domingo, 25 de julho de 2021

PROSPERANDO EM MEIO A CRISE - A PRIMEIRA MULTIPLICAÇÃO DOS PÃES

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 9.10-17

INTRODUÇÃO

Ao aproximar-se o final de seu ministério na Galileia, o Senhor realizou o que foi em uma escala visível seu mais extenso milagre. Este é o único milagre, à parte da ressurreição, narrado em todos os quatro Evangelhos (Cf. Mt 14.13-21; Mc 6.30-44; Jo 6.1-14) [1]. A alimentação de cinco mil homens, além de certamente um número igual de mulheres e crianças, foi a maior obra do poder criativo divino desde a semana da criação (Gn 1.1-31, 2.1-3), e da reestruturação da terra depois do dilúvio (Gn 6-8). Em todos os quatro evangelhos esse milagre é apresentado como o auge da atuação na Galileia. Imediatamente depois disso, os Evangelhos sinóticos começam a mostrar Jesus revelando o mistério de sua iminente paixão aos apóstolos (Lc 9.18-27; Mt 16.13-28; Mc 8.27-38) [2]. Esta também foi a última e grande oportunidade para os galileus.

John MacArthur enfatiza que curiosamente, ambos os milagres de criação de Jesus – transformação da água em vinho (Jo 2.1-10) e a multiplicação dos pães – falam dos elementos principais da Ceia do Senhor ou da Comunhão (Jo 6.53) [3].

Antes de abordarmos este último milagre de Jesus na Galileia, devemos destacar o regresso dos apóstolos e do relatório que deram a Jesus; e destacar também a mensagem e as curas que o Senhor realizou quando a multidão os encontrou em Batsaida.

1 – JESUS MOSTRA A NECESSIDADE DO DESCANSO E APRENDIZADO (Lc 9.10).

Depois que os apóstolos retornaram, Jesus se reúne com Ele, provavelmente, em Cafarnaum. Eles fizeram um relato a respeito de tudo o que eles haviam feito. Jesus reconhecendo que eles estavam exaustos depois de seu tempo de viagem e do ministério, Jesus tomou-os e se retirou para uma cidade chamada Betsaida. Lá eles poderiam descansar e se recuperar longe das multidões que os mantinham tão ocupados que nem sequer tinham tempo para comer (Mc 6.31).

Com isso em mente, podemos destacar algumas lições para nossas vidas.

1º - Assim como os apóstolo, nós também precisamos de um tempo para descansar (Mc 6.31). “E ele disse-lhes: Vinde vós, aqui à parte, a um lugar deserto, e repousai um pouco. Porque havia muitos que iam e vinham, e não tinham tempo para comer”. Jesus, o grande Sumo Sacerdote do seu povo, está consciente das nossas fraquezas (Hb 4.15) e é sensível a todas as nossas necessidades. Tendo Ele mesmo experimentado o cansaço que vem do ministério (cf. Mc 4.38), Jesus entendeu a necessidade dos apóstolos para descanso e que se estende a nós também.

De tempos em tempos devemos “recarregar as nossas baterias”. Devemos rever o nosso trabalho para não cairmos no ativismo e nos esquecermos que temos família, que nosso corpo precisa de repouso e lazer. Outro grande perigo que corremos é a rotina, esta tem sido um mal que muitas vezes tem sido negligenciado.  

2º - Jesus os levou para um lugar deserto para dialogar com eles. A motivação pela qual Jesus se retirou a um lugar solitário é a necessidade de quietude para dialogar com os apóstolos. Marcos informa que ele pretendia proporcionar-lhes um pouco de sossego depois dessa excursão de pregação, visto que a multidão dos que iam e vinham não os deixava em paz. De acordo com Mateus, o motivo foi a notícia do assassinato de João Batista.

Essas concepções bastante diversas podem ser facilmente harmonizadas se a chegada da notícia da execução de João coincidir com a época do retorno dos apóstolos, fazendo o Senhor Jesus lembrar especialmente da proximidade de sua própria morte. Diante dessas impressões, o Senhor Jesus quis proporcionar a seus discípulos um tempo de recolhimento, a fim de dialogar com eles sem interrupções, passando adiante ensinamentos, exortações e advertências acerca de sua atuação vocacional futura. Em breve ele teria de deixar os discípulos sozinhos na terra [4].

Assim como o Senhor fez com os discípulos, nós também precisamos de tempo para orar, para termos as nossas devocionais. Ler bons livros, estudar. Por mais que leiamos a Bíblia, ela precisa ser estudada sempre. O pastor foi chamado para ser pastor-mestre (Ef 4.11). Como diz um antigo adágio: “Enquanto descansa, carrega pedras!”. Assim, pelo menos, é a vida do pastor.

2 – ENTRE O DESCANSO E A OBRA, A OBRA VEM EM PRIMEIRO LUGAR (Lc 9.11).

O texto de Marcos nos fala que “a multidão viu-os partir, e muitos o conheceram; e correram para lá, a pé, de todas as cidades, e ali chegaram primeiro do que eles, e aproximavam-se dele. E Jesus, saindo, viu uma grande multidão, e teve compaixão deles, porque eram como ovelhas que não têm pastor; e começou a ensinar-lhes muitas coisas” (Mc 6.33,34).

Jesus demonstra compaixão pelos doze, levando-os consigo a Betsaida para um tempo de descanso e refrigério (9.10b), mas demonstra também compaixão pelas multidões que, exaustas e aflitas, seguiram Jesus para essa região de Betsaida. Sua compaixão é demonstrada pelo fato de Jesus olhar para essa multidão e vê-la como ovelhas sem pastor. Diante desse fato, Jesus dedica-se a falar a elas acerca do reino de Deus e a socorrer aqueles que tinham necessidade de cura. Jesus dedica-se à grande multidão como mestre e médico, ensinando e curando [5].

Leon Morris diz que a despeito de ter procurado a solidão, Jesus não revelou irritação alguma. Pelo contrário, acolheu-as. E continuou a obra que tão recentemente estava fazendo através dos discípulos. Falava-lhes a respeito do reino de Deus e socorria os que tinham necessidade de cura [6].

Diante desse episódio, podemos destacar duas coisas importantes:

1º - Aprendemos aqui o que é prioridade. A prioridade é Reino de Deus e a sua obra. Os apóstolos teriam outras oportunidades para estarem com Jesus, aquela multidão não teria. Diante disso, Jesus para o que estava por fazer e dá atenção aquelas pobres pessoas que, na visão de Jesus, eram como ovelhas sem pastor. Eram “ovelhas” sujeitas a “lobos” que não poupam o rebanho e o Senhor as ampara lhes ensinando, curando e alimentando.

2º - Devemos ver as pessoas como Jesus as vê e termos a mesma compaixão. Muitas vezes a nossa visão fica desfocada em relação ao que é prioridade e de como Jesus quer que vejamos as pessoas. Para isso é necessário termos a intervenção do Espírito Santo em nós para nos mostrar os passos certos em nosso ministério e como devemos agir como igreja. Há um texto que nos mostra como o Espírito Santo orienta a igreja no seu agir. Atos 6.1-3 diz: “Ora, naqueles dias, crescendo o número dos discípulos, houve uma murmuração dos gregos contra os hebreus, porque as suas viúvas eram desprezadas no ministério cotidiano. E os doze, convocando a multidão dos discípulos, disseram: Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas. Escolhei, pois, irmãos, dentre vós, sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais constituamos sobre este importante negócio.

Pregação da Palavra, ensino e socorro foram atividades da Igreja Primitiva. Esse exemplo devemos seguir, sabendo que essas tarefas devem ser divididas e não centralizadas. Só assim a igreja avança. Seja o ensino, seja o socorro, ambos devem ser feitos com paixão e compaixão. Assim aprendemos com Jesus.

3 – UMA MULTIDÃO SEDENTA E FAMINTA (Lc 9.12-17).

Jesus, apesar do fato de a multidão interromper o descanso muitíssimo necessário com os Doze, olha para essas pessoas com “compaixão”, apalavra grega para “compaixão”, splangningsthar, é usada no Novo Testamento só em relação a Jesus, e, aqui, sua compaixão é expressa no “ensinar-lhes muitas coisas”. Elas eram para Jesus, conforme relata Marcos, “como ovelhas sem pastor” [7].

Como o dia estava terminando (“começou a declinar”) e que a tarde avançava, os apóstolos ficaram preocupados. O lugar era deserto. Não havia lugar para comprar comida onde estavam. Era uma multidão que estava ali e a situação estava se tornando complicada aos olhos dos Doze.

Quero destacar quatro coisas:

1º - A preocupação dos apóstolos era uma preocupação legítima. Eles tinham razão em estarem preocupados, pois o lugar era ermo e não havia onde comprar alimento. Certamente havia ali muitas mulheres e não poucas crianças.

2º - O texto aqui está falando de fome mesmo, de gente com o estômago vazio, de gente carente. Não devemos espiritualizar esse texto no sentido de aplica-lo a Jesus como o Pão da Vida porque isso será feito mais tarde no discurso de Jesus em João 6.22-59.

3º - Esta pergunta é a pergunta, talvez, mais comum em nossos dias. Onde compraremos pão? Famílias que estão passando por crise financeira fazem esta pergunta. É a pergunta de quem assiste os telejornais e vê o mundo que jaz no maligno e não consegue ver expectativa de melhora para sair da crise.

4º - A pergunta feita saiu dos lábios de Jesus: “Então Jesus, levantando os olhos, e vendo que uma grande multidão vinha ter com ele, disse a Filipe: Onde compraremos pão, para estes comerem?” (Jo 6.5). Jesus está testando a fé dos apóstolos.

Eles estavam vindo de uma série de milagres operados por Jesus e por eles mesmos na campanha evangelística que fizeram (Mt 10.7,8; Lc 9.6). O milagres por eles vistos não despertaram neles fé suficiente para entender que para Deus nada é impossível. Eles continuavam cegos em seus entendimentos. Eles não conseguiam se lembrar que o Senhor sustentou a nação de Israel no deserto por quarenta anos quando saíram do Egito. Eles não se lembraram que Elias multiplicou a farinha e o azeite da viúva até a chuva cair sobre a terra (1Rs 17.14). Eles não se lembravam de que o Senhor através de Eliseu multiplicou o azeite de uma viúva que estava prestes a perder seus filhos como escravos (2Rs 4). Eles não se lembravam da primeira multiplicação dos pães através de Eliseu: “E um homem veio de Baal-Salisa, e trouxe ao homem de Deus pães das primícias, vinte pães de cevada, e espigas verdes na sua palha, e disse: Dá ao povo, para que coma. Porém seu servo disse: Como hei de pôr isto diante de cem homens? E disse ele: Dá ao povo, para que coma; porque assim diz o Senhor: Comerão, e sobejará. Então lhos pôs diante, e comeram e ainda sobrou, conforme a palavra do Senhor” (2R 4.42-44).

Eles não se lembraram que o Senhor havia transformado água em vinho (Jo 2.1-10).

Esse tem sido o problema de muitas pessoas hoje, não se lembrarem do quanto o Senhor, no decorrer dos anos, têm nos sustentado. Por isso que diante da crise se desesperam. Se esquecem que o Senhor nos prometeu: “O pão nosso de cada dia nos dá hoje” (Mt 6.11). É pão fresco da fornada do céu que o Senhor nos dá todos os dias. Lembrem-se disso!

Muitos se esquecem do que o Senhor Jesus nos falou: “Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? Porque todas estas coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas; mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal” (Mt 6.31-34).    

Com isso em mente, podemos destacar lições importante para nossas vidas:

1º - A solução dada a Jesus pelos Doze (Lc 9.12). Os Doze vieram a Jesus e de forma impetuosa, quase impertinente disseram-lhe: “Despede a multidão, para que, indo aos lugares e aldeias em redor, se agasalhem, e achem o que comer”. Eles queriam que o Senhor dispersasse a multidão antes que anoitecesse, porque, eles lhe informaram, “porque aqui estamos em lugar deserto”. Eremos em grego (desolado) não se refere aqui a um deserto, uma vez que não era abundante grama verde (Mc 6.39), mas sim para um lugar desabitado. A noite foi se aproximando, e não havia nenhum lugar para a multidão adquirir alimentos.

Os discípulos, governados por uma lógica simples, não veem alternativa senão despedir as multidões, uma vez que o lugar era deserto e eles não tinham provisão nem recursos suficientes para atender a tamanha demanda [8].

Quem age usando a lógica com Deus pensa que Ele está limitado as circunstâncias deste mundo. A Teologia Liberal prega um deus assim. No entanto, na outra ponta existe aqueles que pensam que o Senhor é o gênio da lâmpada. Acham que têm um Deus domesticado que faz o que eles querem. Um Deus sujeito as suas vontades. Aí nós vemos o “eu determino”, “eu tomo posse”, “eu decreto”. São esses extremos que devemos a todo custo evitar.  

2º - A solução dada por Jesus (Lc 9.13). A resposta de Jesus, “Dai-lhes vós de comer!”, aparentemente distante da realidade, deixou os discípulos espantados.

Incrédulos eles protestaram, “Nós não temos mais que cinco pães e dois peixes”. Pão e peixe eram os principais artigos na Galileia, sobretudo para o pobre. João 6.9,13 especifica pães de cevada — o pão mais barato e grosseiro [9].

Em seguida, um pouco sarcasticamente os apóstolos acrescentaram, “a menos que talvez nós formos comprar comida para todo este povo”. Jogando fora tal observação, Jesus disse a Filipe: “Onde compraremos pão, para que estes possam comer?” (Jo 6.5).

A resposta de Filipe dizendo que duzentos dinheiros de pão não lhes bastarão (Jo 6.7-9) revela o fato de que ele pode pensar somente na esfera de mercado, o mundo natural. A expressão dinheiro em grego é denarius, que era o pagamento de um dia para um trabalhador comum; duzentos denarii (também especificado em Mc 6.37), portanto, representa oito meses de salário (NVI). Já que uma proporção substancial do salário de um trabalhador ia para a alimentação diária, isso, presumivelmente, era bastante para abastecer uma família por oito meses ou um pouco mais. Mas a multidão era tão grande (v. 10) que mesmo uma soma tão grande de dinheiro não compraria pão suficiente para que cada um recebesse um pedaço! [10].

Diante desse dilema o que Jesus os mandou fazer:

Primeiro – Jesus mandou fazer um levantamento da quantidade de alimento que havia entre a multidão (Mt 14.17; Mc 6.38; Jo 6.8,9). Muitos dos problemas na área econômica ocorrem porque muitas pessoas não sabem como se encontra a situação de sua casa. As crises são reais e sempre iremos enfrenta-las, mas como eu resolvo essas crises começa sabendo a real situação que estamos enfrentando e quais recursos nós temos. Eliseu perguntou a viúva que foi até ele o que ela tinha em casa, a partir daí foi lhe dado as diretrizes para sair da crise (2Rs 4.1-7).

Segundo – Organização é necessária (Lc 9.14,15). Uma multidão não pode ser atendida convenientemente sem ordem. A organização é fundamental. Por isso, Jesus ordena aos discípulos para dividir a multidão em grupos de 50, no que é prontamente atendido [11].

Para saber exatamente quantas pessoas havia ali era necessário organiza-los. Foi isso que o Senhor mandou os discípulos fazerem. Foi isso que José fez nos Egito no período de grande fartura e depois no período de grande fome. Por ser organizado nada faltou.

Terceiro – Jesus rendeu graças pelo alimento (Lc 9.16). Prestem atenção, Jesus deu graças pelo pão e pelo peixe. Observe que o pão era pão de cevada, um pão muito pobre. Mas era pão que eles tinham. Aprenda a ser grato a Deus pelo o que Ele lhe dá e não reclame pelo o que você não tem.

Os quatro evangelistas devem ter ficado impressionados com o fato de Jesus proferir uma oração de gratidão antes de multiplicar o alimento, porque todos eles relatam o fato. Os apóstolos perceberam que nisso residia o mistério de seu poder milagroso, revelado naquela hora. Em Mateus e Marcos consta: “Elevou o olhar ao céu e abençoou” (eulogéo), o que também pode ser traduzido com “e agradeceu”. Em Lucas lemos: “Erguendo os olhos para o céu e os abençoou (eulogéo)”, a saber, os pães, ou melhor, pão e peixe. João relata: “Ele agradeceu” (eucharistéo)”. É costume judaico proferir uma oração de bênção ou de gratidão antes da refeição. A oração atraiu uma bênção maravilhosa para um alimento tão insignificante [12].

É pouco, é simples, parece insuficiente, mas Jesus deu graças. Você tem dado graças pelo que Deus tem lhe dado? Pelo trabalho, pelo pão de cada dia, pela roupa que você veste? Tem gente que só reclama, aos invés de ser grato.  

Quarto – Faça o que Jesus ordena (Lc 9.16). O discípulos não tinham poder para multiplicar o pão, mas podia distribuir o pão que Jesus estava multiplicando. Não somos provedores; somos mordomos. Aquele que tem pão com fartura e é o Pão da vida nos dá o privilégio e a responsabilidade de distribuir sua provisão para as multidões [13].

Um aspecto digno de nota é que os discípulos executaram a ordem de Cristo. Eles realmente alimentaram a multidão quando se associaram a Jesus nesse ato. O que cada cristão pode aprender é que, não importa o quanto sua tarefa lhe pareça impossível, com a ajuda divina tudo pode ser feito. “Porque para Deus nada é impossível” (Lc 1.37) [14].

Apresente a Jesus o pouco que você tem e deixe o Senhor fazer o que tem que ser feito. Nós não temos o poder da multiplicação, mas temos um Deus que tem. O milagre tem início com aquilo que temos em mãos (2R 4.1-7).  

Quinto – Jesus multiplica de tal forma que todos saem alimentados (Lc 9.17). As pessoas não se limitaram a receber um lanche mínimo, mas de acordo com a graça abundante de Deus, todos comeram e ficaram satisfeitos. Satisfeito traduz uma forma do verbo chortazo, que foi originalmente usado para descrever os animais de engorda, que se fartaram até que eles não poderiam comer mais. As pessoas comeram até que eles estavam saciados.

Ralph Earle diz que o verbo chortazo (ficaram satisfeitas) vem do substantivo chortos, “grama”. Era usado principalmente para animais pastando. O quadro geral é do gado comendo até ficar saciado e depois se deitando satisfeito sobre a grama [15]. Somos ovelhas do seu pasto (Sl 100.3). É Ele quem nos alimenta. Seja com o alimento físico, seja com o alimento espiritual.   

Sexto – O desperdício não é aceitável no reino de Deus (Lc 9.17). Jesus tem não apenas provisão suficiente, mas com sobra. E o que sobra deve ser guardado. Não se deve jogar fora.   

Em sua provisão de abundante de alimento, Jesus não esqueceu a sua própria. Após a refeição, os pedaços dos pães e dos peixes (Mc 6.43) que sobraram foram apanhados pelos apóstolos. Nada foi desperdiçado; a quantidade de sobra de alimento era exatamente o suficiente para atender as necessidades dos Doze.

4 – A INTERVENÇÃO DE JESUS EM NOSSAS CRISES.

Quando chegam os problemas e nos deparamos com problemas semelhantes, a pergunta que geralmente é feita é esta: “como e onde compraremos pão?”. Por que o Senhor permite que passemos por tamanhas crises?

1º - Eu entendo que Deus permite passarmos por estas crises para que possamos ter experiências com Ele. Crescimento espiritual. É diante das crises que nós descobrimos um Deus que pode suprir todas as nossas necessidades, não os nossos caprichos. Observe que o pão era de cevada, não era um pão especial. O problema que vejo na vida de muitas pessoas é que na hora da crise querem continuar sendo alimentados com o melhor, não se contentam com o mais simples.

Meu irmão, na hora da crise devemos fazer escolhas difíceis e temos que cortar gastos. Na hora da crise Deus opera milagres tremendos em nossas vidas, mas Ele não tem obrigação nenhuma de manter os nossos luxos e caprichos.

Eu conheço uma pessoa que ficou seis anos desempregado, vivia de empréstimos. Um dia conversando com ele, ele me disse que não abria mão do seu queijo, do seu presunto e do seu café a vácuo. Tem gente que não aprende nem na crise!

2º - Para descobrirmos que por melhor que sejam as nossas soluções a resposta final vem de Deus. Os discípulos achavam que deveria despedir a multidão, mas o Senhor queria lhes mostrar que Ele tinha a solução.

Muitas vezes iremos passar por experiências semelhantes. Muitas vezes nós temos tão pouco para sustentar a tantos que ficamos atordoados. Mas é nessa hora que temos que crer na intervenção divina.

3º - Devemos entender que antes do problema ser nosso, é dele. Jesus já havia visto a multidão. Ele bem sabia da carência que eles tinham, mas Ele já tinha a solução. Diante disso podemos entender que Ele irá intervir.

4º - Jesus permite que passemos por tais situações para revelar qual tipo de fé é a nossa. Em quem temos depositado a nossa fé? Nos bens materiais ou no Senhor provedor de todas as coisas? Fé quando tudo vai bem é fácil, mas ela tem que entrar em ação quando tudo vai mal. É confiar na intervenção divina, não na minha e nem na sua solução, mas na dele.

CONCLUSÃO

Eu quero concluir dizendo que para Deus não há impossível. Que Ele faz muito mais do que pensamos. Mas não quer dizer que a solução do Senhor seja a nossa solução. Ele sempre nos surpreende.

As crises vem e vão, mas nunca viveremos sem elas. Ela faz parte da nossa vida. A grande questão é como a enfrentamos. Se teimaremos em pôr em prática as nossas soluções ou buscaremos do Senhor a solução.

O Senhor ainda hoje multiplica pão e peixe, mas para isso acontecer temos que apresenta-lo o que temos e seguir a Sua orientação.

Pense nisso!

Bibliografia

1 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p.157.

2 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 135.

3 – MacArthur, John. Comentário Bíblico MacArthur, João, Editora Thomas Nelson, Rio de Janeiro, RJ, 2019, p. 1332.

4 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 135.

5 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 288.

6 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário, Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1986, p.158.

7 – Edwards, James R. O Comentário de Marcos, Ed. Sheed, Santo Amaro, SP, 2018, p. 247.

8 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 289.

9 – Carson, D. A. O Comentário de Mateus, Editora Shedd, Santo Amaro, SP, 2010, p. 401.

10 – Carson, D. A. O Comentário de João, Editora Shedd, Santo Amaro, SP, 3ª reimpressão 2017, p. 271.

11 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 289.

12 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 137.  

13 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 289.

14 – Earle, Ralph. Comentário Bíblico Beacon, Mateus, vol. 6, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 109.

15 – Ibidem, p. 109.

domingo, 18 de julho de 2021

A MISSÃO DOS DOZE APÓSTOLOS

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 9-1-9

INTRODUÇÃO

Esta primeira convocação dos apóstolos no Evangelho de Lucas tem um paralelo com Mateus 10.1-42 e Marcos 6.7-12. Em Mateus, antes desta convocação, nós vemos a relação do nome dos doze apóstolos. Em Mateus este texto é mais longo e mais detalhado. No Evangelho de Mateus o Senhor os alerta a respeito de como eles seriam recebidos durante a sua missão e, posteriormente, quando saíssem para ministrar a Palavra pelo mundo. Em Lucas e Marcos esse texto a mais sucinto, mas não menos importante e com lições preciosas para nos ensinar.

Vamos meditar nessa passagem a partir do Evangelho de Lucas, mas iremos nos utilizar também dos outros textos paralelos, principalmente do Evangelho de Mateus para um melhor entendimento dessa passagem.

Vejamos quais as lições que esse texto tem a nos ensinar.

1 – NINGUÉM PODE PREGAR O EVANGELHO SEM UMA ÍNTIMA COMUNHÃO COM JESUS (Lc 9.1,2).  

O texto de Lucas diz que o Senhor “convocando os seus doze discípulos” (Lc 9.1a). O discípulos eram seus. Foram tirados do mundo (Jo 17.13-16). Andavam com Jesus. Ouviam a mensagem do Reino. Viram os sinais e prodígios que Ele operava. Esses homens não andavam dispersos seguindo a outros mestres, eram pessoas que tinham um relacionamento íntimo com Jesus. Por isso que o Senhor os comissionou para essa tarefa.

Devido a essa íntima comunhão com Jesus, podemos destacar quatro coisas importantes:

1º - A vocação é pessoal (Lc 9.1). Jesus chama os doze para junto de si. Antes de iniciarem seu serviço, seu serviço missionário, eles têm de chegar primeiro ao Senhor, a fim de receberem dele a vocação e a autorização. Somente depois disso poderão cumprir sua missão, sua tarefa, somente então poderão ir às pessoas. Isso é digno de nota. O envio somente é possível a partir da vocação pessoal [1].

Jesus envia os doze para uma grande jornada evangelística. A palavra grega apesteilen, traduzida por “enviou”, vem da mesma raiz da palavra grega traduzida por “apóstolos”. Marcos diz que Jesus os envia de dois em dois (Mc 6.7) [2]. Quando lemos Atos 13 vemos que o Senhor é quem comissiona Barnabé e Saulo para a obra missionária (At 13.2,3). Hoje, infelizmente, muitos têm comissionado a si mesmos para a obra e dizem que o Senhor os chamou – como desse alguém uma vez: “Tem o pastor chamado e o chamado pastor”. Devido a isso, temos visto muitos escândalos no seio da igreja. E a maioria desses “comissionados” sem nenhuma formação teológica.    

2º - O Senhor os capacitou para a missão (Lc 9.1b). A capacidade dos apóstolos de realizarem curas era um dom especial que servia para autenticar seu ministério (ver Rm 15.18, 19; 2Co 12.12; Hb 2.1-4). Os milagres eram uma prova de que o Senhor os havia enviado e de que operava por meio deles (Mc 16.20). Hoje, usamos a Palavra de Deus para testar o ministério de uma pessoa (1Jo 2.18-29; 4.1-6). Os milagres, por si mesmos, não provam que uma pessoa foi, verdadeiramente, enviada por Deus, pois Satanás também é capaz de realizar falsos ministérios e de fazer coisas prodigiosas (Mt 24.24; 2Co 11.13-15; 2 Ts 2.9,10) [2].

A autoridade dos apóstolos procedia do Senhor, não vinha deles mesmos. O homem por si só não pode fazer nada. Quando Paulo e Barnabé entraram na cidade de Listra curaram um homem coxo de nascença, devido a isso, as pessoas pensavam que eles eram deuses. “E chamavam Júpiter a Barnabé, e Mercúrio a Paulo; porque este era o que falava” (At 14.12). Mas veja qual foi a reação de Paulo e Barnabé diante desse fato: “Ouvindo, porém, isto os apóstolos Barnabé e Paulo, rasgaram as suas vestes, e saltaram para o meio da multidão, clamando, e dizendo: Senhores, por que fazeis essas coisas? Nós também somos homens como vós, sujeitos às mesmas paixões, e vos anunciamos que vos convertais dessas vaidades ao Deus vivo, que fez o céu, e a terra, o mar, e tudo quanto há neles; o qual nos tempos passados deixou andar todas as nações em seus próprios caminhos” (At 14.14-16).

Eles não aceitaram adoração em hipótese alguma. No entanto, hoje temos visto alguns líderes não só sendo adorados como recebendo “primícias” (dinheiro), beijo nos pés com oferta dada após o beijo... e tantas outras aberrações. Enquanto Barnabé e Paulo gritam para não fazerem tal coisa, esses ditos líderes fazem totalmente ao contrário.

3º - O Senhor os envia para pregar o Evangelho do Reino (Lc 9.2). A mensagem não era dos apóstolos, a mensagem que eles deveriam pregar era a mensagem do reino de Deus. A mensagem que eles vinham ouvindo Jesus pregar. Os discípulos não criaram a mensagem; apenas a entregaram. Não levaram aos homens sua opinião, mas o evangelho do reino. Essa mensagem deveria ser pregada aos ouvidos e aos olhos. Eles deveriam pregar a proximidade do reino, curar os enfermos, ressuscitar os mortos e libertar os endemoninhados. A cura e a libertação fazem parte do evangelho [4].

O púlpito é o lugar onde as maiores vitórias do evangelho têm sido conquistadas, e a igreja que faz bastante para o avanço do verdadeiro cristianismo é aquela que valoriza a pregação [5]. O pregador não é dono da mensagem, ele é o seu arauto. Ele tem por função ministrar o que está nas Escrituras e não invencionices como temos visto por aí.

4º - A missão deveria ser realizada sem nenhuma recompensa financeira (Mt 10.8). “De graça recebestes, de graça dai”. Charles Spurgeon comentando sobre esse texto diz que tudo isso deveria ser feito sem dinheiro ou recompensa: as suas capacidades não tinham sido compradas, seus milagres não deveriam ser vendidos [6]. A mensagem em seus lábios e o poder manifesto não vinham deles, mas do Senhor que os havia comissionado. O poder do Evangelho e os milagres provinham da graça e da misericórdia de Deus, que, primeiramente, os havia alcançado, agora eles deveriam entregar a outros. Foi assim que o Senhor fez com o endemoninhado gadareno depois de liberto (Lc 8.39).

Não cabia aos apóstolos se aproveitar na desgraça alheia para alcançar o enriquecimento pessoal, coisa comum nos dias de hoje. Aliás, esse texto tem sido negligenciado em muitas “ditas” igrejas. Eu nunca ouvi falar em campanhas de cura, libertação e pregação da palavra sem que não aja a obrigatoriedade de ofertas. É interessante que nessas igrejas não se fala muito em dízimo, mas há uma grande ênfase nas ofertas alçadas.

Nessas campanhas fala-se em cura, libertação e enriquecimento pessoal. Mas as únicas pessoas que realmente ficam ricas são os líderes dessas igrejas, os frequentadores continuam enfrentando as mesmas lutas e deficiência financeira.   

2 – A PROVISÃO VEM DO SENHOR PARA OS APÓSTOLOS (Lc 9.3-5). 

Assim como Jesus concedeu a seus emissários a necessária força e autorização para o serviço, assim ele lhes deu também as necessárias orientações para o início da jornada e o transcurso da viagem.

Recomenda-lhes que partam tão livres e desprendidos como estão naquele instante. – A bagagem para uma viagem consiste primordialmente de três coisas: dinheiro, mantimentos e roupas. Mateus é o mais severo ao relatar a proibição de levar dinheiro, citando três espécies de metais: ouro, prata e cobre. Marcos menciona apenas cobre. Lucas fala somente de prata, a expressão usual para dinheiro.

Jesus, que dessa maneira proibia aos discípulos qualquer fardo para a jornada, permitiu e ordenou-lhes que esperassem pela fé tudo o que fosse necessário. De antemão podiam ter certeza a respeito daquilo que mais tarde confessariam: que não sofreram carência de nada (cf. Lc 22.35) [7].

Com isso em mente, podemos destacar quatro coisas:

1º - Os apóstolos deveriam confiar no provedor, e não na provisão (Lc 9.3). Eles não deveriam levar ouro, prata, cobre, túnica extra, alforje ou dinheiro. Deviam confiar na provisão divina enquanto faziam a obra. Jesus estava lhes mostrando que o trabalhador é digno do seu salário (Mt 10.10c). Jesus queria que eles fossem adequadamente supridos, mas não a ponto de cessarem de viver pela fé. Jesus alerta sobre o perigo da ostentação [8].

Creio que esse tem sido um dos grandes problemas na igreja, muitos líderes gostam de ostentar. Muitos desses líderes vivem em comunidades modestas, mas gostam de mostrar os seus bons carros, suas roupas (etiquetas), suas casas... muitos desses líderes pregam um evangelho que não condiz com as Escrituras. Pregam um evangelho espúrio. Eles dizem que a fé traz benefícios materiais e físicos, quem não os têm é porque não tem fé. No entanto, a Bíblia nunca ensinou tal coisa.   

2º - Eles deveriam ser gratos pela acolhida (Lc 9.4). O Senhor deu aos doze também uma prescrição especial para o caso de serem acolhidos em uma casa. Os discípulos não devem visar o conforto físico, como os falsos mestres (Rm 16.18), isto é, trocar de hospedagem quando não for suficientemente confortável, nem preferir visitar os ricos em detrimentos dos pobres. – Devem despedir-se de uma casa hospitaleira em que entraram somente no momento em que saem do local a que se destina a pregação para anunciar o evangelho em outro local [9].

3º - Nem todos darão atenção a mensagem do Evangelho (Lc 9.5). Após viajarem através de território pagão, os judeus tinham o costume de sacudir o pó de suas sandálias e de sua roupa antes de entrarem na Terra Santa. Tinham medo que, se não fizessem isso, em seu próprio país os objetos leviticamente limpos, bem como eles próprios, viessem a tomar-se impuros. Portanto, o que Jesus aqui está dizendo é que qualquer lugar – seja uma casa, uma vila, uma cidade, um vilarejo, que se negue aceitar o evangelho, deve ser considerado imundo e ser tratado como tal [10].

Assim, Jesus disse-lhes que, quando saíssem da cidade que os rejeitou, eles deveriam sacudir o pó dos seus pés, em testemunho contra eles. Esta cidade deveria ser tratada como uma cidade gentílica. Ressaltando a importância dos apóstolos como Seus mensageiros, Jesus solenemente advertiu que “Em verdade vos digo que, no dia do juízo, haverá menos rigor para o país de Sodoma e Gomorra do que para aquela cidade” do que para aqueles que rejeitaram sua mensagem (Mt 10.15). A ordem do Senhor reflete as graves consequências de rejeitar o Evangelho (1Co 16.22; 2Ts 1.6-9).

Afastar-se dos que rejeitam a mensagem do Evangelho, porque tem um coração duro não era apenas uma questão de julgamento, mas também uma questão de prioridade. O nosso tempo é precioso demais para desperdiçarmos com aqueles que se endureceram contra a verdade.

Jesus afirmou esse princípio em uma declaração chocante para seus seguidores: “Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem” (Mt 7.6).

Esta analogia de Jesus em relação aos cães e aos porcos representam aqueles que rejeitam o evangelho de forma permanente e o tratam com desdém absoluto. O que deve ter sido ainda mais surpreendente para os Doze era a identidade dos cães e dos porcos dos quais o Senhor os advertiu. Uma vez que os apóstolos foram enviados nesta missão para o povo judeu, os cães e porcos não eram gentios pagãos impuros, mas judeus ultra religiosos. Quando confrontados com a rejeição de um coração duro, era para os apóstolos dar-lhes uma advertência do juízo que enfrentariam e seguir em frente.

Isso é uma grande lição para nós também. Muitas vezes insistimos em pregar para pessoas que desdenham do Evangelho, que ridicularizam a nossa fé, que menosprezam o nosso Salvador. Devemos agora viver o Evangelho, que eles vejam em nós, mediante o nosso testemunho o Salvador em nossas vidas. Muitas vezes queremos fazer o papel que cabe ao Espírito Santo, que é convencer o homem do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8).  

4º - Esse texto não isenta a igreja do cuidado digno para os seus líderes e missionários. Usar este texto para condenar qualquer provisão dada a pregadores e missionários, em forma de dinheiro e roupas, é contrário a Escritura. Nem os apóstolos João (cf. 3Jo 5-8) e Paulo (2Co 11.8) e nem mesmo Jesus (Lc 22.36) se sobrecarregaram com a obediência literal a essas palavras. É preciso levar em consideração que Jesus enviava seus mensageiros para as cidades e localidades de Israel, onde todos os seus servos, como também os levitas, tinham direito ao sustento (Nm 18.31; cf. 1Co 9.13s) [11].

Devemos entender que o contexto histórico em que esse texto foi escrito. Na época de Jesus era muito comum dar hospedagem para os viajantes. A hospitalidade era um dever sagrado no Oriente. Sempre que chegava uma visita a uma casa judaica era recebida com muita atenção. A hospitalidade era um dos traços marcantes da sociedade judaica, e tornou-se também uma característica dos cristãos primitivos. Isso não quer dizer que não houvesse indivíduos mal-educados e até insociáveis, mas a atitude mais comum entre eles era de franca generosidade.

Da hospitalidade, faziam parte a saudação, lavar os pés, oferecer comida, proteger e acompanhar na despedida. Os pregadores não podem violentar a cultura do povo ao pregar a Palavra de Deus. O evangelho deve ser anunciado dentro do contexto cultural de cada povo [12].

3 – O MUNDO DESFIGURA A IMAGEM DE JESUS E SUA MENSAGEM (Lc 9.6-9).

Quando Herodes ouviu falar de tudo o que estava acontecendo em conexão com o ministério da pregação dos Doze, ele ficou muito perplexo. Os Doze estavam dando toda a glória e crédito para Jesus mediante sua pregação poderosa e milagres (Atos 3. 11-12). Mas quem foi Jesus? Isso foi dito por alguns que Ele era João Batista ressuscitado dos mortos e isso foi particularmente preocupante para Herodes. Para aumentar a confusão, estava sendo dito por alguns que Elias tinha aparecido, e por outros que um dos antigos profetas tinha ressuscitado (Mt 16.14; 17.10). No entanto, Herodes, assombrado por sua execução indevida de João Batista, a quem ele mesmo reconheceu ter sido “um homem justo e santo” (Mc 6.20), disse: “Eu mesmo tive João decapitado”. De acordo com o relato de Marcos, Herodes, atormentado por sua consciência culpada, continuou dizendo: “João, que mandei degolar, ressuscitou!” (Mc 6.16). Herodes é o símbolo de um mundo que jaz no maligno, que tem sua consciência cauterizada ou, muitas vezes, atormentada pelo pecado. 

Com isso em mente, podemos destacar duas coisas:

1º - O mundo continua confuso em relação a Jesus. Tragicamente, a maioria das pessoas hoje continuam dando a resposta errada em relação a Jesus. O mais triste é que as respostas erradas em relação a Jesus estão muitas vezes aonde isso não poderia acontecer, dentro da igreja. Em muitas igrejas Jesus têm sido apresentado como curandeiro, psicólogo, provedor de bens materiais, menino mimado que chora porque ninguém o aceita... menos como Soberano Senhor, Rei dos reis, o justo Juiz, Salvador do mundo.

Como disse Rienecker: “quem não teme a Deus, teme coisas supersticiosas” [13].   

2º - Essa questão da identidade de Jesus é a mais importante já feita e respondida. A resposta que cada pessoa dá em relação a Jesus determinará o seu destino eterno, no inferno ou no céu. Devido a sua importância, Lucas registrou repetidamente casos de pessoas fazendo essa pergunta (cf. v 18; 5.21; 7.20, 49; 8.25; 22.67, 70; 23.3.). Mas Pedro, falando para os discípulos (Mt 16.16), um centurião romano na cruz (Mc 15.39), e Tomé (Jo 20.28), entre outros, deu a resposta correta: “Jesus é Deus Filho, o Messias, Salvador e Senhor”.

Como disse o apóstolo Paulo: “Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, a saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido. Porquanto não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam” (Rm 10.8-12).

Se o mundo está confuso em relação a Jesus, nós, seus servos não podemos estar. Precisamos ter uma fé firme, conhecendo as Escrituras e pregando e vivendo um Evangelho cristocêntrico. O mundo precisa glorificar a Deus mediante nosso testemunho diário. Como disse Jesus em Mateus 5.16: “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus”.

CONCLUSÃO

Os princípios contidos no envio do Senhor aos apóstolos são aplicáveis a todos os crentes no Senhor Jesus Cristo. Devemos ter em mente que a Grande Comissão (Mt 28.19,20), faz parte da igreja hoje. O Senhor disse que nos enviaria como ovelhas para o meio de lobos (Mt 10.16), mas também disse que estaria conosco até a consumação dos séculos (Mt 28.20).

Assim como os apóstolos nós também somos comissionados a pregar o Evangelho do Reino, por onde quer que o Senhor nos leve. E pregar é mais do que falar, é viver. É testemunhar com a vida, palavras e obras. O mundo, ainda que zombe da nossa fé, espera de nós um bom testemunho. Foi isso que o Doze fizeram, é isso que o Senhor espera de nós também.

Pense nisso! 

Bibliografia

1 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Mateus, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 1998. p. 111.

2 – Lopes, Hernandes Dias. Mateus, Jesus, o Rei dos reis, Editora Hagnos, São Paulo, 2019, p. 330.

3 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 265.

4 – Lopes, Hernandes Dias. Mateus, Jesus, o Rei dos reis, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2019, p. 332.

5 – Ryle, J. C. Meditações no Evangelho de Lucas, Ed. Fiel, S. J. dos Campos, SP, 2002, p. 140.

6 – Spurgeon, C. H. O Evangelho Segundo Mateus, a narrativa do Rei, Editora Hagnos, SP, 2018, p. 182.

7 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 133.

8 – Lopes, Hernandes Dias. Mateus, Jesus, o Rei dos reis, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2019, p. 333.

9 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 133.

10 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 1, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 631.

11 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 133.

12 – Lopes, Hernandes Dias. Mateus, Jesus, o Rei dos reis, Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2019, p. 334.

13 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 134.

sábado, 3 de julho de 2021

O PODER DE JESUS SOBRE A MORTE – A RESSUREIÇÃO DA FILHA DE JAIRO

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 8.40-42,49-56

INTRODUÇÃO

Desde a queda, a nossa vida tem sido sujeita a doenças, desastres e mortes. A tragédia, tristeza, miséria e sofrimento fazem parte da existência humana desde então. A morte é uma experiência universal – aliás, ela é bem democrática, ela vem para todos – e apesar de todo avanço da medicina, o máximo que se pode fazer é adiar o inevitável.

Apesar de toda dor que enfrentamos, todo o contexto deste texto mostra que Jesus é a esperança dos desesperançados. O impossível pode acontecer quando Jesus intervém. Ele acalmou o mar e fez cessar o vento quando os discípulos estavam quase a perecer (Lc 8.22-25). Ele libertou de uma legião de demônios um homem enjeitado pela família e pela sociedade e fez dele um missionário (Lc 8.26-39). Ele curou uma mulher hemorrágica, depois que todos os recursos da medicina haviam se esgotado (Lc 8.43-48). Agora, Jesus ressuscita a filha única de um líder religioso, mostrando que também tem poder sobre a morte (8.40-42,49-56) [1].

Esse é um contexto de milagres aonde a graça do Senhor é manifesta à pessoas angustiadas e sem esperança, pessoas que já não têm mais a quem recorrer. Pessoas que buscam em Jesus o refrigério para as suas almas (Sl 23.3). Pessoas que o buscam e acham nele a resposta para o fim de seus males. Como disse o profeta Isaías a respeito do Messias que viria: “[Ele] não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega” (Is 42.3). Jesus entendeu o sofrimento associado com a doença e morte. Ele era, como Isaías predisse: “Um homem de dores, e experimentado no sofrimento” (Is 53.3).

Quais as lições que podemos tirar desse texto?

1 – DEVEMOS LEVAR A CRISTO AS NOSSAS CAUSAS IMPOSSÍVEIS (Lc 8.40-42).

Jairo era o chefe da sinagoga era o ancião encarregado dos cultos públicos e da manutenção do local de reuniões. Providenciava para que houvesse pessoas para orar, ler as Escrituras e dar o sermão. Presidia os outros anciãos da sinagoga e costumava ser um homem rico e de excelente reputação [2].

Podemos destacar três fatos nesse texto:

1º - O senso de urgência fez Jairo ir a Jesus (Lc 8.41,42). Jairo não veio como um representante da elite religiosa, mas como um pai aflito cuja única filha, com cerca de doze anos, estava morrendo – literalmente a morte (Mc 5.23). Ele foi o primeiro a abrir caminho na aglomeração de curiosos. Em seu desespero, Jairo esqueceu “os seus preconceitos... a sua dignidade... o seu orgulho... os seus amigos” e caiu aos pés de Jesus. Nenhum homem ora de verdade, até que sinta-se esmagado a ponto de cair de joelhos [3]. 

Todos os outros recursos para salvar a menina haviam chegado ao fim. Jairo, então, busca a Jesus com um profundo senso de urgência. O sofrimento muitas vezes pavimenta o nosso caminho para Deus. A aflição é frequentemente a voz de Deus. As aflições tornam-se fontes de bênçãos quando elas nos levam a Jesus [4]. Como disse Naum: “O Senhor tem o seu caminho na tormenta” (Na 1.3).

2º - Jairo teve que superar obstáculos para ir a Cristo. A quanto tempo que sua filha vinha doente? Imagino a sua esposa dizendo para Jairo que a menina não estava bem, que a menina não estava respondendo bem ao tratamento. E a medida que os dias, quem sabe semanas ou meses, a menina ia só piorando; sua vida estava se esvaindo lentamente. Diante disso, Jairo toma uma decisão radical: buscar socorro em Jesus. Mas para isso, Jairo deve que superar alguns osbstáculos.

a) O primeiro obstáculo foi sua posição social. Jairo não era um homem qualquer, ele era o líder de uma sinagoga. Ele era um homem respeitado por toda a comunidade de Cafarnaum. Não ficaria bem a comunidade tomar conhecimento da sua fragilidade diante da doença da sua filha. No entanto, diante da crise que havia se instalado em sua casa, Jairo teve que engolir o seu orgulho e procurar ajuda em Jesus.

A maioria das pessoas não gosta de expor as suas dificuldades. Principalmente hoje com as redes sociais – Instagram em especial – muitas pessoas para terem seguidores procuram se apresentar como pessoas sempre vitoriosas, que tem a resposta para tudo e para todos, são os influenciadores digitais. Elas se apresentam como pessoas bem sucedidas na vida. Gente que não passa por crise, que não chora, que supera tudo. Porque não quer perder seguidores. Elas, afinal de contas, são influenciadoras digitais. Mas essa não é a realidade humana. A realidade nos mostra que somos frágeis, somos fracos, somos humanos.

Nossa posição social não nos faz invencíveis. Não quero com isso dizer que devemos expor nossas crises nas redes sociais, mas devemos, com o coração aberto nos expor a Jesus e lhe pedir socorro. E parar de bancar o super-herói nas redes sociais.   

Quem sabe a sua crise e aflição seja um filho, uma filha, ou uma dependência, um trauma que lhe esmaga a alma... são muitas coisas que nos levam a angustia e ao desespero, mas é nessa hora que devemos correr para Jesus e lhe pedir para entrar em nossa casa, em nossa vida, em nosso mundo. Vasculhar a nossa alma e nos fazer reviver a esperança, arrancar o mal que nos sufoca e nos fazer voltar a sorrir o sorriso de felicidade.

b) O segundo obstáculo foi oposição dos líderes religiosos. A essas alturas, os escribas e fariseus já se mancomunavam com os herodianos para matarem Jesus (Mc 3.6). As sinagogas estavam fechando as portas para o rabi da Galileia. Os líderes religiosos viam-no como uma ameaça à religião judaica. Jairo precisou romper com o medo da crítica ou mesmo da retaliação proveniente dos maiores líderes religiosos da nação [5].

Tem muita gente para não ficar mal vista entre seus amigos preferem passar por crises que ir à Cristo. Jairo na hora que a situação apertou ele rompeu com tudo isso e foi buscar socorro em Jesus.

Posso imaginar as ameaças dos amigos de Jairo lhe dizendo para não fazer tal coisa. Que Jesus era a um embusteiro, que era um charlatão. Jairo, certamente bradaram os amigos e familiares, se você for procura-lo romperemos a nossa amizade com você. Você não será mais bem visto na comunidade. Você tem um nome a zelar.

O que, provavelmente, ocorreu com Jairo, tem ocorrido nos dias de hoje também.

c) O terceiro obstáculo foi o tempo. Jairo estava com a filha em casa as portas da morte. Ele corre até Jesus e pede que vá com ele até a sua casa e cure a sua filhinha. Mas no meio do caminho acontece esse episódio da cura da mulher hemorrágica. Jesus para e pergunta quem lhe havia tocado, nada de resposta, aliás, Pedro e os outros apóstolos dizem que todos lhe tocavam. E Jairo esperando. Imagino como isso estava sendo angustiante para ele essa espera. A multidão já atrapalhava ir mais rápido, agora isso.

Quantas vezes, enquanto se aguarda o milagre, outras pessoas é que são agraciadas, beneficiadas, curadas, têm seus problemas resolvidos. Jesus lhes atendem, e nós esperando... O tempo passa, e as dificuldades só vão se agravando! Isso gera ainda mais angustia e ansiedade; gera amargura.

Mas é nessa hora que devemos parar e entender que enquanto Jesus caminha para nossa casa para operar o milagre, outras pessoas vão sendo agraciadas por Deus. Isso deveria renovar a nossa fé e não nos angustiar. A nossa hora também está chegando.  

d) O quarto obstáculo era o preconceito religioso. Enquanto a mulher com hemorragia recebe graça, o pai da moribunda vive o inferno. Ele se metera com esse “marginalizado”, ajoelhara-se publicamente diante dele. Mas Jesus permite que o detenham, chega a tornar-se ritualmente impuro pelo toque dessa mulher. Será que Jairo ainda deve deixá-lo entrar em sua casa? Não estaria ainda em tempo de cair fora de todo esse negócio? [6].

Essa talvez tenha sido uma das mais difíceis barreiras que Jairo teve que superar. Dentro do contexto religioso, quando uma pessoa impura tocava em algo ou alguém, tudo ficava impuro também. Como Jairo poderia deixar Jesus entrar em sua casa agora? Mas há um detalhe que certamente chamou a atenção de Jairo, a impura quando tocou Jesus ficou purificada. Seja Jesus tocando o impuro, seja o impuro tocando em Jesus, o milagre acontece.

e) O quinto obstáculo é a dura realidade da morte (Lc 8.49). Podemos imaginar a intensa ansiedade de Jairo durante a interrupção. Se ele sentiu algum medo, este foi confirmado quando algumas almas insensíveis se expressaram estando Jesus ainda falando com a mulher, e contaram que a sua filha estava morta. A pergunta: para que enfadas mais o Mestre? dá a entender que consideravam que Jairo o estava aborrecendo. Eles não tinham a expectativa de uma ressurreição [7].

A imagem da realidade é um grande empecilho, que nos ofusca a visão da solução divina. É nessa hora que devemos parar de ouvir as pessoas e prestar atenção no que Jesus está falando. Observe o que Jesus diz para Jairo: “Jesus, porém, ouvindo-o, respondeu-lhe, dizendo: Não temas; crê somente, e será salva” (Lc 8.50).

Creio que o milagre da mulher do fluxo de sangue foi uma forma de Jesus trabalhar no coração de Jairo, principalmente pela dura palavra que iria ouvir dos da sua casa. 

2 – O MILAGRE ENTRA NA CASA DE JAIRO (Lc 8.51-56).

Quando Jairo saiu de casa, sua filha estava extremamente enferma, prestes a morrer. Mas quando Jesus se separou da multidão e o acompanhou, a menina já estava morta. Os amigos de Jairo pensavam que Jesus só podia ajudar pessoas vivas, de modo que aconselharam Jairo a desistir e voltar para casa. Mas Jesus encorajou o pai transtornado com uma palavra de esperança. Jesus assumiu o controle da situação e ordenou que todos parassem de chorar, pois a menina não estava morta, mas apenas seu espírito havia deixado o corpo (comparar Lc 8.55 com Tg 2.26), para Jesus, a morte não passava de um sono [8].

A intervenção divina não começou quando Jesus chegou a casa de Jairo. A intervenção do Senhor começou muito antes. Vejamos os paços da intervenção divina na vida de Jairo.

1º - O primeiro paço da intervenção divina começou quando Jairo se propõe a ir a Cristo. O milagre aconteceu primeiramente no coração de Jairo que superou todas as barreiras para ir a Jesus.

Três fatos podemos destacar na atitude de Jairo perante Jesus:

a) Jairo se humilhou diante de Jesus. Ele se prostrou e reconheceu que estava diante de alguém maior do que ele, do que os líderes judaicos, do que a própria sinagoga. Reconheceu o poder de Jesus, prostrou-se e nada exigiu, mas pediu com humildade. Ele se curvou e não expôs seus predicados nem tentou tirar proveito da sua condição social ou posição religiosa. Não há lugar na terra mais alto do que aos pés de Jesus. Cair aos pés de Jesus é estar de pé.

b) Jairo clamou com perseverança (Mc 5.23). “E rogava-lhe muito, dizendo: Minha filha está à morte; rogo-te que venhas e lhe imponhas as mãos, para que sare, e viva”. Jairo não apenas suplica a Jesus, mas o faz com insistência. Ele persevera na oração. Ele tem uma causa e não está disposto a desistir dela. Não reivindica seus direitos, mas clama por misericórdia. Não estadeia seus méritos, mas se prostra aos pés do Senhor.

c) Jairo clamou com fé (Mc 5.23). Não há nenhuma dúvida no pedido de Jairo. Ele crê que Jesus tem poder para levantar a sua filha do leito da morte. Ele crê firmemente que Jesus tem a solução para a sua urgente necessidade. A fé de Jairo germinou no solo do sofrimento, foi severamente testada, mas também amavelmente encorajada [9].

2º - O segundo paço da intervenção divina foi quando Jesus decidiu intervir (Mc 5.24). “E foi Jesus com ele”. Jesus atendeu ao pedido desse pobre pai aflito o acompanhando até sua casa. Jesus poderia ter dado uma ordem como já havia feito outras vezes (Jo 4.46-54). Mas nessa ocasião Jesus acompanhou Jairo até a sua casa.

Isso nos mostra que o agir de Jesus não pode ser definido por nós, mas Ele decide agir, quando agir e como agir.

3º - O terceiro paço da intervenção divina foi quando Jesus renovou a fé de Jairo (Lc 8.49,50). Jairo sente medo. No momento não é fácil expulsar o medo. Só há uma maneira de fazê-lo, a saber: crer firmemente na presença, nas promessas, na compaixão e no poder de Deus em Cristo. É preciso tomar o positivo para expulsar o negativo (Rm 12.21). Por um ato de fé, Jairo deve aceitar a promessa de Cristo de que sua filha será curada, ou seja, será trazida de volta da morte. Ele precisa continuar crendo nisso (Mc 5.36) [10].

A fé precisa ser maior que a realidade da vida. Se cremos na intervenção divina precisamos dar ouvidos a Sua Palavra e não as palavras dos homens. A Bíblia é um livro de promessas, se aposse delas pela fé.

4º - O quarto paço da intervenção divina foi quando Jesus expulsa os incrédulos da casa de Jairo (Lc 8.51-54). Os pranteadores riram-se da ordem de Jesus, pois sabiam que a menina estava morta e que a morte era algo irreversível. Não sabiam, porém, que Jesus é “a ressurreição e a vida” (Jo 11.25,26). Acaso não havia trazido de volta à vida o filho da viúva? Não havia dito a João Batista que os mortos estavam sendo ressuscitados? (Lc 7.22). Ao que parece, os pranteadores não acreditavam nesses relatos e consideravam Jesus um louco [11]. Diante desse episódio, Jesus só deixou entrar Pedro, Tiago, João e os pais da menina. É melhor ter poucos crentes conosco do que está rodeado de uma multidão de incrédulos.

Duas coisas precisam ser destacadas aqui:

Primeiro, devemos evitar andar com incrédulos. Não devemos dar atenção a pessoas que veem a Palavra de Jesus como mentira ou, quando muito, algo a ser reavaliado. Pessoas assim abraçaram, ainda que inconscientemente, a teologia liberal. Essa teologia não vê a Bíblia como inerrante; o conceito de que Deus se revela ao homem e de que intervém e atua na história humana foram excluídos para esses teólogos.  

Segundo, observe que Jesus diz que a menina dormia. Para Jesus a morte não passa de um sono. Isso foi algo revolucionário aos ouvidos daquelas pessoas. Elas viam a morte como o fim de todas as coisas, mas Jesus mostra que a morte dos que nele creem é apenas um sono. Um descanso momentâneo. Para nós cristãos a morte não é fim, mas um até breve.

5º - O quinto paço da intervenção divina acontece quando levamos Jesus onde está o problema (Mc 5.24,40). “E Jesus foi com ele [...] e entrou onde a menina estava”. Os pais da menina levaram Jesus até onde a menina estava morta. Eles apresentaram a Cristo um cadáver. Está aqui, mas já está morta.

Para que possamos alcançar êxito no enfrentamento das nossas dores e problemas, temos que levar Jesus até o cerne deles. Qual tem sido o seu problema? Leve Jesus até ele, o apresente e deixe o resto por conta de Jesus.

6º - O sexto paço da intervenção divina acontece quando o Senhor ministra a bênção (Mc 5.41,42). “E, tomando a mão da menina, disse-lhe: Talita cumi; que, traduzido, é: Menina, a ti te digo, levanta-te. E logo a menina se levantou, e andava, pois já tinha doze anos; e assombraram-se com grande espanto”.

Qualquer ação divina na vida humana só se manifesta quando sua palavra é liberada. Foi assim na criação (Gn 1). É a palavra de Jesus que faz o milagre, abre novos horizontes, ressuscita os mortos.

7º - O sétimo paço da intervenção divina acontece quando obedecemos a Sua Palavra (Lc 8.55,56). Observe que Jesus deu-lhes uma ordem depois do milagre ocorrido.

Duas coisas aprendemos aqui: primeiro Se precisarmos de um milagre Deus opera, e segundo, manter o milagre depende de cada um de nós. A ressurreição restaurou tanto a vida como a saúde. Nenhum resquício de mal, nenhum vestígio de preocupação. O milagre foi completo, a vitória foi retumbante, e a alegria foi indizível.

Se Jesus ressuscitou seu casamento, cabe a você mantê-lo vivo. Se libertou você de algum mal, cabe a você evita-lo. O maior milagre é não depender de nenhum milagre, mas se precisarmos, temos um Deus que nos ama e que opera milagres. Mas cabe a cada um de nós manter o milagre.

CONCLUSÃO   

Jesus é a esperança dos desesperançados. Ele mostrou isso para o homem que não podia ser subjugado (8.26-39), para a mulher que não podia ser curada (8.43-48) e para o pai que recebeu a informação de que não poderia mais ser ajudado (8.49-36).

Coloque a sua causa também aos pés de Jesus, pois ele ainda caminha conosco e tem todo o poder para transformar o cenário de desesperança em celebração de grande alegria [12].

Bibliografia

1 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 275.

2 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 263.

3 – Sanner, A. Elwood. Comentário Bíblico Beacon, vol. 6, Marcos, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 255.

4 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 276.

5 – Ibidem, p. 277.

6 – Pohl, Adolf. O Evangelho de Marcos, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 1998. p. 128.

7 – Sanner, A. Elwood. Comentário Bíblico Beacon, vol. 6, Marcos, Ed. CPAD, Rio de Janeiro, RJ, 2006, p. 256.

8 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 263.

9 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 278.

10 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 1, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 614.

11 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 263.

12 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 283. 

domingo, 27 de junho de 2021

A CURA DA MULHER HEMORRÁGICA

Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 8.40-48

INTRODUÇÃO

O retorno de Jesus da região dos gadarenos para Cafarnaum (cf. Mt 9.1) é descrito por Lucas com a mesma clareza que Marcos. Ao contrário da atitude dos habitantes de Gadara, que rejeitaram o Senhor, aqui uma grande multidão esperava por ele com grande expectativa [1]. A multidão o comprimia, mas apenas duas pessoas se destacam nesse relato entrelaçado: Jairo e a mulher hemorrágica. Essas duas personagens nos ensinam alguns contrastes: Jairo era um líder da sinagoga; ela era uma mulher anônima; Jairo era um líder religioso; ela era excluída da comunidade religiosa; Jairo era rico; ela perdera todos os seus bens em vão buscando saúde; Jairo tivera a alegria de conviver doze anos com sua filhinha que agora estava à morte; ela sofria há doze anos de uma doença que a impedia de ser mãe; Jairo fez um pedido público a Jesus; ela se aproximou de Jesus com um toque silencioso e secreto. Jesus atende ambos, mas ela primeiro [2].

Apesar de ser contada duas histórias diferentes, ambas têm muitas coisas em comum. Observe os principais pontos comuns: nas histórias das duas mulheres estão as palavras “filha” (Mc 5.34,35; Lc 8.42,48), “doze anos” (Mc 5.25,42; Lc 42,43), ajoelhar-se (Mc 5.22,33; Lc 8.41,47), “temer” (Mc 5.33,36; Lc 8.47,50), fé (Mc 5.34,36; Lc 8.48,50) e “salvar” (Mc 5.23,34, Lc 8.48,50). As duas mulheres estão enfrentando a morte, uma espiritual, a outra fisicamente. Ambas são impuras em termos cerimoniais e experimentam o toque do Senhor da vida (Mc 5.27,41; Lc 8.44,54) [3].

Vamos agora nos deter na história da mulher hemorrágica e a bênção que ela alcançou ao tocar em Jesus, e quais as lições que podemos tirar para as nossas vidas:

1 – POR QUE ESTÁ MULHER TOCA EM JESUS COM TANTA FÉ?

O texto que estamos analisando nos responde a esta pergunta com várias respostas.

1º - Esta mulher tocou em Jesus com fé porque havia ouvido falar dele (Mc 5.27). No Evangelho de Marcos nos diz assim: “Ouvindo falar de Jesus, veio por detrás, entre a multidão, e tocou na sua veste”. O apóstolo Paulo nos diz em Romanos 10.17: “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus”.

Alguém contou para ela do que Jesus estava fazendo. Quantas pessoas eram libertas e curadas por Ele. Diante desse relato, ela se propôs a ir ao encontro Jesus. A fé foi despertada nela mediante o testemunho de alguém. Por isso não podemos deixar de testemunhar da graça e da misericórdia de Jesus. A graça e a misericórdia de Jesus agiram no passado, agem no presente e continuarão agindo no futuro.  

Como disse os apóstolos Pedro e João perante das autoridades judaicas: “Porque não podemos deixar de falar do que temos visto e ouvido” (At 4.20).  

2º - Esta mulher toca em Jesus com fé porque ela tinha uma grande necessidade (Lc 8.43). Esta mulher vinha sofrendo com esta hemorragia a doze anos. Era um sofrimento que vinha se prolongando no decorrer dos anos sem ver resultado no tratamento. Como disse Marcos: “...antes indo a pior” (Mc 5.26).

A questão maior não é ter um problema, mas ter consciência de que a pessoa tem um problema. Geralmente quatro coisas ocorrem que impedem a cura: (a) a pessoa não assume que tem um problema, (b) outros tentam amenizar o problema, (c) outros tentam terceirizar o problema – o problema é sempre o outro, e por fim, (c) tem gente que se acostuma com o problema. 

A cura começa com a conscientização de que nós nos encontramos doentes e precisamos buscar tratamento, e foi isso que esta mulher fez.

Alguém testemunhou do poder de Jesus para esta mulher e o Espírito Santo tocou em seu coração para buscar ocorro no Senhor. Ela creu que podia ser curada. Ela estava inquieta com aquela situação e resolveu mudar de uma vez por todas.

No entanto, o gatilho para uma pessoa reconhecer que precisa mudar, só dispara quando:

1) Acaba o conforto – Enquanto o que ela estiver vivendo de algum modo for confortável, ela não muda.

2) Conveniência – Se ainda houver conveniência, ela não muda.

3) Sentindo prazer – Se for mantida a sensação de prazer no problema que ela enfrenta, ela não muda.

O ser humano é muito complexo, por isso que o Senhor age com cada pessoa de forma diferente. Tanto que muitos tocavam em Jesus, mas só esta mulher foi curada. Não basta tocar em Cristo, o que gera o milagre é a maneira como Ele é tocado.   

3º - Esta mulher toca em Jesus com fé porque ela se negou a sepultar os seus sonhos (Lc 8.43). Aquela mulher perdia sangue diariamente. Ela tinha uma anemia profunda e uma fraqueza constante. O sangue é símbolo da vida. Seu diagnóstico era sombrio; ela parecia morrer pouco a pouco; a vida parecia esvair-se aos borbotões do seu corpo. Ela não apenas estava perdendo a vida, como não podia gerar vida. Seu ventre, em vez de ser um canteiro de vida, tinha se tornado o deserto da morte [4].

No entanto, ao ouvir falar de Jesus ela viu a possibilidade de ser curada desse mal e ver seus sonhos se tornarem realidade. Ver seus projetos, antes sepultados, ressuscitarem. É isso que Jesus faz, Ele traz renovo para as nossas vidas. Ele tem poder para nos tirar dos nossos buracos existenciais e nos fazer respirar novos ares. Ele nos faz sonhar com a certeza de que o sonho se tornará realidade.

4º - Esta mulher toca em Jesus com fé porque ela creu no médico dos médicos (Lc 8.43). Lucas não informa se essa mulher doente era atribulada ou explorada pelos médicos. Tão-somente menciona que ela não podia ser curada por nenhum médico [5].

Marcos declara: “Tinha sofrido muito nas mãos de muitos médicos”. Ainda que isso fosse verdade, não surpreende que Lucas, sendo ele mesmo um médico (Cl 4.14), expresse o fato de que a enfermidade dessa mulher era, humanamente falando, incurável à luz da terapêutica de seu tempo [6]. E quanto mais médicos procurava e tratamentos fazia, mais ela perdia a esperança e todos os seus haveres.

Mas quando ela ouviu falar de Jesus e das curas que Ele estava realizando, imediatamente ela tomou uma decisão: Vou procurar o médico dos médicos. Vou me tratar com quem pode resolver o meu problema.

Hoje, em meio a tantos recursos na medicina, nós não podemos depositar a nossa confiança de forma cega nos médicos e nos tratamentos. Se Deus não olhar para nós e por nós com misericórdia e graça nós vamos padecer nas mãos dos médicos, usando vários medicamentos. Não quero com isso dizer que não devemos procurar os médicos para nos tratarmos de alguma enfermidade. Eu quero dizer que a nossa confiança está no Senhor que usa os médicos e os medicamentos.

Primeiro vem Deus e a nossa fé nele, depois a nossa confiança que Ele abençoará os médicos e o tratamento. Deus vem em primeiro lugar e permanece em primeiro lugar, pois, depois do tratamento feito e, pela misericórdia, termos alcançado a cura, vamos dizer: “Graças a Deus!”.

2 – OS OBSTÁCULOS QUE ESTA MULHER ENFRENTOU PARA ALCANÇAR A BÊNÇÃO.

Ela tinha várias razões para não estar ali para buscar a cura. Ela poderia ter usado muita coisa como desculpa para não se aproximar de Jesus – a multidão que se comprimia ao redor de Jesus; todos os fracassos naqueles doze anos (o tempo); o fato de não ser correto buscar a Jesus como último recurso; o fato de ela não ser uma pessoa importante, mas ela não permitiu que coisa alguma a impedisse [7]. Cada obstáculo foi vencido com perseverança e fé. Aquilo que nós estamos chamando de obstáculo, na verdade, para muitas pessoas são apenas desculpas para não ir à Cristo. 

No entanto, para essa mulher chegar até Jesus, ela teve que enfrentar verdadeiros obstáculos. Que eram a segregação física, social e religiosa, que a Lei determinava que ela deveria obedecer. Vejamos essas três segregações [8]:

1º - A segregação conjugal. Segundo a lei judaica, uma mulher com fluxo de sangue não podia relacionar-se com homem algum. Se ela era solteira, não podia casar-se; se era casada, não podia relacionar-se com o marido. A mulher menstruada era niddah (impura) e proibida de ter relações sexuais. Os rabinos ensinavam que, se os maridos teimassem em relacionar-se com elas nesse período, a maldição viria sobre os filhos. O rabino Shimeon bar Yohai, ao comentar Levítico 15.31, afirmou que ao homem que não se separa da sua mulher perto da menstruação dela, mesmo que tenha filhos como os filhos de Arão, estes morrerão. Mulheres menstruadas transferiam sua impureza a tudo o que tocavam, inclusive utensílios domésticos e seus conteúdos. Os rabinos decretavam que até o cadáver de uma mulher que morreu durante sua menstruação deveria passar por uma purificação especial com água.

2º - A segregação social. Uma mulher com hemorragia devia viver confinada, na caverna da solidão, no isolamento, sob a triste realidade do ostracismo social. Por doze anos, ela não pudera abraçar nenhum familiar sem lhe causar dano. Ela vivia possuída de vergonha, com a autoestima amassada. Por isso, chegou anonimamente para tocar em Jesus, com medo de ser rejeitada, pois quem a tocasse ficaria cerimonialmente impuro.

3º - A segregação religiosa. Uma mulher com fluxo de sangue era considerada impura e não podia entrar no templo nem na sinagoga para adorar. Não podia participar do culto nem das festas. Estava proibida de participar do culto público, visto que estava em constante condição de impureza ritual (Lv 15.25-33).

Meus irmãos, se olharmos para os obstáculos nós não chegaremos a lugar algum. A Bíblia nos compara a três tipos de pessoas, a um soldado em serviço, a um atleta e a um lavrador. Veja o que nos diz Paulo: “Nenhum soldado em serviço se envolve em negócios desta vida, porque o seu objetivo é satisfazer àquele que o arregimentou. Igualmente, o atleta não é coroado se não lutar segundo as normas. O lavrador que trabalha deve ser o primeiro a participar dos frutos” (2Tm 2.4-6).

Meus irmão, não existe vitória sem lutas e dificuldades. Enquanto estivermos neste mundo enfrentaremos provas e adversidades, umas mais intensas, outras menos. Mas sempre enfrentaremos problemas. Entenda: “O céu não é aqui!”.

3 – O QUE ACONTECE QUANDO TOCAMOS EM JESUS COM FÉ (Lc 8.44-48).

Essa mulher quebra todos os paradigmas sociais e religiosos de sua época para chegar até Jesus e tocar-lhe as vestes. Como resultado de tamanha fé ela foi honrada pelo Senhor. A atitude dessa mulher nos deixa exemplos marcantes.

1º - O toque da fé gera cura (Mc 5.27-29; Lc 8.44). O texto de Marcos é mais enfático em relação a esse toque dessa mulher nas vestes de Jesus. Em Marcos lemos assim: “Ouvindo falar de Jesus, veio por detrás, entre a multidão, e tocou na sua veste. Porque dizia: Se tão-somente tocar nas suas vestes, sararei. E logo se lhe secou a fonte do seu sangue; e sentiu no seu corpo estar já curada daquele mal”.

Diante desse toque de fé saiu virtude do Senhor. Tanto que Jesus pergunta: “Quem é que me tocou? E, negando todos, disse Pedro e os que estavam com ele: Mestre, a multidão te aperta e te oprime, e dizes: Quem é que me tocou? E disse Jesus: Alguém me tocou, porque bem conheci que de mim saiu virtude” (Lc 8.45,46).

Podemos destacar três fatos desse toque:

1 – Foi um toque intencional. Ela não estava como todos na multidão tocando em Jesus por tocar. Ela não era mais uma a tocar Jesus. Ela queria tocar Jesus porque ela cria no milagre.

2 – Foi um toque com um propósito de cura. Foi um toque de fé. Tanto que ela dizia: “Se tão-somente tocar nas suas vestes, sararei” (Mc 5.28). Os homens judeus usavam franjas ou borlas de cordão azul presas às vestes para lembrá-los de que deviam obedecer aos mandamentos de Deus (Nm 15.37-40; Dt 22.12). Os fariseus levavam essa regra ao extremo para impressionar as pessoas com sua santidade (Mt 23.5). Não sabemos por que a mulher escolheu tocar essa parte da veste, mas Jesus sentiu que alguém com fé o havia tocado, sendo curado por seu poder. A cura foi imediata e completa [9].

3 – Foi um toque eficaz. Deus honrou a sua fé. A cura foi imediata, Lucas diz que logo estancou o fluxo do seu sangue” (Lc 8.44). Foi algo que aconteceu de imediato. Não foi um processo de cura, como em outros casos registrados na Bíblia. Por exemplo, Naamã teve que mergulhar sete vezes no Jordão para ser curado da lepra (2Rs 5.14). Teve um homem cego que o Senhor orou por ele duas vezes para voltar a enxergar normalmente (Mc 8.22-25). Teve um cego de nascença que Jesus mandou que ele se lavasse no tanque de Siloé para enxergar (Jo 9.7). Com está mulher o milagre foi imediato, foi um toque eficaz.

2º - Jesus sabe quem lhe toca com fé (Lc 8.45). A pergunta de Jesus não foi uma pergunta de dúvida, de desconhecimento de quem lhe havia tocado, mas foi uma pergunta para mostrar que não foi um toque qualquer. Tanto que Pedro e os demais apóstolos não entenderam a pergunta e lhe falaram: “Mestre, a multidão te aperta e te oprime, e dizes: Quem é que me tocou?”. Jesus estava dizendo em outras palavras que o toque foi um toque de fé. Veja o versículo 46: “Alguém me tocou, porque bem conheci que de mim saiu virtude”. 

Jesus conhece quem é quem na multidão. Ele não se deixa impressionar por elas. Ele conhece os que lhe tocam com fé e os que são apenas curiosos. Tanto que daquela multidão nos é dito somente de dois milagres, a da mulher do fluxo de sangue e da ressurreição da filha de Jairo.

A mulher hemorrágica não estava apenas no meio da multidão que apertava Jesus; ela tocou em Jesus pela fé e foi curada! Seu toque pode ser descrito de quatro formas, como vemos a seguir.

a) Ela tocou em Jesus sob grandes dificuldades. Havia uma grande multidão embaraçando seu caminho. Ela se pôs no meio da multidão, apesar de estar enferma, fraca, impura e rejeitada.

b) Ela tocou em Jesus secretamente. A mulher tocou as vestes de Jesus sem alarde. Vá a Jesus, mesmo que a multidão não o perceba ou que sua família não saiba, pois ele pode libertar você do seu mal.

c) Ela tocou em Jesus sob um senso de indignidade. Por ser cerimonialmente impura, a mulher estava coberta de vergonha e medo. Conforme o ensinamento judaico, o toque dessa mulher deveria ter tornado Jesus impuro, mas foi Jesus quem a purificou.

d) Ela tocou em Jesus humildemente. Ela o tocou por trás, silenciosamente. Prostrou-se trémula aos seus pés. Quando nos humilhamos, Deus nos exalta. Ela não tocou Pedro, João ou Tiago, mas Jesus, e por isso foi liberta do seu mal [10].

4 – O TOQUE DA FÉ RESTAUROU ESSA MULHER EM CINCO ÁREAS.

O que ocorreu com essa mulher hemorrágica foi mais que uma cura. O Senhor lhe restaurou áreas que antes lhe atingiam profundamente.

1º - Social. Ela não precisava mais viver isolada da sociedade.

2º - Religiosa. Ela agora poderia frequentar tanto a sinagoga quanto ao templo. Ela não era mais uma mulher impura religiosamente.

3º - Conjugal. Ela agora poderia se relacionar com seu marido – caso fosse casada, ou poderia agora se casar e gerar filhos.  

4º - Emocional. Jesus a chama de filha (Lc 8.48). Ela agora não era mais uma pária na sociedade. Ela estava livre de seu mal. O Senhor não a mal disse, mas a acolheu.

5º - Ela alcançou não só a cura física, mas também a salvação (Lc 8.48). A bênção foi completa. Aliás, ela alcançou a única bênção necessária para sua vida.  

CONCLUSÃO  

A história dessa mulher é um renovo para a nossa fé. Uma mulher sem nome, sem recursos financeiros, até então, sem esperança de cura, mas ao ouvir falar de Jesus foi até Ele e o tocou com fé e foi curada.

Devemos olhar para esse exemplo e irmos a Cristo com o mesmo desejo e fé. Enfrentando todos os obstáculos, mas entendendo que vai valer a pena. Ninguém que toca em Jesus com fé fica da mesma maneira.

Toque em Jesus hoje e espere o milagre em sua vida!

Pense nisso!

Bibliografia

1 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 130.

2 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 266.

3 – Pohl, Adolf. O Evangelho de Marcos, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 1998. p. 124.

4 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 267.

5 – Rienecker Fritz. O Evangelho de Lucas, Comentário Esperança, Ed. Evangélica Esperança, Curitiba, PA, 2005. p. 131.

6 – Hendriksen, William. Lucas, vol. 1, São Paulo, SP, Ed. Cultura Cristã, 2003, p. 609.

7 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 262.

8 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 267, 268.

9 – Wiersbe, Warren W. Lucas, Novo Testamento 1, Comentário Bíblico Expositivo, Ed. Geográfica, Santo André, SP, 2007, p. 262.

10 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus o homem perfeito, Editora Hagnos, São Paulo, 2017, p. 271.