sábado, 26 de dezembro de 2009

O sábado, o domingo, o natal, a páscoa, a tatuagem, o piercing e a coerência

Manipulaçào da Palavra

Manipulando os incautos pela distorção da palavra

Dois pesos e duas medidas, uns e outras são abomináveis ao SENHOR. (Pv 20.10)

Ao postar, na semana passada, o artigo sobre comemorar ou não o natal, tive a curiosidade de pesquisar sobre o tema na web. Não para fundamentar minha argumentação, pois aquele era um assunto que eu já tinha claro. Fui movido pela curiosidade em saber o que outros andavam escrevendo sobre o assunto. Como eu já esperava, deparei-me com as mais divergentes posições a respeito do assunto. Das mais convincentes às mais absurdas, dediquei algum tempo a ler um pouco de cada um dos artigos que encontrei. Durante este exercício, acabei me deparando com um outro artigo sobre um assunto que me chamou a atenção, sobre o uso de piercings e tatuagens. Lembrei-me então que ao postar a série de artigos sobre o consumo do álcool ainda no mês de Junho deste ano, uma leitora do blog havia suscitado a mesma questão, como se pode ver neste link. Como eu ainda não havia respondido ao questionamento da leitora, aproveito para fazê-lo agora.

Voltando ao site em questão, que é um site adventista, e não divulgarei os links aqui, em respeito à nossa política de não divulgar sites anti-bíblicos, a incoerência de seus posicionamentos chama a atenção.

Em um artigo intitulado “É certo comemorar o natal?” o site em questão desenvolve um raciocínio muito semelhante ao que desenvolvi aqui no artigo sobre comemorar ou não comemorar o natal: como o artigo daqui o de lá também começa analisando as evidências bíblicas que apontam para outra data que não a de 25 de dezembro. Em seguida, aponta para a origem pagã da comemoração da data, e conclui, como eu também concluí aqui, que o que importa de fato nestes casos é o espírito com que se aproveita tal evento. Abaixo, um trecho da argumentação adventista:

“Eu e você não comemoramos o Natal para adorar qualquer deus pagão; tampouco enfeitamos as árvores para representar nossos irmãos degolados do passado. Para nós, o Natal é o momento de encerrarmos o ano com um espírito mais fraterno e solidário, unindo nossas famílias em laços de amor. Se as comemorações do Natal verdadeiramente surgiram com objetivos pouco nobres (o que parece ser mais lenda do que fato), isto não importa. O que vale é o espírito com que nós utilizamos esta data HOJE. O mesmo ocorreu, por exemplo, com alguns hinos do nosso Hinário Adventista. Algumas composições que estão lá, e são cantadas para louvar a Deus centenas de vezes ao ano em nossos cultos, não foram criadas com o propósito de adoração litúrgica. Alguns eram cantados nos bares, ou são arranjos musicais de hinos nacionais, ou foram criados por pessoas que nunca guardaram os Mandamentos de Deus. Devemos, também, deixar de usar o Hinário por causa disso? É claro que não! Fato curioso também ocorreu com as GRAVATAS. Há quem diga que elas foram criadas para serem um símbolo ‘fálico’, ou seja, uma representação homossexual do órgão viril masculino. Devemos, também, deixar de usar gravatas por causa disso? É claro que não! Tanto com relação ao Hinário, quanto às gravatas… e o Natal… mesmo que sua origem seja duvidosa (e até obscura), o fato é que HOJE nós não os utilizamos como meio de blasfêmia, luxúrias, diversão ou representações homossexuais.”

Até aí nenhum problema, concordamos em quase tudo. O problema é a falta de coerência. A falta da observação de princípios básicos. Todos sabem que uma das bases de sustentação da crença adventista é a guarda do sábado como dia santo onde não se pode trabalhar ou estudar, ou fazer qualquer outra coisa, pelo menos até as 18:00h. Neste ponto, começamos a observar a incoerência entre suas posições. No mesmo site adventista, em outro artigo que recebe o título de “Mudança para o Domingo”, o site adventista se utiliza de forma absolutamente contrária àquela que havia utilizado para defender que se comemore o natal. No trecho abaixo retirado do artigo citado, pode-se ver que chegam a citar correta e apropriadamente que a origem do descanso no domingo é a mesma origem pagã da comemoração do natal:

“No ano de 274 depois de Cristo, o Imperador romano Aureliano adotou o culto ao Sol como religião oficial. O imperador instituiu o primeiro dia da semana, o Domingo, como o venerável dia do Sol, ou DIES SOLIS no Latim. Ainda hoje, em algumas línguas, o Domingo mostra suas origens: SUNDAY (em Inglês) e SOONTAG (em Alemão) querem dizer ‘Dia do Sol’. Sábado em Hebraico quer dizer ‘descanso’. Em 321 D.C, o Imperador Constantino, baixou um decreto obrigando a todos os que viviam sob seus domínios a honrar o dia do Sol: ‘Que os juízes e o povo das cidades,bem como os comerciantes, repousem no venerável dia do Sol. Aos moradores dos campos, porém, conceda-se atender, livre e desembaraçadamente, aos cuidados da lavoura’ Convém lembrar que, desde aproximadamente o ano 100 D.C, a religião Cristã era veementemente perseguida por Roma, e que centenas de milhares perderam suas vidas defendendo e provando sua fé diante dos leões e das labaredas de fogo. Esta perseguição só teve fim com a ‘conversão’ do imperador Constantino ao Cristianismo. Esta ‘conversão’ política tinha o claro objetivo de apaziguar as perseguições, bem como o de conceder poder à ascendente e poderosa religião Cristã. Nessa ocasião, muitos dos costumes da religião oficial de Roma, o culto ao Sol, foram mescladas ao Cristianismo com o objetivo de atingir mais facilmente os pagãos. Um desses costumes foi a guarda do Domingo junto com a do Sábado, ou seja, a criação do nosso final de semana. Tiveram origem, a partir dessa data, várias festas religiosas, que utilizaram motivos e datas pagãos, para converter os incrédulos, mais facilmente, como por exemplo: A Páscoa Cristã no lugar do ritual de fertilidade. O Natal de Jesus no lugar do sostício de outono.” (sic).

Como é que podem nossos amigos adventistas defenderem que não importa a origem pagã em uns assuntos, mas que a mesma importa acima de qualquer coisa em outros assuntos? Onde fica a coerência e onde os princípios bíblicos imutáveis? Para que haja lógica neste raciocínio, ou bem as origens pagãs determinam que não se guarde nem o domingo nem o natal e nem a páscoa, ou bem todas estas situações são válidas, por que o que conta é o espírito cristão com o qual agimos. Neste caso, a validade de uma premissa implica obrigatoriamente na validade da outra, visto terem a mesma origem e a mesma característica.

No princípio deste artigo, mencionei a posição acerca do uso da tatuagem e do piercing. Esta polêmica está mesmo inserida no contexto da incoerência tratada acima. O mesmo site adventista, em um artigo intitulado “Posição Bíblica Sobre Piercing e Tatuagem” (Bíblica? Será mesmo?), se utiliza da mesma estratégia que utilizou para defender a guarda do sábado.

Começa apresentando um versículo bíblico fora de contexto e distorcendo seu significado para justificar o porquê de abominarem a utilização de piercings e tatuagens pelos cristãos. A passagem distorcida é Lv 19.28:

“Pelos mortos não ferireis a vossa carne; nem fareis marca nenhuma sobre vós. Eu sou o SENHOR.” (tradução ARA);

“Pelos mortos não ferireis a vossa carne; nem fareis marca nenhuma sobre vós. Eu sou o SENHOR.” (tradução ARC);

“Pelos mortos não dareis golpes na vossa carne; nem fareis marca alguma sobre vós. Eu sou o SENHOR.” (tradução ACF);

“Pelos mortos não fareis incisões em vossa carne, nem no vosso corpo imprimireis marca alguma: eu sou Jeová.” (tradução da Sociedade Bíblica Britânica).

“”Não façam cortes no corpo por causa dos mortos, nem tatuagens em si mesmos. Eu sou o Senhor.” (tradução NVI).

“Não fareis incisões na vossa carne por um morto, nem fareis figura alguma no vosso corpo. Eu sou o Senhor.” (tradução católica, que Deus me perdoe);

Como podemos ver acima, somente a questionada versão NVI é que adota o termo “tatuagem” em seu texto. Ganha um convite para participar do mutirão do próximo sábado quem acertar qual foi a versão utilizada pelo site em questão. Abaixo, um trecho da argumentação que utilizam para concluir que as tatuagens e os piercings são símbolos da “besta-fera-o-capetão”:

“A prática de fazer cortes e pinturas no próprio corpo (tatuagens) era parte dos costumes pagãos influenciados por falsas religiões e falsos deuses. A tatuagem era praticada como forma de idolatria, com figuras e/ou palavras sagradas nos adoradores pagãos. Era uma forma de dedicar-se como um todo àquele deus!”

Me socorro aqui do comentário do grande teólogo Russel Shedd em sua bíblia de estudo:

“Cortar o corpo era praticado para mostrar arrependimento estremo ou desespero. Condenam-se aqui estas práticas entre o povo de Deus. Estas proibições eram para guardar o povo de Israel e seguir as práticas supersticiosas e idólatras dos pagãos que viviam ao seu redor.”

Recapitulando: Se eu e você não comemoramos o natal para adorar qualquer deus pagão, devemos comemorar o natal, mas se eu ou você fizermos uma tatuagem que também não seja para adorar a nenhum deus pagão, vamos para o inferno?

Falta-lhes a coerência que há no texto bíblico.

Ainda com relação e esta pesquisa, encontrei no site apologético CACP um artigo, que pode Sr lido neste link, que também aponta a incoerência dos adventistas ao permitirem o natal e proibirem o domingo.

O problema, é que também o CACP, infelizmente, cai na incoerência de aprovar o natal, como pode ser visto neste link, e proibir as tatuagens e os piercings, como se pode ver neste link.

Após lermos os três artigos do CACP, percebemos que eles padecem da mesma incoerência que vêem nos adventistas.

Quando me deparo com este tipo de argumentação do “evangelho-umbiguiano”, que permite tudo o que interessa ao autor, mas proíbe tudo que o mesmo autor não faz, pouco se importando com a verdade bíblica, me lembro de um período de trevas que o protestantismo viveu, e do qual graças a Deus fomos libertos. Um período vergonhoso em que o legalismo imperava nas Igrejas e em que os mesmos líderes hipócritas que proibiam e condenavam as televisões na casa dos crentes as viam escondido em casa.

Evidentemente, não estou aqui defendendo que todo cristão tatue uma barata rocha na bochecha ou uma caveira na testa, mas se o sujeito quiser tatuar um “Jesus”, uma Estrela de Davi ou mesmo um crucifixo em seu corpo, tem meu apoio baseado na liberdade cristã.

Eu mesmo não tenho nenhuma tatuagem em meu corpo, assim como nunca usei um terno vermelho. Creio que nenhum dos dois combina comigo. Mas não sou eu quem vai condenar ao inferno quem utiliza nenhum dos dois.

Georges Nogueira

2 comentários:

  1. 1°Samuel 16:07

    "Não julgue um homem pelo seu rosto ou sua altura, pois não é este o escolhido, EU não tomo decisões como você. Os homens julgam pela aparência exterior, mas EU examino os pensamentos e as intenções dos homens."

    (existe traduções que falam: "..., mas EU axamino e enchergo o CORAÇÃO dos homens.")

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  2. Graça e paz Alexandre.
    A Bíblia também nos fala que pelos frutos se conhece a árvore. Tem muita gente julgando os outros pela aparência da árvore e não pelos frutos que produzem, e isso, é um grande engano.
    Fique na Paz!
    Pr Silas

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