sexta-feira, 16 de julho de 2010

Calvino e os Judeus


Por Salo Baron

A maior dificuldade de se escrever sobre as impressões e influências entre os reformadores e as comunidades judaicas européias é o estancamento, a falta de contato real entre esses importantes agentes que se encontram na história da Europa a partir do século XV. A maioria dos judeus vivia em pequenas cidades (os shtetl) e bairros fechados destinados a eles, e seu status nas grandes cidades e centros variava entre o de tolerados (havendo mesmo um limite para a presença judaica) a banidos.

Isolados pelo mundo e recolhidos em si, num exílio duplamente qualificado (imposto e voluntário a um só tempo), a maior parte dos judeus era pouco sofisticada, e isso quer dizer que pouco sabia sobre que se passava no mundo (religioso e teológico) dos gentios – e como tudo o que é “os outros” é monolítico e sem clivagens, pouca diferença havia, para um judeu médio, entre um católico e um protestante, sobretudo na medida em que foi ficando claro que não havia muita diferença no tratamento de um e outro para a “questão judaica”. Vale lembrar que há exceções: antes da expulsão e da Inquisição patrocinada pelo Reis Católicos de Espanha, as disputas e polêmicas entre judeus e católicos produziram peças muito interessantes, e, como sempre, vencer um debate envolve conhecer bem os argumentos do oponente (não é à toa que geralmente os católicos enviavam para as disputas públicas os seus judeus conversos – vide a histórico debate entre o converso Paulus Christianus e rabi Nachmanides), assim sempre houve judeus bem versados e familiarizados com o Novo Testamento e os argumentos teológicos cristãos.

Por outro lado, os reformadores poderiam ser divididos em dois “tipos”: os que conheciam e tinham contato com judeus, como Lutero; e os que provavelmente conheceram apenas um ou outro judeu, mas nunca tiveram ostensivo contato com eles, como parece ser o caso de Calvino. E isso parece ter importado. Lutero a princípio obteve boa reputação entre os judeus da Alemanha – a imagem do gentio que quebrava as imagens dos templos cristãos parece ter despertado alguma simpatia no imaginário judeu. Quem sabe por isso o próprio reformador tivesse expectativas que, corrigido o erro da idolatria e comércio de indulgências e relíquias, os judeus se juntassem ao cristianismo reformado. A resposta judaica beirou o deboche, coisa que irou Lutero um bocado… o resultado foi uma erupção da bom e velho anti-semitismo e denuncismo à teimosia judaica, à irredutível resistência malígna enraizada na raça hebréia. O ponto máximo foram as chamada de Lutero para o fechamento de sinagogas, queima e proibição do Talmud, expulsão dos judeus, etc. e, claro, a publicação de Dos judeus e suas mentiras.

O contato de Lutero com a comunidade judaica significou, ao que parece, a reprodução ou continuidade da atitude cristã (católica) medieval em relação ao problema judaico, e da resistência dos judeus ao cristianismo.

Quanto a Calvino, por outro lado, segundo Salo Baron*, este nunca teve contato ostensivo com comunidades judaicas, e provavelmente conheceu poucos judeus – estes haviam sido há muito expulsos de França (Paris e Picardia) e de Genebra (as expulsões remontavam aos séculos XII e XIII). Tudo o que Calvino poderia saber sobre Israel (aqui no sentido de povo) era proveniente de relatos e comentários. Vale lembrar que uma das grandes influências sobre o pensamento de Calvino foi Bucer (ou Butzer), a quem (salvo engano) conhecera no exílio em Strassbourg. Bucer era confessamente antijudaísmo (prefiro esse termo por assinalar melhor a natureza teológica da questão, ao passo que anti-semitismo tem uma conotação racial anacrônica). Bucer foi contra, inclusive, à legislação mais tolerante adotada pelo conselho municipal da “reformada” Strassbroug, que se tornara um refúgio para perseguidos religiosos.

A posição de Calvino em relação aos judeus se formou mais pela posição histórica da tradição cristã e de outros reformadores que por um contato que lhe desse “insumos empíricos”. Como todo reformador interessado no Antigo Testamento, Calvino interessou-se pela interpretação e estudos rabínicos, mas seu interesse nas fonte judaicas poderia ser qualificado com “gramatical” e não teológico, e chegou mesmo a criticar obras de comentadores judeus, que possivelmente não leu em primeira mão… Enfim, o contato de Calvino com o judaísmo e com os judeus se deu majoritariamente por via indireta, pela tradição e por textos.

Não se pode identificar em Calvino, a meu ver, uma antijudaísmo nas mesmas qualificações que em Lutero e dos reformadores alemães. O reformador francês bem se opôs à dita incredulidade judaica, ao recorrente problema da usura praticada pelos judeus e à “teimosia talmúdica”. Entretanto, sua tolerância para com a atividade bancária fez com que a secular acusação contra ao credor judeu se restringisse ao abuso dos juros; na verdade, essa crítica de Calvino está mais baseada na censura à noção de fraternidade endógena do judaísmo em oposição à fraternidade universal cristã.

Parece-me que o ódio antijudaico de Calvino e seus discípulos posteriores encontrava uma oposição interna e estrutural e na percepção (ainda que inconsciente, perdoem-me a contradição) de que possuíam sérias afinidades com o judaísmo: no valor atribuído ao Antigo Testamento, à perenidade da Lei (o fim de certos aspectos da Lei foi defendido por Calvino, numa disputa, como conseqüência da era messiânica – um ensinamento que tomou do sábios do Talmud), na língua hebraica, numa atitude muito mais sofisticada em relação à ação no mundo presente e na noção de eleição.

Ainda que tomasse isso como uma séria ofensa (e ele mesmo usou isso como acusação contra seu oponente, Servetus), não foi de todo má a alcunha que lhe deram: Calvinus Judaizans. Sendo mais (integralmente) bíblica, acredito, a tradição reformada calvinista terminou por blindar-se minimamente contra um certo antijudaísmo e, posteriormente, o anti-semitismo, ainda que, repito, inconscientemente.

*BARON, Salo. João Calvino e os Judeus. In: História e historiografia do povo judeu. 1974. São Paulo: Editora Perspectiva.

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