sábado, 4 de janeiro de 2020

CUMPRE-SE EM JESUS AS ORDENANÇAS DA LEI (UM EXEMPLO A SER SEGUIDO)



Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 2.21-24

INTRODUÇÃO

A primeira coisa que gostaria de destacar a nível de introdução é em relação ao termo Lei que é usado cinco vezes em Lucas 2.21-40. Apesar de ter vindo para livrar o mundo do jugo da Lei, Jesus nasceu “sob a lei” e obedeceu a seus preceitos (Gl 4.1-7). Ele não veio para destruir a Lei, mas para cumpri-la (Mt 5.17,18). Aliás, é bom destacar que Jesus foi o único que a cumpriu cabalmente. Tudo isso Ele fez para nos resgatar da maldição da Lei (Gl 3.13).

Em segundo lugar, nada é relatado da primeira infância de João Batista, porém no caso de Jesus três importantes acontecimentos são narrados.

1) Primeiro acontecimento: quando o bebê tinha 8 dias de idade, ele é circuncidado em casa, em Belém, e recebe seu nome. É isso que relata o v. 21.

2) Segundo acontecimento: quando o bebê está com 40 dias de idade, acontece o sacrifício de purificação de Maria no templo de Jerusalém. Ao mesmo tempo é oferecido também o sacrifício da apresentação pelo menino Jesus. Disso nos falam os v. 22-24.

3) Terceiro acontecimento: imediatamente após o sacrifício de purificação e apresentação acontecem os louvores de Simeão e de Ana. Sobre isso informam os v. 25-38.

Todos os três acontecimentos têm em comum o aspecto de revelar o menino Jesus em sua humildade e glória.

Diante desse quadro, quais as lições que podemos tirar dos versículos 21-24 do capítulo 2 de Lucas?

1 – VEMOS AQUI UM COMPROMISSO COM A PALAVRA DE DEUS NA CIRCUNCISÃO (Lc 2.21).

José e Maria são mais que pessoas religiosas, são pessoas compromissadas com Deus e com Sua Palavra. Eles procuram observar todos os preceitos da Lei segundo o Senhor lhes havia ordenado que guardassem. Como nos diz Tiago 1.22-25:

Sejam praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando a vocês mesmos. Porque, se alguém é ouvinte da palavra e não praticante, assemelha-se àquele que contempla o seu rosto natural num espelho; pois contempla a si mesmo, se retira e logo esquece como era a sua aparência. Mas aquele que atenta bem para a lei perfeita, lei da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte que logo se esquece, mas operoso praticante, esse será bem-aventurado no que realizar” (NAA).

Podemos destacar três coisas aqui:

1o – Os oito dias prescritos pela lei para a circuncisão são rigorosamente observados (Gn 1710-12; Lv 12.3; Lc 2.21). Quem realizava a circuncisão era o pai. Ela aconteceu na casa em Belém. Precisamos supor que logo depois do recenseamento, tendo cumprido seu dever, as pessoas retornaram novamente às suas terras. Com a partida desses numerosos viajantes havia novamente lugares disponíveis nos albergues.

O que significa a circuncisão?

1) Ela é uma confissão: Sou um pecador. Sou culpado de morte.

2) A circuncisão significa acolhida no povo eleito. Embora eu seja culpado de morte, Deus me permite viver e até mesmo me acolhe em seu povo escolhido, Israel. Estabelece uma aliança comigo. Ele o faz retardando a punição pelos pecados do povo até o dia em que colocará a punição pelos pecados sobre aquele que nunca cometeu um pecado, Jesus Cristo. Leia Rm 3.25.

3) A circuncisão representa um compromisso. O israelita se desprende da vontade própria, separa-se da vida autônoma e passam a servir somente a Deus.

A circuncisão simboliza pureza, compromisso com Deus, com Sua Palavra e o reconhecimento de pecado, tudo o que a igreja atual anda despregando.

Muitas pessoas alegam que não há mais necessidade de circuncisão como prescrito na Lei, uma vez que Jesus já cumpriu toda a Lei por nós (At 15.22-29, Rm 4.9-12, 1Co 7.7, Gl 5.6), no entanto, isso não nos isenta de termos uma vida santa e irrepreensível, que é a circuncisão do coração como diz Paulo (Rm 2.28,29). Para a santidade foi que Cristo nos chamou, como está escrito em 1Pe 1.15,16:“Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver; porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo”.

Hoje, infelizmente, a igreja está tão parecida com o mundo que não conseguimos mais diferenciá-la do mundo. Como nos fala uma antiga frase: “Procurei a igreja e encontrei-a no mundo; procurei o mundo e encontrei-o na igreja”.

A sociedade humana, sua cultura, o mundo e o poder por trás dele, nunca nos indicará o caminho que nos leva a Deus e a santidade. O grande Puritano Thomas Brooks dizia: “Seria mais fácil fazer os dois polos se encontrarem do que unir o amor a Cristo e o amor ao mundo”. Como nos fala João em sua primeira epístola:

Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo. E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre” (1 João 2.15-17).

O mundo nunca será parceiro da verdadeira igreja, pois o mundo é incircunciso (1Sm 17.26). O mundo está em luta contra a igreja pois está em luta contra Deus. Isso porque santidade é exatamente o oposto da direção que esse mundo se lança com avidez. Por isso não pode haver acordo da igreja com o mundo. No entanto, o que mais temos visto é a igreja se mundanizando para atrair as pessoas do mundo. A igreja que age assim perdeu sua identidade do que deve ser a Igreja do Senhor.

Como disse Paul Washer: “Se utilizarmos métodos carnais para atrair pessoas carnais, teremos de continuar a usar meios carnais para mantê-los. Não conseguiremos, como alguns supõem, mudar o cardápio para uma dieta mais espiritual na metade da refeição. Sem uma obra sobrenatural do Espírito, mediate uma pregação correta do Evangelho, as pessoas jamais terão gosto pelo Pão que desceu do céu”.

Infelizmente, há muitas igrejas servindo comida requentada de Satanás em vez de servirem o Pão da Vida. Deixam de seguirem os preceitos da Palavra de Deus e aplicam métodos mundanos. Bem diferente de José e Maria que obedeceram a Palavra que o Senhor havia lhes confiado. Eles foram um grande exemplo de consagração e obediência à Palavra.

Eles foram com o menino Jesus cumprir o que ordenava nas Escrituras. Em momento algum eles agiram contrários a ela, mas em tudo foram obedientes. Hoje o que mais vemos é a frase: “Temos que fazer uma releitura da Bíblia”, ou, “Temos que aplicar a Bíblia na visão da sociedade atual”. Tudo isso não passa do desejo de muitos líderes “cristãos” implantar outro evangelho (Gl 1.8) na igreja atual.

2o – Para Jesus, a circuncisão foi o começo de Sua trajetória de sacrifício rumo ao Calvário. Em tudo o Senhor Jesus se identificou com o pecador. Como disse o apóstolo Paulo: “Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2Co 5.21 – NAA).

1) Jesus sendo sem pecado é declarado aqui culpado de morte culminando no Calvário.

2) Jesus, desde a eternidade passada se propôs a sofrer a punição do nosso pecado.

3) O compromisso contido na circuncisão, a saber, abrir mão da vontade própria, foi cumprido de modo perfeito pelo santo Filho de Deus, como lemos em Jo 5.19: “Em verdade, em verdade lhes digo que o Filho nada pode fazer por si mesmo, senão somente aquilo que vê o Pai fazer; porque tudo o que este fizer, o Filho também faz” (João 5:19). E 1Pe 1.18-22 relata a paixão e morte de um cordeiro inocente.

Jesus não só se identifica com o pecador, mas Ele pagou pelos nossos pecados morrendo em nosso lugar na cruz. No entanto, a Bíblia nos diz que devemos ser imitadores de Cristo, não morrendo na cruz novamente, mas nos identificando em sua obediência ao Pai (1Jo 2.3-6).

3o – A circuncisão estava ligada à atribuição do nome. Lemos: “deram-lhe o nome Jesus, que fora citado pelo anjo”. O nome de Jesus é o equivalente grego do nome hebraico “Josué” que significa, “Yahweh salva”. É um nome apropriado para aquele que nasceu para “salvar o seu povo dos seus pecados” (Ma 1.21). A escolha do Pai do nome “Jesus” para o Seu Filho é apropriado, refletindo a realidade que Ele é “um Deus justo e Salvador” (Is. 45.21).

O nome Jesus, portanto, lhe foi dado por Deus, por meio do anjo. Isso é importante. Quando pessoas dão nomes, este nome expressa um desejo. Por exemplo, quem dá ao filho o nome Frederico deseja que este se torne uma pessoa pacífica (literalmente: rica em paz). Quando Deus concede um nome, ele não contém meramente um desejo, mas a realidade. O nome Jesus expressa uma realidade: Deus ajuda poderosamente, no tempo e na eternidade.

No entanto, devemos tomar cuidado para não acharmos que, de acordo com o nome que a pessoa tem, esta será bem ou mal sucedida na vida. Já vem de longe a superstição de que o nome pode exercer influência no caráter e no destino da pessoa, ou seja, do seu portador. Segundo os apologistas dessa “superstição”, existem nomes próprios que trazem prognósticos negativos pelo fato de estarem carregados de maldição. Nomes como Jacó, Mara, Cláudia e Adriana são comumente citados pelos supersticiosos como sinônimo de mau presságio. Creem que os mesmos trazem consigo um prognóstico negativo para o seu portador, por conta da carga de maldição que carregam. Jacó, justificam, significa “enganador”; Mara, “amarga, amargura”; Cláudia, “coxa, manca”; e Adriana, “deusa das trevas”.

Essas declarações iniciais são bastante significativas para conhecermos melhor essa prática antibíblica, cujas raízes estão nos cultos e crenças do paganismo. É bem verdade que existem alguns nomes que, por causa de sua conotação ridícula, devem ser evitados, a fim de que o seu portador não seja exposto a situações vexatórias, irônicas, depreciativas. Mas evitar um nome por atribuir-lhe um poder misterioso, que lhe anda anexo, capaz de prever o futuro do seu portador, é cair no engano da superstição e mergulhar num mar de conceitos antibíblicos.


2 – VEMOS AQUI UM COMPROMISSO COM A PALAVRA DE DEUS NA PURIFICAÇÃO DE MARIA E NA CONSAGRAÇÃO DE JESUS (Lc 2.22-24).

A lei previa a realização de dois atos: primeiramente o sacrifício de purificação, que devia ser ofertado em prol da mãe, v. 22 e v. 24, depois a apresentação da criança como primogênito, v. 23.

Com isso em mente, podemos destacar duas coisas aqui:

1o – Maria reconhece que é pecadora. Durante sua peregrinação para a purificação, Maria poderia ter pensado: “Será que de fato fiquei impura quando aconteceu o milagre do nascimento de Jesus?” Contudo, cremos que Maria não acalentou esse tipo de pensamento. Como serva do Senhor, ela percorre com modéstia e obediência o caminho prescrito a toda parturiente: o caminho até o ofertório de purificação.

De acordo com a lei, uma mãe que desse à luz um menino, era considerada impura por 40 dias depois do parto se fosse menina seria por oitenta dias (Lv 12.1-8). Durante esse tempo ela precisava permanecer em casa e não podia entrar no templo. Essa impureza ritual testemunhava que todas as pessoas são nascidas em pecado. Visava manter viva a consciência da pecaminosidade (Gn 3.10,16).

A oferenda dos pobres era um par de pombas, uma para a oferta queimada e outra como sacrifício pelos pecados. Os ricos deviam acrescentar um cordeiro ao holocausto pela purificação, sendo que a pomba era suficiente para o sacrifício pelos pecados mesmo para os ricos (Lv 12.8).

Maria se via pecadora, quem enalteceu Maria a condição de corredentora foram os homens, tal coisa não partiu dela, nem da igreja primitiva e muito menos do próprio Jesus (Lc 11.27,28). Deus não divide a Sua glória com ninguém. Quem quer glória dividida é Satanás e os homens, influenciados por ele.

Jesus era santo, Maria era pecadora. Jesus foi gerado pelo Espírito Santo no ventre de Maria, no entanto, o ventre de Maria era de uma mulher pecadora.

2o – A consagração de Jesus (Lc 2.22b,23). O Senhor demandava a santificação dos meninos nascidos em Israel como gratidão pelo fato de que ele os havia poupado quando feriu os primogênitos dos egípcios. Através da morte dos primogênitos todos os egípcios foram golpeados, e Israel fora poupado (embora também fosse culpado de morte). Israel deveria permanecer consciente de que era povo de Deus unicamente em virtude da soberana graça. Por essa razão os primogênitos deviam ser consagrados ao Senhor e, nos primogênitos, Israel se consagrava a ele como povo. Essa consagração era chamada de “apresentação” e indicava que o menino fora consagrado ao Senhor e entregue para servir ao templo.

Mas o primogênito era eximido desse serviço no templo porque o Senhor havia aceitado os levitas para que exercessem o serviço sacerdotal em lugar dos primogênitos (Nm 3.12,13,41-45). Contudo, a fim de manter viva no coração do povo a consciência do direito de Deus sobre a primogenitura, Deus instituíra o pagamento de um resgate para cada primogênito. O preço do resgate era 5 siclos de prata que equivale a 12 gramas de prata ou ouro (Nm 3.47 e 18.16). Uma pessoa pobre como José tinha de trabalhar cerca de quarenta dias para juntar esse valor.

Embora aqui Jesus fosse resgatado de seu serviço sacerdotal como qualquer menino israelita, na verdade ele se apresentava a Deus como se não tivesse sido eximido.

CONCLUSÃO

O exemplo de José e Maria em seguir a Palavra é muito importante para nós, principalmente em nossos dias onde ela tem sido negligenciada e quando lida, mal interpretada gerando assim em nosso meio cristãos sem compromisso com a verdade, pois não a conhecem. E aqueles que vivem o verdadeiro Evangelho são vistos como fundamentalistas, retrógrados, fanáticos e outros adjetivos similares.

Devido ao analfabetismo bíblico essa geração está alienada da verdade que liberta. Por isso, temos visto tantos crentes sem compromisso com Deus. Tem até compromisso com a igreja que frequentam, com o líder que seguem, com o manual que estudam, mas estão longe de Deus e dos ensinos da Palavra. Hoje, a maioria dos que se dizem cristãos vivem um evangelho sem cruz, doutrina bíblica sem Bíblia e são zelosos fora da doutrina. Creio que essa geração está igual a Davi que quis levar a arca da aliança para Jerusalém num carro novo; teve até muita festa e muita alegria, mas totalmente fora dos princípios da Palavra. Com isso gerou a morte de Uzá.

José e Maria seguiram o que a Lei determinava, não porque era lei, mas porque era a Palavra de Deus. Esse exemplo que eles nos deixaram precisa ser seguido de perto.

Pense nisso!

Bibliografia:

1 – Barclay, William. Comentário do Novo Testamento, Lucas.
2 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, volume 2, Lucas e João. Editora Candeia, São Paulo, SP, 1995.
3 – Davidson, F. O Novo Comentário da Bíblia, volume 2. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1987.
4 – Hale, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento, Editora Juerp, Rio de Janeiro, RJ, 1986.
5 – Keener, Craig S. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia, Novo Testamento. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 2017.
6 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus, o homem perfeito. Comentário Expositivo Hagnos. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017.
7 – MacArthur, John. Comentário do Novo Testamento, Lucas.
8 – Manual Bíblico SBB. Barueri, SP, 3a edição, 2018.
9 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário. Edições Vida Nova e Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1986.
10 – Rienecker, Fritz. Evangelho de Lucas, Comentário Esperança. Editora Esperança, Curitiba, PR, 2005.
11 – Washer, Paul. O Chamado ao Evangelho e a Verdadeira Conversão. Editora FIEL, São José dos Campos, SP, 1a Reimpressão 2017.

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