com todo o seu entendimento”. O coração, foco central da vida humana, precisa ser integralmente rendido a Deus. A alma, o eu, deve colocar-se de tal maneira a serviço de Deus que todos os impulsos sejam regidos pelo Espírito de Deus. A força ou a vontade deve estar às ordens de Deus. Por fim, Deus precisa poder dispor inteiramente do entendimento ou do pensamento, da capacidade intelectual. Assim essa composição de quatro elementos expressa a entrega total a Deus. O segundo dos maiores mandamentos na lei, a saber, o amor ao semelhante, somente pode ser cumprido em conexão com o amor a Deus. Somente a pessoa dominada pelo amor a Deus está em condições de, livre do egoísmo, valorizar o eu do próximo tanto quanto seu próprio eu [9].

Existem muitas pessoas que citam a Bíblia como poucos, mas vivem longe de praticar o que conhecem. Assim como esse escriba que era versado na lei, mas que tinha dificuldade de praticá-la conforme ele mesmo citava. Aliás, é bom destacar que viver da forma correta como está sendo explanado aqui só é possível mediante a graça regeneradora de Deus em nossas vidas.

2º - Jesus lança o escriba em sua própria armadilha (Lc 10.28). Quando disse para o escriba que ele havia respondido bem, que ele deveria fazer isso e alcançaria a vida eterna, Jesus não está ensinando que a salvação é mediante as obras da lei. Jesus está dizendo que se alguém praticar o que o escriba havia falado, tal pessoa certamente era perfeita. Só Jesus cumpriu os ditames da lei de forma plena, mas ninguém. Nós não conseguimos porque somos pecadores. Por isso que a salvação é mediante a graça e não por obras, como lemos em Efésios 2.8,9: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie”.

Mas as Escrituras nos deixam claro que é impossível alguém ser salvo por guardar a lei, como está escrito: “Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado” (Rm 3:20), e “porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las” (Gl 3.10 cf. Dt 27.26). Como resultado: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.23), De modo que “Não há um justo, nem um sequer” (Rm 3.10 Cf. 5.12; Gl 3.22).

Champlin diz que a contribuição do “legalismo” consistiu em dizer-nos claramente que “DEVEMOS fazer algo”. Pois a fé religiosa precisa transformar-se e manifestar-se na vida prática. O vício do legalismo consiste em incluir o “mérito humano” no quadro, diminuindo a operação do Espírito. A virtude da graça consiste em mostrar que o homem nada é e nem pode ser nada sem a operação do Espírito. A corrupção da graça, pela – crença fácil – mediante o que os homens se olvidam que precisam do poder transformador do Espírito, oculta o fato de que assim não haverá verdadeira aplicação da graça à vida do indivíduo [10].

Por isso que Jesus diz para este escriba que ele havia respondido bem; faça isso e você alcançará a vida eterna. Mas a grande questão é exatamente esta, quem poderá fazer isso? Somos salvos mediante a graça e não por obras meritórias. Muito menos por guardar a lei.

Essa armadilha que o escriba tentou armar para Jesus foi a armadilha que ele mesmo caiu. Isso lembra da forca que Hamã fez para enforcar Mardoqueu foi a forca que o próprio Hamã foi morto (Et 7.8,9).

CONCLUSÃO

Esses quatro primeiros versículos desse diálogo era só o começo da parábola do Bom Samaritano. Este homem ainda estava longe de entender o que Jesus havia lhe falado. Se ele fosse uma pessoa humilde e tivesse feito a pergunta sincera sobre como herdar a vida eterna, a resposta de Jesus teria sido suficiente para ele. E, provavelmente, o escriba saberia que é impossível ao homem herdar a vida eterna pela prática da lei.

Esse escriba é o retrato de muitas pessoas hoje em nossa sociedade. Quantas pessoas pensam que herdarão a salvação por seus próprios méritos, por serem pessoas de boa reputação ou por fazer parte de uma instituição religiosa. Mas a Bíblia é clara em afirmar que o único caminho que leva o homem a Deus é mediante o sacrifício de Jesus na cruz. Não há outra forma de chegarmos ao céu por atalhos criados pelos homens. Se quisermos herdar a vida eterna só mediante a adoção de Deus pai mediante o Seu Filho Jesus (Ef 1.5).

Pense nisso!   

Bibliografia:

1 – Bailey, Kenneth E. As Parábolas de Lucas, Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1985, p. 77.

2 – MacArthur, John. As Parábolas de Jesus, Ed. Thomas Nelson, Rio de Janeira, RJ, 2018, p. 108.

3 – Robertson, A. T. Comentário de Lucas, à luz do Novo Testamento grego, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2013, p. 204.

4 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 338.

5 – MacArthur, John. As Parábolas de Jesus, Ed. Thomas Nelson, Rio de Janeira, RJ, 2018, p. 108.

6 – Ryle, J. C. Meditação no Evangelho de Lucas, Ed. Fiel, São José dos Campos, SP, 2002, p.177.

7 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 339.

8 – MacArthur, John. As Parábolas de Jesus, Ed. Thomas Nelson, Rio de Janeira, RJ, 2018, p. 109.

9 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005, p. 157.

10 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, Lucas, vol. 2, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2005, p. 108. 

sábado, 5 de março de 2022

O RETORNO DOS SETENTA DISCÍPULOS – A TRÍPLICE ALEGRIA MANIFESTA - Lucas 10.17-24

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 10.17-24

INTRODUÇÃO

No devido tempo, os setenta voltaram. Lucas não informa quanto tempo ficaram fora, nem onde foram para prestar contas, mas no devido tempo juntaram-se a Jesus outra vez [1]. Eles relatam com alegria o sucesso de sua atuação (Lc 10.17-19). No entanto, o Senhor lhes mostra que a alegria que lhes invadia o coração não se comparava a alegria da salvação (Lc 10.20). Posteriormente eles ouvem do Senhor Jesus a respeito de um sentimento de alegria acerca do desenvolvimento de sua obra (Lc 10.21-24). Rienecker diz que a alegria dos discípulos e a alegria do Senhor constituem a ideia-mestra de todo o relato [2]. Nessa mesma linha de pensamento Wiersbe destaca uma tríplice alegria: a alegria do serviço (Lc 10.17-19), a alegria da salvação (Lc 10.20) e a alegria da soberania (Lc 10.21-24) [3]. 

Sobre esta tríplice alegria que eu quero pensar com você e quais as lições que podemos tiara delas.

1 – A PRIMEIRA LIÇÃO É A ALEGRIA DO SERVIÇO (Lc 10.17-19).  

Os discípulos retornam com alegria devido ao resultado alcançado. Eles viram que havia autoridade no nome de Jesus e que, pelo Seu nome, até os demônios lhes eram sujeitos. Diante das palavras dos discípulos o Senhor destaca que viu Satanás cair do céu como um raio e completa dizendo que Ele lhes havia dado autoridade sobre os poderes das trevas.

Diante desse relato podemos destacar três coisas:

1º - Em primeiro lugar, devemos entender a autoridade que há o nome de Jesus (Lc 10.17,19). Observe que os discípulos destacam que os demônios lhes eram sujeitos pela autoridade do nome de Jesus. Eles não expulsavam demônios em seu próprio nome, nem em nome de outra pessoa.

Há autoridade no nome de Jesus, e mediante esse nome o inferno estremece. O apóstolo Paulo escrevendo aos Filipenses diz: “Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai” (Fl 2.9-11). Em 1 João 3.8b lemos: “Para isto o Filho de Deus se manifestou: para desfazer as obras do diabo”. Em Atos 10.38 nos diz: “Como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com virtude; o qual andou fazendo bem, e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele”.  

Ao fazermos a obra de Deus devemos entender que todo sucesso depende da autoridade do nome precioso de Jesus. A glória é dele e para ele somente.

● Observemos com cautela o versículo 19 que diz: “Eis que vos dou poder para pisar serpentes e escorpiões, e toda a força do inimigo, e nada vos fará dano algum”. Muitas pessoas entendem este versículo de forma literal, mas há um perigo em analisa-lo assim.

Champlin nos chama a atenção dizendo que neste versículo encontramos um eco de Sl 91.13: “Pisarás o leão e a cobra; calcarás aos pés o filho do leão e a serpente”. Temos uma virtual duplicação do trecho de Mc 16.18: “Pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum” [4]. O Senhor deu permanentemente aos crentes autoridade ou poder, sobre Satanás e os demônios, representado metaforicamente aqui como serpentes (Ap 12.9; 20.2) e escorpiões (Ap 9.3,5,10). Podemos afirmar que serpentes e escorpiões são poderes demoníacos; são símbolos de agentes destruidores sobrenaturais, que podem perseguir as vidas dos discípulos do reino.

Só há um caso registrado no Novo Testamento em que vemos um cumprimento literal dessa promessa, fato que ocorreu na vida de Paulo que escapou dos efeitos fatais de veneno de uma víbora que lhe mordeu a mão, segundo está registrado acerca de sua chegada à ilha de Malta (Atos 28.3). Entretanto, a comparação com Sl 91.13 leva-nos a crer que o significado principal dessas palavras é simbólico, isto é, as serpentes e os escorpiões são símbolos de poderes espirituais malignos. O significado principal é que os cristãos têm poder para pisar triunfantemente sobre os exércitos de Satanás, através do auxílio e da graça de Jesus Cristo [5].

A razão para pensarmos assim se encontra na última porção do versículo que nos diz: “e nada vos fará dano algum”, que nos dá a ideia de que eles seriam preservados da morte e de qualquer implicação do mal. No entanto, quando lemos Atos dos apóstolos e, principalmente, as cartas Paulinas, nós observamos que os servos do Senhor foram perseguidos e mortos. Observe o que o apóstolo Paulo nos fala em Rm 8.35-39. A História da Igreja nos relata o quanto nossos irmãos do primeiro século foram perseguidos e mortos. Leia a história da Igreja e veremos que isso ocorreu no decorrer dos anos e perdura até os dias de hoje.

Nós não precisamos temer Satanás e os demônios, uma vez que “o Deus de paz esmagará em breve Satanás debaixo dos vossos pés” (Rm 16.20), “Mas fiel é o Senhor, que vos confirmará, e guardará do maligno” (2Ts 3.3.), e “porque maior é o que está em vós do que o que está no mundo” (1Jo 4.4). No entanto, pensar que somos imunes as adversidades e intocáveis aos ataques de Satanás seria muita imaturidade espiritual de nossa parte. 

2º - Em segundo lugar, devemos entender que estamos lutando com forças poderosas. Todos os anjos foram originalmente criados santos, mas Satanás, se corrompeu pelo seu orgulho e o desejo de ser igual a Deus. Na sua sagacidade seduziu um terço dos anjos (Ap 12.4), Satanás liderou uma rebelião mal sucedida contra Deus. A Bíblia o descreve como o príncipe deste mundo (Jo 12.31), o príncipe do poder do ar (Ef 2.2), o deus deste mundo (2Co 4.4), assassino e o pai da mentira (Jo 8.44), enganador (Ap 12. 9), acusador dos crentes (Ap 12.10), e maligno (1Jo 5.19). Os demônios, os anjos que seguiram Satanás são irrecuperáveis e um dia serão lançados no lago de fogo (Mt 25.41), juntamente com o seu líder (Ap 20.10). Como Satanás, eles são os inimigos de Deus, de Cristo, do Espírito Santo, e do povo de Deus. Eles enganam os incrédulos (1 Tm 4.1; 2Co 4.4), e utilizam falsos mestres para difundir doutrinas demoníacas que torce e perverte as Escrituras.

Por isso não podemos subestimar esse terrível adversário, muito pelo contrário, devemos nos sujeitar a Deus, resistir ao diabo para que ele se aparte de nós (Tg 4.7). Só em Deus venceremos Satanás. Mas também não devemos superestimá-lo como fazem alguns, pois ele já foi vencido na cruz do Calvário. Como nos fala Paulo em Cl 2.15: “E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo”.

3º - Em terceiro lugar, devemos destacar duas advertências (Lc 10.18,19). O versículo 18 nos diz que o Senhor via Satanás, como um raio, cair do céu. Isso revela a sua queda iminente. Jesus quis dizer que enquanto eles estavam expulsando os demônios, Jesus estava vendo Satanás cair de seu domínio sobre a vida dos salvos, pelo poder do Evangelho. A atividade dos demônios atingiu o seu apogeu durante o ministério de Cristo na terra, não foram poucos os confrontos do Senhor com os demônios e com o próprio diabo.

Diante disso devemos observar duas advertências:

Primeiro – foi o orgulho que derrubou Satanás do céu (Lc 10.18; Is 14-12-15; Ez 28.13-17). A Bíblia nos fala que este querubim ungido que Deus criou, após pecar contra Deus passou a ser chamado de Satanás (adversário), diabo (caluniador, acusador), serpente, dragão. Este, foi criado perfeito, no entanto o orgulho o derrubou do céu.

Segundo – Jesus adverte do perigo da soberba diante do sucesso (Lc 10.18). Nossas alegrias mais profundas podem abrir uma fenda para a entrada do orgulho. E não há orgulho mais sutil e perigoso do que o orgulho espiritual [6]. Como nos fala Provérbios 16.18: “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda”.

J. C. Ryle nos alerta para que jamais nos esqueçamos que o tempo de sucesso é uma ocasião de perigo para a alma do crente. Os corações que se acham deprimidos, quando todas as coisas parecem estar contra eles, com frequência, sentem-se indevidamente exaltados no dia da prosperidade. Poucos assemelham-se a Sansão, que matou um leão, sem contar aos outros (Jz 14.6) [7].

2 – A SEGUNDA LIÇÃO É A ALEGRIA DA SALVAÇÃO (Lc 10.20).

Muitas vezes as nossas alegrias não passam de alegrias passageiras e nos esquecemos da verdadeira alegria, a alegria da salvação eterna. Os discípulos não estavam errados em se alegrar com os resultados positivos que tiveram, mas a verdadeira alegria estava sendo esquecida por eles. Eles voltaram da empreitada vitoriosos, mas o Senhor lhes havia falado que eles sofreriam perseguições e teriam muitas aflições. Aquela alegria era passageira em comparação com a alegria da vida eterna.   

Com isso em mente, podemos destacar duas coisas aqui:

1º - Sinais e prodígios não testificam que alguém seja salvo (Mt 7.21-23). Quem vai entrar no reino dos céus não são aqueles que fazem profissões de fé ortodoxas e emocionantes, nem aqueles que fazem obras milagrosas, mas os que obedecem à vontade do Pai. Não é possível substituir obediência por performance [8].

2º - A nossa real alegria é termos nossos nomes escrito no Livro da Vida. As vitórias conquistadas até então sobre Satanás e a promessa do Senhor de que farão façanhas ainda maiores são inúteis se não tiverem como fundamento a salvação pessoal. Incomparavelmente mais preciosa do que possuir todas as dádivas da graça é a própria graça de Deus, transmitida a todos os verdadeiros discípulos do Senhor pelo fato de que seus “nomes estão inscritos no livro da vida” [9].

Por mais maravilhosos que fossem os milagres que haviam realizado, o maior milagre de todos ainda é a salvação de uma alma perdida. O termo grego traduzido por “escritos” ou “arrolados” quer dizer “registrar formal e solenemente”. Esse termo era usado para a assinatura de um testamento, de uma certidão de casamento ou de um tratado de paz e também para o registro de um cidadão; o tempo perfeito no original indica que “permanece arrolado” [10]. É uma salvação que não se perde, pois quem a prometeu irá cumprir o que disse.  

3 – A TERCEIRA LIÇÃO É A ALEGRIA DA SOBERANIA (Lc 10.21-24).

Quando consideramos a Pessoa de Deus e Seus atributos, a maioria de nós pensa em características como a santidade, soberania, onisciência, onipresença, imutabilidade, justiça, ira, amor, graça, misericórdia. Raramente considerado, no entanto, a alegria de Deus. Os atributos de Deus garantem não só a sua alegria eterna, mas também a de todos os habitantes do céu. Como está escrito: “E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas” (Ap 21.4). A realidade dominante do céu é alegria para todo o sempre, é por isso que o Senhor disse que aqueles que entram no céu “entra no gozo do teu Senhor” (Mt 25.21).

Três realidades naquele exato momento do retorno dos setenta que levaram Jesus a se exultar em seu espírito, a vontade soberana do Pai, o poder supremo do Filho, e privilégio dos santos. Vejamos cada um deles:

1º - A vontade soberana do Pai (Lc 10.21). Esta é a primeira vez que lemos nos Evangelhos que Jesus exulta de alegria. Sua alegria reside não em seus extraordinários milagres, mas na soberania de Deus na salvação [11]. Por três vezes os evangelistas nos informam que Jesus chorou, apenas uma vez que Ele se regozijou.

Apesar da oposição e rejeição que Jesus que vinha enfrentando, sua missão não foi um fracasso; ela estava se desenrolando exatamente do jeito que o Pai planejou. O Senhor encontrou alegria na realidade de que Seu Pai, que rege o universo, faz exatamente de acordo com seus propósitos e planos e isto estava lhe trazendo uma santa alegria.

A realidade central porque Jesus elogiou Seu Pai que escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e ... revelaste às criancinhas, é que Pai tinha soberanamente determinado a quem as verdades deveriam ser reveladas, e de quem elas deveriam ser escondidas. Operado dentro dessa determinação o Pai revelou aos eleitos, pois de outra forma, essas verdades não são discerníveis através da sabedoria humana ou inteligência. Por isso Paulo escrevendo aos Coríntios disse: “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1Co 2.14, conf. 1Co 1.18-2.1-5).

J. C. Ryle diz que não podemos extrair dessas palavras uma lição errada, inferindo que algumas pessoas são naturalmente mais dignas da graça e salvação divinas que outras. Todos são pecadores e não merecem nada, exceto a ira de condenação. A sabedoria do mundo frequentemente torna as pessoas orgulhosas e aumenta sua inimizade natural contra o Evangelho de Cristo. O homem que não se orgulha de seu conhecimento e de sua suposta moralidade, geralmente, é aquele que encontra menos dificuldades para chegar ao conhecimento da verdade. Os publicanos e pecadores, frequentemente, são os primeiros a entrar no reino de Deus, enquanto os escribas e fariseus ficam do lado de fora [12].  

2º - O poder supremo do Filho (Lc 10.22). Jesus eleva a sua voz aos céus e faz uma oração. Não foram palavras dirigidas aos discípulos, mas ao Pai. Jesus se alegrou não só no plano soberano de Deus, mas também em seu papel nesse plano. Na harmonia perfeita da Trindade, todas as coisas – cada circunstância no universo, quer no céu, terra, ou para o inferno, envolvendo anjos, homens, ou demônios, têm sido entregue a Jesus por Seu Pai (Mt 28.18; Jo 3.35; 13.3; 17.2). De acordo com o projeto soberano do Pai, ninguém sabe quem é o Filho senão o Pai e ninguém sabe quem é o Pai, se não o Filho. E somente aqueles a quem o Filho o quiser revelar pode vir a conhecer o Pai.

Fica claro na Bíblia que Deus predeterminou antes da fundação do mundo, aqueles que seriam salvos e para quem Ele se revelaria. Jesus disse em João 6.44: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer”, e depois repetiu: “Por isso eu vos disse que ninguém pode vir a mim, se por meu Pai não lhe for concedido” (Jo 6.65). Antecipando-se à objeção com base em um sentido humano da justiça corrompida pela queda, Paulo escreve: “Que diremos pois? que há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma. Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece. Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra. Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer” (Ro 9.14-18).

 3º - O privilégio dos santos (Lc 10.23,24). Depois da Sua oração, Jesus tinha uma palavra para Seus discípulos. Falou-lhes particularmente, que dá a entender que as palavras anteriores foram pronunciadas dentro do alcance dos ouvidos de mais pessoas que os discípulos [13].

Essa bendita alegria não era apenas para aqueles a quem Jesus se dirigiu naquele dia, mas para todos os que creem nEle. As coisas que eles tiveram o privilégio de ver e entender incluem as grandes verdades de que o Messias havia chegado, a salvação de Deus havia sido revelada, a obra da redenção realizada, o reino prometido oferecidos a todos os profecias do Antigo Testamento, estava se cumprido em Cristo, que faria a oferta final pelo pecado. Satanás havia encontrado seu conquistador, demônios foram completamente dominados, doenças vencidas, natureza submissa, a morte derrotada por Cristo, e perdão e vida eterna concedida a todos os que creem.

Mesmo o mais proeminente dos santos do Antigo Testamento não foram abençoados com o conhecimento dado aos crentes sob a nova aliança, como nos fala Pedro em sua primeira carta: “Da qual salvação inquiriram e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada, indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir. Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar” (1Pe 1.10-12).

CONCLUSÃO

A tríplice alegria apresentada aqui nos revela que a salvação que um dia nos foi prometida é uma realidade, que o nosso Salvador deu autoridade à Sua Igreja e uma mensagem de fé e renovo. Uma mensagem que nos traz a alegria de que viveremos para sempre em gozo eterno na presença do nosso Deus.

A derrota de Satanás, das doenças e de outros males no tempo do ministério de Jesus e dos apóstolos é uma prova de que tudo isso um dia irá acabar para todo o sempre. Por isso, vivamos firmes na fé, crendo que o nosso Redentor reina e que o mal está prestes a terminar. Mas tenhamos em mente isto: “O céu não é aqui, mas podemos desfrutar da alegria eterna desde já!”.

Bibliografia

1 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 174.

2 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 154.

3 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 273.

4 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, Lucas, vol. 2, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2005, p. 106.

5 – Childers Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 411.

6 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 333.

7 – Ryle, J. C. Meditação no Evangelho de Lucas, Ed. Fiel, São José dos Campos, SP, 2002, p.171.

8 – Lopes, Hernandes Dias. Mateus, Jesus, o Rei dos reis, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2019, p. 243.

9 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 154.

10 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 274.

11 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 334.

12 – Ryle, J. C. Meditação no Evangelho de Lucas, Ed. Fiel, São José dos Campos, SP, 2002, p.175.

13 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 176. 

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

A MISSÃO DOS SETENTA DISCÍPULOS - Lucas 10.1-16

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 10.1-16

INTRODUÇÃO

Esse texto do envio dos setenta discípulos é exclusivo do Evangelho de Lucas, ele é um paralelo do envio dos doze apóstolos em ocasião anterior (Mt 10.1,5-15; Mc 6.7-13; Lc 9.1-6). O envio dos setenta mostra que a pregação do evangelho e toda a atuação em nome de Jesus não deveriam ser uma prerrogativa exclusiva dos doze apóstolos. O envio dos setenta nesse ponto decisivo da vida de Jesus era uma última visitação de graça. A inimizade contra o Senhor deveria ser superada com o evangelho. Seu ministério era considerado como trabalho preparatório e abertura de caminhos para a última peregrinação do Senhor [1].  

Observe que esse texto vem logo após o Senhor pôr à prova aqueles homens que queriam segui-lo por motivações erradas (Lc 9.57-62). O simples fato de que Jesus tinha estes muitos discípulos dignos de confiança é significativo. Muitas vezes nos esquecemos de que Ele tinha muitos seguidores leais [2]. Isso nos traz uma grande lição de pararmos de fixar nossos olhos nos que andam de forma contrária ao Evangelho de Cristo e entendermos que existe um número enorme de pessoas leias ao Senhor. Pessoas essas que na sua maioria são anônimas, como é o caso desses setenta discípulos que se quer são citados seus nomes.      

Ainda a nível de introdução é interessante destacarmos que o número setenta era um número simbólico para os judeus. Era o número de anciãos escolhidos para ajudar a Moisés na tarefa de guiar e dirigir o seu povo no deserto (Núm. 11.16,17,24,25). Era o número de membros do Sinédrio, o conselho supremo dos judeus e cria-se naquela época que era o número de países no mundo (Gn 10).

Mas quais as lições que podemos tirar desse texto para nós hoje?

1 – A PRIMEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É A TOTAL DEPENDÊNCIA DO SENHOR PARA REALIZARMOS A SUA OBRA (Lc 10.1-4).

A obra a ser realizada não era dos setenta discípulos, a obra era do Senhor. [Estes] homens não são chamados de “apóstolos”, mas ainda assim são “enviados (apostello) com a comissão” de representar Jesus. Portanto, são verdadeiramente embaixadores do Rei. Não apenas foram enviados por ele, mas também adiante dele, a fim de preparar o caminho para sua chegada. Sem dúvida, um chamado extremamente honrado [3].

Esses quatro primeiros versículos destacam seis lições importantes:

1º – A obra não é nossa, a obra é de Deus (Lc 10.1). Quem designou os setenta foi o Senhor, não partiu deles essa ideia, pois a obra é de Deus, ela não é nossa. Esses discípulos foram designados pelo Senhor porque estavam andando com Jesus e estavam prontos a fazer a Sua obra. Isso mostra que não era somente os Doze que andavam com Jesus e tinham comunhão com Ele. Haviam muitas outras pessoas compromissadas com o Reino e prontas a realizar a Sua vontade.

2º – Devemos ir aonde o Senhor nos enviar (Lc 10.1). Se temos consciência de que a obra é de Deus, devemos também ter consciência de que é o Senhor que nos direciona aonde devemos realizar a Sua obra. Observe que o texto diz que eles deveriam ir “a todas as cidades e lugares aonde havia de ir”.

Não devemos fazer a obra de Cristo segundo a nossa vontade, mas segundo a vontade dele. É ele quem nos guia aonde devemos ministrar Sua palavra. Temos como exemplo o apóstolo Paulo em Atos 16.6-10: “E, passando pela Frígia e pela província da Galácia, foram impedidos pelo Espírito Santo de anunciar a palavra na Ásia. E, quando chegaram a Mísia, intentavam ir para Bitínia, mas o Espírito não lho permitiu. E, tendo passado por Mísia, desceram a Trôade. E Paulo teve de noite uma visão, em que se apresentou um homem da Macedônia, e lhe rogou, dizendo: Passa à Macedônia, e ajuda-nos. E, logo depois desta visão, procuramos partir para a Macedônia, concluindo que o Senhor nos chamava para lhes anunciarmos o evangelho”.

3º – Não devemos fazer a obra sozinhos (Lc 10.1). Depois de escolher estes setenta homens, Jesus mandou-os em pares adiante dele para cada cidade e lugar na Judéia, aonde ele mesmo iria passar. Jesus lhes ordenou que viajassem em pares, como Ele já havia feito com os Doze (Mc 6.7). Primeiro, o Senhor, em Sua sabedoria sabia que eles seriam capazes de apoiar e encorajar uns aos outros, um princípio que Salomão declarou em Eclesiastes 4.9-12. Segundo, e mais importante, a lei do Velho Testamento exigia que “pela boca de duas testemunhas, ou pela boca de três testemunhas, se estabelecerá o fato” (Dt 19.15). Assim, o testemunho que esses homens deram a respeito de Jesus nas cidades e aldeias estão em conformidade com os requisitos da lei.

4º – Devemos fazer a obra em oração (Lc 10.2). “A oração é um dos mais poderosos instrumentos para levar avante a causa de Cristo no mundo”, diz Ryle. E ele continua, “nem todos os crentes possuem dinheiro em suficiência para contribuir com a obra missionária. Poucos têm grandes dotes intelectuais ou ampla influência entre os homens. Mas todos os crentes podem orar em favor do progresso do evangelho e devem fazê-lo diariamente” [4]. A oração em vista aqui é que Deus levante pessoas para evangelizar os perdidos; que o Senhor da seara envie trabalhadores para a sua seara para resgatar as pessoas do julgamento vindouro.

5º – Devemos ter consciência da falta de obreiros na seara de Cristo (Lc 10.2). Jesus deixa claro que a obra sempre é maior do que a capacidade dos obreiros. Devemos, portanto, clamar ao Senhor da seara, para mandar obreiros para a sua seara. Há uma colheita a ser feita. Os campos estão maduros, e precisamos de mais obreiros para fazer essa obra importante e urgente [5].  Rienecker lembra que no reino de Deus há grande carência de obreiros que trabalhem corretamente (1Co 3.9; 1Tm 5.17; 2Tm 2.15; cf. Fp 2.20-23). Na realidade não faltam mercenários [6].

6º – Devemos ter noção do perigo que nos espera (Lc 10.3). O chamado de Jesus não é para os covardes. E impossível ser um seguidor daquele que foi crucificado sem enfrentar a hostilidade do mundo e a fúria de Satanás. A seara é grande, os trabalhadores são poucos, e o ambiente é hostil. Os obreiros não devem esperar facilidades. A perseguição é inevitável (2Tm 3.12). Os lobos têm dentes afiados e garras mortais [7]. Que paradoxo: Cordeiros saindo para salvar ovelhas de lobos! Aqui está a simplicidade unida ao desamparo: nenhuma arma carnal como defesa. Mas Deus tem uma maneira de criar a força a partir da fraqueza, e de usar até a morte como uma arma da vitória e da vida. Aqui vemos a supremacia de Cristo [8]. Cabe notar que os discípulos não são enviados “aos lobos”, mas “para o meio de lobos” [9]. Isso nos mostra que o Bom Pastor irá à nossa frente para nos guiar.

2 – A SEGUNDA LIÇÃO QUE APRENDO É A URGÊNCIA DA OBRA (Lc 10.4).

Assim como os setenta discípulos não devem estar munidos de armas de defesa diante dos perigos no meio de lobos, assim eles também não devem equipar-se com a bagagem usual de viagem. A instrução de que nem sequer levem consigo algo além da roupa necessária para a caminhada, tem o objetivo de que fiquem única e exclusivamente atentos ao cumprimento de seu envio [10]. E também não deveriam perder tempo com longas saudações pelo caminho.

Podemos destacar duas lições aqui:

1º – Os discípulos não deveriam estar sobrecarregados de coisas materiais. Eles deveriam viajar sem peso. Muitas pessoas querem fazer a obra de Deus, mas estão tão sobrecarregadas com as coisas desta vida que mal conseguem ir à igreja. Devido a isso, acabam fazendo a obra com muita dificuldade. Trabalho, família e lazer, essas três coisas tomam demais o nosso tempo. Isso não é um mal em si mesmo, mas quando nos dispomos em fazer a obra de Deus, precisamos vigiar para que isso não tome todo o nosso tempo.  

2º – Os discípulos deveriam concentrar-se em sua tarefa. Isto se refere, particularmente, à longa e tediosa saudação habitual no Oriente. Eles não deveriam desperdiçar seu tempo precioso, mas deveriam estar tão absorvidos com sua missão, que sua devoção sincera seria percebida por todos com quem se encontrassem [11]. Isto se remonta às instruções de Eliseu a Geazi em 2 Reis 4.29. Não é uma ordem de ser descortês; significa que o homem de Deus não deve voltar-se, nem deter-se em coisas de pouca importância quando as grandes coisas o chamam.

3 – A TERCEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É COMO OS DISCÍPULOS DEVERIAM SE COMPORTAR DURANTE A EVANGELIZAÇÃO (Lc 10.5-11). 

Jesus não envia os setenta para reuniões públicas ou sinagogas, mas às pessoas receptivas nas casas e nas cidades. O presente trecho concretiza nitidamente uma missão nas casas (v. 5-7) e uma missão urbana (v. 8-11) [12].

1º – A evangelização em uma casa (Lc 10.5-7). Os lares foram o lugar e a estratégia mais importante no crescimento das igrejas naquele tempo. Ainda hoje, as igrejas crescem quando os lares abrem as portas para os amigos e vizinhos, a fim de se transformarem em embaixadas do reino de Deus na terra [13].

Na evangelização nas casas o Senhor deu algumas orientações que deveriam ser observadas pelos discípulos:

1 – A forma de saudação – “Paz seja nesta casa”. Eles deveriam procurar uma casa aonde havia um interesse na mensagem de paz com Deus que o Messias, o “Príncipe da Paz” traria (Is 9.6; cf. Lc 1.79, 2.14). Os discípulos eram seus embaixadores com uma mensagem de paz para os interessados nesta paz. A mensagem de paz é importante para um mundo que já está condenado, como disse João em sua epístola: “Sabemos que somos de Deus, e que todo o mundo está no maligno” (1Jo 5.19).

2 – O repouso da paz ou o retorno da paz (Lc 10.6). Os emissários de Cristo, contudo, também experimentarão com frequência que oferecem a paz a pessoas que não são filhos da paz. A saudação de paz enviada ao endereço errado, no entanto, não traz dano ao mensageiro da paz, mas a paz retorna para aquele que a pronunciou de coração sincero. Os discípulos, porém, precisam contar com ambas as possibilidades, isto é, que sua mensagem de paz pode ser acolhida ou rejeitada. Mas seja como for, devem proferir a oferta de paz com integridade e seriedade. Então aquele que almeja a paz há de encontrá-la. Mas quem despreza a paz não será capaz de roubar a paz de Deus dos discípulos de Jesus [14].

3 – A casa que os recebesse eles deviam ficar (Lc 10.7). Por duas razões os discípulos deveriam ficar nesta casa: primeiro, porque nesta casa há filhos da paz, então é uma casa de paz. E segundo, não deveriam ficar de casa em casa buscando conforto pessoal. Os setenta foram estritamente proibidos de ficar de casa em casa em busca acomodações mais agradáveis ou melhor comida. Esta foi a mesma ordem o Senhor havia dado aos Doze quando os enviou a pregar (Lc 9.4). Devem ser obreiros simples, modestos, a fim de não atraírem atenção para si mesmos. Longe de serem motivados pelo lucro, devem confiar plenamente no sustento de Deus, pois digno é o trabalhador do seu salário [15].

2º – A evangelização urbana (Lc 10.8-12). O Senhor deu orientações para os seus discípulos de como eles deveriam proceder também nas cidades que eles estavam sendo enviados. Podemos destacar algumas lições importantes:

1 – Em primeiro lugar, em relação a alimentação (Lc 10.8). É preciso ter em mente que os homens que estavam sendo enviados nessa missão – pelo menos a maioria deles, podemos presumir – eram judeus. Mas, agora estavam entrando na Transjordânia como arautos de Cristo, uma região onde viviam muitos gentios. Isso poderia gerar um problema com respeito à comida. Por isso o Mestre disse a esses 70 homens que fossem avante e comessem o que lhes fosse posto diante, sem fazer perguntas. Essa ordem estava em plena harmonia com o restante dos ensinos de Jesus acerca de coisas limpas e imundas [16]. Aqui começa a quebra de paradigmas alimentar que, posteriormente, foram abandonados pela igreja quando entrou no mundo gentílico (cof. 1Co 10.25,27).   

2 – Em segundo lugar, a mensagem transformadora e libertadora (Lc 10.9). A pregação aos ouvidos precisa ser precedida pela pregação aos olhos. As obras poderosas precedem as palavras de poder. Os milagres da graça abrem portas para a pregação do evangelho da graça. A pregação tem um senso de urgência. O reino de Deus chegou. Está próximo. E não há mais tempo a perder [17]. A mensagem do evangelho traz vida e libertação, por isso devemos orar para que se cumpra em nosso ministério o que está escrito em Marcos 16.20: “E eles, tendo partido, pregaram por todas as partes, cooperando com eles o Senhor, e confirmando a palavra com os sinais que se seguiram. Amém”.

3 – Em terceiro lugar, a rejeição do evangelho (Lc 10.10-16). A chegada dos setenta a uma população mista de judeus e gentios talvez fosse indesejada. Nesse caso os mensageiros do Senhor são constrangidos a sair da cidade. Sacudir o pó dos pés simboliza a eliminação de qualquer comunhão intelectual com os habitantes não hospitaleiros da cidade [18]. Muitas daquelas cidades que eles foram enviados eram cidades que já haviam presenciado a presença de Jesus e Ele havia operado grandes sinais naquelas cidades. Por isso, eles eram indesculpáveis diante da mensagem que estavam mais uma vez ouvindo. Por isso que Jesus declarou que qualquer cidade que rejeitar o evangelho teria de enfrentar um julgamento mais severo do que Sodoma, pois Sodoma não ouviu o evangelho, mas a população daquelas cidades sim.

O segundo exemplo foi as cidades do Antigo Testamento de Tiro e Sidom com Corazim e Betsaida. Tiro e Sidom foram portos marítimos no litoral Fenício. As duas cidades sintetizou o mal no Antigo Testamento. Devido a isso, tanto Isaías 23 e Ezequiel 28 profetizaram o juízo que caiu sobre eles. No entanto, se tivessem tido a informação de que os habitantes de Corazim e Betsaida tiveram, eles teriam colocado em saco e cinza, um símbolo de luto profundo e contrição para demonstrar a sinceridade de seu arrependimento.

Maior rigor haverá para aqueles que rejeitam a mensagem do evangelho do que para aqueles que não ouviram. Ao rejeitarem os pregadores não estavam rejeitando um par de pobres itinerantes, mas, sim, o próprio reino de Deus, e isso tem sérias consequências [19]. Quanto maior a oportunidade, maior é a responsabilidade. Quem mais ouviu e viu as maravilhas do reino, e as rejeita, mais culpado será no dia do juízo (10.12-15) [20].   

4 – Em quarto lugar, a autoridade dos discípulos era a autoridade de Jesus (Lc 10.16). Jesus deixa claro que seus precursores não fazem a obra em seu próprio nome. Eles são enviados por aquele que tem todo poder e toda autoridade no céu e na terra [21]. Quando Seus fiéis mensageiros proclamar a mensagem do evangelho, o Senhor fala através deles. Cada escritor do evangelho registra essa verdade de que Jesus reiterou em João 13.20: “Se alguém receber o que eu enviar, me recebe a mim, e quem me recebe a mim, recebe aquele que me enviou” (Lc 9.48; Mt 10.40; Mc 9.37).

Quando aqueles que ouvem a mensagem e responder a ela com fé, eles estão ouvindo a Jesus; mas quando eles se recusam a ouvir, eles estão o rejeitando. Além disso, aquele que rejeita Jesus rejeita Aquele que enviou Ele. A ideia de que alguém pode honrar a Deus, rejeitando Jesus Cristo é uma mentira, um condenatório. Em João 5.23 Jesus disse aos judeus hostis: “Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou”.

Quando alguém rejeita o evangelho de Cristo não está rejeitando o pregador, mas rejeitando o próprio Deus que enviou o pregador. Por isso, não fique pensando que os que rejeitam o evangelho estão contra você, na verdade, estão contra o Senhor que lhe enviou.

CONCLUSÃO

Jesus quando envia esses setenta discípulos os orienta como deveriam proceder tanto nas casas quanto nas cidades. Isso nos chama a atenção, pois, assim como o Senhor fez com os Doze e posteriormente com os setenta, assim o Senhor faz conosco hoje. A obra é dEle e não é nossa, devido a isso, devemos buscar de Deus orientação para realizarmos Sua obra. Não podemos agir como se não tivéssemos que prestar contas Aquele que nos enviou.

Pense nisso!  

Bibliografia:

1 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 150.

2 – Childers Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 410.

3 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 272.

4 – Ryle, J. C. Meditação no Evangelho de Lucas, Ed. Fiel, São José dos Campos, SP, 2002, p.165.

5 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 330.

6 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 150.

7 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 330.  

8 – Childers Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 410.

9 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 150.

10 – Ibidem, p. 151.

11 – Childers Charles L. Comentário Bíblico Beacon, Lucas, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 411.

12 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 151.

13 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 331.

14 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 152.

15 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 331.

16 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 2, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 67.

17 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 332.

18 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 152.

19 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 173.

20 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 332.

21 – Ibidem, p. 332. 

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

O CUSTO DO DISCIPULADO Lucas 9.57-62

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 9.57-62

INTRODUÇÃO

Tendo deixado a aldeia dos samaritanos que os havia negado pousada, a comitiva de Jesus foi então “para outra aldeia” (v. 56). Foi durante esse percurso que ocorreu esse diálogo com esses três indivíduos.

Os dois primeiros diálogos das três breves conversações sobre seguir a Jesus são trazidos também por Mateus, em coincidência quase literal (cf. Mt 8.19-22). Marcos omite os três diálogos. O terceiro diálogo faz parte do material exclusivo de Lucas. O primeiro evangelista sinótico situa as duas conversas no início da atuação de Jesus na Galileia; já em Lucas, ao serem situadas no começo da caminhada para Jerusalém, numa época em que se aproximava o fim do Senhor, as conversas apresentam a profunda seriedade do discipulado de Cristo. Seguir a Jesus em sua última viagem a Jerusalém, em sua trajetória para a morte, é realmente uma vida em completa autonegação, fadiga e luta [1].

Durante Seu ministério terreno, o Senhor Jesus Cristo chamou repetidamente pessoas para o segui-lo como Messias e Senhor. Alguns singularmente responderam ao seu chamado e se tornaram Seus verdadeiros discípulos; outros rejeitaram quando perceberam o quanto isso era difícil (Jo 6.60-66). Sempre que Jesus chamava as pessoas, Ele usava a mesma palavra, akoloutheō (“seguir”, “para acompanhar”, “para ser um discípulo”). Ele sempre empregava o verbo no imperativo, para indicar que Ele não estava buscando um discipulado momentâneo, mas um compromisso de vida contínua. Seguir a Cristo envolve toda a vida e a vida toda. É algo que começa aqui na terra e permanece na eternidade.

Olhando para esse texto e para esse diálogo, quais as lições que podemos tirar dele para as nossas vidas hoje?

1 – A PRIMEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE SEMPRE HAVERÁ PESSOAS QUERENDO SEGUIR A CRISTO, MAS NEM TODOS ANALISAM O CUSTO DESSA DECISÃO (Lc 9.57a).

Foi nesse processo de ir, de caminhar, de ir rumo a Jerusalém que aparecem esses três personagens. Jesus foi seguido por muitos, mas poucos foram verdadeiramente seus discípulos. Cada uma das pessoas envolvidas declara que está disposta [a seguir a Cristo]. O primeiro está disposto a seguir e ir a qualquer parte, mas não considerou o preço. O segundo recebe a solicitação de seguir. [No entanto], ele quer ir para casa, para à família. O terceiro quer seguir e, como o segundo, quer ir primeiro para casa. Ele, como o primeiro, é desafiado a considerar o preço [2].  

Assim, como foi nos dias de Jesus, é nos dias de hoje. Muitos ainda não consideram o custo do discipulado. Mas por que isso ainda acontece? Creio que para essa pergunta a resposta seja a mesma da época de Jesus.

1º – Muitos não entenderam o que é ser um discípulo de Jesus. Muitos dos que se dizem ser servos de Jesus ainda não se conscientizaram o que isso vem a ser. Ainda não entenderam que isso implica em carregar a cruz todos os dias (Lc 9.23-26). Que implica em ter desavenças, muitas vezes, dentro de nosso próprio lar (Mt 10.21,35,36).   

2º – Superficialidade no compromisso com Cristo. Há um segundo grupo, os superficiais. São pessoas que acompanham Jesus de longe, sem muito ou nenhum compromisso com o discipulado de Cristo. É o solo rochoso da parábola do semeador (Lc 8.6,13).

3º – Existem muitos não convertidos entre os verdadeiros discípulos. Esse, creio, que seja o maior dos problemas em nosso meio. São pessoas que professam uma fé sem fundamento. Uma fé na fé. Uma fé descompromissada com a verdade. Por isso que há em nosso meio muitas crises e desavenças. Há muitos não convertidos no púlpito e também nos bancos.

2 – A SEGUNDA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE EXISTEM REQUISITOS PARA SER DISCÍPULO JESUS (Lc 9.57-62).

Enquanto Jesus viajava, Lucas nos conta que alguns anunciaram sua intenção de segui-Lo. Claramente tiveram boas intenções, mas não tinham percebido a natureza das exigências que o reino faz dos homens [3]. Nossas boas intenções, geralmente, comparadas com as exigências de Jesus não são boas. São egoístas. Na maioria das vezes as nossas prioridades estão em desacordo com o Seu reino. Muitas vezes nós, indiretamente, dizemos: “venha o nosso reino, seja feita a minha vontade, assim na terra como no céu” e não o contrário do que que Jesus ensinou em Mateus 6.10: “Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”.

Esses três homens poderiam ter se tornado discípulos, mas eles não preenchiam os requisitos estabelecidos por Jesus. Cada um deles tinha um empecilho que os impedia de chegar ao próximo nível da condição de discípulo [4]. Essa passagem ilustra três coisas que impediram essas pessoas de seguirem Jesus: uma motivação errada, uma prioridade errada e uma noção de tempo errada.

Analisemos esses três pontos.

1 – O PRIMEIRO TINHA UMA MOTIVAÇÃO ERRADA (Lc 9.57,58).

Mateus identifica este homem como um escriba (Mt 8.19). Os escribas eram especialistas na Lei Mosaica e na lei rabínica, no entanto, eles eram hostis a Jesus (Mt 9.3; 12.38-42; Mc 2.6-7; 3.22; Lc 6.7; 15.2), por isso é de estranhar a atitude desse homem em seguir a Cristo. Bailey disse que este primeiro candidato a discípulo representa a força centrípeta da missão. Ele é atraído para dentro, para juntar-se à comunidade de discípulos. Ninguém o está recrutando [5].

É provável que por ter testemunhado os milagres registrados em Mateus 8.5-18, ele então tenha sido atraído a Jesus e ansioso para ligar-se a um professor tão incomparável. Rabinos que viajam frequentemente tinham grupos de estudantes que os acompanhavam e aprendiam com eles. Este escriba reconheceu Jesus como seu rabino e queria se juntar a seu grupo de discípulos. De acordo com o relato de Mateus, ele se dirigiu a Jesus como “Mestre”, oferecendo-se, assim, como um aluno do milagreiro de Nazaré. No entanto, Jesus não se surpreendeu com a atitude desse homem. Vemos pela resposta que Jesus lhe deu: “As raposas têm covis, e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lc 9.58).

A motivação deste homem em seguir a Jesus não era a motivação que o Senhor espera de seus discípulos. Duas eram as suas motivações:

1ª – A primeira motivação era a ambição por conforto. Este homem estava motivado pelas vantagens que pensava que iria receber seguindo a Cristo. Jesus, porém, joga uma pá de cal em seu entusiasmo, mostrando que o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça [6]. Em outras palavras, o Filho do Homem, Rei e Mandatário da criação, possui menos que as criaturas irracionais. As raposas sobre o chão e os pássaros no ar possuem seu abrigo. Jesus é completamente apátrida. Quem deseja seguir o caminho com o Senhor decididamente não escolhe uma sorte invejável [7]. No entanto, a maneira como ele entende o que isso acarreta parece muito superficial. Ele não entende que “seguir” significa Getsêmani, e Gólgota e sepulcro [8]. Jesus já havia deixado isso bem claro para os seus discípulos em Lucas 9.22.

O que Jesus está deixando bem claro para esse escriba é que não há conforto e aceitação para o Mestre e muito menos para os seus discípulos. A prova disso é que eles acabaram de ser expulsos de uma aldeia samaritana (Lc 9.52,53).

2ª – A segunda motivação era poder e influência. Há também nessa passagem um sentido político, diz Bailey. As “aves do céu” referiam-se às nações gentílicas (Roma – o império dominante da época), no sentido apocalíptico intertestamentário. A “raposa” era símbolo dos amonitas que era um povo racialmente aparentado, mas politicamente inimigos de Israel. Herodes era idumeu, ele era racialmente mestiço e Jesus chama Herodes Antipas de “essa raposa” (Lc 13.32). Jesus poderia estar dizendo: “Olham se vocês querem poder e influência, vão para as aves que revestem de penas os seus ninhos por toda a parte. Sigam as raposas, que dirige os seus negócios com muita astúcia. Pois, a despeito das expectativas, o Filho do homem permanece impotente e solitário [9].

Se uma pessoa se propõe a seguir a Cristo com a ideia de que terá poder e influência no mundo está com a motivação totalmente errada. Está andando na contramão dos ensinos de Jesus. Não prestaram atenção no que Ele falou em Mateus 10.16-22,25:

“Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto, sede prudentes como as serpentes e inofensivos como as pombas. Acautelai-vos, porém, dos homens; porque eles vos entregarão aos sinédrios, e vos açoitarão nas suas sinagogas; e sereis até conduzidos à presença dos governadores, e dos reis, por causa de mim, para lhes servir de testemunho a eles, e aos gentios. Mas, quando vos entregarem, não vos dê cuidado como, ou o que haveis de falar, porque naquela mesma hora vos será ministrado o que haveis de dizer. Porque não sois vós quem falará, mas o Espírito de vosso Pai é que fala em vós. E o irmão entregará à morte o irmão, e o pai o filho; e os filhos se levantarão contra os pais, e os matarão. E odiados de todos sereis por causa do meu nome; mas aquele que perseverar até ao fim, esse será salvo. Basta ao discípulo ser como seu mestre, e ao servo como seu senhor. Se chamaram Belzebu ao pai de família, quanto mais aos seus domésticos?”

A Igreja Católica entrou pelo caminho de ser influência nos mundo e veja o que a história nos conta a respeito dela.

2 – O SEGUNDO TINHA UMA PRIORIDADE ERRADA (Lc 9.59,60).

Se o primeiro se prontificou a seguir a Cristo voluntariamente, este, no entanto, teve o privilégio de ser comissionado por Ele. Mas entre aceitar esse convite incondicionalmente, ele expôs a sua condição para segui-Lo: “Senhor, deixa que primeiro eu vá a enterrar meu pai”.

A prioridade desse homem não era a prioridade que o Senhor espera de Seus discípulos. Quais eram as reais prioridades desse homem?

1º – Ele colocou as prioridades familiares em primeiro lugar. Observe o que ele diz para o Senhor: “Senhor, deixa que primeiro eu vá a enterrar meu pai”. À primeira vista, isso parece ser um pedido razoável. Era dever de cada filho ter certeza de que seu pai estivesse bem cuidado em sua morte (Gn 25.9; 35.29; 49.29-50.13); só o sumo sacerdote (Lv 21.10-11) e os que haviam feito um voto Nazireu (Nm 6.6-7) foram dispensados do funeral de seu pai, uma vez que eles foram proibidos de chegar perto de uma pessoa morta. O problema com a desculpa do homem era de que seu pai ainda não estava morto! Em outras palavras ele estava dizendo para Jesus: “Depois que meu pai morrer eu então lhe seguirei”. A preocupação com a casa dele era a pedra no caminho deste homem [10].

Como disse Carson: “Mesmo os laços familiares mais íntimos não devem ser postos acima da submissão a Jesus e da proclamação do reino” [11].

A preocupação desse homem tem sido a preocupação de muitas pessoas hoje. Quantas pessoas pensam em seguir a Cristo mas não querem “magoar” os familiares. Os pais podem ficar ofendidos e magoados por eles serem agora um crente em Jesus... Isso é muito comum. Eu conheço uma mãe que disse para filha que preferiria que ela fosse lésbica do que ser uma crente. Essa menina obedeceu a mãe e nunca mais voltou à igreja. Hoje a menina é lésbica!

2º – Ele colocou prioridades culturais acima do discipulado. Segundo a tradição da época seu pedido era para ficar em casa até que seu pai morresse. Isso era uma exigência cultural. Devido a isso, este homem está dizendo: “A minha comunidade me faz certas exigências, e a força dessas exigências é muito grande. Certamente o Senhor não espera que eu frustre as expectativas da minha comunidade, não é?”. Não obstante é isso que o Senhor quer [12]. Jesus deixa claro que pregar o reino é a maior de todas as prioridades. Nenhuma outra agenda pode se interpor entre o discípulo e a pregação do evangelho do reino [13].

Jesus não está dizendo que devemos abandonar os pais. Jesus está dizendo: “Deixe os espiritualmente mortos sepultar os fisicamente mortos”, mostrando que as outras pessoas podiam cuidar do pai do rapaz. Ou seja, outras pessoas podiam fazer aquele trabalho, mas era obrigação dele pregar o Reino de Deus. A vida eterna em Cristo.  

3ª – Ele colocou interesses financeiros acima do discipulado. O que este homem realmente estava dizendo era que ele queria adiar seguir o Senhor até que seu pai morresse e ele recebesse a sua herança. Ele sabia que Jesus estava indo para Jerusalém, e se ele o acompanhasse, essa atitude poderia levá-lo a perder sua parte da propriedade de seu pai. Ao contrário dos Doze (Mt 19.27; Lc 5.11,28), ele não estava disposto a deixar tudo e seguir Jesus. Ele foi um exemplo da semente “que caiu entre espinhos, esses são os que ouviram e, indo por diante, são sufocados com os cuidados e riquezas e deleites da vida, e não dão fruto com perfeição” (Lc 8.14).

Muitas pessoas põem em primeiro lugar as suas necessidades e compromissos antes do discipulado. As suas necessidades e ambições vem em primeiro lugar. Quem pensa assim não pode ser discípulo de Jesus.

3 – O TERCEIRO TINHA UMA NOÇÃO DE TEMPO ERRADA (Lc 9.61,62).

Este terceiro indivíduo, assim como o primeiro, voluntariamente se candidata a seguir a Cristo. Mas assim como o segundo, ele tinha suas exigências. “Deixa-me despedir primeiro dos que estão em minha casa”. A resposta deste homem demonstra claramente que seu coração não estava completamente engajado no serviço de Cristo e que, portanto, ele não estava preparado para ser um discípulo [14]. Jesus não viu nisso um mero ato de cortesia, disse Champin, e, sim, uma tática procrastinadora [15]. Procrastinar significa transferir para outro dia ou deixar para depois; adiar, delongar. Na verdade, ele queria saber a opinião dos de sua casa sobre esse assunto.

Com isso em mente, podemos tirar algumas lições:

1º - Este homem estava transferindo sua decisão para terceiros. O “despedir-se dos que estavam em sua casa” diz Bacley, nada mais era do que “pedindo permissão para submeter o assunto de seguir a Jesus à autorização deles” [16]. De acordo com o que eles falassem ele faria. A decisão de ser um discípulo de Jesus não partiria dele, mas dos seus familiares, ou seja, ele estava transferindo esta decisão para terceiros.

Tem muita gente agindo assim hoje também. Agem segundo o conselho de familiares e amigos em relação a seguir a Cristo. Mas veja o que nos fala o Salmo 1.1: “Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores”.

Esta decisão não pode ser terceirizada, ela é uma decisão pessoal e intransferível.

2º - Seguir a Jesus é uma quebra de tradições e paradigmas. Este homem tinha medo de estar longe de seus familiares ou quem sabe de ser condenado ao ostracismo por sua família. No mundo do Oriente Médio, a autoridade do pai tradicionalmente é suprema. Este homem está falando claramente para Jesus o seguinte: “Vou te seguir, Senhor, mas a autoridade de meu pai é maior que a Tua, e eu preciso de permissão dele antes de me aventurar pelo mundo contigo” [17]. Isso o estava impedindo de seguir o Senhor. É por isso que Jesus advertiu as multidões que o seguiam: “Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc 14.26).

Seguir a Cristo envolve quebrar tradições, hábitos e a própria vontade. Jesus disse que para segui-lo devemos abrir mão de nossas vontades: “É negar-se a si mesmo” (Lc 9.23). Como disse Pedro para Jesus: “Eis que nós tudo deixamos, e te seguimos” (Mc 10.28).

Seguir a Cristo é romper com o passado e seguir para uma nova vida. É nascer de novo. Como disse Paulo e sua segunda carta aos Coríntios 5.17: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo”.

3º - Seguir a Jesus é olhar para frente e não para trás (Lc 9.62). Essa história parece fazer um eco da unção de Eliseu por Elias, em 1 Reis 19.19-21. A única diferença é que quando Eliseu voltou para se despedir dos de sua casa, ele se desfez do que poderia impedi-lo de seguir a Elias. Veja o que o texto nos fala: “Então deixou ele os bois, e correu após Elias; e disse: Deixa-me beijar a meu pai e a minha mãe, e então te seguirei. E ele lhe disse: Vai, e volta; pois, que te fiz eu? Voltou, pois, de o seguir, e tomou a junta de bois, e os matou, e com os aparelhos dos bois cozeu as carnes, e as deu ao povo, e comeram; então se levantou e seguiu a Elias, e o servia” (1Rs 19.20,21).  

Há muitas pessoas que servem a Cristo, mas não olham para frente, ficam o tempo todo olhando para trás. Olhar para trás é perder o foco e a direção certa. Aqueles que estão acostumados a arar a terra, dizem que é impossível arar, fazendo uma linha reta, se o lavrador de vez em quando olha para trás. Essa tarefa requer a atenção ininterrupta do lavrador. Jesus, tal como no caso imediatamente anterior, ilustra aqui que existem lealdades superiores do que aquelas dos laços de família. O propósito de tornar-se discípulo é vão e sem sentido se esse propósito não for levado às suas últimas consequências, de maneira correta [18].

No reino de Deus, não há espaço para distração nem para saudosismo [19]. Tem muita gente que vive olhando para trás. Vive com saudade das coisas que dizem que deixaram por amor a Cristo.  

CONCLUSÃO

Embora o texto não descreva o que aconteceu com nenhum desses três homens, é óbvio que eles, como o jovem rico, abandonaram Cristo para se agarrarem as coisas terrenas. Jesus deixou bem claro que aqueles que não estão dispostos a negar a si mesmo, riquezas, relacionamentos, ou qualquer outra coisa, por amor a Ele, não pode entrar no reino de Deus. “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me”, declarou Jesus, porque “qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas qualquer que, por amor de mim, perder a sua vida, a salvará” (Lc 9.23-24).

O evangelho que tem sido pregado em muitos púlpitos hoje é o um evangelho hedonista. É um evangelho que não condiz com as Escrituras. O Jesus que tem sido apresentado ao público é um Cristo falso, um Cristo que nem genérico é, nem mesmo similar, é um Cristo placebo. Um Cristo que não faz exigências, que não pede abnegação, que não se importa com a vida que você leva. No entanto, o Jesus que nos é apresentado nas Escrituras, nesse texto em particular, exige abnegação, compromisso e rompimento com o mundo. Menos que isso não é o Jesus que se revela nas Escrituras.

Pense nisso!

Bibliografia:

1 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 148.

2 – Bailey, Kenneth E. As Parábolas de Lucas, Ed. Vida Nova, São Paulo, SP, 1985, p. 64.

3 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p. 170.

4 –Radmacher, Earl D. O Novo Comentário da Bíblia – Novo Testamento, Ed. Central Gospel, Rio de Janeiro, RJ, 2010, p. 172.

5 – Bailey, Kenneth E. As Parábolas de Lucas, Ed. Vida Nova, São Paulo, SP, 1985, p. 64.

6 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017, p. 325.

7 – Rienecker, Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 148.

8 – Bailey, Kenneth E. As Parábolas de Lucas, Ed. Vida Nova, São Paulo, SP, 1985, p. 64.

9 – Bailey, Kenneth E. As Parábolas de Lucas, Ed. Vida Nova, São Paulo, SP, 1985, p. 66.

10 – Radmacher, Earl D. O Novo Comentário da Bíblia – Novo Testamento, Ed. Central Gospel, Rio de Janeiro, RJ, 2010, p. 172.

11 – Carson, D. A. O Comentário de Mateus, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2017, p. 253.

12 – Bailey, Kenneth E. As Parábolas de Lucas, Ed. Vida Nova, São Paulo, SP, 1985, p. 68.

13 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 326.

14 – Ryle, J. C. Meditação no Evangelho de Lucas, Ed. Fiel, São José dos Campos, SP, 2002, p.164.  

15 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, Lucas, vol. 2, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2005, p. 101.

16 – Bailey, Kenneth E. As Parábolas de Lucas, Ed. Vida Nova, São Paulo, SP, 1985, p. 69.

17 – Bailey, Kenneth E. As Parábolas de Lucas, Ed. Vida Nova, São Paulo, SP, 1985, p. 70.

18 – – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, Lucas, vol. 2, Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2005, p. 101.

19 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 326.