segunda-feira, 17 de agosto de 2020

O LIVRE ARBÍTRIO DO HOMEM


Por Davis W. Huckabee

“Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade”. (Efésios 1:11) Às vezes lança-se àqueles que sustentam que Deus é soberano em tudo o que Ele faz que tenha de se reconhecer que a vontade do homem é outro lado desse assunto que ajusta a verdade. No entanto, é difícil imaginar como alguma declaração poderia ser mais positiva do que essa em Efésios 1:11 e se há outro lado do assunto, ele não entrará em contradição com essa declaração, pois toda Escritura é inspirada por Deus e é pois infalível.

Em nenhuma esfera nega-se tanto a soberania de Deus como no assunto da salvação do homem. Apenas cem anos atrás, e por aí, era comum ouvir mensagens sobre o dever de submissão à vontade de Deus, mas quem chega a ouvir uma mensagem sobre esse tema nesta época de teimosia? Muitas vezes se ouve grandes sermões acerca da suposta livre e suprema vontade do homem, e a maioria dos evangelistas (?) não consegue dar um convite sem expandir nesse tema, mas geralmente ignora-se a vontade de Deus.

No entanto, o texto acima não é o único que apresenta a supremacia da vontade de Deus; há muitos outros, e muitas vezes são mais especificamente mencionados com relação à salvação do que os acima. Note o seguinte: “Estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”. (João 1:10-13) “Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece. Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra. Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer”. (Romanos 9:16-18) “Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade”. (Filipenses 2:13) “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas”. (Tiago 1:18) A esses poderiam-se acrescentar outros textos igualmente fortes e explícitos, mas se alguém não se convencer com esses, também não se convenceria com mais Escrituras.

Há várias palavras no Novo Testamento grego que são traduzidas “vontade”, e elas têm várias nuanças de sentido. Em Efésios 1:11, a palavra traduzida “conselho” (grego boule) em sua forma verbal é muitas vezes traduzida “vontade”. É juntada com “vontade” (grego thelema) que é uma forma mais fraca. A palavra grega boule (e suas formas relacionadas boulema e boulomai) sugere “desígnio deliberado” e é “o resultado de determinação”, em oposição a mero desejo ou vontade. É necessário que distingamos entre essas duas nuanças de sentido, ou então poderemos chegar à ímpia conclusão de que Deus é incapaz de realizar Seus propósitos sem a ajuda do homem. Os teólogos do passado distinguiam entre a vontade revelada de Deus, e Sua vontade secreta; a vontade revelada de Deus (muitas vezes expressa pela palavra grega thelo ou thelema) revela o desejo de Deus, e assim prova nossa obediência; mas a vontade secreta de Deus (expressa pelas palavras gregas boule, boulema e boulomai) expressam a vontade determinada secreta de Deus que não pode e não será frustrada. Muitas vezes se distingue a vontade de Deus em Sua vontade eficaz ou Sua vontade permissiva. O Dr. Green bem distingue entre essas.

Contudo, deve-se notar com cuidado aí que todos os que corretamente sustentam essa doutrina declaram que deve-se sempre manter uma diferença entre o que foi denominado os decretos eficazes e os decretos permissivos de Deus. Seus decretos eficazes têm relação com tudo o que é moralmente bom; Seus decretos permissivos têm relação com tudo o que é moralmente mau. Em outras palavras, Seu meio de ação direto, de acordo com seu decreto, tem a ver com tudo o que é moralmente bom: seu meio de ação direto nunca tem a ver com o que é moralmente mau. Ele permite que o mal ocorra, e eficazmente o anula para o bem — para a promoção da sua glória. — Lectures On The Short¬er Catechism (Preleções acerca do Catecismo Menor), Vol. I, pp. 180 181. Presbyterian Board of Publication, Phila¬delphia.

Nossa época não é a primeira a resistir à vontade e poder soberano de Deus, pois Paulo falou disso em sua época em Romanos 9:18 21, nem nos preocupamos que alguém poderia derrubar a vontade de Deus; porém, é importante que não nos achemos em rebelião contra os propósitos do Senhor: os quais certamente serão realizados, e nos arrebentaremos se tentarmos resistir a eles. Mas uma coisa é conhecer a vontade de Deus, e outra bem diferente é fazer Sua vontade; é aí que entra a responsabilidade humana, e certamente cremos nisso, porém isso não é a mesma coisa como “livre arbítrio”, embora isso seja o que muitos querem dizer quando falam de “livre arbítrio”. Se um homem se perde, ele é o único responsável, pois João 5:40 diz literalmente: “E não quereis vir a mim para terdes vida”. Se alguém é salvo, é porque Deus primeiramente trabalhou nele tanto o querer como o efetuar, para com isso realizar Seus propósitos soberanos, que são salvar um número definido — aqueles aos quais Ele deu a Cristo na aliança da redenção, para que Ele lhes desse vida (João 17:2,6,8 9) — e Ele realmente salvará cada um desses, mas nenhum a mais do que esses (João 6:37,44).

Não é pois necessário dizer que eu não sou um batista do “livre arbítrio”, mas sou um batista da “graça soberana”, pois creio com Charles Spurgeon que “Afirmamos que o plano inteiro da salvação, do começo ao fim, em toda maneira depende da vontade absoluta de Deus, e não da vontade da criatura” (Metropolitan Tabernacle Pulpit [Púlpito do Tabernáculo Metropolitano], Vol. 8, p. 183. Pilgrim Publications, Pasadena, Texas, 1971).

Muitas vezes ouvimos pessoas resumirem sua teologia acerca da extensão da expiação dizendo: “Olha, creio no ‘Qualquer um que quer’”. Ao que dizemos um forte “AMÉM!” Mas isso não toca o problema real do assunto. Não há dúvida alguma de que só “quem quer que creia” será salvo, pois a promessa de Deus o garante, mas as perguntas são: “Por si mesmo o homem tem condições de querer?” “Como é que um homem consegue querer crer que ele pode ser salvo?” Só um ateu ou agnóstico total negaria que quem quer que creia será salvo, pois tal negação repudia as promessas de Deus. O problema do homem nunca foi se ele será salvo se ele crer em Cristo, mas seu problema sempre foi que por natureza ele não tem disposição de crer.

Há cinco palavras e frase gregas que são traduzidas “quem quer que”, mas a que se acha em João 3:15,16 é a mais comum, e é mais comumente traduzida “cada um”, “todos”, mas sempre com uma limitação que se diz ou indica claramente. Se tão somente considerarmos o que as Escrituras têm a dizer acerca do estado natural da vontade do homem, veremos que o homem não consegue “querer” ser salvo sem a graça divinamente gravada de Deus, que muda a natureza do homem, regenerando-o, e tornando-o disposto no dia em que o poder de Deus for exercido nele (Salmo 110:3; João 6:63; Efésios 2:4 10). Que o leitor consulte as Escrituras seguintes, e ele verá que não só a vontade do homem está em escravidão a Satanás, mas também que ele é totalmente depravado, sem nada bom em si, e ele também não tem a capacidade ou o desejo de saber ou fazer a vontade de Deus (2 Timóteo 2:25 26; Romanos 3:9-12; 1 Coríntios 2:14; Romanos 8:7 8). Com esses pensamentos em mente, gostaríamos de considerar o assunto da vontade do homem, e o examinaremos a partir de três ângulos.

I. A FALÁCIA DO LIVRE ARBÍTRIO.

Geralmente se aceita como verdade óbvia que o homem possui o “livre arbítrio” e negar isso é arriscar ser designado de “casca-dura”, mas jamais aplicou-se esse termo a alguma pessoa originalmente por causa de suas convicções doutrinárias, pois quando esse termo começou a ser usado, tanto aqueles que eram chamados de “cascas-duras” quanto aqueles que não geralmente eram fiéis ao mesmo calvinismo rígido que nega que o homem tenha o “livre arbítrio”. Os cascas-duras eram historicamente contra as missões e contra os esforços, e o fato de que eles eram calvinistas era questão secundária, pois naquela época todos os batistas sólidos eram calvinistas. Portanto, é uma difamação do pior tipo chamar um homem de casca-dura só porque ele adere à teologia calvinista.

O homem não tem o “livre arbítrio”, se com isso se quer dizer que o homem naturalmente, em si e por si mesmo, tem a capacidade de escolher entre o bem e o mal. Essa verdade é óbvia a partir do próprio fato de que nenhuma única pessoa em toda a história do mundo chegou a se salvar sem a graça divina. Deus sempre teve de iniciar e completar a salvação para o homem. Não só o homem não tem a capacidade de se salvar sem a graça divina, mas até depois que ele é salvo, é necessária a graça divina para mantê-lo naquele estado de salvação; mas pela graça divina, todas as pessoas salvas se perderiam novamente antes que tivessem sido crentes por um único dia inteiro.

Ao dizer que o homem não tem livre arbítrio, não queremos dizer que o homem não é responsável por seu pecado; o homem é totalmente responsável, pois ele é um pecador não só por natureza, mas também por escolha. O fato de que todos os homens voluntariamente escolhem continuar no pecado mostra que eles não têm disposição e condição de exercer qualquer vontade para o bem. Com sua queda no Éden, o homem se tornou pecador; ele cometeu suicídio moral e espiritual. Pode-se ilustrar desse jeito: um homem entra no elevador do edifício mais elevado na cidade. Ele tem a liberdade de vontade de fazer isso. Ele vai até à cobertura e ali sai do elevador. Ele tem a liberdade de vontade de fazer isso. Em seguida, ele vai até a beira da cobertura e pula. Ele também tem a liberdade de vontade de fazer isso. Mas ao pular, ele entregou-se a uma condição da qual ele não tem a liberdade de vontade de escapar, mas está condenado à destruição, a menos que alguma força fora de si o resgate. Assim era com o homem: com sua rebelião no Éden, Adão cometeu suicídio moral e espiritual por si e por toda a sua posteridade; e só uma força externa poderá resgatar da destruição qualquer membro da raça caída de Adão.

Ao negar o livre arbítrio, não queremos com isso negar a realidade de que todo homem é agente livre. Contudo, ele é livre apenas dentro da esfera de sua vida natural, que é uma esfera de morte espiritual, e assim de incapacidade espiritual. Ele é um filho da desobediência e ira, sob o controle completo do príncipe deste mundo (Efésios 2:1 3). O fato de que o homem é um agente livre é limitado apenas pela natureza do homem; ele é livre de qualquer coerção externa para pecar. Satanás pode tentá-lo, mas é sempre o próprio homem que cede a essa tentação e pecados. Ele assim peca livremente quando peca, pois está dentro de sua natureza pecar. T. P. Simmons diz acerca do homem natural como um agente livre:

O homem não pode fazer outra coisa do que continuar no pecado enquanto estiver em sua condição natural (Jeremias 17:9; Provérbios 4:23; Jó 14:4; Jeremias 13:23; João 6:65; Romanos 8:7,8; 1 Coríntios 2:14). Mas sua permanência no pecado não é devido a coerção ou controle externo, mas a seu próprio caráter que faz com que ele escolha as trevas ao invés da luz (João 3:19). Ele continua no pecado pela mesma razão que um porco rola na lama. Ele continua no pecado pela mesma razão que Deus continua na santidade. Assim ele é inteiramente um agente livre. — System-atic Study of Bible Doctrine (Estudo Sistemático da Doutrina da Bíblia), p. 185. Associated Publishers, Daytona Beach, Florida, 1969.

Entretanto, o homem não pode livremente se arrepender e confiar em Cristo, porque não está dentro de sua natureza agir dessa forma; ele tem condições de agir assim apenas pela graça de Deus. É por isso que negamos o “livre arbítrio”; veio a significar, para um grande número de mentes, que um homem tem a livre capacidade em e por si mesmo de se arrepender e se voltar para Deus em fé; isso as Escrituras negam enfaticamente em muitos lugares. Sustentar o “livre arbítrio” no sentido que muitos fazem é sustentar que um homem tem a capacidade de agir de modo contrário à sua natureza e a disposição dominante de sua alma, e isso não é verdade. Há só um jeito de transcender à natureza, e é pela graça de Deus, e então é contrário à natureza. Portanto, a natureza não tem direito à sua realização. Ao falar desse assunto, E. Y. Mullins bem diz:

A liberdade no homem não implica isenção da operação de influências, motivos, hereditariedade e ambiente. Significa em vez disso que o homem não está debaixo de coerção. Suas ações são no último caso determinadas de dentro. É ele mesmo quem determina tudo o que faz. Alguns sustentam que a liberdade no homem significa a capacidade de transcender a si mesmo e agir de modo contrário à seu caráter. A vontade é assim considerada não como uma expressão do que o homem é em seu caráter essencial. É livre no sentido de ser capaz de escolhas que não tenham relação com escolhas passadas, características adquiridas e tendências hereditárias. Essa é uma perspectiva de liberdade que não dá para defender. Faz da vontade uma mera ligação externa com a natureza do homem, em vez de uma expressão disso. A liberdade exclui a imposição que vem de fora. Exclui também mero capricho e arbitrariedade. Liberdade é autodeterminação. Os atos de um ser livre são seus próprios atos. — The Christian Re¬ligion In Its Doctrinal Expression (A Religião Cristã em Sua Expressão Doutrinária), pp. 258 259. Judson Press, Philadel¬phia, 1932.

Essa idéia errada de que o homem tem um “livre arbítrio” pelo qual ele pode transcender a si mesmo e agir de forma contrária à sua natureza e à disposição dominante de sua alma é a perspectiva do arminianismo, socinianismo e da teologia moderna de nossa época, e, infelizmente, se infiltrou na teologia de muitos batistas de nossos dias também. Há a necessidade de uma volta à teologia batista mais antiga e sã, do passado.

Dá-se hoje muita ênfase no fato suposto do livre arbítrio do homem, e muitos sustentam que ninguém — nem mesmo Deus — pode anular a vontade do homem. Mas veremos a falácia disso ao considerar cuidadosamente os fatos seguintes, que revelam que a vontade do homem não é tão livre quanto ele supõe.

1. A vontade do homem não é livre em seu nascimento, pois ninguém escolhe nascer, nem ninguém tem a liberdade de escolher em que lar, nação, condição social ou outras circunstâncias nascerá. Deus soberanamente determina de antemão sem ao menos dizer “com licença”, quando, onde e sobre quais circunstâncias cada um de nós nascerá.

2. A vontade do homem não é livre no que se refere à sua saúde, pois ninguém chegaria a escolher ficar doente, e se alguém tivesse a escolha da doença que ele tivesse de contrair, se ele tivesse de ter uma, muitas doenças logo sumiriam da face da terra, mas há um grande número de diferentes doenças às quais o homem está sujeito, e muitas pessoas, apesar da maior assistência de saúde, ainda contraem doenças e sofrem e morrem por causa delas.

3. A vontade do homem não é livre no que se refere a acidentes, pois muitos acidentes — às vezes até mesmo acidentes fatais — acontecem mesmo com as pessoas mais cuidadosas. Muitas vezes esses acidentes são de natureza tão esquisita que só dá para explicá-los pela vontade de Deus sendo a sua causa.

4. A vontade do homem não é livre com relação às circunstâncias da vida, pois muitas pessoas sofrem frustrações em suas ambições e planos; poderíamos entender como Deus poderia frustrar os planos de homens malignos como Adolf Hitler, mas muitas vezes Deus frustra os planos de pessoas piedosas quando seus planos são certos e bons, mas Ele age dessa forma de modo que Seus próprios propósitos venham a se cumprir.

5. A vontade do homem não é livre com relação à sua capacidade intelectual, pois todos os homens gostariam de ser gigantes intelectuais, mas nenhum homem consegue ir além da capacidade mental que Deus lhe deu em seu nascimento. Uma limitação natural da vontade do homem é tanto uma limitação quanto qualquer outra, e dá para se atribuir essa limitação diretamente ao Deus da natureza.

6. A vontade do homem não é suprema na aquisição de posses materiais, pois é uma coisa bem rara achar alguém que seja pobre por escolha. É fácil suficiente planejar ser um pobre e ter sucesso, se alguém com tal desejo peculiar se achar, porém o mundo está cheio de pretendentes a milionário que foram impedidos de ficar ricos porque Deus não lhes concedeu o poder de obter riquezas (Deuteronômio 8:18; Lucas 12:16 21). Muitas vezes os empreendimentos comerciais mais cuidadosamente planejados se tornam fiascos financeiros.

7. A vontade do homem não é livre em sua relação com seus semelhantes, pois muitas vezes são passadas leis que restringem a vontade do indivíduo. Não só isso, mas sabe-se bem que um homem pode muitas vezes anular e forçar a vontade de outro; aliás, alguém que tenha algum conhecimento de psicologia pode manipular as pessoas a fazer inconscientemente a sua vontade. Os pais muitas vezes agem assim com os filhos, e às vezes os filhos usam psicologia com seus pais; e a capacidade de a esposa “de ter o marido na palma da mão” quase que virou provérbio.

8. A vontade do homem como ser natural, sem a graça de Deus, não é livre, pois as Escrituras expressamente declaram que o homem natural é tomado cativo pelo diabo “à sua vontade” (2 Timóteo 2:26), de modo que é tão absurdo um homem se gabar de seu livre arbítrio, quando o diabo o toma cativo a qualquer momento que quiser, como era para os judeus se gabarem de que nunca estiveram em escravidão a nenhum homem, enquanto ao mesmo tempo estavam debaixo do jugo dos romanos (João 8:33). Mas nosso Senhor mostrou no versículo 34 que o pecador, tão longe de ter o livre arbítrio, está numa escravidão ainda maior — a escravidão ao pecado, pois o “servo” é literalmente “escravo”.

9. A vontade do homem não é livre na questão da salvação, pois ele não pode se salvar a qualquer momento que quiser, conforme ensinam João 1:13; Tiago 1:18; João 6:44 e outras passagens. Não só isso, mas se a vontade do homem fosse tão livre como ele gosta de se gabar, então ele poderia se salvar, não só a qualquer momento que quisesse, mas também sob quaisquer circunstâncias, e até mesmo sem ajuda alguma, do Senhor.

10. A vontade do homem não é livre nem mesmo como cristão, pois de todas as pessoas, a vontade do crente é sempre sujeita à vontade de Deus. Veja Atos 16:6-10. Não só isso, mas de acordo com Gálatas 5:17, a natureza carnal ainda exerce tal força no crente que ele está numa situação “para que não façais o que quereis”. A natureza má da carne é uma força potente, até mesmo impedindo a vontade renovada de funcionar conforme deseja funcionar.

11. A vontade do homem não é livre com relação à morte, pois poucos chegam a ter permissão de escolher a hora de sua morte, e muitos que querem se matar são frustrados em suas tentativas de tirar a própria vida, e eles continuam vivendo, regozijando-se de que foram impedidos em sua tentativa de se matar. “Nenhum homem há que tenha domínio sobre o espírito, para retê-lo; nem tampouco tem ele poder sobre o dia da morte”. (Eclesiastes 8:8)

Se não houvesse nenhuma outra prova da falácia do livre arbítrio além da declaração de 2 Timóteo 2:25-26, essa passagem seria suficiente para eliminar essa idéia completamente, pois esse texto declara: “Instruindo com mansidão os que resistem, a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade, E tornarem a despertar, desprendendo-se dos laços do diabo, em que à vontade dele estão presos”. Se considerarmos esses versículos na ordem inversa em que estão, veremos as coisas seguintes: (1) O homem natural é levado cativo à vontade do diabo, e daí o homem só é tão livre quanto o diabo escolhe permitir que ele fosse, e o diabo certamente jamais permitiria que alguma pessoa quisesse se salvar se ele pudesse impedir isso. (2) O homem natural não tem consciência dessa escravidão ao diabo, mas essa inconsciência é por escolha própria, pois a palavra “despertar” significa despertar de um torpor de embriaguez. Assim, o homem age livremente no pecado, embora ele esteja inconscientemente em escravidão ao diabo. (3) A única esperança de escapatória está não no homem querendo se soltar do poder do diabo, mas no ato de Deus lhe dar arrependimento, e isso Ele faz, usando a Palavra como o instrumento de instrução e conversão. Deus é sempre o lado ativo na salvação do homem, e há muitos textos que declaram que tanto o arrependimento quanto a fé são dons de Deus, operados no homem. Assim a Confissão de Fé Batista Ortodoxa declara sob o Artigo 8:

Cremos que o arrependimento e a fé são pré-requisitos sérios e inseparáveis da salvação; que são graças inseparáveis operadas no coração pelo Espírito Santo vivificador; que o pecador de fora, estando profundamente convencido de pecado, de justiça e de juízo mediante o ministério pessoal do Espírito Santo, e mediante a iluminação dEle no entendimento humano de modo que o homem possa ver o caminho da salvação por meio de Cristo, possa realmente se arrepender, voltando-se para Deus com contrição, confissão e súplica sincera, e possa realmente crer, entregando-se de todo o coração ao Senhor Jesus, imediatamente recebendo-O como Salvador pessoal e completamente suficiente e confessando-O publicamente diante de todos os homens. — publicado pela Primeira Igreja Batista Ortodoxa, Ardmore, Oklahoma, 1965.

Vê-se também a falácia de se pensar que a vontade do homem é livre nas declarações divinas acerca da soberania absoluta de Deus. Deus faz pelo homem o que o homem não pode fazer por si, e assim vemos declarações mostrando que a vontade de Deus é a força motriz em: (1) O NOVO NASCIMENTO: “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas”. (Tiago 1:18; veja também João 1:13) (2) A SANTIFICAÇÃO DOS QUE NASCERAM DE NOVO: “Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez”. (Hebreus 10:10) (3) PREDESTINAÇÃO: “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade,… Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade”. (Efésios 1:5,11) (4) REVELAÇÃO: “Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo”. (Efésios 1:9) (5) FÉ: “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou”. (João 6:29; veja também Atos 13:48s) (6) A SEGURANÇA DOS SALVOS: “Assim, também, não é vontade de vosso Pai, que está nos céus, que um destes pequeninos se perca”. (Mateus 18:14) “E a vontade do Pai que me enviou é esta: Que nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no último dia”. (João 6:39) (7) LIVRAMENTO DESTE PRESENTE MUNDO MAU: “O qual se deu a si mesmo por nossos pecados, para nos livrar do presente século mau, segundo a vontade de Deus nosso Pai”. (Gálatas 1:4) (8) A INSPIRAÇÃO DAS ESCRITURAS: “Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo”. (2 Pedro 1:21) (9) A NOMEAÇÃO PARA CARGOS: “Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus”. (Efésios 1:1) (10) A CONCESSÃO DE DONS ESPIRITUAIS (1 Coríntios 12:11).

O homem orgulhoso gostaria de pensar que ele é, como escreveu William Ernest Henley em seu poema “Invictus”, “mestre de meu destino, e capitão de minha alma”, mas tanto as Escrituras quanto a História abundam de exemplos de homens cuja tentativa de controlar seus próprios destinos resultaram apenas na destruição eterna de suas almas. Qualquer que seja o bem que já se tenha achado em algum homem não é o resultado de algum “livre arbítrio” nele, mas é diretamente atribuível à providência e provisão de Deus (veja Tiago 1:17).

Ora, é evidente que de um coração totalmente depravado não podem preceder ações e afeições puras. Conseqüentemente, tudo o que for de santidade que houver em algum ser humano, tem de proceder do Espírito de Deus… Como Deus exerce na mente humana uma influência santificadora e controladora sem interferir na livre agência e prestação de contas, não podemos explicar; mas que ele assim age, é óbvio demais para se contestar. — N.L. Rice, God Sovereign And Man Free (Deus Soberano e Homem Livre), p. 29. Presbyterian Board of Publication, Philadelphia, 1850.

II. O ALICERCE DO LIVRE ARBÍTRIO.

A idéia implícita do que geralmente se designa “livre arbítrio” é bem lisonjeira para a natureza carnal do homem, e é necessária alguma graça e renúncia para que se aceite alguma outra perspectiva, mas o que geralmente se quer dizer com “livre arbítrio” se baseia em algum alicerce estragado e algumas idéias não bíblicas. Primeira, baseia-se na idéia da autossuficiência humana e dependência em si, que nega descaradamente a doutrina da depravação total do homem; é impossível sistematicamente sustentar ambas as doutrinas, pois elas se contradizem. Se um homem é totalmente depravado, conforme ensinam as Escrituras, e como há muito sustentam os batistas, então não há nada no homem que seria aceitável a Deus, e ele não poderia realizar nenhum ato espiritual que seria agradável a Deus.

Romanos 3:9 12 mostra que a depravação se estende à raça humana inteira: “Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado; Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só”. Essa passagem inteira nega que o homem tenha alguma capacidade ou desejo espiritual; denuncia a pecaminosidade do homem das seguintes maneiras (note como essa passagem também mostra que a natureza toda do homem é depravada): (1) Já que todos os homens sem exceção são mencionados no versículos 10, mostra que a natureza do homem é completamente má, pois ninguém fica isento. (2) As faculdades mentais são mencionadas no versículo 11, e se mostra que não há desejo de se aprender de, nem buscar a Deus. (3) Consequentemente, as obras são totalmente más, e mostra-se que todos os homens estão vivendo em rebelião contra a vontade de Deus (versículo 12). (4) Perverteu-se e depravou-se até mesmo a fala do homem natural (versículos 13 14). Esse é o índice do coração de acordo com o ensino de Jesus em Mateus 12:34 37. (5) O mal também caracteriza os pés e a caminhada diária do homem natural (versículos 15 16.) (6) Finalmente, a perspectiva inteira deles, representada pelos olhos deles, é uma perspectiva de ignorância e indiferença voluntária acerca da verdade espiritual (versículos 17 18). Aí se vê um quadro trágico, porém verdadeiro, da humanidade em seu estado natural; é difícil imaginar uma declaração mais forte acerca da depravação do homem do que essa. Quem poderá ver algum bem baseado no homem aqui?

Romanos 7:18 da mesma forma mostra que essa depravação é total no homem natural: “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem”. Paulo falou isso como um cristão, que possuía duas naturezas que estavam em guerra constante uma com a outra: mas o homem natural não tem uma natureza espiritual regenerada para resistir à carne; ele é um homem totalmente carnal, sob a dominação dessa natureza carnal, em que Paulo declara “não habita (literalmente, ‘não está em casa’) bem algum”, mas que está num contínuo estado de rebelião deliberada contra a vontade de Deus. A vontade do homem se inclina apenas numa direção — longe de Deus e para o pecado. Se João 15:5s é verdadeiro para os crentes — “sem mim nada podeis fazer” — quanto mais então é verdade acerca do homem natural que não tem nenhuma natureza espiritual para lutar contra a carne?

Segunda, a idéia de um livre arbítrio no homem se baseia numa negação da queda do homem no Éden, ou então sustenta que a queda foi apenas uma ferida menor e passageira que não tinha importância. Charles Spurgeon com justiça diz:

Qualquer um que crê que a vontade do homem é inteiramente livre, que ele pode se salvar por sua própria vontade não crê na queda. Conforme lhes digo às vezes, poucos pregadores cristãos realmente creem em toda a doutrina da queda, ou então acham que quando Adão caiu ele quebrou o dedinho, e não quebrou o pescoço e arruinou sua raça. Amados, a queda arrebentou o homem por completo. Não deixou capacidade alguma intacta; tudo foi aniquilado, corrompido e manchado; como algum templo muito imponente, as colunas poderiam ali estar, a arquitetura, as pilastras poderiam ali estar; mas tudo estava em pedaços, embora algumas coisas ainda tenham muito de sua forma e posição. — The New Park Street Pulpit (O Novo Púlpito da Rua Parque), Vol. I, p. 401. Zondervan Publishing House, Grand Rapids, Michigan, 1963.

Um número grande de pessoas hoje tem uma idéia bem vaga de tudo o que ocorreu quando Adão pecou no jardim; elas parecem ter a idéia de que na queda Adão não sofreu nada mais do que o incômodo de uma pele solta na raiz da unha, e que mesmo isso ele não passou para sua posteridade. Mas isso é um grande engano. Quando Adão pecou, ele assim agiu como cabeça da aliança de todos os seus descendentes, e sua rebelião era deles, e assim a morte prometida sobreveio a todos os descendentes de Adão: “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram”. (Romanos 5:12) Em sua constituição original, Adão possuía “livre arbítrio” no sentido mais pleno da palavra, mas com seu pecado ele acabou possuindo uma natureza caída e totalmente depravada, e foi isso o que ele passou para seus descendentes por reprodução natural, bem como a maldição acompanhante da lei quebrada, de modo que todo descendente do Adão caído possui a mesma natureza apóstata e caída que ele tinha depois da sua queda. Cremos que é por isso que quase todo modernista nega o relato de Gênesis acerca da criação e queda: em seu orgulho carnal, eles não estão dispostos a admitir um estado de existência que está além da capacidade de o homem natural remediar para si, e assim o modernista mistura o mal de sua natureza negando a realidade da queda. Ao descrever a apostasia de nossos primeiros pais, o Dr. S. J. Baird bem descreve o homem moderno também. Ele diz:

Daí, o próprio ato da apostasia — e essa é a própria essência do pecado — é tal desvio de Deus a ponto de constituir, em si, a suposição de uma atitude hostil, a aceitação da aversão a ele, e a submissão de todas as faculdades a essa tendência hostil. E, já que essa influência estranha abrange todas as faculdades, é evidente que não há, no apóstata, nada que se possa estabelecer a possibilidade da sua volta sem ajuda; mas, pelo contrário, a aversão levará continuamente o ser a distanciar-se mais de Deus, e ampliar eternamente o abismo entre eles. — The Elo¬him Revealed (A Revelação de Elohim), p. 396. Lindsay and Blakiston, Philadelphia„ 1860.

Com seu pecado, o homem se tornou totalmente um homem carnal, e “a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus” (Romanos 8:7-8), de modo que com a queda do homem no Éden, o homem ficou incapacitado de querer e fazer o que é certo, e aqueles que sustentam que ele pode, se colocam contra a doutrina da queda. Veja mais no capítulo “Os Frutos da Queda do Homem”.

A idéia de que o homem tem livre arbítrio também se baseia no autoengano, pois o homem não tem disposição de crer que ele é tão ruim espiritualmente quanto ele é, mas ele acha que ele tem a capacidade de remediar seu próprio caso. O homem natural é como uma pessoa que tem câncer, e é informado pelo médico de que só a realização de uma cirurgia médica imediata pode dar alguma esperança de vida, mas que firmemente recusa o diagnóstico do médico, e pensa que tomando aspirina e matando a dor que ele logo será curado da doença. Sabemos que o resultado de tal tolice seria uma morte certa e bem dolorosa; mas a condição do homem natural é ainda mais séria, a cura é ainda mais certa, e os resultados de não se receber o diagnóstico do Grande Médico são ainda mais horrendos. Contudo, o homem natural engana-se a si mesmo ao pensar que pode cuidar de seus próprios problemas sem nenhuma ajuda de Deus, pois ele se bajula de que ele tem “livre arbítrio”, e que isso é suficiente para chegar ao céu. Afinal, ele raciocina, não é simplesmente uma questão de ter disposição de crer que Jesus morreu e que Ele receberá todos os que aprovarem esse fato? Infelizmente, muitos pregadores incentivam os homens nesse assunto lhes dizendo que eles só precisam mudar de idéia e querer que seja conforme desejam que seja, e será. A. W. Pink diz:

O assunto de sua impotência moral está longe de ser um assunto agradável para o homem natural. Ele quer que lhe digam que tudo o que ele precisa fazer é esforçar-se, que a salvação está ao alcance do poder de sua vontade, que é ele quem determina seu próprio destino. O orgulho, que de modo bem forte não gosta de estar em dívida para com a graça soberana de Deus, se levanta contra isso. A autoestima, com sua radical antipatia a tudo o que deixa a criatura no pó, se ressente ardentemente do que é tão humilhante. Consequentemente, essa verdade é abertamente rejeitada ou, se for aparentemente recebida, acaba sendo utilizada de modo errado. — Gleanings From The Scriptures: Man’s Total Depravity (Coletâneas das Escrituras: A Depravação Total do Homem), p. 216. Moody Press, Chicago, 1969.

Assim, o alicerce dessa idéia de livre arbítrio também está numa tendência forte de se crer na salvação em si mesmo — que alguém pode crer e receber Cristo a qualquer momento. O erro nessa idéia está numa perspectiva errônea acerca do que as Escrituras querem dizer quando se referem à atitude de crer em Cristo ou recebê-Lo. Vivemos numa época que se caracteriza por uma teologia de “fé fácil”; os homens substituíram uma fé intelectual — uma mera crença sobre Cristo, uma mera aceitação religiosa dEle — para uma crença do coração que toca o homem inteiro, e que resulta numa completa confiança em Cristo para se obter a salvação eterna. É possível perder a salvação por 45 cm — a distância da cabeça ao coração. Qualquer um pode crer acerca de Cristo e pode concordar com uma declaração bíblica ou religiosa sobre Cristo, mas isso não é a fé que salva. Qualquer um pode professar publicamente ter recebido Cristo como Salvador, mas isso não significa que tal profissão corresponde à realidade. Só Deus pode dar aos homens a capacidade e autoridade para se tornarem filhos de Deus, e Ele dá isso apenas àqueles que creem em Jesus (João 1:12). Há um mundo de diferença entre crer em Cristo, crer acerca de Cristo e crer no Cristo. O último ato de fé envolve uma confiança e dependência que desvia a atenção de tudo o mais, e que olha só para Cristo, e ninguém tem esse tipo de fé enquanto confia também na água, obras, valor, vontade ou qualquer outra coisa mais que tenha origem no homem e que ele esteja em condições de fazer.

Jonas disse “Do SENHOR vem a salvação” (Jonas 2:9), e essa declaração é o ensino sistemático das Escrituras, e jamais há nem mesmo uma simples sugestão de que o homem tem qualquer coisa a ver com a salvação espiritual de sua alma; raramente, ele é admoestado a se salvar, mas isso sempre se refere a um mero livramento físico ou moral. Por outro lado, a regeneração do homem é sempre mencionada como sendo obra de Deus, em que o homem é passivo até que o Espírito o avive, após o que ele manifesta esse fato pela fé.

III. O DEFEITO DO LIVRE ARBÍTRIO.

O primeiro defeito, que está na raiz de muitos outros, é que essa teoria recusa reconhecer que o homem está em escravidão total ao pecado. Escute a declaração de Paulo em Romanos 7:18-21: “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo”. Se essa incapacidade está no crente, então quanto mais é verdade acerca do homem natural que não tem nenhuma natureza espiritual ao seu redor? O grande defeito dessa teoria da vontade do homem é que antes que ela declare a suposta capacidade do homem de fazer atos espirituais e boas obras, rebaixa o padrão divino à capacidade do homem natural. Como bem disse alguém: “Posso pular da torre de qualquer igreja, contanto que me deixem estabelecer a altura dessa torre”.

O homem originalmente tinha uma liberdade perfeita da vontade antes da queda, e o homem justificado a terá de novo depois que tiver sido glorificado, mas atualmente ele não tem isso. E. G. Robinson descreve esse estado ideal da seguinte maneira:

Ainda resta considerar o último e mais profundo sentido que foi colado à frase, Liberdade da Vontade. Essa frase expressa a idéia do homem como um ser idealmente perfeito, em quem todas as funções de sua natureza estão em acordo absoluto. O que sua vontade exige, todas as faculdades mais elevadas de sua natureza aprovam; e o que essas faculdades mais elevadas mandam, sua vontade espontaneamente elege. Ele instintivamente escolhe o bem, e sua natureza inteira conspira para realizar sua escolha. Tal homem é que possui a liberdade verdadeira — liberdade que é a diferença mais nobre e a glória coroadora de uma existência pessoal; e tal é a liberdade, a liberdade de uma natureza perfeitamente bem equilibrada, que deve se supor que o homem caído e ideal tenha possuído. Mas desse estado original tanto a consciência quanto as Escrituras agora declaram que o homem tem caído profundamente (João 8:34; Romanos 3:11 18; 6:16; 7:14; Efésios 2:2,3). Seu ser moral está num estado de anarquia; suas afeições se corromperam; seu entendimento se escureceu; sua vontade se rebela contra as faculdades mais elevadas de sua alma; ele está em escravidão ao espírito do mal que usurpou o controle dele. — Christian Theology (Teologia Cristã), pp. 134 135. Press. of E. R. Andrews, Roch¬ester, N. Y., 1894.

Esse estado horrendo do homem caído vem declarado em Efésios 2:1 3: “E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados, Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência. Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também”. Esse texto mostra que a condição verdadeira do homem natural é: (1) Espiritualmente morto em ofensas e pecados. (2) Andando em harmonia com o mundo e com o diabo. (3) Um estado de desobediência. (4) Um andar que se caracteriza pelos desejos da carne, que é simplesmente um cumprimento das “vontades” da carne e da mente. Esse texto mostra com clareza que a inclinação da vontade do homem não regenerado é totalmente para com o mal; e é essa vontade que é tão exaltada hoje — e da qual se gabam — como “livre”.

A mesma idéia é apresentada em 1 Pedro 4:3: “Porque é bastante que no tempo passado da vida fizéssemos a vontade dos gentios, andando em dissoluções, concupiscências, borrachices, glutonarias, bebedices e abomináveis idolatrias”. Sempre se vê a vontade que não foi regenerada como má em suas tendências, e o leitor é desafiado a apresentar um único exemplo em que a vontade do homem natural e não regenerado chega a ser vista como capaz de um único ato verdadeiramente bom ou espiritual sem a capacitação divina.

Um segundo defeito dessa perspectiva acerca da vontade do homem é que sempre deixa de glorificar a Deus, mas sempre põe a glória na suposta capacidade do homem; isso é inteiramente natural, pois se o homem por natureza tem essa capacidade de se arrepender e crer a qualquer momento sem a ajuda da graça divina, então Deus não merece louvor além do que é dado pela Sua criação do homem. Contudo, lemos em Isaías 42:8, e o contexto mostra que é em referência à obra redentiva de Jesus, que: “Eu sou o SENHOR; este é o meu nome; a minha glória, pois, a outrem não darei, nem o meu louvor às imagens de escultura”. Daí, o Senhor nega que alguma outra pessoa tenha parte na salvação, pois Ele afirma todo o louvor, que não seria o caso se o “livre arbítrio” do homem entrasse na questão. Deus criou todas as coisas para Sua própria glória (Apocalipse 4:11), mas essa glória Lhe foi roubada em grande parte por aqueles que exaltam suas próprias capacidades, e confiam em sua própria vontade para colocá-los numa relação certa com o Senhor.

Outro defeito da crença no livre arbítrio é sua tendência de produzir outras crenças piores, tais como: (1) Adiamento. Por causa de sua crença em seu próprio livre arbítrio, muitas pessoas ficam deixando para se arrepender e se submeter ao Senhor mais tarde, pois se possuíssem um livre arbítrio que lhes tornasse possível se voltarem para Deus a qualquer momento que quisessem, então mais tarde farão tão fácil o que poderiam fazer agora, e poderão aproveitar tudo o que o mundo lhes pode oferece no meio tempo. (2) A apostasia da alma é uma doutrina gêmea da doutrina do livre arbítrio, pois se sustenta que se alguém pode se voltar para Deus a qualquer momento pelo mero exercício da vontade, então ele poderá também se desviar de Deus e se perder de novo a qualquer momento. A conclusão disso é lógica, mas é incorreta, pois ambas as idéias se baseiam num alicerce errado. (3) O tempo testou bastante essa teoria, e o resultado de se sustentá-la é quase sempre que leva ao socinianismo, pelagianismo ou unitarianismo. O arminianismo é mau o suficiente, mas essas outras teorias são venenos estritamente espirituais que condenam a alma de todos os que as sustentam. Tudo o que é preciso fazer é olhar para os batistas gerais ingleses, e para alguns batistas da Nova Inglaterra, ambos dos quais sustentavam essa teoria da vontade, e se verá que esse quase foi, sem variar, o resultado: ambos foram dominados por outras crenças e logo perderam completamente sua identidade como batistas. Por outro lado, os batistas particulares, que jamais sustentaram a liberdade da vontade nunca tiveram problemas com deserções consideráveis ao socinianismo, pelagianismo ou unitarismo.

CONCLUSÃO

Sentimos que temos de rejeitar essa perspectiva geral do livre arbítrio, pois a vontade do homem natural, sendo totalmente depravada e pervertida, não pode e não deseja fazer a vontade de Deus em nada. Pelo contrário, a mente do homem natural é “inimizade com Deus”, e como então poderia sua vontade chegar a ficar em harmonia com a vontade de Deus? Por experiência, o crente se sente compelido a confessar que ele não pode fazer as coisas que sua natureza espiritual deseja fazer, pois a vontade da carne é ainda uma força potente.

E daí? Como é que o homem pode ser resgatado desse dilema? Ele tem de reconhecer que apenas pela infusão de um novo princípio nele — sendo vivificado e regenerado pelo Espírito Santo — ele poderá ser ajustado para fazer a vontade de Deus. Sem a graça de Deus, não podemos fazer nada de bom ou certo, mas com a graça de Deus operando em nós, tanto quereremos quanto faremos a Sua vontade. Estaremos realmente dispostos no dia em que Ele exercer Seu poder em nós (Salmo 110:3). Temos de prestar contas pelo uso dos meios de graça que nos foram dados, pois ao ouvir da leitura e pregação da Palavra, a fé é instilada nos homens, e eles são santificados e ajustados para o uso do Mestre. Fomos todos criados para a glória de Deus, não para a nossa própria glória, e só teremos alegria e contentamento depois que alcançarmos o propósito para o qual fomos criados. Por causa das atitudes graciosas de Deus para com os filhos dos homens, ocupamos uma posição gloriosa como filhos de Deus que nasceram de novo. Temos de glorificar a Deus por Sua graça que nos coloca em tal posição exaltada.

terça-feira, 28 de julho de 2020

IDOLATRIA E PERVERSÃO SEXUAL – UMA DAS CONSEQUÊNCIAS DA MORTE ESPIRITUAL


Por Pr. Silas Figueira

“E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2.16,17)

Quando nossos primeiros pais desobedeceram a ordem de Deus (Gn 3), a humanidade sofreu graves consequências. A queda trouxe morte espiritual e, como consequência, a ruína e a destruição. E uma das maneiras de vermos isto é quando vemos os homens dizendo que são independentes Deus, e que não precisam dEle para reger as suas vidas, apesar de todo caos ao nosso redor. Como disse John Stott: “não há nada que afasta tanto as pessoas de Cristo quando a sua incapacidade de ver que precisam dele, ou o fato de se recusarem a admitir isso” [1]. 

O que antes era harmônico transformou-se num caos, devido ao pecado. As consequências da queda foram danosas não somente para o homem mas também para a natureza: “E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida. Espinhos, e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo” Gn (3.17,18). De alguma forma, devido ao pecado, o cosmos foi abalado também. Tanto que a palavra cosmético vem da palavra cosmos - ordem, conveniência, organização, ordem do universo - por isso que o inverso de cosmos é caos. Assim como as mulheres usam cosméticos para melhorar a aparência, a humanidade, como um todo, tem usado “cosméticos” – boas obras, justiça própria - para esconder a feiura espiritual que se encontra. Em outras palavras, são mortos espirituais maquiados com suas justiças, mas que aos olhos de Deus não passa de trapo de imundícia, como nos fala Isaías: “Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades como um vento nos arrebatam” (Is 64.6). 

Devido a isso, o homem está sob a ira de Deus, por isso precisa de salvação. Como nos fala Paulo aos Efésios 2.1-3: “E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados, em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência; entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também”. 

No momento que houve o pecado original, desencadeou-se uma série de males que foram contagiando a humanidade. Dentre muitos, eu quero destacar duas em particular: a idolatria e a perversão sexual. 

1 – IDOLATRIA – Em uma definição básica, idolatria é tudo aquilo que toma o lugar de Deus no coração das pessoas. A idolatria vai muito além de se prostrar diante de uma imagem de escultura. A questão é muito mais complexa. 

A idolatria é a rejeição a Deus, como nos fala Paulo: “Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis; porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis” (Rm 1.20-23). 

No livro de Sabedoria, apesar de ser um livro apócrifo o que está registrado aqui é extremamente verdadeiro, nos diz: “Tudo está numa confusão completa – sangue, homicídio, furto, fraude, corrupção, deslealdade, revolta, perjúrio, perseguição dos bons, esquecimento dos benefícios, contaminação das almas, perversão dos sexos, instabilidade das uniões, adultérios e impudicícias – porque o culto de inomináveis ídolos é o começo, a causa e o fim de todo o mal. (Seus adeptos) incitam o prazer até a loucura, ou fazem vaticínios falsos, ou vivem na injustiça, ou, sem escrúpulo, juram falso, porque, confiando em ídolos inanimados, esperam não ser punidos por má-fé” (Sabedoria, 14.25-29). 

Quando os homens rejeitam a verdade, abraçam a mentira em seu lugar. Diante disso, o erro assegura presença na mente das pessoas. Os homens rejeitam o conhecimento de Deus deixando de glorifica-lo e deixando de agradar-lhe. 

Mas como o homem é por natureza um ser religioso, no momento que se afasta de Deus, este homem irá colocar no lugar de Deus outro deus. Irá criar sua própria religião com suas divindades e sistema de culto. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos, como disse Paulo, ou seja, em sua pretensa sabedoria os homens rejeitaram o conhecimento de Deus e mudaram a glória do Deus incorruptível em imagem de homens, aves, quadrúpedes e répteis. Isso sim é loucura e a mais baixa degradação que uma pessoa longe de Deus pode chegar. 

A idolatria é algo tão danoso que os homens reduzem Deus a duas pernas, depois a quatro patas, e finalmente a rastejar sobre o ventre. E em todo tempo eles se dizem sábios [2]. 

2 – PERVERSÃO SEXUAL – Da idolatria para a imoralidade sexual é passo. John Stott diz: “A história do mundo confirma que a tendência da idolatria é acabar em imoralidade. Uma falsa imagem de Deus leva a um falso conceito quanto ao sexo. O sexo ilícito leva à degradação das pessoas como seres humanos” [3]. 

Como disse o filósofo indiano Jiddu Krishnamurti: “Não é sinal de saúde estar bem-adaptado a uma sociedade profundamente doente”. No entanto, os homens estão bem-adaptados a esta sociedade doente. E por que estão bem-adaptados? Porque eles não se veem doentes, se veem sãos. Pelo menos os homens sem Deus estão se vendo assim. 

“Por isso também Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si; pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém. Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro” (Rm 1.24-27). 

A Bíblia sempre condenou o homossexualismo e o lesbianismo, no entanto, por vivermos em uma sociedade adoentada pelo pecado, a degradação humana não parou por aí. No início da década de 90 a sigla GLS se popularizou no Brasil como referência ao público homossexual, tendo como significado: gays, lésbicas e simpatizantes – pessoas heterossexuais solidárias com a causa. 

Com o passar dos anos, remodelações foram realizadas e novas siglas foram surgindo, dando voz a outras vertentes dentro do movimento em prol dos direitos homossexuais perante a sociedade. Então, a sigla já passou por diversas mudanças, e no final das contas, não existe um certo ou errado, mas a vontade de que todos se sintam representados. Abaixo segue algumas explicações LGBTQI+: 

L – Lésbicas: Mulheres que se sentem atraídas fisicamente e/ou emocionalmente por outras mulheres. 

G – Gays: Homens que se sentem atraídos fisicamente e/ou emocionalmente por outros homens. 

B – Bissexuais: Pessoas que se sentem atraídas fisicamente e/ou emocionalmente por ambos os gêneros. 

T – Transgênero: Pessoas em que não se identificam com seu sexo biológico, podendo ser homens ou mulheres transsexuais, além dos não binários, que é quando não há identificação com nenhum dos gêneros. 

Q – Queer: Pessoa em que não se identifica com nenhum dos gêneros e não seguem o padrão binário (feminino ou masculino) imposto socialmente. 

I – Interssexuais: Pessoas que nascem com características que não se enquadram propriamente aos gêneros feminino ou masculino, podendo ser relativas a anomalias cromossômicas, harmônicas ou genital. 

+ : engloba todas as outras orientações sexuais, identidades e expressões de gênero. 

Observem que eles se viram obrigados a colocarem um + (mais), pois a coisa descambou de tal maneira que creio que não há limites para o imaginário humano. Tanto que já temos: 

Transracial – pessoas que nasceram em raça, no entanto, dizem que são de outra raça. A ativista americana Rachel Dolezal, que se passou por negra durante vários anos e foi protagonista de um intenso debate sobre raça e identidade após ter revelada sua origem caucasiana, afirma que a ideia de raça é uma mentira e se classifica como “transracial”. 

Transdeficiente – Uma pessoa que nasce com o corpo saudável, mas que diz deveria ser deficiente. Teve um caso de um homem que cortou o próprio braço, pois, segundo ele, ele se via como um amputado. Teve o caso de uma mulher que pôs soda cáustica nos olhos, pois se sentia como uma pessoa cega. 

Transbebê – Um homem pôs um anúncio no jornal querendo uma baba para ele, pois ele se sentia como uma criança. 

A questão é: Onde irá parar essa insanidade cultural? Estamos caminhando a passos largos para a transespécie, onde cada um pode ser qualquer coisa, menos gente imagem e semelhança de Deus. 

O pior de tudo isso é que muitos líderes cristãos, que deveriam ser voz profética censurando o pecado do mundo, estão transformando o cristianismo em uma mesa de debates. Ou seja, os princípios cristãos que nunca deveriam ser relativizados a pretexto de uma postura de “tolerância” e entendimento com os “diferentes” estão sendo relativizados. Há um movimento hoje que se esforça neste sentido, diz que devemos ter “novos diálogos”, lutam por um evangelho inclusivo, e por uma igreja sensível que se amolda e se acultura ao contexto e valores sociais vigentes. 

No entanto, veja o que a Bíblia nos fala: 

“E não comuniqueis com as obras infrutuosas das trevas, mas antes condenai-as” (Ef 5.11). 

“Adúlteros e adúlteras, não sabeis vós que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto, qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4.4). 

“Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo” (1Jo 2.15,16). 

Portanto, à luz da Bíblia, podemos dizer que este discurso não passa de um discurso estético, politicamente correto. Dizer que a igreja tem necessidade dialogar com a sociedade sobre esse tema LGBTQI+, inclusive sobre o aborto, novas configurações familiares, teologia negra, feminismo, “direitos humanos” ..., como se fosse possível luz e trevas entrarem em acordo e firmarem consenso. Como se os fundamentos cristãos pudessem ser adequados a partir do entendimento comum entre as partes. Biblicamente isso é impossível. O argumento utilizado é quase sempre o “amor”. Para eles o “amor” é a única doutrina, uma vez que tudo mais pode ser reinterpretado. Esta é uma tentativa diabólica de fazer a igreja “relevante” perante a sociedade, de produzir uma nova teologia a partir das ruas, de criar uma hermenêutica com base no pensamento de certas minorias, e reimaginar a igreja. Isso nada mais é que parte de um esforço bem articulado para levar adiante um processo de desconstrução não só da igreja, mas da própria sociedade, que passa pela quebra de paradigmas e conduz para um novo código moral que se contrapõe ao padrão divino ensinado nas Escrituras; é a criação de um novo deus, um novo evangelho, uma nova sociedade e uma nova religião. 

Este “diálogo” é falácia maligna, é estratégia das trevas. Deus não deixou sua igreja na Terra para se entender com o mundo, senão para fazer discípulos de Cristo que venham a fazer jus ao nome cristão. A luz não comunga com as trevas, antes revela e condena suas obras más e desnuda o pecado; por isso os salvos são odiados (Mateus 24.9 – leia o contexto). 

A verdadeira igreja é a noiva do Cordeiro que se preserva santa e irrepreensível (Ef 5.27; Ap 19.7). Ela não precisa ser reimaginada, deve ser igreja conforme o modelo bíblico, e capacitar os santos para cumprir seu papel de Sal e Luz. Igreja que busca consenso com o mundo não é igreja, é amante do diabo [4]. 

1 – Stott, John. A Mensagem de Romanos. Editora ABU, 4ª reimpressão 2009, pag. 71. 

2 – Lopes, Hernandes Dias. Romanos, o evangelho segundo Paulo. Editora Hagnos, 2010, pag. 86. 

3 – Stott, John. A Mensagem de Romanos. Editora ABU, 4ª reimpressão 2009, pag. 83. 

4 – Monteiro, Cleber. NOIVA DE CRISTO, OU AMANTE DO DIABO? Acionado em 28/07/2020. https://pastorcleber.blogspot.com/2018/04/noiva-de-cristo-ou-amante-do-diabo.html

sábado, 20 de junho de 2020

Os loucos não reconhecem a própria loucura!


Por Jorge F. Isah

Em matéria de Cristianismo, os chamados "cristãos-marxistas" não entendem nada do que seja o Evangelho, desconhecendo o seu real significado e objetivo que é não tornar o homem perfeito na terra, nem criar o homem ideal, mas que os cristãos sejam exatamente aquilo para o que foram chamados: imitadores de Cristo. 

Em qual mundo é possível se defender uma ideologia que, em sua história, massacrou e ainda massacra milhões de irmãos? Cuja única culpa é amarem o Senhor de suas vidas? Culpados por professarem a fé indestrutível? Culpados por não se sujeitarem a "rezar" na cartilha esquerdista? Ou de qualquer governo, ou ideologia, ou movimento, a torná-los idólatras? E não adorarem o deus-estado? E não crerem num falso-salvador?

Seria o mesmo que cristãos primitivos defendessem a prisão e execução dos irmãos pelo governo romano, ou, ainda defendessem a crucificação de Cristo. Alguém pode dizer que devemos amar os nossos inimigos, mas não estou falando de amá-los, porque o amor pressupõe o desejo de levá-los à compreensão do "bem supremo. Pregando-lhes Cristo como Senhor e Salvador, mas também aquele que mudará a natureza do pecador, tornando-o santo e conformando-o à sua imagem. Quando evangelizamos um criminoso queremos que ele, conhecendo a Cristo, liberte-se dos crimes e faça o bem. 

Amar o próximo e amar o mal que ele produz não é amor ao próximo, mas amor ao que ele faz. Para amá-lo verdadeiramente desejamos a sua transformação, a sua conversão, e de que ele tenha a mente de Cristo, abandonando o mal para apegar-se ao bem. 

Ao defendermos governos e pessoas malignas, no mal que praticam, negamos qualquer efeito do Evangelho sobre elas. De que adiantaria proclamar a verdade se apoiamos as suas mentiras?

Somente neste mundo caído, e miserável, e cego, e nu, no qual vivemos, essa incoerência é possível. Em que vale mais dizer o que se quer ser, como uma possibilidade ainda que irreal, do que viver o que se diz ser... ou deveria ser. 

Utopia regada a sangue inocente e fundamentada no mal que dizem combater. Terminando por solapar e destruir também inúmeras almas. 

Como diz o Senhor Jesus: 

"Por que não entendeis a minha linguagem? Por não poderdes ouvir a minha palavra. Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira" (João 8.43-44)

Os loucos nunca reconhecem a própria loucura!

Fonte: kalamos

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Uma contracultura num mundo perdido


Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

Jhon Stott, num de seus livros, chamou o evangelho de “contracultura”. Segundo ele, os cristãos devem viver em oposição à cultura do mundo. Este está sob o do Maligno, e nós somos de Deus (1 Jo 5:19). Além da cultura do mundo, há também uma “teologia do mundo”, aceita por alguns setores da igreja e alguns crentes. Acham que a igreja deve ser “amiga do mundo”. Esta não deve ser sua preocupação principal, mas sim ser leal ao se Senhor, à sua vocação, aos valores que recebeu (Tg 4:4) Há hoje muita gente fascinada pelos valores do mundo, diluindo a mensagem de Jesus para torná-la mais suave. A preocupação com megaigrejas tem levado alguns a esquecerem que a igreja deve, antes de tudo, lealdade a Jesus e ao seu evangelho. Somos uma contracultura num mundo perdido. Não que devamos nos portar arrogantemente, mas que devemos ser santos e não enamorados do mundo.

1. O ponto de partida

Partamos de Romanos 12:1,2. Após expor o conteúdo do evangelho até o capítulo 11, Paulo trata de ética (12:1). Começa com “pois”. O grego é oûn, uma partícula conclusiva, com o sentido de “portanto”. O que se segue é consequência do anterior. Por tudo que foi dito (o conteúdo do evangelho) deve-se viver de uma maneira. Primeiro a teologia (o credo). Depois a ética (a conduta). O que uma pessoa crê afeta sua maneira de ser. O seguidor de Jesus não vive como o mundo sem Jesus vive (Ef 4:18,19). Ele deve apresentar-se a Deus e não se amoldar ao mundo (Rm 12:2). “Não vos conformeis” significa “não tomar a forma do mundo”. O cristão não é massa de bolo que toma a forma de onde é posta. Ele é do Senhor, na igreja, na casa e no mundo. Ele se nega a ser moldado pelos padrões do mundo.

Devemos apresentar nossos “corpos” como um ato de culto a Deus (v. 1). O grego é sômata, que significa mais que a parte física. É “a realidade da existência, a pessoa concreta”. É a totalidade da pessoa, não só o físico. O cristão deu toda a vida a Cristo: física, mental, emocional e espiritual. Por isso, sua “mente” deve ser transformada (v. 2). “Transformai-vos” é metamorfouste, de onde vem “metamorfose”, que é passar para outro estágio. É a lagarta que se transforma em borboleta.

Eis o ponto de partida. Cremos em Jesus, assumimos o compromisso de uma vida santa. A ética segue a fé. Quem crê rompeu com o passado. O crente em Jesus não é massa de manobra. Ele ousa nadar contra a correnteza.

2. Como o Novo Testamento vê o mundo

Precisamos recuperar a visão bíblica da vida. Muitos crentes são moldados pela mídia e têm uma visão romântica do mundo. Outros o amam. A igreja contemporânea é mundana. Até os critérios para se avaliar uma igreja são mundanos e não bíblicos: a arquitetura do templo, o volume de entradas, o nível social dos membros. O critério deveria ser: quanto de Cristo ela exibe ao mundo?

Como o Novo Testamento vê o mundo? Não o cosmos ou as pessoas que Deus amou (Jo 3:16), mas “mundo” como um sistema de valores corrompidos?

Não é um olhar positivo. Somos filhos de Deus, no meio de uma geração corrupta (Fp 2:15). No longo texto de Efésios 4:17 a 5:21 há uma descrição do mundo, que é como não devemos ser. Por isso, “Não ameis o mundo, nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele” (1 Jo 2:15).

A igreja de Jesus não pode ser moldada pelo mundo nem ceder aos seus apelos. A conversa de “igrejas amigas do mundo” é perigosa. Não devemos ser beligerantes nem nos julgarmos superiores. Mas, desde o convite divino ao pai da fé, o chamado é “anda em minha presença, e sê perfeito” (Gn 17:1).

Isto não é legalismo nem fundamentalismo. Chamar alguém de legalista e fundamentalista é obra de quem não tem argumento. Isto é santidade. O padrão de vida para a igreja está no Novo Testamento, não em pesquisas de opinião ou em planos de marqueteiros eclesiásticos. Ela deve ser santa, e não bajuladora de pecadores. Paulo diz que é assim que devemos viver (Cl 1:10-12).

3. A santidade é moral, não litúrgica

No judaísmo a santidade era litúrgica. Expressava-se por ritos. No evangelho é moral. Ser santo não é adotar posturas no culto. É ter uma moral sadia. A santidade se liga ao caráter. Há uma série de declarações de Paulo que podem ser chamadas de “éreis” e “sois”. Elas mostram o que éramos antes da conversão, e o que somos agora. Entre algumas passagens “éreis”, que mostram nosso passado e como não mais devemos ser, estão Romanos 6:20,21, 1 Coríntios 6:9-11, 12:2, Efésios 5:8 e Colossenses 1:21. Veja-se ainda 1 Pedro 4:3. Entre as passagens “sois” estão Romanos 1:6, 1 Coríntios 1:30,31, 3:16,17, 5:7 e 6:19,20, Efésios 2:19-22, 5:1-8 e 1Tessalonicenses 5:5.

O exame destas passagens mostra que a conversão é um divisor de águas na vida moral da pessoa. Mudou seu destino final, de inferno para céu. Mudou sua vida aqui na terra. Seus valores mudaram. Quem aceita a Cristo tem um novo jeito de viver. O comportamento do mundo não é sadio. Podemos nos acostumar com o adultério, o roubo, o homossexualismo, a violência, porque a mídia despeja estas coisas em nossas casas e nos anestesia. Mas elas são pecado! Mesmo que as leis humanas as autorizem e punam quem as combatam, elas são pecado! A Bíblia diz que são pecado. A santidade é moral, e não gestual, como levantar as mãos, ou de volume nos cânticos. Santidade é caráter de acordo com o padrão bíblico.

4. A santidade é relacional, não mística

Na Idade Média havia os “santos no poleiro”. Eram pessoas que subiam a uma plataforma sobre um alto poste e ali ficavam anos a fio. Alguns, quando retirados, tinham os membros inferiores atrofiados. Isolavam-se do mundo, viviam de comida que lhes davam e ficavam ao relento. Eram inúteis à sociedade. Santos no poleiro não ajudam o mundo em nada.

Vivemos num mundo altamente individualista. Na cultura atual, chamada de pós-moderna, prevalece o individual sobre o coletivo. Somos uma sociedade fragmentada, em que cada um busca seu interesse. Um mundo mesquinho.

A igreja é uma comunidade e não um bando de solitários. “Deus faz que o solitário viva em família” (Sl 102:6) e isto acontece na igreja. Somos postos como família, para nos relacionar uns com os outros. Na igreja nos agrupamos como pessoas para exercitarmos a fé, aprendermos uns dos outros, aperfeiçoarmos uns aos outros, e recebermos forças para vivermos no mundo. Vivemos em grupo, exercemos a fé em grupo, e vivemos no mundo, como cristãos. A vida cristã não é vida no poleiro, mas bondade nas relações (Ef 4:32). O amor cristão não busca seus próprios interesses (1Co 13:5). Volta-se para os outros. A igreja de Jerusalém e Barnabé nos mostram isso (At 4:32-37). Os crentes devem ter vidas entrelaçadas, sendo responsáveis uns pelos outros, como se vê em 2 Coríntios 8:1-5. Muita gente levanta um poleiro espiritual, no culto, onde canta, louva, ora, mas não se envolve com os necessitados nem com a obra do reino em geral. Esta santidade mística é desvirtuada. Santidade é relacional, não intimista, apenas eu e Deus. Sou eu, Deus e meu próximo. Isto é a igreja: Deus e nós, e não Deus e eu. Isto é santidade: relações corretas com Deus e com o próximo.

Quando saímos do culto, fortalecidos pela comunhão com Deus e com os irmãos, vamos ao mundo testemunhar nossa fé. O caráter cristão, prova da nossa fé, se vê em nossas relações. Mostra misericórdia, apoio aos fracos (Rm 15:1, 1 Ts 5:14) e retidão na vida. É melhor ser ingênuo e ultrapassado que ser cruel e frio como o mundo. Deus vê e julga.

A ESSÊNCIA DO CULTO A DEUS - Sl 50.1-23