sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

“TODO AMOR É SAGRADO”?


Pr. Cleber Montes Moreira

“Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor…” (João 15:10 — ACF)

Em seu perfil no Facebook uma igreja inclusiva divulgou uma imagem com a seguinte frase: “Todo amor é sagrado”. Certamente que do ponto de vista desta sociedade decadente, amoldada ao “politicamente correto”, onde o principal valor é “seguir a voz do coração”, esta é uma afirmação muito bonita e suave aos ouvidos. Nada mais encantador que um discurso que versa sobre amor, principalmente se este for um discurso religioso, proferido em nome de Deus e tendo como base algum texto (por pretexto) das Escrituras. Não é sem motivo que atualmente este seja o tema predileto dos profetas do engano.

Será mesmo verdadeira a afirmação de que “todo amor é sagrado”? Esta pergunta deve ser respondida com base na Palavra de Deus, a regra de fé e prática de qualquer cristão autêntico, fora da qual não há nenhuma base confiável e normativa para a vida cristã. A Bíblia é inerrante e suficiente; não há outra fonte de revelação digna de total confiança, e por isso nenhuma outra palavra poderá substituir ou ser colocada em igualdade com a Palavra da Verdade. É nela que conhecemos o amor do Pai, bem como, por meio deste perfeito amor, somos chamados e ensinados sobre o modo como devemos amar a Deus e ao próximo.

Jesus nos adverte: “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor” (João 15:10 — ACF). Por meio de João, o Pai nos fala:“E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu conheço-o, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade. Mas qualquer que guarda a sua palavra, o amor de Deus está nele verdadeiramente aperfeiçoado; nisto conhecemos que estamos nele. Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou” (1 João 2:3-6 — ACF). O texto sagrado afirma que quem realmente conhece a Deus é aquele que guarda os seus mandamentos, que naquele que guarda a Sua Palavra (ensinos/mandamentos) o amor de Deus é aperfeiçoado, e que quem permanece verdadeiramente nele é aquele que anda como Ele (Jesus) andou.

Está claro que não existe amor puro, verdadeiro, que exclua a necessidade de obediência aos mandamentos de Deus explícitos na Bíblia. O critério do amor é este: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra…” De outro modo, “Quem não me ama não guarda as minhas palavras…” (João 14:23,24 — ACF). Assim percebemos que é impossível amar verdadeiramente sem antes amar a Deus, pois é o amor de Deus em nós que nos faz obedecer à Sua Palavra, que rege nossas vidas, incluindo, é claro, nossos relacionamentos. Qualquer amor que despreze os ensinos bíblicos, que relativize princípios e valores, ou que para se estabelecer necessite reinterpretar ou ressignificar as Escrituras está longe de ser amor verdadeiro.

O “evangelho paz e amor” pode ser muito agradável, mas não se engane, ele não é o poder de Deus para salvar, mas a mentira do diabo para enredar pessoas. Este amor celebrado pela religião inclusiva exalta a carne, autoriza o pecado e em nada opera para o bem; trata de um amor corrompido, hedonista, reprovado por Deus, que escraviza, que desonra corpos… nada mais é que um sentimento egoísta travestido de amor. É o amor daqueles que se desviaram da fé, conforme Paulo já nos adivertiu: “Porque haverá homens amantes de si mesmos…” (2 Timóteo 3:2 — ACF).

Nada que esteja fora do padrão estabelecido por Deus em Sua palavra pode ser chamado de “sagrado”, nem mesmo aquilo que muita gente insiste em chamar de “amor”. Pense nisso!

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

JESUS DA SILVA


Por Pr. Wagner Antonio de Araújo

A escola de samba da Mangueira, no Rio de Janeiro, vai levar para a avenida no carnaval de 2020 um Jesus filho de negros, pobre e inclusivo. Eles inventaram uma outra estória sobre o Filho de Deus. O Jesus da Porta dos Fundos era homossexual e não sabia o que realmente viera fazer. O Jesus de um filme francês era fornicador, tentado ao extremo, e caído. O Jesus de outro cineasta era um ateu. A mídia cria os seus "Jesuses" de acordo com o desejo dos fregueses, os que compram os seus produtos. E assim a distância entre o falso e o verdadeiro ganha proporções gigantescas.

O mundo religioso também cria Jesus ao seu bel-prazer. No meio evangélico está em voga um Jesus "coach", um Jesus "personal training", um Jesus despido de teologia e de tradições. Igrejas pintadas de preto, adaptadas aos palcos de mídia, apresentam um Jesus descolado, despojado, de calças rasgadas nos joelhos e de camisa fashion, um Jesus olhos azuis e Ferrari na garagem. Já o Jesus do reteté é quase um orixá afro-brasileiro, sambando e rodando ao som de frases de efeito e de gritos de guerra. O Jesus do mundo neo pentecostal dos grandes ícones engravatados é um grande arsenal de estorinhas para turbinar a fé dos que precisam vencer, progredir, prosperar e que possa encher os cofres destes fanfarrões da fé. E o Jesus do catolicismo carismático tenta se aproximar de todos, buscando ainda manter a tradição romanista, um Jesus "light".

Qual é o seu Jesus? Aquele musculoso com um sorriso matreiro nos olhos, do tipo super herói americano, ou o Jesus sofrência, dos legionários esotéricos? Há grupos que propagam que Jesus reencarnou numa mulher na China e está entre nós, vivinho e bem feminino. Quanta confusão!

E então, se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo; ou: Ei-lo ali; não acrediteis. (Mc 13:21). Porque se levantarão falsos cristos, e falsos profetas, e farão sinais e prodígios, para enganarem, se for possível, até os escolhidos. (Mc 13:22).

Onde encontrar o Jesus histórico e revelado, aquele real, que viveu e morreu na história e ressuscitou segundo as Escrituras? Onde achá-lo nesse mar de confusão? Na gritaria neo pentecostal, nos filmes religiosos de maconheiros de Hollywood ou na boca dos que se acham os teólogos da hora?

Bem, só há um meio de achar o Jesus verdadeiro. Devemos recorrer aos evangelhos, única fonte fidedigna e pura sobre este homem, o maior de todos os homens, o Deus-Homem. Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome (Jo 20:31); Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam; (Jo 5:39). O povo de Israel, no reino do Sul, nos tempos da infância do Rei Josias, vivia o mais infame paganismo em nome do Deus verdadeiro, até que se achou o livro de Deuteronômio jogado no templo. Lido, provocou uma revolução no coração do rei, dos sacerdotes e na alma do povo. Voltaram às origens dos oráculos da verdade. Hoje os cristãos estão a precisar da mesma experiência. No meio da vasta literatura inútil que publicam, deveriam buscar um exemplar antigo das Escrituras Sagradas, ainda não adulterado pelas mãos dos novos intérpretes e releitores das sociedades bíblicas modernas e reencontrar a Jesus. Somente na Bíblia encontraremos a verdade. Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade. (Jo 17:17).

E então, de posse do conhecimento dos evangelhos, da Bíblia em si, Jesus, o verdadeiro, se revelará aos nossos corações. Tudo por meu Pai me foi entregue; e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. (Lc 10:22); Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele. (Jo 14:21).

Quer conhecer o Jesus verdadeiro? Leia a Bíblia e ore a Deus em seu coração. Ele se fará presente. E buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes com todo o vosso coração. (Jr 29:13).

Fonte: Blog do autor

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

A Unidade do Corpo


Por  John MacArthur Jr.

Efésios 2.11-22

Há muito no livro de Efésios sobre a Igreja. Nesta mensagem vamos considerar apenas o capítulo 2, dos versos 11 a 22. Não somos, fundamentalmente, uma organização, mas um organismo: somos um Corpo. Cada um de nós tem parte ativa neste Corpo e todos nós dependemos uns dos outros. O fato de sermos um Corpo constitui a nossa identidade própria. Isto não é encontrado no Velho Testamento; é um conceito novo que pertence à Igreja. E, no conceito do Corpo, encontra-se um tema que parece prevalecer sobre todas as outras coisas: a unidade deste Corpo.

A ideia de unidade parece ser a chave para se entender o Corpo de Cristo. Somos um corpo com uma cabeça e temos, basicamente, uma função: ministrarmos uns aos outros, para que cresçamos e para que o mundo veja o nosso testemunho. Temos os mesmos alvos, como afirmou o apóstolo Paulo no capítulo 4 de Efésios: "um Corpo, um espírito, um Senhor, uma esperança, uma fé, um batismo, um Deus e Pai de todos." Nós somos “um” e esta é a nossa identidade peculiar. Esta unidade básica do Corpo é ensinada nos versos 11 a 22 do capítulo 2. Até o final do capítulo 3, Paulo trata do que somos em Cristo; quando chegamos no capítulo 4 é que começamos a ver como devemos agir. Ele dividiu o livro em duas partes: posição e prática. No capítulo 2, portanto, ainda estamos vendo verdades sobre a nossa posição em Cristo. Qual a nossa identidade nesta unidade? De que modo somos “um”? Em que somos “um”? Esta é a mensagem dos versículos 11 a 22.

Ao considerarmos este trecho, veremos a unidade que existe entre os judeus e os gentios no Corpo de Cristo. Esta unidade foi efetuada por aquele "um Espírito" sendo, por isso, denominada "a unidade do Espírito". Mas esta maravilhosa unidade não pode ser apreciada, a menos que se entenda a desunião básica que existia entre judeus e gentios. A beleza dessa unidade está em direto contraste com o fato de que judeus e gentios estavam em pólos absolutamente opostos, situação que existia muito antes de Cristo ter instituído a Igreja e enviado o Seu Espírito promover esta aproximação. Originalmente, no período do Antigo Testamento, os judeus haviam sido escolhidos, de acordo com a vontade de Deus, para serem o seu povo peculiar. Deus tinha necessidade de um veículo para testemunhar ao mundo, e resolveu, na Sua soberania, que este veículo seria uma nação. E a nação escolhida foi Israel.

Este povo, o qual Deus formou a partir de Abraão, foi constituído para ser testemunha. Era um povo distinto, separado e único. Tinha uma identidade toda própria e deveria servir, através desta peculiaridade, de testemunho nacional do único Deus verdadeiro. 

Esta era a chave de sua religião: "o Senhor nosso Deus é o único Senhor" (Dt 6.4). É por isso que esta pequena sentença era escrita e gravada nas suas casas e os sacerdotes deveriam pendurar esta verdade na testa, nos filactérios. Israel deveria constituir poderoso testemunho nacional ao mundo, de que o seu Deus era o único Deus, e não aquela multiplicidade de coisas que eram cultuadas. Israel era a nação-testemunha. Por esta razão, os israelitas, receberam ordem de não se misturarem com os gentios. Deveriam manter-se distante dos pagãos. Deveriam pregar para eles, mas não se misturar com eles. Desta forma, receberam marcas especiais de separação: uma terra particular e costumes totalmente diferentes. Deveriam usar certos tipos de roupa que não podiam empregar certas misturas de tecidos. Deveriam comer certo tipo de comida, preparada de tal maneira que o sangue não permanecesse na carne. A cozinha deveria ter certas características; suas leis eram bem distintas; seus festivais e rituais eram todos diferentes daqueles que existiam nas outras nações. 

Com o passar dos anos, esse padrão de isolamento em relação aos gentios dominou cada vez mais e mais a mentalidade judaica causando, finalmente, uma completa divisão. A comunicação entre gentios e judeus cessou. No tempo de Jesus Cristo, quando um judeu da parte baixa da Palestina desejava ir à Galileia, na parte setentrional, dava a volta pelo outro lado do Jordão para que não tivesse de passar por Samaria, uma terra de gentios, pois não queriam misturar-se com eles. Não posso afirmar, no entanto, que a culpa foi só de Israel.

O problema da opressão gentílica foi constante. Nação após nação invadia a terra de Israel para devastar e destruir. Paulo sabia, por experiência pessoal, como era difícil unir um judeu e um gentio. Os judeus costumavam dizer que os gentios foram criados por Deus para serem o combustível do fogo do inferno. Dizia que Deus amava somente a Israel e nenhuma outra nação dentre todas as que havia criado. Imaginem que não era considerado lícito nem mesmo ajudar uma gentia no momento do parto, porque ela estaria trazendo ao mundo um outro gentio. Desta forma podemos perceber quão forte era o sentimento de repulsa que os judeus nutriam pelos gentios. 

Traços desta amargura podem ser percebidos nos primórdios da Igreja. Mesmo após Cristo ter unificado judeus e gentios, na prática ainda havia alguns problemas. A ilustração clássica deste fato encontra-se em Atos 15. Aí está registrado o Concílio de Jerusalém, convocado em face das dificuldades de convivência que judeus e gentios estavam encontrando. O problema tornou-se aparente quando Paulo voltou de sua primeira viagem missionária. Nós lemos, iniciando o capítulo: "Alguns indivíduos que desceram da Judeia, ensinaram aos irmãos: ‘Se não vos circuncidardes segundo o costume de Moisés, não podeis ser salvos'". Isto é bem interessante; estavam dizendo que a Salvação vem através da cirurgia. O que eles queriam é que os gentios primeiro se tornassem judeus; depois poderiam receber a Cristo. Pensavam que era preciso primeiro tornar-se judeu, para depois ser salvo. Julgavam necessário impor sobre os gentios todo o sistema legal judaico, e então poderiam receber a Cristo. "Tendo havido, da parte de Paulo e Barnabé, contenda e não pequena discussão com eles...". 

Paulo declarou claramente sua posição a respeito deste assunto no capítulo 2 de Romanos. Lá esclareceu que nem a circuncisão nem a incircuncisão é, por si só, boa ou má; porém tudo depende da fé. Foi por isso que Paulo se opôs com tanta veemência ao ensino daqueles indivíduos. Finalmente ficou resolvido que Paulo, Barnabé e alguns outros deveriam ir a Jerusalém consultar os apóstolos e presbíteros. "Enviados, pois, e até certo ponto acompanhados pela Igreja, atravessaram as províncias da Fenícia e Samaria e narrando a conversão dos gentios, causaram grande alegria a todos os irmãos. Tendo eles chegado a Jerusalém foram bem recebidos pela Igreja, pelos apóstolos e pelos presbíteros, e relataram tudo o que Deus fizera com eles. Insurgiram-se, entretanto, alguns da seita dos fariseus, que haviam crido, dizendo: É necessário circuncidá-los e determinar-lhes que observem a lei de Moisés."

Observem agora o problema ter que voltar a todos aqueles gentios e circuncidá-los, gente, das mais variadas idades, e impor-lhes todo o sistema legal de Moisés. Aqueles homens haviam sido salvos, mas ainda não haviam entendido que tinham sido libertados de todo o sistema mosaico. O problema começou a ficar resolvido a partir do v. 6: "Então se reuniram os apóstolos e os presbíteros para examinar a questão. Havendo grande debate, Pedro tomou a palavra e lhes disse: ‘Irmãos, vós sabeis que desde há muito Deus me escolheu de entre vós para que, por meu intermédio, ouvissem os gentios a Palavra do Evangelho e cressem'."

Lembrem-se que Pedro foi o primeiro a pregar para os gentios (fato que se acha registrado em Atos 10, a passagem que fala sobre Cornélio). "Ora, Deus que conhece os corações, lhes deu testemunho, concedendo o Espírito Santo a eles, como também a nós nos concedera." Sabem por que, quando Cornélio recebeu o Espírito Santo, os mesmos milagres que aconteceram no Pentecostes se repetiram? Para que Cornélio nunca duvidasse do fato de que estava recebendo o Espírito Santo exatamente do mesmo modo que aqueles judeus o haviam recebido em Jerusalém. E para que não houvesse qualquer superioridade da parte dos judeus para com os gentios. Por isso, ambos receberam o mesmo dom, da mesma maneira, e através dos apóstolos. Todas as outras vezes que se vê o Espírito Santo descendo, na narrativa do livro de Atos, isto sempre acontece através dos apóstolos, e com a manifestação do mesmo dom, para que todos soubessem que estavam no mesmo nível. Assim, Pedro se levantou e disse que os gentios haviam recebido o mesmo dom que eles haviam recebido, acrescentando: "E não estabeleceu distinção alguma entre nós e eles, purificando-lhes pela fé os corações."

Notem bem: não por guardar a lei ou por uma cirurgia, mas pela fé. "Agora, pois, por que tentais a Deus, pondo sobre a cerviz dos discípulos um jugo que nem nossos pais puderam suportar, nem nós?" Em outras palavras, nós não fomos tão bem sucedidos no cumprimento de todo este sistema legal; por que, agora, vocês querem impor todo este ritual sobre eles? "Mas cremos que fomos salvos pela graça do Senhor Jesus, como também aqueles o foram." Não é através da lei; mas através da graça; Pedro tocou exatamente no coração do problema. Com esta sua palavra, repreendeu aquela atitude errada. "E toda a multidão silenciou, passando a ouvir a Barnabé e a Paulo que contavam quantos sinais de prodígios Deus fizera por meio deles entre os gentios." Depois que terminaram, falou Tiago dizendo (ele era o moderador): "Irmãos, atentai nas minhas palavras: ‘Expôs Simão (Pedro) como Deus primeiro visitou os gentios a fim de constituir dentre eles um povo para o Seu nome.' Continuou: ‘Conferem com isto as palavras dos profetas como está escrito: ‘Cumpridas estas cousas, voltarei e reedificarei o tabernáculo caído de Davi; e, levantando-o de suas ruínas, restaurá-lo-ei. Para que os demais homens busquem o Senhor, e todos os gentios sobre os quais tem sido invocado o meu nome'.". Vejam que ele está dizendo que Deus iria reunir num povo, pessoas de todas as nações, e seguiu afirmando que este povo era conhecido de Deus desde o início dos séculos: "... diz o Senhor que faz estas coisas conhecidas desde séculos. Pelo que julgo eu, não devemos perturbar aqueles que, dentre os gentios, se convertem a Deus" — não vamos impor sobre eles o nosso molde — "mas escrever-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, bem como das relações sexuais ilícitas, da carne de animais sufocados e do sangue. Por que Moisés tem, em cada cidade, desde tempos antigos, os que o pregam nas sinagogas, onde é lido todos os sábados." 

Esta resolução foi simbólica, e o que Tiago estava tentando fazer, a esta altura, era harmonizar os dois lados. "Então pareceu bem aos apóstolos e aos presbíteros como toda a igreja, tendo elegido homens dentre eles, enviá-los, juntamente com Paulo e Barnabé, a Antioquia: foram Judas, chamado Barsabás, e Silas, homens notáveis entre os irmãos...". Estes homens foram enviados com a mensagem escrita; o testemunho verbal de Judas e Silas confirmaria a decisão tomada em Jerusalém (v. 27). Finalmente, nos vs. 28 e 29 estão registradas as coisas de que deveriam abster-se e mais a saudação final. E assim, não lhes foi imposto aquele antigo sistema legal. Estou relatando tudo isso, para mostrar-lhes que o maior e mais complexo problema que a Igreja primitiva enfrentou foi o de reconciliar o legalismo inato do judeu com a liberdade dos gentios, ou seja, destruir a ideia de que o judeu iria continuar dominando o gentio através do seu legalismo. Este concílio deveria ter dado um fim à questão, mas, infelizmente, o problema surgiu novamente mais tarde: em Corinto, no capítulo 14 de Romanos e, extensamente, no livro de Gálatas. Até o fim do seu ministério Paulo teve que lutar contra este problema.

Agora, voltemos para o nosso texto de Efésios, entendendo um pouco mais sobre a polarização que havia entre judeus e gentios. No capítulo 2 Paulo vai ensinar-nos a respeito da unidade que há entre eles. Em geral, havia uma dificuldade na prática dessa unidade na Igreja primitiva, embora, aparentemente, este problema não ocorresse em Éfeso quando ele escreveu esta carta. Neste caso, é evidente que aquela igreja local estava praticando a unidade que possuía posicionalmente. Nos versículos 1 a 10 deste capítulo, Paulo trata do indivíduo e os relacionamentos do indivíduo. De 11 a 22, ele fala sobre as relações nacionais, mencionando as diferenças entre judeus e gentios. Esse trecho se divide em duas partes -.alienados e unidos. Nos versos 11 e 12, judeus e gentios estão alienados; nos versos 13 a 22, estão unidos.

Consideremos a primeira parte. Procurei dar ênfase ao fato que o judeu era definitivamente alienado do gentio. A luz disto, Paulo, dirigindo-se a gentios, fala no versículo 11: "Portanto, lembrai-vos de que outrora vós, gentios na carne, chamados incircuncisão por aqueles que se intitulam circuncisos, na carne, por mãos humanas... " Este é um verso muito interessante. Paulo está lembrando os destinatários desta carta de sua posição anterior como gentios, quando eram desprezados e zombeteiramente chamados de incircuncisão. F. F. Bruce disse: "Nada melhor, para despertar gratidão, como olhar de volta para o fundo do poço no qual um dia estivemos enterrados". Por esta mesma razão Paulo queria que os gentios focalizassem bem o que haviam sido no passado e como haviam sido desprezados pelos judeus. Ser chamados "incircuncisão" significa ter sido alvo de suas zombarias. Lembro-me de 1 Samuel 17, quando Davi ouviu o que Golias falara e zombou, dizendo: "Quem é este incircunciso filisteu, para afrontar os exércitos do Deus vivo." 

Ao contrário, o título "circuncisão" era considerado uma honra. Mas havia arrogância neste conceito. Eles gostavam de usar este nome e orgulhavam-se dele, porque identificava-os como povo escolhido de Deus. Por falar nisto, notem o pequeno acréscimo de Paulo no fim do v. 11, fazendo uma certa restrição àquele orgulho: "aqueles que se intitulam circuncisos, na carne, por mãos humanas... " Percebem o que ele quis dizer? Observem ainda Romanos 2.28-29: "Porque não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é somente na carne. Porém judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão a que é do coração, no espírito." Isto é, vocês são a circuncisão, está certo, mas na carne e feita por mãos. E o que realmente interessa é se o coração está circuncidado, se Deus já operou no seu homem interior. Porém, do seu ponto de vista nacional, sabiam que eram a circuncisão e menosprezavam os gentios incircuncisos.

Portanto, no verso 11, percebe-se de que maneira os judeus tratavam os gentios. Mas, no verso 12, descobre-se como Deus trata o gentio: "...naquele tempo, estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo.". Esta é a visão sob o prisma de Deus. Para o judeu, os gentios eram apenas desprezíveis; mas do ponto de vista de Deus havia cinco coisas que eu quero que vocês considerem com atenção: sem Cristo, sem a comunidade, sem alianças, sem esperança e sem Deus.

Em primeiro lugar, estavam sem Cristo. Cristo é a palavra grega correspondente a "Messias". O que ele está dizendo para os gentios é que eles não tinham uma esperança messiânica, não tinham qualquer ligação com o Messias prometido. Vejam que os judeus, mesmo nos dias mais amargos e durante as maiores provações, podiam, pelo menos, esperar a volta do Messias. A história dos judeus progredia na direção do Messias. Mas a história, para os gentios, não levava a parte alguma. Não possuía uma esperança messiânica, não criam num herói que viria e endireitaria as coisas, nem havia qualquer promessa de melhores dias no futuro. De fato, os estoicos, que dominavam a filosofia por volta desta época, haviam chegado à conclusão de que a história era um ciclo que se completava a cada três mil anos. Ao fim de cada ciclo o universo era consumido por fogo e tudo recomeçava. Nada levava a parte alguma. A história dos gentios progredia para o nada; era uma simples rotina que não chegava a justificar a própria vida. O gentio não tinha esperança pois estava sem Cristo, sem Messias.  

Em segundo lugar, Paulo declarava que eles estavam separados da comunidade de Israel. Eram alienados, isto é, estrangeiros sem qualquer privilégio de cidadania. Deus havia depositado todas as suas bênçãos sobre a nação de Israel e os gentios eram estrangeiros. E se dependesse de Israel, na realidade, se dependesse de Deus, fora de Israel não haveria bênçãos disponíveis. Deus havia depositado os seus tesouros em Israel. É certo que havia casos isolados de gentios crendo em Deus, mas, na maioria das vezes Deus operava através de Israel. Portanto, sendo alienados da comunidade de Israel, os gentios perdiam todas as bênçãos de Deus. 

Em terceiro lugar, estavam sem as alianças. Paulo diz que eram estranhos às alianças da promessa. Isto é, o pacto feito por Deus com Abraão, a aliança que Deus fez com Moisés, o pacto que fez com Davi, e o pacto da Palestina. O gentio era estranho a todas estas coisas. Em quarto lugar, os gentios estavam sem esperança. Não somente sem as alianças, mas sem esperança. Isto era uma coisa trágica. Nacionalmente e individualmente eles não tinham promessas, não tinham segurança. Não ter esperança significa não ter qualquer garantia sobre coisa alguma. Em que poderiam colocar suas esperanças? Não possuíam nada, não tinham um Messias, não tinham as promessas de Deus, não tinham as alianças, não tinham qualquer esperança. Em que podiam confiar? Qual era a sua garantia? Qual a sua esperança? Como podiam saber que um dia a justiça seria feita? Qual o valor de fazer o bem? A esperança se baseia numa promessa divina e eles não tinham promessa, portanto, não tinham esperança. 

Nos dias do apóstolo Paulo, os gentios criam que não havia futuro algum para o corpo e que a alma iria para uma espécie de prisão. Quer dizer, iria de uma prisão para outra, pois, durante a vida, o corpo constituía a prisão da alma. Na morte, a alma ia para um lugar muito triste: Hades, o mundo das sombras. Lá as almas mortas se lamentavam de ainda estarem existindo. Um escritor antigo registrou: "Regozijo-me na minha mocidade — aproveite a vida enquanto você é jovem. — por muito tempo debaixo da terra irei jazer desprovido da vida, mudo como uma pedra, e deixarei a luz do sol que tanto amei. Um bom homem sou agora, e então, nada serei." Ele cria que iria simplesmente deixar a existência, sem qualquer esperança futura. "Regozije-se ó minha alma, na sua mocidade; em breve outros homens estarão vivendo, e eu estarei na terra negra, morto. Ninguém se sente feliz por coisa alguma debaixo do brilho do sol." Ele era bem pessimista, e assim os demais gentios. Não tinham qualquer esperança, conheciam apenas o desespero.

Finalmente, estavam sem Deus no mundo. Não eram ateístas; cultuavam toda sorte de objetos. O que Paulo quer dizer é simples: estavam sem o verdadeiro Deus. Esta é a mesma expressão encontrada no quarto capítulo de 1 Tessalonicenses; lá Paulo menciona: "os gentios que não conhecem a Deus". Há uma concorrência semelhante em Gálatas 4.8: "Outrora, porém, não conhecendo a Deus, servíeis a deuses que por natureza não o são..." estavam servindo a deuses que não o eram e não conheciam a Deus. Toda a sua idolatria era ridícula. Eis a fotografia da alienação dos gentios. Não eram apenas alienados de Israel por causa de sua incircuncisão. Eram alienados de Deus, estavam sem Cristo, sem uma comunidade, sem as alianças e sem esperança.

Aí chegamos ao verso 13. Qual é a primeira palavra deste verso? É a palavra "mas". A mesma coisa acontece no versículo 4. De 1 a 3 ele descreve a horrível situação do pecador debaixo da ira de Deus. Mas o versículo 4, a graça de Deus entra no cenário. A mesma coisa ocorre no versículo 13. Deus aparece, Cristo entra em cena, e tudo se transforma, quando esses dois povos, gentios e judeus, são trazidos de dois pólos opostos e unificados num corpo misterioso, a Igreja, através de um milagre divino." Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue de Cristo." Vocês, gentios, que estavam completa mente longe dos judeus, longe das promessas de Deus, longe das alianças, vocês são aproximados em Jesus Cristo. Quando um homem se torna prosélito, os velhos rabis costumavam dizer que ele era "trazido para perto"; é exatamente esta linguagem que Paulo usa aqui. Aqueles gentios forasteiros e separados, com todos aqueles problemas, estavam sendo trazidos para perto de todas as promessas e alianças de Deus. Em Cristo a barreira foi derrubada e eles foram aproximados. Que pensamento lindo. Quando isto aconteceu, tudo mudou. Observem estes contrastes: antes estavam separados, agora são concidadãos dos santos (v. 19); antes estavam sem esperança, agora têm acesso ao Pai em um espírito (v. 18 ); antes eram estrangeiros, agora são membros da família de Deus (v. 19); antes estavam sem Deus no mundo, agora foram reconciliados em um só corpo com Deus (v. 16); antes estavam sem Cristo, agora estão em Cristo Jesus (v. 13). Tudo fica invertido. Jesus inverteu tudo quando derramou o Seu sangue. 

Em 1 Coríntios 1.24 Paulo declara que a cruz de Cristo é que aproxima judeus e gentios. Isto é um milagre. Só quando entendemos os extremos ocupados por judeus e gentios é que podemos entender o tremendo milagre que os aproximou. E o preço da realização da maravilhosa mudança que ocorreu foi o sangue de Jesus Cristo. Foram aproximados, diz o v. 13, pelo sangue de Cristo. E sabem de que maneira? Todas as barreiras do mundo são causadas pelo pecado. O sangue de Cristo lavou todo o pecado e o homem entrou na presença de Deus. O sangue de Cristo aproximou os gentios, e o sangue de Cristo aproximou os judeus. Ambos se encontraram na presença de Deus. E na presença de Deus não existe nada senão unidade, por isso são um em Cristo. Se o gentio está em Cristo e o judeu está em Cristo, tornam-se um, porque há apenas um Cristo.

Lemos no verso 14: "Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um; e tendo derrubado a parede de separação que estava no meio...". Havia parede gigantesca entre judeus e gentios, mas Cristo derrubou-a completamente pelo Seu sangue: tomou o judeu, tomou o gentio, aproximou-os em uma base comum, e disse-lhes: “Agora vocês são um”. Ele é a nossa paz. Se eu estou em Cristo e você está em Cristo, nós estamos em paz um com o outro. Esta é uma verdade posicional. Na prática, não deveria haver lugar para discórdia. Mas talvez você não entenda uma coisa: como é que uma pessoa pode ser paz? Cristo produz paz, mas como Ele mesmo pode ser paz? Isto significa que esta paz não é um mero documento legal que une duas pessoas. Mas o próprio Jesus tornou-Se a paz e fez com que o judeu e gentio fossem um n'Ele. Está escrito que Ele derrubou a parede de separação que estava no meio. Isso nos lembra que o Templo possuía vários pátios. O primeiro pátio, o exterior, era o local onde os gentios ficavam. Eles poderiam permanecer ali, sem ultrapassar a parede que separava aquele pátio do próximo recinto. O próximo pátio era o pátio das mulheres; depois, vinha o pátio dos israelitas, os homens. Havia, ainda, o pátio dos sacerdotes; então, o lugar santo e, finalmente, o santo dos santos. Os gentios ficavam no pátio exterior. A parede que separava o pátio das mulheres do pátio dos gentios apresentava algumas placas colocadas em lugares estratégicos. Nelas estava o aviso de que se algum gentio ultrapassasse aquela área, estaria correndo perigo de vida. Eles não permitiam que os gentios entrassem. O apóstolo Paulo diz que quando Cristo veio, a primeira coisa que fez, foi uma pequena demolição: derrubou a parede e misturou os dois. Paulo sabia o que isto significava. Fora preso em Jerusalém quando acusado falsamente de introduzir Trófimo, o efésio, no Templo, além do limite permitido (At 21). Então, aquela parede do Templo simbolizava uma profunda separação, que Cristo derrubou na cruz. No verso 15, ele continua o seu pensamento: "Aboliu na sua carne a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse em si mesmo um novo homem, fazendo a paz...". Ele não é a nossa paz apenas, mas Ele fez a paz. 

Jesus acabou com o legalismo como princípio religioso. O judeu guardava a lei e glorificava a si mesmo por tê-la guardado. O gentio ora rejeitado porque não guardava a lei. Cristo removeu a lei quando morreu na cruz. Ele pagou a penalidade da lei substituiu-a pela fé. Deus removeu a lei como caminho para Deus e substituiu-a pelo novo princípio do amor. O gentio não precisava mais ficar de fora, ele poderia entrar na plenitude de todas as bênçãos de Deus, onde não haveria mais restrições. A lei era boa, é claro, mas quando Cristo morreu na cruz. Ele pagou a sua penalidade, destituiu o seu poder, cumpriu todas as suas ordenanças, e, deste modo, a lei não poderia mais ser obrigatória a ninguém, nem a gentio, nem a judeu. Ela não constituía mais um caminho para Deus, nem separava mais o homem de Deus. Ora, se não separa os homens de Deus, tampouco separa os homens uns dos outros. Estou grato por Jesus Cristo ter destruído a lei como caminho para Deus. Sem a morte de Jesus nunca teria havido um sacrifício final e estaríamos em sérios problemas. Mas o que a lei não pode fazer, a Bíblia diz que Cristo fez. A lei nos separava de Deus, e por causa disto nos separava uns dos outros. A única base de reconciliação entre os homens sempre foi e é Deus; a única maneira de aproximar judeus e gentios é trazê-los juntamente à presença de Deus. E se um homem não pode entrar na presença de Deus pela lei, outro modo precisa ser determinado; foi isto que a morte de Cristo fez. Ele aboliu a inimizade na Sua carne. Que inimizade? Que separação era esta? Era a lei dos mandamentos na forma de ordenanças. Cristo aboliu essa lei quando morreu. E sabem o que Ele criou? De dois opostos Ele criou um novo homem. Nós somos um só homem, judeus e gentios, no corpo de Cristo. Esta idéia de um novo homem é simplesmente maravilhosa. 

Quero enfatizar o fato que Cristo aboliu a lei. Sei que não é muito fácil entender isso, portanto vou tentar ilustrá-lo com uma história que conheço há muito tempo. Na França, na Segunda Guerra Mundial, havia um cemitério católico. Alguns rapazes haviam perdido um de seus amigos e desejavam enterrá-lo. Já era noite e os canhões haviam silenciado. Levaram, portanto, o corpo à porta do cemitério, onde um sacerdote estava parado observando. "Nós queremos que ele tenha um enterro decente", disseram os rapazes. O padre perguntou: "Ele é católico?". A resposta foi negativa, ao que o padre acrescentou: "Sinto muito, se não é católico, os regulamentos não permitem que seja enterrado aqui". Então, frustrados e tristes, levaram o corpo e decidiram que, já que não podiam enterrá-lo dentro do cemitério, iriam enterrá-lo bem perto, do lado de fora da cerca. Encontraram um pequeno lugar, a uns dois metros da cerca de madeira. Cavaram a sepultura e enterraram-no ali. Ao acordarem no dia seguinte, levantaram-se e decidiram prestar suas últimas homenagens ao saudoso amigo no seu túmulo. Porém, não puderam achar o local onde o haviam enterrado; tinha desaparecido, e não podiam imaginar como acontecera. Procuraram por toda parte, e após uma hora de buscas infrutíferas, resolveram perguntar ao sacerdote se sabia algo a respeito. Assim, tiveram que contar-lhe toda a história. E o sacerdote respondeu: "Bem, na primeira metade da noite eu fiquei acordado sentindo remorsos pela minha atitude intransigente com vocês; depois, passei o resto da noite mudando a cerca de lugar".  Foi exatamente isto que Cristo fez. Ele nos incluiu dentro das promessas e das alianças de Deus numa ação que foi além da lei, pela graça. Jesus simplesmente tomou a cerca e mudou-a de lugar. Jesus Cristo removeu a barreira, abriu o canal agora judeus e gentios encontraram-se juntos em Cristo. E quero acrescentar o seguinte, que sendo um novo homem em Cristo, qualquer crente gentio que não ama o seu irmão judeu sem restrições, está violando o que Cristo realizou com a Sua morte. Não há nada que me deixa mais pesaroso que encontrar um crente gentio que não tem amor por um irmão em Cristo que é judeu. Cristo é a nossa paz, maravilha das maravilhas. Ele criou um novo homem. Sabem o que isto significa? Somos uma coisa nova. Não há nada que jamais tenha existido como nós. Nada. Nós somos uma nova espécie de criação. Somos um novo homem, uma existência de nova qualidade. Nada jamais existiu como nós no passado. O crente é peculiar em si mesmo e o conceito de corpo, o corpo de Cristo, é algo completamente distinto. Nós temos uma chama distinta, um lugar diferente no plano de Deus, uma identidade peculiar. Não houve nada na história que se assemelhe a nós.

E quero dizer ainda o seguinte, somos a maior criação de Deus. Nada pode nos tocar. Qual a razão de ter pego os dois extremos e feito deles um novo homem? Esta nova espécie de homem, de nova qualidade? Um homem celestial? Uma nova humanidade? Há duas palavras traduzidas por “novo”, no grego original: neós e kainós. Neós significa “novo no tempo”, algo que apareceu agora. Kainós significa “novo na qualidade”. A palavra que aparece aqui não é neós, mas kainós. Nós somos uma existência de nova qualidade. Não houve jamais uma criatura como "você no corpo de Cristo". Nunca. Jamais. Você é uma nova espécie de ser e constitui um mistério. A Igreja é um mistério. Sim, somos um novo e misterioso homem e isso me entusiasma muito. Lemos no v. 16: "... e reconciliasse ambos em um só corpo de Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade". Quando Cristo morreu, a barreira era o legalismo, porque este separava o homem de Deus, e separava o homem do homem, porque a única maneira de dois homens se reconciliarem é através de Deus. Portanto, enquanto houvesse a separação entre o homem e Deus, haveria uma barreira entre o homem e seu semelhante. 

Sim, a cruz reconciliou com Deus e quando ambos chegamos à presença de Deus, conseqüentemente tornamo-nos amigos. Que pensamento glorioso... Acabou-se a rebelião! Sabem porque há tanta luta neste mundo? Tantos problemas entre indivíduos, entre famílias, entre grupos sociais e políticos, entre grandes e pequenos? Sabem por que? Porque os dois lados nunca se encontraram no Calvário. Esta é a única base de reconciliação o lugar onde fazemos as pazes um com o outro. Esta unidade no Corpo de Cristo, produz crentes em cujas vidas o amor supera todas as diferenças, e que se amam mutuamente porque amam a Deus. Homens que constituem uma unidade porque estão juntos na presença de Deus. Os versículos 17 e 18 continuam falando sobre Cristo: "E, vindo, evangelizou paz..." Não é incrível? Está escrito que Ele é a nossa paz, que Ele fez a paz, e agora, que evangelizou paz, ou seja, pregou a paz. Ele é o príncipe da paz: "... evangelizou paz a vós outros que estáveis longe, e paz também aos que estavam perto...". Longe, os gentios; perto, isto é, perto das alianças e das promessas, os judeus "...porque por Ele, ambos temos acesso ao Pai em um espírito". Observem isto: a trindade completa está presente aqui realizando este acontecimento. Cristo prega, o. Espírito nos leva à presença do Pai e o Pai nos recebe. Deus, Filho, supre o caminho por Seu sangue; Deus, o Espírito, nos conduz neste caminho; e Deus, o Pai, nos recebe. Não é maravilhoso? Foi isto que o sangue de Cristo realizou.

No versículo 19 há uma espécie de resumo de tudo: "Assim já não sois estrangeiros e peregrinos" — ele está falando dos gentios — "mas concidadãos dos santos...”. Que santos? Todos os santos, inclusive Abraão, Davi, Elias e Eliseu. Sim. Como podem os gentios serem concidadãos de todos eles? Todos se reúnem na mesma base, na presença de Deus, através do sangue de Jesus Cristo. Não há qualquer hierarquia aqui. As pessoas do Velho Testamento não estão na Igreja, mas são santos e, sendo trazidos à presença de Deus, tornam-se nossos concidadãos. E de onde somos cristãos? Em Filipenses 3.20 aprendemos que a nossa cidadania não é deste mundo, mas do céu. Ficamos aqui por algum tempo até que o Senhor cumpra a Sua obra em nós e então partimos para a nossa verdadeira pátria. E o versículo acrescenta: "... e sois da família de Deus...". A palavra empregada significa que fazemos parte, somos membros da família. De estrangeiros alienados, passamos a ser membros da família de Deus. 

Quando chamamos outro crente "irmão" ou "irmã", não poderíamos estar usando uma palavra mais adequada, pois esta é uma palavra que indica igualdade. Numa família, existe um laço amoroso e íntimo e é esta a ideia envolvida aqui. Gosto muito de Hebreus 3.6, onde está escrito: "Cristo, porém, como Filho, sobre a sua casa; a qual casa somos nós...". Significa que Cristo não tem vergonha de nos chamar irmãos. Assim o gentio estrangeiro passa a fazer parte da família. Não é maravilhoso o fato que não somos uma organização, mas uma família? Fomos naturalizados, recebemos uma "dádiva divina, e fomos adotados sobrenaturalmente na família de Deus, em relacionamento pleno. Judeus e gentios, ambos com a mesma fé preciosa. Aí Paulo introduz uma nova metáfora: não somos apenas concidadãos, nem apenas da mesma família, mas também somos um edifício, um templo dedicado ao Senhor. Vamos ler a partir do versículo 20: "...edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo Ele mesmo. Cristo Jesus, a pedra angular...". 

Quando Deus planejou construir a Igreja, Cristo foi a pedra angular, e entendo que esta é a pedra pela qual toda construção é aprumada. Os apóstolos e os profetas foram o fundamento. Num outro sermão mencionei que não há apóstolos e profetas hoje. Não se faz a fundação no vigésimo andar, ela fica embaixo de tudo. Eles tiveram o seu lugar, foram a fundação, como Cristo e a pedra angular. E a Igreja começou a ser construída. De que material foi construída? No verso 21 está a resposta: " ...no qual todo edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor..."; observem as palavras do versículo 22: "...no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito." Nós somos o edifício, vocês e eu. Gosto muito do que Pedro diz (1Pedro 2.5): " ...também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual...". Você já ouviu falar em pedra viva? Normalmente, pedra caracteriza um corpo inerte, sem vida, mas Pedro diz que somos pedras vivas. Cristo foi a pedra angular, os apóstolos e profetas as fundações, e Ele mesmo está aumentando este edifício com pedras vivas; assim, o edifício cresce. A ideia de vida encontrada no corpo, continua ligada ao edifício: somos pedras que vivem. 

Voltando ao texto de Efésios, notem que Paulo afirma que este edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor. Se somos um templo, alguém vive em nós. Lemos no verso 22: "...no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito". Quem habita a Igreja é o Espírito; ele não somente habita em nós como indivíduos. (1 Coríntios 3.16 e 6.19: nosso corpo é o templo do Espírito Santo) , mas também habita em todos os crentes coletivamente. Todos juntos somos uma habitação. Onde é que Deus habita? Costuma-se dizer que este prédio é a casa do Senhor. Não, não é a Casa de Deus. Nós somos a Casa de Deus, e podemos mudar a Casa de Deus agora para o meio da rua se quisermos. Primeiro, você é pessoalmente habitação do Espírito. E todos nós juntos, ao término do culto, levamos a Casa de Deus conosco, porque somos a Casa de Deus. Ele habita em nós; sim, somos habitação de Deus no Espírito.

Observemos novamente o quadro inteiro. Somos novo homem, isto é constituímos uma nova espécie de humanidade. Somos um corpo; somos cidadãos da mesma pátria celestial; membros da mesma família divina; e somos um edifício vivo. Estamos em paz com Deus, e portanto em paz uns com os outros. Somos uma comunidade onde não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher; todos somos um em Cristo. E nossa unidade não vem de uma organização, mas de um organismo. Nossa unidade não procede de ritual, mas de relacionamento. Nossa unidade não resulta de uma liturgia, mas do amor. Nossa unidade é Cristo. Todas estas verdades constituem a nossa posição em Cristo. Portanto, vivamos à altura da nossa vocação.

Fonte: Monergismo

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

CRENÇAS E FONTES DOS “CRISTÃOS PROGRESSISTAS”


Por Franklin Ferreira 

Os assim chamados “cristãos progressistas” se notabilizam, hoje, no Brasil, seguindo a Nova Esquerda, por entender que a classe que salvará o mundo será a dos “excluídos” e das minorias: mulheres, negros, homossexuais, índios, etc. E dão status de dogma a temas como união civil de pessoas do mesmo sexo, aborto, maioridade penal e todo tipo de estatismo. São adeptos devotos da igreja vermelha do politicamente correto, se veem como parte de um tipo de nova ordem religiosa, totalmente leais ao Partido e ao santo graal da Ideia. Todos aqueles que não concordam com eles são tratados, simplesmente, como “não-pessoas”.

E alguns de seus autores prediletos são Jürgen Moltmann, Hans Küng, Paul Tillich, Rob Bell, Brian McLaren, John Howard Yoder, Rosemary Radford Ruether, Leonardo Boff, Frei Betto, Gustavo Gutiérrez, Severino Croatto, entre outros.

Mas a defesa veemente desses temas são sinais de um mal maior. Até que ponto esses “cristãos progressistas” não têm reinterpretado profundamente a fé cristã, tornando-a em algo amorfo, totalmente distinto daquilo que se pode receber como revelação de Deus nas Escrituras Sagradas?

Parece que há, da parte desses “cristãos progressistas”, uma ruptura com “aquilo que foi crido em todo lugar, em todo tempo e por todos [os fiéis]” (Vicente de Lérins, Commonitorium II,3); isto é, esses “cristãos progressistas” se caracterizam não só por um afastamento, mas por uma rejeição de todo o ensino consensual entre os cristãos legítimos: a crença no Deus uno e trino; em sua revelação infalível e autoritativa nas Escrituras Sagradas; no pecado original e pessoal; na salvação exclusiva pela livre graça; no nascimento virginal de Cristo Jesus; em seu sacrifício sangrento na cruz, expiatório e substitutivo; em sua ressurreição corporal e em sua segunda vinda, única, visível e pessoal.

Havendo, de fato, tal cisão, perguntamos: como reconhecer esses ditos “progressistas” como cristãos? Até que ponto — uma vez que há um afastamento do ensino consensual cristão, como resumido nos antigos credos, aceitos por todos os ramos da fé cristã — não se deve considerá-los “cavalos de Tróia”? Pois estes têm por alvo subverter os alicerces mais básicos da fé e da ética cristã para que a Igreja seja controlada (Gleichschaltung), subordinando-a à agenda do Partido/Estado, com sua agenda inflexível e colossal.

Parece-me que, com a derrocada da esquerda na esfera pública, esses “cristãos progressistas” dobraram a aposta, sobretudo, na esfera eclesial, propagandeando com virulência militante suas crenças e valores. Quando confrontados, ao invés de tentar demonstrar que suas ideias são cristãs, partem para o ataque pessoal.

Porém, toda noção de cristianismo foi subvertida pelos “cristãos progressistas”, subordinados que estão a uma Ideia. Se isso é assim, estes não podem ser reconhecidos como cristãos, pois colocaram fé na Ideia, não na Revelação. Ao fazerem isto, tornaram-se gnósticos, e nunca é demais lembrar que gnosticismo não é cristianismo.

“Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos pregue um evangelho diferente do que já vos pregamos, seja maldito. Conforme disse antes, digo outra vez agora: Se alguém vos pregar um evangelho diferente daquele que já recebestes, seja maldito.” (Gl 1.8-9)

“Depois de exortar a primeira e a segunda vez alguém que causa divisões, passa a evitá-lo. Sabes que tal indivíduo perverteu-se, vive pecando e já condenou a si mesmo.” (Tt 3.10-11)

sábado, 4 de janeiro de 2020

CUMPRE-SE EM JESUS AS ORDENANÇAS DA LEI (UM EXEMPLO A SER SEGUIDO)



Por Pr. Silas Figueira

Texto base: Lucas 2.21-24

INTRODUÇÃO

A primeira coisa que gostaria de destacar a nível de introdução é em relação ao termo Lei que é usado cinco vezes em Lucas 2.21-40. Apesar de ter vindo para livrar o mundo do jugo da Lei, Jesus nasceu “sob a lei” e obedeceu a seus preceitos (Gl 4.1-7). Ele não veio para destruir a Lei, mas para cumpri-la (Mt 5.17,18). Aliás, é bom destacar que Jesus foi o único que a cumpriu cabalmente. Tudo isso Ele fez para nos resgatar da maldição da Lei (Gl 3.13).

Em segundo lugar, nada é relatado da primeira infância de João Batista, porém no caso de Jesus três importantes acontecimentos são narrados.

1) Primeiro acontecimento: quando o bebê tinha 8 dias de idade, ele é circuncidado em casa, em Belém, e recebe seu nome. É isso que relata o v. 21.

2) Segundo acontecimento: quando o bebê está com 40 dias de idade, acontece o sacrifício de purificação de Maria no templo de Jerusalém. Ao mesmo tempo é oferecido também o sacrifício da apresentação pelo menino Jesus. Disso nos falam os v. 22-24.

3) Terceiro acontecimento: imediatamente após o sacrifício de purificação e apresentação acontecem os louvores de Simeão e de Ana. Sobre isso informam os v. 25-38.

Todos os três acontecimentos têm em comum o aspecto de revelar o menino Jesus em sua humildade e glória.

Diante desse quadro, quais as lições que podemos tirar dos versículos 21-24 do capítulo 2 de Lucas?

1 – VEMOS AQUI UM COMPROMISSO COM A PALAVRA DE DEUS NA CIRCUNCISÃO (Lc 2.21).

José e Maria são mais que pessoas religiosas, são pessoas compromissadas com Deus e com Sua Palavra. Eles procuram observar todos os preceitos da Lei segundo o Senhor lhes havia ordenado que guardassem. Como nos diz Tiago 1.22-25:

Sejam praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando a vocês mesmos. Porque, se alguém é ouvinte da palavra e não praticante, assemelha-se àquele que contempla o seu rosto natural num espelho; pois contempla a si mesmo, se retira e logo esquece como era a sua aparência. Mas aquele que atenta bem para a lei perfeita, lei da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte que logo se esquece, mas operoso praticante, esse será bem-aventurado no que realizar” (NAA).

Podemos destacar três coisas aqui:

1o – Os oito dias prescritos pela lei para a circuncisão são rigorosamente observados (Gn 1710-12; Lv 12.3; Lc 2.21). Quem realizava a circuncisão era o pai. Ela aconteceu na casa em Belém. Precisamos supor que logo depois do recenseamento, tendo cumprido seu dever, as pessoas retornaram novamente às suas terras. Com a partida desses numerosos viajantes havia novamente lugares disponíveis nos albergues.

O que significa a circuncisão?

1) Ela é uma confissão: Sou um pecador. Sou culpado de morte.

2) A circuncisão significa acolhida no povo eleito. Embora eu seja culpado de morte, Deus me permite viver e até mesmo me acolhe em seu povo escolhido, Israel. Estabelece uma aliança comigo. Ele o faz retardando a punição pelos pecados do povo até o dia em que colocará a punição pelos pecados sobre aquele que nunca cometeu um pecado, Jesus Cristo. Leia Rm 3.25.

3) A circuncisão representa um compromisso. O israelita se desprende da vontade própria, separa-se da vida autônoma e passam a servir somente a Deus.

A circuncisão simboliza pureza, compromisso com Deus, com Sua Palavra e o reconhecimento de pecado, tudo o que a igreja atual anda despregando.

Muitas pessoas alegam que não há mais necessidade de circuncisão como prescrito na Lei, uma vez que Jesus já cumpriu toda a Lei por nós (At 15.22-29, Rm 4.9-12, 1Co 7.7, Gl 5.6), no entanto, isso não nos isenta de termos uma vida santa e irrepreensível, que é a circuncisão do coração como diz Paulo (Rm 2.28,29). Para a santidade foi que Cristo nos chamou, como está escrito em 1Pe 1.15,16:“Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver; porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo”.

Hoje, infelizmente, a igreja está tão parecida com o mundo que não conseguimos mais diferenciá-la do mundo. Como nos fala uma antiga frase: “Procurei a igreja e encontrei-a no mundo; procurei o mundo e encontrei-o na igreja”.

A sociedade humana, sua cultura, o mundo e o poder por trás dele, nunca nos indicará o caminho que nos leva a Deus e a santidade. O grande Puritano Thomas Brooks dizia: “Seria mais fácil fazer os dois polos se encontrarem do que unir o amor a Cristo e o amor ao mundo”. Como nos fala João em sua primeira epístola:

Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo. E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre” (1 João 2.15-17).

O mundo nunca será parceiro da verdadeira igreja, pois o mundo é incircunciso (1Sm 17.26). O mundo está em luta contra a igreja pois está em luta contra Deus. Isso porque santidade é exatamente o oposto da direção que esse mundo se lança com avidez. Por isso não pode haver acordo da igreja com o mundo. No entanto, o que mais temos visto é a igreja se mundanizando para atrair as pessoas do mundo. A igreja que age assim perdeu sua identidade do que deve ser a Igreja do Senhor.

Como disse Paul Washer: “Se utilizarmos métodos carnais para atrair pessoas carnais, teremos de continuar a usar meios carnais para mantê-los. Não conseguiremos, como alguns supõem, mudar o cardápio para uma dieta mais espiritual na metade da refeição. Sem uma obra sobrenatural do Espírito, mediate uma pregação correta do Evangelho, as pessoas jamais terão gosto pelo Pão que desceu do céu”.

Infelizmente, há muitas igrejas servindo comida requentada de Satanás em vez de servirem o Pão da Vida. Deixam de seguirem os preceitos da Palavra de Deus e aplicam métodos mundanos. Bem diferente de José e Maria que obedeceram a Palavra que o Senhor havia lhes confiado. Eles foram um grande exemplo de consagração e obediência à Palavra.

Eles foram com o menino Jesus cumprir o que ordenava nas Escrituras. Em momento algum eles agiram contrários a ela, mas em tudo foram obedientes. Hoje o que mais vemos é a frase: “Temos que fazer uma releitura da Bíblia”, ou, “Temos que aplicar a Bíblia na visão da sociedade atual”. Tudo isso não passa do desejo de muitos líderes “cristãos” implantar outro evangelho (Gl 1.8) na igreja atual.

2o – Para Jesus, a circuncisão foi o começo de Sua trajetória de sacrifício rumo ao Calvário. Em tudo o Senhor Jesus se identificou com o pecador. Como disse o apóstolo Paulo: “Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2Co 5.21 – NAA).

1) Jesus sendo sem pecado é declarado aqui culpado de morte culminando no Calvário.

2) Jesus, desde a eternidade passada se propôs a sofrer a punição do nosso pecado.

3) O compromisso contido na circuncisão, a saber, abrir mão da vontade própria, foi cumprido de modo perfeito pelo santo Filho de Deus, como lemos em Jo 5.19: “Em verdade, em verdade lhes digo que o Filho nada pode fazer por si mesmo, senão somente aquilo que vê o Pai fazer; porque tudo o que este fizer, o Filho também faz” (João 5:19). E 1Pe 1.18-22 relata a paixão e morte de um cordeiro inocente.

Jesus não só se identifica com o pecador, mas Ele pagou pelos nossos pecados morrendo em nosso lugar na cruz. No entanto, a Bíblia nos diz que devemos ser imitadores de Cristo, não morrendo na cruz novamente, mas nos identificando em sua obediência ao Pai (1Jo 2.3-6).

3o – A circuncisão estava ligada à atribuição do nome. Lemos: “deram-lhe o nome Jesus, que fora citado pelo anjo”. O nome de Jesus é o equivalente grego do nome hebraico “Josué” que significa, “Yahweh salva”. É um nome apropriado para aquele que nasceu para “salvar o seu povo dos seus pecados” (Ma 1.21). A escolha do Pai do nome “Jesus” para o Seu Filho é apropriado, refletindo a realidade que Ele é “um Deus justo e Salvador” (Is. 45.21).

O nome Jesus, portanto, lhe foi dado por Deus, por meio do anjo. Isso é importante. Quando pessoas dão nomes, este nome expressa um desejo. Por exemplo, quem dá ao filho o nome Frederico deseja que este se torne uma pessoa pacífica (literalmente: rica em paz). Quando Deus concede um nome, ele não contém meramente um desejo, mas a realidade. O nome Jesus expressa uma realidade: Deus ajuda poderosamente, no tempo e na eternidade.

No entanto, devemos tomar cuidado para não acharmos que, de acordo com o nome que a pessoa tem, esta será bem ou mal sucedida na vida. Já vem de longe a superstição de que o nome pode exercer influência no caráter e no destino da pessoa, ou seja, do seu portador. Segundo os apologistas dessa “superstição”, existem nomes próprios que trazem prognósticos negativos pelo fato de estarem carregados de maldição. Nomes como Jacó, Mara, Cláudia e Adriana são comumente citados pelos supersticiosos como sinônimo de mau presságio. Creem que os mesmos trazem consigo um prognóstico negativo para o seu portador, por conta da carga de maldição que carregam. Jacó, justificam, significa “enganador”; Mara, “amarga, amargura”; Cláudia, “coxa, manca”; e Adriana, “deusa das trevas”.

Essas declarações iniciais são bastante significativas para conhecermos melhor essa prática antibíblica, cujas raízes estão nos cultos e crenças do paganismo. É bem verdade que existem alguns nomes que, por causa de sua conotação ridícula, devem ser evitados, a fim de que o seu portador não seja exposto a situações vexatórias, irônicas, depreciativas. Mas evitar um nome por atribuir-lhe um poder misterioso, que lhe anda anexo, capaz de prever o futuro do seu portador, é cair no engano da superstição e mergulhar num mar de conceitos antibíblicos.


2 – VEMOS AQUI UM COMPROMISSO COM A PALAVRA DE DEUS NA PURIFICAÇÃO DE MARIA E NA CONSAGRAÇÃO DE JESUS (Lc 2.22-24).

A lei previa a realização de dois atos: primeiramente o sacrifício de purificação, que devia ser ofertado em prol da mãe, v. 22 e v. 24, depois a apresentação da criança como primogênito, v. 23.

Com isso em mente, podemos destacar duas coisas aqui:

1o – Maria reconhece que é pecadora. Durante sua peregrinação para a purificação, Maria poderia ter pensado: “Será que de fato fiquei impura quando aconteceu o milagre do nascimento de Jesus?” Contudo, cremos que Maria não acalentou esse tipo de pensamento. Como serva do Senhor, ela percorre com modéstia e obediência o caminho prescrito a toda parturiente: o caminho até o ofertório de purificação.

De acordo com a lei, uma mãe que desse à luz um menino, era considerada impura por 40 dias depois do parto se fosse menina seria por oitenta dias (Lv 12.1-8). Durante esse tempo ela precisava permanecer em casa e não podia entrar no templo. Essa impureza ritual testemunhava que todas as pessoas são nascidas em pecado. Visava manter viva a consciência da pecaminosidade (Gn 3.10,16).

A oferenda dos pobres era um par de pombas, uma para a oferta queimada e outra como sacrifício pelos pecados. Os ricos deviam acrescentar um cordeiro ao holocausto pela purificação, sendo que a pomba era suficiente para o sacrifício pelos pecados mesmo para os ricos (Lv 12.8).

Maria se via pecadora, quem enalteceu Maria a condição de corredentora foram os homens, tal coisa não partiu dela, nem da igreja primitiva e muito menos do próprio Jesus (Lc 11.27,28). Deus não divide a Sua glória com ninguém. Quem quer glória dividida é Satanás e os homens, influenciados por ele.

Jesus era santo, Maria era pecadora. Jesus foi gerado pelo Espírito Santo no ventre de Maria, no entanto, o ventre de Maria era de uma mulher pecadora.

2o – A consagração de Jesus (Lc 2.22b,23). O Senhor demandava a santificação dos meninos nascidos em Israel como gratidão pelo fato de que ele os havia poupado quando feriu os primogênitos dos egípcios. Através da morte dos primogênitos todos os egípcios foram golpeados, e Israel fora poupado (embora também fosse culpado de morte). Israel deveria permanecer consciente de que era povo de Deus unicamente em virtude da soberana graça. Por essa razão os primogênitos deviam ser consagrados ao Senhor e, nos primogênitos, Israel se consagrava a ele como povo. Essa consagração era chamada de “apresentação” e indicava que o menino fora consagrado ao Senhor e entregue para servir ao templo.

Mas o primogênito era eximido desse serviço no templo porque o Senhor havia aceitado os levitas para que exercessem o serviço sacerdotal em lugar dos primogênitos (Nm 3.12,13,41-45). Contudo, a fim de manter viva no coração do povo a consciência do direito de Deus sobre a primogenitura, Deus instituíra o pagamento de um resgate para cada primogênito. O preço do resgate era 5 siclos de prata que equivale a 12 gramas de prata ou ouro (Nm 3.47 e 18.16). Uma pessoa pobre como José tinha de trabalhar cerca de quarenta dias para juntar esse valor.

Embora aqui Jesus fosse resgatado de seu serviço sacerdotal como qualquer menino israelita, na verdade ele se apresentava a Deus como se não tivesse sido eximido.

CONCLUSÃO

O exemplo de José e Maria em seguir a Palavra é muito importante para nós, principalmente em nossos dias onde ela tem sido negligenciada e quando lida, mal interpretada gerando assim em nosso meio cristãos sem compromisso com a verdade, pois não a conhecem. E aqueles que vivem o verdadeiro Evangelho são vistos como fundamentalistas, retrógrados, fanáticos e outros adjetivos similares.

Devido ao analfabetismo bíblico essa geração está alienada da verdade que liberta. Por isso, temos visto tantos crentes sem compromisso com Deus. Tem até compromisso com a igreja que frequentam, com o líder que seguem, com o manual que estudam, mas estão longe de Deus e dos ensinos da Palavra. Hoje, a maioria dos que se dizem cristãos vivem um evangelho sem cruz, doutrina bíblica sem Bíblia e são zelosos fora da doutrina. Creio que essa geração está igual a Davi que quis levar a arca da aliança para Jerusalém num carro novo; teve até muita festa e muita alegria, mas totalmente fora dos princípios da Palavra. Com isso gerou a morte de Uzá.

José e Maria seguiram o que a Lei determinava, não porque era lei, mas porque era a Palavra de Deus. Esse exemplo que eles nos deixaram precisa ser seguido de perto.

Pense nisso!

Bibliografia:

1 – Barclay, William. Comentário do Novo Testamento, Lucas.
2 – Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, volume 2, Lucas e João. Editora Candeia, São Paulo, SP, 1995.
3 – Davidson, F. O Novo Comentário da Bíblia, volume 2. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 1987.
4 – Hale, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento, Editora Juerp, Rio de Janeiro, RJ, 1986.
5 – Keener, Craig S. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia, Novo Testamento. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 2017.
6 – Lopes, Hernandes Dias. Lucas, Jesus, o homem perfeito. Comentário Expositivo Hagnos. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 2017.
7 – MacArthur, John. Comentário do Novo Testamento, Lucas.
8 – Manual Bíblico SBB. Barueri, SP, 3a edição, 2018.
9 – Morris, Leon L. Lucas, Introdução e Comentário. Edições Vida Nova e Mundo Cristão, São Paulo, SP, 1986.
10 – Rienecker, Fritz. Evangelho de Lucas, Comentário Esperança. Editora Esperança, Curitiba, PR, 2005.
11 – Washer, Paul. O Chamado ao Evangelho e a Verdadeira Conversão. Editora FIEL, São José dos Campos, SP, 1a Reimpressão 2017.